Poemas neste tema

Encontros e Desencontros

Nilton Santos Filho

Nilton Santos Filho

O encontro

O encontro...
Luzes sorrindo do destino alcançado.
Cascatas em cores múltiplas combinadas
Vibrações sísmicas destruidoras do medo.
Orgulho passado ao vento lançado.
Receio jogado pelas mãos
Momento infinito que nunca foi cedo:
uma história prevista jamais um conto.

O encanto...
Sinal permissível ao intenso convívio.
Noite caindo sob o olho vigilante da lua
Choque tímido de escandaloso contentamento.
Ânsia colada nas asas do futuro que continua.
Prisão cercada de completo desprendimento.
Recompensa acariciada pelo suspiro de um alívio:
um destino implacável, um verdadeiro espanto.

A aceitação...
Convite sincero mascarado de pretexto.
Cumplicidade fiel de sorridente deleite.
Prazer amadurecendo sobretudo supremo.
Sutileza inteligente sempre num contexto.
Confirmação convexa e reflexa do lógico aceite,
Evidência que busca a recíproca ao extremo:
um sentimento mais nobre que a sorte lançada.

A convivência...
Entrelace de nós amarrado com firmeza.
Clareza da situação divisória do refúgio.
Prelúdio do êxtase sempre e sempre vigente.
Semente paciente contemplada pela paixão.
Refrão uníssono com verso diverso.
Reverso adverso à perda sorrateira da razão:
a condição já é filha de uma premissa alcançada.

530
Nelson Motta

Nelson Motta

Dados Sobre um Lance

um lance do acaso
não abolirá jamais
o amor dado,
dizia o mallarmado.

4 de 8

mar morto
sol posto
teu rosto
meu porto

identidade perigosa

por ser eu a sua
e você(no fundo e dentro)
a minha cara,
o nosso drama
e nossa irônica aventura rara:
o tanto que nos une
é o mesmo que nos separa.

816
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Tarde - LXXIII

Recordarás talvez aquele homem afilado
que da escuridão saiu como uma faca
e, antes de que soubéssemos, sabia:
viu a fumaça e decidiu que vinha do fogo.


A pálida mulher de cabeleira negra
surgiu como um peixe do abismo
e entre os dois alçaram ao encontro do amor
uma máquina armada de dentes numerosos.


Homem e mulher talaram montanhas e jardins,
desceram aos rios, ascenderam pelos muros,
subiram pelos montes sua atroz artilharia.


O amor soube então que se chamava amor.
E quando levantei meus olhos a teu nome
teu coração logo dispôs de meu caminho.
1 015
Cândida Alves

Cândida Alves

Contradições do Óbvio

Nos bares
caras e caretas
bêbados e ninfetas
liberam os seus demônios

Quem diria
que desses inferninhos
saem santos matrimônios

1 102
Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Procura por mim

Quando for já logo à noite na praia
Com o sol a derreter-se enfim
Procura por mim
Com o vento por saia
E em lugar de suor o sargaço.

Eu estarei quieto e assim sozinho
Cheio das dúvidas do universo
À tua espera
A desenhar o caminho
Para te escrever em verso
No meu regaço.

O abraço.
1 314
Wisława Szymborska

Wisława Szymborska

Estação

Foi com pontualidade
que não cheguei à cidade de N.

Uma carta por enviar
te avisara.

Conseguiste não chegar
à hora prevista.

O comboio parou na linha n. 3.
Saiu imensa gente.

Seguiu na multidão para a saída
a minha ausência.

Tomou apressadamente o meu lugar
um grupo de mulheres
em toda aquela pressa.

Correu para uma delas
alguém que desconheço,
mas que ela reconheceu
de imediato.

Trocaram então ambos
um beijo que não nosso
durante o qual levou sumiço
a mala que não minha.

A estação da cidade de N.
passou sem problemas o exame
de existência objetiva.

Permaneceu no seu lugar o todo,
moveram-se os detalhes
pelos carris previstos.

Chegou mesmo a efectuar-se
o combinado encontro.

Fora do alcance
da nossa presença.

No paraíso perdido
da verossimilhança.

Noutro lugar.
Noutro lugar.
Como elas vibram, estas palavritas.


1 530
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

No Meu País

As pequenas cidades intensas
Onde o tempo não é dissolvido mas dura
E cada instante ressoa nas paredes da esquina
E o rosto loiro de Laura aflora na janela desencontrada
E o apaixonado de testa obstinada como a de um toiro
Em vão a procura onde ela nunca está
— É aqui que ao passarmos a nossa garganta se aperta
Enquanto um homem alto e magro
Baixando a direito o chapéu largo e escuro
De cima a baixo se descobre
Ao transpor o limiar sagrado da casa
1 493
Ives Gandra da Silva Martins

Ives Gandra da Silva Martins

Elegia da Ponte Descoberta

Sobre a ponte do meu ao teu retrato
O silêncio cantava silencioso.

Ponte nascida, de repente,
Descortinando espantos e desejos.

Eram duas montanhas existentes,
Sem saberem das fontes.
E as fontes eram lá.
As fontes gêmeas sombras, entretanto,
Não compreendiam
Os reflexos celestes das irmãs.
Mas as fontes já se amavam.

Ó desconhecimento gerador,
Quanta vaga descoberta na suspeita
Da tua própria origem!
A criação instântica vivida
Mostra, sempre, mais vivência rediviva,
Que uma existência inteira de miragens.
As fontes brotaram para o amor
E as fontes amam fontes desiguais.
Eis porque
As fontes eram lá,
Sem saberem das fontes.
E as fontes já se amavam.

764
José Eduardo Mendes Camargo

José Eduardo Mendes Camargo

Cigana

Chegaste tímida, descalça e com lascívia no andar
E cantaste e tocaste a minha alma
E dançaste e provocaste o meu desejo
E simulaste, insinuaste e dissimulaste
E súbito olhaste no fundo de meus olhos e me desnudaste.
E as nossas células em rebelião bailaram de prazer
E suspiraste e mergulhaste e te abandonaste
na alegria de se saber mulher e desejada.
E de repente, sumiste e não mais voltaste.
E até hoje permaneceste na beleza e sensualidade
de todas as mulheres.

917
José Eduardo Mendes Camargo

José Eduardo Mendes Camargo

Gitana

Tímida llegaste, descalza, andar lascivo
cantaste y tocaste mi alma
bailaste y provocaste mi deseo
simulaste, insinuaste y disimulaste
de súbito, miraste al fondo de mis ojos
y me dejaste desnudo.
Y nuestras células en rebeldía
bailaron de placer
y suspiraste y sumergiste y te abandonaste
en la alegría de hacerte mujer deseada.
De súbito, desapareciste.
Hasta hoy permaneces en la belleza y
sensualidad de todas las mujeres.

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924
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

El tercer hombre

Dirijo este poema
(por ahora aceptemos esa palabra)
al tercer hombre que se cruzó conmigo antenoche.
no menos misterioso que el de Aristóteles.
El sábado salí.
La noche estaba llena de gente;
hubo sin duda un tercer hombre,
como hubo un cuarto y un primero.
No sé si nos miramos;
él iba a Paraguay, yo iba a Córdoba.
Casi lo han engendrado estas palabras;
nunca sabré su nombre.
Sé que hay un sabor que prefiere.
Sé que ha mirado lentamente la luna.
No es imposible que haya muerto.
Leerá lo que ahora escribo y no sabrá
que me refiero a él.
En el secreto porvenir
podemos ser rivales y respetarnos
o amigos y querernos.
He ejecutado un acto irreparable,
he establecido un vínculo.
En este mundo cotidiano,
que se parece tanto
al libro de las Mil y Una Noches,
no hay un solo acto que no corra el albur
de ser una operación de la magia,
no hay un solo hecho que no pueda ser el primero
de una serie infinita.
Me pregunto qué sombras no arrojarán
estas ociosas líneas.


"La cifra", 1981


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 550 e 551 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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