Poemas neste tema
Amor à Distância
Martim Soares
Nostro Senhor! Como Jaço Coitado
Nostro Senhor! como jaço coitado,
morrend'assi em tal poder d'Amor,
que me tolheu o sem e, mal pecado!,
al me tolh'el, de que mi faz peor:
tolhe-me vós, a que nom sei rogar
pola mia coita, nem vo-la mostrar
– assi me tem end'Amor obridado.
E grave dia com Amor foi nado,
que me de coita sempre sofredor
fez e m'ar faz viver tam alongado
d'u eu os olhos vi da mia senhor
e d'u eu vi o seu bom parecer;
se m'est'a mim podess'escaecer,
log'eu seria guarid'e cobrado.
E saberia, d'algum bem, mandado,
de que hoj'eu nom sõo sabedor
– mais sei que éste desej'e cuidado,
e como morre quem jaz na maior
coita d'amor das que eu nunca vi;
e, mal pecado!, moir'hoj'eu assi,
de mia senhor long'e desemparado.
E dereit'é, ca fui mal conselhado
que lhe falei, pero m'houv'en sabor,
ca entendi que foi tam sem seu grado,
que lhe fugi da terra com pavor
que houve dela; e fiz mui mal sem,
ca nom mi havi'a dizer nulha rem
ond'eu nem outrem fosse despagado.
morrend'assi em tal poder d'Amor,
que me tolheu o sem e, mal pecado!,
al me tolh'el, de que mi faz peor:
tolhe-me vós, a que nom sei rogar
pola mia coita, nem vo-la mostrar
– assi me tem end'Amor obridado.
E grave dia com Amor foi nado,
que me de coita sempre sofredor
fez e m'ar faz viver tam alongado
d'u eu os olhos vi da mia senhor
e d'u eu vi o seu bom parecer;
se m'est'a mim podess'escaecer,
log'eu seria guarid'e cobrado.
E saberia, d'algum bem, mandado,
de que hoj'eu nom sõo sabedor
– mais sei que éste desej'e cuidado,
e como morre quem jaz na maior
coita d'amor das que eu nunca vi;
e, mal pecado!, moir'hoj'eu assi,
de mia senhor long'e desemparado.
E dereit'é, ca fui mal conselhado
que lhe falei, pero m'houv'en sabor,
ca entendi que foi tam sem seu grado,
que lhe fugi da terra com pavor
que houve dela; e fiz mui mal sem,
ca nom mi havi'a dizer nulha rem
ond'eu nem outrem fosse despagado.
707
Hilda Hilst
O Poeta Inventa Viagem, Retorno e Morre de Saudade (I)
Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.
in Júbilo Memória Noviciado da Paixão (1974)
1 171
Fernando Pessoa
A lembrada canção,
A lembrada canção,
Amor, renova agora.
Na noite, olhos fechados, tua voz
Dói-me no coração
Por tudo quanto chora.
Cantas ao pé de mim, e eu estou a sós.
Não, a voz não é tua
Que se ergue e acorda em mim
Murmúrios de saudade e de inconstância,
O luar não vem da lua
Mas do meu ser afim
Ao mito, à mágoa, à ausência e à distância.
Não, não é teu o canto
Que como um astro ao fundo
Da noite imensa do meu coração
Chama em vão, chama tanto...
Quem sou não sei... e o mundo?...
Renova, amor, a antiga e vã canção.
Cantas mais que por ti,
Tua voz é uma ponte
Por onde passa, inúmero, um segredo
Que nunca recebi –
Murmúrio do horizonte,
Água na noite, morte que vem cedo.
Assim, cantas sem que existas.
Ao fim do luar pressinto
Melhores sonhos que estes da ilusão
01/01/1920
Amor, renova agora.
Na noite, olhos fechados, tua voz
Dói-me no coração
Por tudo quanto chora.
Cantas ao pé de mim, e eu estou a sós.
Não, a voz não é tua
Que se ergue e acorda em mim
Murmúrios de saudade e de inconstância,
O luar não vem da lua
Mas do meu ser afim
Ao mito, à mágoa, à ausência e à distância.
Não, não é teu o canto
Que como um astro ao fundo
Da noite imensa do meu coração
Chama em vão, chama tanto...
Quem sou não sei... e o mundo?...
Renova, amor, a antiga e vã canção.
Cantas mais que por ti,
Tua voz é uma ponte
Por onde passa, inúmero, um segredo
Que nunca recebi –
Murmúrio do horizonte,
Água na noite, morte que vem cedo.
Assim, cantas sem que existas.
Ao fim do luar pressinto
Melhores sonhos que estes da ilusão
01/01/1920
4 024
Fernando Pessoa
O vaso de manjerico
O vaso de manjerico
Caiu da janela abaixo.
Vai buscá-lo, que aqui fico
A ver se sem ti te acho.
Caiu da janela abaixo.
Vai buscá-lo, que aqui fico
A ver se sem ti te acho.
1 566
Fernando Pessoa
Duas horas te esperei./Duas mais te esperaria.
Duas horas te esperei.
Duas mais te esperaria.
Se gostas de mim não sei...
Algum dia há-de ser dia...
Duas mais te esperaria.
Se gostas de mim não sei...
Algum dia há-de ser dia...
1 334
Afonso X
Ai Eu Coitada, Como Vivo Em Gram Cuidado
Ai eu coitada, como vivo em gram cuidado
por meu amigo que hei alongado;
muito me tarda
o meu amigo na Guarda.
Ai eu coitada, como vivo em gram desejo
por meu amigo que tarda e nom vejo;
muito me tarda
o meu amigo na Guarda.
por meu amigo que hei alongado;
muito me tarda
o meu amigo na Guarda.
Ai eu coitada, como vivo em gram desejo
por meu amigo que tarda e nom vejo;
muito me tarda
o meu amigo na Guarda.
1 375
Fernando Pessoa
Todos os dias que passam
Todos os dias que passam
Sem passares por aqui
São dias que me desgraçam
Por me privarem de ti.
Sem passares por aqui
São dias que me desgraçam
Por me privarem de ti.
1 767
Afonso X
Bem Sabia Eu, Mia Senhor
Bem sabia eu, mia senhor,
que pois m'eu de vós partisse
que nunc' haveria sabor
de rem, pois vos eu nom visse,
porque vós sodes a melhor
dona de que nunca oísse
homem falar;
ca o vosso bom semelhar
sei que par
nunca lh'homem pod'achar.
E pois que o Deus assi quis,
que eu som tam alongado
de vós, mui bem seede fiz
que nunca eu sem cuidado
en viverei, ca já Paris
d'amor nom foi tam coitado
[e] nem Tristam;
nunca sofrerom tal afã,
nen'[o] ham
quantos som, nem seeram.
Que farei eu, pois que nom vir
o mui bom parecer vosso?
Ca o mal que vos foi ferir
aquel é [meu] x'est o vosso;
e por ende per rem partir
de vos muit'amar nom posso;
nen'[o] farei,
ante bem sei ca morrerei,
se nom hei
vós que [já] sempr'am[ar]ei.
que pois m'eu de vós partisse
que nunc' haveria sabor
de rem, pois vos eu nom visse,
porque vós sodes a melhor
dona de que nunca oísse
homem falar;
ca o vosso bom semelhar
sei que par
nunca lh'homem pod'achar.
E pois que o Deus assi quis,
que eu som tam alongado
de vós, mui bem seede fiz
que nunca eu sem cuidado
en viverei, ca já Paris
d'amor nom foi tam coitado
[e] nem Tristam;
nunca sofrerom tal afã,
nen'[o] ham
quantos som, nem seeram.
Que farei eu, pois que nom vir
o mui bom parecer vosso?
Ca o mal que vos foi ferir
aquel é [meu] x'est o vosso;
e por ende per rem partir
de vos muit'amar nom posso;
nen'[o] farei,
ante bem sei ca morrerei,
se nom hei
vós que [já] sempr'am[ar]ei.
854
Fernão Garcia Esgaravunha
Se Deus Me Leixe de Vós Bem Haver
Se Deus me leixe de vós bem haver,
senhor fremosa, nunca vi prazer
des quando m'eu de vós parti.
E fez-mi o voss'amor tam muito mal,
que nunca vi prazer de mim, nem d'al,
des quando m'eu de vós parti.
Houv'eu tal coita no meu coraçom
que nunca vi prazer, se ora nom,
des quando m'eu de vós parti.
senhor fremosa, nunca vi prazer
des quando m'eu de vós parti.
E fez-mi o voss'amor tam muito mal,
que nunca vi prazer de mim, nem d'al,
des quando m'eu de vós parti.
Houv'eu tal coita no meu coraçom
que nunca vi prazer, se ora nom,
des quando m'eu de vós parti.
677
Ruy Belo
Cor lapideum - Cor carneum
Quantos dias longe de ti andou meu coração
em configurações mais próximas de lábios
ó amor de sião nem eu o sei
Chorar era a minha forma de ser
verde salgueiro à beira destes dias
íntimos e trémulos. E ia-me das mãos
em águas que de rios tinham só
serem as lágrimas íntimas metáforas
com que me via longe ou simplismente em ti
Não bastou adoptar meus gélidos conceitos
nem tecer de grinaldas velhas saudades tuas
nem conceder ao sol humilde do portal
a condição atmosférica dos raios
Até que tu vieste provisoriamente
encher da tua ausência um coração
que só a fome alimenta
Até que tu poisaste tão serenamente
como a tardia folha que tem
insaciável vocação de chão
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 28 | Editorial Presença Lda., 1984
em configurações mais próximas de lábios
ó amor de sião nem eu o sei
Chorar era a minha forma de ser
verde salgueiro à beira destes dias
íntimos e trémulos. E ia-me das mãos
em águas que de rios tinham só
serem as lágrimas íntimas metáforas
com que me via longe ou simplismente em ti
Não bastou adoptar meus gélidos conceitos
nem tecer de grinaldas velhas saudades tuas
nem conceder ao sol humilde do portal
a condição atmosférica dos raios
Até que tu vieste provisoriamente
encher da tua ausência um coração
que só a fome alimenta
Até que tu poisaste tão serenamente
como a tardia folha que tem
insaciável vocação de chão
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 28 | Editorial Presença Lda., 1984
1 198
Afonso X
Par Deus, Senhor,
Par Deus, senhor,
enquant'eu for
de vós tam alongado,
nunc'em maior
coita d'amor,
[e] nem atam coitado
foi en'o mundo
por sa senhor
homem que fosse nado,
penado, penado.
Se[m] nulha rem,
sem vosso bem,
que tant'hei desejado
que já o sem
perdi por en,
e viv'atormentado;
sem vosso bem,
de morrer en
[eu] ced'é mui guisado,
penado, penado.
Ca log'ali
u vos eu vi,
fui d'amor aficado
tam muit'em mi
que nom dormi,
nem houve gasalhado;
se m'este mal
durar assi,
eu nunca fosse nado,
penado, penado.
enquant'eu for
de vós tam alongado,
nunc'em maior
coita d'amor,
[e] nem atam coitado
foi en'o mundo
por sa senhor
homem que fosse nado,
penado, penado.
Se[m] nulha rem,
sem vosso bem,
que tant'hei desejado
que já o sem
perdi por en,
e viv'atormentado;
sem vosso bem,
de morrer en
[eu] ced'é mui guisado,
penado, penado.
Ca log'ali
u vos eu vi,
fui d'amor aficado
tam muit'em mi
que nom dormi,
nem houve gasalhado;
se m'este mal
durar assi,
eu nunca fosse nado,
penado, penado.
346
Nuno Fernandes Torneol
Que Coita Tamanha Hei a Sofrer
Que coita tamanha hei a sofrer,
por amar amig'e non'o veer,
e pousarei sô lo avelanal.
Que coita tamanha hei endurar,
por amar amig'e nom lhi falar,
e pousarei sô lo avelanal.
Por amar amig'e nom lhi falar,
nem lh'ousar a coita que hei mostrar,
e pousarei sô lo avelanal.
Por amar amig'e o nom veer,
nem lh'ousar a coita que hei dizer,
e pousarei sô lo avelanal.
Nom lhe ousar a coita que hei dizer,
e nom mi dam seus amores lezer,
e pousarei sô lo avelanal.
Nom lhe ousar a coita que hei mostrar,
e nom mi dam seus amores vagar,
e pousarei sô lo avelanal.
por amar amig'e non'o veer,
e pousarei sô lo avelanal.
Que coita tamanha hei endurar,
por amar amig'e nom lhi falar,
e pousarei sô lo avelanal.
Por amar amig'e nom lhi falar,
nem lh'ousar a coita que hei mostrar,
e pousarei sô lo avelanal.
Por amar amig'e o nom veer,
nem lh'ousar a coita que hei dizer,
e pousarei sô lo avelanal.
Nom lhe ousar a coita que hei dizer,
e nom mi dam seus amores lezer,
e pousarei sô lo avelanal.
Nom lhe ousar a coita que hei mostrar,
e nom mi dam seus amores vagar,
e pousarei sô lo avelanal.
707
Nuno Fernandes Torneol
Foi-S'um Dia Meu Amigo Daqui
Foi-s'um dia meu amigo daqui
e nom me viu, e porque o nom vi,
madre, ora morrerei.
Quando m'el viu, nom foi polo seu bem,
ca morre agora por mi e por en,
madre, ora morrerei.
Foi-s'el daqui e nom m'ousou falar
nem eu a el, e por en com pesar,
madre, ora morrerei.
e nom me viu, e porque o nom vi,
madre, ora morrerei.
Quando m'el viu, nom foi polo seu bem,
ca morre agora por mi e por en,
madre, ora morrerei.
Foi-s'el daqui e nom m'ousou falar
nem eu a el, e por en com pesar,
madre, ora morrerei.
484
Natália Correia
O Livro dos Amantes IX
Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.
Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.
Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.
1 899
Pero da Ponte
Pois Vos Ides Daqui, Ai Meu Amigo
Pois vos ides daqui, ai meu amigo,
conselhar-vos-ei bem, se mi creverdes:
tornade-vos mais cedo que poderdes,
e guisarei como faledes migo;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
Nom mi tardedes, com'outra vegada
mi tardastes, [ca] muit'hei en gram medo,
mais punhade de vos viirdes cedo,
ca nossa fala muit'é bem parada;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
E, se vós queredes meu gasalhado,
venha-vos em mente o que vos rogo:
pois vos ides, de vos viirdes logo,
e falarei convosco mui de grado;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
conselhar-vos-ei bem, se mi creverdes:
tornade-vos mais cedo que poderdes,
e guisarei como faledes migo;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
Nom mi tardedes, com'outra vegada
mi tardastes, [ca] muit'hei en gram medo,
mais punhade de vos viirdes cedo,
ca nossa fala muit'é bem parada;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
E, se vós queredes meu gasalhado,
venha-vos em mente o que vos rogo:
pois vos ides, de vos viirdes logo,
e falarei convosco mui de grado;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
718
Pero da Ponte
Foi-S'o Meu Amigo Daqui
Foi-s'o meu amigo daqui
na hoste, por el-rei servir,
e nunca eu depois dormir
pudi, mais bem tenh'eu assi:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E gram coita nom perderei
per rem, meos de o veer,
ca nom há o meu cor lezer;
pero tanto de conort'hei:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E bem se devia nembrar
das juras que m'entom jurou
u m'el mui fremosa leixou,
mais, donas, podedes jurar
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
na hoste, por el-rei servir,
e nunca eu depois dormir
pudi, mais bem tenh'eu assi:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E gram coita nom perderei
per rem, meos de o veer,
ca nom há o meu cor lezer;
pero tanto de conort'hei:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E bem se devia nembrar
das juras que m'entom jurou
u m'el mui fremosa leixou,
mais, donas, podedes jurar
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
563
Pero da Ponte
Mia Madre, Pois Se Foi Daqui
Mia madre, pois se foi daqui
o meu amig'e o nom vi,
nunca fui leda nem dormi,
bem vo-lo juro, des entom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Mia madre, como viverei?
Ca nom dórmio nem dormirei,
pois meu amigo em cas d'el-rei
me tarda tam longa sazom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Pois sab'el ca lhi quer'eu bem
melhor ca mi nem outra rem,
porque mi tarda e nom vem
faz sobre mi gram traiçom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
E direi-vos que nos avém:
eu perço [i] por el o sem
e el por mi o coraçom.
o meu amig'e o nom vi,
nunca fui leda nem dormi,
bem vo-lo juro, des entom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Mia madre, como viverei?
Ca nom dórmio nem dormirei,
pois meu amigo em cas d'el-rei
me tarda tam longa sazom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Pois sab'el ca lhi quer'eu bem
melhor ca mi nem outra rem,
porque mi tarda e nom vem
faz sobre mi gram traiçom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
E direi-vos que nos avém:
eu perço [i] por el o sem
e el por mi o coraçom.
491
Fernando Pessoa
Duas horas vão passadas
Duas horas vão passadas
Sem que te veja passar.
Que coisas mal combinadas
Que são amor e esperar!
Sem que te veja passar.
Que coisas mal combinadas
Que são amor e esperar!
1 520
José Bonifácio de Andrada e Silva
Ausência
Em Paris, no ano de 1790.
Pode o Fado cruel com mão ferrenha,
Eulina amada, meu encanto e vida,
Abafar este peito e sufocar-me!
Que pretende o Destino? em vão presume
Rasgar do meu o coração de Eulina,
Pois fazem sós um coração inteiro!
alma impressa,
Tu desafias, tu te ris do Fado.
Embora contra nós ausência fera,
Solitárias campinas estendidas,
Serras alpinas, áridos desertos,
Largos campos da cérula Amphitrite
Dois corpos enlaçados separando,
Conspirem-se até mesmo os Céus Tiranos.
Sim, os Céus! Ah! parece que nem sempre
Neles mora a bondade! Escuro Fado
Os homens bandeando, como o vento
Os grãos de areia sobre a praia infinda
Dos míseros mortais brinca e os males
Se tudo pode, isto não pode o Fado!
Sim, adorada, angelical Eulina.
Eterna viverás a esta alma unida,
Eterna! pois as almas nunca morrem.
Quando os corpos não possam atraídos
Ligarem-se em recíprocos abraços,
(Que prazer, minha amada! O Deus Supremo,
Quando fez com a voz grávido o Nada,
Maior não teve) podem nossas almas,
A despeito de mil milhões de males,
Da mesma morte. E contra nós que vale?
Do sangrento punhal, que o Fado vibre,
Quebrar a ponta; podem ver os Mundos
Errar sem ordem pelo espaço imenso;
Toda a Matéria reduzir-se em nada,
E podem ainda nossas almas juntas,
Em amores nadar de eterno gozo!
Publicado no livro Poesias Avulsas de Américo Elísio (1825).
In: BONIFÁCIO, José. Poesias. Edição fac-similiar da principe, de 1825, extremamente rara; com as poesias ajuntadas na edição de 1861, muito rara; com uma contribuição inédita. Rio de Janeiro: Publicações da Academia Brasileira, 1942. p.63-64. (Coleção Afrânio Peixoto
Pode o Fado cruel com mão ferrenha,
Eulina amada, meu encanto e vida,
Abafar este peito e sufocar-me!
Que pretende o Destino? em vão presume
Rasgar do meu o coração de Eulina,
Pois fazem sós um coração inteiro!
alma impressa,
Tu desafias, tu te ris do Fado.
Embora contra nós ausência fera,
Solitárias campinas estendidas,
Serras alpinas, áridos desertos,
Largos campos da cérula Amphitrite
Dois corpos enlaçados separando,
Conspirem-se até mesmo os Céus Tiranos.
Sim, os Céus! Ah! parece que nem sempre
Neles mora a bondade! Escuro Fado
Os homens bandeando, como o vento
Os grãos de areia sobre a praia infinda
Dos míseros mortais brinca e os males
Se tudo pode, isto não pode o Fado!
Sim, adorada, angelical Eulina.
Eterna viverás a esta alma unida,
Eterna! pois as almas nunca morrem.
Quando os corpos não possam atraídos
Ligarem-se em recíprocos abraços,
(Que prazer, minha amada! O Deus Supremo,
Quando fez com a voz grávido o Nada,
Maior não teve) podem nossas almas,
A despeito de mil milhões de males,
Da mesma morte. E contra nós que vale?
Do sangrento punhal, que o Fado vibre,
Quebrar a ponta; podem ver os Mundos
Errar sem ordem pelo espaço imenso;
Toda a Matéria reduzir-se em nada,
E podem ainda nossas almas juntas,
Em amores nadar de eterno gozo!
Publicado no livro Poesias Avulsas de Américo Elísio (1825).
In: BONIFÁCIO, José. Poesias. Edição fac-similiar da principe, de 1825, extremamente rara; com as poesias ajuntadas na edição de 1861, muito rara; com uma contribuição inédita. Rio de Janeiro: Publicações da Academia Brasileira, 1942. p.63-64. (Coleção Afrânio Peixoto
1 205
Affonso Romano de Sant'Anna
Quando Viajas
Viajas, e desespero.
E peno.
Despassarado
vou ficando murcho
num canto, mudo.
Viajas
e me sequestras
equestre amada
onde o coração galopa galopa galopa
no meu ser paralisado
exposto
na publicada praça dos meus versos.
E peno.
Despassarado
vou ficando murcho
num canto, mudo.
Viajas
e me sequestras
equestre amada
onde o coração galopa galopa galopa
no meu ser paralisado
exposto
na publicada praça dos meus versos.
982
António Ramos Rosa
As Palavras do Ar
Varanda aberta. Espaço. Noite enrolada em folhas, noite de antenas e aromas, noite de bocas nubladas e brancas. Brilham constelações de lâmpadas através das nuvens. Escuto. Nem palavras nem silêncio. A voz é um odor da sombra. Deixa-me tocar-te o rosto, o teu rosto de espaço. Vejo-te através das pálpebras. Toco as mãos aéreas e silenciosas que atravessam a folhagem. Vejo os lábios rodeados de fogo. Estou no círculo da distância e escrevo as palavras adormecidas no ar.
1 217
Bernardo Bonaval
A Bonaval Quer'eu, Mia Senhor, Ir
A Bonaval quer'eu, mia senhor, ir
e des quand'eu ora de vós partir
os meus olhos nom dormirám.
Ir-m'-ei, pero m'é grave de fazer;
e des quand'eu ora de vós tolher
os meus olhos nom dormirám.
Todavia bem será de provar
de m'ir; mais des quand'eu de vós quitar
os meus olhos nom dormirám.
e des quand'eu ora de vós partir
os meus olhos nom dormirám.
Ir-m'-ei, pero m'é grave de fazer;
e des quand'eu ora de vós tolher
os meus olhos nom dormirám.
Todavia bem será de provar
de m'ir; mais des quand'eu de vós quitar
os meus olhos nom dormirám.
751
Allen Ginsberg
Mensagem
Desde que mudamos
transamos conversamos trabalhamos
choramos & mijamos juntos
eu acordo pela manhã
com um sonho nos meus olhos
mas você partiu para NY
lembrando-se de mim Bom
eu te amo eu te amo
& teus irmãos são loucos
eu aceito seus casos de bebedeira
Há muito tempo tenho estado só
há muito tempo tenho estado na cama
sem ninguém para pegar no joelho, homem
ou mulher, pouco importa, eu
quero o amor nasci para isso quero você comigo agora
Transatlânticos fervem no oceano
Delicadas armações de arranha-céus não terminados
A cauda do dirigível roncando sobre Lakehurst
Seis mulheres nuas dançando juntas num palco vermelho
As folhas agora estão verdes em todas as árvores de Paris
Chegarei em casa daqui a dois meses e olharei nos teus olhos
transamos conversamos trabalhamos
choramos & mijamos juntos
eu acordo pela manhã
com um sonho nos meus olhos
mas você partiu para NY
lembrando-se de mim Bom
eu te amo eu te amo
& teus irmãos são loucos
eu aceito seus casos de bebedeira
Há muito tempo tenho estado só
há muito tempo tenho estado na cama
sem ninguém para pegar no joelho, homem
ou mulher, pouco importa, eu
quero o amor nasci para isso quero você comigo agora
Transatlânticos fervem no oceano
Delicadas armações de arranha-céus não terminados
A cauda do dirigível roncando sobre Lakehurst
Seis mulheres nuas dançando juntas num palco vermelho
As folhas agora estão verdes em todas as árvores de Paris
Chegarei em casa daqui a dois meses e olharei nos teus olhos
1 019
Bernardo Bonaval
Diss'a Fremosa Em Bonaval Assi
Diss'a fremosa em Bonaval assi:
"Ai Deus, u é meu amigo daqui
de Bonaval?
Cuid'eu, coitad'é no seu coraçom,
porque nom foi migo na sagraçom
de Bonaval.
Pois eu migo seu mandado nom hei,
já m'eu leda partir nom poderei
de Bonaval.
Pois m'aqui seu mandado nom chegou,
muito vim eu mais leda ca me vou
de Bonaval".
"Ai Deus, u é meu amigo daqui
de Bonaval?
Cuid'eu, coitad'é no seu coraçom,
porque nom foi migo na sagraçom
de Bonaval.
Pois eu migo seu mandado nom hei,
já m'eu leda partir nom poderei
de Bonaval.
Pois m'aqui seu mandado nom chegou,
muito vim eu mais leda ca me vou
de Bonaval".
655