Encontros e Desencontros
Fernando Pessoa
POEMA DE CANÇÃO SOBRE A ESPERANÇA
I
Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios —
Os melhores lírios —
E as melhores rosas
Sem receber nada.
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.
II
Usas um vestido
Que é uma lembrança
Para o meu coração.
Usou-o outrora
Alguém que me ficou
Lembrada sem vista.
Tudo na vida
Se faz por recordações.
Ama-se por memória.
Certa mulher faz-nos ternura
Por um gesto que lembra a nossa mãe.
Certa rapariga faz-nos alegria
Por falar como a nossa irmã.
Certa criança arranca-nos da desatenção
Porque amámos uma mulher parecida com ela
Quando éramos jovens e não lhe falávamos.
Tudo é assim, mais ou menos,
O coração anda aos trambulhões.
Viver é desencontrar-se consigo mesmo.
No fim de tudo, se tiver sono, dormirei.
Mas gostava de te encontrar e que falássemos.
Estou certo que simpatizaríamos um com o outro.
Mas se não nos encontrarmos, guardarei o momento
Em que pensei que nos poderíamos encontrar.
Guardo tudo,
(Guardo as cartas que me escrevem,
Guardo até as cartas que não me escrevem —
Santo Deus, a gente guarda tudo mesmo que não queira,
E o teu vestido azulinho, meu Deus, se eu te pudesse atrair
Através dele até mim!
Enfim, tudo pode ser...
És tão nova — tão jovem, como diria o Ricardo Reis —
E a minha visão de ti explode literariamente,
E deito-me para trás na praia e rio como um elemental inferior,
Arre, sentir cansa, e a vida é quente quando o sol está alto.
Boa noite na Austrália!
Fernando Pessoa
Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,
Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.
Felipe Larson
A SAUDADE MARCA
Como em tão pouco tempo
Tanta coisa aconteceu
No seu devido momento
Eu penso que talvez seja melhor
Eu não pensar muito nisso
Porque se não vou achar
Que tudo tem seu feitiço
Isso foi muito importante para mim
Eu acho que nunca vou esquecer
E você não tem idéia
Do quanto tenho pensado em você
Sei que sentirei tanta saudade
Mas o que posso fazer
Se tudo de mais estranho
Parece sempre acontecer comigo
Sei que talvez quando nos vermos
Tudo pode estar diferente
Mas isso não importa tanto
Pois a coisas acontecem tão de repente
Pessoas como você, marcam na vida.
Vou sentir muito a sua falta
Acho que não preciso destes versos
Para você saber o quanto é especial
Charles Bukowski
Pobreza
o mantém em movimento,
aquele que deve chegar
num dia incerto.
ele não vaga pelas ruas ou
pelos apartamentos ou
pelos estádios,
ou se ele andou por aí
de algum modo nos desencontramos.
ele não é um de nossos presidentes
não está entre os estadistas e os atores.
me pergunto se ele está por aí.
caminho pelas ruas
passo por lojas de conveniência e hospitais e
teatros e cafés
e me pergunto se ele não está ali.
já faz quase meio século que procuro
e ele ainda não foi visto.
um homem vivo, vivo de verdade,
revela quando traz suas mãos pendidas
por ter acendido um cigarro
você vê seus olhos
como os olhos de um tigre mirando o passado
enquanto o vento passa.
mas quando as mãos pendem
trata-se sempre dos
outros olhos
que estão lá
sempre sempre lá.
e logo será tarde demais para mim
e eu terei vivido uma vida
entre lojas de conveniência, gatos, lençóis, saliva,
jornais, mulheres, portas e outros penduricalhos,
mas em nenhum lugar
um homem vivo.
Manuel Bandeira
Volta
Repousa o meu olhar cansado.
Quanto o turvou e escureceu
O pranto amargo que correu
Sem apagar teu vulto amado!
Porém já tudo se perdeu
No olvido imenso do passado:
Pois que és feliz, feliz sou eu.
Enfim te vejo!
Embora morra incontentado,
Bendigo o amor que Deus me deu.
Bendigo-o como um dom sagrado.
Como o só bem que há confortado
Um coração que a dor venceu!
Enfim te vejo!
Marina Colasanti
IA NO RUMO DE SEVILHA
no meu cavalo de água
de um lado o trigo deitava
do outro o trigo caía
as foices cortavam rentes
e das mulheres nos campos
só havia uma que sorria.
Subi o Guadalquivir
e o verão subiu comigo
carregado de papoulas.
Levei cigarras na crina
levei saias de babados
mas os moços que encontrei
todos ficaram calados
Eduardo Guimaraens
Sedução
das criaturas que mal se conhecem, quer
se compreendam ou não, ó sentido inefável,
do desejo que quer sem saber por que quer!
Por trás de uma vidraça, às vezes, o semblante
que vês, e de que o olhar lembra um raio autunal
de sol enquanto chove, e cuja enfeitiçante
graça é como a de um filtro amoroso e fatal...
Passas... E o teu olhar, que sonha, por acaso,
sente a fixá-lo o azul desse olhar, sem razão...
Levas, de volta, após, a tristeza do acaso
e a alegria do amor dentro do coração.
Ora por um instante, o momento que dura
quanto dura esse olhar que no teu se fitou,
sem querer — adoraste a estranha criatura
que não sabes quem seja, e que te deslumbrou!
Passaste... agonizava a última claridade.
Perdiam os jardins a forma, a luz, a cor...
Punge-te agora o coração uma saudade:
a do amor que morreu, um grande, um velho amor.
Outras vezes, o véu que um sorriso velava,
a teu lado alvejou... Branco. Leve... e fugiu.
Entretanto, essa boca ardeu, por ser a escrava
do teu beijo — e por ele é que no véu sorriu...
Quando cessou a orquestra, e a mãozinha enluvada
de pele da Suécia entre as tuas ficou
esquecida... foi teu esse corpo de fada,
mas do qual sabes só que contigo bailou.
De que amores sem nome evocas a lembrança,
se olhas bem esta boca? este queixo sutil?
Negro, aquele cabelo? E esse olhar de criança?
E aquelas nobres mãos? E este fino perfil?
Se assim não fora, o amor se igualaria à chama
que, à falta de ar, se extingue, ou como uma ânsia vã...
Nem fora belo amar, quando é de amor que se ama,
sem a alma de Romeu e os olhos de don Juan!
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944. Poema integrante da série Estâncias de um Peregrino
Daniel Loureiro
O Carvão e o Tempo
se repetem os dias
Os dias
se repetem
os dias
Eu gostaria de um dia repetir um dia
Em que a gente se encontrasse
se AMAssaSSE
O que te me atrai
é a diferença
e a minha crença... bem...
Beijos
Beijos
TEMPO
O teu pensamento
é meu, penso atento
e o meu desalento
é a tua fuga fácil
TEMPO
As tuas imagens
quase são miragens
impressões elétricas
nas cores vitais
TEMPO
Irradias tantas impressões
e as minhas impressões
por um breve momento
são todo o meu mundo
TEMPO
Calma! já estamos indo
e ele continua vindo
sem nunca esperar
Os dias se repetem
Se repetem os dias
Se repetem
os dias
repetem-se
Então estamos juntos
Bela, etérea e tão real
Estamos juntos
A natureza enlouquece
Juntos
O chumbo não pesa
o tempo despreza
e o carvão...
agora é diamante.
Marcelo Tápia
veículos da cidade
ou vem traçando
seu roteiro
único
em meio
a tantos trajetos
cruzados cruzados cruzados
fios que se torcem se desenlaçam
se anovelam se anulam dão-se nó
cada um no seu curso
cada qual no seu leito, seu sulco, seu trilho
seu caminho, seu destino
suas vidas atadas desatadas
seus emaranhados de nadas
Maria de Lourdes Farias
Te encontrei
cantando uma melodia:
um segredo em cada ocaso,
um ocaso em cada dia...
Somos dois mundos distintos
numa mesma direção.
O que tu sentes eu sinto
me tens na palma da mão !
Estrada, estrada, não fales
que aqui passei...a ninguém...
vou pra bem longe...além mares...
só voltarei com meu bem!
Se tudo fosse perfeito
por certo eu não te teria,
pois arde dentro em teu peito
anseios doutra Maria...
Maria de Lourdes Farias
Trovinhas
cantando uma melodia:
um segredo em cada ocaso,
um ocaso em cada dia...
Somos dois mundos distintos
numa mesma direção.
O que tu sentes eu sinto
me tens na palma da mão !
Estrada, estrada, não fales
que aqui passei...a ninguém...
vou pra bem longe...além mares...
só voltarei com meu bem!
Se tudo fosse perfeito
por certo eu não te teria,
pois arde dentro em teu peito
anseios doutra Maria...
Salette Tavares
Aqui Estou
no sítio onde os olhares se dobram de terror...
Quando a minha voz disse não e a vontade e o espelho
havia acordo e sonho e flores para abrir.
Quando as minhas mãos escorriam de ternura
havia liberdade e os meus pés descalços
recortavam em sombra a única lisura.
Que lindo o que eu sonhei, que paz e que mistério
que grande força sem lágrimas no mar. . .
Agora estou dorida, morreram-me os cabelos
nos dedos que pediam caiu uma agonia,
as cordas já cortadas tornaram a me ligar.
Na noite que me seque eu quisera sorver
toda a ausência direta do possuir e do ter,
fugida na floresta escondida na giesta
morder aquela terra fecunda em que me sei.
Sem luta, a navegar, um barco branco e meu
sem timoneiro nem rota marcando-me o destino
singrando sob a lua, bebendo o sol dos dias
tão só e o grande olhar de Deus,
deitado ao pé de mim.
Assim correr, ser livre, criar e ter prazer
aquele só prazer igual ao que já sou
uma lira, um canto, uma harmonia enfim
serena, bela, doce e sem violência louca.
Idade duma rosa colhida na manhã
vibrando no calor as pétalas a abrir
surpresa vegetal da vida que se inflama
com o caule cortado e sem poder sorrir.
Quem livre me deixasse dormir na minha planta
este acordo supremo dos membros do amor,
sem traição, sem corte, e só aquele manso
sorver da terra a seiva para poder florir.
Ai, mar em que me banho e que livre me deixas
miragem do meu ritmo, partida para além
meu doce só saber braços, pernas, seios, beijos,
e toda a maravilha de ser sem mais ninguém.
Gertrude Stein
Homens
Renato Rezende
O Outro
vejo o reflexo do meu próprio susto,
e o espelho do meu verdadeiro rosto.
Nova York, julho 1994
Renato Rezende
Cupido
deixei cair minhas asas.
Caí como uma pluma
de pedra.
Flecha
presa na carne.
Nova York, maio 1994
Fernando Pessoa
O florir do encontro casual
Dos que hão sempre de ficar estranhos...
O único olhar sem interesse recebido no acaso
Da estrangeira rápida...
O olhar de interesse da criança trazida pela mão
Da mãe distraída...
As palavras de episódio trocadas
Com o viajante episódico
Na episódica viagem...
Grandes mágoas de todas as coisas serem bocados...
Caminho sem fim...
30/04/1926
José Tolentino Mendonça
Compaixão
era muito difícil frente a mim
compreender esse território absoluto
falámos só de coisas inúteis
e o mundo inteiro se escondia
somos novos. Lemos nos olhos fechados
precauções,derrotas,recusas
quando a intimidade sugere
a maior compaixão
José Miguel Silva
O Atalante - Jean Vigo (1934)
eu levava, por coincidência, um cubo de gelo
no bolso do casaco. Lembro-me de tremer
um pouco. Até aí, tudo bem. Pior,
foi quando te ouvi pronunciar, distintamente:
quem procura o seu amor debaixo de água,
acaba constipado.
Na altura, ri-me: pensei que falavas do filme.
Sou tão estúpido.
Martha Medeiros
Relações virtuais
Fui absolutamente rendida pelo poder das relações virtuais. Acredito que é possível conhecer alguém por e-mail, se apaixonar por e-mail, odiar por e-mail, tudo isso sem jamais ter visto a pessoa. As palavras escritas no computador podem muito. Mas nem sempre enxergam a verdade.
São sete horas de uma manhã chuvosa. Você não dormiu bem à noite. Põe pra tocar um som instrumental que deixa suas emoções à flor da pele. Vai para o computador e começa a escrever para alguém especial as coisas mais íntimas que lhe passam no coração. Chora. Escreve. Olha para a chuva. Escreve mais um pouco. Envia.
São onze horas da noite deste mesmo dia. O destinatário da sua mensagem está dando uma festa. Todo mundo fala alto, ri muito, rola a maior sonzeira. Ele pega uma cerveja e dá uma escapada até o computador. Abre o correio. Está lá a mensagem. Um texto longo que ele lê com pressa. Destaca algumas palavras: "a saudade é tanta... sozinha demais... dividir o que sinto..." Papo brabo. Responderá amanhã. Deleta.
Alguém pode escrever com raiva, escrever com dor, escrever com ironia, escrever com dificuldade, escrever debochando, escrever apressado, escrever na obrigação, escrever com segundas intenções. Nada disso chegará no outro lado da tela: a pressa, a hesitação, a tristeza. As palavras chegarão desacompanhadas. Será preciso confiar no talento do remetente em passar emoção junto de cada frase. Como pouquíssimas pessoas têm esse dom, uma mensagem sensível poderá ser confundida com secura, tudo porque faltou um par de olhos, faltou um tom de voz.
Se você passou a desprezar alguém, pode escrever "não quero mais te ver". Se você ama muito alguém, mas a falta de sintonia lhe vem machucando, pode escrever "não quero mais te ver".
Uma mesma frase e duas mensagens diferentes. Palavras são apenas resumos dos nossos sentimentos profundos, sentimentos que para serem explanados precisam mais do que um sujeito, um verbo e um predicado. Precisam de toque, visão, audição. Amor virtual é legal, mas o teclado ainda não dá conta de certas sutilezas.
Jaroslav Seifert
Retrato molhado
Sérgio Milliet
XXIX [Eu tinha encontro marcado
nas esquinas da minha vida.
Mas cheguei e não vi ninguém...
Agora eu vou pela calçada
sozinho, sozinho, sozinho...
Não tem mais esquina na vida
não tem mais encontro nem nada...
Será que meu amor se enganou
E só me espera no fim?
Publicado no livro Poemas (1937).
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.117. (Autores brasileiros, 19
Otávio Ramos
A Terra tem
5 oceanos
13 mares
5 continentes
148 milhões de km2.
Com tanto lugar no mundo,
você tinha que se apaixonar logo por mim?
Uma hora tem 3.600 segundos.
Um dia, mais ou menos 100 mil.
Uma vida média, uns 250 bilhões de segundos.
E você foi-se apaixonar logo por mim?
Angela Santos
Poiésis
e eu não sei donde
nem porque vinhas
mas à tua chegada
alguma coisa se iluminava
e crescia
Revelação,
interminável afã de quem se busca
na imensidão dos estilhaços
que de si dispersos
vogam por aí
Vinhas e trazias
dores de punhais e mel
e cada sílaba carregava
o gosto a verdade
Silenciada a fonte,
de quando em vez se sente ainda,
hoje
menos cismo e mais corrente.
Só por vires
abençoada sejas
Luís Represas
Namoro II
Me dão nas pernas, e as loucuras
Fazem esquecer-me dos prantos
Pensar em juras
Ai se eu disser que foi feitiço
Que fez na saia dar ventania
Mostrar-me coisas tão belas
Ter fantasia
E sonhar com aquele encontro
Sonhar que não diz que não
Tem um jeito de senhora
E um olhar desmascarado
De céu negro ou céu estrelado, ou Sol
Daquele que a gente sabe.
O seu balanço gingado
Tem os mistérios do mar
E a certeza do caminho certo
que tem a estrela polar.
Não sei se faça convite
E se quebre a tradição
Ou se lhe mande uma carta
Como ouvi numa canção
Só sei que o calor aperta
E ainda não estamos no verão.
Quanto mais o tempo passa
Mais me afasto da razão
E ela insiste no passeio à tarde
Em tom de provocação
Até que num dia feriado
Pra curtir a solidão
Fui consumir as tristezas
Pró baile do Sr. João
Não sei se foi por magia
Ou seria maldição
Dei por mim rodopiando
Bem no meio do salão
Acabei no tal convite
Em jeito de confissão
E a resposta foi tão doce
Que a beijei com emoção
Só que a malta não gritou
Como ouvi numa canção