Poemas neste tema
Família
Manuel Bandeira
Improviso
Para Odylo e Nazareth
Por ser quem era e filho de quem era,
Eu queria-lhe bem. Pouco eu sabia
Do que no coração ele trazia.
Era discreto. A sua primavera
Não gritava. Tranquilo em sua espera,
Não se apressava. O que é que pretendia?
Fazer o bem aos outros, e o fazia:
Pelos que amava tudo, e a vida, dera.
E a noite veio em que, quando contente
Findava ele o seu dia, a sorte fera
Lhe surgiu de improviso pela frente.
E o que pelos que amava a vida dera,
Pela que a amava a deu valentemente,
Por ser quem era e filho de quem era.
Por ser quem era e filho de quem era,
Eu queria-lhe bem. Pouco eu sabia
Do que no coração ele trazia.
Era discreto. A sua primavera
Não gritava. Tranquilo em sua espera,
Não se apressava. O que é que pretendia?
Fazer o bem aos outros, e o fazia:
Pelos que amava tudo, e a vida, dera.
E a noite veio em que, quando contente
Findava ele o seu dia, a sorte fera
Lhe surgiu de improviso pela frente.
E o que pelos que amava a vida dera,
Pela que a amava a deu valentemente,
Por ser quem era e filho de quem era.
1 112
Maria Lúcia Dal Farra
Herança
Para Zeba e Acê Dal Farra
Ouço ao longe o chocalho da burra-madrinha:
é o nono que se avizinha,
cometa que chega do confim das terras,
de encurvadas léguas que o retiveram.
Já se fez (como de hábito) a visita ao cemitério.
Pulou (há pouco) o muro das almas.
Saltou na noite (capote colonial ao vento)
para dentro das lendas que o povo conta
sobre secreta aparição local.
Foi tomar bênção à mãe
levar-lhe as flores que colhe
pelas picadas afora
– solta móvel onde cultiva
Rebentos íntimos da memória.
Beijo as mãos geladas da pedra em que demorou.
Não tenho medo nem frio, na ampla capa me aninhou.
Devolvo-lhe sua sanfona (saudade a mais amargada)
repara nos botões gastos – esquece que papai a herdou.
Ouço do fole remoto da noite um acorde!
É o nono-cometa que se apeia do tempo
e vem partilhar com a neta (que não conheceu)
velhas tarantelas de legadas gestas.
Ouço ao longe o chocalho da burra-madrinha:
é o nono que se avizinha,
cometa que chega do confim das terras,
de encurvadas léguas que o retiveram.
Já se fez (como de hábito) a visita ao cemitério.
Pulou (há pouco) o muro das almas.
Saltou na noite (capote colonial ao vento)
para dentro das lendas que o povo conta
sobre secreta aparição local.
Foi tomar bênção à mãe
levar-lhe as flores que colhe
pelas picadas afora
– solta móvel onde cultiva
Rebentos íntimos da memória.
Beijo as mãos geladas da pedra em que demorou.
Não tenho medo nem frio, na ampla capa me aninhou.
Devolvo-lhe sua sanfona (saudade a mais amargada)
repara nos botões gastos – esquece que papai a herdou.
Ouço do fole remoto da noite um acorde!
É o nono-cometa que se apeia do tempo
e vem partilhar com a neta (que não conheceu)
velhas tarantelas de legadas gestas.
696
Kenneth Rexroth
Metempsicose
Dois meses de vida e já passam
Pelo rosto da minha filha
Rostos há muito passados e mortos.
METEMPSYCHOSIS
Two months old, already
Across my daughter’s face
Pass faces long past and dead.
780
Moreira Campos
A Visita
Ó tia de minha mulher,
ó tia Augusta,
eu vos visito não porque seja um bom,
não porque seja aquele homem "coração de ouro",
como dizeis aos vizinhos em tom de segredo,
que contudo deverá ser ouvido por mim,
enquanto meu automóvel espera à sombra da árvore.
Não. Eu vos visito para sentir os caibros toscos desta sala, a telha-vã,
a velha máquina de costura coberta com a toalhinha
sobre a qual repousa a tentativa do jarro de flores;
o retrato desbotado de vosso marido
contra a parede.
Eu vos visito para indagar do moleque que criastes
e que fugiu pela janela,
que o vento da noite ficou batendo.
E eu vos visito sobretudo para usufruir de vossa solidão
e do mistério de vossas palavras nobres,
de mulher lida em romances, embora baratos.
— E os meninos (da vizinhança) ainda aperreiam muito?
— Hem?
— Os meninos?
— Uns vândalos, meu filho.
Ó tia de minha mulher,
ó tia Augusta, esta palavra "vândalos"
me comove muito mais do que todos os vossos males.
Contudo, trouxe-vos estas maçãs para vossa convalescença
ó tia Augusta,
eu vos visito não porque seja um bom,
não porque seja aquele homem "coração de ouro",
como dizeis aos vizinhos em tom de segredo,
que contudo deverá ser ouvido por mim,
enquanto meu automóvel espera à sombra da árvore.
Não. Eu vos visito para sentir os caibros toscos desta sala, a telha-vã,
a velha máquina de costura coberta com a toalhinha
sobre a qual repousa a tentativa do jarro de flores;
o retrato desbotado de vosso marido
contra a parede.
Eu vos visito para indagar do moleque que criastes
e que fugiu pela janela,
que o vento da noite ficou batendo.
E eu vos visito sobretudo para usufruir de vossa solidão
e do mistério de vossas palavras nobres,
de mulher lida em romances, embora baratos.
— E os meninos (da vizinhança) ainda aperreiam muito?
— Hem?
— Os meninos?
— Uns vândalos, meu filho.
Ó tia de minha mulher,
ó tia Augusta, esta palavra "vândalos"
me comove muito mais do que todos os vossos males.
Contudo, trouxe-vos estas maçãs para vossa convalescença
1 600
Moreira Campos
Insubmissos e lmponderáveis
Onde as vozes, os gestos e as sombras
que encheram estas paredes?
Os pés que pisaram estas lajes
(tijolos de ladrilho)?
Revejo tudo.
O vulto grande de meu pai, já na porta:
— Vou indo, Adélia.
O ovo de madeira com que minha mãe cerzia meias.
Os meus carretéis de brinquedo.
A modinha
de Mundinha
na cozinha.
Os esquisitos santos de minha avó,
seu oratório e palhas bentas, seus esquecimentos:
— Menino, o Tiago ainda não voltou!
(Meu avô Tiago, morto havia dez anos).
Um dia os homens vieram
com muito alarido e grandes latas de cal.
Caiaram tudo.
Revolveram o piso.
Só não puderam cobrir e revolver aquelas vozes,
aqueles gestos,
aquelas sombras,
aqueles passos.
Insubmissos e imponderáveis.
que encheram estas paredes?
Os pés que pisaram estas lajes
(tijolos de ladrilho)?
Revejo tudo.
O vulto grande de meu pai, já na porta:
— Vou indo, Adélia.
O ovo de madeira com que minha mãe cerzia meias.
Os meus carretéis de brinquedo.
A modinha
de Mundinha
na cozinha.
Os esquisitos santos de minha avó,
seu oratório e palhas bentas, seus esquecimentos:
— Menino, o Tiago ainda não voltou!
(Meu avô Tiago, morto havia dez anos).
Um dia os homens vieram
com muito alarido e grandes latas de cal.
Caiaram tudo.
Revolveram o piso.
Só não puderam cobrir e revolver aquelas vozes,
aqueles gestos,
aquelas sombras,
aqueles passos.
Insubmissos e imponderáveis.
1 102
Brasigóis Felício
As sementes da Poesia
"Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com uma flauta."Para que lhe servirá?", perguntaram-lhe. "Para aprender esta ária antes de morrer". As-sim vivem e morrem, os poetas, os avatares e os profetas. "Fosse possível nascer, nasceria em Pirenópolis. Fosse possível, morreria em Caldas Novas", escreveu o poeta e escritor Luiz de Aquino Alves Neto, que hoje, com orgulho, re-cebemos na casa de Colemar Natal e Silva. São assim, os poetas, os avatares e os profetas. Se a pátria de cada um é sua infância, os lugares de que temos mais saudades são aqueles em que fomos felizes. Assim são os poetas que, como Luiz de Aquino, só aprenderam a falar e a dis-tinguir as coisas e as pessoas pela linguagem do amor. E quem fala de amor merece a sua prote-ção, escreveu o jornalista Paulo Siqueira, sobre as razões da semente e da lírica e amorosa poe-sia desde goiano que, quando está em Caldas Novas, tem saudades de Pirenópolis, e quando está em Pirenópolis, tem saudades de Caldas Novas. São assim os poetas, criaturas que têm saudades do futuro. Mário de Andrade sempre morou na rua Lopes Chaves, e nunca soube quem foi Lopes Chaves. São assim, poetas como Luiz de Aquino. Cristãos que cantam no suplício, dedicam-se a aprender árias, em velu-dosas vozes, e violões enluarados, mesmo sabendo que estão a poucos minutos de enfrentar o olhar de aço do carrasco. O poeta tem apenas duas mãos, e o sentimento do mundo. Por isso, como Drummond, pede, a quem ama: "O pre-sente é tão grande, tão imensa a realidade. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas".
Assim escreveu Luiz de Aquino, sobre as raízes da frondosa e generosa árvore em que busca transformar-se, como ser humano, e como criador: "Meu pai tem mãos de amaciar violão (feito as de Rabelo e Reny, Marcelo e João Bosco). Minha mãe tem mãos-carinho (como as de Mel e Iliana, de Zaira e Mariana). Tenho mãos de escrever poemas de amor e coisas afins. O mundo tem mãos que espancam e afagam, esculpem e coloram. As de Reny fazem sons, as de meu pai criam acordes, despertam amores, acalentam dores, adormecem temores e saudades. As minhas molham-se em molhos sensuais. Tenho mãos que amansam vãos". É assim, emotiva, e saudosa de suas raízes, a poe-sia de Luiz, que hoje recebemos, jubilosos. E como o poeta conhece e decifra, sem medo, a linguagem do amor, sabe, como a poetisa Re-nata Pallotini, que para amar, de verdade, é pre-ciso ter a suprema coragem de atirar nossas coi-sas para o mar, e partir sem bagagem. Quem, como Luiz de Aquino, teve a coragem kamikaze de vender poesias de amor, de bar em bar, aos casais de namorados, sabe que a vida, a literatu-ra e o amor, só valem se fizerem parte de um único projeto. Por absurdo que pareça, disse Guimarães Rosa, três dias antes de morrer (acabara de tomar posse na Academia Brasileira de Letras), a gente nasce, vive e morre. E, como se estivesse a adivinhar o fim próximo, de sua vida e obra, assinalou: "Esta vida horária não nos deixa encerrar parágrafos, quanto mais terminar capítulos".
Mas o que tem a ver, tanto devaneio poético, com as sisudas e bem comportadas pala-vras, que devem constar de uma saudação aca-dêmica?, poderão alguns indagar. Se é verdade que as melhores palavras de um poeta são os seus próprios poemas, entendo que a linguagem mais apropriada, para saudar um poeta, é a que vibra, e se manifesta em seus próprios poemas. Se o que nós amamos verdadeiramente perma-nece, sendo entulho, todo o resto, então, para quem decifra a aventura de viver aprendendo a ária de silêncio das palavras, só o que couber na dimensão mágica da poesia tem razão e sentido. Assim sendo, não me escuso por brandir, aqui, mais a minha lira do que meus frágeis saberes acadêmicos; até porque, como bem disse o po-eta Gabriel Nascente, "A poesia não pede licen-ça pra chegar".
Luiz de Aquino Alves Neto nasceu em Caldas Novas, na praça da Matriz, em uma ca-sinha já demolida, onde se construiu, há mais de 20 anos, uma confortável morada, onde hoje funciona uma butique. Coisa da especulação turística. Era sábado, 15 de setembro de 1945, um pouco mais de um mês após os americanos detonarem, sobre Hiroshima e Nagazaki, as du-as primeiras bombas atômicas, que atiraram a humanidade nos horrores e no dantesco espetá-culo da guerra nuclear. O poeta acha que, aba-lado pela explosão do mundo, nasceu turrão. "Sou alegre e maleável até que alguém pise, distraidamente ou por querer, no nervo que os-tento na cauda". A Caldas Novas seu pai che-gou em 1940, buscando trabalho. Dois de seus tios maternos moravam lá e já desfrutavam de certa influência inexpressiva na corrutela que, 26 anos depois, despontaria como o mais pro-missor pólo turístico do Brasil Central. Ele vi-nha de Pirenópolis e — isto é curioso — pelo lado materno descende de Martinho Coelho de Siqueira, o descobridor das águas termais no findar do século XVIII.
O clima, em sua casa, no período de 45 a 56, fazia jus à raiz musical, vinda de seu avô. O pai de Luiz, Israel de Aquino, trouxe, de Pire-nópolis, a habilidade para executar, ao violão, valsas e modinhas bem ao gosto da época. Ali, aos 17 anos, encontrou um rapaz de sua idade, moço, dotado de rara inteligência e que, apaixo-nado por música e artes, conseguiu a façanha de estudar música por correspondência: José Pinto Neto, que já está do outro lado da vida. Com Zé Pinto, seu pai formou a mais marcante dupla da vida boêmia de Caldas Novas. Aos quatro anos de idade, Luiz de Aquino acompanhou os seresteiros, em sua primeira serenata. As letras das músicas (sempre antigas), eram transcritas em letra bonita, em cadernos de capa dura. Ele se lembra de ver José Pinto afastar o sax para vomitar, tanto tinha bebido. Mas a responsabili-dade do instrumentista não lhe permitia, com toda a cachaça, vomitar no instrumento. As se-renatas, tirando o período de dez aos dezessete anos, foram marcantes, em sua vida, até quando, aos 33 anos, teve a voz afetada por papilomas vocais. Por esta ocasião, o poeta empunhava, todo lampeiro, um cavaquinho que, então, teve de aposentar. "Eram comuns, as rodas musicais em minha casa. Eram viajantes que apreciavam música, eram juízes ou promotores com voca-ções musicais, que vinham buscar a companhia do meu velho, Zé Pinto sempre ao lado. E meu pai era convidado permanente para as festas de família, ou mesmo as quermesses da igreja, ape-sar de maçom. Cresci, pois, aprendendo letras de valsas e modinhas. A leitura, conheci-a nas práticas de minha mãe. Quando aprendi a ler, antes dos cinco anos, apaixonei-me pelos gibis e os lia todos, da coleção do primo Rogério. Não demorou para que eu fosse cortado dos jogos de bola ao lado da igreja, porque jamais podiam contar comigo. Era descuidarem, e eu me es-condia na casa de tia Dorinha para ler gibis".
Foram belos e difíceis, seus anos de giná-sio, no Rio. Em português, adotava-se o mesmo livro para todos os quatro anos do ginásio: an-tologia, organizada pelo professor Clóvis Mon-teiro, diretor do colégio, que viria a falecer justo naquele ano de 1958, seu primeiro ano ginasial. Foi nesse livro que tomou contato definitivo com textos literários, tanto em prosa como em verso: "No Pedro II, ensinava-se gramática pela literatura. Uma professora, particularmente, marcou minha vida: Maria Helena Silveira, de quem nunca mais tive notícias. Ela tinha um defeito físico, aquela corcunda com protuberân-cia no osso externo, o que chamam de peito-de-pombo. Foi, talvez, a personalidade mais linda que conheci na adolescência, exemplo de ho-nestidade intelectual e integridade ética". No quarto ano, para ensinar História do Brasil, che-gou o mais famoso poeta brasileiro da época, J.G. de Araújo Jorge. Com ele Luiz aprendeu, quem sabe, a cantar em poesia as paixões que, é claro, são um capítulo à parte, na vida de todos (ou quase todos) os poetas: "Minha primeira paixão era uma garotinha do primário, colega de classe, com quem jamais troquei uma palavra sequer. E
Assim escreveu Luiz de Aquino, sobre as raízes da frondosa e generosa árvore em que busca transformar-se, como ser humano, e como criador: "Meu pai tem mãos de amaciar violão (feito as de Rabelo e Reny, Marcelo e João Bosco). Minha mãe tem mãos-carinho (como as de Mel e Iliana, de Zaira e Mariana). Tenho mãos de escrever poemas de amor e coisas afins. O mundo tem mãos que espancam e afagam, esculpem e coloram. As de Reny fazem sons, as de meu pai criam acordes, despertam amores, acalentam dores, adormecem temores e saudades. As minhas molham-se em molhos sensuais. Tenho mãos que amansam vãos". É assim, emotiva, e saudosa de suas raízes, a poe-sia de Luiz, que hoje recebemos, jubilosos. E como o poeta conhece e decifra, sem medo, a linguagem do amor, sabe, como a poetisa Re-nata Pallotini, que para amar, de verdade, é pre-ciso ter a suprema coragem de atirar nossas coi-sas para o mar, e partir sem bagagem. Quem, como Luiz de Aquino, teve a coragem kamikaze de vender poesias de amor, de bar em bar, aos casais de namorados, sabe que a vida, a literatu-ra e o amor, só valem se fizerem parte de um único projeto. Por absurdo que pareça, disse Guimarães Rosa, três dias antes de morrer (acabara de tomar posse na Academia Brasileira de Letras), a gente nasce, vive e morre. E, como se estivesse a adivinhar o fim próximo, de sua vida e obra, assinalou: "Esta vida horária não nos deixa encerrar parágrafos, quanto mais terminar capítulos".
Mas o que tem a ver, tanto devaneio poético, com as sisudas e bem comportadas pala-vras, que devem constar de uma saudação aca-dêmica?, poderão alguns indagar. Se é verdade que as melhores palavras de um poeta são os seus próprios poemas, entendo que a linguagem mais apropriada, para saudar um poeta, é a que vibra, e se manifesta em seus próprios poemas. Se o que nós amamos verdadeiramente perma-nece, sendo entulho, todo o resto, então, para quem decifra a aventura de viver aprendendo a ária de silêncio das palavras, só o que couber na dimensão mágica da poesia tem razão e sentido. Assim sendo, não me escuso por brandir, aqui, mais a minha lira do que meus frágeis saberes acadêmicos; até porque, como bem disse o po-eta Gabriel Nascente, "A poesia não pede licen-ça pra chegar".
Luiz de Aquino Alves Neto nasceu em Caldas Novas, na praça da Matriz, em uma ca-sinha já demolida, onde se construiu, há mais de 20 anos, uma confortável morada, onde hoje funciona uma butique. Coisa da especulação turística. Era sábado, 15 de setembro de 1945, um pouco mais de um mês após os americanos detonarem, sobre Hiroshima e Nagazaki, as du-as primeiras bombas atômicas, que atiraram a humanidade nos horrores e no dantesco espetá-culo da guerra nuclear. O poeta acha que, aba-lado pela explosão do mundo, nasceu turrão. "Sou alegre e maleável até que alguém pise, distraidamente ou por querer, no nervo que os-tento na cauda". A Caldas Novas seu pai che-gou em 1940, buscando trabalho. Dois de seus tios maternos moravam lá e já desfrutavam de certa influência inexpressiva na corrutela que, 26 anos depois, despontaria como o mais pro-missor pólo turístico do Brasil Central. Ele vi-nha de Pirenópolis e — isto é curioso — pelo lado materno descende de Martinho Coelho de Siqueira, o descobridor das águas termais no findar do século XVIII.
O clima, em sua casa, no período de 45 a 56, fazia jus à raiz musical, vinda de seu avô. O pai de Luiz, Israel de Aquino, trouxe, de Pire-nópolis, a habilidade para executar, ao violão, valsas e modinhas bem ao gosto da época. Ali, aos 17 anos, encontrou um rapaz de sua idade, moço, dotado de rara inteligência e que, apaixo-nado por música e artes, conseguiu a façanha de estudar música por correspondência: José Pinto Neto, que já está do outro lado da vida. Com Zé Pinto, seu pai formou a mais marcante dupla da vida boêmia de Caldas Novas. Aos quatro anos de idade, Luiz de Aquino acompanhou os seresteiros, em sua primeira serenata. As letras das músicas (sempre antigas), eram transcritas em letra bonita, em cadernos de capa dura. Ele se lembra de ver José Pinto afastar o sax para vomitar, tanto tinha bebido. Mas a responsabili-dade do instrumentista não lhe permitia, com toda a cachaça, vomitar no instrumento. As se-renatas, tirando o período de dez aos dezessete anos, foram marcantes, em sua vida, até quando, aos 33 anos, teve a voz afetada por papilomas vocais. Por esta ocasião, o poeta empunhava, todo lampeiro, um cavaquinho que, então, teve de aposentar. "Eram comuns, as rodas musicais em minha casa. Eram viajantes que apreciavam música, eram juízes ou promotores com voca-ções musicais, que vinham buscar a companhia do meu velho, Zé Pinto sempre ao lado. E meu pai era convidado permanente para as festas de família, ou mesmo as quermesses da igreja, ape-sar de maçom. Cresci, pois, aprendendo letras de valsas e modinhas. A leitura, conheci-a nas práticas de minha mãe. Quando aprendi a ler, antes dos cinco anos, apaixonei-me pelos gibis e os lia todos, da coleção do primo Rogério. Não demorou para que eu fosse cortado dos jogos de bola ao lado da igreja, porque jamais podiam contar comigo. Era descuidarem, e eu me es-condia na casa de tia Dorinha para ler gibis".
Foram belos e difíceis, seus anos de giná-sio, no Rio. Em português, adotava-se o mesmo livro para todos os quatro anos do ginásio: an-tologia, organizada pelo professor Clóvis Mon-teiro, diretor do colégio, que viria a falecer justo naquele ano de 1958, seu primeiro ano ginasial. Foi nesse livro que tomou contato definitivo com textos literários, tanto em prosa como em verso: "No Pedro II, ensinava-se gramática pela literatura. Uma professora, particularmente, marcou minha vida: Maria Helena Silveira, de quem nunca mais tive notícias. Ela tinha um defeito físico, aquela corcunda com protuberân-cia no osso externo, o que chamam de peito-de-pombo. Foi, talvez, a personalidade mais linda que conheci na adolescência, exemplo de ho-nestidade intelectual e integridade ética". No quarto ano, para ensinar História do Brasil, che-gou o mais famoso poeta brasileiro da época, J.G. de Araújo Jorge. Com ele Luiz aprendeu, quem sabe, a cantar em poesia as paixões que, é claro, são um capítulo à parte, na vida de todos (ou quase todos) os poetas: "Minha primeira paixão era uma garotinha do primário, colega de classe, com quem jamais troquei uma palavra sequer. E
1 269
Hilda Hilst
Teologia Natural
A cara do futuro ele não via. A vida, arremedo de nada. Então ficou pensando em ocos de cara, cegueira, mão corroida e pés, tudo seria comido pelo sal, brancura esticada da maldita, salgadura danada, infernosa salina, pensou óculos luvas galochas, ficou pensando vender o que, Tiô inteiro afundado numa cintilância, carne de sol era ele, seco salgado espichado, e a cara-carne do futuro onde é que estava? Sonhava-se adoçado, corpo de melaço, melhorança se conseguisse comprar os apetrechos, vende uma coisa, Tiô. Que coisa? Na cidade tem gente que compra até bosta embrulhada, se levasse concha, ostra, ah mas o pé não agüentava o dia inteiro na salina e ainda de noite à beira d'água salgada, no crespo da pedra, nas facas onde moravam as ostras. Entrou em casa. Secura, vaziez, num canto ela espiava e roia uns duros no molhado da boca, não era uma rata não, era tudo o que Tiô possuia, espiando agora os singulares atos do filho, Tiô encharcando uns trapos, enchendo as mãos de cinza, se eu te esfrego direito tu branqueia um pouco e fica linda, te vendo lá, e um dia te compro de novo, macieza na língua foi falando espaçado, sem ganchos, te vendo, agora as costas, vira, agora limpa tu mesma a barriga, eu me viro e tu esfrega os teus meios, enquanto limpas teu fundo pego um punhado de amoras, agora chega, espalhamos com cuidado essa massa vermelha na tua cara, na bochecha, no beiço, te estica mais pra esconder a corcova, óculos luvas galochas é tudo o que eu preciso, se compram tudo devem comprar a ti lá na cidade, depois te busco, e espanadas, cuidados, sopros no franzido da cara, nos cabelos, volteando a velha, examinando-a como faria exímio conhecedor de mães, sonhado comprador, Tiô amarrou às costas numas cordas velhas, tudo o que possuía, muda, pequena, delicada, um tico de mãe, e sorria muito enquanto caminhava.
("Pequenos Discursos. E um Grande" inFicções - SP: Quíron, 1977.)
981
Celso Novais
Canto de confissão e louvor à minha mãe
Pousa tua mão o meu rosto
Como fazia outrora - minha mãe,
Eu sou o mesmo menino antigo
Que te precisa.
A vida, com seu livro aberto diante de nós
Nos contempla, como querendo julgar-nos,
A mim por não ter sido fiel ao teu amor
A ti pelo teu amor incomparável.
Talvez agora, tornado homem, possa eu
Levar-te pela mão devagarinho
Com todo ardor enternecente
Com que me fazias passear nas tardes,
Talvez o mundo que venha a te mostrar
Não sejas aquele que sonhaste para mim,
Mas não faz mal, mãe, eu também me enganei...
Uma coisa porém é fundamental:
Não devemos ficar à margem,
Alheios ou neutros - temos de participar,
Pois todo aquele que lava as mãos
Não enxuga as culpas.
Como fazia outrora - minha mãe,
Eu sou o mesmo menino antigo
Que te precisa.
A vida, com seu livro aberto diante de nós
Nos contempla, como querendo julgar-nos,
A mim por não ter sido fiel ao teu amor
A ti pelo teu amor incomparável.
Talvez agora, tornado homem, possa eu
Levar-te pela mão devagarinho
Com todo ardor enternecente
Com que me fazias passear nas tardes,
Talvez o mundo que venha a te mostrar
Não sejas aquele que sonhaste para mim,
Mas não faz mal, mãe, eu também me enganei...
Uma coisa porém é fundamental:
Não devemos ficar à margem,
Alheios ou neutros - temos de participar,
Pois todo aquele que lava as mãos
Não enxuga as culpas.
551
José Costa Matos
Louvação a André Breton
(A Mentira das Aparências Sensoriais)
A flor, o mar, o rosto de meu filho,
pão na mesa, o retrato de meu pai,
o circo, a vaca a olhar o pé de milho,
o azul da serra, a névoa que se esvai;
a igreja, o sino, o padre, o mapa, o trilho
sob a pedra que finge, mas não cai;
a pupila estrangeira do andarilho,
a carta sem razão que já não vai;
Judas, a queima, a Festa de Aleluia,
meus banhos de menino, a grota, a cuia,
bênçãos brancas da preta Juliana...
Nada disso, em verdade, eu vi no mundo?
Faltou-me a luz e aquele olhar profundo,
mais forte que a ilusão da raça humana?
A flor, o mar, o rosto de meu filho,
pão na mesa, o retrato de meu pai,
o circo, a vaca a olhar o pé de milho,
o azul da serra, a névoa que se esvai;
a igreja, o sino, o padre, o mapa, o trilho
sob a pedra que finge, mas não cai;
a pupila estrangeira do andarilho,
a carta sem razão que já não vai;
Judas, a queima, a Festa de Aleluia,
meus banhos de menino, a grota, a cuia,
bênçãos brancas da preta Juliana...
Nada disso, em verdade, eu vi no mundo?
Faltou-me a luz e aquele olhar profundo,
mais forte que a ilusão da raça humana?
878
Cleonice Rainho
As Tias
Tenho mais tias
que as titias,
irmãs da mãe e do pai.
Vejam só:
uma tia me ensina
a dançar,
outra me ensina
a rezar,
uma senta comigo
para historinhas
contar,
outra me olha
a brincar,
uma...
outra...
Mas, a tia
de quem mais gosto...
— Posso falar?
É a que mostra
as sementinhas das letras
e me faz ler e estudar.
que as titias,
irmãs da mãe e do pai.
Vejam só:
uma tia me ensina
a dançar,
outra me ensina
a rezar,
uma senta comigo
para historinhas
contar,
outra me olha
a brincar,
uma...
outra...
Mas, a tia
de quem mais gosto...
— Posso falar?
É a que mostra
as sementinhas das letras
e me faz ler e estudar.
1 375
Jacques Brel
O último jantar
Em meu último jantar
Quero ver meus irmãos
Meus cachorros e gatos
E a beira do mar
No meu último jantar
Quero ver meus vizinhos
E os chineses vindo
Como se fossem primos
Também quero tomar
Da missa o vinho
Esse vinho divino
Que eu bebia em Arbois
E quero devorar
Depois da batina
Um frango faisão
Vindo de Perigord
E quero ser levado
Para o alto da colina
Ver as árvores que dormem
De braços cruzados
Depois quero ainda
Jogar pedras pra cima
E gritar Deus está morto
Pela última vez
No meu último jantar
Com meu burrinho quero estar
Com os frangos e gansos
Mulheres e vacas
No meu último jantar
Quero ver as meninas
Das quais fui o mestre
Ou que foram amantes
E quando de barriga cheia
Pronto para o enterro
Vou quebrar meu copo
Pedindo silêncio
Vou cantar aos brados
À morte que vem
Os amores que de tão devassos
Chegam a amedrontar
E quero ser levado
Para o alto da colina
Ver o sol que caminha
A se pôr lentamente
E ainda de pé
Vou insultar os burgueses
Sem remorso e sem medo
Pela última vez.
Após meu último jantar
Quero que a gente vá
Satisfeito e farto
Para algum outro lugar
Após meu último jantar
Quero me sentar
A sós como um rei
Recebendo as vestais
Em meu cachimbo vou queimar
Lembranças da infância
Sonhos inacabados
Restos de esperança
E vou guardar
Para vestir a alma
A ideia de roseira
E um nome de mulher
Depois vou olhar
Para o alto da colina
Que dança que pressente
Que acaba por afundar
E no cheiro das flores
Que em breve sumirá
Sei o medo que terei
Pela última vez
(tradução de Marília Garcia)
:
Le dernier repas
A mon dernier repas
Je veux voir mes frères
Et mes chiens et mes chats
Et le bord de la mer
A mon dernier repas
Je veux voir mes voisins
Et puis quelques Chinois
En guise de cousins
Et je veux qu'on y boive
En plus du vin de messe
De ce vin si joli
Qu'on buvait en Arbois
Je veux qu'on y dévore
Après quelques soutanes
Une poule faisane
Venue du Périgord
Puis je veux qu'on m'emmène
En haut de ma colline
Voir les arbres dormir
En refermant leurs bras
Et puis je veux encore
Lancer des pierres au ciel
En criant Dieu est mort
Une dernière fois
A mon dernier repas
Je veux voir mon âne
Mes poules et mes oies
Mes vaches et mes femmes
A mon dernier repas
Je veux voir ces drôlesses
Dont je fus maître et roi
Ou qui furent mes maîtresses
Quand j'aurai dans la panse
De quoi noyer la terre
Je briserai mon verre
Pour faire le silence
Et chanterai à tue-tête
A la mort qui s'avance
Les paillardes romances
Qui font peur aux nonnettes
Puis je veux qu'on m'emmène
En haut de ma colline
Voir le soir qui chemine
Lentement vers la plaine
Et là debout encore
J'insulterai les bourgeois
Sans crainte et sans remords
Une dernière fois
Après mon dernier repas
Je veux que l'on s'en aille
Qu'on finisse ripaille
Ailleurs que sous mon toit
Après mon dernier repas
Je veux que l'on m'installe
Assis seul comme un roi
Accueillant ses vestales
Dans ma pipe je brûlerai
Mes souvenirs d'enfance
Mes rêves inachevés
Mes restes d'espérance
Et je ne garderai
Pour habiller mon âme
Que l'idée d'un rosier
Et qu'un prénom de femme
Puis je regarderai
Le haut de ma colline
Qui danse qui se devine
Qui finit par sombrer
Et dans l'odeur des fleurs
Qui bientôt s'éteindra
Je sais que j'aurai peur
Une dernière fois.
.
.
.
1 064
Horácio Costa
RETRATO DE FAMÍLIA EM CAMBUQUIRA
Observai, ninguém escapa à gravidade
ao lidar com os mortos, o tom cai
ao profeta, ao poeta, como uma luva, uma uva,
observai enfim, desde a infância soubemos
que meditar acerca de mortos
nos lava a alma e prepara para a vida,
observai enfim os mortos,
reunidos não frente à sanha de algum especialista,
os nervos retesados, mas melhor dito
relaxados: vieram de São Paulo para tratar-se
com águas, o mais insípido, o mais velho
dos tratamentos, quando já fazia mesmo falta
algum que desse a Osório
a esperança de viver que, depois
de inumeráveis consultas, os doutores
já lhe haviam por bem suprimido, ou
diminuído, algo que os fotógrafos,
que jamais mentem, apenas confirmavam:
posa então, pai Osório, parece dizer a foto,
antes que anoiteça e que fotógrafo nenhum
possa jamais captar-te em sua câmara,
em seu escrutínio: abre-te à luz,
ainda tens vida, mesmo que aparentes
setenta aos teus quarenta e tantos,
bonacheirão, como tu habituaste a ser,
mesmo contra vento e maré:
senta-te frente à perscrutação de tuas rugas,
de tua pele precocemente escurecida
devido à taxa do ferro em teu corpo,
ninguém o descobriria até o final,
especialista nenhum até à hora da morte, quase.
Posa junto à tua mulher e à tua progênie,
já mortos tu e ela, e distantes uns dos outros
os que advieram desta, organiza os teus
para a posteridade, na frente os pais,
detrás os filhos, em perfeita escadinha,
do menor ao maior, da esquerda à direita.
Sempre ao alcance da vista, por décadas
mamãe teria esta foto sobre a lareira;
o seu significado último,
o que terá epitomizado,
morreu com ela.
Trinta e cinco anos depois,
os filhos três vivem em três continentes,
entre si não baralham velhas fotos
como cartas de um tarot fanado:
comunicam-se por fax e fone, quem diria que
compartilharam segredos, o da genética
e outros, a que ralos tempos foram dar
esses devires, tais estaturas? Escrevemos
como se fôssemos Tibério Cláudio Druso Nero,
de quem se disse que parecia uma abóbora togada
e algo sublime. Senta, nada lamentes:
nada sabes sobre o que passará a esta platéia
do teu sentar, ver o futuro só aos deuses é dado,
ou a Tirésias, e nada mais longe de ti:
as mordeduras da vaidade, bem, as desconheces,
e jamais experimentarás em vida a entropia
que as famílias provam depois que o fundador
desaparece. O teu sorriso brasileirão
exclui pendências, e confiado, só desconfia
de preocupações. No além, quem sabe a tua mulher
te contará tudo, todo o havido e o por haver,
que ela sim, devido a seu gênero e às naturais
proclividades, sempre foi futurante,
te falará sobre os limites entre as terras de cultivo
no momento de dividi-las, sobre as audiências e os juízes
e a estâmina que se deve ter, e quase sempre falta,
frente às decisões. Depois da tua morte
ela alugaria um apartamento no Rio de Janeiro,
na praça dita do Lido, sombreada por figueiras,
para pensar, dizia, face à incompreensão geral;
os móveis eram Luís XV, da Maison Jensen,
mas as esquadrias das janelas, das quais se descortinava
de perfil a cornija do Copacabana Palace,
estavam tomadas de salitre e os vidros tinham, parecia,
um bafo que só anos de ausência consegue nos trópicos juntar:
neste espaço elle ferait son deuil ; também tivemos direito
a um Cadillac rabo de peixe negro, com chofer.
Visitaríamos o Redentor, o Quitandinha, o mítico
Cassino da Urca, já então afundado numa decadência
muda e desbotada em sua pequena calheta
e onde vocês se conheceram em plena Era Vargas,
vivas ainda aquelas manhãs e aquelas noites
na memória dela e nos trinados de uma cultura
que languescia. Nessas excursões
Beatriz usava alpargatas negras, já então
lhe doíam os pés, e estamos falando de 1965.
Jamais chegaste a ver a tua viúva
subir pela escadaria da Penha de joelhos
e chorar agarrada ao filho menor no Jardim Botânico,
estás aí nesta foto prenhe de ti mesmo
e ignorante de que para ti no ano seguinte
não haveria a mesma data novamente.
Não sabemos qual será o dia
da nossa morte, é piedoso o Criador;
mas frente a meus olhos mortuórios
não espero outra imagem que não seja
a do meu amante adormecido, que a tua,
Osório, já se fez tarde, e velha como um bom
conhaque. Não há muito mais a dizer,
Maria Beatriz parecia uma ninfa em sua
roupa adolescente e ria para a ocasião,
mamãe estava um pouco gorda
e trazia estranhas meias de seda no clima estival
e o meu irmão, Osòrinho,
não olhava para a câmara: seus olhos buscavam
um distante horizonte quiçá inexistente.
Aí estávamos nós, os cinco, a família
au grand complet , gozando de uma salutar
estação de águas em -pasmo- Cambuquira.
Bossuet, o francês que imitou Vieira,
ao proferir a sua famosa nênia, contava
com o Louvre, com a Cour Carrée,
para louvar Henriette Stuart, dita
Madame, morta na juventude.
Com o que contarei eu além de meu próprio olhar
nesta foto? Inaugural, de água,
ele substitui os damascos cortesãos,
as corbeilles fúnebres, a música de órgão,
e através da câmara do fotógrafo
olha sempre ao futuro,
melancolicamente cristalino.
ao lidar com os mortos, o tom cai
ao profeta, ao poeta, como uma luva, uma uva,
observai enfim, desde a infância soubemos
que meditar acerca de mortos
nos lava a alma e prepara para a vida,
observai enfim os mortos,
reunidos não frente à sanha de algum especialista,
os nervos retesados, mas melhor dito
relaxados: vieram de São Paulo para tratar-se
com águas, o mais insípido, o mais velho
dos tratamentos, quando já fazia mesmo falta
algum que desse a Osório
a esperança de viver que, depois
de inumeráveis consultas, os doutores
já lhe haviam por bem suprimido, ou
diminuído, algo que os fotógrafos,
que jamais mentem, apenas confirmavam:
posa então, pai Osório, parece dizer a foto,
antes que anoiteça e que fotógrafo nenhum
possa jamais captar-te em sua câmara,
em seu escrutínio: abre-te à luz,
ainda tens vida, mesmo que aparentes
setenta aos teus quarenta e tantos,
bonacheirão, como tu habituaste a ser,
mesmo contra vento e maré:
senta-te frente à perscrutação de tuas rugas,
de tua pele precocemente escurecida
devido à taxa do ferro em teu corpo,
ninguém o descobriria até o final,
especialista nenhum até à hora da morte, quase.
Posa junto à tua mulher e à tua progênie,
já mortos tu e ela, e distantes uns dos outros
os que advieram desta, organiza os teus
para a posteridade, na frente os pais,
detrás os filhos, em perfeita escadinha,
do menor ao maior, da esquerda à direita.
Sempre ao alcance da vista, por décadas
mamãe teria esta foto sobre a lareira;
o seu significado último,
o que terá epitomizado,
morreu com ela.
Trinta e cinco anos depois,
os filhos três vivem em três continentes,
entre si não baralham velhas fotos
como cartas de um tarot fanado:
comunicam-se por fax e fone, quem diria que
compartilharam segredos, o da genética
e outros, a que ralos tempos foram dar
esses devires, tais estaturas? Escrevemos
como se fôssemos Tibério Cláudio Druso Nero,
de quem se disse que parecia uma abóbora togada
e algo sublime. Senta, nada lamentes:
nada sabes sobre o que passará a esta platéia
do teu sentar, ver o futuro só aos deuses é dado,
ou a Tirésias, e nada mais longe de ti:
as mordeduras da vaidade, bem, as desconheces,
e jamais experimentarás em vida a entropia
que as famílias provam depois que o fundador
desaparece. O teu sorriso brasileirão
exclui pendências, e confiado, só desconfia
de preocupações. No além, quem sabe a tua mulher
te contará tudo, todo o havido e o por haver,
que ela sim, devido a seu gênero e às naturais
proclividades, sempre foi futurante,
te falará sobre os limites entre as terras de cultivo
no momento de dividi-las, sobre as audiências e os juízes
e a estâmina que se deve ter, e quase sempre falta,
frente às decisões. Depois da tua morte
ela alugaria um apartamento no Rio de Janeiro,
na praça dita do Lido, sombreada por figueiras,
para pensar, dizia, face à incompreensão geral;
os móveis eram Luís XV, da Maison Jensen,
mas as esquadrias das janelas, das quais se descortinava
de perfil a cornija do Copacabana Palace,
estavam tomadas de salitre e os vidros tinham, parecia,
um bafo que só anos de ausência consegue nos trópicos juntar:
neste espaço elle ferait son deuil ; também tivemos direito
a um Cadillac rabo de peixe negro, com chofer.
Visitaríamos o Redentor, o Quitandinha, o mítico
Cassino da Urca, já então afundado numa decadência
muda e desbotada em sua pequena calheta
e onde vocês se conheceram em plena Era Vargas,
vivas ainda aquelas manhãs e aquelas noites
na memória dela e nos trinados de uma cultura
que languescia. Nessas excursões
Beatriz usava alpargatas negras, já então
lhe doíam os pés, e estamos falando de 1965.
Jamais chegaste a ver a tua viúva
subir pela escadaria da Penha de joelhos
e chorar agarrada ao filho menor no Jardim Botânico,
estás aí nesta foto prenhe de ti mesmo
e ignorante de que para ti no ano seguinte
não haveria a mesma data novamente.
Não sabemos qual será o dia
da nossa morte, é piedoso o Criador;
mas frente a meus olhos mortuórios
não espero outra imagem que não seja
a do meu amante adormecido, que a tua,
Osório, já se fez tarde, e velha como um bom
conhaque. Não há muito mais a dizer,
Maria Beatriz parecia uma ninfa em sua
roupa adolescente e ria para a ocasião,
mamãe estava um pouco gorda
e trazia estranhas meias de seda no clima estival
e o meu irmão, Osòrinho,
não olhava para a câmara: seus olhos buscavam
um distante horizonte quiçá inexistente.
Aí estávamos nós, os cinco, a família
au grand complet , gozando de uma salutar
estação de águas em -pasmo- Cambuquira.
Bossuet, o francês que imitou Vieira,
ao proferir a sua famosa nênia, contava
com o Louvre, com a Cour Carrée,
para louvar Henriette Stuart, dita
Madame, morta na juventude.
Com o que contarei eu além de meu próprio olhar
nesta foto? Inaugural, de água,
ele substitui os damascos cortesãos,
as corbeilles fúnebres, a música de órgão,
e através da câmara do fotógrafo
olha sempre ao futuro,
melancolicamente cristalino.
641
Cida Pedrosa
Patricia
é especialista em filhos
deveria ser contratada
para reclames de televisão
e os jornais poderiam colher depoimentos
sobre como ensinar uma empregada
a engomar 10 fraldas de uma única vez
teve 3 filhos
jéssica marina e victor júnior
sabe tudo sobre febre e papinhas cocozinhos risinhos
bonequinhas carrinhos palhacinhos sapatinhos joguinhos
roupinhas festinhas de aniversário letrinhas numerozinhos
velocípedes curso de férias esporte queda de bicicletas
matemática português história geografia cidadania
aula de reforço amigos indesejáveis lan house
passeios aos shopping conga de telefone alta
comprimidos de ecstasy
patrícia é especialista em filhos
mas não sabe o que fazer com o piercing que jéssica
pôs nos grandes lábios
o amor de marina por felipa
e a decisão de victor júnior não seguir a carreira do pai
junto à empresa victorvictoria
deveria ser contratada
para reclames de televisão
e os jornais poderiam colher depoimentos
sobre como ensinar uma empregada
a engomar 10 fraldas de uma única vez
teve 3 filhos
jéssica marina e victor júnior
sabe tudo sobre febre e papinhas cocozinhos risinhos
bonequinhas carrinhos palhacinhos sapatinhos joguinhos
roupinhas festinhas de aniversário letrinhas numerozinhos
velocípedes curso de férias esporte queda de bicicletas
matemática português história geografia cidadania
aula de reforço amigos indesejáveis lan house
passeios aos shopping conga de telefone alta
comprimidos de ecstasy
patrícia é especialista em filhos
mas não sabe o que fazer com o piercing que jéssica
pôs nos grandes lábios
o amor de marina por felipa
e a decisão de victor júnior não seguir a carreira do pai
junto à empresa victorvictoria
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Claudius Portugal
As Várias Faces de um Espelho
I
Alguém disse:
Ser
é ter-se tomado
II
Já faz algum tempo que não bebo
Não distribuo mais os sonhos
Hoje sinto entorpecidamente minhas dores
Não tenho mais necessidade de esconder o corpo
Para saber do corpo tive de correr estradas
e dei a juventude sem exigir amor
Dentro de todos me perdi da esperança
Um poema resplandeceu incompreensivelmente
Agora o corpo desistiu de procurar entender
Não escrevo mais palavras para ficar oculto
Nem guardo dentro do ventre algum segredo
Nenhuma cicatriz revela a lâmina e a faca
Não tenho os pesos e as medidas
Nem para quem quer que seja uma sentença
Cada momento traz o seu próprio veneno
Não inquieto mais o dia de amanhã
Não me inquieto mais com a dor de hoje
Há uma hora que as perguntas deixam de existir
Para um homem não basta o seu próprio corpo
Hoje já não há simples vítimas
Nem inocentes do sangue dos que morrem
Um poema não é remédio para acalmar o peito
Um poema não é caminho para pacificar o coração
Um poema é somente escrito de dias e noites
Um poema escreve certo por linhas tortas
Um poema escreve torto por linhas certas
Um poema escreve linhas por certo tortas
Meus pés pisam sobre o chão de um cemitério
Vim colocar flores na minha sepultura
Há um homem novo nascendo neste rosto
III
O que me destrói é minha falta
de vício
IV
Caminho entre sombras
Meus mortos dormem
no paraíso
das ilusões
— pai mãe irmãos —
O mar apaga rastros
Caminho
O destino
da estrada é seguir viagem
Quando escrevo
o caminho
sei apenas o meu próprio mal
e a cúmplice solidão
dos sentimentos
Sou um jogo
( marcado? )
Luz da saudade futuro me faz
crer
o que mais quiser ser
Sou
Alguém disse:
Ser
é ter-se tomado
II
Já faz algum tempo que não bebo
Não distribuo mais os sonhos
Hoje sinto entorpecidamente minhas dores
Não tenho mais necessidade de esconder o corpo
Para saber do corpo tive de correr estradas
e dei a juventude sem exigir amor
Dentro de todos me perdi da esperança
Um poema resplandeceu incompreensivelmente
Agora o corpo desistiu de procurar entender
Não escrevo mais palavras para ficar oculto
Nem guardo dentro do ventre algum segredo
Nenhuma cicatriz revela a lâmina e a faca
Não tenho os pesos e as medidas
Nem para quem quer que seja uma sentença
Cada momento traz o seu próprio veneno
Não inquieto mais o dia de amanhã
Não me inquieto mais com a dor de hoje
Há uma hora que as perguntas deixam de existir
Para um homem não basta o seu próprio corpo
Hoje já não há simples vítimas
Nem inocentes do sangue dos que morrem
Um poema não é remédio para acalmar o peito
Um poema não é caminho para pacificar o coração
Um poema é somente escrito de dias e noites
Um poema escreve certo por linhas tortas
Um poema escreve torto por linhas certas
Um poema escreve linhas por certo tortas
Meus pés pisam sobre o chão de um cemitério
Vim colocar flores na minha sepultura
Há um homem novo nascendo neste rosto
III
O que me destrói é minha falta
de vício
IV
Caminho entre sombras
Meus mortos dormem
no paraíso
das ilusões
— pai mãe irmãos —
O mar apaga rastros
Caminho
O destino
da estrada é seguir viagem
Quando escrevo
o caminho
sei apenas o meu próprio mal
e a cúmplice solidão
dos sentimentos
Sou um jogo
( marcado? )
Luz da saudade futuro me faz
crer
o que mais quiser ser
Sou
1 089
Renato Rezende
Os Antepassados
Meu tio José gostava de ficar
debruçado sobre a cerca escura da piscina
depois do jantar, ouvindo o bater da água, o coaxar dos sapos
no duplo prazer
de escutar as estrelas passando sobre a fazenda
e fazer a digestão, peidando.
Morreu de câncer nos intestinos
mas sua alma saiu pelos olhos.
Meu avô também morreu de olhos abertos
escancarados
para o teto...
o céu estrelado da sua infância,
não importa que na verdade fosse o céu cego de S. Paulo.
Aliás, São Paulo também é céu estrelado, é o reino da minha infância.
São Paulo para mim é desejo grande
de ser feliz e de voltar a ser o que se foi.
Todo lugar é lugar de esperança, todo corpo é lar
para o ser humano.
Meu avô Renato, de quem herdei o nome
e essa maneira de andar
entre inúmeras outras coisas que nem sei, além
do bem e do mal,
morreu neurastênico.
Morreu sem viajar muito pra lá de Minas...
sem conhecer
a sua bisneta, minha filha.
Morreu como eu vou morrer um dia
definido por seu espaço e seu tempo.
Morreu como morrem todos,
pleno e culpado, vazio
e completo
(ao mesmo tempo imperfeito e perfeito).
Meu tio José já morreu faz tempo,
poucas pessoas ainda tem saudades.
Meu avô morreu um pouco mais tarde.
A morte é natural
como a sombra crescente da tarde
cobrindo pouco a pouco a cidade,
escurecendo a cerca da piscina e a fazenda inteira.
Já é quase noite, depois do jantar
me retiro para o quarto a escutar as estrelas.
Estou no Rio de Janeiro
onde minha filha nasce e já é criança.
É a vida que passa, e cada um de nós, passando
empurra mais para longe, mais para o escuro
os seus antepassados.
Talvez tendo filhos nós os ajudemos de alguma forma.
Talvez assim paguemos nossas dívidas da carne.
Escuto saudoso as estrelas, o jantar me pesa no estômago,
produz gazes.
Minha filha brinca com seu corpo ainda ileso.
Já é tarde, digo, pra cama, Renata, olha o bicho-papão!
O bicho-papão viajando pelas estrelas e pela carne.
Rio de Janeiro, 13 de fevereiro 1997
debruçado sobre a cerca escura da piscina
depois do jantar, ouvindo o bater da água, o coaxar dos sapos
no duplo prazer
de escutar as estrelas passando sobre a fazenda
e fazer a digestão, peidando.
Morreu de câncer nos intestinos
mas sua alma saiu pelos olhos.
Meu avô também morreu de olhos abertos
escancarados
para o teto...
o céu estrelado da sua infância,
não importa que na verdade fosse o céu cego de S. Paulo.
Aliás, São Paulo também é céu estrelado, é o reino da minha infância.
São Paulo para mim é desejo grande
de ser feliz e de voltar a ser o que se foi.
Todo lugar é lugar de esperança, todo corpo é lar
para o ser humano.
Meu avô Renato, de quem herdei o nome
e essa maneira de andar
entre inúmeras outras coisas que nem sei, além
do bem e do mal,
morreu neurastênico.
Morreu sem viajar muito pra lá de Minas...
sem conhecer
a sua bisneta, minha filha.
Morreu como eu vou morrer um dia
definido por seu espaço e seu tempo.
Morreu como morrem todos,
pleno e culpado, vazio
e completo
(ao mesmo tempo imperfeito e perfeito).
Meu tio José já morreu faz tempo,
poucas pessoas ainda tem saudades.
Meu avô morreu um pouco mais tarde.
A morte é natural
como a sombra crescente da tarde
cobrindo pouco a pouco a cidade,
escurecendo a cerca da piscina e a fazenda inteira.
Já é quase noite, depois do jantar
me retiro para o quarto a escutar as estrelas.
Estou no Rio de Janeiro
onde minha filha nasce e já é criança.
É a vida que passa, e cada um de nós, passando
empurra mais para longe, mais para o escuro
os seus antepassados.
Talvez tendo filhos nós os ajudemos de alguma forma.
Talvez assim paguemos nossas dívidas da carne.
Escuto saudoso as estrelas, o jantar me pesa no estômago,
produz gazes.
Minha filha brinca com seu corpo ainda ileso.
Já é tarde, digo, pra cama, Renata, olha o bicho-papão!
O bicho-papão viajando pelas estrelas e pela carne.
Rio de Janeiro, 13 de fevereiro 1997
951
Renato Rezende
A Idade de Cristo
I.
Sim, sim, sim, é o homem
que pertence à terra,
e não o contrário.
Esta casa de fazenda, por exemplo.
Seu sólido casarão de barro
pintado de branco e azul;
o terreiro de café;
a antiga senzala caindo;
é apenas nosso destino comum,
o nosso cenário.
Aqui há gerações jogamos o baralho
intricado de nossas vidas.
Aqui o teatro
aparente entre senhores e vassalos.
Junqueiras, Arrudas, Rezendes,
Prados, Azevedos.
Somos proprietários,
caseiros e camponeses.
Aqui onde hoje estão estas sombras
os jogos inocentes da infância,
as horas honestas do trabalho,
as noites de intriga,
os roubos, os atos ambíguos
jamais explicados ou compreendidos,
as palavras ditas e as não ditas,
os desejos da carne,
os encontros secretos de madrugada
sob o céu aberto
debaixo
das estrelas que caíam,
ou dentro das alcovas frias.
O casarão apreende o passado
em suas paredes, a fazenda em sua terra
e nos serve de volta no sabor do café diário.
II.
Caminho até o curral.
Dou bom-dia às vacas.
Volto para casa, o casarão
está vazio,
está vazia a colônia.
São 7 hrs. da manhã
o vento varre o terreirão
o sol nasce
atrás da serra
sento-me na sala e escrevo.
Hoje, domingo de Páscoa
bem cedo
sento-me no sofá, no centro
da sala,
no centro da casa,
e escrevo.
Volto ao curral
converso com as vacas,
desejo-lhes
feliz Páscoa.
Atravesso o terreiro
estou no pomar
varrido pelo vento
("Noite de vento
noite dos mortos")
pelo tempo e seus fantasmas.
Memória. Aqui é o caminho
do caçador de esmeraldas.
Velhas mangueiras, jabuticabas
cheias de barba de bode
abacates como corações verdes
de pedra pendurados nas árvores.
Pulo a cerca, estou no pasto.
Ossos
de outras gerações de vacas.
Garças, siriemas, possíveis cobras.
O campo aberto, o espaço
a distância
o vale seco
mais parece a India
mais parece a Africa
de um tempo remoto
que é meu e eu desconheço.
Contrariando a mim mesmo
de pijamas
cabelo ao vento
caminho até o café:
esta manhã eu me experimento.
Aqui estão eles: 30 mil pés
exigidos da terra
entre frestas de pedra.
Este é o nosso sustento,
este nosso exíguo alimento.
Destas alturas tudo vejo.
Sobem a estrada dois negros descalços
munidos de espingardas.
São lentos, mas sobem rápido.
Vão caçar na mata.
Penso em esconder-me,
mas já é tarde.
Passam por mim e desejo-lhes bom-dia,
e foi mais fácil desejá-lo às vacas.
Me sinto distante e isolado
destes outros seres, iguais a mim
e meus irmãos chamados.
Hoje, domingo de Páscoa, o Cristo
renascerá entre nós, ou melhor, em cada um de nós
como um sol solitário.
Volto para casa.
Fecho a porta, o vento
varre o terreiro
nesta manhã iluminada.
Estou só, mas me sinto preso
doce, tenuamente preso
(como um inseto
numa teia de aranha)
ao meu nome, meus fantasmas, meu feudo.
III.
Muitos lares cresceram
durante estes anos todos
na orla da fazenda.
A terra abafada
onde antes era mata
e depois pasto para vacas.
Casas simples, muita gente
onde numa tarde de outrora
eu e uma filha da colônia
nos deitamos em segredo.
É natural que tudo se transforme.
O amor se renova
em novos cénarios.
Nem um pouco desejo
o corpo da menina agora.
Nem sei se está viva ou morta.
No entanto, havia naqueles dias
na luz daqueles dias, ou no ar
a própria essência
da minha infância, da adolescência
que tinha uma vida inteira pela frente
mas não sabia.
Hoje se desenrola sem sentido
uma vida que não parece minha.
Em nada me reconheço
e em vão me busco na fazenda.
Sinto-me fora
de mim mesmo, fora de centro
ou escondido dentro:
vivendo um exílio às avessas.
Tenho 33 anos.
A idade de Cristo.
Sei apenas
que não ressucito, e já é tarde
para morrer jovem e bonito.
Atibaia, Semana Santa 1997
Sim, sim, sim, é o homem
que pertence à terra,
e não o contrário.
Esta casa de fazenda, por exemplo.
Seu sólido casarão de barro
pintado de branco e azul;
o terreiro de café;
a antiga senzala caindo;
é apenas nosso destino comum,
o nosso cenário.
Aqui há gerações jogamos o baralho
intricado de nossas vidas.
Aqui o teatro
aparente entre senhores e vassalos.
Junqueiras, Arrudas, Rezendes,
Prados, Azevedos.
Somos proprietários,
caseiros e camponeses.
Aqui onde hoje estão estas sombras
os jogos inocentes da infância,
as horas honestas do trabalho,
as noites de intriga,
os roubos, os atos ambíguos
jamais explicados ou compreendidos,
as palavras ditas e as não ditas,
os desejos da carne,
os encontros secretos de madrugada
sob o céu aberto
debaixo
das estrelas que caíam,
ou dentro das alcovas frias.
O casarão apreende o passado
em suas paredes, a fazenda em sua terra
e nos serve de volta no sabor do café diário.
II.
Caminho até o curral.
Dou bom-dia às vacas.
Volto para casa, o casarão
está vazio,
está vazia a colônia.
São 7 hrs. da manhã
o vento varre o terreirão
o sol nasce
atrás da serra
sento-me na sala e escrevo.
Hoje, domingo de Páscoa
bem cedo
sento-me no sofá, no centro
da sala,
no centro da casa,
e escrevo.
Volto ao curral
converso com as vacas,
desejo-lhes
feliz Páscoa.
Atravesso o terreiro
estou no pomar
varrido pelo vento
("Noite de vento
noite dos mortos")
pelo tempo e seus fantasmas.
Memória. Aqui é o caminho
do caçador de esmeraldas.
Velhas mangueiras, jabuticabas
cheias de barba de bode
abacates como corações verdes
de pedra pendurados nas árvores.
Pulo a cerca, estou no pasto.
Ossos
de outras gerações de vacas.
Garças, siriemas, possíveis cobras.
O campo aberto, o espaço
a distância
o vale seco
mais parece a India
mais parece a Africa
de um tempo remoto
que é meu e eu desconheço.
Contrariando a mim mesmo
de pijamas
cabelo ao vento
caminho até o café:
esta manhã eu me experimento.
Aqui estão eles: 30 mil pés
exigidos da terra
entre frestas de pedra.
Este é o nosso sustento,
este nosso exíguo alimento.
Destas alturas tudo vejo.
Sobem a estrada dois negros descalços
munidos de espingardas.
São lentos, mas sobem rápido.
Vão caçar na mata.
Penso em esconder-me,
mas já é tarde.
Passam por mim e desejo-lhes bom-dia,
e foi mais fácil desejá-lo às vacas.
Me sinto distante e isolado
destes outros seres, iguais a mim
e meus irmãos chamados.
Hoje, domingo de Páscoa, o Cristo
renascerá entre nós, ou melhor, em cada um de nós
como um sol solitário.
Volto para casa.
Fecho a porta, o vento
varre o terreiro
nesta manhã iluminada.
Estou só, mas me sinto preso
doce, tenuamente preso
(como um inseto
numa teia de aranha)
ao meu nome, meus fantasmas, meu feudo.
III.
Muitos lares cresceram
durante estes anos todos
na orla da fazenda.
A terra abafada
onde antes era mata
e depois pasto para vacas.
Casas simples, muita gente
onde numa tarde de outrora
eu e uma filha da colônia
nos deitamos em segredo.
É natural que tudo se transforme.
O amor se renova
em novos cénarios.
Nem um pouco desejo
o corpo da menina agora.
Nem sei se está viva ou morta.
No entanto, havia naqueles dias
na luz daqueles dias, ou no ar
a própria essência
da minha infância, da adolescência
que tinha uma vida inteira pela frente
mas não sabia.
Hoje se desenrola sem sentido
uma vida que não parece minha.
Em nada me reconheço
e em vão me busco na fazenda.
Sinto-me fora
de mim mesmo, fora de centro
ou escondido dentro:
vivendo um exílio às avessas.
Tenho 33 anos.
A idade de Cristo.
Sei apenas
que não ressucito, e já é tarde
para morrer jovem e bonito.
Atibaia, Semana Santa 1997
1 212
Jorge Melícias
À beira das salinas os homens declinam,
as cabeças como cometas fulminantes.
De longe a longe vêm os filhos,
trazem a solidão como um metal aceso nas costas
trazem um enxame de dardos.
E a memória é um pulso atravessado.
Quando partem fecham atrás de si as portas,
e os homens voltam a sentar-se sobre as estacas
e brilham.
de A Luz nos Pulmões(2000)
De longe a longe vêm os filhos,
trazem a solidão como um metal aceso nas costas
trazem um enxame de dardos.
E a memória é um pulso atravessado.
Quando partem fecham atrás de si as portas,
e os homens voltam a sentar-se sobre as estacas
e brilham.
de A Luz nos Pulmões(2000)
884
José Tolentino Mendonça
Reconhecimento dos laços
aos meus pais
por todas as razões
agora as tuas mãos estranhas ao medo
procuram um brilho mais puro, o lume
agora o tempo se mede por búzios
e os nomes flutuam mais leves que
as algas
podia abrigar duas formigas
e contar-te a história do mundo
desde que foi criado
podia se deixasses
escrever aquela história
da filha louca dos Matildes
a falar horas seguidas
da lucidez assustadora
deste poema
tudo podia
já que
os anjos do vento desenham na água
o fulgor inesperado
do teu gesto
por todas as razões
agora as tuas mãos estranhas ao medo
procuram um brilho mais puro, o lume
agora o tempo se mede por búzios
e os nomes flutuam mais leves que
as algas
podia abrigar duas formigas
e contar-te a história do mundo
desde que foi criado
podia se deixasses
escrever aquela história
da filha louca dos Matildes
a falar horas seguidas
da lucidez assustadora
deste poema
tudo podia
já que
os anjos do vento desenham na água
o fulgor inesperado
do teu gesto
1 810
Chico Buarque
Paratodos
O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Meu maestro soberano
Foi Antonio Brasileiro
Foi Antonio Brasileiro
Quem soprou esta toada
Que cobri de redondilhas
Pra seguir minha jornada
E com a vista enevoada
Ver o inferno e maravilhas
Nessas tortuosas trilhas
A viola me redime
Creia, ilustre cavalheiro
Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi
Vá de Jackson do Pandeiro
Vi cidades, vi dinheiro
Bandoleiros, vi hospícios
Moças feito passarinho
Avoando de edifícios
Fume Ari, cheire Vinícius
Beba Nelson Cavaquinho
Para um coração mesquinho
Contra a solidão agreste
Luiz Gonzaga é tiro certo
Pixinguinha é inconteste
Tome Noel, Cartola, Orestes
Caetano e João Gilberto
Viva Erasmo, Ben, Roberto
Gil e Hermeto, palmas para
Todos os instrumentistas
Salve Edu, Bituca, Nara
Gal, Bethania, Rita, Clara
Evoé, jovens a vista
O meu pai era paulista
Meu avô pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô baiano
Vou na estrada há muitos anos
Sou um artista brasileiro
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Meu maestro soberano
Foi Antonio Brasileiro
Foi Antonio Brasileiro
Quem soprou esta toada
Que cobri de redondilhas
Pra seguir minha jornada
E com a vista enevoada
Ver o inferno e maravilhas
Nessas tortuosas trilhas
A viola me redime
Creia, ilustre cavalheiro
Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi
Vá de Jackson do Pandeiro
Vi cidades, vi dinheiro
Bandoleiros, vi hospícios
Moças feito passarinho
Avoando de edifícios
Fume Ari, cheire Vinícius
Beba Nelson Cavaquinho
Para um coração mesquinho
Contra a solidão agreste
Luiz Gonzaga é tiro certo
Pixinguinha é inconteste
Tome Noel, Cartola, Orestes
Caetano e João Gilberto
Viva Erasmo, Ben, Roberto
Gil e Hermeto, palmas para
Todos os instrumentistas
Salve Edu, Bituca, Nara
Gal, Bethania, Rita, Clara
Evoé, jovens a vista
O meu pai era paulista
Meu avô pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô baiano
Vou na estrada há muitos anos
Sou um artista brasileiro
2 252
Renato Rezende
Bicho de Goiaba
No tacho de cobre/ vermelho
era eu mesmo me derretendo.
Todos os dias, o dia.
Aqui estou eu, de repente, o mesmo,
no ermo recanto das flores
da infância de mim mesmo.
Aqui estou eu, como num sonho
ou num porto-fragmento
do que já fui, perdido no tempo.
Irrompo aos gritos a casa ensolarada
e tudo brilha e está em seu lugar
enquanto gira ao redor do nada.
Aquelas manhãs na fazenda
ainda existem, não se perderam, estão lá
agora,
você que é o sempre ausente.
Mas espere
ainda há esperança, e por mais um dia
por dádiva dos deuses
que giram todos os dias
a roda do destino
eu apareço, inteiro.
As terras
ainda estão aqui, generosas
e fecundas, vermelhas.
Ainda não vendemos
nossa memória, nem mesmo o medo
de menino sozinho no quarto escuro...
e já acaba o óleo da lamparina
papai e mamãe dormem
do outro lado da enorme casa
e a sombra bruxeleia na parede escura,
no forro passeiam gambás
aranhas e baratas
infestam o chão a esta hora.
O banheiro
está do outro lado do mundo
no fim do corredor
imenso de assoalho vermelho.
Se acordo meu pai
ele vai ficar bravo e vai ser pior.
Fazer xixi na cama
é até gostoso
(o prenúncio
de um prazer maior),
é quentinho
e com este calor logo seca, ninguém nota.
Meu irmão dorme na cama ao lado
e estas duas camas parecem agora dois barcos
que se separam no enorme mar do tempo.
Tenho medo
de ficar sozinho.
E se meus pais morrerem?
(Ensaio na madrugada o sofrimento da desgraça
que durante a vida inteira espero que aconteça).
Rompe o dia.
Assisto
pela janela encardida a delicadeza da aurora
e com pijamas saio lá fora.
Estou na varanda. Ouço pássaros novos
e vacas rumo aos currais de outrora.
Do pomar irrompe um porco
que como tudo agora é puro mistério e delicadeza
banhado de luz dourada.
A doçura é tanta
que acuado volto para cama.
O que mais dança
no centro do meu peito?
Antigas penteadeiras
de madeira de lei
ou mármore de carrara.
Jarras de prata, tachos
de cobre
onde ferve a minha carne
mexida pela preta velha
que pica e cospe tabaco
junto ao seu fogão de cinzas e lenha.
Posso vê-la, de longe
varrendo pétalas e poeira
sobre as pedras do terreiro.
-- Aí! D. Paula!
Esse pirão é feito de água ou leite?
-- De água, fiô, de água.
Espelhos.
Piso de tábua larga.
Ping-pong com besouros.
Sapos de línguas longas.
Cavalos mangalarga
desembestados no pasto largo.
Briga de bois bravos
a despedaçar o curral.
E os homens munidos com varas e paus.
-- Ôôo! Pierrô! Eiaa! Apolo!
E depois a calmaria
da tarde de rolinhas
aninhando-se no enorme pau-d'alho
as borboletas com grande olhos
o pôr do sol.
O pôr do sol mais belo
e mais longo do mundo.
Mas ainda há tempo para mais um mergulho
na piscina de água corrente
onde antigamente era lavadouro de café.
Ainda há tempo
para uma espiga de milho quente,
para um copo de leite,
um punhado de jabuticabas,
um roubo de pitangas,
uma guerra de cevada.
Ainda há tempo, antes
que caia novamente a noite...
Que venham! Que venham!
No mar do naufrágio de agora
os escombros dos dias plenos.
(Hoje queremos apenas
que as crianças cresçam
e ganhar muito dinheiro).
Ribeirão Preto, Natal 1997
era eu mesmo me derretendo.
Todos os dias, o dia.
Aqui estou eu, de repente, o mesmo,
no ermo recanto das flores
da infância de mim mesmo.
Aqui estou eu, como num sonho
ou num porto-fragmento
do que já fui, perdido no tempo.
Irrompo aos gritos a casa ensolarada
e tudo brilha e está em seu lugar
enquanto gira ao redor do nada.
Aquelas manhãs na fazenda
ainda existem, não se perderam, estão lá
agora,
você que é o sempre ausente.
Mas espere
ainda há esperança, e por mais um dia
por dádiva dos deuses
que giram todos os dias
a roda do destino
eu apareço, inteiro.
As terras
ainda estão aqui, generosas
e fecundas, vermelhas.
Ainda não vendemos
nossa memória, nem mesmo o medo
de menino sozinho no quarto escuro...
e já acaba o óleo da lamparina
papai e mamãe dormem
do outro lado da enorme casa
e a sombra bruxeleia na parede escura,
no forro passeiam gambás
aranhas e baratas
infestam o chão a esta hora.
O banheiro
está do outro lado do mundo
no fim do corredor
imenso de assoalho vermelho.
Se acordo meu pai
ele vai ficar bravo e vai ser pior.
Fazer xixi na cama
é até gostoso
(o prenúncio
de um prazer maior),
é quentinho
e com este calor logo seca, ninguém nota.
Meu irmão dorme na cama ao lado
e estas duas camas parecem agora dois barcos
que se separam no enorme mar do tempo.
Tenho medo
de ficar sozinho.
E se meus pais morrerem?
(Ensaio na madrugada o sofrimento da desgraça
que durante a vida inteira espero que aconteça).
Rompe o dia.
Assisto
pela janela encardida a delicadeza da aurora
e com pijamas saio lá fora.
Estou na varanda. Ouço pássaros novos
e vacas rumo aos currais de outrora.
Do pomar irrompe um porco
que como tudo agora é puro mistério e delicadeza
banhado de luz dourada.
A doçura é tanta
que acuado volto para cama.
O que mais dança
no centro do meu peito?
Antigas penteadeiras
de madeira de lei
ou mármore de carrara.
Jarras de prata, tachos
de cobre
onde ferve a minha carne
mexida pela preta velha
que pica e cospe tabaco
junto ao seu fogão de cinzas e lenha.
Posso vê-la, de longe
varrendo pétalas e poeira
sobre as pedras do terreiro.
-- Aí! D. Paula!
Esse pirão é feito de água ou leite?
-- De água, fiô, de água.
Espelhos.
Piso de tábua larga.
Ping-pong com besouros.
Sapos de línguas longas.
Cavalos mangalarga
desembestados no pasto largo.
Briga de bois bravos
a despedaçar o curral.
E os homens munidos com varas e paus.
-- Ôôo! Pierrô! Eiaa! Apolo!
E depois a calmaria
da tarde de rolinhas
aninhando-se no enorme pau-d'alho
as borboletas com grande olhos
o pôr do sol.
O pôr do sol mais belo
e mais longo do mundo.
Mas ainda há tempo para mais um mergulho
na piscina de água corrente
onde antigamente era lavadouro de café.
Ainda há tempo
para uma espiga de milho quente,
para um copo de leite,
um punhado de jabuticabas,
um roubo de pitangas,
uma guerra de cevada.
Ainda há tempo, antes
que caia novamente a noite...
Que venham! Que venham!
No mar do naufrágio de agora
os escombros dos dias plenos.
(Hoje queremos apenas
que as crianças cresçam
e ganhar muito dinheiro).
Ribeirão Preto, Natal 1997
1 017
Fernando Pessoa
LÀ-BAS, JE NE SAIS OÙ
LÀ-BAS, JE NE SAIS OÙ ...
Véspera de viagem, campainha...
Não me sobreavisem estridentemente!
Quero gozar o repouso da gare da alma que tenho
Antes de ver avançar para mim a chegada de ferro
Do comboio definitivo,
Antes de sentir a partida verdadeira nas goelas do estômago,
Antes de pôr no estribo um pé
Que nunca aprendeu a não ter emoção sempre que teve que partir.
Quero, neste momento, fumando no apeadeiro de hoje,
Estar ainda um bocado agarrado à velha vida.
Vida inútil, que era melhor deixar, que é uma cela?
Que importa? Todo o universo é uma cela, e o estar preso não tem que ver com o tamanho da cela.
Sabe-me a náusea próxima o cigarro. O comboio já partiu da outra estação...
Adeus, adeus, adeus, toda a gente que não veio despedir-se de mim,
Minha família abstracta e impossível...
Adeus dia de hoje, adeus apeadeiro de hoje, adeus vida, adeus vida!
Ficar como um volume rotulado esquecido,
Ao canto do resguardo de passageiros do outro lado do linha.
Ser encontrado pelo guarda casual depois da partida –
«E esta? Então não houve um tipo que deixou isto aqui?» –
Ficar só a pensar em partir,
Ficar e ter razão,
Ficar e morrer menos...
Vou para o futuro como para um exame difícil.
Se o comboio nunca chegasse e Deus tivesse pena de mim?
Já me vejo na estação até aqui simples metáfora.
Sou uma pessoa perfeitamente apresentável.
Vê-se – dizem – que tenho vivido no estrangeiro.
Os meus modos são de homem educado, evidentemente.
Pego na mala, rejeitando o moço, como a um vício vil.
E a mão com que pego na mala treme-me e a ela.
Partir!
Nunca voltarei,
Nunca voltarei porque nunca se volta.
O lugar a que se volta é sempre outro,
A gare a que se volta é outra.
Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia.
Partir! Meu Deus, partir! Tenho medo de partir!...
Véspera de viagem, campainha...
Não me sobreavisem estridentemente!
Quero gozar o repouso da gare da alma que tenho
Antes de ver avançar para mim a chegada de ferro
Do comboio definitivo,
Antes de sentir a partida verdadeira nas goelas do estômago,
Antes de pôr no estribo um pé
Que nunca aprendeu a não ter emoção sempre que teve que partir.
Quero, neste momento, fumando no apeadeiro de hoje,
Estar ainda um bocado agarrado à velha vida.
Vida inútil, que era melhor deixar, que é uma cela?
Que importa? Todo o universo é uma cela, e o estar preso não tem que ver com o tamanho da cela.
Sabe-me a náusea próxima o cigarro. O comboio já partiu da outra estação...
Adeus, adeus, adeus, toda a gente que não veio despedir-se de mim,
Minha família abstracta e impossível...
Adeus dia de hoje, adeus apeadeiro de hoje, adeus vida, adeus vida!
Ficar como um volume rotulado esquecido,
Ao canto do resguardo de passageiros do outro lado do linha.
Ser encontrado pelo guarda casual depois da partida –
«E esta? Então não houve um tipo que deixou isto aqui?» –
Ficar só a pensar em partir,
Ficar e ter razão,
Ficar e morrer menos...
Vou para o futuro como para um exame difícil.
Se o comboio nunca chegasse e Deus tivesse pena de mim?
Já me vejo na estação até aqui simples metáfora.
Sou uma pessoa perfeitamente apresentável.
Vê-se – dizem – que tenho vivido no estrangeiro.
Os meus modos são de homem educado, evidentemente.
Pego na mala, rejeitando o moço, como a um vício vil.
E a mão com que pego na mala treme-me e a ela.
Partir!
Nunca voltarei,
Nunca voltarei porque nunca se volta.
O lugar a que se volta é sempre outro,
A gare a que se volta é outra.
Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia.
Partir! Meu Deus, partir! Tenho medo de partir!...
2 578
Renato Rezende
O Cofre
Quando morrer quero ir pro Céu.
E sei que vou. E sei que vou.
Cumprir a vida e voltar à Casa.
Voltar à Casa. Voltar à Casa.
Minha família guarda uma cama para mim
num quarto que é meu, com coisas que, embora há muito abandonadas
ainda são minhas, e se alegrariam com minha presença;
livros que jamais reli, velhas cartas, velhos poemas,
desenhos velhos,
uma caixa só de fotografias, coisas que, se desaparecessem
me deixariam perplexo e mudo, como se eu tivesse morrido um pouco.
Sei que desaparecem pouco a pouco,
assim como eu também morro. Mas, por enquanto,
lá estão elas
num armário de um quarto onde estou (não estando);
e esse saber me reconforta.
Lá está o banho quente
do meu corpo agora cansado.
Lá está a comida gostosa, à vontade
para quem está com fome agora, num hotel sujo
sem coragem de sair à rua, um refúgio
que mais parece um esconderijo, mas que facilmente poderia ser
um Palácio iluminado.
Olhando a chuva fina, contra a lua dourada
penso na vida que é minha
e se mascara em tantas vidas.
A casa da minha família
não é mais a minha casa.
Qualquer lugar, o mundo estranho
se torna o bom quarto, a cama, o travesseiro
para o coração arrombado,
como um velho cofre, de cobre, que pulsa
apesar de tudo
e que no fundo ainda pula
de alegria.
Rio de Janeiro, 19 de novembro 1998
E sei que vou. E sei que vou.
Cumprir a vida e voltar à Casa.
Voltar à Casa. Voltar à Casa.
Minha família guarda uma cama para mim
num quarto que é meu, com coisas que, embora há muito abandonadas
ainda são minhas, e se alegrariam com minha presença;
livros que jamais reli, velhas cartas, velhos poemas,
desenhos velhos,
uma caixa só de fotografias, coisas que, se desaparecessem
me deixariam perplexo e mudo, como se eu tivesse morrido um pouco.
Sei que desaparecem pouco a pouco,
assim como eu também morro. Mas, por enquanto,
lá estão elas
num armário de um quarto onde estou (não estando);
e esse saber me reconforta.
Lá está o banho quente
do meu corpo agora cansado.
Lá está a comida gostosa, à vontade
para quem está com fome agora, num hotel sujo
sem coragem de sair à rua, um refúgio
que mais parece um esconderijo, mas que facilmente poderia ser
um Palácio iluminado.
Olhando a chuva fina, contra a lua dourada
penso na vida que é minha
e se mascara em tantas vidas.
A casa da minha família
não é mais a minha casa.
Qualquer lugar, o mundo estranho
se torna o bom quarto, a cama, o travesseiro
para o coração arrombado,
como um velho cofre, de cobre, que pulsa
apesar de tudo
e que no fundo ainda pula
de alegria.
Rio de Janeiro, 19 de novembro 1998
705
Affonso Romano de Sant'Anna
Textamento
Minha mãe teve dúvidas
se eu deveria nascer ou não.
Pensou em me abortar.
Nasci. E, de alguma maneira, dei certo.
Cedo aprendi com os animais domésticos
e com os legumes da horta
que a morte é estranhamente cotidiana.
Amei, sim, amei
na medida de meu descompassado desejo.
E já ia envelhecendo
quando aprendi a me comunicar com os cães.
Não posso me queixar.
Vencidas as dificuldades iniciais,
os limites do quintal, a inveja
e os jogos na boca da noite,
descobri modos de me expressar.
Algumas palavras íntimas
tornaram-se públicas
e nisto encontrei satisfação.
se eu deveria nascer ou não.
Pensou em me abortar.
Nasci. E, de alguma maneira, dei certo.
Cedo aprendi com os animais domésticos
e com os legumes da horta
que a morte é estranhamente cotidiana.
Amei, sim, amei
na medida de meu descompassado desejo.
E já ia envelhecendo
quando aprendi a me comunicar com os cães.
Não posso me queixar.
Vencidas as dificuldades iniciais,
os limites do quintal, a inveja
e os jogos na boca da noite,
descobri modos de me expressar.
Algumas palavras íntimas
tornaram-se públicas
e nisto encontrei satisfação.
942
Golgona Anghel
Querido Félix, a vida continua cruel
Querido Félix, a vida continua cruel,
mas igualmente necessária.
Alegra-me sobremaneira saber que estejas mais perto,
embora não menos difícil de imaginar.
Alegra-me e posso, até, dizer que me entusiasma
a esperança de que haja ainda atalhos que funcionam,
de modo que brindo em honra dos teus exílios
enquanto me curo com aguardente as feridas dos pés.
Há regressos que nos tiram pedaços do corpo,
em troca de um lugar para sentar-nos, embora
os dissidentes não se sentem nunca,
por mais baratos que nos vendam os sofás.
Não se sentam nem se cansam.
Gastamo-nos apenas,
como meros bocados de sabão
onde os nossos pais cravaram
as suas lâminas de barbear.
mas igualmente necessária.
Alegra-me sobremaneira saber que estejas mais perto,
embora não menos difícil de imaginar.
Alegra-me e posso, até, dizer que me entusiasma
a esperança de que haja ainda atalhos que funcionam,
de modo que brindo em honra dos teus exílios
enquanto me curo com aguardente as feridas dos pés.
Há regressos que nos tiram pedaços do corpo,
em troca de um lugar para sentar-nos, embora
os dissidentes não se sentem nunca,
por mais baratos que nos vendam os sofás.
Não se sentam nem se cansam.
Gastamo-nos apenas,
como meros bocados de sabão
onde os nossos pais cravaram
as suas lâminas de barbear.
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