Poemas neste tema
Estações do Ano (Primavera, Verão, Outono, Inverno)
Fernando Pessoa
Um verso repete
Um verso repete
Uma brisa fresca,
O verão nas ervas,
E vazio sofre ao sol
O átrio abandonado.
Ou, no inverno, ao longe
Os cimos de neve,
À lareira toadas
Dos contos herdados,
E um verso a dizê-lo.
Os deuses concedem
Poucos mais prazeres
Que estes, que são nada.
Mas também concedem
Não querermos outros.
Uma brisa fresca,
O verão nas ervas,
E vazio sofre ao sol
O átrio abandonado.
Ou, no inverno, ao longe
Os cimos de neve,
À lareira toadas
Dos contos herdados,
E um verso a dizê-lo.
Os deuses concedem
Poucos mais prazeres
Que estes, que são nada.
Mas também concedem
Não querermos outros.
1 538
Fernando Pessoa
37 - SONG
Lilies cast and roses throw
In the way that she must go
Whom the singing planets hymn,
Sister of the seraphim!
Shifting motes of early sun
In the morning freshness spun
To light dresses for the breeze -
Clothe her coming such as these!
Shadows purple, fountain breaths,
Low mists such as dawning wreathes
Round the tree‑tops - these be made
Hers, for whom spring's feast is laid!
She to us from heaven descended
That dreams might with earth seem blended,
And unquietness more blest
Mingle with our life's unrest.
These the chosen offerings
From what earthly deep joy sings -
These to her we daily bear
Lest she pine for heaven here.
In the way that she must go
Whom the singing planets hymn,
Sister of the seraphim!
Shifting motes of early sun
In the morning freshness spun
To light dresses for the breeze -
Clothe her coming such as these!
Shadows purple, fountain breaths,
Low mists such as dawning wreathes
Round the tree‑tops - these be made
Hers, for whom spring's feast is laid!
She to us from heaven descended
That dreams might with earth seem blended,
And unquietness more blest
Mingle with our life's unrest.
These the chosen offerings
From what earthly deep joy sings -
These to her we daily bear
Lest she pine for heaven here.
1 513
Ruy Belo
Solidão na cidade
Após uma estadia nas alturas
a expensas do mais puro pensamento
que fez deter o dia a hora e o momento
numa fuga da vida e dos ruídos e dos carros
os quais que eu saiba só veneza repudia
sem dores nem cuidados horas certas
sem assuntos urgentes porque tudo se tornou esquecimento
como renunciar agora a tanta luz
e como pactuar com tão antiquíssimo poder
como esse que às coisas lhes consente acontecer?
Os plátanos disputam as últimas das folhas
aos ventos e às chuvas de dezembro
e como que se queixam do inverno
Já apodrece o coração das árvores
e essa raça cega mas sagaz dos simples
dos seres condenados à mentira
se socorrem da escuridão das águas
para pensar a parte aos seus servos devida
como se um ser cedesse a raciocínios
quando está em questão a própria vida
Não deixamos no chão o menor rasto
as coisas que pensamos não dão resto
e a destruição do nosso rosto
é agora maior que no delírio do verão
Já não nos surpreende o meio-dia
o mar se o foi deixou de ser inofensivo
um destino de ferro nos detém
e são longos os dias longe de nós próprios
Nem mesmo já se perde a infância imperiosa
na forte frequência das perguntas sem resposta
Até a lua esse incêndio de prata
que antes era como astro fé
agora é autêntica catástrofe
Em nenhum muro branco alguma sombra é
representação possível para o homem
Nos próprios corações a tempestade
se serve da cumplicidade da idade
dos restos impalpáveis dum destino
que não nos mata menos do que aos peixes
no tanque descuidados a água das favas
(tinha chovido lembro-me e assim chove agora
quando peço à infância uma metáfora
e a chuva é mais real que se chovesse)
Tudo trabalha mas ocultamente
e tudo é semelhante ao sobressalto
Terrível tempestade de alegria
que parcela do dia hoje em dia nos permite?
A vida é uma república odiosa
e até é monstruosa essa ponta do pensamento
que deixa nos meus dedos só palavras e não dias
Oculta cresce a erva do profundo sentimento
E mesmo quando fora é domingo
dentro de nós é dia de semana
Que mundo é este mundo destes dias
que mais nos mata do que atenas nos matou?
El corte inglés em plena primavera
segundo o comunicam todos os anúncios
que vejo nas paredes hoje dia dois de março
Vou entrar para ver posso ter lá
o termo deste inverno que me invade
Talvez eu recupere o que perdi
e me veja de novo envolto em folhas
como qualquer árvore anónima que vi
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 29 e 30 | Editorial Presença Lda., 1981
a expensas do mais puro pensamento
que fez deter o dia a hora e o momento
numa fuga da vida e dos ruídos e dos carros
os quais que eu saiba só veneza repudia
sem dores nem cuidados horas certas
sem assuntos urgentes porque tudo se tornou esquecimento
como renunciar agora a tanta luz
e como pactuar com tão antiquíssimo poder
como esse que às coisas lhes consente acontecer?
Os plátanos disputam as últimas das folhas
aos ventos e às chuvas de dezembro
e como que se queixam do inverno
Já apodrece o coração das árvores
e essa raça cega mas sagaz dos simples
dos seres condenados à mentira
se socorrem da escuridão das águas
para pensar a parte aos seus servos devida
como se um ser cedesse a raciocínios
quando está em questão a própria vida
Não deixamos no chão o menor rasto
as coisas que pensamos não dão resto
e a destruição do nosso rosto
é agora maior que no delírio do verão
Já não nos surpreende o meio-dia
o mar se o foi deixou de ser inofensivo
um destino de ferro nos detém
e são longos os dias longe de nós próprios
Nem mesmo já se perde a infância imperiosa
na forte frequência das perguntas sem resposta
Até a lua esse incêndio de prata
que antes era como astro fé
agora é autêntica catástrofe
Em nenhum muro branco alguma sombra é
representação possível para o homem
Nos próprios corações a tempestade
se serve da cumplicidade da idade
dos restos impalpáveis dum destino
que não nos mata menos do que aos peixes
no tanque descuidados a água das favas
(tinha chovido lembro-me e assim chove agora
quando peço à infância uma metáfora
e a chuva é mais real que se chovesse)
Tudo trabalha mas ocultamente
e tudo é semelhante ao sobressalto
Terrível tempestade de alegria
que parcela do dia hoje em dia nos permite?
A vida é uma república odiosa
e até é monstruosa essa ponta do pensamento
que deixa nos meus dedos só palavras e não dias
Oculta cresce a erva do profundo sentimento
E mesmo quando fora é domingo
dentro de nós é dia de semana
Que mundo é este mundo destes dias
que mais nos mata do que atenas nos matou?
El corte inglés em plena primavera
segundo o comunicam todos os anúncios
que vejo nas paredes hoje dia dois de março
Vou entrar para ver posso ter lá
o termo deste inverno que me invade
Talvez eu recupere o que perdi
e me veja de novo envolto em folhas
como qualquer árvore anónima que vi
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 29 e 30 | Editorial Presença Lda., 1981
899
Ruy Belo
Saint-Malo 63
Eu curvo ante a infância a face embaciada
A praça é muito grande para uma criança
Ela estranha as pessoas do jardim,
criança abandonada, limitada vida renascente
e carne e riso
Olhamo-la encher tudo
e vamos cada qual às nossas compras
Já nada em nossos bolsos pesa nem pecados
de novo estamos disponíveis para a Primavera
e muito pequeninamente adormecemos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 99 | Editorial Presença Lda., 1984
A praça é muito grande para uma criança
Ela estranha as pessoas do jardim,
criança abandonada, limitada vida renascente
e carne e riso
Olhamo-la encher tudo
e vamos cada qual às nossas compras
Já nada em nossos bolsos pesa nem pecados
de novo estamos disponíveis para a Primavera
e muito pequeninamente adormecemos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 99 | Editorial Presença Lda., 1984
520
Ruy Belo
A multiplicação do cedro
O senhor deus é espectador desse homem
Encheu-lhe o regaço de dias e soprou-lhe
nos olhos o tempo suave das árvores
Deu-lhe e tirou-lhe uma por uma
cada uma das quatro estações
A primavera veio e ele árvore singular
à beira do tempo plantada
vestiu-se de palavras
E foi a folha verde que deus passou
pela terra desolada e ressequida
Quando as palavras o deixaram de cobrir
ficaram-lhe dois dos olhos por onde
o senhor olha finitamente a sua obra
Até que as chuvas lhe molharam os olhos
e deles saíram rios que foram desaguar
ao grande mar do princípio
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 19 | Editorial Presença Lda., 1984
Encheu-lhe o regaço de dias e soprou-lhe
nos olhos o tempo suave das árvores
Deu-lhe e tirou-lhe uma por uma
cada uma das quatro estações
A primavera veio e ele árvore singular
à beira do tempo plantada
vestiu-se de palavras
E foi a folha verde que deus passou
pela terra desolada e ressequida
Quando as palavras o deixaram de cobrir
ficaram-lhe dois dos olhos por onde
o senhor olha finitamente a sua obra
Até que as chuvas lhe molharam os olhos
e deles saíram rios que foram desaguar
ao grande mar do princípio
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 19 | Editorial Presença Lda., 1984
1 204
Ruy Belo
Homem perto do chão
Na primavera quando as tardes se arredondam
e já nas praias nascem as primeiras ondas
e volta sobre o mar a ave solitária
o homem enche de ar o peito vespertino
arranca o corpo à chuva e às nuvens do inverno
e chega a ter desejos de ficar
Mas em que rosto isento de contradição
há-de ele peregrino erguer a tenda?
Não abrem na cidade à sua frente as ruas
caminha ante deus como se visse
esse deus invisível
Florescem quando passa contraditórios clarins
cantando cada um sua ideia diversa
nenhuma o levará à pátria que procura
Tenham outros tambores ele tem
a pesada cabeça entre as mão caída
Ele que desça ao fundo de todos os olhos
que nos trazem a alma à flor da pele
também não serão lá o coração ou a infância
Quando a tarde morrer ou o outono vier
do seu olhar é que as aves todas partirão
Aí temos um homem perto como nunca nem ninguém do chão
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 20 e 21 | Editorial Presença Lda., 1984
e já nas praias nascem as primeiras ondas
e volta sobre o mar a ave solitária
o homem enche de ar o peito vespertino
arranca o corpo à chuva e às nuvens do inverno
e chega a ter desejos de ficar
Mas em que rosto isento de contradição
há-de ele peregrino erguer a tenda?
Não abrem na cidade à sua frente as ruas
caminha ante deus como se visse
esse deus invisível
Florescem quando passa contraditórios clarins
cantando cada um sua ideia diversa
nenhuma o levará à pátria que procura
Tenham outros tambores ele tem
a pesada cabeça entre as mão caída
Ele que desça ao fundo de todos os olhos
que nos trazem a alma à flor da pele
também não serão lá o coração ou a infância
Quando a tarde morrer ou o outono vier
do seu olhar é que as aves todas partirão
Aí temos um homem perto como nunca nem ninguém do chão
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 20 e 21 | Editorial Presença Lda., 1984
1 179
Affonso Romano de Sant'Anna
In Illo Tempore
Havia uma certa ordem naquele tempo.
Sendo verão, chovia às quatro da tarde.
Os pássaros pousavam nos galhos
cantando cada qual sua canção.
É verdade que cães e gatos
continuam obedecendo às nossas ordens
às vezes absurdas
e alguns deitam-se aos nossos pés
e beijam nossas mãos.
Mas havia uma certa ordem naquele tempo.
Um quadrado era perfeito
e um triângulo de três lados
podia chegar à perfeição.
Sendo verão, chovia às quatro da tarde.
Os pássaros pousavam nos galhos
cantando cada qual sua canção.
É verdade que cães e gatos
continuam obedecendo às nossas ordens
às vezes absurdas
e alguns deitam-se aos nossos pés
e beijam nossas mãos.
Mas havia uma certa ordem naquele tempo.
Um quadrado era perfeito
e um triângulo de três lados
podia chegar à perfeição.
992
Nuno Júdice
Estrelas
Desfaço nas mãos os figos, os fios
fugazes de setembro, enquanto o seu leite
escorre pelas folhas verdes que
os envolvem. Esses figos, que me traziam
em cestos de vime, eram mel na boca
que os saboreava. Secos, iam parar
aos frascos fechados para o inverno, de onde
os tirava para os meter no bolso,
antes de sair. "O que tens aí?", perguntavas-me. E
eu passava-te para a mão um desses figos, e via
como o abrias, chupando os seus grânulos,
e passeando na boca a amêndoa que
o recheava. Onde estarás?, pergunto. Poderia
ainda hoje partilhar, contigo, um
desses figos do inverno? Ou o seu leite secou,
nos cantos dos lábios, roubando-te
as palavras e o húmido murmúrio
do amor?
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 24 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
fugazes de setembro, enquanto o seu leite
escorre pelas folhas verdes que
os envolvem. Esses figos, que me traziam
em cestos de vime, eram mel na boca
que os saboreava. Secos, iam parar
aos frascos fechados para o inverno, de onde
os tirava para os meter no bolso,
antes de sair. "O que tens aí?", perguntavas-me. E
eu passava-te para a mão um desses figos, e via
como o abrias, chupando os seus grânulos,
e passeando na boca a amêndoa que
o recheava. Onde estarás?, pergunto. Poderia
ainda hoje partilhar, contigo, um
desses figos do inverno? Ou o seu leite secou,
nos cantos dos lábios, roubando-te
as palavras e o húmido murmúrio
do amor?
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 24 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 151
Pero da Ponte
Marinha Crespa, Sabedes Filhar
Marinha Crespa, sabedes filhar
eno paaço sempr'um tal logar,
em que ham todos mui bem a pensar
de vós; e por en diz o verv'antigo:
"a boi velho nom lhi busques abrigo."
E no inverno sabedes prender
logar cabo do fogo, ao comer,
ca nom sabedes que x'há de seer
de vós; e por en diz o verv'antigo:
"a boi velho nom lhi busques abrigo."
E no abril, quando gram vento faz,
o abrigo éste vosso solaz,
u fazedes come boi, quando jaz
eno bom prad'; e diz o verv'antigo:
"a boi velho nom lhi busques abrigo."
eno paaço sempr'um tal logar,
em que ham todos mui bem a pensar
de vós; e por en diz o verv'antigo:
"a boi velho nom lhi busques abrigo."
E no inverno sabedes prender
logar cabo do fogo, ao comer,
ca nom sabedes que x'há de seer
de vós; e por en diz o verv'antigo:
"a boi velho nom lhi busques abrigo."
E no abril, quando gram vento faz,
o abrigo éste vosso solaz,
u fazedes come boi, quando jaz
eno bom prad'; e diz o verv'antigo:
"a boi velho nom lhi busques abrigo."
495
António Ramos Rosa
Estendida Sobre a Idade
Estendida sobre a idade sente-se germinar
na solidão que está sendo até ao horizonte
pura virtualidade que ondula interminavelmente
no ardor feliz em que o pensamento limpa
de si o que não é timbre ou transparência ou água.
Consuma-se carregada de aromas e de ócio
tão por fora de si que a embriaga a terra
a que se enlaça na verdura intensa
ao encontrar cada vez muito mais perto
o longe a que aspirava em busca de si mesma.
Espraia-se em paz de ardente imensidade
o seu desejo é tempo espaço movimento.
Tudo é claro porque tudo o que a habita é campo livre
e um sono que vem da luz e da folhagem canta.
Irrigam-se os veios do verão e todo o azul é sítio.
na solidão que está sendo até ao horizonte
pura virtualidade que ondula interminavelmente
no ardor feliz em que o pensamento limpa
de si o que não é timbre ou transparência ou água.
Consuma-se carregada de aromas e de ócio
tão por fora de si que a embriaga a terra
a que se enlaça na verdura intensa
ao encontrar cada vez muito mais perto
o longe a que aspirava em busca de si mesma.
Espraia-se em paz de ardente imensidade
o seu desejo é tempo espaço movimento.
Tudo é claro porque tudo o que a habita é campo livre
e um sono que vem da luz e da folhagem canta.
Irrigam-se os veios do verão e todo o azul é sítio.
1 052
Affonso Romano de Sant'Anna
Debruçado Sobre o Mistério
Não sou o primeiro a debruçar-me sobre o mistério.
Ovídio perscrutava as estações,
Leopardi tinha um pacto com estrelas.
Outros, deixando à parte os instrumentos
humildes e perplexos se renderam.
Não há como ao mistério decifrá-lo.
É próprio dos mistérios serem opacos.
Entrego o pasmo à sua sorte.
Passeio calmo em seus arcanos
aspiro aromas, vejo cores, toco formas
e me dissolvo extasiado nessa aura.
Ovídio perscrutava as estações,
Leopardi tinha um pacto com estrelas.
Outros, deixando à parte os instrumentos
humildes e perplexos se renderam.
Não há como ao mistério decifrá-lo.
É próprio dos mistérios serem opacos.
Entrego o pasmo à sua sorte.
Passeio calmo em seus arcanos
aspiro aromas, vejo cores, toco formas
e me dissolvo extasiado nessa aura.
1 040
Nuno Júdice
Carta de Orfeu a Eurídice - 1
Assim os vivos também se tornam fantasmas: Bato-lhes à porta da alma, vagueio num descampado de sentimentos, chamo-os - e vejo-os partir. Construo a solidão com os pedaços das imagens que me deixaram. Ergo edifícios a partir de memórias, de palavras, de gestos que ficaram das nossas conversas, quando o tempo se reduzia ao instante que vivíamos, e nenhum futuro nos impunha a sua sombra. Agora, porém, a que estação te irei buscar? Em que banco de jardim te irei surpreender, olhando essa manhã que marca a separação dos amantes? Limito-me a esperar que esta porta se abra, uma vez mais, e a Primavera entre para este quarto onde a noite se instalou.
No entanto, és tu que eu quero guardar neste canto onde as aves fugiram. Sei que um pressentimento de Outono fez cair todas as folhas, deixando à vista o horizonte seco como esse espelho onde nada se reflecte, com o seu descanso mais negro. Será isso aquilo a que se chama amor? Ouve: os murmúrios que nascem de uma entrega de corpos, por entre os silêncios da casa, ou então sobrepondo-se a um vago ruído de chuva, nos vidros, enquanto o desejo corre pelos teus lábios como a nuvem mais frágil do destino. E ainda: a música quem impões a plenitude de uma recompensa, como se ela pudesse durar mais do que o tempo que nos é imposto? Dizes-me: um dom doloroso. Mas o que é o amor senão esse trabalho de renúncia e entrega, a lenta bebida que nos impregna com o seu veneno, e nos concede a única vida possível?
Então, regressa da tua ausência; ou dá-me ao menos a tua sombra, para que ela me cubra com esse manto de obstinação que só os tristes arrastam.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 49 e 50 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
No entanto, és tu que eu quero guardar neste canto onde as aves fugiram. Sei que um pressentimento de Outono fez cair todas as folhas, deixando à vista o horizonte seco como esse espelho onde nada se reflecte, com o seu descanso mais negro. Será isso aquilo a que se chama amor? Ouve: os murmúrios que nascem de uma entrega de corpos, por entre os silêncios da casa, ou então sobrepondo-se a um vago ruído de chuva, nos vidros, enquanto o desejo corre pelos teus lábios como a nuvem mais frágil do destino. E ainda: a música quem impões a plenitude de uma recompensa, como se ela pudesse durar mais do que o tempo que nos é imposto? Dizes-me: um dom doloroso. Mas o que é o amor senão esse trabalho de renúncia e entrega, a lenta bebida que nos impregna com o seu veneno, e nos concede a única vida possível?
Então, regressa da tua ausência; ou dá-me ao menos a tua sombra, para que ela me cubra com esse manto de obstinação que só os tristes arrastam.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 49 e 50 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 214
Airas Nunes
Que Muito M'eu Pago Deste Verão
Que muito m'eu pago deste verão,
por estes ramos e por estas flores
e polas aves que cantam d'amores,
por que ando i led'e sem cuidado;
e assi faz tod'homem namorado:
sempre i anda led'e mui loução.
Cand'eu passo per algũas ribeiras,
sô bõas árvores, per bõos prados,
se cantam i pássaros namorados,
log'eu com amores i vou cantando,
e log'ali d'amores vou trobando
e faço cantares em mil maneiras.
Hei eu gram viç[o] e grand'alegria
quando mi as aves cantam no estio.
por estes ramos e por estas flores
e polas aves que cantam d'amores,
por que ando i led'e sem cuidado;
e assi faz tod'homem namorado:
sempre i anda led'e mui loução.
Cand'eu passo per algũas ribeiras,
sô bõas árvores, per bõos prados,
se cantam i pássaros namorados,
log'eu com amores i vou cantando,
e log'ali d'amores vou trobando
e faço cantares em mil maneiras.
Hei eu gram viç[o] e grand'alegria
quando mi as aves cantam no estio.
843
Charles Bukowski
O Filho do Diabo
Eu tinha onze anos e meus dois amigos, Hass e Morgan, tinham doze, e era verão, não tinha aula, e nos sentamos no gramado, ao sol, atrás da garagem do meu pai, fumando cigarros.
– Droga! – eu disse.
Eu estava sentado sob uma árvore. Morgan e Hass estavam sentados de costas para a garagem.
– O que foi? – perguntou Morgan.
– Temos que pegar aquele filho da puta – eu disse. – Ele é um problema na vizinhança!
– Quem? – perguntou Hass.
– O Simpson – eu disse.
– É mesmo – disse Hass –, ele tem sardas demais. Me irrita.
– Não é isso – eu disse.
– Não? – disse Morgan.
– Não. Aquele filho da puta disse que comeu uma garota debaixo da minha casa semana passada. É uma baita mentira! – eu disse.
– Sem dúvida! – disse Hass.
– Ele nem sabe trepar – disse Morgan.
– O que ele sabe é mentir – eu disse.
– Mentirosos não servem pra nada – Hass disse, soprando um arco de fumaça no ar.
– Eu não gosto de ouvir esse tipo de baboseira de um cara que tem sardas – disse Morgan.
– Bem, então talvez a gente tenha que pegar ele – sugeri.
– Por que não? – perguntou Hass.
– Vamos pegar ele – disse Morgan.
Cruzamos a calçada da casa de Simpson e lá estava ele, jogando bola contra a parede da garagem.
– Ei – eu disse –, olhem só quem está brincando sozinho!
Simpson pegou a bola num salto e se virou para nós.
– Olá, companheiros!
Nós o cercamos.
– Andou comendo alguma garota embaixo de alguma casa nesses últimos dias? – perguntou Morgan.
– Não!
– Como não?
– Ah, sei lá.
– Eu não acredito que você tenha comido alguém a não ser você mesmo! – eu disse.
– Eu vou entrar agora – disse Simpson. – Minha mãe me pediu para lavar a louça.
– Sua mãe mete a louça na buceta? – provocou Morgan.
Nós rimos. Chegamos mais perto de Simpson. De súbito, meti um soco na barriga dele. Ele se curvou para frente, segurando o estômago. Ficou desse jeito durante meio minuto, depois se endireitou.
– Meu pai vai chegar a qualquer momento – ele nos disse.
– Ah é? Seu pai também come menininhas debaixo das casas? – perguntei.
– Não.
Nós rimos.
Simpson não disse nada.
– Olhem pra essas sardas – disse Morgan. – Toda vez que ele come uma menininha embaixo de uma casa nasce uma sarda nova.
Simpson não disse nada. Parecia cada vez mais assustado.
– Eu tenho uma irmã – disse Hass. – Quem me garante que você não vai tentar comer a minha irmã embaixo de uma casa?
– Eu nunca faria isso, Hass, te dou a minha palavra!
– Ah é?
– Sim, de verdade!
– Bem, isso é pra você não mudar de ideia!
Hass meteu um soco na barriga de Simpson. Simpson se curvou de novo. Hass se abaixou, pegou um punhado de terra e enfiou na gola da camiseta de Simpson. Simpson se endireitou. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Um veadinho.
– Deixem eu ir, por favor!
– Ir pra onde? – perguntei. – Quer se esconder debaixo da saia da sua mãe para ver a louça sair da buceta dela?
– Você nunca comeu ninguém – disse Morgan –, você não tem nem pau! Você mija pelas orelhas!
– Se um dia eu pegar você olhando pra minha irmã – disse Hass –, vai levar uma surra tão grande que vai virar uma sarda gigante.
– Me deixem ir embora, por favor!
Senti vontade de deixar ele ir. Talvez ele não tivesse comido ninguém. Talvez só estivesse sonhando acordado. Mas eu era o jovem líder. Não podia mostrar compaixão.
– Você vem conosco, Simpson.
– Não!
– Não o caralho! Você vem conosco! Agora, anda!
Caminhei ao redor dele e lhe dei um chute na bunda, bem forte. Ele gritou.
– CALE A BOCA! – berrei. – CALE A BOCA OU VAI SER PIOR! AGORA ANDE!
Nós o conduzimos até a calçada, cruzamos o gramado até a calçada da minha casa e seguimos para o meu quintal.
– Agora se endireite! – eu disse. – Solte as mãos! Vamos organizar um tribunal improvisado!
Eu me virei para Morgan e Hass e perguntei:
– Todos aqueles que acham que este homem é culpado por mentir que comeu uma menininha debaixo da minha casa devem dizer “culpado”.
– Culpado – disse Hass.
– Culpado – disse Morgan.
– Culpado – eu disse.
Eu me virei para o prisioneiro.
– Simpson, você é considerado culpado!
As lágrimas agora escorriam de seus olhos.
– Mas eu não fiz nada – resmungou.
– É disso que você é culpado – disse Hass. – De mentir!
– Mas vocês mentem o tempo todo!
– Não sobre trepar – disse Morgan.
– É sobre isso que vocês mais mentem. Foi com vocês que eu aprendi!
– Sargento – eu me virei para Hass –, amordace o prisioneiro. Estou cansado de suas mentiras de merda!
– Sim, senhor!
Hass correu até o varal. Encontrou um lenço e um pano de prato. Seguramos Simpson, e ele enfiou o lenço em sua boca e amarrou o pano de prato por cima. Simpson emitiu um som abafado e mudou de cor.
– Você acha que ele consegue respirar? – perguntou Morgan.
– Ele pode respirar pelo nariz – eu disse.
– Pois é – concordou Hass.
– O que a gente vai fazer agora? – perguntou Morgan.
– O prisioneiro é culpado, não é? – perguntei.
– Sim.
– Bem, como juiz eu o sentencio a ser enforcado até a morte!
Simpson fez uns barulhos por baixo de sua mordaça. Seus olhos nos encaravam, implorando. Corri até a garagem e peguei a corda. Havia uma, cuidadosamente enrolada, pendurada num grande gancho na parede. Eu não fazia a menor ideia de por que meu pai tinha aquela corda. Até onde eu sabia, ele nunca a havia usado. Agora ela teria uma utilidade.
Saí da garagem levando a corda.
Simpson começou a correr. Hass estava bem atrás dele. Ele pulou em cima de Simpson e o derrubou no chão. Virou-lhe o corpo e começou a dar socos na cara dele. Eu corri até eles e bati forte com a ponta da corda no rosto de Hass. Ele parou com os socos. Olhou para mim.
– Seu filho da puta, eu vou te dar uma surra!
– Como juiz, meu veredicto foi que esse homem seria enforcado. E assim será! SOLTEM O PRISIONEIRO!
– Seu filho da puta, vou te dar uma surra daquelas!
– Primeiro, vamos enforcar o prisioneiro! Depois você e eu resolveremos nossas desavenças.
– Resolveremos mesmo – disse Hass.
– Levante-se, prisioneiro! – eu disse.
Hass se moveu rapidamente e Simpson se ergueu. Seu nariz estava sangrando e havia manchado a parte da frente de sua camiseta. Seu sangue era de um vermelho muito vivo. Mas Simpson parecia resignado. Não estava mais chorando. Seus olhos, porém, revelavam traços de pavor, algo terrível de se ver.
– Me dê um cigarro – eu disse para Morgan.
Ele pôs um na minha boca.
– Acenda – eu disse.
Morgan acendeu o cigarro e eu dei uma tragada, então, segurando o cigarro entre meus lábios, exalei a fumaça pelo nariz enquanto fazia um laço na ponta da corda.
– Levem o prisioneiro para a varanda! – ordenei.
Havia uma varanda nos fundos da casa. Sobre a varanda, havia uma saliência. Lancei a corda sobre uma trave, e então puxei o laço para baixo, em frente à cabeça de Simpson. Eu não queria mais ir adiante com aquilo. Achava que Simpson já havia sofrido o suficiente, mas eu era o líder e ia ter que brigar com Hass depois, assim não podia demonstrar nenhum sinal de fraqueza.
– Talvez a gente não devesse fazer isso – disse Morgan.
– O homem é culpado! – gritei.
– Isso mesmo! – gritou Hass. – Ele deve ser enforcado!
– Olhem, ele se mijou todo – disse Morgan.
De fato, havia uma mancha escura na parte da frente das calças de Simpson, e ela estava aumentando.
– Covarde – eu disse.
Coloquei o laço sobre a cabeça de Simpson. Dei um puxão na corda e levantei Simpson até a ponta dos seus pés. Então, peguei a outra ponta da corda e amarrei numa torneira no lado da casa. Dei um nó bem apertado na corda e gritei:
– Vamos dar o fora daqui!
Olhamos para Simpson, que se equilibrava na ponta dos pés. Ele estava girando um pouco, devagar, parecia já estar morto.
Comecei a correr. Morgan e Hass correram também. Corremos até a calçada e então Morgan e Hass foram embora, cada um para a sua casa. Dei-me conta de que eu não tinha para onde ir. Hass, eu pensei, ou você se esqueceu da briga ou não queria brigar.
Fiquei parado na calçada por alguns instantes, então corri de volta ao pátio. Simpson ainda estava girando. Um pouco, devagar. Tínhamos esquecido de amarrar suas mãos. Ele estava com as mãos erguidas, tentando aliviar a pressão em seu pescoço, mas não estava conseguindo. Corri até a torneira, desatei a corda e a soltei. Simpson bateu na varanda, depois tropeçou e caiu no gramado.
Ele estava de bruços. Virei seu corpo e tirei a mordaça. Ele estava mal. Tinha o aspecto de quem poderia morrer a qualquer momento. Me debrucei sobre ele.
– Ouça bem, seu filho da puta, não morra, eu não queria te matar, de verdade. Se você morrer, vai ser triste. Mas se não morrer e contar isso para alguém, aí você não me escapa. Entendeu?
Simpson não respondeu. Apenas me olhou. Ele estava péssimo. Seu rosto estava roxo e ele tinha marcas de corda no pescoço.
Eu me levantei. Olhei-o por alguns instantes. Ele não se movia. A coisa estava feia. Fiquei tonto. Depois me recompus. Respirei fundo e caminhei até a calçada. Era cerca de quatro da tarde. Comecei a caminhar. Caminhei até a avenida e segui caminhando. Eu estava pensativo. Sentia que minha vida tinha se acabado. Simpson sempre gostara de andar sozinho. Talvez fosse solitário. Nunca se misturava com a gente ou com os outros garotos. Ele era estranho nesse sentido. Talvez fosse isso o que nos incomodava nele. Mesmo assim, ele tinha algo de bom. Eu sentia que havia feito algo muito ruim e, ao mesmo tempo, sentia que não. Na maior parte do tempo eu tinha um sentimento vago, que se centrava no meu estômago. Caminhei e caminhei. Caminhei até a autoestrada e voltei. Meus sapatos machucavam muito meus pés. Meus pais sempre me compravam sapatos vagabundos. Pareciam bons por mais ou menos uma semana, então o couro rachava e as unhas começavam a atravessar a sola. Eu segui caminhando mesmo assim.
Quando voltei para casa já era quase noite. Caminhei vagarosamente pela calçada em direção ao quintal. Simpson não estava lá. Nem a corda. Talvez ele estivesse morto. Talvez ele estivesse em outro lugar. Olhei em volta.
Vi o rosto do meu pai pela porta de tela.
– Venha aqui – ele falou.
Subi as escadas da varanda e passei por ele.
– A sua mãe ainda não chegou. Melhor assim. Vá para o quarto. Quero ter uma conversinha com você.
Avancei até o quarto, sentei na cama e olhei para os meus sapatos vagabundos. Meu pai era um homem grande, mais de um metro e oitenta de altura. Ele tinha uma cabeça grande e olhos que pareciam pendurados sob suas sobrancelhas bagunçadas. Tinha lábios grossos e orelhas grandes. Era másculo sem precisar fazer esforço algum.
– Por onde você andava? – ele perguntou.
– Por aí, caminhando.
– Caminhando? Por quê?
– Gosto de caminhar.
– Desde quando?
– Desde hoje.
Fez-se um longo silêncio. Então ele falou de novo.
– O que aconteceu no nosso quintal hoje à tarde?
– Ele está morto?
– Quem?
– Eu disse pra ele não contar. Se ele contou, é porque não está morto.
– Não, ele não está morto. E os pais dele iam chamar a polícia. Tive que conversar um longo tempo com eles para convencê-los a não fazer isso. Se eles tivessem chamado a polícia, sua mãe teria ficado arrasada! Está entendendo?
Não respondi.
– Sua mãe teria ficado arrasada! Você entende isso?
Não respondi.
– Tive que pagar para que ficassem calados. E, além disso, vou ter que pagar as despesas médicas. Você vai levar a surra da sua vida! Eu vou te dar um corretivo! Não vou criar um filho incapaz de viver em sociedade!
Ele ficou de pé junto à porta, parado. Eu olhei para os seus olhos debaixo daquelas sobrancelhas, para aquele corpo enorme.
– Chame a polícia – eu disse. – Não quero você. Prefiro a polícia.
Ele se aproximou de mim devagar.
– A polícia não entende gente como você.
Levantei da cama e cerrei os pulsos.
– Vamos lá – eu disse –, vou lutar com você!
Com um rápido movimento ele estava em cima de mim. Foi como se um raio de luz me cegasse, uma pancada tão forte que nem cheguei a sentir. Eu estava no chão. Levantei-me.
– É melhor você me matar – eu disse –, porque, quando eu crescer, vou matar você!
A pancada que veio a seguir me arrastou para baixo da cama. Parecia um bom lugar para estar. Olhei para as molas. Eu nunca tinha visto nada mais agradável e maravilhoso que aquelas molas acima de mim. Então eu ri. Foi um riso apavorado, mas eu ri, e ri porque me veio o pensamento de que talvez o Simpson tivesse de fato comido uma garota debaixo da minha casa.
– De que diabos você está rindo? – gritou meu pai. – Você é mesmo o filho do Diabo, você não é meu filho!
Vi sua enorme mão tatear por baixo da cama, procurando por mim. Quando se aproximou, agarrei a sua mão com as minhas e a mordi com toda a força. Ouvi um gemido feroz e a mão se recolheu. Senti o gosto de sangue e carne em minha boca, cuspi fora. Então eu soube que, apesar de Simpson estar vivo, eu poderia estar morto dentro de poucos instantes.
– Muito bem – ouvi meu pai dizer em voz baixa –, agora você pediu e, por Deus, você vai levar.
Eu esperei. E, enquanto esperava, ouvia apenas alguns sons estranhos. Ouvia os pássaros, o som dos carros que passavam, ouvia até mesmo o som do meu coração batendo forte, o som do sangue correndo em minhas veias. Eu ouvia a respiração do meu pai, e me arrastei até a parte do meio da cama e esperei pelo que viria em seguida.
– Septuagenarian Stew
A quinta série era um pouco melhor. Os outros estudantes pareciam menos hostis, e eu crescia fisicamente. Ainda não era escolhido para os times da escola, mas já não sofria ameaças frequentes. David e seu violino tinham partido. Sua família se mudara. Agora eu caminhava sozinho para casa. Muitas vezes, um ou dois caras me seguiam, dentre os quais Juan era o pior, mas não chegavam a me fazer nada. Juan fumava cigarros. Caminhava atrás de mim fumando um cigarro e sempre tinha consigo um parceiro diferente. Jamais me seguia sozinho. Isso me assustava. Queria que eles sumissem. Contudo, por outro lado, eu não dava muita bola. Não gostava de Juan. Não gostava de ninguém naquela escola. Creio que eles sabiam disso. Devia ser por isso que não simpatizavam comigo. Não gostava do jeito que eles caminhavam, de sua aparência, do modo como falavam, mas também não gostava dessas coisas em meu pai e minha mãe. Continuava com a sensação de estar cercado por um grande espaço em branco, um vazio. Havia sempre uma sombra de náusea em meu estômago. Juan tinha a pele morena e usava uma corrente de metal em vez de cinto. As garotas tinham medo dele, assim como os rapazes. Ele e um dos seus capangas me seguiam quase todos os dias. Eu entrava em casa, e eles ficavam parados lá fora. Juan fumaria seu cigarro, bancando o durão, e seu parceiro ficaria ali parado. Eu os observava através das cortinas. Finalmente, depois de um tempo, eles acabavam partindo.
A sra. Fretag era nossa professora de Inglês. No primeiro dia de aula ela perguntou o nome de cada um de nós.
– Quero conhecer cada um de vocês – ela disse.
Sorriu.
– Bem, cada um de vocês tem um pai, estou certa. Penso que seria interessante se descobríssemos o que eles fazem para viver. Começaremos pelo primeiro da fila e iremos adiante, até que todos na sala tenham falado. E então, Marie, o que seu pai faz da vida?
– Ele é jardineiro.
– Ah, mas que legal! Carteira número dois... Andrew, o que seu pai faz?
Foi terrível. Os pais de todos os meus colegas das redondezas tinham perdido seus empregos. Meu pai havia perdido o emprego. O pai de Gene ficava o dia inteiro sentado na varanda. Todos estavam desempregados com exceção do pai de Chuck, que trabalhava num matadouro. Ele dirigia o carro que entregava as carnes, um carro vermelho com o nome do matadouro gravado nos lados.
– Meu pai é bombeiro – disse o número dois.
– Ah, isso é interessante – disse a sra. Fretag. – Carteira número três.
– Meu pai é advogado.
– Carteira quatro.
– Meu pai é... policial...
O que eu iria dizer? Talvez apenas os pais da minha vizinhança estivessem sem emprego. Tinha ouvido falar do crack da bolsa. Significava algo ruim. Talvez o mercado só tivesse entrado em colapso na nossa vizinhança.
– Carteira dezoito.
– Meu pai é ator de cinema...
– Dezenove...
– Meu pai toca violino em concertos...
– Vinte...
– Meu pai trabalha num circo...
– Vinte e um...
– Meu pai é motorista de ônibus...
– Vinte e dois...
– Meu pai é cantor de ópera...
– Vinte e três...
Vinte e três. Era eu.
– Meu pai é dentista – eu disse.
A sra Fretag prosseguiu até que chegou no número 33.
– Meu pai não tem emprego – disse o número 33.
Merda, pensei, queria ter pensado nisso.
Um dia, a sra. Fretag nos passou uma tarefa.
– Nosso ilustríssimo senhor presidente, Herbert Hoover, virá visitar Los Angeles no sábado e fará um discurso. Quero que todos vocês vão até lá ouvir o nosso presidente. E quero que escrevam um ensaio sobre a experiência e sobre o que vocês acharam do discurso do presidente Hoover.
Sábado? Não havia a mínima chance de que eu pudesse ir. Era dia de cortar a grama. Eu tinha que cuidar dos fiapinhos. (Eu nunca conseguia eliminá-los por completo.) Praticamente todos os sábados eu apanhava com o amolador de navalha porque meu pai encontrava um fiapo. (Também apanhava durante a semana, uma ou duas vezes, por outras coisas que eu deixava de fazer ou não fazia corretamente.) Não tinha como dizer a meu pai que eu iria assistir ao presidente Hoover.
Assim, não fui. No dia seguinte, peguei um jornal dominical e me sentei para escrever sobre a aparição do presidente. Seu carro aberto, abrindo caminho entre as bandeiras tremulantes, tinha entrado no estádio de futebol. Um carro, cheio de agentes do serviço secreto, lhe abria caminho, enquanto outros dois seguiam o carro presidencial de perto. Os agentes eram homens de coragem, armados para proteger nosso presidente. A multidão se levantou quando o carro presidencial entrou na arena. Nunca acontecera anteriormente nada parecido. Era o presidente. Era ele. Acenou. Nós aplaudimos. Uma banda começou a tocar. Gaivotas sobrevoavam em círculos, como se soubessem que se tratava do presidente. E havia ainda aviões que escreviam mensagens de fumaça no céu. Escreviam no ar frases como: “A prosperidade está logo ali na esquina”. O presidente se pôs de pé em seu carro, e, assim que ele fez esse movimento, as nuvens se afastaram e os raios de sol incidiram diretamente em seu rosto. Era quase como se Deus também soubesse quem ele era. Então os carros pararam, e nosso grande presidente, rodeado pelos agentes do serviço secreto, caminhou até o palanque. Ao se posicionar junto ao microfone, um pássaro desceu do céu e pousou sobre a bancada em que estava o microfone. O presidente acenou para o pássaro e riu e todos nós rimos com ele. Então ele começou a falar, e as pessoas passaram a ouvi-lo com atenção. Eu quase não conseguia ouvir o discurso porque estava sentado muito próximo a uma máquina de pipocas que fazia muito barulho estourando os grãos, mas creio ter escutado ele falar que os problemas na Manchúria não eram muito sérios e que aqui no país as coisas logo entrariam nos eixos, que não devíamos nos preocupar, tudo o que precisávamos fazer era acreditar na América. Haveria empregos para todo mundo. Haveria bastantes dentistas e dentes suficientes para arrancar, bastantes incêndios e bombeiros bastantes para apagá-los. As fábricas e as indústrias reabririam. Nossos amigos na África do Sul pagariam suas dívidas. Logo todos dormiríamos tranquilamente, com os estômagos cheios e os corações pacificados. Deus e nosso grande país nos envolveriam em seu amor, nos protegendo do mal, dos socialistas, nos despertando de nosso pesadelo nacional, para sempre...
O presidente ouviu os aplausos, acenou, então voltou para o carro, entrou e partiu seguido pelos carros apinhados de agentes do serviço secreto enquanto o sol mergulhava no horizonte e o entardecer se fazia noite, vermelho, dourado e maravilhoso. Havíamos visto e ouvido o presidente Herbert Hoover.
Entreguei meu ensaio na segunda-feira. Na terça, a sra. Fretag se dirigiu à classe:
– Li os ensaios de todos vocês sobre a visita do nosso ilustríssimo presidente a Los Angeles. Eu estava lá. Alguns de vocês, pelo que pude notar, não puderam comparecer ao evento por uma ou outra razão. Para aqueles entre vocês que não puderam estar lá, gostaria de ler o ensaio escrito por Henry Chinaski.
Um terrível silêncio se abateu sobre a turma. Eu era de longe o aluno mais impopular da classe. Era como se todos eles tivessem levado uma facada no coração.
– Este é um texto muito criativo – disse a sra. Fretag e começou a ler meu ensaio.
As palavras me soavam bem. Todos escutavam. Minhas palavras enchiam a sala, corriam de um lado a outro pelo quadro-negro, ricocheteavam no teto e cobriam os sapatos da sra. Fretag, se amontoando no chão. Algumas das garotas mais lindas da classe começaram a me lançar olhares furtivos. Os caras durões estavam putos da cara. Seus ensaios não valiam merda nenhuma. Eu bebia de minhas próprias palavras como se fosse um homem sedento. Comecei, inclusive, a acreditar que elas representassem a verdade. Vi Juan sentado ali como se eu lhe tivesse esmurrado a cara. Estiquei minhas pernas e me recostei na cadeira. Logo, porém, estava tudo terminado.
– Com essa grande redação – disse a sra. Fretag –, encerro a aula...
Todos se levantaram e começaram a guardar seus materiais.
– Você não, Henry.
Sentei-me na cadeira, e a sra. Fretag ficou ali, me encarando. Então disse:
– Henry, você estava lá?
Tentei encontrar uma resposta. Nada me ocorreu. Eu disse:
– Não, eu não estava lá.
Ela sorriu.
– Isso faz com que seu ensaio seja ainda mais notável.
– Sim, madame...
– Você já pode ir, Henry.
Levantei-me e deixei a sala. Fui para casa. Então era isso que eles queriam: mentiras. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas. Seria fácil para mim. Olhei em volta. Juan e seu comparsa não estavam me seguindo. As coisas estavam melhorando.
– Misto-quente
– Droga! – eu disse.
Eu estava sentado sob uma árvore. Morgan e Hass estavam sentados de costas para a garagem.
– O que foi? – perguntou Morgan.
– Temos que pegar aquele filho da puta – eu disse. – Ele é um problema na vizinhança!
– Quem? – perguntou Hass.
– O Simpson – eu disse.
– É mesmo – disse Hass –, ele tem sardas demais. Me irrita.
– Não é isso – eu disse.
– Não? – disse Morgan.
– Não. Aquele filho da puta disse que comeu uma garota debaixo da minha casa semana passada. É uma baita mentira! – eu disse.
– Sem dúvida! – disse Hass.
– Ele nem sabe trepar – disse Morgan.
– O que ele sabe é mentir – eu disse.
– Mentirosos não servem pra nada – Hass disse, soprando um arco de fumaça no ar.
– Eu não gosto de ouvir esse tipo de baboseira de um cara que tem sardas – disse Morgan.
– Bem, então talvez a gente tenha que pegar ele – sugeri.
– Por que não? – perguntou Hass.
– Vamos pegar ele – disse Morgan.
Cruzamos a calçada da casa de Simpson e lá estava ele, jogando bola contra a parede da garagem.
– Ei – eu disse –, olhem só quem está brincando sozinho!
Simpson pegou a bola num salto e se virou para nós.
– Olá, companheiros!
Nós o cercamos.
– Andou comendo alguma garota embaixo de alguma casa nesses últimos dias? – perguntou Morgan.
– Não!
– Como não?
– Ah, sei lá.
– Eu não acredito que você tenha comido alguém a não ser você mesmo! – eu disse.
– Eu vou entrar agora – disse Simpson. – Minha mãe me pediu para lavar a louça.
– Sua mãe mete a louça na buceta? – provocou Morgan.
Nós rimos. Chegamos mais perto de Simpson. De súbito, meti um soco na barriga dele. Ele se curvou para frente, segurando o estômago. Ficou desse jeito durante meio minuto, depois se endireitou.
– Meu pai vai chegar a qualquer momento – ele nos disse.
– Ah é? Seu pai também come menininhas debaixo das casas? – perguntei.
– Não.
Nós rimos.
Simpson não disse nada.
– Olhem pra essas sardas – disse Morgan. – Toda vez que ele come uma menininha embaixo de uma casa nasce uma sarda nova.
Simpson não disse nada. Parecia cada vez mais assustado.
– Eu tenho uma irmã – disse Hass. – Quem me garante que você não vai tentar comer a minha irmã embaixo de uma casa?
– Eu nunca faria isso, Hass, te dou a minha palavra!
– Ah é?
– Sim, de verdade!
– Bem, isso é pra você não mudar de ideia!
Hass meteu um soco na barriga de Simpson. Simpson se curvou de novo. Hass se abaixou, pegou um punhado de terra e enfiou na gola da camiseta de Simpson. Simpson se endireitou. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Um veadinho.
– Deixem eu ir, por favor!
– Ir pra onde? – perguntei. – Quer se esconder debaixo da saia da sua mãe para ver a louça sair da buceta dela?
– Você nunca comeu ninguém – disse Morgan –, você não tem nem pau! Você mija pelas orelhas!
– Se um dia eu pegar você olhando pra minha irmã – disse Hass –, vai levar uma surra tão grande que vai virar uma sarda gigante.
– Me deixem ir embora, por favor!
Senti vontade de deixar ele ir. Talvez ele não tivesse comido ninguém. Talvez só estivesse sonhando acordado. Mas eu era o jovem líder. Não podia mostrar compaixão.
– Você vem conosco, Simpson.
– Não!
– Não o caralho! Você vem conosco! Agora, anda!
Caminhei ao redor dele e lhe dei um chute na bunda, bem forte. Ele gritou.
– CALE A BOCA! – berrei. – CALE A BOCA OU VAI SER PIOR! AGORA ANDE!
Nós o conduzimos até a calçada, cruzamos o gramado até a calçada da minha casa e seguimos para o meu quintal.
– Agora se endireite! – eu disse. – Solte as mãos! Vamos organizar um tribunal improvisado!
Eu me virei para Morgan e Hass e perguntei:
– Todos aqueles que acham que este homem é culpado por mentir que comeu uma menininha debaixo da minha casa devem dizer “culpado”.
– Culpado – disse Hass.
– Culpado – disse Morgan.
– Culpado – eu disse.
Eu me virei para o prisioneiro.
– Simpson, você é considerado culpado!
As lágrimas agora escorriam de seus olhos.
– Mas eu não fiz nada – resmungou.
– É disso que você é culpado – disse Hass. – De mentir!
– Mas vocês mentem o tempo todo!
– Não sobre trepar – disse Morgan.
– É sobre isso que vocês mais mentem. Foi com vocês que eu aprendi!
– Sargento – eu me virei para Hass –, amordace o prisioneiro. Estou cansado de suas mentiras de merda!
– Sim, senhor!
Hass correu até o varal. Encontrou um lenço e um pano de prato. Seguramos Simpson, e ele enfiou o lenço em sua boca e amarrou o pano de prato por cima. Simpson emitiu um som abafado e mudou de cor.
– Você acha que ele consegue respirar? – perguntou Morgan.
– Ele pode respirar pelo nariz – eu disse.
– Pois é – concordou Hass.
– O que a gente vai fazer agora? – perguntou Morgan.
– O prisioneiro é culpado, não é? – perguntei.
– Sim.
– Bem, como juiz eu o sentencio a ser enforcado até a morte!
Simpson fez uns barulhos por baixo de sua mordaça. Seus olhos nos encaravam, implorando. Corri até a garagem e peguei a corda. Havia uma, cuidadosamente enrolada, pendurada num grande gancho na parede. Eu não fazia a menor ideia de por que meu pai tinha aquela corda. Até onde eu sabia, ele nunca a havia usado. Agora ela teria uma utilidade.
Saí da garagem levando a corda.
Simpson começou a correr. Hass estava bem atrás dele. Ele pulou em cima de Simpson e o derrubou no chão. Virou-lhe o corpo e começou a dar socos na cara dele. Eu corri até eles e bati forte com a ponta da corda no rosto de Hass. Ele parou com os socos. Olhou para mim.
– Seu filho da puta, eu vou te dar uma surra!
– Como juiz, meu veredicto foi que esse homem seria enforcado. E assim será! SOLTEM O PRISIONEIRO!
– Seu filho da puta, vou te dar uma surra daquelas!
– Primeiro, vamos enforcar o prisioneiro! Depois você e eu resolveremos nossas desavenças.
– Resolveremos mesmo – disse Hass.
– Levante-se, prisioneiro! – eu disse.
Hass se moveu rapidamente e Simpson se ergueu. Seu nariz estava sangrando e havia manchado a parte da frente de sua camiseta. Seu sangue era de um vermelho muito vivo. Mas Simpson parecia resignado. Não estava mais chorando. Seus olhos, porém, revelavam traços de pavor, algo terrível de se ver.
– Me dê um cigarro – eu disse para Morgan.
Ele pôs um na minha boca.
– Acenda – eu disse.
Morgan acendeu o cigarro e eu dei uma tragada, então, segurando o cigarro entre meus lábios, exalei a fumaça pelo nariz enquanto fazia um laço na ponta da corda.
– Levem o prisioneiro para a varanda! – ordenei.
Havia uma varanda nos fundos da casa. Sobre a varanda, havia uma saliência. Lancei a corda sobre uma trave, e então puxei o laço para baixo, em frente à cabeça de Simpson. Eu não queria mais ir adiante com aquilo. Achava que Simpson já havia sofrido o suficiente, mas eu era o líder e ia ter que brigar com Hass depois, assim não podia demonstrar nenhum sinal de fraqueza.
– Talvez a gente não devesse fazer isso – disse Morgan.
– O homem é culpado! – gritei.
– Isso mesmo! – gritou Hass. – Ele deve ser enforcado!
– Olhem, ele se mijou todo – disse Morgan.
De fato, havia uma mancha escura na parte da frente das calças de Simpson, e ela estava aumentando.
– Covarde – eu disse.
Coloquei o laço sobre a cabeça de Simpson. Dei um puxão na corda e levantei Simpson até a ponta dos seus pés. Então, peguei a outra ponta da corda e amarrei numa torneira no lado da casa. Dei um nó bem apertado na corda e gritei:
– Vamos dar o fora daqui!
Olhamos para Simpson, que se equilibrava na ponta dos pés. Ele estava girando um pouco, devagar, parecia já estar morto.
Comecei a correr. Morgan e Hass correram também. Corremos até a calçada e então Morgan e Hass foram embora, cada um para a sua casa. Dei-me conta de que eu não tinha para onde ir. Hass, eu pensei, ou você se esqueceu da briga ou não queria brigar.
Fiquei parado na calçada por alguns instantes, então corri de volta ao pátio. Simpson ainda estava girando. Um pouco, devagar. Tínhamos esquecido de amarrar suas mãos. Ele estava com as mãos erguidas, tentando aliviar a pressão em seu pescoço, mas não estava conseguindo. Corri até a torneira, desatei a corda e a soltei. Simpson bateu na varanda, depois tropeçou e caiu no gramado.
Ele estava de bruços. Virei seu corpo e tirei a mordaça. Ele estava mal. Tinha o aspecto de quem poderia morrer a qualquer momento. Me debrucei sobre ele.
– Ouça bem, seu filho da puta, não morra, eu não queria te matar, de verdade. Se você morrer, vai ser triste. Mas se não morrer e contar isso para alguém, aí você não me escapa. Entendeu?
Simpson não respondeu. Apenas me olhou. Ele estava péssimo. Seu rosto estava roxo e ele tinha marcas de corda no pescoço.
Eu me levantei. Olhei-o por alguns instantes. Ele não se movia. A coisa estava feia. Fiquei tonto. Depois me recompus. Respirei fundo e caminhei até a calçada. Era cerca de quatro da tarde. Comecei a caminhar. Caminhei até a avenida e segui caminhando. Eu estava pensativo. Sentia que minha vida tinha se acabado. Simpson sempre gostara de andar sozinho. Talvez fosse solitário. Nunca se misturava com a gente ou com os outros garotos. Ele era estranho nesse sentido. Talvez fosse isso o que nos incomodava nele. Mesmo assim, ele tinha algo de bom. Eu sentia que havia feito algo muito ruim e, ao mesmo tempo, sentia que não. Na maior parte do tempo eu tinha um sentimento vago, que se centrava no meu estômago. Caminhei e caminhei. Caminhei até a autoestrada e voltei. Meus sapatos machucavam muito meus pés. Meus pais sempre me compravam sapatos vagabundos. Pareciam bons por mais ou menos uma semana, então o couro rachava e as unhas começavam a atravessar a sola. Eu segui caminhando mesmo assim.
Quando voltei para casa já era quase noite. Caminhei vagarosamente pela calçada em direção ao quintal. Simpson não estava lá. Nem a corda. Talvez ele estivesse morto. Talvez ele estivesse em outro lugar. Olhei em volta.
Vi o rosto do meu pai pela porta de tela.
– Venha aqui – ele falou.
Subi as escadas da varanda e passei por ele.
– A sua mãe ainda não chegou. Melhor assim. Vá para o quarto. Quero ter uma conversinha com você.
Avancei até o quarto, sentei na cama e olhei para os meus sapatos vagabundos. Meu pai era um homem grande, mais de um metro e oitenta de altura. Ele tinha uma cabeça grande e olhos que pareciam pendurados sob suas sobrancelhas bagunçadas. Tinha lábios grossos e orelhas grandes. Era másculo sem precisar fazer esforço algum.
– Por onde você andava? – ele perguntou.
– Por aí, caminhando.
– Caminhando? Por quê?
– Gosto de caminhar.
– Desde quando?
– Desde hoje.
Fez-se um longo silêncio. Então ele falou de novo.
– O que aconteceu no nosso quintal hoje à tarde?
– Ele está morto?
– Quem?
– Eu disse pra ele não contar. Se ele contou, é porque não está morto.
– Não, ele não está morto. E os pais dele iam chamar a polícia. Tive que conversar um longo tempo com eles para convencê-los a não fazer isso. Se eles tivessem chamado a polícia, sua mãe teria ficado arrasada! Está entendendo?
Não respondi.
– Sua mãe teria ficado arrasada! Você entende isso?
Não respondi.
– Tive que pagar para que ficassem calados. E, além disso, vou ter que pagar as despesas médicas. Você vai levar a surra da sua vida! Eu vou te dar um corretivo! Não vou criar um filho incapaz de viver em sociedade!
Ele ficou de pé junto à porta, parado. Eu olhei para os seus olhos debaixo daquelas sobrancelhas, para aquele corpo enorme.
– Chame a polícia – eu disse. – Não quero você. Prefiro a polícia.
Ele se aproximou de mim devagar.
– A polícia não entende gente como você.
Levantei da cama e cerrei os pulsos.
– Vamos lá – eu disse –, vou lutar com você!
Com um rápido movimento ele estava em cima de mim. Foi como se um raio de luz me cegasse, uma pancada tão forte que nem cheguei a sentir. Eu estava no chão. Levantei-me.
– É melhor você me matar – eu disse –, porque, quando eu crescer, vou matar você!
A pancada que veio a seguir me arrastou para baixo da cama. Parecia um bom lugar para estar. Olhei para as molas. Eu nunca tinha visto nada mais agradável e maravilhoso que aquelas molas acima de mim. Então eu ri. Foi um riso apavorado, mas eu ri, e ri porque me veio o pensamento de que talvez o Simpson tivesse de fato comido uma garota debaixo da minha casa.
– De que diabos você está rindo? – gritou meu pai. – Você é mesmo o filho do Diabo, você não é meu filho!
Vi sua enorme mão tatear por baixo da cama, procurando por mim. Quando se aproximou, agarrei a sua mão com as minhas e a mordi com toda a força. Ouvi um gemido feroz e a mão se recolheu. Senti o gosto de sangue e carne em minha boca, cuspi fora. Então eu soube que, apesar de Simpson estar vivo, eu poderia estar morto dentro de poucos instantes.
– Muito bem – ouvi meu pai dizer em voz baixa –, agora você pediu e, por Deus, você vai levar.
Eu esperei. E, enquanto esperava, ouvia apenas alguns sons estranhos. Ouvia os pássaros, o som dos carros que passavam, ouvia até mesmo o som do meu coração batendo forte, o som do sangue correndo em minhas veias. Eu ouvia a respiração do meu pai, e me arrastei até a parte do meio da cama e esperei pelo que viria em seguida.
– Septuagenarian Stew
A quinta série era um pouco melhor. Os outros estudantes pareciam menos hostis, e eu crescia fisicamente. Ainda não era escolhido para os times da escola, mas já não sofria ameaças frequentes. David e seu violino tinham partido. Sua família se mudara. Agora eu caminhava sozinho para casa. Muitas vezes, um ou dois caras me seguiam, dentre os quais Juan era o pior, mas não chegavam a me fazer nada. Juan fumava cigarros. Caminhava atrás de mim fumando um cigarro e sempre tinha consigo um parceiro diferente. Jamais me seguia sozinho. Isso me assustava. Queria que eles sumissem. Contudo, por outro lado, eu não dava muita bola. Não gostava de Juan. Não gostava de ninguém naquela escola. Creio que eles sabiam disso. Devia ser por isso que não simpatizavam comigo. Não gostava do jeito que eles caminhavam, de sua aparência, do modo como falavam, mas também não gostava dessas coisas em meu pai e minha mãe. Continuava com a sensação de estar cercado por um grande espaço em branco, um vazio. Havia sempre uma sombra de náusea em meu estômago. Juan tinha a pele morena e usava uma corrente de metal em vez de cinto. As garotas tinham medo dele, assim como os rapazes. Ele e um dos seus capangas me seguiam quase todos os dias. Eu entrava em casa, e eles ficavam parados lá fora. Juan fumaria seu cigarro, bancando o durão, e seu parceiro ficaria ali parado. Eu os observava através das cortinas. Finalmente, depois de um tempo, eles acabavam partindo.
A sra. Fretag era nossa professora de Inglês. No primeiro dia de aula ela perguntou o nome de cada um de nós.
– Quero conhecer cada um de vocês – ela disse.
Sorriu.
– Bem, cada um de vocês tem um pai, estou certa. Penso que seria interessante se descobríssemos o que eles fazem para viver. Começaremos pelo primeiro da fila e iremos adiante, até que todos na sala tenham falado. E então, Marie, o que seu pai faz da vida?
– Ele é jardineiro.
– Ah, mas que legal! Carteira número dois... Andrew, o que seu pai faz?
Foi terrível. Os pais de todos os meus colegas das redondezas tinham perdido seus empregos. Meu pai havia perdido o emprego. O pai de Gene ficava o dia inteiro sentado na varanda. Todos estavam desempregados com exceção do pai de Chuck, que trabalhava num matadouro. Ele dirigia o carro que entregava as carnes, um carro vermelho com o nome do matadouro gravado nos lados.
– Meu pai é bombeiro – disse o número dois.
– Ah, isso é interessante – disse a sra. Fretag. – Carteira número três.
– Meu pai é advogado.
– Carteira quatro.
– Meu pai é... policial...
O que eu iria dizer? Talvez apenas os pais da minha vizinhança estivessem sem emprego. Tinha ouvido falar do crack da bolsa. Significava algo ruim. Talvez o mercado só tivesse entrado em colapso na nossa vizinhança.
– Carteira dezoito.
– Meu pai é ator de cinema...
– Dezenove...
– Meu pai toca violino em concertos...
– Vinte...
– Meu pai trabalha num circo...
– Vinte e um...
– Meu pai é motorista de ônibus...
– Vinte e dois...
– Meu pai é cantor de ópera...
– Vinte e três...
Vinte e três. Era eu.
– Meu pai é dentista – eu disse.
A sra Fretag prosseguiu até que chegou no número 33.
– Meu pai não tem emprego – disse o número 33.
Merda, pensei, queria ter pensado nisso.
Um dia, a sra. Fretag nos passou uma tarefa.
– Nosso ilustríssimo senhor presidente, Herbert Hoover, virá visitar Los Angeles no sábado e fará um discurso. Quero que todos vocês vão até lá ouvir o nosso presidente. E quero que escrevam um ensaio sobre a experiência e sobre o que vocês acharam do discurso do presidente Hoover.
Sábado? Não havia a mínima chance de que eu pudesse ir. Era dia de cortar a grama. Eu tinha que cuidar dos fiapinhos. (Eu nunca conseguia eliminá-los por completo.) Praticamente todos os sábados eu apanhava com o amolador de navalha porque meu pai encontrava um fiapo. (Também apanhava durante a semana, uma ou duas vezes, por outras coisas que eu deixava de fazer ou não fazia corretamente.) Não tinha como dizer a meu pai que eu iria assistir ao presidente Hoover.
Assim, não fui. No dia seguinte, peguei um jornal dominical e me sentei para escrever sobre a aparição do presidente. Seu carro aberto, abrindo caminho entre as bandeiras tremulantes, tinha entrado no estádio de futebol. Um carro, cheio de agentes do serviço secreto, lhe abria caminho, enquanto outros dois seguiam o carro presidencial de perto. Os agentes eram homens de coragem, armados para proteger nosso presidente. A multidão se levantou quando o carro presidencial entrou na arena. Nunca acontecera anteriormente nada parecido. Era o presidente. Era ele. Acenou. Nós aplaudimos. Uma banda começou a tocar. Gaivotas sobrevoavam em círculos, como se soubessem que se tratava do presidente. E havia ainda aviões que escreviam mensagens de fumaça no céu. Escreviam no ar frases como: “A prosperidade está logo ali na esquina”. O presidente se pôs de pé em seu carro, e, assim que ele fez esse movimento, as nuvens se afastaram e os raios de sol incidiram diretamente em seu rosto. Era quase como se Deus também soubesse quem ele era. Então os carros pararam, e nosso grande presidente, rodeado pelos agentes do serviço secreto, caminhou até o palanque. Ao se posicionar junto ao microfone, um pássaro desceu do céu e pousou sobre a bancada em que estava o microfone. O presidente acenou para o pássaro e riu e todos nós rimos com ele. Então ele começou a falar, e as pessoas passaram a ouvi-lo com atenção. Eu quase não conseguia ouvir o discurso porque estava sentado muito próximo a uma máquina de pipocas que fazia muito barulho estourando os grãos, mas creio ter escutado ele falar que os problemas na Manchúria não eram muito sérios e que aqui no país as coisas logo entrariam nos eixos, que não devíamos nos preocupar, tudo o que precisávamos fazer era acreditar na América. Haveria empregos para todo mundo. Haveria bastantes dentistas e dentes suficientes para arrancar, bastantes incêndios e bombeiros bastantes para apagá-los. As fábricas e as indústrias reabririam. Nossos amigos na África do Sul pagariam suas dívidas. Logo todos dormiríamos tranquilamente, com os estômagos cheios e os corações pacificados. Deus e nosso grande país nos envolveriam em seu amor, nos protegendo do mal, dos socialistas, nos despertando de nosso pesadelo nacional, para sempre...
O presidente ouviu os aplausos, acenou, então voltou para o carro, entrou e partiu seguido pelos carros apinhados de agentes do serviço secreto enquanto o sol mergulhava no horizonte e o entardecer se fazia noite, vermelho, dourado e maravilhoso. Havíamos visto e ouvido o presidente Herbert Hoover.
Entreguei meu ensaio na segunda-feira. Na terça, a sra. Fretag se dirigiu à classe:
– Li os ensaios de todos vocês sobre a visita do nosso ilustríssimo presidente a Los Angeles. Eu estava lá. Alguns de vocês, pelo que pude notar, não puderam comparecer ao evento por uma ou outra razão. Para aqueles entre vocês que não puderam estar lá, gostaria de ler o ensaio escrito por Henry Chinaski.
Um terrível silêncio se abateu sobre a turma. Eu era de longe o aluno mais impopular da classe. Era como se todos eles tivessem levado uma facada no coração.
– Este é um texto muito criativo – disse a sra. Fretag e começou a ler meu ensaio.
As palavras me soavam bem. Todos escutavam. Minhas palavras enchiam a sala, corriam de um lado a outro pelo quadro-negro, ricocheteavam no teto e cobriam os sapatos da sra. Fretag, se amontoando no chão. Algumas das garotas mais lindas da classe começaram a me lançar olhares furtivos. Os caras durões estavam putos da cara. Seus ensaios não valiam merda nenhuma. Eu bebia de minhas próprias palavras como se fosse um homem sedento. Comecei, inclusive, a acreditar que elas representassem a verdade. Vi Juan sentado ali como se eu lhe tivesse esmurrado a cara. Estiquei minhas pernas e me recostei na cadeira. Logo, porém, estava tudo terminado.
– Com essa grande redação – disse a sra. Fretag –, encerro a aula...
Todos se levantaram e começaram a guardar seus materiais.
– Você não, Henry.
Sentei-me na cadeira, e a sra. Fretag ficou ali, me encarando. Então disse:
– Henry, você estava lá?
Tentei encontrar uma resposta. Nada me ocorreu. Eu disse:
– Não, eu não estava lá.
Ela sorriu.
– Isso faz com que seu ensaio seja ainda mais notável.
– Sim, madame...
– Você já pode ir, Henry.
Levantei-me e deixei a sala. Fui para casa. Então era isso que eles queriam: mentiras. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas. Seria fácil para mim. Olhei em volta. Juan e seu comparsa não estavam me seguindo. As coisas estavam melhorando.
– Misto-quente
1 474
Edmir Domingues
Vento e conformação
O denso minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura
nos não foi de surpresa se é costume
tenhamos nossas mãos assim pesadas,
já que em nós pesa o tempo enormemente
quando o vento nos vem e nos procura.
Sabíamos, há tempo, desde quando
eram verdes e mansos calendários,
que os pês seriam pedras de granito,
as mãos já não de plumas porém ferro,
quando tempo de inverno ou minuano
por nosso mal de roupas Se vestira.
E inútil de correr, lembras-te?, um dia
quisemos nossos passos apressados,
e os pés foram tornados de aderência,
para que todo o esforço se perdesse
por vão, que nunca o espaço obedecia
aos nossos gestos de buscá-lo ao longe.
Por isso o minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura,
em alma e corjio a nós nos terá todo
na sua mais pesada densidade
E nos somos de entrega. 0 céu é preto,
a nuvem cpiase preta, o chão cinzento.
E nós, de olhos azuis - azuis por dentro,
por fora negros são, como os objetos
da noite improvisada nesta tarde
nós, de olhos sempre azuis, nos conformamos
porque nos resta o abraço praticável
ternura de que a noite é causadora,
mesmo quando a incerteza é quem a assopra
e a traz consigo para o lado nosso.
Daí, o grito morto, o não protesto,
o abandono de antigos calendários,
e a busca de que às mãos retornem plumas
apesar deste vento, desta tarde
toda de sombra e um pouco de aventura
muito de sombra e nada de aventura
nos não foi de surpresa se é costume
tenhamos nossas mãos assim pesadas,
já que em nós pesa o tempo enormemente
quando o vento nos vem e nos procura.
Sabíamos, há tempo, desde quando
eram verdes e mansos calendários,
que os pês seriam pedras de granito,
as mãos já não de plumas porém ferro,
quando tempo de inverno ou minuano
por nosso mal de roupas Se vestira.
E inútil de correr, lembras-te?, um dia
quisemos nossos passos apressados,
e os pés foram tornados de aderência,
para que todo o esforço se perdesse
por vão, que nunca o espaço obedecia
aos nossos gestos de buscá-lo ao longe.
Por isso o minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura,
em alma e corjio a nós nos terá todo
na sua mais pesada densidade
E nos somos de entrega. 0 céu é preto,
a nuvem cpiase preta, o chão cinzento.
E nós, de olhos azuis - azuis por dentro,
por fora negros são, como os objetos
da noite improvisada nesta tarde
nós, de olhos sempre azuis, nos conformamos
porque nos resta o abraço praticável
ternura de que a noite é causadora,
mesmo quando a incerteza é quem a assopra
e a traz consigo para o lado nosso.
Daí, o grito morto, o não protesto,
o abandono de antigos calendários,
e a busca de que às mãos retornem plumas
apesar deste vento, desta tarde
toda de sombra e um pouco de aventura
775
Edmir Domingues
Atmosfera de aventura
E tínhamos os olhos dissolvidos
nos mares de procura e desconforto,
doze velas velavam por um morto, o
amigo que não vira o céu do porto
de ter olhos de bálsamos ungidos
e estar o cais dos ventos abatidos
além dos nossos tímidos sentidos
longe das formas deste mundo torto.
Então para o recôncavo, onde as ilha
felizes são banhadas de andarilhas
vagas que são de amor nunca abandono.
E medo, se a tormenta é sempre amarga
e há sete corvos negros entre a carga,
de lá chegar a luz dizendo outono
nos mares de procura e desconforto,
doze velas velavam por um morto, o
amigo que não vira o céu do porto
de ter olhos de bálsamos ungidos
e estar o cais dos ventos abatidos
além dos nossos tímidos sentidos
longe das formas deste mundo torto.
Então para o recôncavo, onde as ilha
felizes são banhadas de andarilhas
vagas que são de amor nunca abandono.
E medo, se a tormenta é sempre amarga
e há sete corvos negros entre a carga,
de lá chegar a luz dizendo outono
687
Edmir Domingues
Pela paz de maio e junho
Posto que estava maio, e resolvido
que nos idos, em grupo, tornaríamos
às fáculas antigas, quando estavam
quanto mais velhas tanto mais acesas,
assim fomos e vimos. Era o tempo
doutra luz, essa que se tem mais forte,
presa na carne e no osso e resguardada
pelas fronteiras rígidas da sombra.
Nas citadas planícies nos perdemos
e era mais que do tato um só caminho
para este externo mundo que nos guarda.
Por elas compreendemos do sentido.
E soubemos que apenas tênues rosas
têm fundações mais fortes do que pedra,
que mais que pedras vale, compreendemos,
a força enclausurada nas raízes
Então fomos ficados neste campo
de teto e espaço e fumo que nos cobre,
porquanto que o soubemos mais seguro
e que os mundos alheios valem menos
visto que em muito grandes são fundados
em brancos alicerces de fumaça.
Considerado o mar, nós nos despimos
do marítimo traje com que estavam
corpos ao sol e à chuva resguardados.
Se era o mar fabricado em movimento
que lhe dá toda a essência e qualidade,
para restarmos todos sobre o verde
e o vermelho do chão que nos ampara.
Que a nossa inconsistência será sempre
o mais caro de nós, ficamos crendo.
Repousa um tédio imenso na certeza.
E então faz-se de bem que a não tenhamos
senão essa de pouca com que temos
que o vermelho do piso, mais o verde,
nos serão toda a paz ambicionada
Que as fáculas não faltem, de resina,
e os limites da sombra estejam longe,
para que seja a paz feita possível
longe das rosas flácidas de estanho,
que essas não têm raízes, e repousa
nas raízes a força do que vive,
ou se têm, ai, são brancas, ai, são tênues,
visto serem construídas de fumaça.
- Seremos vegetais em verde e rubro
nas calendas de junho que vem vindo.
que nos idos, em grupo, tornaríamos
às fáculas antigas, quando estavam
quanto mais velhas tanto mais acesas,
assim fomos e vimos. Era o tempo
doutra luz, essa que se tem mais forte,
presa na carne e no osso e resguardada
pelas fronteiras rígidas da sombra.
Nas citadas planícies nos perdemos
e era mais que do tato um só caminho
para este externo mundo que nos guarda.
Por elas compreendemos do sentido.
E soubemos que apenas tênues rosas
têm fundações mais fortes do que pedra,
que mais que pedras vale, compreendemos,
a força enclausurada nas raízes
Então fomos ficados neste campo
de teto e espaço e fumo que nos cobre,
porquanto que o soubemos mais seguro
e que os mundos alheios valem menos
visto que em muito grandes são fundados
em brancos alicerces de fumaça.
Considerado o mar, nós nos despimos
do marítimo traje com que estavam
corpos ao sol e à chuva resguardados.
Se era o mar fabricado em movimento
que lhe dá toda a essência e qualidade,
para restarmos todos sobre o verde
e o vermelho do chão que nos ampara.
Que a nossa inconsistência será sempre
o mais caro de nós, ficamos crendo.
Repousa um tédio imenso na certeza.
E então faz-se de bem que a não tenhamos
senão essa de pouca com que temos
que o vermelho do piso, mais o verde,
nos serão toda a paz ambicionada
Que as fáculas não faltem, de resina,
e os limites da sombra estejam longe,
para que seja a paz feita possível
longe das rosas flácidas de estanho,
que essas não têm raízes, e repousa
nas raízes a força do que vive,
ou se têm, ai, são brancas, ai, são tênues,
visto serem construídas de fumaça.
- Seremos vegetais em verde e rubro
nas calendas de junho que vem vindo.
574
Edmir Domingues
Outubro vegetal
Por fim, descido às águias repousadas
nas planícies de vidro, redescubro,
após vermelhos dias, quando outubro,
os dias verde-claros das calçadas.
Para voltar à luz tornada em rubro
e esquecer-me das rosas desfolhadas
nascidas sobre as mesas enceradas,
imprecisas demais à luz de outubro.
Profundamente paz me faço em planos
olhos mais vegetais que mesmo humanos
feitos hoje por folha em vez de saia.
Se ao vermelho por fim sucede o verde
e antigo afã de mar se turva e perde
nos gestos de alamanda e samambaia
nas planícies de vidro, redescubro,
após vermelhos dias, quando outubro,
os dias verde-claros das calçadas.
Para voltar à luz tornada em rubro
e esquecer-me das rosas desfolhadas
nascidas sobre as mesas enceradas,
imprecisas demais à luz de outubro.
Profundamente paz me faço em planos
olhos mais vegetais que mesmo humanos
feitos hoje por folha em vez de saia.
Se ao vermelho por fim sucede o verde
e antigo afã de mar se turva e perde
nos gestos de alamanda e samambaia
769
António Ramos Rosa
Na Transparência de Um Outono
Que na transparência de um outono
o vento avive
a voz que na sombra aceita o fogo
e ressoe na claridade das árvores e dos muros
como uma música que dilacera e que consola
a funda ferida que só ela abre e estende até à luz.
Com as veias, com os lábios, com os pulsos brancos
o corpo há-de tecer o contorno do vento
quando os vestígios das folhas vão libertando o sangue
e protegem as espáduas como num repouso vibrante.
Alguém dirá a esperança, os gomos transparentes
da vida voltada para a vida, a presença incandescente
em cada arbusto, a harmonia que reina um instante
nos seus élitros brancos, num fulgor absoluto.
o vento avive
a voz que na sombra aceita o fogo
e ressoe na claridade das árvores e dos muros
como uma música que dilacera e que consola
a funda ferida que só ela abre e estende até à luz.
Com as veias, com os lábios, com os pulsos brancos
o corpo há-de tecer o contorno do vento
quando os vestígios das folhas vão libertando o sangue
e protegem as espáduas como num repouso vibrante.
Alguém dirá a esperança, os gomos transparentes
da vida voltada para a vida, a presença incandescente
em cada arbusto, a harmonia que reina um instante
nos seus élitros brancos, num fulgor absoluto.
1 144
Sophia de Mello Breyner Andresen
Canção do Amor Primeiro
Tão jovem o Tempo
Tudo amanhecia
O loiro do rosto
Sob o negro da noite
Desde sempre o sabia
O loiro do rosto
A dança do cabelo
Doirado sobre a testa
Sob o choupo escondidos
Como sob floresta
E o loiro do cabelo
A voar na testa
E o linho do rosto
Entre os brilhos da festa
Tão jovem o Tempo
Que tudo luzia
De espanto e surpresa
Redonda a maçã
Que parecia acesa
Era Junho e o perfume
Da rosa e seu lume
Tudo amanhecia
O loiro do rosto
Sob o negro da noite
Desde sempre o sabia
O loiro do rosto
A dança do cabelo
Doirado sobre a testa
Sob o choupo escondidos
Como sob floresta
E o loiro do cabelo
A voar na testa
E o linho do rosto
Entre os brilhos da festa
Tão jovem o Tempo
Que tudo luzia
De espanto e surpresa
Redonda a maçã
Que parecia acesa
Era Junho e o perfume
Da rosa e seu lume
1 234
Sophia de Mello Breyner Andresen
Inverno
Este Inverno é longo gélido
E confuso
Na varanda só o vento passa
E o vento olha-nos de esguelha quando passa
Nenhum poema aflora
Entre as linhas finas e aéreas
Da página em branco
Inverno de 1999
E confuso
Na varanda só o vento passa
E o vento olha-nos de esguelha quando passa
Nenhum poema aflora
Entre as linhas finas e aéreas
Da página em branco
Inverno de 1999
1 800
Ruy Belo
Advento do anjo
Ontem e anteontem já passados
arredondemos os olhos à volta
daquela antiga realidade
alfa ómega primeira e última
que sempre diante na fronte trouxemos
Circundemo-la de um colar de palavras
sem pálpebras pobres pálidas de rosto
roubadas às esquinas eivadas
de arestas agrestes pontiagudas
Percamos palavras como folhas
perdem no Outono as árvores, varridos
pelo contínuo apascentar de cuidados
Já se vão areando as praias de amanhã
desde ontem a morte morreu
E vamos e banhemo-nos no mar
que o anjo forte cúpula do tempo
se sente vir anunciar e fechar
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 47 e 48 | Editorial Presença Lda., 1984
arredondemos os olhos à volta
daquela antiga realidade
alfa ómega primeira e última
que sempre diante na fronte trouxemos
Circundemo-la de um colar de palavras
sem pálpebras pobres pálidas de rosto
roubadas às esquinas eivadas
de arestas agrestes pontiagudas
Percamos palavras como folhas
perdem no Outono as árvores, varridos
pelo contínuo apascentar de cuidados
Já se vão areando as praias de amanhã
desde ontem a morte morreu
E vamos e banhemo-nos no mar
que o anjo forte cúpula do tempo
se sente vir anunciar e fechar
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 47 e 48 | Editorial Presença Lda., 1984
951
Allen Ginsberg
Quem Dominará O Universo?
Uma amarga fria noite de inverno
conspiradores nas mesas do café
discutindo prisões místicas
A Revolução na América
já começou não bombas, mas greves
assentamentos no topo de submarinos
em calçadas próximas à Prefeitura —
Quantas famílias controlam os Estados?
Ignorem o Governo,
enviem seu protesto para Clint Murchison.
Os Índios venceram a causa com o Juiz McFate
Peiote seguro no Arizona —
Em meu quarto um junky enjoado
treme no 7° dia
Choroso, renascido ao Inverno
Che Guevara tem pau grande
as bolas de Castro são rosa —
O Fantasma de John F. Dulles paira
sobre a América feito linho sujo
posto sobre o rubro ocaso invernal,
Fumos de Gás Inconsciente
emanam de seu cadáver
& hipnotizam os intelectuais Egípcios —
Ele range os dentes em horror & cruza seus
fêmures sobre o crânio
Sopra poeira de seu cu
suas mãos estão cheias de bactéria
O verme está em seu olho —
Ele está declarando contrarrevoluções no Mundo-verme,
meu gato vomitou-o na útima
Quinta.
& Forrestal voou de sua janela feito uma Águia —
América está gastando dinheiro para destituir o Homem
Quem são os dominadores da terra?
New York, 6 de janeiro de 1961.
conspiradores nas mesas do café
discutindo prisões místicas
A Revolução na América
já começou não bombas, mas greves
assentamentos no topo de submarinos
em calçadas próximas à Prefeitura —
Quantas famílias controlam os Estados?
Ignorem o Governo,
enviem seu protesto para Clint Murchison.
Os Índios venceram a causa com o Juiz McFate
Peiote seguro no Arizona —
Em meu quarto um junky enjoado
treme no 7° dia
Choroso, renascido ao Inverno
Che Guevara tem pau grande
as bolas de Castro são rosa —
O Fantasma de John F. Dulles paira
sobre a América feito linho sujo
posto sobre o rubro ocaso invernal,
Fumos de Gás Inconsciente
emanam de seu cadáver
& hipnotizam os intelectuais Egípcios —
Ele range os dentes em horror & cruza seus
fêmures sobre o crânio
Sopra poeira de seu cu
suas mãos estão cheias de bactéria
O verme está em seu olho —
Ele está declarando contrarrevoluções no Mundo-verme,
meu gato vomitou-o na útima
Quinta.
& Forrestal voou de sua janela feito uma Águia —
América está gastando dinheiro para destituir o Homem
Quem são os dominadores da terra?
New York, 6 de janeiro de 1961.
545
Edmir Domingues
Soneto de Arquiduques
Arquiduques de um reino soterrado
na planície de cal que nada altera,
bebamos essa luz de primavera
que desponta e que cresce a nosso lado.
Arquiduques sem fâmulos a espera,
sem a paz que respira o arquiducado,
residentes no sono prolongado
onde atua a mais lúcida atmosfera.
De um reino de glicínias arquiduques
não sorrimos às flores que são truques
de ébrios e maus prestidigitadores,
como as vossas, terrestres ou submersas,
nas terras e nas águas são diversas
das que estão sob a cal preciosas flores.
na planície de cal que nada altera,
bebamos essa luz de primavera
que desponta e que cresce a nosso lado.
Arquiduques sem fâmulos a espera,
sem a paz que respira o arquiducado,
residentes no sono prolongado
onde atua a mais lúcida atmosfera.
De um reino de glicínias arquiduques
não sorrimos às flores que são truques
de ébrios e maus prestidigitadores,
como as vossas, terrestres ou submersas,
nas terras e nas águas são diversas
das que estão sob a cal preciosas flores.
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