Poemas neste tema

Esperança e Otimismo

Adélia Prado

Adélia Prado

Módulo de Verão

As cigarras começaram de novo, brutas e brutas.
Nem um pouco delicadas as cigarras são.
Esguicham atarraxadas nos troncos
o vidro moído de seus peitos, todo ele
— chamado canto — cinzento-seco, garra
de pelo e arame, um áspero metal.
As cigarras têm cabeça de noiva,
as asas como véu, translúcidas.
As cigarras têm o que fazer,
têm olhos perdoáveis.
Quem não quis junto deles uma agulha?
— Filhinho meu, vem comer,
ó meu amor, vem dormir.
Que noite tão clara e quente,
ó vida tão breve e boa!
A cigarra atrela as patas
é no meu coração.
O que ela fica gritando eu não entendo,
sei que é pura esperança.
1 313
Elisa Lucinda

Elisa Lucinda

Para um Amor na Rua

Meu amor,
vem pra casa que ouvi dizer
que vai estourar a guerra
Nostradamus previu
Raimunda, nega Raimunda confirmou
Por favor, ponha os pés na terra
Chão firme cama da gente
ouvi dizer que vai estourar a guerra.
Você que é mundano convicto
você que erra
vai argumentar que não há perigo e o escambou
que é apenas o "bicho" internacional.
Vai confundir tudo com show
vai dizer que tem Prince, Rock nroll
Guns NRoses e talvez Gal;
É mau, meu bem
tem também Sadam, Bushes e mesquinharias
Vem pra casa guardar num cofre sua ingenuidade
vem proteger da maldade sua fotografia.
Aqui fiz cuscuz farofa e feijão fraldinho
aqui pintei filosofia, comigo-ninguém-pode
espada de São Jorge, jasmim, arruda, carinho.
Tudo anti-míssil
tudo bruxaria anti-crueldade bélica
Lá fora alguns meninos
querem experimentar a potência
de seus terríveis brinquedos.
Não tenha medo
vem pra casa sem nem telefonar
aqui tem ar, poesia, fé
e tudo que a alegria da alma encerra.

Vem, meu amor
que ouvi dizer que vai estourar a guerra.

(verão de 1991)

1 792
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Pero Tal Coita Hei D'amor

Pero tal coita hei d'amor
que maior nom pod'hom'haver,
nom moiro nem hei en sabor,
nem morrerei, a meu poder:
       porque sempr'atend'haver bem
       da dona que quero gram bem.

E os que mui coitados som
d'amor, desejam a morrer,
mais eu, assi Deus mi perdom,
queria gram sazom viver:
       porque sempr'atend'haver bem
       da dona que quero gram bem.

Mal sem é per desasperar
home de mui gram bem haver
de sa senhor, que lhi Deus dar
pod', e non'o quer'eu fazer:
       porque sempr'atend'haver bem
       da dona que quero gram bem.

E quem deseja mort'haver
por coita d'amor nom faz sem,
nen'o tenh'eu por de bom sem.
637
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Coração da Neve

No coração da neve
e no espaço
no silêncio e na infância
no amor na solidão na liberdade
na gentileza na fraternidade
o mesmo puro delírio
de iluminar as trevas
sem diminuir o sonho
e fazê-las cantar
à luz do dia
1 103
Adélia Prado

Adélia Prado

Para Cantar Com o Saltério

Te espero desde o acre mel de marimbondos da minha
[juventude.
Desde quando falei, vou ser cruzado, acompanhar
[bandeiras,
ser Maria Bonita no bando de Lampião, Anita ou Joana,
desde as brutalidades da minha fé sem dúvidas.
Te espero e não me canso, desde, até agora e para sempre,
amado que virá para pôr sua mão na minha testa
e inventar com sua boca de verdade
o meu nome para mim.
1 126
Adélia Prado

Adélia Prado

Amor Feinho

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.
1 347
Egito Gonçalves

Egito Gonçalves

Sitiados

Esta cidade é a última cidade...
Os muros derruídos estão cercados:
Os canhões troam através dos mapas.

Nossa imagem, revelada pelas montras,
Passeia pelas ruas de mãos dadas...
Somos a última trincheira valiosa.

Unidos, trituramos os assaltos
E renovamos o cristal da esperança.

Os ruídos emolduram-te o sorriso,
Pura mensagem, prenhe de um futuro
Isolado de poeiras e de lágrimas.

1 697
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

No Festival

Na janela Carolina
não viu o tempo passar.
Eu bem que mostrei a ela:
São os do Norte que vêm,
que vêm para dar exemplo
com Suassuna e Capiba.
Enquanto isso Guarabira,
que é Guttenberg também,
vai demolindo o castelo
(será de Garcia d’Ávila?),
uma pedrinha e mais outra.
Aparece Margarida
em seu terraço roqueiro
(ah, esse Rio comprido!),
exclama: Calma, filhinho,
que tu me botas abaixo.
Mas Gut, que nem Botafogo
em dia de goleada,
vai cantando seu olé
em som fechado de olê.
Marinheiro, olê… Lá vai,
lá vai nessa travessia
onde o nome de Maria
— é Maria a toda hora,
é Maria atrás do som,
da cor, da dor, do pistom —
de tão repetido serve
de “como vai” e “bom-dia”.
Como é bom dizer bom-dia,
diz o netinho do Souto
enquanto papa um biscoito.
Ó Maria Madrugada,
ó Maria Minha Fé,
acorda, que na alvorada
quero bem quente o café.
Sou de Oxalá. Não sabias?
Quem sabe não vai dizer,
não mete a mão em cumbuca,
foi pago pra não falar,
por mais que reclame Tuca.
Filho de branco e de preto,
eu sempre quis só cantar
de serra, de terra e mar.
Eu troco o não pelo sim,
não tranco meu coração.
E quem será que inventou
não só o tempo da flor,
não só o tempo do amor,
mas esse instante de luz
que é esperança de aurora
sob os líricos auspícios
de nosso caro Vinícius?
Eu bem que mostrei sorrindo,
ó meu amor infinito
(infinito enquanto dura),
todas as coisas do mundo,
se queres, te quero dar.
— Fala baixinho… Ninguém
é capaz de compreender
meiguices de Pixinguinha
em tempos de desamor.
E, sem ligar pra ninguém,
andarilho Pingarilho,
venho de terras distantes.
No sertão de minha terra
outro vento está soprando.
E tudo se transformou.
A vida como ela é
se impõe, Geraldo Vandré.
Dá vontade de gritar,
mas o que ouço em redor
é choradeira em novelo,
rala dor de cotovelo.
Por que a lágrima vã
que turvou o teu olhar
em canto não se converte
noutra estrela da manhã?
Bem faz o Chico: se a estrela
caiu e murchou a rosa,
ei-lo que mostra à janela
de floresta, céu e mar:
— Oh que lindo… Carolina,
meu doce, minha menina,
não deixa o barco partir,
não deixa a banda passar!
25/10/1967
1 210
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Morto de Mênfis

A arma branca
e o alvo preto
não cabem
no soneto.

A mão
que move o fuzil
destrói o til
da canção.

Fica no ar
o som
do verbo matar.

Na varanda, sem cor,
os restos
do amor.

Nos vergéis da justiça
o sol faísca
sobre carniça.

O ódio e seu olho
telescópico
formam um demônio
ubíquo.

Seu nome, Legião.
Não
perdoa a vida.
Onde a vida brota
seu talo verde,
ele vai e corta.

Onde a vida fala
sua esperança,
ele crava a lança,

borda o epitáfio:
Aqui jaz,
desossada, a paz.

Na linha de cor,
na linha de dor,
na linha de horror

da caçada,
a mata é basculante
de banheiro; mais nada.

(Ou janela debruçada
sobre o carro.
Caça ou curra?)

O homem não se reconhece
no semelhante.
O homem anoitece.

O que mais o assusta,
o que mais o ofende
é a luz vasta.

O homem ignora
tudo que já sabe.
E não chora.

Sua intenção
é matar-se na morte
do irmão?

É negar o irmão
e seguir sozinho,
seco, surdo, torto
espinho?

As artes, os sonhos
dissipam-se no projeto
medonho.

Mas renascem. De lágrimas,
pânico, tortura,
emerge a vida pura,

em sua fraqueza
mais forte que a força,
mais força que a morte.

A raiz do homem
vai tentar de novo
o ato de amar.

Vai recomeçar,
Vai continuar.
Continuar.

O morto de Mênfis
continua a amar.
Ninguém mais o pode
matar.
12/04/1968
1 216
Martha Medeiros

Martha Medeiros

Perguntas

Quantas vezes você andava na rua e sentiu um perfume e lembrou de alguém que gosta muito?
Quantas vezes você olhou para uma paisagem em uma foto, e não se imaginou lá com alguém... 
Quantas vezes você estava do lado de alguém, e sua cabeça não estava ali? 
Alguma vez você já se arrependeu de algo que falou dois segundos depois de ter falado? 
Você deve ter visto que aquele filme, que vocês dois viram juntos no cinema, vai passar na TV... 
E você gelou porque o bom daquele momento já passou... 
E aquela música que você não gosta de ouvir porque lembra algo ou alguém que você quer esquecer mas não consegue? 
Não teve aquele dia em que tudo deu errado, mas que no finzinho aconteceu algo maravilhoso? 
E aquele dia em que tudo deu certo, exceto pelo final que estragou tudo? 
Você já chorou por que lembrou de alguém que amava e não pôde dizer isso para essa pessoa? 
Você já reencontrou um grande amor do passado e viu que ele mudou? 
Para essas perguntas existem muitas respostas... 
Mas o importante sobre elas não é a resposta em si... 
Mas sim o sentimento... 
Todos nós amamos, erramos ou julgamos mal... 
Todos nós já fizemos uma coisa quando o coração mandava fazer outra... 
Então, qual a moral disso tudo? 
Nem tudo sai como planejamos portanto, uma coisa é certa... 
Não continue pensando em suas fraquezas e erros, faça tudo que puder para ser feliz hoje! 
Não deite com mágoas no coração. 
Não durma sem ao menos fazer uma pessoa feliz! 
E comece com você mesmo!
1 312
Sérgio Milliet

Sérgio Milliet

Autobiografia Inacabada

IV

Vícios de estufa
revanches de sonho
e um dia o milagre do mar.

1 200
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Labirinto

Sozinha caminhei no labirinto
Aproximei meu rosto do silêncio e da treva
Para buscar a luz dum dia limpo
1 579
José Saramago

José Saramago

Venham Enfim

Venham enfim as altas alegrias,
As ardentes auroras, as noites calmas,
Venha a paz desejada, as harmonias,
E o resgate do fruto, e a flor das almas.
Que venham, meu amor, porque estes dias
São de morte cansada,
De raiva e agonias
E nada.
1 169
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Poema da Purificação

Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.

As águas ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.

Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.
1 935
Maria Helena Nery Garcez

Maria Helena Nery Garcez

Tess

Que cortejo é este que avança com sanfonas pela estrada?
De morte é,
certamente,
embora toque e dance.
Se, desesperadamente, sei o final,
por que é que então,
desesperadamente,
o miolo me obceca?
Se Romeu perde Julieta
e por ela é igualmente perdido,
se,
ao fim e ao cabo,
Hamlet tomba ao fio da espada,
o que é que me leva a torcer?
a sofrer?
a vibrar?
O que, como Abraão,
a esperar contra toda a esperança?
a desejar uma posteridade mais numerosa que os grãos de areia
e as estrelas do céu?
Que cortejo é este, Deus meu,
que avança com sanfonas de morte e dança pela estrada?


In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Conta gotas. São Paulo: J. Scortecci, 1987
927
José Saramago

José Saramago

Criação

Deus não existe ainda, nem sei quando
Sequer o esboço, a cor se afirmará
No desenho confuso da passagem
De gerações inúmeras nesta esfera.

Nenhum gesto se perde, nenhum traço,
Que o sentido da vida é este só:
Fazer da Terra um Deus que nos mereça,
E dar ao Universo o Deus que espera.
1 260
Carlos Frydman

Carlos Frydman

Asfalto

Quando andares cabisbaixo
com a carga de um dia... de dois dias...
de não sei quantos dias...
ou com a carga de uma vida,
vê o asfalto como fala
e compartilha...

Fala claro seu negrume
calado, mas premente,
de ecléticos vestígios
passados e presentes,
civilizados e degradantes,
rolando ao vento,
deleitando os fatalistas,
os retardatários e fatigados,
os impelidos, os submissos e os contrafeitos
pelo impacto compacto;
enquanto,
ao mesmo compasso
descompassado do tempo,
nas mesmas ruas
com itinerários diferentes,
marcham seres em seus caminhos,
amando, acreditando,
na escolha emaranhada
de seus destinos,
embora para todos
o asfalto é negro,
submisso e prestadio.
Quando tiveres sede de paisagens
e te faltar a gênese do horizonte,
especialmente num dia chuvoso,
vê como o asfalto apanha e enriquece
os sensacionalistas clarões dos fosforescentes,
e faz numa só sequência
um guache trêmulo, refletido,
deixando as lágrimas da chuva
arrastarem a lama;
e a vida prevalece
em seu elaborado destino.

Solidão... vazio...
quanta esperança... quanto estio
em teu negrume
— asfalto amigo,
que Mário soube tragar
da "Paulicéia Desvairada"
e onde muito me apaixonei.

(...)

Minha Paulicéia novaiorquina, moscovita,
plagiadora londrina,
colmeia universal,
expressão nítida do advento,
rosário de alegria e de luto,
que me fizeste amante
e companheiro consequente.

Asfalto,
amo tua noite onde rondam
desolações e aconchegos
em teu negro seio.

Incansavelmente te perpassam
mágoas na agitação afogadas,
multidões nostálgicas,
alegrias ilusórias em correntezas diluídas,
homens cavalgando semelhantes
e calafetados contra a verdade;
e homens destemidos no prisma da esperança,
mesmo quando a bruma
parece fechar o caminho em cada esquina.

(...)

Imagem - 00700004


In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
1 033
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Cânon

Sombrios profetas do exílio abandonai vosso vestido de cinza
Pois o Filho do Homem na véspera da sua morte
Se sentou à mesa entre os homens
E abençoou o pão e o vinho e os repartiu
E aquele que pôs com ele a mão no prato o traiu
E uma noite inteira no horto agonizou sozinho
Pois os seus amigos tinham adormecido
E no tribunal esteve só como todos os acusados da terra
E muitos o renegaram
E à hora do suplício ouviu o silêncio do Pai
Porém ao terceiro dia ergueu-se do túmulo
E partilhou a sua ressurreição com todos os homens
1993
1 259
José Carlos Souza Santos

José Carlos Souza Santos

O Romanceiro

Vinte e quatro sóis
acesos no meu caminho

um grito coagulado
na fuga desperto
e debruçada nos meus olhos
caminhaste o filho da noite
inteiro

Vinte e quatro sóis
acesos dentro de mim

um grito assassinado
no peito
deflorando o sono da fuga
nas imaturas distâncias
onde perdido deixei
o cântaro último da fé

Penetrando nos meus olhos
violentaste o aviso
da proibida entrada
perambulando
como se fosse quarta-feira
e colhendo
numa primavera de sonhos
nos jardins do que fui
vinte e quatro sóis azuis
que sem saber
p´ra você eu guardei

Na avenida de cantos
renasceste do meu peito no teu mundo
pisando as pedras do meu caminho

e lançaste o pregão ao vento :

- Ele está renascido
estive lá dentro dele
e vi flores e prantos
e notas e dores
e cantos
nos recantos escondidos
de não mostrar a ninguém
fui estranha em ruelas sem passado
conseguindo o norte encontrar
depois de caminhos tantos

- Sim, eu sei, tu descobriste
o grito há tanto escondido

Nasci em tempo de festival
meu mundo incompreendido
tem notas que são espinhos
tem flores embrutecidas
rebentadas no meu peito
tem cantos são sentidos
que às vezes eu mesmo sinto
ter tão estranho nascido

- Estranho, nasceste sim
estranho cantor eu sei
na estranheza do teu canto
existe um outro encanto
embora não saibas qual seja
é o encanto das flores mutiladas
na fronteira dos teus olhos
é a fuga dos teus lenços
num cais já vazio
é o grito acorrentado
no alagado do teu peito

O teu encanto é o gemido guardado
e nunca soluçado
nas tuas mãos de poeta !

- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito,
e sei que nos limites
do que sou
ou nas amarras do meu verso
como pomba artesã
na minha lira te encontro

- Poeta, o meu nome é infortúnio
somos pó na mesma estrada
e nem assim nos encontramos
somos água de um só rio
que não corre o mesmo leito
no teu peito a esperança
é terra já amanhada
no meu corre a solidão
na roca do meu sonhar

- Teu suspiro não assino
nem teu pranto faço meu
no tear da esperança
há um riso que se alcança
quando o linho dá um nó
há um vento que levanta
do passado o areal
e um sol que o sepulta
quando o fuso entristecido
faz da curva o seu caminho

- A esperança rebentada no meu peito
poeta
é uma flor desesperada,
traz no seio o escarlate
das visões de fome e guerra,
nas veias abertas o choro
de crianças abandonadas
das farpas que me protegem
emanam dores e gritos
não há roca nem esperança
p´ra quem vive de amanhar
choro, dor, lamento e pranto

- Infortúnio, Infortúnio,
não há poço sem um fundo
nem túnel sem uma luz
a corda não é sempre
do enforcado o colar
nem a semente fenece
sem antes dela brotar
o fruto, a flor e a sombra
e mesmo nas mãos vermelhas
das abelhas lívidas
há um néctar
de esperança a ser sugado

- Poeta ! sonhas e deliras
quando esperanças alardeia
desespero é o cavalo
ao qual me encilhei
as abelhas de que falas
aninhadas se encontram
no ventre das minhas aranhas
minhas flores enlouquecidas
giram ao redor de um fuso
sem linha no meu tear

- Donde vens Infortúnio !
onde as sombras
que te abrigam

- Venho de longe e de perto
do tempo sou viajante
nas canaletas da dor
fui Sabra, Chatilla,
Treblinka, Sorbibor

Quem me viu Sabra
conhece o amontoado das minhas
fugas
e a profundidade da angústia
revelada na aspereza dos meus
cactos
mas sabia quanto eu era terna
e doce

Quem me conheceu Chatilla
sabia-me flor nascida em lodo,
de mãos desarmadas,
e vivendo como uma rosa
pelo espaço de uma manhã

Quando Sabra e Chatilla fui
tive os braços levantados
e os gestos inconclusos
e me vejo ainda nas flores
rebentadas
no peito daquelas mulheres

Não procures Poeta
o insondável com teu verso desvendar
somos do mesmo caminho as
pedras
e nem assim nos conhecemos
somos da mesma luz a cor
e nem assim tu me iluminas

- Infortúnio, Infortúnio !
há mil anos nossas palavras são sussurradas
e encalacradas ao peito
sem ouvidos a ouvi-las
e dizer que a tua voz me é conhecida
como a serra que me teve em berço,
e dizer que sei teu nome
embora de Infortúnio não a chamasse
nos meus sonhos, rota e triste
te chamava Liberdade ... Liberdade

- Morto o tempo Poeta
em que Liberdade fui chamada,
antes aurora brilhante
houve vácuo, mais nada,
daquela imagem altiva a sombra
se apagou
nem o eco, da solidão o amante,
guardou os meus passos, na poeira
desandados

- Infortúnio ou Liberdade
em dor também me vi envolto
passou como um vendaval
destruiu, arrancou,
renasci sem o riso
insensível ao pranto
e, com uma estrela
incrustada no peito
me fiz poeta do esquecimento

Como a fênix
das cinzas renascida
esbocei levantar-me do desespero
tentando esquecer as mãos que se estenderam
para apagar as minhas estrelas

As minhas asas
dilatadas
se enfunavam de sonho e fantasia
e no alto do meu horizonte
um rosto vagava, diluído

Eras tu Liberdade,
a pomba órfã
voluntária e sozinha
voando contra o Levante,
as esquecidas asas
não voavam em meu caminho
e o vento, meu irmão,
aprendeu a criar sombras e
nuvens de não ver

- E eu que queria uma luz acender
no ventre das estrelas
enlouquecidas de sombras
contentei-me em apagar a chama
que por meu nome o peito ardia

Cimentada nos meus passos
trago viva a esperança
de no galope azul do vento
nos quatro cantos do mundo
o meu nome ecoar .
Invadindo os teus olhos
percebi a antiga chama
e no gemido guardado
e nunca soluçado nas tuas mãos
de poeta
aninho a esperança de brilhar
a minha luz

- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito

1 126
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Reinauguração

Entre o gasto dezembro e o florido janeiro,
entre a desmitificação e a expectativa,
tornamos a acreditar, a ser bons meninos,
e como bons meninos reclamamos
a graça dos presentes coloridos.
Nossa idade — velho ou moço — pouco importa.
Importa é nos sentirmos vivos
e alvoroçados mais uma vez, e revestidos de beleza, a exata beleza que vem dos gestos espontâneos
e do profundo instinto de subsistir
enquanto as coisas em redor se derretem e somem
como nuvens errantes no universo estável.
Prosseguimos. Reinauguramos. Abrimos olhos gulosos
a um sol diferente que nos acorda para os
descobrimentos.
Esta é a magia do tempo.
Esta é a colheita particular
que se exprime no cálido abraço e no beijo comungante,
no acreditar na vida e na doação de vivê-la
em perpétua procura e perpétua criação.
E já não somos apenas finitos e sós.
Somos uma fraternidade, um território, um país
que começa outra vez no canto do galo de 1o de janeiro
e desenvolve na luz o seu frágil projeto de felicidade.
1 938
José Saramago

José Saramago

West Side Story

Os jardins de Verona redivivos
No cimento cinzento desta era:
Um recado passado a outra mão,
Uma nova experiência, outra espera.
947
José Saramago

José Saramago

Contracanto

Aqui, longe do sol, que mais farei
Senão cantar o bafo que me aquece?
Como um prazer cansado que adormece
Ou preso conformado com a lei.

Mas neste débil canto há outra voz
Que tenta libertar-se da surdina,
Como rosa-cristal em funda mina
Ou promessa de pão que vem nas mós.

Outro sol mais aberto me dará
Aos acentos do canto outra harmonia,
E na sombra direi que se anuncia
A toalha de luz por onde vá.
1 302
Sílvio Péllico

Sílvio Péllico

O Suspiro

(Tradução de Luís Vicente Simoni)

O amor é suspiro
De uma alma gemente,
A qual só se sente
E quer compaixão.

A dor é suspiro
De uma alma oprimida
A qual acha a vida
Sem satisfação.

A esperança é suspiro
De uma alma, se aspira,
Se sonha, se ira
Risonho fuzil.

O medo é suspiro
De uma alma abatida,
Talvez por perdida
Lisonja gentil.

Dor, medo, esperança
E amor do leviano
Coração humano,
Suspiros vêm ser.

Suspiro são breve
A pena, o prazer,
São breve suspiro
A vida e o morrer.

Mas neste suspiro,
Meu Deus, breve assim,
Me deste o desejo
Que venhas a mim;

Deste-me uma luz
Que diva se sente,
Me deste uma mente
Que a ti me conduz.

1 381
Herrique Guerra

Herrique Guerra

Vem, Cacimbo

Estende teus dedos anelados sobre a minha carapinha
derrama a tua inconsciente tranquilidade
sobre a minha angústia submergida.
Vem, cacimbo
eu quero ver os cafeeiros ao peso dos bagos vermelhos
endireita os troncos vencidos dos bambus
coroa os cumes altos das serras do Bailundo
limpa a visão empoeirada dos comboios que descem para Benguela
nimba poeticamente os horizontes dos camionistas de Angola.
Vem, cacimbo
debruça-te cuidadosamente sobre as plantas da madrugada,
destrói a angústia resignada das gentes da minha terra
abre-lhes os horizontes dos cantos de esperança.
Vem, cacimbo
Derrama a tua inquieta saciedade sobre a minha natureza
a esta hora empoeirada com o barulho das esquinas
com o cheiro a óleo sujo dos automóveis
e com a visão daquele nosso amigo
cujo ordenado são quinze escudos diários
irremediavelmente caido sobre a grama do jardim
O cacimbo
eu quero percorrer teus campos sossegados
orquestrados pela alegria do beija-flor.
1 182