Poemas neste tema

Esperança e Otimismo

Perillo Doliveira

Perillo Doliveira

Conselho

Se és triste, ergue para o alto a tua taça
e canta, pois cantando
farás com que o sofrer seja mais brando
e esquecerás, talvez, tua desgraça.

Se és infeliz, não chores. Ao contrário,
deves sorrir, porque, sorrindo,
verás teu sonho se tornar mais lindo,
mais amplo, iluminando o teu Calvário.

Se és só, procura amar sem interesse,
amar a tudo e a todos, sem egoísmo,
e encontrarás neste teu grande altruísmo
o fim da solidão que te entristece.

E, assim, na própria angústia que te invade,
na mesma dor que te crucia,
desvenderás, entre hinos de alegria,
o grande enigma da Felicidade.

895
Jáder de Carvalho

Jáder de Carvalho

Eu me enganei

Eu me enganei quando disse: "É o fim!"
Via-me no espelho: a neve no cabelo.
As rugas se cruzavam no meu rosto.
A vista se cansava. Ah, era o fim!

Dentro do peito, o coração batia.
Em contraste com o rosto, a alma era jovem.
Eu gostava do cheiro das mulheres:
ia do olfato às profundezas d’alma.

Pensei: "A vida não me chega ao termo.
Sou todo vida. Só por fora é a morte."
E o mundo viu minha ressurreição.

Ah, quantas noites dormirei contigo!
Ah, quanto sol-nascente inda me espera!
A estrada é longa, mas não cansarei!...

747
Ildásio Tavares

Ildásio Tavares

Glosa

Mote
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Gil Vicente

Houve tempo e sacrifício
Houve sonho e muita lida
Mas no trato do ofício
Só houve ilusões perdidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas... "

Há vozes que sempre falam
Na escura noite envolvidas
Mas todas vozes se calam
E se perdem diluídas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "

Nosso corpo fez-se estrume,
Nossas forças são tolhidas,
Nossa espada está sem gume,
Nossas dores repetidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas..."

Sempre à margem dos processos
Nossas bocas são retidas
Para nós só há inversos
Todas luzes são vendidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas.

Estruturas poderosas
Todas podres, corrompidas
Nos compram e vendem gulosas
Cada vez mais entupidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "

Nem sangue de muitas mortes
Nos trouxe a luz escondida,
Poderes sempre mais fortes
Nos levaram de vencida —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "

Nas trevas de há muito e tanto
Marchamos safras sofridas,
Amargando nosso canto
Em vozes enrouquecidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "

Distante brilha esperança
De promessas esquecidas;
Atrás ficou a lembrança
De derrotas cometidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "

"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Mas em cores diferentes
As danças serão corridas
Não pensem os poderosos
Que as almas nos têm vencidas
Somos muitos e teimosos
Nossas cabeças erguidas
Sob o fardo dos milênios
Marcham tenções decididas,
Várias faces, vários gênios,
todos faces retorcidas, —
Nós teremos a chegança
Será nossa a esperança,
Nós teremos nossas vidas.

1 118
Isabel Vilhena

Isabel Vilhena

A Borboleta

Na transparência viva e luminosa
Dessa manhã de sol, passou fugindo
A borboleta azul, silenciosa,
Ligeira, breve, qual um sonho lindo,

Cabelo ao sol e face cor-de-rosa,
Dedinhos frágeis, gracioso unindo,
Atrás da flor aérea, vaporosa,
O garotinho ansioso vai seguindo.

A borboleta pousa numa flor,
Devagarinho, mudo, cauteloso,
Quase a prendeu! Fugiu... Que dissabor!

Garoto lindo! Borboleta esquiva!
— Coração moço, crente, esperançoso,
Em busca da ventura fugitiva!

1 127
José Chagas

José Chagas

Soneto da Manhã Primeira

Quero a manhã exata, a manhã viva,
pois estas luzes e estes vôos na aurora,
são só ensaios de manhãs. E agora
o que eu quero é a manhã definitiva,

a autêntica manhã pura, exclusiva,
manhã nascida de si mesma e fora
desta jubilação falsa e sonora
que só por um momento nos cativa.

Ah, a manhã da última promessa,
manhã de um novo mundo que começa,
mais acessível, mais humano e bom.

Meu Deus, seria como chegasse
a manhã do primeiro sol que nasce,
a cor primeira e do primeiro som.

3 401
José Eduardo Mendes Camargo

José Eduardo Mendes Camargo

Vamos Lá, Companheiro

Vamos lá, companheiro,
esquecer um pouco das duplicatas,
da corrupção, da tristeza e das mamatas.
Esquecer o passado, o futuro e ficar no presente.
Dar carinho, sorrir e amar, sem medo de ser diferente.
Vamos lá, companheiro,
esquecer as desilusões
em todas as dimensões,
sem medo de sofrer,
abrir os corações.

853
José Eduardo Mendes Camargo

José Eduardo Mendes Camargo

Escucha

Quien silenciosamente
probó la amargura de la duda,
derramó lágrimas de tristeza,
amargó largas esperas,
se sintió solo y abandonado,
tuvo el descrédito de casi todos
y a todo superó,
hoy nada lo asombra
todo lo encanta,
incluso los desencantos.

Voy a despertar como el sol,
atravesando nubes,
desvirginando sombras,
calentando cuerpos
y perdiéndome en el horizonte.

Voy a retirarme como la luna,
reflejándome en el espejo del agua,
bailando en las estrellas,
iluminando los caminos de los encuentros.

Voy a fundirme en tu luz
y de nuestra unión
un rayo de luminosidad
resplandecerá en el universo.

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1 004
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

Hymn

Sancta Maria! turn thine eyes
Upon the sinner's sacrifice
Of fervent prayer and humble love,
From thy holy throne above.

At morn, at noon, at twilight dim
Maria! thou hast heard my hymn.
In joy and wo, in good and ill
Mother of God! be with us still.

When my hours flew gently by,
And no storms were in the sky,
My soul, lest it should truant be —
Thy love did guide to thine and thee.

Now, when clouds of Fate o'ercast
All my Present, and my Past,
Let my Future radiant shine
With sweet hopes of thee and thine.

1 463
Faria Neves Sobrinho

Faria Neves Sobrinho

O Pântano

Ouve e guarda contigo
este conceito amigo:

Alma não há de crimes tão perdida,
nem coração tão torvo e escuso e escuro,
que se não abra, uma só vez na vida,
ao riso em flor de um sentimento puro.

Olha:o pântano é todo
feito de vasa e lodo.

No entanto, em noites claras, é de vê-las:
na água malsã que a vasa está cobrindo
chispam, tremeluzindo,
cintilações de estrelas...

1 097
Carvalho Neto

Carvalho Neto

Chamamento

rouba da gaivota ao vôo a musicalidade
e na cidade faz a partitura de tuas dores
criatura com mãos de todos os andores
encharcadas de suor, de mil licores
constrói a nova poesia
guarda a solidão da praça vazia
no bolso do casaco
e com pés e direitos feridos, abre estradas
amadas, demais amadas, marcadas
como versos na rocha
rouba aos olhos todos os rancores
que os senhores não abaterão teu brio
teu amanhã será depois de amanhã
e não ficarás na outra margem do rio.

989
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ON DEATH

When I consider how each day's career
Doth with its footstep dark [?] yet heavy tread
Approach my soul to those great regions dread
And bring my youth to timeless death more near,
Though strange and sad to one it doth appear
That I (who now feel life) must soon he dead
Some vague, uncertain sorrow weighs my head
And whelms my coward mind with lengthless fear.
Nevertheless through sorrow, rage and tear,
My heart yet each moment's boon shall sense.
And shake rude laughter from each heart-felt moan:
Not without hope is most extreme despair,
I know not death and think it no release -
The bad, indeed, is better than the unknown.
1 866
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quero, terei —

Quero, terei —
Se não aqui,
Noutro lugar que inda não sei.
Nada perdi.
Tudo serei.
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