Poemas neste tema

Estações do Ano (Primavera, Verão, Outono, Inverno)

Mário Pederneiras

Mário Pederneiras

Trecho Final

Meia tinta de cor dos ocasos do Outono
Sonho que uma ilusão sobre a vida nos tece
E perfume sutil de uma folha de trevo,
São, decerto, a feição deste livro que escrevo
Neste ambiente de silêncio e sono
Nesta indolência de quem convalesce.

Meu livro é um jardim na doçura do Outono
E que a sombra amacia
De carinho e de afago
Da luz serena do final do dia;
É um velho jardim dolente e triste
Com um velho local de silêncio e de sono
Já sem luz de verão que o doire e tisne,
Mas onde ainda existe
O orgulho de um Cisne
E a água triste de um Lago.

1 437
Miguel Russowsky

Miguel Russowsky

Noturno nº 2

Anseios de verão... Noite clara, sem bruma.
A lua argêntea adorna uma paisagem maga.
A flor perfuma... A lua brilha... O vento vaga
como doce carícia angelical de pluma.

As nuvens pelo céu — enfermeiras de espuma —
se prpõe a curar qualquer dorida chaga.
No silêncio dormita um repouso de saga.
A lua brilha... O vento vaga... A flor perfuma...

Uma fada de azul — fugitiva de lenda —
escreve em cada rosa uma nova armadilha.
Cupido ergue na sombra o seu punhal de renda.

Com preguiça o relógio esquece e compartilha...
Diana vai marcando um nome em cada agenda:
A flor perfuma... O vento vaga... A lua brilha...

1 088
Maria de Lourdes Hortas

Maria de Lourdes Hortas

Página de Diário

Assim que, aportando, a primavera
trouxe o rastro de rosas e andorinhas
à janela do quarto onde habito
trouxe também a pomba que, noturna
vigilante velou do parapeito
minha saudade da janela antiga
de um quarto onde dormia, bem-amada
enquanto as pombas lá fora iam ruflando
as asas que abriam a madrugada.

1 004
Miklós Radnóti

Miklós Radnóti

Céu espumante

No céu que espuma, a lua oscila.
Estar vivo me causa espécie.
A morte assídua espreita a Idade:
quem ela encontre, empalidece.
O ano grita e depois desmaia.
(Gritara olhando ao seu redor.)
Que outono ronda-me de novo?
Que inverno embotado de dor?
Sangrava o bosque; mesmo as horas
sangravam no vaivém dos dias.
Ventos riscavam, sobre a neve,
cifras enormes e sombrias.
Já vi de tudo; o ar me esmaga
com seu peso; um silêncio cresce
ruidoso, cálido e me abraça
como fez antes que eu nascesse.
Detenho-me junto de um tronco
que agita iroso as frondes plenas
e estende um galho. Há de esganar-me?
Não é fraqueza ou medo – apenas
cansaço. Calo. E o galho apalpa
os meus cabelos, mudo, aflito.
Cabe esquecer – mas não há nada
de que já tenha me esquecido.
Espuma afoga a lua; o miasma
estria os céus, verde e agressivo.
Sem pressa, enrolo com cuidado
o meu cigarro. Eu estou vivo.
(tradução de Nelson Ascher)
:
Tajtékos ég
Miklós Radnóti
Tajtékos égen ring a hold,
csodálkozom, hogy élek.
Szorgos halál kutatja ezt a kort
s akikre rálel, mind olyan fehérek.
Körülnéz néha s felsikolt az év,
körülnéz, aztán elalél.
Micsoda osz lapul mögöttem ujra
s micsoda fájdalomtól tompa tél!
Vérzett az erdo és a forgó
idoben vérzett minden óra.
Nagy és sötétlo számokat
írkált a szél a hóra.
Megértem azt is, ezt is,
súlyosnak érzem a levegot,
neszekkel teljes, langyos csönd ölel,
mint születésem elott.
Megállok itt a fa tövében,
lombját zúgatja mérgesen.
Lenyúl egy ág. Nyakonragad?
nem vagyok gyáva, gyönge sem,
csak fáradt. Hallgatok. S az ág is
némán motoz hajamban és ijedten.
Feledni kellene, de én
soha még semmit sem feledtem.
A holdra tajték zúdúl, az égen
sötétzöld sávot von a méreg.
Cigarettát sodrok magamnak,
lassan, gondosan. Élek.
1 147
Bernadete Soares

Bernadete Soares

Haicai

O beija-flor leva
o beijo da primavera
ao pousar na flor.

Silêncio na noite,
cobre-se a árvore de neve:
amor invernou.

1 093
Yannis Ritsos

Yannis Ritsos

Coisas simples e incompreensíveis

Nada de novo — repete ele. Os homens matam-se ou morrem,
sobretudo envelhecem, envelhecem, envelhecem — os dentes,
os cabelos, as mãos, os espelhos.
Aquele vidro do candeeiro, quebrado — foi consertado com um jornal.
E o pior de tudo: quando aprendes que algo vale a pena, já passou.
Então se faz uma grande serenidade. Chega o verão. As árvores
são altas e verdes — muito provocantes. As cigarras cantam.
À tardinha, as montanhas azulecem. Lá de cima descem
homens obscuros. Coxeiam ladeira abaixo (fingem que coxeiam).
Lançam cães mortos ao rio, e depois, muito tristes e como que irritados
dobram os sacos de linho, coçam os testículos e olham a lua
na água. Somente essa coisa inexplicável:
fingirem-se de coxos, sem que ninguém esteja a vê-los.

1 027
Maria Thereza Noronha

Maria Thereza Noronha

Finito e Infinito

Entre as folhas do outono
e a infinita linha do oceano

cumpre-nos escalar montanhas
decifrar inscrições rupestres
desmontar o teorema, captar
sua argúcia de mestre.

E, inabaláveis, posto que lúcidos,
no finito da carne o agudo vértice
suavizar, e o ardor insano.

Entre as folhas do outono
e a sombra dos ciprestes.

1 005
Pat Lowther

Pat Lowther

Antes que chegue o demolidor

Antes que cheguem os demolidores
Arranque pela raiz o lírio
No ângulo duro de terra
Ao lado da casa.
Agache-se sobre o lixo e os despojos
Contra a escada gradeada do porão
(O relâmpago repentino
De sol
Nas suas costas
Por entre o abrir
E fechar
Do varal aos sopros de março,
Ascensão e queda de luz ágil
Como a golpes.)
Aqui o ensaboar em mucos
De uma vida inteira
Azeda a terra,
Neste canto
Sob a escada,
Mas não matou
Os bichos-de-conta
Nem as pupas das mariposas
Que roçam seus dedos
Ao cavar
Em busca da raiz robusta, redonda,
A raiz do lírio
Que de alguma forma, sem sentido,
Tampouco foi morta
Mas cresceu a cada ano
Uma assombrada infância,
Uma arregalada Páscoa.
Encaixote-a entre as fotos,
O polidor da prataria,
E as últimas roupas por lavar
Que não mais
Hão de subir e tremular
Ao sol que destroça.
Marque sua caixa: X
Duas linhas que se cruzam,
Um ponto em grade
Do tempo
E das estações do ano.
Antes que cheguem os demolidores,
Carregue para longe
O bulbo-relâmpago do sol.
(tradução de Ricardo Domeneck)
296
Cludia Nobre de Oliveira

Cludia Nobre de Oliveira

O Sol

(em homenagem ao verão)

Em tempo de sol abre uma flor que não é primavera.....
cai uma folha que não é outono ...
o pássaro voa e sorri, o homem relaxa..

Em tempo de sol meu dia é alegre, meu dia é o mar,
é a esperança de abraçar o céu, pular, cantar...

Em tempo de sol minha vida é leve é alegre...
porque é em tempo de sol que a natureza mais se enaltece
comandando tudo com a energia do astro maior
a luz eterna a luz Divina
para todos irmãos

981
Carlos Anísio Melhor

Carlos Anísio Melhor

Soneto

Fica-te aí parada na memória.
Reveste com o outono a luz da Face
ou sempre adormecida que a vitória
do amor é conservar consigo a Face.

E assim vencer o tempo na memória
e atingir o eterno do traspasse
fatal, trazendo adiante na memória
a visão emblemática da Face.

Na ilha de agosto faze tua morada,
e em setembro haverás ressuscitada,
Se trouxeres adiante na memória

que nunca apareceste na jornada,
houveras sido, existirás amada
se ficares presente na memória.

1 008
António Manuel Couto Viana

António Manuel Couto Viana

António Patrício

Não teve tempo de escrever a poesia
Que poderia começar: Em Macau, um Estio…
Estava aqui havia um dia.
Era-lhe tudo, ainda, uma mancha, um vazio.

Talvez quisesse ver, sentir, mais do que a mancha
(Em seda baça, ténues tons esquivos),
Porém, o coração, em Santa Sancha,
Fechou-lhe, pra Macau, os olhos sensitivos.

Cantor do mar e da morte
Que os seus versos souberam envolver, respirar,
Teve a suprema sorte
De achar a morte frente ao mar.

1 337
Al Berto

Al Berto

Senhor da Asma

deitado há muito tempo - o cigarro luzindo
como um olho de tigre vindo da noite e
lá fora
ainda se percebe a húmida incandescência das frésias
o rumor surdo de vozes pelo jardim onde
a florida macieira se recorta no intenso céu de verão.

mais além
o rouxinol a madressilva
a sebe de pilriteiros
a brisa de um mar invisível - aflora-te a boca
arde no coração
a memória álgida dos limos dos casinos das praias
saturadas de sal e de sedução

mas nada é perfeito - nem o magnífico chapéu
de mademoiselle de noailles nem os dias que
aos ziguezagues vão passando iguais e monótonos
falta-me o tempo para procurar o tempo perdido
e não estou deitado na recordação da infância
confesso
que odeio escrever cartas ou enviar recados

ando há uma semana arrumando livros - comovido
acabei agora mesmo de sacudir
o pequeno novelo de poeira acumulada
no interior das páginas do senhor da asma

por hoje é tudo
2 130
Antonio Cicero

Antonio Cicero

T r a n s p a r ê n c i a s

venho da praia de um verão em que as ondas rolam redondas e lisas
sobre o mar sem formar espumas
e os olhos gulosos engolem glaucas e mornas transparências
goles de azul e verde
fazendo inveja à língua aos lábios e à goela.

por que me induzes por areias sem águas
ou zonas infestadas de feras
ou paludes sombrios
ou friagens cíticas
ou mares coagulados

por que me queres nessa terra monstruosa e trágica
onde erram poetas e mitógrafos
e nada é certo nada claro.

Antonio Cícero (in o carioca - revista de arte e cultura nº 2/ julho e agosto 1996)

1 629
José Bento

José Bento

Das Quatro Estações - O Outono

Novembro apagou nas buganvílias
seus nomes brancos, roxos, escarlates.

É mais difícil regressar a casa:
o caminho disfarçou, emudeceu
seu rosto nos muros e nas grades.

— Por onde seguiremos
sem que o outono espesso nos trespasse?
624
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando tornar a vir a Primavera

Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma coisa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.


07/11/1915 (Athena, nº 5, Fevereiro de 1925)
2 847
Ingeborg Bachmann

Ingeborg Bachmann

Manobras de Outono

Manobras de Outono
Não digo: isso foi ontem. Com insignificantes
trocos de Verão nos bolsos, estamos de novo deitados
sobre o joio do sarcasmo, nas manobras de Outono do tempo.
E a nós não nos é dada, como aos pássaros,
a retirada para o sul. À noite passam por nós
traineiras e gondolas, e por vezes
atinge-me um estilhaço de mármore impregnado de sonho,
onde a beleza me torna vulnerável, nos olhos.

Leio nos jornais muitas notícias - do frio
e suas consequências, de imprudentes e mortos,
de exilados, assassinos e meríades
de blocos de gelo, mas pouca coisa que me dê prazer.
E porque havia de dar? Ao pedinte que vem ao meio-dia
fecho-lhe a porta na cara, porque há paz
e podemos evitar essas cenas, mas não
o triste cair das folhas à chuva.

Vamos viajar! Debaixo dos ciprestes
ou de palmeiras ou nos laranjais, vamos
contemplar a preços reduzidos
inigualáveis pôr-do-sol! Vamos esquecer
as cartas ao dia de ontem, não respondidas!
O tempo faz milagres. Mas se chegar quando não nos convém,
com o bater da culpa - não estamos em casa.
Na cave do coração, desperto, encontro-me de novo
sobre o joio do sarcasmo, nas manobras de Outono do tempo.

1 284
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Carta de outono

Pensarás que não te escrevi antes porque o verão
consome a energia da alma com um apetite solar; e
porque as tempestades do crepúsculo incendiaram as
palavras com o rápido fogo aéreo. No entanto, eu
ouço aquelas aves que gastaram as asas na travessia
do Espírito, cujos olhos viram o que havia de duvidoso
nas traseiras do invisível, onde um deus culpado
se esconde e se ouvem as vozes sem nexo dos
anjos enlouquecidos. Essas aves deixaram de saber voar;
agarram-se aos ramos dos arbustos e, ao fim da tarde,
gritam em direcção às nuvens com os olhos secos e
sem medo. Abri-lhes o peito: e encontrei as entranhas
verdes como as folhas perenes do norte. Então,
ouço-te bater por dentro de mim, embora estejas morto;
e os teus dedos tenham perdido a força antiga que
desafiava a sombra. Procuro uma entrada no átrio
desabrigado da página; avanço entre sílabas e versos
perdendo-me do silêncio na insistência dos passos.
O passado é todo o dia de ontem; a vida coube-me
neste bolso do infinito onde guardei os últimos cigarros;
o teu amor gastou-se com um breve brilho de
isqueiro. Saio sem desejo dos desertos de outubro
e novembro, arrastando o outono com os pés, nas planícies
provisórias de um esquecimento de estações.


Nuno Júdice | "A Condescendência do Ser", págs. 50 e 51 | Quetzal Editores, 1988

1 849
E. E. Cummings

E. E. Cummings

somewhere i have never travelled, gladly beyond

somewhere i have never travelled, gladly beyond

any experience,your eyes have their silence:

in your most frail gesture are things which enclose me,

or which i cannot touch because they are too near

your slightest look will easily unclose me

though i have closed myself as fingers,

you open always petal by petal myself as Spring opens

(touching skilfully,mysteriously)her first rose

or if your wish be to close me, i and

my life will shut very beautifully ,suddenly,

as when the heart of this flower imagines

the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals

the power of your intense fragility:whose texture

compels me with the color of its countries,

rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes

and opens;only something in me understands

the voice of your eyes is deeper than all roses)

nobody,not even the rain,has such small hands

1 211
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A neve pôs uma toalha calada sobre tudo.

A neve pôs uma toalha calada sobre tudo.
Não se sente senão o que se passa dentro de casa.
Embrulho-me num cobertor e não penso sequer em pensar.
Sinto um gozo de animal e vagamente penso,
E adormeço sem menos utilidade que todas as acções do mundo.
2 556
E. E. Cummings

E. E. Cummings

Since feeling is first,

Since feeling is first,

who pays any attention

to the syntax of things

will never wholly kiss you;

wholly to be a fool

while spring is in the world

my blood approves,

and kisses are a better fate

than wisdom

lady i swear by all flowers. Dont cry

-the best gesture of my brain is less than

your eyelids flutter which says

we are for each other: then

laugh, leaning back in my arms

for lifes not a paragraph

and death i think is no parenthesis
1 402
Paul Verlaine

Paul Verlaine

Chanson dautomne

Chanson dautomne

Les sanglots longs

Des violons

De lautomne

Blessent mon coeur

Dune langueur

Monotone.

Tout suffocant

Et blême, quand

Sonne lheure,

Je me souviens

Des jours anciens

Et je pleure

Et je men vais

Au vent mauvais

Qui memporte

Deçà, delà,

Pareil à la

Feuille morte.

1 395
Jorge Melícias

Jorge Melícias

Empurram-se dos olhos,

dividem-se pela casa.

Como grandes câmaras vazias sonham

ou enloquecem por detrás dos cântaros.

Cantam as mãos que cozem junto ao barro,

o azeite dormindo nas talhas.

Cantam o outono nos olhos húmidos dos cães.

de A Luz nos Pulmões(2000)

900
Chico Buarque

Chico Buarque

De todas as maneiras

De todas as maneiras
Que há de amar
Nós já nos amamos
Com todas as palavras feitas pra sangrar
Já nos cortamos
Agora já passa da hora
Tá linddo lá fora
Larga a minha mão
Solta as unhas do meu coraçãao
Que ele está apressado
E desanda a bater desvairado
Quando entra o verão

De todas as maneiras que há de amar
Já nos machucamos
Com todas as palavras feitas pra humilhar
Nos afagamos
Agora já passa da hora
Tá lindo lá fora
Larga a minha mão
Solta as unhas do meu coração
Que ele está apressado
E desanda a bater desvairado
Quando entra o verão

2 079
Daniel Jonas

Daniel Jonas

OPACIDADE

Estúpido outono
a tudo impondo sua ferrugem
como num velho armazém de ferragens
a artrose ganhando dobradiças
e as espirais
a parafusos zonzos.

E estas árvores são também
impossíveis: árvores
como furgonetas com seus toldos
esvoaçantes, rangendo
a grande dor da
mudança.

Estúpidas árvores: cada copa
um enleio de fios,
uma instalação eléctrica pública
de Calcutá, fundindo
o céu, seu
capote puindo.

Ou este outono é só
uma betoneira
regurgitando o seu betão zonzo.
Estúpido outono. E que erro
tomar os meus olhos
por um aterro!
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