Poemas neste tema

Amor à Distância

Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

O Lenço Dela

Quando a primeira vez, da minha terra
Deixei as noites de amoroso encanto,
A minha doce amante suspirando
Volveu-me os olhos úmidos de pranto.

Um romance cantou de despedida,
Mas a saudade amortecia o canto!
Lágrimas enxugou nos olhos belos...
E deu-me o lenço que molhava o pranto.

Quantos anos contudo já passaram!
Não olvido porém amor tão santo!
Guardo ainda num cofre perfumado
O lenço dela que molhava o pranto...

Nunca mais a encontrei na minha vida,
Eu contudo, meu Deus, amava-a tanto!
Oh! quando eu morra estendam no meu rosto
O lenço que eu banhei também de pranto!


Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série Lira dos Vinte Anos: Continuação.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
5 679 1
Fernão Rodrigues Lobo Soropita

Fernão Rodrigues Lobo Soropita

A uma partida

Partistes-vos, e [a] alma juntamente
Em partes desiguais se me partiu;
A melhor, que era vossa, vos seguiu;
Ficou-me a outra, fraca e descontente.

Bem sei que a natureza o não consente,
Mas Amor, que mais pode, o consentiu,
Por que a fé que em presença vos serviu,
Também vos sirva agora, estando ausente.

Eu, sem mim e sem vós, não sei que espero,
Nem com que maravilhas me sustento
Nas sombras tristes do meu bem passado.

Só sei que cada dia mais vos quero,
E que por mais que possa o esquecimento,
Nunca poderá mais que meu cuidado.
551
Fábio Roberto Rodrigues Belo

Fábio Roberto Rodrigues Belo

Passaporte

passeport

porque porta passo pra
poder te ver?

que passatempo fará resistir minha
paciência?

faço-me forte
saro-me o corte
temo a morte
caço a sorte
passaporte

por onde
o pássaro faz
seupercurso?

preciso ter alegria
paraguerrear...

per fas et nefas

persistamos
em
existir:
é o
que
im-porta.

983
Eduardo Pitta

Eduardo Pitta

Pouco tenho para alinhavar

Pouco tenho para alinhavar.
Dizer-te que estou longe
não apaga esta ausência que,
inelutavelmente,
nos distanciou.
  
Cercam-nos muros de silêncio
opresso.
A própria hera não ousa
na despudorada nudez branca
de paredes que interditam 
a fantasia ao forasteiro
voraz.
O gesto tolhido,
o pretexto adiado
e a memória a estiolar.
699
D. Dinis

D. Dinis

Que Muit'há Já Que Nom Vejo

Que muit'há já que nom vejo
mandado do meu amigo,
pero, amiga, pôs migo
bem aqui, u mi ora sejo,
       que logo m'enviaria
       mandad'ou s'ar tornaria.

Muito mi tarda, sem falha,
que nom vejo seu mandado,
pero houve-m'el jurado
bem aqui, se Deus mi valha,
       que logo m'enviaria
       mandad'ou s'ar tornaria.

E que vos verdade diga:
el seve muito chorando,
er seve por mi jurando
u m'agora sej', amiga,
       que logo m'enviaria
       mandad'ou s'ar tornaria.

Mais, pois nom vem nem envia
mandad', é mort'ou mentia.
707
D. Dinis

D. Dinis

Amiga, Muit'há Gram Sazom

Amiga, muit'há gram sazom
que se foi daqui com el-rei
meu amigo, mais já cuidei
mil vezes no meu coraçom
       que algur morreu com pesar,
       pois nom tornou migo falar.

Por que tarda tam muito lá
e nunca me tornou veer,
amiga, si veja prazer,
mais de mil vezes cuidei já
       que algur morreu com pesar,
       pois nom tornou migo falar.

Amiga, o coraçom seu
era de tornar ced'aqui
u visse os meus olhos em mim,
e por en mil vezes cuid'eu
       que algur morreu com pesar,
       pois nom tornou migo falar.
845
Silva Avarenga

Silva Avarenga

Madrigal XXXIV

Ditoso e brando vento, por piedade
Entrega à linda Glaura os meus suspiros;
E voltado os teus giros,
Vem depois consolar minha saudade.
Não queiras imitar a crueldade
Do injusto amor, da triste desventura,
Que empenhada procura o meu tormento.
Ditoso e brando vento,
Voa destes retiros,
E entrega à linda Glaura os meus suspiros.

984
D. Dinis

D. Dinis

Dos Que Ora Som Na Hoste

Dos que ora som na hoste,
amiga, querria saber
se se verrám tard'ou toste,
por quanto vos quero dizer:
       porque é alá meu amigo.

Querria saber mandado
dos que alá som, ca o nom sei,
amiga, par Deus, de grado,
por quanto vos ora direi:
       porque é alá meu amigo.

E queredes que vos diga?
Se Deus bom mandado mi dê,
querria saber, amiga,
deles novas, vedes porquê:
       porque é alá meu amigo.

Ca por al nom vo-lo digo.
784
Silva Avarenga

Silva Avarenga

Madrigal III

Voai, suspiros tristes;
Dizei à bela Glaura o que eu padeço,
Dizei o que em mim vistes,
Que choro, que me abraso, que esmoreço.

Levai em roxas flores convertidos
Lagrimosos gemidos, que me ouvistes:
Voai, suspiros tristes;
Levai minha saudade;
E, se amor ou piedade vos mereço,
Dizei à bela Glaura o que eu padeço.

1 387
Fernando Fitas

Fernando Fitas

Mais do que o rumor

Mais do que o rumor
das folhas rente ao chão
é o pressentido som
das nossas vozes
solidariamente obrigadas
ao silêncio

E mais do que a nudez
pousada nos teus olhos
é esta certeza
de não saber as palavras
do teu corpo
amanhecendo no frio
de todas as esperas

Gélidos desertos
nos braços do poema
740
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Este Viver Comum

Este viver comum
será nosso futuro
É nosso já presente
este amor que não temos

É nosso e nosso o tempo
que de tão longe somos
O pomo puro que negam
branco se fez no dia
565
D. Dinis

D. Dinis

Amiga, Faço-Me Maravilhada

- Amiga, faço-me maravilhada
como pode meu amigo viver
u os meus olhos nom pode veer
ou como pod'alá fazer tardada;
ca nunca tam gram maravilha vi:
poder meu amigo viver sem mi;
e, par Deus, é cousa mui desguisada.

- Amiga, estad[e] ora calada
um pouco, e leixad'a mim dizer:
per quant'eu sei cert'e poss'entender,
nunca no mundo foi molher amada
come vós de voss'amig'; e assi,
se el tarda, sol nom é culpad'i;
se nom, eu quer'en ficar por culpada.

- Ai amiga, eu ando tam coitada
que sol nom poss'em mi tomar prazer,
cuidand'em como se pode fazer
que nom é já comigo de tornada;
e, par Deus, porque o nom vej'aqui,
que é morto gram sospeita tom'i,
e, se mort'é, mal dia eu fui nada.

- Amiga fremosa e mesurada,
nom vos dig'eu que nom pode seer
voss'amigo, pois hom'é, de morrer;
mais, por Deus, nom sejades sospeitada
doutro mal del, ca des quand'eu naci,
nunca doutr'home tam leal oí
falar, e quem end'al diz, nom diz nada.
823
Afonso Mendes de Besteiros

Afonso Mendes de Besteiros

Que Sem Meu Grado Me Parti

Que sem meu grado me parti
de mia senhor e do meu bem,
que quero melhor doutra rem!
E em grave dia naci
por eu nunca poder veer,
poila nom vi, nẽum prazer!
[...]
565
D. Dinis

D. Dinis

Por Deus, Amigo, Quem Cuidaria

Por Deus, amigo, quem cuidaria
que vós nunca houvéssedes poder
de tam longo tempo sem mi viver?
E des oimais, par Santa Maria,
       nunca molher deve, bem vos digo,
       muit'a creer per juras d'amigo.

Dissestes-mi u vos de mim quitastes:
"Log'aqui serei convosco, senhor";
e jurastes-mi polo meu amor,
e des oimais, pois vos perjurastes,
       nunca molher deve, bem vos digo,
       muit'a creer per juras d'amigo.

Jurastes-m'entom muit'aficado
que logo logo, sem outro tardar,
vos queríades pera mi tornar,
e des oimais, ai meu perjurado,
       nunca molher deve, bem vos digo,
       muit'a creer per juras d'amigo.

E assi farei eu, bem vos digo,
por quanto vós passastes comigo.
709
D. Dinis

D. Dinis

Vai-S'o Meu Amig'alhur Sem Mi Morar

Vai-s'o meu amig'alhur sem mi morar
e, par Deus, amiga, hei end'eu pesar,
porque s'ora vai, eno meu coraçom,
tamanho que esto nom é de falar:
ca lho defendi, e faço gram razom.

Defendi-lh'eu que se nom fosse daqui,
ca todo meu bem perderia per i,
e ora vai-s[e] e faz-mi gram traiçom;
e des oimais nom sei que seja de mim,
nem vej[o] i, amiga, se morte nom.
728
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Carne

Que importa se a distância estende entre nós léguas e léguas
Que importa se existe entre nós muitas montanhas?
O mesmo céu nos cobre
E a mesma terra liga nossos pés.
No céu e na terra é tua carne que palpita
Em tudo eu sinto o teu olhar se desdobrando
Na carícia violenta do teu beijo.
Que importa a distância e que importa a montanha
Se tu és a extensão da carne
Sempre presente?
1 255
Estêvão da Guarda

Estêvão da Guarda

Ora, Senhor, Tenho Muit'aguisado

Ora, senhor, tenho muit'aguisado
de sofrer coita grand'e gram desejo,
pois d'u vós fordes eu for alongado
e vos nom vir, como vos ora vejo;
e, mia senhor, éste gram mal sobejo
meu e meu gram quebranto:
seer eu de vós, por vos servir quanto
posso, mui desamado.

Desej'e coita e [mui] gram soidade
convém, senhor, de sofrer todavia,
pois, d'u vós fordes i, a gram beldade
voss'eu nom vir, que vi em grave dia;
e, mia senhor, em gram bem vos terria
de me darde'la morte
ca de viver eu em coita tam forte
e em tal estraĩdade.

Nom fez Deus par a desejo tam grande,
nem a qual coita sof'rei , des u me
partir de vós; ca, per u quer que ande,
nom quedarei ar, meu bem e meu lume,
de chorar sempre e com mui gram queixume
maldirei mia ventura:
ca de viver eu em tam gram tristura
Deus, senhor, non'o mande!

E queira El, senhor, que a mia vida,
pois per vós é, cedo sej'acabada,
ca pela morte me será partida
gram soidad[e] e vida mui coitada;
de razom é d'haver eu desejada
a morte, pois entendo
de chorar sempre e andar sofrendo
coita desmesurada.
740
Emílio Moura

Emílio Moura

Exílio

Já nada vejo nessa bruma
que ora te esconde.
Quero encontrar-te, mas à noite
não me traz nenhuma
esperança de onde nem quando.

Amor, ah, quanto me deves!
Que é dos pés que, leves, leves,
roçaram por este chão?

Alma, és só tempo e solidão.

1 202
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

A Meu Amigo Mandad'enviei

A meu amigo mandad'enviei
a Toled', amiga, per boa fé,
e mui bem creo que já co el é;
preguntad', e gradecer-vo-lo-ei,
       em quantos dias poderá chegar
       aqui de Toledo quem bem andar.

Ca do mandadeiro sei eu mui bem
que, depois que lh'o mandado disser,
que se verrá mais cedo que poder;
e, amiga, sabede vós d'alguém
       em quantos dias poderá chegar
       aqui de Toledo quem bem andar.

E sempre catam estes olhos meus
per u eu cuido que há de viir
o mandadeir', e moiro por oír
novas del, e preguntade, por Deus,
       em quantos dias poderá chegar
       aqui de Toledo quem bem andar.
632
Herberto Helder

Herberto Helder

Quatro Poemas Árabes - Decepção

Disseram que a minha Layla vive em Tayma,
quando os barcos do estio aí lançam as âncoras.

Eis porém que se esgotaram os meses de verão.
Porque a arrasta o exílio de lugar em lugar?
999
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Amigas, o Que Mi Quer Bem

Amigas, o que mi quer bem
dizem-mi ora muitos que vem,
       pero non'o posso creer,
       ca tal sabor hei de o veer
       que o nom posso creer.

O que eu amo mais ca mim
dizem que cedo será aqui,
       pero non'o posso creer,
       ca tal sabor hei de o veer
       que o nom posso creer.

O que se foi daqui muit'há
dizem-mi que cedo verrá,
       pero non'o posso creer,
       ca tal sabor hei de o veer
       que o nom posso creer.

E nunca mi o farám creer
se mi o nom fezerem veer.
332
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Foi-S'o Meu Amigo a Cas D'el-Rei

Foi-s'o meu amigo a cas d'el-rei
e, amigas, com grand'amor que lh'hei,
quand'el veer, já eu morta serei,
mais nom lhe digam que morri assi,
       ca, se souber com'eu por el morri,
       será mui pouca sa vida des i.

Per nulha rem nom me posso guardar
que nom moira ced'e com gram pesar,
e, amigas, quand'el aqui chegar,
nom sábia per vós qual mort'eu prendi,
       ca, se souber com'eu por el morri,
       será mui pouca sa vida des i.

Eu morrerei cedo, se Deus quiser,
e, amigas, quand'el aqui veer,
desmesura dirá quem lhi disser
qual mort'eu filhei des que o nom vi,
       ca, se souber com'eu por el morri,
       será mui pouca sa vida des i.

Já nom posso de morte guarecer,
mais, quando s'el tornar por me veer,
nom lhi digam como m'el fez morrer
ante tempo, porque se foi daqui,
       ca, se souber com'eu por el morri,
       será mui pouca sa vida des i.
517
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Amigo, Queredes-Vos Ir

Amigo, queredes-vos ir,
e bem sei eu que mi averrá:
enmentre morardes alá,
a quantos end'eu vir viir,
       a todos eu preguntarei
       como vos vai em cas d'el-rei.

Nom vos poderia dizer
quant'hei de vos irdes [pesar],
mais a quantos eu vir chegar
d'u ides com el-rei viver,
       a todos eu preguntarei
       como vos vai em cas d'el-rei.

Coitada ficarei d'amor
atá que mi vos Deus adusser,
mais a quantos eu já souber
que veerem d'u el-rei for,
       a todos eu preguntarei
       como vos vai em cas d'el-rei.

E, se disserem 'Bem', loarei
Deus, e graci-lo-ei a 'l-rei.
679
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Soneto a Katherine Mansfield

O teu perfume, amada — em tuas cartas
Renasce, azul... — são tuas mãos sentidas!
Relembro-as brancas, leves, fenecidas
Pendendo ao longo de corolas fartas.

Relembro-as, vou... nas terras percorridas
Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto
Paro; e tão perto sinto-te, tão perto
Como se numa foram duas vidas.

Pranto, tão pouca dor! tanto quisera
Tanto rever-te, tanto!... e a primavera
Vem já tão próxima!... (Nunca te apartas

Primavera, dos sonhos e das preces!)
E no perfume preso em tuas cartas
À primavera surges e esvaneces.

Rio, 1937
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