Poemas neste tema
Esperança e Otimismo
José Eustáquio da Silva
Psicograma
já estou morto de viver
basta-me ver a lua
não tem rua onde moro
nem motivo porque choro
existem espinhos demais
não quero mais
chega de poesia
bastam-me as estrelas
quando eu puder sorrir
a lua será cheia
a rua será alegre
motivo não terá motivo
e as estrelas
sorriram também
basta-me ver a lua
não tem rua onde moro
nem motivo porque choro
existem espinhos demais
não quero mais
chega de poesia
bastam-me as estrelas
quando eu puder sorrir
a lua será cheia
a rua será alegre
motivo não terá motivo
e as estrelas
sorriram também
851
Carlos Drummond de Andrade
A Distribuição do Tempo
Um minuto, um minuto de esperança,
e depois tudo acaba. E toda crença
em ossos já se esvai. Só resta a mansa
decisão entre morte e indiferença.
Um minuto, não mais, que o tempo cansa,
e sofisma de amor não há que vença
este espinho, esta agulha, fina lança
a nos escavacar na praia imensa.
Mais um minuto só, e chega tarde.
Mais um pouco de ti, que não te dobras,
e que eu me empurre a mim, que sou covarde.
Um minuto, e acabou. Relógio solto,
indistinta visão em céu revolto,
um minuto me baste, e a minhas obras.
e depois tudo acaba. E toda crença
em ossos já se esvai. Só resta a mansa
decisão entre morte e indiferença.
Um minuto, não mais, que o tempo cansa,
e sofisma de amor não há que vença
este espinho, esta agulha, fina lança
a nos escavacar na praia imensa.
Mais um minuto só, e chega tarde.
Mais um pouco de ti, que não te dobras,
e que eu me empurre a mim, que sou covarde.
Um minuto, e acabou. Relógio solto,
indistinta visão em céu revolto,
um minuto me baste, e a minhas obras.
1 460
Adélia Prado
Neurolinguística
Quando ele me disse
ô linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.
Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez.
ô linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.
Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez.
1 519
Emídia Felipe
Felicidade
Tudo
parece estar tranqüilo
as coisas estão tão calmas
até o céu se mostra mais amigo
deve ser por isso
Que as pessoas procuram o amor
Quando se é vazio
solitário e se vive com a dor
a felicidade se torna um sonho distante
onde se está é cinza e necessita ter cor
Olhando ao redor
uma dúvida a cada instante
Mas não é só isso
Ainda existem canções
e sonhos bons
Aparecem corações
que também procuram um rumo
Surgem horizontes
que fazem aumentar o tamanho do mundo
e ele passa a ser seu
Os olhos começam a ver tudo diferente
sem querer ou só por isso
esquece tudo que aconteceu
de repente
Até o ar parece ser mais puro
e o que de mais existe ainda fica
perto,
mas do outro lado do muro.
parece estar tranqüilo
as coisas estão tão calmas
até o céu se mostra mais amigo
deve ser por isso
Que as pessoas procuram o amor
Quando se é vazio
solitário e se vive com a dor
a felicidade se torna um sonho distante
onde se está é cinza e necessita ter cor
Olhando ao redor
uma dúvida a cada instante
Mas não é só isso
Ainda existem canções
e sonhos bons
Aparecem corações
que também procuram um rumo
Surgem horizontes
que fazem aumentar o tamanho do mundo
e ele passa a ser seu
Os olhos começam a ver tudo diferente
sem querer ou só por isso
esquece tudo que aconteceu
de repente
Até o ar parece ser mais puro
e o que de mais existe ainda fica
perto,
mas do outro lado do muro.
792
Adélia Prado
Mitigação da Pena
O céu estrelado
vale a dor do mundo.
vale a dor do mundo.
1 171
Carlos Drummond de Andrade
A Federico García Lorca
Sobre teu corpo, que há dez anos
se vem transfundindo em cravos
de rubra côr espanhola,
aqui estou para depositar
vergonha e lágrimas.
Vergonha de há tanto tempo
viveres — se morte é vida —
sob chão onde esporas tinem
e calcam a mais fina grama
e o pensamento mais fino
de amor, de justiça e paz.
Lágrimas de noturno orvalho,
não de mágoa desiludida,
lágrimas que tão-só destilam
desejo e ânsia e certeza
de que o dia amanhecerá.
(Amanhecerá.)
Esse claro dia espanhol,
composto na treva de hoje
sobre teu túmulo há de abrir-se,
mostrando gloriosamente
— ao canto multiplicado
de guitarra, gitano e galo —
que para sempre viverão
os poetas martirizados.
se vem transfundindo em cravos
de rubra côr espanhola,
aqui estou para depositar
vergonha e lágrimas.
Vergonha de há tanto tempo
viveres — se morte é vida —
sob chão onde esporas tinem
e calcam a mais fina grama
e o pensamento mais fino
de amor, de justiça e paz.
Lágrimas de noturno orvalho,
não de mágoa desiludida,
lágrimas que tão-só destilam
desejo e ânsia e certeza
de que o dia amanhecerá.
(Amanhecerá.)
Esse claro dia espanhol,
composto na treva de hoje
sobre teu túmulo há de abrir-se,
mostrando gloriosamente
— ao canto multiplicado
de guitarra, gitano e galo —
que para sempre viverão
os poetas martirizados.
1 745
Carlos Drummond de Andrade
Desaparecimento de Luísa Porto
Pede-se a quem souber
do paradeiro de Luísa Porto
avise sua residência
à rua Santos Óleos, 48.
Previna urgente
solitária mãe enferma
entrevada há longos anos
erma de seus cuidados.
Pede-se a quem avistar
Luísa Porto, de 37 anos,
que apareça, que escreva, que mande dizer
onde está.
Suplica-se ao repórter-amador,
ao caixeiro, ao mata-mosquitos, ao transeunte,
a qualquer do povo e da classe média,
até mesmo aos senhores ricos,
que tenham pena de mãe aflita
e lhe restituam a filha volatilizada
ou pelo menos dêem informações.
É alta, magra,
morena, rosto penugento, dentes alvos,
sinal de nascença junto ao olho esquerdo,
levemente estrábica.
Vestidinho simples. Óculos.
Sumida há três meses.
Mãe entrevada chamando.
Roga-se ao povo caritativo desta cidade
que tome em consideração um caso de família
digno de simpatia especial.
Luísa é de bom gênio, correta,
meiga, trabalhadora, religiosa.
Foi fazer compras na feira da praça.
Não voltou.
Levava pouco dinheiro na bolsa.
(Procurem Luísa.)
De ordinário não se demorava.
( Procurem Luísa.)
Namorado isso não tinha.
(Procurem. Procurem.)
Faz tanta falta.
Se todavia não a encontrarem
nem por isso deixem de procurar
com obstinação e confiança que Deus sempre recompensa
e talvez encontrem.
Mãe, viúva pobre, não perde a esperança.
Luísa ia pouco à cidade
e aqui no bairro é onde melhor pode ser pesquisada.
Sua melhor amiga, depois da mãe enferma,
é Rita Santana, costureira, moça desimpedida,
a qual não dá notícia nenhuma,
limitando-se a responder: Não sei.
O que não deixa de ser esquisito.
Somem tantas pessoas anualmente
numa cidade como o Rio de Janeiro
que talvez Luísa Porto jamais seja encontrada.
Uma vez, em 1898
ou 9,
sumiu o próprio chefe de polícia
que saíra à tarde para uma volta no Largo do Rocio
e até hoje.
A mãe de Luísa, então jovem,
leu no "Diário Mercantil",
ficou pasma.
O jornal embrulhado na memória.
Mal sabia ela que o casamento curto, a viuvez,
a pobreza, a paralisia, o queixume
seriam, na vida, seu lote
e que sua única filha, afável posto que estrábica,
se diluiria sem explicação.
Pela última vez e em nome de Deus
todo-poderoso e cheio de misericórdia
procurem a moça, procurem
essa que se chama Luísa Porto
e é sem namorado.
Esqueçam a luta política,
ponham de lado preocupações comerciais,
percam um pouco de tempo indagando,
inquirindo, remexendo.
Não se arrependerão. Não
há gratificação maior do que o sorriso
de mãe em festa
e a paz íntima
conseqüente às boas e desinteressadas ações,
puro orvalho da alma.
Não me venham dizer que Luisa suicidou-se.
O santo lume da fé
ardeu sempre em sua alma
que pertence a Deus e a Teresinha do Menino Jesus.
Ela não se matou.
Procurem-na.
Tampouco foi vítima de desastre
que a polícia ignora
e os jornais não deram.
Está viva para consolo de uma entrevada
e triunfo geral do amor materno
filial
e do próximo.
Nada de insinuações quanto à moça casta
e que não tinha, não tinha namorado.
Algo de extraordinário terá acontecido,
terremoto, chegada de rei,
As ruas mudaram de rumo,
para que demore tanto, é noite.
Mas há de voltar, espontânea
ou trazida por mão benigna,
o olhar desviado e terno,
canção.
A qualquer hora do dia ou da noite
quem a encontrar avise a rua Santos Óleos.
Não tem telefone.
Tem uma empregada velha que apanha o recado
e tomará providências.
Mas
se acharem que a sorte dos povos é mais importante
e que não devemos atentar nas dores individuais,
se fecharem ouvidos a este apelo de campainha,
não faz mal, insultem a mãe de Luísa,
virem a página:
Deus terá compaixão da abandonada e da ausente,
erguerá a enferma, e os membros perclusos
já se desatam em forma de busca.
Deus lhe dirá:
Vai,
procura tua filha, beija-a e fecha-a para sempre em teu coração.
Ou talvez não seja preciso esse favor divino.
A mãe de Luísa (somos pecadores)
sabe-se indigna de tamanha graça.
E resta a espera; que sempre é um dom.
Sim, os extraviados um dia regressam
ou nunca, ou pode ser, ou ontem.
E de pensar realizamos.
Quer apenas sua filhinha
que numa tarde remota de Cachoeiro
acabou de nascer e cheira a leite,
a eólica, a lágrima.
Já não interessa a descrição do corpo
nem esta, perdoem, fotografia,
disfarces de realidade mais intensa
e que anúncio algum provera.
Cessem pesquisas, rádios, calai-vos.
Calma de flores abrindo
no canteiro azul
onde desabrocham seios e uma forma de virgem
intacta nos tempos.
E de sentir compreendemos.
Já não adianta procurar
minha querida filha Luísa
que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo
com inúteis pés fixados, enquanto sofro
e sofrendo me solto e me recomponho
e torno a viver e ando,
está inerte
cravada no centro da estrela invisível
Amor.
do paradeiro de Luísa Porto
avise sua residência
à rua Santos Óleos, 48.
Previna urgente
solitária mãe enferma
entrevada há longos anos
erma de seus cuidados.
Pede-se a quem avistar
Luísa Porto, de 37 anos,
que apareça, que escreva, que mande dizer
onde está.
Suplica-se ao repórter-amador,
ao caixeiro, ao mata-mosquitos, ao transeunte,
a qualquer do povo e da classe média,
até mesmo aos senhores ricos,
que tenham pena de mãe aflita
e lhe restituam a filha volatilizada
ou pelo menos dêem informações.
É alta, magra,
morena, rosto penugento, dentes alvos,
sinal de nascença junto ao olho esquerdo,
levemente estrábica.
Vestidinho simples. Óculos.
Sumida há três meses.
Mãe entrevada chamando.
Roga-se ao povo caritativo desta cidade
que tome em consideração um caso de família
digno de simpatia especial.
Luísa é de bom gênio, correta,
meiga, trabalhadora, religiosa.
Foi fazer compras na feira da praça.
Não voltou.
Levava pouco dinheiro na bolsa.
(Procurem Luísa.)
De ordinário não se demorava.
( Procurem Luísa.)
Namorado isso não tinha.
(Procurem. Procurem.)
Faz tanta falta.
Se todavia não a encontrarem
nem por isso deixem de procurar
com obstinação e confiança que Deus sempre recompensa
e talvez encontrem.
Mãe, viúva pobre, não perde a esperança.
Luísa ia pouco à cidade
e aqui no bairro é onde melhor pode ser pesquisada.
Sua melhor amiga, depois da mãe enferma,
é Rita Santana, costureira, moça desimpedida,
a qual não dá notícia nenhuma,
limitando-se a responder: Não sei.
O que não deixa de ser esquisito.
Somem tantas pessoas anualmente
numa cidade como o Rio de Janeiro
que talvez Luísa Porto jamais seja encontrada.
Uma vez, em 1898
ou 9,
sumiu o próprio chefe de polícia
que saíra à tarde para uma volta no Largo do Rocio
e até hoje.
A mãe de Luísa, então jovem,
leu no "Diário Mercantil",
ficou pasma.
O jornal embrulhado na memória.
Mal sabia ela que o casamento curto, a viuvez,
a pobreza, a paralisia, o queixume
seriam, na vida, seu lote
e que sua única filha, afável posto que estrábica,
se diluiria sem explicação.
Pela última vez e em nome de Deus
todo-poderoso e cheio de misericórdia
procurem a moça, procurem
essa que se chama Luísa Porto
e é sem namorado.
Esqueçam a luta política,
ponham de lado preocupações comerciais,
percam um pouco de tempo indagando,
inquirindo, remexendo.
Não se arrependerão. Não
há gratificação maior do que o sorriso
de mãe em festa
e a paz íntima
conseqüente às boas e desinteressadas ações,
puro orvalho da alma.
Não me venham dizer que Luisa suicidou-se.
O santo lume da fé
ardeu sempre em sua alma
que pertence a Deus e a Teresinha do Menino Jesus.
Ela não se matou.
Procurem-na.
Tampouco foi vítima de desastre
que a polícia ignora
e os jornais não deram.
Está viva para consolo de uma entrevada
e triunfo geral do amor materno
filial
e do próximo.
Nada de insinuações quanto à moça casta
e que não tinha, não tinha namorado.
Algo de extraordinário terá acontecido,
terremoto, chegada de rei,
As ruas mudaram de rumo,
para que demore tanto, é noite.
Mas há de voltar, espontânea
ou trazida por mão benigna,
o olhar desviado e terno,
canção.
A qualquer hora do dia ou da noite
quem a encontrar avise a rua Santos Óleos.
Não tem telefone.
Tem uma empregada velha que apanha o recado
e tomará providências.
Mas
se acharem que a sorte dos povos é mais importante
e que não devemos atentar nas dores individuais,
se fecharem ouvidos a este apelo de campainha,
não faz mal, insultem a mãe de Luísa,
virem a página:
Deus terá compaixão da abandonada e da ausente,
erguerá a enferma, e os membros perclusos
já se desatam em forma de busca.
Deus lhe dirá:
Vai,
procura tua filha, beija-a e fecha-a para sempre em teu coração.
Ou talvez não seja preciso esse favor divino.
A mãe de Luísa (somos pecadores)
sabe-se indigna de tamanha graça.
E resta a espera; que sempre é um dom.
Sim, os extraviados um dia regressam
ou nunca, ou pode ser, ou ontem.
E de pensar realizamos.
Quer apenas sua filhinha
que numa tarde remota de Cachoeiro
acabou de nascer e cheira a leite,
a eólica, a lágrima.
Já não interessa a descrição do corpo
nem esta, perdoem, fotografia,
disfarces de realidade mais intensa
e que anúncio algum provera.
Cessem pesquisas, rádios, calai-vos.
Calma de flores abrindo
no canteiro azul
onde desabrocham seios e uma forma de virgem
intacta nos tempos.
E de sentir compreendemos.
Já não adianta procurar
minha querida filha Luísa
que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo
com inúteis pés fixados, enquanto sofro
e sofrendo me solto e me recomponho
e torno a viver e ando,
está inerte
cravada no centro da estrela invisível
Amor.
1 575
Pablo Neruda
Eu Vinha de Longe
Eu trazia às costas
um saco
de negros sofrimentos,
a noite das minas
de minha pátria.
Quando o carvão
de Lota
na locomotiva
arde,
se põe rubro
e queima
não é fogo,
é sangue,
sangue dos mineiros de minha pátria,
escuro sangue que acusa.
E assim
dobrado
sob meu saco negro
de sangue e de carvão fui transgredindo
os caminhos da Europa,
a lua de prata gasta
pelos olhos humanos,
as velhas pontes quebradas
pela guerra,
as cidades vazias
com suas janelas ocas
e seus escombros onde o pasto cresce,
as urtigas,
o triste saramago,
com medo,
sem raízes.
Assim vaguei pelas ruas bombardeadas
buscando a verde esperança,
até que a encontrei
vestida de água e de ouro
nas margens duplas
de Budapeste um dia.
um saco
de negros sofrimentos,
a noite das minas
de minha pátria.
Quando o carvão
de Lota
na locomotiva
arde,
se põe rubro
e queima
não é fogo,
é sangue,
sangue dos mineiros de minha pátria,
escuro sangue que acusa.
E assim
dobrado
sob meu saco negro
de sangue e de carvão fui transgredindo
os caminhos da Europa,
a lua de prata gasta
pelos olhos humanos,
as velhas pontes quebradas
pela guerra,
as cidades vazias
com suas janelas ocas
e seus escombros onde o pasto cresce,
as urtigas,
o triste saramago,
com medo,
sem raízes.
Assim vaguei pelas ruas bombardeadas
buscando a verde esperança,
até que a encontrei
vestida de água e de ouro
nas margens duplas
de Budapeste um dia.
1 187
Carlos Drummond de Andrade
Rua do Olhar
Entre tantas ruas
que passam no mundo,
a Rua do Olhar,
em Paris, me toca.
Imagino um olho
calmo, solitário,
a fitar os homens
que voltam cansados.
Olhar de perdão
para os desvarios,
de lento conselho
e cumplicidade.
Rua do Olhar:
as casas não contam,
nem contam as pedras,
caladas no chão.
Só conta esse olho
triste, na tarde,
percorrendo o corpo,
devassando a roupa...
A luz que se acende
não te ilumina.
O brilho sem brilho,
a vaga pestana
desse olho imóvel
oscilam nas coisas
(são apenas coisas
mas também respiram).
Pela noite abaixo
uma vida surda
embebe o silêncio,
como frio no ar.
Sinto que o drama
já não interessa.
Quem ama, quem luta,
quem bebe veneno?
Quem chora no escuro,
quem que se diverte
ou apenas fuma
ou apenas corre?
Uma rua — um olho
aberto em Paris
olha sobre o mar.
Na praia estou eu.
Vem, farol tímido,
dizer-nos que o mundo
de fato é restrito,
cabe num olhar.
Olhar de uma rua
a quem quer que passe.
Compreensão, amor
perdidos na bruma.
Que funda esperança
perfura o desgosto,
abre um longo túnel
e sorri na boca!
E sorri nas mãos,
no queixo, na rosa,
no menor dos bens
de ti, meu irmão!
que passam no mundo,
a Rua do Olhar,
em Paris, me toca.
Imagino um olho
calmo, solitário,
a fitar os homens
que voltam cansados.
Olhar de perdão
para os desvarios,
de lento conselho
e cumplicidade.
Rua do Olhar:
as casas não contam,
nem contam as pedras,
caladas no chão.
Só conta esse olho
triste, na tarde,
percorrendo o corpo,
devassando a roupa...
A luz que se acende
não te ilumina.
O brilho sem brilho,
a vaga pestana
desse olho imóvel
oscilam nas coisas
(são apenas coisas
mas também respiram).
Pela noite abaixo
uma vida surda
embebe o silêncio,
como frio no ar.
Sinto que o drama
já não interessa.
Quem ama, quem luta,
quem bebe veneno?
Quem chora no escuro,
quem que se diverte
ou apenas fuma
ou apenas corre?
Uma rua — um olho
aberto em Paris
olha sobre o mar.
Na praia estou eu.
Vem, farol tímido,
dizer-nos que o mundo
de fato é restrito,
cabe num olhar.
Olhar de uma rua
a quem quer que passe.
Compreensão, amor
perdidos na bruma.
Que funda esperança
perfura o desgosto,
abre um longo túnel
e sorri na boca!
E sorri nas mãos,
no queixo, na rosa,
no menor dos bens
de ti, meu irmão!
1 804
Adélia Prado
Poema Para Menina-Aprendiz
Hoje aqui em Divinópolis
está desesperador
mas ninguém escapará
à sedução da minha paciência.
A meninazinha insiste
em arrumar a cozinha para mim,
parece uma imperatriz: ‘sai daqui’.
O homem sério insinua-se:
‘te aprecio mais sem óculos’,
um homem desanimador.
Pelo que disse
sobre a memória histórica da aldeia,
a edilidade vai me ovacionar;
no entanto,
se me escavarem nada encontrarão
a não ser desejo,
quase ingratidão.
Sai a romaria para Congonhas do Campo,
quero ir também,
pegar poeira por debaixo das unhas.
Tem mais alguma coisa pra lavar?
Tem, sim, o encardido da alma,
um grão de esperança lava.
Pode ir brincar, Beatriz.
está desesperador
mas ninguém escapará
à sedução da minha paciência.
A meninazinha insiste
em arrumar a cozinha para mim,
parece uma imperatriz: ‘sai daqui’.
O homem sério insinua-se:
‘te aprecio mais sem óculos’,
um homem desanimador.
Pelo que disse
sobre a memória histórica da aldeia,
a edilidade vai me ovacionar;
no entanto,
se me escavarem nada encontrarão
a não ser desejo,
quase ingratidão.
Sai a romaria para Congonhas do Campo,
quero ir também,
pegar poeira por debaixo das unhas.
Tem mais alguma coisa pra lavar?
Tem, sim, o encardido da alma,
um grão de esperança lava.
Pode ir brincar, Beatriz.
1 440
Adélia Prado
Oficina
Podem gritar
as cigarras
e as serras dos carpinteiros.
Nunca serão funestas,
fatiam a tarde
que continua inconsútil.
O mundo é ininteligível,
mas é bom.
as cigarras
e as serras dos carpinteiros.
Nunca serão funestas,
fatiam a tarde
que continua inconsútil.
O mundo é ininteligível,
mas é bom.
1 154
Silvio Cruz
Contar
Conta
os teus dias pelas horas felizes vividas,
as nuvens escuras apenas evitam
que o brilho do sol chegue aos teus olhos,
ele continua a existir, a brilhar...
a aquecer o mundo!
Conta as tuas noites pelas estrelas
que vês no firmamento,
esqueça a escuridão, a sombra,
elas apenas separam um dia do outro,
separam o brilho e a claridade
de estarem em todos os lugares!
Conta tua vida pelos sorrisos,
nunca pelas lágrimas derramadas,
elas são eternos ensinamentos,
te ajudam a crescer!
Enfim, conta tua felicidade pelas pessoas
em quem fizeste renascer a esperança,
pelo amor verdadeiro que deste...
recebeste e viveste!!!
os teus dias pelas horas felizes vividas,
as nuvens escuras apenas evitam
que o brilho do sol chegue aos teus olhos,
ele continua a existir, a brilhar...
a aquecer o mundo!
Conta as tuas noites pelas estrelas
que vês no firmamento,
esqueça a escuridão, a sombra,
elas apenas separam um dia do outro,
separam o brilho e a claridade
de estarem em todos os lugares!
Conta tua vida pelos sorrisos,
nunca pelas lágrimas derramadas,
elas são eternos ensinamentos,
te ajudam a crescer!
Enfim, conta tua felicidade pelas pessoas
em quem fizeste renascer a esperança,
pelo amor verdadeiro que deste...
recebeste e viveste!!!
1 008
Pablo Neruda
VI - As Pontes
Novas pontes de Praga, nascestes
na velha cidade, rosa e cinza,
para que o homem novo
passe o rio.
Mil anos gastaram os olhos
dos deuses de pedra
que da velha Ponte Carlos
viram ir e vir e não voltar
as velhas vidas,
de Malá Strana os pés que para Morávia
se dirigiram, os pesados
pés do tempo,
os pés do velho cemitério judeu
sob vinte capas de tempo e pó
passaram e dançaram sobre a ponte,
enquanto as águas cor de fumo
corriam do passado, para a pedra.
Moldava, pouco a pouco
te ias fazendo estátua,
estátua cinzenta de um rio que morria
com sua velha coroa de ferro na fronte,
mas de repente o vento
da história sacode
teus pés e teus joelhos,
e cantas, rio, e danças, e caminhas
com uma nova vida.
As usinas trabalhavam de outro modo.
O retrato esquecido
do povo nas janelas
sorri saudando,
e eis aqui agora
as novas pontes:
a claridade as enche,
sua retidão convida
e diz: “Povo, adiante,
para todos os anos que vêm,
para todas as terras do trigo,
para o tesouro negro da mina
repartido entre todos os homens”.
E passa o rio
sob as novas pontes
cantando com a história
palavras puras
que encherão a terra.
Não são pés invasores os que cruzam
as novas pontes, nem os terríveis carros
do ódio e da guerra:
são pés pequenos de meninos, firmes
passos de operário.
Sobre as novas pontes
passas, oh primavera,
com tua cesta de pão e teu vestido novo,
enquanto o homem, a água, o vento
amanhecem cantando.
na velha cidade, rosa e cinza,
para que o homem novo
passe o rio.
Mil anos gastaram os olhos
dos deuses de pedra
que da velha Ponte Carlos
viram ir e vir e não voltar
as velhas vidas,
de Malá Strana os pés que para Morávia
se dirigiram, os pesados
pés do tempo,
os pés do velho cemitério judeu
sob vinte capas de tempo e pó
passaram e dançaram sobre a ponte,
enquanto as águas cor de fumo
corriam do passado, para a pedra.
Moldava, pouco a pouco
te ias fazendo estátua,
estátua cinzenta de um rio que morria
com sua velha coroa de ferro na fronte,
mas de repente o vento
da história sacode
teus pés e teus joelhos,
e cantas, rio, e danças, e caminhas
com uma nova vida.
As usinas trabalhavam de outro modo.
O retrato esquecido
do povo nas janelas
sorri saudando,
e eis aqui agora
as novas pontes:
a claridade as enche,
sua retidão convida
e diz: “Povo, adiante,
para todos os anos que vêm,
para todas as terras do trigo,
para o tesouro negro da mina
repartido entre todos os homens”.
E passa o rio
sob as novas pontes
cantando com a história
palavras puras
que encherão a terra.
Não são pés invasores os que cruzam
as novas pontes, nem os terríveis carros
do ódio e da guerra:
são pés pequenos de meninos, firmes
passos de operário.
Sobre as novas pontes
passas, oh primavera,
com tua cesta de pão e teu vestido novo,
enquanto o homem, a água, o vento
amanhecem cantando.
1 222
Rose M. Martins
Fases da Lua
Morri...
Até então não percebia, mas eu morria a cada dia, gota a gota a sangrar...
Percebi...
Desesperei-me, não sabendo para onde caminhar...
Desisti...
Por um momento, por não me encontrar...
Perdi...
a mim mesma, e de repente estava numa sala a buscar...
Vi...
Alguém chegar, tornando-se cada vez mais importante a me apoiar...
Senti...
Tanta alegria, tanta solidariedade, tudo nada familiar...
Envolvi...
E fui envolvida, num sentimento puro, era só felicidade a brotar...
Vivi...
Tudo intensamente, querendo tocar, saborear, voar...
Venci...
As amarras, tirei a venda dos olhos, e vi um mundo colorido a me esperar...
Sorri...
Você estava de braços abertos, carinhosamente a me amparar...
Corri...
Até o arco-íris dos teus olhos, sentindo o calor de teu sorriso a me
animar...
Retribuí...
Esse abraço maravilhoso, com ânsia, feliz por finalmente te encontrar...
Aprendi...
Que com você é divino conjugar o verbo adorar.
Até então não percebia, mas eu morria a cada dia, gota a gota a sangrar...
Percebi...
Desesperei-me, não sabendo para onde caminhar...
Desisti...
Por um momento, por não me encontrar...
Perdi...
a mim mesma, e de repente estava numa sala a buscar...
Vi...
Alguém chegar, tornando-se cada vez mais importante a me apoiar...
Senti...
Tanta alegria, tanta solidariedade, tudo nada familiar...
Envolvi...
E fui envolvida, num sentimento puro, era só felicidade a brotar...
Vivi...
Tudo intensamente, querendo tocar, saborear, voar...
Venci...
As amarras, tirei a venda dos olhos, e vi um mundo colorido a me esperar...
Sorri...
Você estava de braços abertos, carinhosamente a me amparar...
Corri...
Até o arco-íris dos teus olhos, sentindo o calor de teu sorriso a me
animar...
Retribuí...
Esse abraço maravilhoso, com ânsia, feliz por finalmente te encontrar...
Aprendi...
Que com você é divino conjugar o verbo adorar.
402
Terezinha Rezende Moreira
Semear
Semeia,
o que importa é semear
pouco, muito, tudo,
a semente da esperança.
Semeia
tuas energias para poderes
enfrentar as lutas
Semeia tua coragem
para poderes encorajar
o outro.
Semeia teu entusiasmo,
tua fé, o teu amor.
Semeia coisas pequeninas,
Insignificantes
semeia e confia
Cada semente
há de enriquecer,
um pedaço de chão.
o que importa é semear
pouco, muito, tudo,
a semente da esperança.
Semeia
tuas energias para poderes
enfrentar as lutas
Semeia tua coragem
para poderes encorajar
o outro.
Semeia teu entusiasmo,
tua fé, o teu amor.
Semeia coisas pequeninas,
Insignificantes
semeia e confia
Cada semente
há de enriquecer,
um pedaço de chão.
2 447
Silvaney Paes
O Tempo
Silêncio
que grita e espera
Por uma voz que assoma e apega
De fazer poemas na espera
Desse amor que a mim se apega
Não saber desse amar a espera
E de uma dor que só agora se apega
Que pela alma se espalha, dilacera.
De só sofrer na espera
E quando à noite, finda a espera.
Há em mim um torpor que se agrega
Por um amor que assoma e se apega
Chegou o amor que de ha muito se espera
E de toda uma vida de espera
De uma dor que se agrega
De um torpor que dilacera
Nada mais importa.
Chegas-te.
Fim da Dor e da Espera
que grita e espera
Por uma voz que assoma e apega
De fazer poemas na espera
Desse amor que a mim se apega
Não saber desse amar a espera
E de uma dor que só agora se apega
Que pela alma se espalha, dilacera.
De só sofrer na espera
E quando à noite, finda a espera.
Há em mim um torpor que se agrega
Por um amor que assoma e se apega
Chegou o amor que de ha muito se espera
E de toda uma vida de espera
De uma dor que se agrega
De um torpor que dilacera
Nada mais importa.
Chegas-te.
Fim da Dor e da Espera
823
Eudoro Augusto
Meu Brasil Brasileiro
Que uma lua mais verde
venha libertar nossos olhos enredados
da indiferença amarela
que ora habitamos.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera.
NOTA: O título do poema é um verso da canção "Aquarela do Brasil", de Ary Barros
venha libertar nossos olhos enredados
da indiferença amarela
que ora habitamos.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera.
NOTA: O título do poema é um verso da canção "Aquarela do Brasil", de Ary Barros
1 387
Fernando Pessoa
SUB UMBRA
As when the moon which on a wide deep stream
Makes every wavelet glint with silver light,
By some black cloud, a shadow of the night
ls but awhile obscured, yet still gleam
The waves in darkness, to no falling beam,
And please in shade with the obscure delight
Of a profounder motion, stilly dight
With softened silver, like a thing of dream;
So may for e'er my song its force retain,
And though a cloud o'ercast my weary mind
Let that but fill the glitter of my strain
With staider sweetness, showing to mankind
That though beneath a cloud I can sustain
My wonted song, to hope and bliss not blind.
Makes every wavelet glint with silver light,
By some black cloud, a shadow of the night
ls but awhile obscured, yet still gleam
The waves in darkness, to no falling beam,
And please in shade with the obscure delight
Of a profounder motion, stilly dight
With softened silver, like a thing of dream;
So may for e'er my song its force retain,
And though a cloud o'ercast my weary mind
Let that but fill the glitter of my strain
With staider sweetness, showing to mankind
That though beneath a cloud I can sustain
My wonted song, to hope and bliss not blind.
1 517
Carlos Drummond de Andrade
Contemplação No Banco
i
O coração pulverizado range
sob o peso nervoso ou retardado ou tímido
que não deixa marca na alameda, mas deixa
essa estampa vaga no ar, e uma angústia em mim,
espiralante.
Tantos pisam este chão que ele talvez
um dia se humanize. E malaxado,
embebido da fluida substância de nossos segredos,
quem sabe a flor que aí se elabora, calcária, sanguínea?
Ah, não viver para contemplá-la! Contudo,
não é longo mentar uma flor, e permitido
correr por cima do estreito rio presente,
construir de bruma nosso arco-íris.
Nossos donos temporais ainda não devassaram
o claro estoque de manhãs
que cada um traz no sangue, no vento.
Passarei a vida entoando uma flor, pois não sei cantar
nem a guerra, nem o amor cruel, nem os ódios organizados,
e olho para os pés dos homens, e cismo.
Escultura de ar, minhas mãos
te modelam nua e abstrata
para o homem que não serei.
Ele talvez compreenda com todo o corpo,
para além da região minúscula do espírito,
a razão de ser, o ímpeto, a confusa
distribuição, em mim, de seda e péssimo.
ii
Nalgum lugar faz-se esse homem…
Contra a vontade dos pais ele nasce,
contra a astúcia da medicina ele cresce,
e ama, contra a amargura da política.
Não lhe convém o débil nome de filho,
pois só a nós mesmos podemos gerar,
e esse nega, sorrindo, a escura fonte.
Irmão lhe chamaria, mas irmão
por quê, se a vida nova
se nutre de outros sais, que não sabemos?
Ele é seu próprio irmão, no dia vasto,
na vasta integração das formas puras,
sublime arrolamento de contrários
enlaçados por fim.
Meu retrato futuro, como te amo,
e mineralmente te pressinto, e sinto
quanto estás longe de nosso vão desenho
e de nossas roucas onomatopeias…
iii
Vejo-te nas ervas pisadas.
O jornal, que aí pousa, mente.
Descubro-te ausente nas esquinas
mais povoadas, e vejo-te incorpóreo,
contudo nítido, sobre o mar oceano.
Chamar-te visão seria
malconhecer as visões
de que é cheio o mundo
e vazio.
Quase posso tocar-te, como às coisas diluculares
que se moldam em nós, e a guarda não captura,
e vingam.
Dissolvendo a cortina de palavras,
tua forma abrange a terra e se desata
à maneira do frio, da chuva, do calor e das lágrimas.
Triste é não ter um verso maior que os literários,
é não compor um verso novo, desorbitado,
para envolver tua efígie lunar, ó quimera
que sobes do chão batido e da relva pobre.
O coração pulverizado range
sob o peso nervoso ou retardado ou tímido
que não deixa marca na alameda, mas deixa
essa estampa vaga no ar, e uma angústia em mim,
espiralante.
Tantos pisam este chão que ele talvez
um dia se humanize. E malaxado,
embebido da fluida substância de nossos segredos,
quem sabe a flor que aí se elabora, calcária, sanguínea?
Ah, não viver para contemplá-la! Contudo,
não é longo mentar uma flor, e permitido
correr por cima do estreito rio presente,
construir de bruma nosso arco-íris.
Nossos donos temporais ainda não devassaram
o claro estoque de manhãs
que cada um traz no sangue, no vento.
Passarei a vida entoando uma flor, pois não sei cantar
nem a guerra, nem o amor cruel, nem os ódios organizados,
e olho para os pés dos homens, e cismo.
Escultura de ar, minhas mãos
te modelam nua e abstrata
para o homem que não serei.
Ele talvez compreenda com todo o corpo,
para além da região minúscula do espírito,
a razão de ser, o ímpeto, a confusa
distribuição, em mim, de seda e péssimo.
ii
Nalgum lugar faz-se esse homem…
Contra a vontade dos pais ele nasce,
contra a astúcia da medicina ele cresce,
e ama, contra a amargura da política.
Não lhe convém o débil nome de filho,
pois só a nós mesmos podemos gerar,
e esse nega, sorrindo, a escura fonte.
Irmão lhe chamaria, mas irmão
por quê, se a vida nova
se nutre de outros sais, que não sabemos?
Ele é seu próprio irmão, no dia vasto,
na vasta integração das formas puras,
sublime arrolamento de contrários
enlaçados por fim.
Meu retrato futuro, como te amo,
e mineralmente te pressinto, e sinto
quanto estás longe de nosso vão desenho
e de nossas roucas onomatopeias…
iii
Vejo-te nas ervas pisadas.
O jornal, que aí pousa, mente.
Descubro-te ausente nas esquinas
mais povoadas, e vejo-te incorpóreo,
contudo nítido, sobre o mar oceano.
Chamar-te visão seria
malconhecer as visões
de que é cheio o mundo
e vazio.
Quase posso tocar-te, como às coisas diluculares
que se moldam em nós, e a guarda não captura,
e vingam.
Dissolvendo a cortina de palavras,
tua forma abrange a terra e se desata
à maneira do frio, da chuva, do calor e das lágrimas.
Triste é não ter um verso maior que os literários,
é não compor um verso novo, desorbitado,
para envolver tua efígie lunar, ó quimera
que sobes do chão batido e da relva pobre.
1 794
Pablo Neruda
I - Em Berlim a Manhã
Despertei. Era Berlim. Pela janela
vi o coração desdentado,
a doida sepultura,
a cinza,
as ruínas mais pesadas,
com florões e frisos
malferidos,
sacadas arrancadas por uma negra mandíbula,
paredes que já perderam, que não encontram
suas janelas, suas portas,
seus homens, suas mulheres,
e uma montanha adentro
de escombros amontoados,
sofrimento e soberba confundidos
na farinha final, no moinho
da morte.
Oh cidadela, oh sangue
inutilmente desaparecido,
talvez é esta, é esta
tua primeira vitória,
ainda entre escombros negros
a paz que conheceste,
limpando as cinzas e elevando
tua cidadela para todos os homens,
tirando de tuas ruínas
não os mortos,
mas o homem comum,
o novo homem,
o que edificará as estruturas
do amor e a paz e a vida.
vi o coração desdentado,
a doida sepultura,
a cinza,
as ruínas mais pesadas,
com florões e frisos
malferidos,
sacadas arrancadas por uma negra mandíbula,
paredes que já perderam, que não encontram
suas janelas, suas portas,
seus homens, suas mulheres,
e uma montanha adentro
de escombros amontoados,
sofrimento e soberba confundidos
na farinha final, no moinho
da morte.
Oh cidadela, oh sangue
inutilmente desaparecido,
talvez é esta, é esta
tua primeira vitória,
ainda entre escombros negros
a paz que conheceste,
limpando as cinzas e elevando
tua cidadela para todos os homens,
tirando de tuas ruínas
não os mortos,
mas o homem comum,
o novo homem,
o que edificará as estruturas
do amor e a paz e a vida.
1 087
Pablo Neruda
Ii - Jovens Alemães
Como um ramo vermelho
numa árvore queimada
aparece e nela
a flor do tempo brilha.
Assim, Alemanha, em teu rosto
queimado pela guerra,
tua nova juventude ilumina
as queimaduras e as cicatrizes
do inferno passado.
Eu recebi junto à Elba,
junto à transparência
de seu antigo transcurso,
quando partindo da Boêmia
o trem chegou à Alemanha,
à florida juventude de agora
com seus firmes sorrisos
e as mãos
cheias de flores que me davam
rapazes e moças
carregados de lilases.
Mas não eram as flores somente
as que davam luz sobre a água,
era o novo brotar humano,
o sorriso arrancado às cerejeiras,
o direto olhar,
as firmes mãos que apertavam as tuas,
e os olhos diretamente azuis.
Ali tremeu a terra
com toda a crueldade e o castigo,
e agora,
jovens
da água e da terra renascidos,
com flores na boca,
levantando o amor sobre a terra,
com a palavra Stalin
em milhões de lábios,
florescendo.
Oh prodígio,
aqui de novo a vida,
árvore de luz, colmeia,
celeiro inacabável,
a paz e a vida,
ramo e ramo,
água e água,
cacho com cacho,
lá das cicatrizes derrotadas
rumo à nova
madureza da aurora.
E eu esqueci as ruínas,
o alfabeto de pedra queimada,
a lição do fogo,
esqueci a guerra,
esqueci o ódio,
porque vi a vida.
Oh jovens,
jovens alemães,
novos preservadores de vossa primavera,
firmes e francos jovens da nova Alemanha,
olhai para o Este,
olhai para a vasta União
das Repúblicas amadas.
Vede como também de suas ruínas
amanhece na Polônia
um sorriso firme.
China, a gigantesca, sacudiu
suas cadeias cheias de sangue
e agora é nossa imensa irmã.
Diante de vós
está o tesouro do mundo,
não o antigo tesouro do saque,
mas o novo tesouro,
o largo espaço cheio
de seres fraternais,
a paz, vento de espigas, o encontro
com o homem remoto
que não vem para roubar-nos.
Vai passando e crescendo
por todas as terras um fio
de aço que cuidamos,
o mar cantando junto ao homem
seu eterno hino de espuma,
e como um telegrama diário o ar
deixando-nos notícias.
Quantas usinas novas nasceram,
quantas escolas apagaram a sombra,
quantos rapazes sabem a partir de hoje
o idioma secreto
dos metais e das estrelas,
como tiraremos pão do planeta
para todos
e daremos frescor à terra,
velha mãe de todos os homens.
Inventaremos água nova,
arroz celeste,
motores de cristal.
Estenderemos
mais além das ilhas o espaço.
Nos desertos de fogo e areia
veremos como dança
a primavera em nossos braços, porque
nada será esquecido,
nem a terra,
nem o homem.
O homem não será esquecido
e é este o tesouro.
Jovens que do fundo
da guerra
trazeis um sorriso
que não será afogado,
este é o tesouro:
não esquecer o homem.
Porque assim é maior a terra
que todos os astros reunidos.
Assim crescemos cada dia e cada
dia somos mais ricos de homens,
temos mais irmãos,
no ar, nas minas,
nas altas planícies
da Mongólia metálica.
O homem,
ao Este, ao Norte, ao Sul,
ao Oeste, para cima,
onde caminha o vento,
o homem.
Olha, rapaz, como te saúdam,
olha como cresceu tua família,
grande é a terra e tua,
grande é a terra e minha,
é de todos,
saúda,
saúda o mundo,
o novo mundo que nasceu
e que contigo crescerá
porque tu és semente.
Crescerás, cresceremos.
Já ninguém pode derrubar a árvore
nem cortar suas raízes
porque em teu coração estão crescendo
e a árvore encherá toda a terra
de flores e cantos e frutos.
numa árvore queimada
aparece e nela
a flor do tempo brilha.
Assim, Alemanha, em teu rosto
queimado pela guerra,
tua nova juventude ilumina
as queimaduras e as cicatrizes
do inferno passado.
Eu recebi junto à Elba,
junto à transparência
de seu antigo transcurso,
quando partindo da Boêmia
o trem chegou à Alemanha,
à florida juventude de agora
com seus firmes sorrisos
e as mãos
cheias de flores que me davam
rapazes e moças
carregados de lilases.
Mas não eram as flores somente
as que davam luz sobre a água,
era o novo brotar humano,
o sorriso arrancado às cerejeiras,
o direto olhar,
as firmes mãos que apertavam as tuas,
e os olhos diretamente azuis.
Ali tremeu a terra
com toda a crueldade e o castigo,
e agora,
jovens
da água e da terra renascidos,
com flores na boca,
levantando o amor sobre a terra,
com a palavra Stalin
em milhões de lábios,
florescendo.
Oh prodígio,
aqui de novo a vida,
árvore de luz, colmeia,
celeiro inacabável,
a paz e a vida,
ramo e ramo,
água e água,
cacho com cacho,
lá das cicatrizes derrotadas
rumo à nova
madureza da aurora.
E eu esqueci as ruínas,
o alfabeto de pedra queimada,
a lição do fogo,
esqueci a guerra,
esqueci o ódio,
porque vi a vida.
Oh jovens,
jovens alemães,
novos preservadores de vossa primavera,
firmes e francos jovens da nova Alemanha,
olhai para o Este,
olhai para a vasta União
das Repúblicas amadas.
Vede como também de suas ruínas
amanhece na Polônia
um sorriso firme.
China, a gigantesca, sacudiu
suas cadeias cheias de sangue
e agora é nossa imensa irmã.
Diante de vós
está o tesouro do mundo,
não o antigo tesouro do saque,
mas o novo tesouro,
o largo espaço cheio
de seres fraternais,
a paz, vento de espigas, o encontro
com o homem remoto
que não vem para roubar-nos.
Vai passando e crescendo
por todas as terras um fio
de aço que cuidamos,
o mar cantando junto ao homem
seu eterno hino de espuma,
e como um telegrama diário o ar
deixando-nos notícias.
Quantas usinas novas nasceram,
quantas escolas apagaram a sombra,
quantos rapazes sabem a partir de hoje
o idioma secreto
dos metais e das estrelas,
como tiraremos pão do planeta
para todos
e daremos frescor à terra,
velha mãe de todos os homens.
Inventaremos água nova,
arroz celeste,
motores de cristal.
Estenderemos
mais além das ilhas o espaço.
Nos desertos de fogo e areia
veremos como dança
a primavera em nossos braços, porque
nada será esquecido,
nem a terra,
nem o homem.
O homem não será esquecido
e é este o tesouro.
Jovens que do fundo
da guerra
trazeis um sorriso
que não será afogado,
este é o tesouro:
não esquecer o homem.
Porque assim é maior a terra
que todos os astros reunidos.
Assim crescemos cada dia e cada
dia somos mais ricos de homens,
temos mais irmãos,
no ar, nas minas,
nas altas planícies
da Mongólia metálica.
O homem,
ao Este, ao Norte, ao Sul,
ao Oeste, para cima,
onde caminha o vento,
o homem.
Olha, rapaz, como te saúdam,
olha como cresceu tua família,
grande é a terra e tua,
grande é a terra e minha,
é de todos,
saúda,
saúda o mundo,
o novo mundo que nasceu
e que contigo crescerá
porque tu és semente.
Crescerás, cresceremos.
Já ninguém pode derrubar a árvore
nem cortar suas raízes
porque em teu coração estão crescendo
e a árvore encherá toda a terra
de flores e cantos e frutos.
1 209
Pablo Neruda
Índia, 1951
Na Índia
de novo,
outra vez
o aroma
de frutas mortas, o
grasnido
de corvos.
Senti que se oprimia
dentro de um vaso quebrado
meu coração, ouvi
passos,
passos que morreram,
passos.
Ramagem
de raças e de túnicas,
Índia,
materna, entrelaçada,
angusta, cruel, remota,
eras a mesma.
Os grandes rios sepultando corpos,
a cor de açafrão nas colinas,
mas agora
não era minha juventude, minha solitária adolescência vagante.
Agora
as flores me esperavam,
caíram em meu colo,
e um nome,
uma carta,
uma simples sílaba
vinha
lá do cárcere para reconhecer-me.
Terras de Telenghana,
mártires, criaturas
colhidas entre
dois fogos,
as metralhadoras do governo,
os cárceres
do Nizam de Hyderabad.
Camponeses caídos
nas que já creram
terras suas,
agora
com Parlamento próprio,
sem ingleses,
e a velha miséria,
a fome
ululando nas aldeias.
Esperando,
esperando
sempre viveu a Índia,
sentada
junto ao rio do tempo,
esperando.
Passavam os guerreiros
de pés ensanguentados,
os príncipes
comedores de pérolas,
os ingleses
impassíveis,
os sacerdotes frios
como sáurios,
estudando o umbigo
da terra e do céu,
todos
devorando-te algo,
passageiros, piratas, mercenários,
e tu, mãe do mundo,
sentada junto ao rio
do tempo
fiando e esperando.
Agora os poetas,
Sirdard Jaffris ou o outro,
o magro ou o barbudo,
saíam do cárcere.
A poesia
na Índia
entrava no calabouço,
saía e regressava,
aprendendo
a liberdade entre os prisioneiros,
conhecendo
as penas,
os dialetos, as dores,
as palavras secretas
dos ensimesmados camponeses,
a queixa dolorosa,
as abertas feridas,
a doçura rebelde
que avança levantando seu estandarte
de estrelas e pombas.
Útero da terra, território
fechado em que fermentam
as uvas da História.
Antiga irmã
dos velhos planetas,
eu soube agora,
escutando os cantos nos povoados,
as iras debulhadas,
os punhos no vento,
soube
que se levantarão tuas estaturas,
que se acumulará teu poderio,
que darás a teu povo
o pão que lhe negavas,
e que já não veremos
passar detrás do ouro,
cruzar detrás do rito
deslumbrador da teogonia,
a fome com sua escova
varrendo pobres ossos e sujeiras
no lado do caminho.
Índia, levanta
tua juventude, incita
teu relógio para marcar a hora que vem.
Adianta-te e colhe
no horário o alto meio-dia.
São antigas tuas flechas.
Sobe-as à tua testa e crava
no horário teu destino.
de novo,
outra vez
o aroma
de frutas mortas, o
grasnido
de corvos.
Senti que se oprimia
dentro de um vaso quebrado
meu coração, ouvi
passos,
passos que morreram,
passos.
Ramagem
de raças e de túnicas,
Índia,
materna, entrelaçada,
angusta, cruel, remota,
eras a mesma.
Os grandes rios sepultando corpos,
a cor de açafrão nas colinas,
mas agora
não era minha juventude, minha solitária adolescência vagante.
Agora
as flores me esperavam,
caíram em meu colo,
e um nome,
uma carta,
uma simples sílaba
vinha
lá do cárcere para reconhecer-me.
Terras de Telenghana,
mártires, criaturas
colhidas entre
dois fogos,
as metralhadoras do governo,
os cárceres
do Nizam de Hyderabad.
Camponeses caídos
nas que já creram
terras suas,
agora
com Parlamento próprio,
sem ingleses,
e a velha miséria,
a fome
ululando nas aldeias.
Esperando,
esperando
sempre viveu a Índia,
sentada
junto ao rio do tempo,
esperando.
Passavam os guerreiros
de pés ensanguentados,
os príncipes
comedores de pérolas,
os ingleses
impassíveis,
os sacerdotes frios
como sáurios,
estudando o umbigo
da terra e do céu,
todos
devorando-te algo,
passageiros, piratas, mercenários,
e tu, mãe do mundo,
sentada junto ao rio
do tempo
fiando e esperando.
Agora os poetas,
Sirdard Jaffris ou o outro,
o magro ou o barbudo,
saíam do cárcere.
A poesia
na Índia
entrava no calabouço,
saía e regressava,
aprendendo
a liberdade entre os prisioneiros,
conhecendo
as penas,
os dialetos, as dores,
as palavras secretas
dos ensimesmados camponeses,
a queixa dolorosa,
as abertas feridas,
a doçura rebelde
que avança levantando seu estandarte
de estrelas e pombas.
Útero da terra, território
fechado em que fermentam
as uvas da História.
Antiga irmã
dos velhos planetas,
eu soube agora,
escutando os cantos nos povoados,
as iras debulhadas,
os punhos no vento,
soube
que se levantarão tuas estaturas,
que se acumulará teu poderio,
que darás a teu povo
o pão que lhe negavas,
e que já não veremos
passar detrás do ouro,
cruzar detrás do rito
deslumbrador da teogonia,
a fome com sua escova
varrendo pobres ossos e sujeiras
no lado do caminho.
Índia, levanta
tua juventude, incita
teu relógio para marcar a hora que vem.
Adianta-te e colhe
no horário o alto meio-dia.
São antigas tuas flechas.
Sobe-as à tua testa e crava
no horário teu destino.
1 174
Pablo Neruda
Aqui Vem Nazim Hikmet
Nazim, das prisões
recém-saído,
presenteou-me sua camisa bordada
com fios de ouro vermelho
como sua poesia.
Fios de sangue turco
são seus versos,
fábulas verdadeiras
com antiga inflexão, curvas ou retas,
como alfanjes ou espadas,
seus clandestinos versos
feitos para defrontar
todo o meio-dia da luz,
hoje são como as armas escondidas,
brilham sob os andares,
esperam nos poços,
debaixo da escuridão impenetrável
dos olhos escuros
de seu povo.
De suas prisões veio
para ser meu irmão
e percorremos juntos
as neves das estepes
e a noite acesa
com nossas próprias lâmpadas.
Aqui está seu retrato
para que não se esqueça sua figura:
É alto
como uma torre
levantada na paz das campinas
e acima
duas janelas:
seus olhos
com a luz da Turquia.
Errantes
encontramos
a terra firme sob nossos pés,
a terra conquistada
pelos heróis e poetas,
pelas ruas de Moscou, a lua cheia
florescendo nos muros,
as moças
que amamos,
o amor que adoramos,
a alegria,
nossa única seita,
a esperança total que compartilhamos,
e mais que tudo
uma luta
de povos
onde são uma gota e outra gota,
gotas do mar humano,
seus versos e meus versos.
Mas
detrás da alegria de Nazim
há feitos,
feitos como madeiros
ou como fundações de edifícios.
Anos
de silêncio e presídio.
Anos
que não conseguiram
morder, comer, engolir
sua heróica juventude.
Contava-me
que por mais de dez anos
deixaram-lhe
a luz da lâmpada elétrica
toda a noite e hoje
esquece cada noite,
deixa na liberdade
ainda a luz acesa.
Sua alegria
tem raízes negras
fundidas em sua pátria
como flor de pântanos.
Por isso
quando ri,
quando Nazim ri,
Nazim Hikmet,
não é como quando ris:
é mais alvo seu riso,
nele sorri a lua,
a estrela,
o vinho,
a terra que não morre,
todo o arroz saúda com seu riso,
todo seu povo canta por sua boca.
IV
ALBÂNIA
Nunca na Albânia
estive,
áspera terra amada,
pedregosa
pátria dos pastores.
Hoje
espero
chegar a ti como a uma festa,
uma nova
festa terrestre: o sol
sobre a musculosa empunhadura
de tuas serras
e vislumbrar entre penhascos
como cresce
o novo lírio terno,
a cultura,
as letras que se estendem,
o respeito ao antigo camponês,
a origem do operário,
o monumento insigne
da fraternidade, o crescimento
da bondade como uma jovem planta
que floresce nas velhas terras pobres.
Albânia, pequeninha,
forte, firme, sonora,
tua corda na guitarra
— fio de água e aço —
conjuga-se ao som da História,
ao canto do tempo invencível,
com uma voz de bosques
e edifícios,
aromas e brancuras,
canto de todo o homem e todo o bosque,
pássaros e macieiras,
ventos e ondas.
Força, firmeza e flor são teu regalo
na construção do terrestre.
recém-saído,
presenteou-me sua camisa bordada
com fios de ouro vermelho
como sua poesia.
Fios de sangue turco
são seus versos,
fábulas verdadeiras
com antiga inflexão, curvas ou retas,
como alfanjes ou espadas,
seus clandestinos versos
feitos para defrontar
todo o meio-dia da luz,
hoje são como as armas escondidas,
brilham sob os andares,
esperam nos poços,
debaixo da escuridão impenetrável
dos olhos escuros
de seu povo.
De suas prisões veio
para ser meu irmão
e percorremos juntos
as neves das estepes
e a noite acesa
com nossas próprias lâmpadas.
Aqui está seu retrato
para que não se esqueça sua figura:
É alto
como uma torre
levantada na paz das campinas
e acima
duas janelas:
seus olhos
com a luz da Turquia.
Errantes
encontramos
a terra firme sob nossos pés,
a terra conquistada
pelos heróis e poetas,
pelas ruas de Moscou, a lua cheia
florescendo nos muros,
as moças
que amamos,
o amor que adoramos,
a alegria,
nossa única seita,
a esperança total que compartilhamos,
e mais que tudo
uma luta
de povos
onde são uma gota e outra gota,
gotas do mar humano,
seus versos e meus versos.
Mas
detrás da alegria de Nazim
há feitos,
feitos como madeiros
ou como fundações de edifícios.
Anos
de silêncio e presídio.
Anos
que não conseguiram
morder, comer, engolir
sua heróica juventude.
Contava-me
que por mais de dez anos
deixaram-lhe
a luz da lâmpada elétrica
toda a noite e hoje
esquece cada noite,
deixa na liberdade
ainda a luz acesa.
Sua alegria
tem raízes negras
fundidas em sua pátria
como flor de pântanos.
Por isso
quando ri,
quando Nazim ri,
Nazim Hikmet,
não é como quando ris:
é mais alvo seu riso,
nele sorri a lua,
a estrela,
o vinho,
a terra que não morre,
todo o arroz saúda com seu riso,
todo seu povo canta por sua boca.
IV
ALBÂNIA
Nunca na Albânia
estive,
áspera terra amada,
pedregosa
pátria dos pastores.
Hoje
espero
chegar a ti como a uma festa,
uma nova
festa terrestre: o sol
sobre a musculosa empunhadura
de tuas serras
e vislumbrar entre penhascos
como cresce
o novo lírio terno,
a cultura,
as letras que se estendem,
o respeito ao antigo camponês,
a origem do operário,
o monumento insigne
da fraternidade, o crescimento
da bondade como uma jovem planta
que floresce nas velhas terras pobres.
Albânia, pequeninha,
forte, firme, sonora,
tua corda na guitarra
— fio de água e aço —
conjuga-se ao som da História,
ao canto do tempo invencível,
com uma voz de bosques
e edifícios,
aromas e brancuras,
canto de todo o homem e todo o bosque,
pássaros e macieiras,
ventos e ondas.
Força, firmeza e flor são teu regalo
na construção do terrestre.
1 457
Pablo Neruda
Iii - Terceiro Canto de Amor a Stalingrado
Stalingrado com as asas tórridas
do verão, as brancas
mansões elevando-se:
uma cidade qualquer.
As pessoas apressadas
em seu trabalho.
Um cão cruza
o dia poeirento.
Uma moça corre
com um papel na mão.
Não passa nada,
exceto o Volga
de águas escuras.
Uma a uma as casas
se levantaram
lá do peito do homem,
e voltaram os selos do correio,
os buracos das caixas postais,
as árvores,
voltaram os meninos,
as escolas,
voltou o amor,
as mães
pariram,
voltaram as cerejas
aos ramos,
o vento
ao céu,
e então?
Sim, é a mesma,
não cabe dúvida.
Aqui esteve a linha,
a rua,
a esquina,
o metro e o centímetro
ali onde nossa vida e a razão
de todas nossas vidas
foi ganha
com sangue.
Aqui se cortou o nó
que apertou a garganta
da História.
Aqui foi. Se parece mentira
que possamos
pisar a rua e ver
a moça e o cão,
escrever uma carta,
mandar um telegrama,
mas talvez
para isto,
para este dia igual
a cada dia,
para este sol simples
na paz dos homens
foi a vitória,
aqui, nesta cinza
da terra sagrada.
Pão de hoje, livro de hoje, pinheiro recente
plantado esta manhã,
luminosa avenida
recém-chegada do papel
ali onde o engenheiro
a traçou sob o vento da guerra,
menina que passas, cão
que atravessas o dia poento,
oh milagres,
milagres do sangue,
milagres do aço e do Partido,
milagres de nosso novo mundo.
Ramo de acácia com espinhos e flores,
ali onde, ali onde
terás maior perfume
que neste lugar em que todo perfume foi apagado,
em que tudo caiu
menos o homem,
e homem destes dias,
o soldado soviético?
Oh, ramo perfumado,
cheiras
aqui
mais que uma reunida primavera!
Aqui cheiras a homem e a esperança,
aqui, ramo de acácia,
não pôde queimar-te o fogo
nem sepultar-te o vento da morte.
Aqui ressuscitaste cada dia
sem ter morrido nunca,
e hoje em teu aroma o infinito humano
de ontem e de amanhã,
de passado amanhã,
nos volta para dar sua eternidade florida.
És como a usina de tratores:
hoje florescem de novo
grandes flores metálicas
que penetrarão na terra
para que a semente
seja multiplicada.
Também a usina
foi cinza,
ferro retorcido, espuma
sangrenta da guerra,
mas seu coração não se deteve,
foi aprendendo a morrer e a renascer.
Stalingrado ensinou ao mundo
a suprema lição da vida:
nascer, nascer, nascer,
e nascia
morrendo,
disparava
nascendo,
ia de bruços e se levantava
com um raio na mão.
Toda a noite ia sangrando
e já na aurora
podia ceder sangue
a todas as cidades da terra.
Empalidecia com a neve negra
e toda a morte caindo
e quando olhavas
para vê-la tombar, quando chorávamos
seu final de fortaleza,
ela nos sorria,
Stalingrado
nos sorria.
E agora
a morte se foi:
só algumas paredes,
alguma contorção de ferro
bombardeado e retorcido,
só algum rastro
como uma cicatriz de orgulho,
hoje tudo é claridade, lua e espaço,
decisão e brancura,
e no alto
um ramo de acácia,
folhas, flores, espinhos defensores,
a imensa primavera
de Stalingrado,
o invencível aroma
de Stalingrado!
do verão, as brancas
mansões elevando-se:
uma cidade qualquer.
As pessoas apressadas
em seu trabalho.
Um cão cruza
o dia poeirento.
Uma moça corre
com um papel na mão.
Não passa nada,
exceto o Volga
de águas escuras.
Uma a uma as casas
se levantaram
lá do peito do homem,
e voltaram os selos do correio,
os buracos das caixas postais,
as árvores,
voltaram os meninos,
as escolas,
voltou o amor,
as mães
pariram,
voltaram as cerejas
aos ramos,
o vento
ao céu,
e então?
Sim, é a mesma,
não cabe dúvida.
Aqui esteve a linha,
a rua,
a esquina,
o metro e o centímetro
ali onde nossa vida e a razão
de todas nossas vidas
foi ganha
com sangue.
Aqui se cortou o nó
que apertou a garganta
da História.
Aqui foi. Se parece mentira
que possamos
pisar a rua e ver
a moça e o cão,
escrever uma carta,
mandar um telegrama,
mas talvez
para isto,
para este dia igual
a cada dia,
para este sol simples
na paz dos homens
foi a vitória,
aqui, nesta cinza
da terra sagrada.
Pão de hoje, livro de hoje, pinheiro recente
plantado esta manhã,
luminosa avenida
recém-chegada do papel
ali onde o engenheiro
a traçou sob o vento da guerra,
menina que passas, cão
que atravessas o dia poento,
oh milagres,
milagres do sangue,
milagres do aço e do Partido,
milagres de nosso novo mundo.
Ramo de acácia com espinhos e flores,
ali onde, ali onde
terás maior perfume
que neste lugar em que todo perfume foi apagado,
em que tudo caiu
menos o homem,
e homem destes dias,
o soldado soviético?
Oh, ramo perfumado,
cheiras
aqui
mais que uma reunida primavera!
Aqui cheiras a homem e a esperança,
aqui, ramo de acácia,
não pôde queimar-te o fogo
nem sepultar-te o vento da morte.
Aqui ressuscitaste cada dia
sem ter morrido nunca,
e hoje em teu aroma o infinito humano
de ontem e de amanhã,
de passado amanhã,
nos volta para dar sua eternidade florida.
És como a usina de tratores:
hoje florescem de novo
grandes flores metálicas
que penetrarão na terra
para que a semente
seja multiplicada.
Também a usina
foi cinza,
ferro retorcido, espuma
sangrenta da guerra,
mas seu coração não se deteve,
foi aprendendo a morrer e a renascer.
Stalingrado ensinou ao mundo
a suprema lição da vida:
nascer, nascer, nascer,
e nascia
morrendo,
disparava
nascendo,
ia de bruços e se levantava
com um raio na mão.
Toda a noite ia sangrando
e já na aurora
podia ceder sangue
a todas as cidades da terra.
Empalidecia com a neve negra
e toda a morte caindo
e quando olhavas
para vê-la tombar, quando chorávamos
seu final de fortaleza,
ela nos sorria,
Stalingrado
nos sorria.
E agora
a morte se foi:
só algumas paredes,
alguma contorção de ferro
bombardeado e retorcido,
só algum rastro
como uma cicatriz de orgulho,
hoje tudo é claridade, lua e espaço,
decisão e brancura,
e no alto
um ramo de acácia,
folhas, flores, espinhos defensores,
a imensa primavera
de Stalingrado,
o invencível aroma
de Stalingrado!
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