Poemas neste tema
Estações do Ano (Primavera, Verão, Outono, Inverno)
Wallace Stevens
O HOMEM DA NEVE
É preciso uma mente de inverno
Para olhar a geada e os ramos
Dos pinheiros cobertos pela nevada
E há muito tempo fazer frio
Para observar os zimbros arrepiados de gelo,
Os abetos ásperos no brilho distante
Do sol de janeiro; e não pensar
Em qualquer miséria no som do vento,
No som de umas poucas folhas
Que é o som da terra
Cheia do mesmo vento
Que sopra no mesmo lugar vazio
Para alguém que escuta, escuta na neve,
E, ausente, observa
Nada que não está lá e o nada que é.
(Tradução
de Paulo Venâncio Filho )
Para olhar a geada e os ramos
Dos pinheiros cobertos pela nevada
E há muito tempo fazer frio
Para observar os zimbros arrepiados de gelo,
Os abetos ásperos no brilho distante
Do sol de janeiro; e não pensar
Em qualquer miséria no som do vento,
No som de umas poucas folhas
Que é o som da terra
Cheia do mesmo vento
Que sopra no mesmo lugar vazio
Para alguém que escuta, escuta na neve,
E, ausente, observa
Nada que não está lá e o nada que é.
(Tradução
de Paulo Venâncio Filho )
1 951
Júlio Maria dos Reis Pereira
O Silêncio
Peço apenas o teu silêncio,
como uma criança pede uma flor
ou um velho pedinte um bocado de pão.
Um silêncio
onde a tua alma se embrulha, friorenta,
trémula, à aproximação das invernias.
Um silêncio com ressonâncias de antigas primaveras,
de outonos descoloridos
e da chuva a cair no negrume da noite.
- Vá, motorista de táxi,
transporta-me
através das ruas da cidade inextricável,
vertiginosamente,
buzinando, buzinando,
abafando o ruído de um outro silêncio!
como uma criança pede uma flor
ou um velho pedinte um bocado de pão.
Um silêncio
onde a tua alma se embrulha, friorenta,
trémula, à aproximação das invernias.
Um silêncio com ressonâncias de antigas primaveras,
de outonos descoloridos
e da chuva a cair no negrume da noite.
- Vá, motorista de táxi,
transporta-me
através das ruas da cidade inextricável,
vertiginosamente,
buzinando, buzinando,
abafando o ruído de um outro silêncio!
510
Fernando Echevarría
Seria Eterno
Seria eterno, se não fosse entrando
por aquele país de solidão,
aonde ver a luz alarga, quando
e alarga, à volta, a vinda do verão.
Seria eterno. Assim somente o brando
movimento de entrar se lhe mensura,
conforme ver, ao ir-se dilatando,
amplia o campo útil da ternura.
E, enquanto entra, um cântico de brisa
lembra quanto por campos foi outrora
tempo apagando a sua face lisa,
qual se alisando, se apagasse a hora.
E, indo entrando, a solidão se irisa
e o vai esquecendo pelo tempo fora.
por aquele país de solidão,
aonde ver a luz alarga, quando
e alarga, à volta, a vinda do verão.
Seria eterno. Assim somente o brando
movimento de entrar se lhe mensura,
conforme ver, ao ir-se dilatando,
amplia o campo útil da ternura.
E, enquanto entra, um cântico de brisa
lembra quanto por campos foi outrora
tempo apagando a sua face lisa,
qual se alisando, se apagasse a hora.
E, indo entrando, a solidão se irisa
e o vai esquecendo pelo tempo fora.
750
Abrahão Cost'Andrade
Hidrofobia
Lívido olhar
destravava o outono
de brava tristeza.
destravava o outono
de brava tristeza.
951
Pablo Neruda
Manhã - XXVIII
Amor, de grão a grão, de planeta a planeta,
a rede do vento com seus países sombrios,
a guerra com seus sapatos de sangue,
ou melhor o dia e a noite da espiga.
Por onde fomos, ilhas ou pontes ou bandeiras,
violinos do fugaz outono atormentado,
repetiu a alegria dos lábios do copo,
a dor nos deteve com sua lição de pranto.
Em todas as repúblicas desenvolvia o vento
seu pavilhão impune, sua glacial cabeleira,
e logo regressava a flor a seus trabalhos.
Mas em nós nunca se calcinou o outono.
E em nossa pátria imóvel germinava e crescia
o amor com os direitos do orvalho.
a rede do vento com seus países sombrios,
a guerra com seus sapatos de sangue,
ou melhor o dia e a noite da espiga.
Por onde fomos, ilhas ou pontes ou bandeiras,
violinos do fugaz outono atormentado,
repetiu a alegria dos lábios do copo,
a dor nos deteve com sua lição de pranto.
Em todas as repúblicas desenvolvia o vento
seu pavilhão impune, sua glacial cabeleira,
e logo regressava a flor a seus trabalhos.
Mas em nós nunca se calcinou o outono.
E em nossa pátria imóvel germinava e crescia
o amor com os direitos do orvalho.
1 133
Pablo Neruda
Meio-Dia - XL
Era verde o silêncio, molhada era a luz,
tremia o mês de junho como uma borboleta
e no astral domínio, desde o mar e as pedras,
Matilde atravessaste o meio-dia.
Ias carregada de flores ferruginosas,
algas que o vento sul atormenta e esquece,
ainda brancas, fendidas pelo sal devorante,
tuas mãos levantavam as espigas de areia.
Amo teus dons puros, tua pele de pedra intacta,
tuas unhas oferecidas no sol de teus dedos,
tua boca derramada por toda a alegria,
mas, para minha casa vizinha do abismo,
dá-me o atormentado sistema do silêncio,
o pavilhão do mar esquecido na areia.
tremia o mês de junho como uma borboleta
e no astral domínio, desde o mar e as pedras,
Matilde atravessaste o meio-dia.
Ias carregada de flores ferruginosas,
algas que o vento sul atormenta e esquece,
ainda brancas, fendidas pelo sal devorante,
tuas mãos levantavam as espigas de areia.
Amo teus dons puros, tua pele de pedra intacta,
tuas unhas oferecidas no sol de teus dedos,
tua boca derramada por toda a alegria,
mas, para minha casa vizinha do abismo,
dá-me o atormentado sistema do silêncio,
o pavilhão do mar esquecido na areia.
1 215
Pablo Neruda
Tarde - LXXII
Amor meu, o inverno regressa a seus quartéis,
estabelece a terra seus dons amarelos
e passamos a mão sobre um país remoto,
sobre a cabeleira da geografia.
Ir-nos! Hoje! Adiante, rodas, naves, sinos,
aviões acerados pelo diurno infinito
para o olor nupcial do arquipélago,
por longitudinais farinhas de usufruto!
Vamos, levanta-te, e endiadema-te e sobe
e desce e corre e trina com o ar e comigo
vamo-nos aos trens da Arábia ou Tocopilla,
sem mais que transmigrar para o pólen longínquo,
a povoados lancinantes de farrapos e gardênias
governados por pobres monarcas sem sapatos.
estabelece a terra seus dons amarelos
e passamos a mão sobre um país remoto,
sobre a cabeleira da geografia.
Ir-nos! Hoje! Adiante, rodas, naves, sinos,
aviões acerados pelo diurno infinito
para o olor nupcial do arquipélago,
por longitudinais farinhas de usufruto!
Vamos, levanta-te, e endiadema-te e sobe
e desce e corre e trina com o ar e comigo
vamo-nos aos trens da Arábia ou Tocopilla,
sem mais que transmigrar para o pólen longínquo,
a povoados lancinantes de farrapos e gardênias
governados por pobres monarcas sem sapatos.
548
Natália Correia
Poema II
De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
1 400
Pablo Neruda
O Mar
Ali combateram mexendo-se na turbulência
os germes, a espora túrgida, as gomas da alga,
as ovas de um mar diminuto que ferve à beira do mar,
até que a rede quebrantada vasa na areia
os descendentes rotos, os tristes corais, os nardos do frio,
e ali se alimenta o outono, o espaço, a costa litúrgica,
com a podridão minguante e crescente que lança à areia o enlace infinito.
os germes, a espora túrgida, as gomas da alga,
as ovas de um mar diminuto que ferve à beira do mar,
até que a rede quebrantada vasa na areia
os descendentes rotos, os tristes corais, os nardos do frio,
e ali se alimenta o outono, o espaço, a costa litúrgica,
com a podridão minguante e crescente que lança à areia o enlace infinito.
1 581
Pablo Neruda
O Tempo
Outono de fábula, oh ventre remoto do mar apagado
piscar de estrela redonda repleta de impuros racimos,
oh ressurreições da ânfora, oh planta pletórica,
oh imenso arvoredo compacto que mexe a lua em sua copa,
começa o desfile delgado das migrações, extensa
é a côncava névoa e nela vai o coro e a flecha:
é a procissão procelária, é o Polo que emigra em suas asas.
Parecem imóveis aves dormindo na raia invisível dos
hemisférios,
progridem suspensas ao céu, ao rumor desse mar oxidado,
e no ar navega a linha impecável de flechas famintas;
as plumagens que até ontem sustinham sua estirpe de luto
sobre a primavera do tímpano, como uma auréola de neve sombria.
Dali, de meu inferno puído, dos iracundos farrapos da Patagônia,
da negra desordem voou este bando de espinhos, de
plumas, de pássaros,
a onda nua no céu, a luz dirigida, a lança formada no vento
pela necessária grandeza das unidades unidas.
piscar de estrela redonda repleta de impuros racimos,
oh ressurreições da ânfora, oh planta pletórica,
oh imenso arvoredo compacto que mexe a lua em sua copa,
começa o desfile delgado das migrações, extensa
é a côncava névoa e nela vai o coro e a flecha:
é a procissão procelária, é o Polo que emigra em suas asas.
Parecem imóveis aves dormindo na raia invisível dos
hemisférios,
progridem suspensas ao céu, ao rumor desse mar oxidado,
e no ar navega a linha impecável de flechas famintas;
as plumagens que até ontem sustinham sua estirpe de luto
sobre a primavera do tímpano, como uma auréola de neve sombria.
Dali, de meu inferno puído, dos iracundos farrapos da Patagônia,
da negra desordem voou este bando de espinhos, de
plumas, de pássaros,
a onda nua no céu, a luz dirigida, a lança formada no vento
pela necessária grandeza das unidades unidas.
623
Pablo Neruda
O Mar
As moscas de Abril no ventre inferior do outono
se multiplicaram saindo a voar com suas asas de água
com suas gotas de água amanhecem na transparência
raiando a luz ou deixando imóvel o ar vazio.
As algas apodrecem vestidas de ferro molhado
e sobre as ávidas rochas que o trovão estremece
no estupor do outono vacila um certame de ovários.
Porque sobre o rosto de pedra que o mar atormenta e destrói
as máscaras verdes da alga marinha, a tapeçaria do frio,
subjugam à eternidade da pedra, ao mar, ao conflito.
se multiplicaram saindo a voar com suas asas de água
com suas gotas de água amanhecem na transparência
raiando a luz ou deixando imóvel o ar vazio.
As algas apodrecem vestidas de ferro molhado
e sobre as ávidas rochas que o trovão estremece
no estupor do outono vacila um certame de ovários.
Porque sobre o rosto de pedra que o mar atormenta e destrói
as máscaras verdes da alga marinha, a tapeçaria do frio,
subjugam à eternidade da pedra, ao mar, ao conflito.
1 734
Pablo Neruda
Iii - Quando do Chile
Oh Chile, longa pétala
de mar e vinho e neve,
ai quando
ai quando e quando
ai quando
me encontrarei contigo,
enrolarás tua cinta
de espuma branca e negra em minha cintura, desencadearei minha poesia
sobre teu território.
Há homens
metade peixe, metade vento,
há outros homens feitos de água.
Eu estou feito de terra.
Vou pelo mundo
cada vez mais alegre:
cada cidade me dá uma nova vida.
O mundo está nascendo.
Mas se chove em Lota
sobre mim tomba a chuva,
se em Lonquimay a neve
resvala das folhas
chega a neve onde estou.
Cresce em mim o trigo escuro de Cautín.
Eu tenho uma araucária em Villarrica,
tenho areia no Norte Grande,
tenho uma rosa ruiva na província,
e o vento que derruba
a última onda de Valparaiso
bate-me no peito
com um ruído quebrado
como se ali tivesse
meu coração uma janela rota.
O mês de outubro chegou faz
tão pouco tempo do passado outubro
que quando este chegou foi como se
me estivesse olhando o tempo imóvel.
Aqui é outono. Cruzo
a estepe siberiana.
Dia após dia tudo é amarelo,
a árvore e a usina,
a terra e o que nela o homem novo cria:
há ouro e chama vermelha,
amanhã imensidade, neve, pureza.
Em meu país a primavera
vem de norte a sul com sua fragrância.
É como uma moça
que pelas pedras negras de Coquimbo,
pela margem solene da espuma
voa com pés nus
até os arquipélagos feridos.
Não só território, primavera,
plenificando-me, ofereces.
Não sou um homem sozinho.
Nasci no sul. Da fronteira
trouxe as solidões e o galope
do último caudilho.
Mas o Partido me desceu do cavalo
e me tornou homem, e andei
os areais e as cordilheiras
amando e descobrindo.
Povo meu, verdade que na primavera
soa meu nome em teus ouvidos
e me reconheces
como se fosse um rio
que passa por tua porta?
Sou um rio. Se escutas
pausadamente sob os saleiros
de Antofagasta, ou melhor
ao sul de Osorno
ou rumo à cordilheira, em Melipilla,
ou em Temuco, na noite
de astros molhados e loureiro sonoro,
pões sobre a terra teus ouvidos,
escutarás que corro
submergido, cantando.
Outubro, oh primavera,
devolve-me a meu povo.
Que farei sem ver mil homens,
mil moças,
que farei sem conduzir sobre meus ombros
uma parte da esperança?
Que farei sem caminhar com a bandeira
que de mão em mão na fila
de nossa longa luta
chegou às mãos minhas?
Ai Pátria, Pátria,
ai Pátria, quando
ai quando e quando
quando
me encontrarei contigo?
Longe de ti
metade de terra tua e homem teu
continua sendo,
e outra vez hoje a primavera passa.
Mas eu com tuas flores me completei,
com tua vitória vou para frente
e em ti persistem vivendo minhas raízes.
Ai quando
encontrarei tua primavera dura,
e entre todos os teus filhos
vagarei pelos teus campos e tuas ruas
com meus sapatos velhos.
Ai quando
irei com Elias Lafferte
por todo o pampa dourado.
Ai quando te apertarei a boca,
chilena que me esperas,
com meus lábios errantes?
Ai quando
poderei entrar na sala do Partido
para sentar-me com Pedro Fogueiro,
com o que não conheço e no entanto
é mais irmão meu que meu irmão.
Ai quando
me tirará do sonho um trovão verde
de teu manto marinho.
Ai quando, Pátria, nas eleições
irei de casa em casa recolhendo
a liberdade temerosa
para que grite no meio da rua.
Ai quando, Pátria,
te casarás comigo
com olhos verde-mar e vestido de neve
e teremos milhões de filhos novos
que entregarão a terra aos famintos.
Ai Pátria, sem farrapos,
ai primavera minha,
ai quando
ai quando e quando
despertarei em teus braços
empapado de mar e de orvalho.
Ai quando eu estiver perto
de ti, te agarrarei pela cintura,
ninguém poderá tocar-te,
eu poderei defender-te
cantando,
quando
for contigo, quando
vieres comigo, quando
ai quando.
de mar e vinho e neve,
ai quando
ai quando e quando
ai quando
me encontrarei contigo,
enrolarás tua cinta
de espuma branca e negra em minha cintura, desencadearei minha poesia
sobre teu território.
Há homens
metade peixe, metade vento,
há outros homens feitos de água.
Eu estou feito de terra.
Vou pelo mundo
cada vez mais alegre:
cada cidade me dá uma nova vida.
O mundo está nascendo.
Mas se chove em Lota
sobre mim tomba a chuva,
se em Lonquimay a neve
resvala das folhas
chega a neve onde estou.
Cresce em mim o trigo escuro de Cautín.
Eu tenho uma araucária em Villarrica,
tenho areia no Norte Grande,
tenho uma rosa ruiva na província,
e o vento que derruba
a última onda de Valparaiso
bate-me no peito
com um ruído quebrado
como se ali tivesse
meu coração uma janela rota.
O mês de outubro chegou faz
tão pouco tempo do passado outubro
que quando este chegou foi como se
me estivesse olhando o tempo imóvel.
Aqui é outono. Cruzo
a estepe siberiana.
Dia após dia tudo é amarelo,
a árvore e a usina,
a terra e o que nela o homem novo cria:
há ouro e chama vermelha,
amanhã imensidade, neve, pureza.
Em meu país a primavera
vem de norte a sul com sua fragrância.
É como uma moça
que pelas pedras negras de Coquimbo,
pela margem solene da espuma
voa com pés nus
até os arquipélagos feridos.
Não só território, primavera,
plenificando-me, ofereces.
Não sou um homem sozinho.
Nasci no sul. Da fronteira
trouxe as solidões e o galope
do último caudilho.
Mas o Partido me desceu do cavalo
e me tornou homem, e andei
os areais e as cordilheiras
amando e descobrindo.
Povo meu, verdade que na primavera
soa meu nome em teus ouvidos
e me reconheces
como se fosse um rio
que passa por tua porta?
Sou um rio. Se escutas
pausadamente sob os saleiros
de Antofagasta, ou melhor
ao sul de Osorno
ou rumo à cordilheira, em Melipilla,
ou em Temuco, na noite
de astros molhados e loureiro sonoro,
pões sobre a terra teus ouvidos,
escutarás que corro
submergido, cantando.
Outubro, oh primavera,
devolve-me a meu povo.
Que farei sem ver mil homens,
mil moças,
que farei sem conduzir sobre meus ombros
uma parte da esperança?
Que farei sem caminhar com a bandeira
que de mão em mão na fila
de nossa longa luta
chegou às mãos minhas?
Ai Pátria, Pátria,
ai Pátria, quando
ai quando e quando
quando
me encontrarei contigo?
Longe de ti
metade de terra tua e homem teu
continua sendo,
e outra vez hoje a primavera passa.
Mas eu com tuas flores me completei,
com tua vitória vou para frente
e em ti persistem vivendo minhas raízes.
Ai quando
encontrarei tua primavera dura,
e entre todos os teus filhos
vagarei pelos teus campos e tuas ruas
com meus sapatos velhos.
Ai quando
irei com Elias Lafferte
por todo o pampa dourado.
Ai quando te apertarei a boca,
chilena que me esperas,
com meus lábios errantes?
Ai quando
poderei entrar na sala do Partido
para sentar-me com Pedro Fogueiro,
com o que não conheço e no entanto
é mais irmão meu que meu irmão.
Ai quando
me tirará do sonho um trovão verde
de teu manto marinho.
Ai quando, Pátria, nas eleições
irei de casa em casa recolhendo
a liberdade temerosa
para que grite no meio da rua.
Ai quando, Pátria,
te casarás comigo
com olhos verde-mar e vestido de neve
e teremos milhões de filhos novos
que entregarão a terra aos famintos.
Ai Pátria, sem farrapos,
ai primavera minha,
ai quando
ai quando e quando
despertarei em teus braços
empapado de mar e de orvalho.
Ai quando eu estiver perto
de ti, te agarrarei pela cintura,
ninguém poderá tocar-te,
eu poderei defender-te
cantando,
quando
for contigo, quando
vieres comigo, quando
ai quando.
2 092
Pablo Neruda
Manhã - II
Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até tua companhia!
Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.
Em Taltal não amanhece ainda a primavera.
Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,
juntos desde a roupa às raízes,
juntos de outono, de água, de quadris,
até ser só tu, só eu juntos.
Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,
a desembocadura da água de Boroa,
pensar que separados por trens e nações
tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos,
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa os cravos.
que solidão errante até tua companhia!
Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.
Em Taltal não amanhece ainda a primavera.
Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,
juntos desde a roupa às raízes,
juntos de outono, de água, de quadris,
até ser só tu, só eu juntos.
Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,
a desembocadura da água de Boroa,
pensar que separados por trens e nações
tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos,
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa os cravos.
1 259
Pablo Neruda
Iv - a Terra
Amarelo, amarelo continua sendo
o cachorro que por trás do outono circula
fazendo entre as folhas circunferências de ouro,
ladrando para os dias desconhecidos.
Assim vereis o imprevisto de certas situações:
junto ao explorador das terríveis fronteiras
que abrem o infinito, eis aqui o predileto,
o animal perdido do outono.
O que pode mudar de terra a tempo, de sabor a estibordo,
de luz velocidade a circunstância terrestre?
Quem adivinhará a semente na sombra
se como cabeleiras as mesmas frondes
deixam cair orvalho sobre as mesmas ferraduras,
sobre as cabeças que o amor reúne,
sobre as cinzas de corações mortos?
Este mesmo planeta, o tapete de mil anos,
pode florescer mas não aceita a morte nem o repouso:
as cíclicas fechaduras da fertilidade
se abrem em cada primavera para as chaves do sol
e ressoam os frutos fazendo-se cascata,
sobe e desce o fulgor da terra para a boca
e o humano agradece a bondade de seu reino.
Louvada seja a velha terra cor de excremento,
suas cavidades, seus ovários sacrossantos,
as adegas da sabedoria que encerraram
cobre, petróleo, ímãs, ferragens, pureza,
o relâmpago que parecia descer desde o inferno
foi entesourado pela antiga mãe das raízes
e cada dia saiu o pão para nos saudar
sem se importar com o sangue e a morte que nós homens vestimos,
a maldita progênie que faz a luz do mundo.
o cachorro que por trás do outono circula
fazendo entre as folhas circunferências de ouro,
ladrando para os dias desconhecidos.
Assim vereis o imprevisto de certas situações:
junto ao explorador das terríveis fronteiras
que abrem o infinito, eis aqui o predileto,
o animal perdido do outono.
O que pode mudar de terra a tempo, de sabor a estibordo,
de luz velocidade a circunstância terrestre?
Quem adivinhará a semente na sombra
se como cabeleiras as mesmas frondes
deixam cair orvalho sobre as mesmas ferraduras,
sobre as cabeças que o amor reúne,
sobre as cinzas de corações mortos?
Este mesmo planeta, o tapete de mil anos,
pode florescer mas não aceita a morte nem o repouso:
as cíclicas fechaduras da fertilidade
se abrem em cada primavera para as chaves do sol
e ressoam os frutos fazendo-se cascata,
sobe e desce o fulgor da terra para a boca
e o humano agradece a bondade de seu reino.
Louvada seja a velha terra cor de excremento,
suas cavidades, seus ovários sacrossantos,
as adegas da sabedoria que encerraram
cobre, petróleo, ímãs, ferragens, pureza,
o relâmpago que parecia descer desde o inferno
foi entesourado pela antiga mãe das raízes
e cada dia saiu o pão para nos saudar
sem se importar com o sangue e a morte que nós homens vestimos,
a maldita progênie que faz a luz do mundo.
1 264
Nelson Norberto Rodrigues
Haicai
Na lagoa azul
à sombra de uma palmeira
brincam alvos gansos
Nas folhas caídas
de uma palmeira real
foi-se a primavera
à sombra de uma palmeira
brincam alvos gansos
Nas folhas caídas
de uma palmeira real
foi-se a primavera
955
Olinda Marques de Azevedo
Primavera
Profusão de flores
desfile de primavera.
Também passa um féretro.
desfile de primavera.
Também passa um féretro.
872
Pablo Neruda
Solidão
Viajante, estou só na Rua da Huchette. É manhã.
Nem um só vestígio de ontem ficou colado nos muros.
Prepara-se o depois de amanhã na noite ruidosa
que passa enredada na névoa que sobe das cabeleiras.
Há um vago silêncio apoiado por uma guitarra tardia.
E compreendo que nesta minúscula ruela tortuosa
alguém toca a rebater o metal invisível
de um agudo sino que estende na noite seu círculo
e no mapa redondo baixando a vista descubro
caminhos de formiga que vêm sulcando o outono e os mares
e vão deslizando figuras que caem do mapa da Austrália,
que descem da Suécia nos trens da madrugada deserta,
pequenos caminhos de inseto que perfuram o ar e a terra
e que se desprenderam da Espanha, da Escócia, do Golfo do México,
tradeando buracos que tarde ou cedo penetram a terra
e aqui à meia-noite destapa a noite seu frio orifício
e assoma a fronte de algum colombiano que amarra no cinto
tua velha pistola e a louca guitarra dos guerrilheiros.
Talvez Aragón junto a Elsa estendeu o arquipélago
de seus sonhos povoados por amplas sereias que penteiam a música
e sobre a Rua de Varennes uma estrela, a única do céu vazio,
abre e fecha suas pálpebras de diamante e platina,
e mais longe o traje fragrante da França se guarda em uma arca
porque dormem as vinhas e o vinho nos barris prepara
a saída do sol, professor de francês no céu.
Para Menilmontant, nos meus tempos, para os acordeões
do ano de milnovecentosevinte acudíamos: era sério o encontro
com a malandragem de guimba na boca e brutal aparência.
Eu dancei com Friné Lavatier, com Marise e com quem?
Ah com quem? Fogem-me os nomes do baile
mas continuo dançando a “java” no impuro subúrbio
e viver era então tão fácil como o pão que se come nos trens,
como andar no campo assobiando, festejado pela primavera.
Nem um só vestígio de ontem ficou colado nos muros.
Prepara-se o depois de amanhã na noite ruidosa
que passa enredada na névoa que sobe das cabeleiras.
Há um vago silêncio apoiado por uma guitarra tardia.
E compreendo que nesta minúscula ruela tortuosa
alguém toca a rebater o metal invisível
de um agudo sino que estende na noite seu círculo
e no mapa redondo baixando a vista descubro
caminhos de formiga que vêm sulcando o outono e os mares
e vão deslizando figuras que caem do mapa da Austrália,
que descem da Suécia nos trens da madrugada deserta,
pequenos caminhos de inseto que perfuram o ar e a terra
e que se desprenderam da Espanha, da Escócia, do Golfo do México,
tradeando buracos que tarde ou cedo penetram a terra
e aqui à meia-noite destapa a noite seu frio orifício
e assoma a fronte de algum colombiano que amarra no cinto
tua velha pistola e a louca guitarra dos guerrilheiros.
Talvez Aragón junto a Elsa estendeu o arquipélago
de seus sonhos povoados por amplas sereias que penteiam a música
e sobre a Rua de Varennes uma estrela, a única do céu vazio,
abre e fecha suas pálpebras de diamante e platina,
e mais longe o traje fragrante da França se guarda em uma arca
porque dormem as vinhas e o vinho nos barris prepara
a saída do sol, professor de francês no céu.
Para Menilmontant, nos meus tempos, para os acordeões
do ano de milnovecentosevinte acudíamos: era sério o encontro
com a malandragem de guimba na boca e brutal aparência.
Eu dancei com Friné Lavatier, com Marise e com quem?
Ah com quem? Fogem-me os nomes do baile
mas continuo dançando a “java” no impuro subúrbio
e viver era então tão fácil como o pão que se come nos trens,
como andar no campo assobiando, festejado pela primavera.
1 260
Pablo Neruda
A Barcarola
(O vento frio corre compacto como um peixe
e golpeia os talos da aveia. Ao rés do solo vive
um movimento múltiplo e delgado. O dia está nu.
O fulgor de Novembro como uma estalactite
lisa e azul decide a pompa do estio.
É verão. E as lanças do vento interminável
perfuram o favo do espaço amarelo:
olvido ao ver correr a música na aveia
a abóbada implacável do meio-dia.
Escuta,
mulher do sol, meu pensamento. Toca
com teus pés o tremor fugitivo do solo.
Entre a relva cresce meu rosto contra o verde,
através de meus olhos cruzam as espadanas
e bebo com a alma velocidade e vento.)
Mas eu, o cidadão de um tempo gasto e roído, de ruas direitas,
que vi converter-se em incêndio, em detritos, em pedras queimadas, em fogo e em pó,
e depois voltar da guerra o soldado com mortes em cima e embaixo,
e outra vez levantar a cidade infeliz colando cimento às ruínas
e janela e janela e janela e janela e janela
e outra porta outra porta outra porta outra porta outra porta
até o duro infinito moderno com seu inferno de fogo quadrado,
pois a pátria da geometria substitui a pátria do homem.
Viajante perdido, o regresso implacável, a vitória de
pernas cortadas,
a derrota guardada em um cesto como uma maçã diabólica:
este século em que me pariram também, entre tantos que já não alcançaram,
que caíram, Desnos, Frederico, Miguel, companheiros
sem trégua ao meu lado no sol e na morte,
estes anos que às vezes ao cravar a bandeira e cantar com orgulho aos povos
me apontaram com sanha os mesmos que eu defendi com meu canto
e quiseram atirar-me à fossa mordendo minha vida
com as mesmas ferozes mandíbulas do tigre inimigo.
(Os inseguros temem a integridade, golpeiam
então minhas costas com pequenos martelos,
querem assegurar o lugar que lhes toca,
porque medo e soberba sempre estiveram juntos
e suas acusações são suas únicas medalhas.)
(Temem que a violência desintegre seus ossos
e para defender-se vestem-se de violência.)
(Veja o testemunho mudo de depois de amanhã,
recolha os pedaços da torre calada
e quanto me tocou da crueldade inútil.
Compreenderá? Talvez. Os tambores
estarão rotos, e a buzina estridente
será pó no pó.
A felicidade te acompanhe,
companheiro, a felicidade, patrimônio futuro
que herdarás de nosso sangue encarniçado.)
Em minha barcarola se encontram voando os pregos do ódio
com o arroz negro que os invejosos me dão em seu prato
e devo estudar a linguagem do corvo, tocar a plumagem,
olhar nos olhos dos insaciáveis e dos insaciados
e no mesmo páramo das imundícies terrestres
arrojar as censuras de agora e as adulações de então.
Cantando entre escórias o canto reluz na taça de minha alma
e tinge com luz de amaranto o crepúsculo aziago,
eu só sustento a taça de sangue e a espada que canta na arena
e provo o sal em meus lábios, a chuva em minha língua e o fogo recebo em meus olhos,
cantando sem pressa nem pausa, coroado pelas nevascas.
Porque em cima e em torno de mim se sacode como uma bandeira
longitudinal, o capítulo puro de minha geografia,
e do Taltal platinado pela camanchaca13 salobre
até Ruca Diuca coberto por trepadeiras e salgueiros-chorões,
eu vou estendendo entre montes e torres calcáreas minha vertiginosa linhagem,
sem dúvida acossado pela trêmula fragrância do trevo,
talvez inerente produto do bosque na chuva no inverno
pelas estradas molhadas onde passou uma serpente vestida de verde,
de todas as maneiras, sem ser conduzido pelas aventuras do rio com seu batalhão transparente
percorro as terras contando os pássaros, as pedras, a água,
e me retribui o Outono com tanto dinheiro amarelo
que choro de puro cantor derramando meu canto no vento.
e golpeia os talos da aveia. Ao rés do solo vive
um movimento múltiplo e delgado. O dia está nu.
O fulgor de Novembro como uma estalactite
lisa e azul decide a pompa do estio.
É verão. E as lanças do vento interminável
perfuram o favo do espaço amarelo:
olvido ao ver correr a música na aveia
a abóbada implacável do meio-dia.
Escuta,
mulher do sol, meu pensamento. Toca
com teus pés o tremor fugitivo do solo.
Entre a relva cresce meu rosto contra o verde,
através de meus olhos cruzam as espadanas
e bebo com a alma velocidade e vento.)
Mas eu, o cidadão de um tempo gasto e roído, de ruas direitas,
que vi converter-se em incêndio, em detritos, em pedras queimadas, em fogo e em pó,
e depois voltar da guerra o soldado com mortes em cima e embaixo,
e outra vez levantar a cidade infeliz colando cimento às ruínas
e janela e janela e janela e janela e janela
e outra porta outra porta outra porta outra porta outra porta
até o duro infinito moderno com seu inferno de fogo quadrado,
pois a pátria da geometria substitui a pátria do homem.
Viajante perdido, o regresso implacável, a vitória de
pernas cortadas,
a derrota guardada em um cesto como uma maçã diabólica:
este século em que me pariram também, entre tantos que já não alcançaram,
que caíram, Desnos, Frederico, Miguel, companheiros
sem trégua ao meu lado no sol e na morte,
estes anos que às vezes ao cravar a bandeira e cantar com orgulho aos povos
me apontaram com sanha os mesmos que eu defendi com meu canto
e quiseram atirar-me à fossa mordendo minha vida
com as mesmas ferozes mandíbulas do tigre inimigo.
(Os inseguros temem a integridade, golpeiam
então minhas costas com pequenos martelos,
querem assegurar o lugar que lhes toca,
porque medo e soberba sempre estiveram juntos
e suas acusações são suas únicas medalhas.)
(Temem que a violência desintegre seus ossos
e para defender-se vestem-se de violência.)
(Veja o testemunho mudo de depois de amanhã,
recolha os pedaços da torre calada
e quanto me tocou da crueldade inútil.
Compreenderá? Talvez. Os tambores
estarão rotos, e a buzina estridente
será pó no pó.
A felicidade te acompanhe,
companheiro, a felicidade, patrimônio futuro
que herdarás de nosso sangue encarniçado.)
Em minha barcarola se encontram voando os pregos do ódio
com o arroz negro que os invejosos me dão em seu prato
e devo estudar a linguagem do corvo, tocar a plumagem,
olhar nos olhos dos insaciáveis e dos insaciados
e no mesmo páramo das imundícies terrestres
arrojar as censuras de agora e as adulações de então.
Cantando entre escórias o canto reluz na taça de minha alma
e tinge com luz de amaranto o crepúsculo aziago,
eu só sustento a taça de sangue e a espada que canta na arena
e provo o sal em meus lábios, a chuva em minha língua e o fogo recebo em meus olhos,
cantando sem pressa nem pausa, coroado pelas nevascas.
Porque em cima e em torno de mim se sacode como uma bandeira
longitudinal, o capítulo puro de minha geografia,
e do Taltal platinado pela camanchaca13 salobre
até Ruca Diuca coberto por trepadeiras e salgueiros-chorões,
eu vou estendendo entre montes e torres calcáreas minha vertiginosa linhagem,
sem dúvida acossado pela trêmula fragrância do trevo,
talvez inerente produto do bosque na chuva no inverno
pelas estradas molhadas onde passou uma serpente vestida de verde,
de todas as maneiras, sem ser conduzido pelas aventuras do rio com seu batalhão transparente
percorro as terras contando os pássaros, as pedras, a água,
e me retribui o Outono com tanto dinheiro amarelo
que choro de puro cantor derramando meu canto no vento.
1 325
Pablo Neruda
XVII
Percebeste que o outono
é como uma vaca amarela?
E como a besta outonal
é logo um escuro esqueleto?
E como o inverno acumula
tantos azuis lineares?
E quem pediu à primavera
sua monarquia transparente?
é como uma vaca amarela?
E como a besta outonal
é logo um escuro esqueleto?
E como o inverno acumula
tantos azuis lineares?
E quem pediu à primavera
sua monarquia transparente?
1 030
Pablo Neruda
XVI
Trabalham o sal e o açúcar
construindo uma torre branca?
É verdade que no formigueiro
os sonhos são obrigatórios?
Sabes que meditações
rumina a terra no outono?
(Por que não dar uma medalha
à primeira folha de ouro?)
construindo uma torre branca?
É verdade que no formigueiro
os sonhos são obrigatórios?
Sabes que meditações
rumina a terra no outono?
(Por que não dar uma medalha
à primeira folha de ouro?)
925
Pablo Neruda
XV
Mas é verdade que se prepara
a insurreição dos coletes?
Por que outra vez a primavera
oferece seus vestidos verdes?
Por que ri a agricultura
do pálido pranto do céu?
Como logrou sua liberdade
a bicicleta abandonada?
a insurreição dos coletes?
Por que outra vez a primavera
oferece seus vestidos verdes?
Por que ri a agricultura
do pálido pranto do céu?
Como logrou sua liberdade
a bicicleta abandonada?
1 050
Pablo Neruda
Primavera no Chile
Belo é Setembro em minha pátria coberto com uma coroa de vime e violetas
e com um canastro pendurado nos braços repleto de dons terrestres:
Setembro adianta seus olhos mapuches matando o inverno
e volta o chileno à ressurreição da carne e do vinho.
Amável é o Sábado e apenas se abriram as mãos da
Sexta-Feira
voou transportando ameixas e caldos de lua e peixe.
Oh amor na terra que tu percorresses e que atravessamos
não tive em minha boca um fulgor de melancia como em Talagante
e em vão busquei entre os dedos da geografia
no mar clamoroso, a veste que o vento e a pedra outorgaram ao Chile,
e não achei pêssegos de Janeiro redondos de luz e delícia
como o veludo que guarda e debulha o mel de minha pátria.
E nos matagais do Sul sigiloso conheço o orvalho
por seus penetrantes diamantes de menta, e me embriaga o aroma
do vinho central que estalou de teu cinturão de cachos
e o cheiro de tuas águas pesqueiras que te enche o olfato
porque se abrem as valvas do mar em teu peito de prata abundante,
e encimado arrastando os pés quando marcho nos montes mais duros
eu diviso na neve invencível a razão de tua soberania.
e com um canastro pendurado nos braços repleto de dons terrestres:
Setembro adianta seus olhos mapuches matando o inverno
e volta o chileno à ressurreição da carne e do vinho.
Amável é o Sábado e apenas se abriram as mãos da
Sexta-Feira
voou transportando ameixas e caldos de lua e peixe.
Oh amor na terra que tu percorresses e que atravessamos
não tive em minha boca um fulgor de melancia como em Talagante
e em vão busquei entre os dedos da geografia
no mar clamoroso, a veste que o vento e a pedra outorgaram ao Chile,
e não achei pêssegos de Janeiro redondos de luz e delícia
como o veludo que guarda e debulha o mel de minha pátria.
E nos matagais do Sul sigiloso conheço o orvalho
por seus penetrantes diamantes de menta, e me embriaga o aroma
do vinho central que estalou de teu cinturão de cachos
e o cheiro de tuas águas pesqueiras que te enche o olfato
porque se abrem as valvas do mar em teu peito de prata abundante,
e encimado arrastando os pés quando marcho nos montes mais duros
eu diviso na neve invencível a razão de tua soberania.
1 262
Oldegar Vieira
Gravuras no Vento
Gravura no vento.
Pois é desacontecido
o acontecimento.
Em êxtase, vê-las...
Uma a uma, todo o céu
porejando estrelas.
Pendentes de um fio,
gotas de chuva — ou de sol —
sob o sol do estio.
Dentro do aranhol,
de repente, frente a frente,
uma aranha e o sol.
Animal nasceu.
Desanimalmente, agora,
vive... num museu.
Tarde longa e quente.
Tange longe uma araponga
seu grito fremente.
Compensar sua ausência
— evidente, este evidência! —
só sua alegria.
À pista vermelha
de uma flor, vem uma rima
e aflorissa: abelha.
Incrível talento,
o desse escultor das nuvens
— genial! —, o vento.
Ploc! Uma rã pula
no silêncio da lagoa,
e o silêncio ondula.
Não metal de sinos.
Vil-metal agora é a rima
que canta o Natal.
Nos cinzeiros jazem
— antecipantes — as cinzas
mortais dos fumantes.
Seu corpo enriquece
a terra. E a saudade
é a flor que floresce.
Ela — uma andorinha —
vendo as outras que não estavam
— nem uma — sozinha.
Claro desafio:
sete cores luminosas
ante um céu sombrio.
Fantasmagoria:
uma borboleta preta
em noite vazia.
Interrogativo
à beira de um charco, um velho
coqueiro — pendido.
Lenta, lentamente,
um caleidoscópio gira.
Gira-sol poente.
Oca, ressequida,
na carcassa da cigarra,
em silêncio, a vida...
Cabelos ao vento,
soltos, como vão revoltos
— ah — seus pensamentos.
Doze, compassadas,
tangendo o silêncio e o tempo,
doze badaladas...
Fina e clara, a chuva,
qual a janela que tem
mais bela cortina?
Nuvens e mais nuvens
a passar, bem que me deite.
Foi-se o ... meu luar.
Uma flor no mato
solitária, rubra, sangue
no verde compacto.
Não tem sul nem norte,
nem oeste ou leste — é céu.
Céu somente azul.
Voltevolteiando
no cristal do tanque, as carpas
silenciosonhando...
Sol da madrugada.
Vai surgindo: dentro de uma
teia iluminada!
Uma borboleta.
Nada mais, nem leve aragem.
E a rosa é desfeita.
Flor em que não vai
a libélula pousar.
Na espuma do mar.
Por acaso a sua
caminhada é a mesma, ou ela
o acompanha, a lua?
Ramagens crestadas
reflorindo: borboletas
nas cinzas, pousadas.
Voz da cachoeira,
ao viço da mata vai
líquida poeira.
Reflita: no espelho,
aquele que o imita,
quem será? Você?
Lembradas jamais,
as flores do morto vão
mortas, muito mais.
Tem cativo, o canto,
mas o muda borboleta
é livre, no entanto.
Noite a dentro, um cão
late, insone, a quem nem late,
seu insone irmão.
Ah, esse berreiro
das cigarras no austero
parque do mosteiro...
Num céu claro e puro,
um corvo paira sereno
— feio, torvo, escuro.
Cai a neve, e penso
no quanto se deve ser
puro como a neve.
Que fazer com as mãos,
não mais — não — senão guardar
seu fugaz perfume?
Ouracorrentado.
Entre seios femininos,
recrucificado.
Espana a poeira
de luz das estrelas, ou
— no vento — é palmeira?
Mudos edifícios
permutando, permutando
surdos malefícios.
Fuçando em monturos,
anjos andrajosos de
presépios escuros.
Chuva de verão,
chuva de flores na chuva.
Reflorindo, o chão.
Os bois, pacientes.
Mas as rodas, por que vão
gemendo, gementes?
Brancos, a igreja
e o casario entre verdes,
escorrendo ao rio.
Na rua quieta,
a flauta de um vagabundo
— músicopoeta.
Nas mãos de uma negra
— noite-escrava —, uma urupemba
peneirando estrelas.
É flor esquecida,
esta que resta no mármore,
lembrando outra vida?
Um fruto maduro,
pendente, precisamente
na linha do muro.
Trapos do abandono
— do espantalho — vai levando
o vento do outono.
Sob o anil do céu
e ao sol — branco — um enxoval
num varal, ao vento...
Tê-las nas mãos quis,
pois jamais alguém falara
ao cego, de estrelas.
Junquilhos envergam.
Flores de neve pousando
nas hastes, de leve.
Na rua deserta
— desperdício — eis que ela passa
numa hora incerta.
Flor de velho amor,
expressiva? Só se for
— morta — a sempre-viva.
Serão. Ninguém fala.
Somente os trilos dos grilos
nos desvãos da sala.
Grávida ela passa,
e como vai cheia, cheia
de Vida e de Graça.
E o menino via:
afinal, esse "natal"...
não o merecia.
Não mais florescentes,
no lixo largadas, são
flores — defloradas.
Tatuagem móvel
no pavimento: a ramagem
ao luar e ao vento.
Que Deus o proteja
não pede. O que pede é pão
na porta da igreja.
Andorinhas: fusas
na pauta dos fios, ou...
ou semi-confusas?
Pétalas levava
— eram rosas — nas suas,
outras mãos, nervosas.
Sim, cantar mas sem
— como a cigarra — pensar
que a morte lhe vem.
Musicalizado
na folhagem, vai o vento,
músico em viagem.
Mudos nas estantes,
são pacíficos soldados?
Mudos mas prestantes.
Quase um rei deposto.
Não mais arde o sol da tarde.
No espelho, o seu rosto.
Auroralmagia!
O canto claro dos galos
clareando o dia.
Lâmina de luz
— a lagoa — estilhaçada
sob a chuvarada.
O mal da intriga
sofre o mundo mas, ao monge,
o silêncio abriga.
Somente a ilumina
— à imponente nave em sombras —
uma lamparina.
Brutos lenhadores
mas bastante foi que vissem
um ninho entre flores.
Túmida e sangrenta,
da escura folhagem surge
lenta, lenta, a lua.
Lavando e cantando,
o riacho e as lavadeiras,
cantando e lavando.
Quebrado o relógio,
fez-se eternidade o tempo
desmecanizado.
Por entre os telhados,
mamoeiras, bananeiras
— bem domesticados.
Numa folha escrevo
todo um poema: seu nome.
Na folha de um trevo.
Na concha rosada
de uma pétala, uma pérola
de orvalho, engastada.
Bagunça, arruaça,
nenhuma... a não ser dos pombos,
os donos da praça.
Sombra do seu corpo
diz que sou, mas foge e faz
sombra em minha vida.
Seixo — ao léu rolado,
rolarrolando... exilado
peso-de-papel.
Causa de desgosto,
a mensagem vai no rosto
como tatuagem.
Na ramada nua
pousado, um corvo, calado,
vê nascendo a lua.
Na clara do céu
flutua — lua de fogo —
a gema do sol.
Acaso... um acaso?
Ou proposital derrame
de tintas no ocaso?
Difuso e em surdina,
o rumor de uma cascata
dentro de uma neblina.
Pétalas caídas
ou borboletas dormidas
que o vento desperta?
Não lhe serve a prosa.
Só em linguagem poética
diga o nome "rosa".
Pois é desacontecido
o acontecimento.
Em êxtase, vê-las...
Uma a uma, todo o céu
porejando estrelas.
Pendentes de um fio,
gotas de chuva — ou de sol —
sob o sol do estio.
Dentro do aranhol,
de repente, frente a frente,
uma aranha e o sol.
Animal nasceu.
Desanimalmente, agora,
vive... num museu.
Tarde longa e quente.
Tange longe uma araponga
seu grito fremente.
Compensar sua ausência
— evidente, este evidência! —
só sua alegria.
À pista vermelha
de uma flor, vem uma rima
e aflorissa: abelha.
Incrível talento,
o desse escultor das nuvens
— genial! —, o vento.
Ploc! Uma rã pula
no silêncio da lagoa,
e o silêncio ondula.
Não metal de sinos.
Vil-metal agora é a rima
que canta o Natal.
Nos cinzeiros jazem
— antecipantes — as cinzas
mortais dos fumantes.
Seu corpo enriquece
a terra. E a saudade
é a flor que floresce.
Ela — uma andorinha —
vendo as outras que não estavam
— nem uma — sozinha.
Claro desafio:
sete cores luminosas
ante um céu sombrio.
Fantasmagoria:
uma borboleta preta
em noite vazia.
Interrogativo
à beira de um charco, um velho
coqueiro — pendido.
Lenta, lentamente,
um caleidoscópio gira.
Gira-sol poente.
Oca, ressequida,
na carcassa da cigarra,
em silêncio, a vida...
Cabelos ao vento,
soltos, como vão revoltos
— ah — seus pensamentos.
Doze, compassadas,
tangendo o silêncio e o tempo,
doze badaladas...
Fina e clara, a chuva,
qual a janela que tem
mais bela cortina?
Nuvens e mais nuvens
a passar, bem que me deite.
Foi-se o ... meu luar.
Uma flor no mato
solitária, rubra, sangue
no verde compacto.
Não tem sul nem norte,
nem oeste ou leste — é céu.
Céu somente azul.
Voltevolteiando
no cristal do tanque, as carpas
silenciosonhando...
Sol da madrugada.
Vai surgindo: dentro de uma
teia iluminada!
Uma borboleta.
Nada mais, nem leve aragem.
E a rosa é desfeita.
Flor em que não vai
a libélula pousar.
Na espuma do mar.
Por acaso a sua
caminhada é a mesma, ou ela
o acompanha, a lua?
Ramagens crestadas
reflorindo: borboletas
nas cinzas, pousadas.
Voz da cachoeira,
ao viço da mata vai
líquida poeira.
Reflita: no espelho,
aquele que o imita,
quem será? Você?
Lembradas jamais,
as flores do morto vão
mortas, muito mais.
Tem cativo, o canto,
mas o muda borboleta
é livre, no entanto.
Noite a dentro, um cão
late, insone, a quem nem late,
seu insone irmão.
Ah, esse berreiro
das cigarras no austero
parque do mosteiro...
Num céu claro e puro,
um corvo paira sereno
— feio, torvo, escuro.
Cai a neve, e penso
no quanto se deve ser
puro como a neve.
Que fazer com as mãos,
não mais — não — senão guardar
seu fugaz perfume?
Ouracorrentado.
Entre seios femininos,
recrucificado.
Espana a poeira
de luz das estrelas, ou
— no vento — é palmeira?
Mudos edifícios
permutando, permutando
surdos malefícios.
Fuçando em monturos,
anjos andrajosos de
presépios escuros.
Chuva de verão,
chuva de flores na chuva.
Reflorindo, o chão.
Os bois, pacientes.
Mas as rodas, por que vão
gemendo, gementes?
Brancos, a igreja
e o casario entre verdes,
escorrendo ao rio.
Na rua quieta,
a flauta de um vagabundo
— músicopoeta.
Nas mãos de uma negra
— noite-escrava —, uma urupemba
peneirando estrelas.
É flor esquecida,
esta que resta no mármore,
lembrando outra vida?
Um fruto maduro,
pendente, precisamente
na linha do muro.
Trapos do abandono
— do espantalho — vai levando
o vento do outono.
Sob o anil do céu
e ao sol — branco — um enxoval
num varal, ao vento...
Tê-las nas mãos quis,
pois jamais alguém falara
ao cego, de estrelas.
Junquilhos envergam.
Flores de neve pousando
nas hastes, de leve.
Na rua deserta
— desperdício — eis que ela passa
numa hora incerta.
Flor de velho amor,
expressiva? Só se for
— morta — a sempre-viva.
Serão. Ninguém fala.
Somente os trilos dos grilos
nos desvãos da sala.
Grávida ela passa,
e como vai cheia, cheia
de Vida e de Graça.
E o menino via:
afinal, esse "natal"...
não o merecia.
Não mais florescentes,
no lixo largadas, são
flores — defloradas.
Tatuagem móvel
no pavimento: a ramagem
ao luar e ao vento.
Que Deus o proteja
não pede. O que pede é pão
na porta da igreja.
Andorinhas: fusas
na pauta dos fios, ou...
ou semi-confusas?
Pétalas levava
— eram rosas — nas suas,
outras mãos, nervosas.
Sim, cantar mas sem
— como a cigarra — pensar
que a morte lhe vem.
Musicalizado
na folhagem, vai o vento,
músico em viagem.
Mudos nas estantes,
são pacíficos soldados?
Mudos mas prestantes.
Quase um rei deposto.
Não mais arde o sol da tarde.
No espelho, o seu rosto.
Auroralmagia!
O canto claro dos galos
clareando o dia.
Lâmina de luz
— a lagoa — estilhaçada
sob a chuvarada.
O mal da intriga
sofre o mundo mas, ao monge,
o silêncio abriga.
Somente a ilumina
— à imponente nave em sombras —
uma lamparina.
Brutos lenhadores
mas bastante foi que vissem
um ninho entre flores.
Túmida e sangrenta,
da escura folhagem surge
lenta, lenta, a lua.
Lavando e cantando,
o riacho e as lavadeiras,
cantando e lavando.
Quebrado o relógio,
fez-se eternidade o tempo
desmecanizado.
Por entre os telhados,
mamoeiras, bananeiras
— bem domesticados.
Numa folha escrevo
todo um poema: seu nome.
Na folha de um trevo.
Na concha rosada
de uma pétala, uma pérola
de orvalho, engastada.
Bagunça, arruaça,
nenhuma... a não ser dos pombos,
os donos da praça.
Sombra do seu corpo
diz que sou, mas foge e faz
sombra em minha vida.
Seixo — ao léu rolado,
rolarrolando... exilado
peso-de-papel.
Causa de desgosto,
a mensagem vai no rosto
como tatuagem.
Na ramada nua
pousado, um corvo, calado,
vê nascendo a lua.
Na clara do céu
flutua — lua de fogo —
a gema do sol.
Acaso... um acaso?
Ou proposital derrame
de tintas no ocaso?
Difuso e em surdina,
o rumor de uma cascata
dentro de uma neblina.
Pétalas caídas
ou borboletas dormidas
que o vento desperta?
Não lhe serve a prosa.
Só em linguagem poética
diga o nome "rosa".
1 188
Ona Gaia
Aos Nubentens
Ao falar agora
não serei breve no sentimento
- de início já vou dizendo -
como é belo e glamouroso este momento !
Pois por abundância de emoções sublimes
atraio um mundo inteiro de visões
e no meio do turbilhão destas atrações
o amor uni-versos e corações.
Que seja terna enquanto dura sua existência.
Que lá do fundo brote o fruto da sua potência.
E por acaso existe erro aqui em alguém ?
Hoje é um dia pra vida suntuoso
dois corpos unidos no mundo é virtuoso
e nada há mais certo pra mim ou pra ninguém !
Na arena solar das sensações
encontram a felicidade entre clarões
os que fazem o futuro além nações.
E muito antes de conhecer o seu lar
de um sonho pouco antes de acordar
você já conhecia o seu par.
Estas palavras pra ele e pra ela
até mesmo numa hora paralela
durante o dia, à noite ou no inverno
serão as cores de um verão eterno.
não serei breve no sentimento
- de início já vou dizendo -
como é belo e glamouroso este momento !
Pois por abundância de emoções sublimes
atraio um mundo inteiro de visões
e no meio do turbilhão destas atrações
o amor uni-versos e corações.
Que seja terna enquanto dura sua existência.
Que lá do fundo brote o fruto da sua potência.
E por acaso existe erro aqui em alguém ?
Hoje é um dia pra vida suntuoso
dois corpos unidos no mundo é virtuoso
e nada há mais certo pra mim ou pra ninguém !
Na arena solar das sensações
encontram a felicidade entre clarões
os que fazem o futuro além nações.
E muito antes de conhecer o seu lar
de um sonho pouco antes de acordar
você já conhecia o seu par.
Estas palavras pra ele e pra ela
até mesmo numa hora paralela
durante o dia, à noite ou no inverno
serão as cores de um verão eterno.
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