Poemas

Encontros e Desencontros

Poemas neste tema

João Soares Coelho

João Soares Coelho

Fui Eu, Madre, Lavar Meus Cabelos

Fui eu, madre, lavar meus cabelos
a la fonte e paguei-m'eu delos
       e de mi, louçana.

Fui eu, madre, lavar mias garcetas
a la fonte e paguei-m'eu delas
       e de mi, louçana.

A la fonte [e] paguei-m'eu deles;
aló achei, madr', o senhor deles
       e de mi, louçana.

[E], ante que m'eu d'ali partisse,
fui pagada do que m'el[e] disse
       e de mi louçana.
760
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Branco

Foi pelo pranto que te reconheci
Foi pelo branco da praia que te reconheci
1 436
José Saramago

José Saramago

Labirinto

Em mim te perco, aparição nocturna,
Neste bosque de enganos, nesta ausência,
Na cinza nevoenta da distância,
No longo corredor de portas falsas.

De tudo se faz nada, e esse nada
De um corpo vivo logo se povoa,
Como as ilhas do sonho que flutuam,
Brumosas, na memória regressada.

Em mim te perco, digo, quando a noite
Vem sobre a boca colocar o selo
Do enigma que, dito, ressuscita
E se envolve nos fumos do segredo.

Nas voltas e revoltas que me ensombram,
No cego tactear de olhos abertos,
Qual é do labirinto a porta máxima,
Onde a réstia de sol, os passos certos?

Em mim te perco, insisto, em mim te fujo,
Em mim cristais se fundem, se estilhaçam,
Mas quando o corpo quebra de cansado
Em ti me venço e salvo, me encontro em ti.
2 171
Martha Medeiros

Martha Medeiros

vou andando devagar

vou andando devagar
olhando para um lado
para o outro
rindo ali, pensando aqui
de repente
vejo você na minha frente
e até pararia de andar
se você não fosse
estacionamento proibido
1 056
Martha Medeiros

Martha Medeiros

me viu

me viu
te vi
corei
gostei
olhei
cheguei
teus olhos
teu sorriso
senta
garçom!
amor
pra dois
1 109
Lourenço

Lourenço

Já 'Gora Meu Amigo Filharia

Já 'gora meu amigo filharia
de mi o que el tiinha por pouco:
de falar migo; ca tant'era louco
contra mi que ainda mais queria;
       e já filharia, se m'eu quisesse,
       de falar mig', e nunca lh'al fezesse.

Tam muito mi dizem que é coitado
por mi, des quando nom falou comigo,
que nom dorme [já], nem há sem consigo,
nem sabe de si parte nem mandado;
       e já filharia, se m'eu quisesse,
       de falar mig', e nunca lh'al fezesse.

Ca est el home que mais demandava
e nom ar quis que comigo falasse,
e ora jura que já se quitasse
de gram sandic'em que m'ante falava;
       e já filharia, se m'eu quisesse,
       de falar mig', e nunca lh'al fezesse.

E jura bem que nunca mi dissesse
de lh'eu fazer rem que mal m'estevesse.

Em tal que comigo falar podesse,
já nom há preito que mi nom fezesse.
439
Martim Codax

Martim Codax

Mia Irmana Fremosa, Treides Comigo

Mia irmana fremosa, treides comigo
a la igreja de Vigo u é o mar salido
       e miraremos las ondas.

Mia irmana fremosa, treides de grado
a la igreja de Vigo u é o mar levado
       e miraremos las ondas.

A la igreja de Vigo u é o mar levado
e verrá i, mia madre, o meu amado
       e miraremos las ondas.

A la igreja de Vigo u é o mar salido
e verrá i, mia madre, o meu amigo
       e miraremos las ondas.
1 204
Martha Medeiros

Martha Medeiros

eu passei por poucas e boas

eu passei por poucas e boas
ele por maus momentos


eu soube de sofrimento
ele quis relaxar e gozar


eu tentei novos caminhos
ele preferiu ficar sozinho


eu quase não via
ele pura alegria e descoberta


eu certa de que tudo daria certo
ele incerto e cuidadoso


até a hora que nos conhecemos
e tentamos uma coisa que só nós dois sabemos
1 057
Charles Bukowski

Charles Bukowski

M.T.

M.T.[1] ela morava em Galveston e fazia
M.T.
e eu fui visitá-la e fizemos amor
ininterruptamente ainda que o tempo estivesse muito
quente
e tomamos mescalina
e uma balsa até a ilha
e dirigimos 200 milhas até o hipódromo mais
próximo.
nós dois ganhamos e fomos sentar num bar de caipiras –
odiado e não frequentado pelos nativos –
e então fomos para um motel caipira
e voltamos um ou dois dias depois
e fiquei por lá mais uma semana
pintei-lhe um par de quadros decentes –
um de um homem sendo enforcado
e outro de uma mulher sendo fodida por um lobo.
acordei certa noite e ela não estava na cama
e levantei e caminhei ao redor perguntando,
“Gloria, Gloria, onde você está?”
era um lugar enorme e eu caminhava a esmo
abrindo porta atrás de porta,
então abri uma que parecia a de um closet
e lá estava ela de joelhos
cercada por fotografias de
7 ou 8 homens
as cabeças raspadas
em sua maioria usando óculos sem armações.
havia uma pequena vela acesa
e eu disse, “oh, me desculpe”.
Gloria vestia um quimono com águias
em pleno voo na parte de trás.
fechei a porta e voltei para a cama.
ela saiu 15 minutos depois.
começamos a nos beijar,
sua língua enorme deslizando para dentro e para fora da
[minha
boca.
ela era uma garota grande e saudável do Texas.
“escute, Gloria”, consegui finalmente dizer,
“preciso de uma noite de folga”.

no dia seguinte ela me levou até o aeroporto.
eu prometi escrever. Ela prometeu escrever.
nenhum de nós escreveu.
1 128
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Chicago

“consegui,” ela disse, “apareci.”
ela estava com botas novas, calças
e um suéter branco. “agora eu sei
o que eu quero.” ela era de Chicago e
havia se mudado para o distrito de Fairfax, L.A.

“você me prometeu champanhe,”
ela disse.
“eu estava bêbado quando liguei. que tal uma
cerveja?”
“não, me passa seu baseado.”
ela tragou, soltou:
“não é lá grande coisa”.
e me devolveu.

“há uma diferença”, eu disse, “entre
fazer a coisa e simplesmente ficar duro.”

“gosta das minhas botas?”
“sim, bem legais.”
“escuta, tenho que ir. posso usar
o banheiro?”
“claro.”

quando ela voltou tinha a boca muito
pintada de batom. eu não via uma assim
desde que era garoto.
beijei-a a caminho da porta
sentindo o batom grudar em meus
lábios.

“tchau” ela disse.
“tchau” eu disse.
caminhou pela passagem até o carro.
eu fechei a porta.

ela sabia o que queria e não era
eu.
conheço mais mulheres desse tipo do que de
qualquer outro.
1 242
Martha Medeiros

Martha Medeiros

em Paris

em Paris
encontrei o homem da minha vida
nem me olhou


Jeu de Paume seis da tarde
se não fosse Degas Monet Toulouse Lautrec
ele me olhava
1 208
Manuel António Pina

Manuel António Pina

Interiores

Onde estamos agora que não nos vemos,
tu sentada diante da TV
e eu escrevendo isto, não sei o quê,
como outros dois que nós não conhecemos?

Será que alguma coisa permaneceu
do nosso amor com uma inevitabilidade,
uma saudade pousada agora na mão de Deus
existindo para sempre na sua breve eternidade?

Talvez percorramos uma rota circular
através da curvatura do espaço e do tempo
onde haveremos de nos reencontrar;
será que então de alguma forma nos reconheceremos?


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 321 | Assírio & Alvim, 2012
1 122
Martha Medeiros

Martha Medeiros

ele tinha acabado de dobrar a esquina

ele tinha acabado de dobrar a esquina
quando entrou numa livraria


eu estava saindo de uma loja de discos
onde havia escutado Schubert


ele escolhia um dicionário de rimas
mas estava incerto do que queria


eu parei diante da vitrine
mas estava incerta do que via


ele comprou o dicionário
quando o céu escureceu


eu entrei na livraria
quando a chuva começou


foi então que aconteceu
942
Martha Medeiros

Martha Medeiros

aquela hora que você me convidou para

aquela hora que você me convidou para
subir até o terraço
eu senti que não podia mais voltar atrás
sabe aquele aperto que dá, aquela vontade
de fugir e ficar
naquele instante eu senti: não posso mais
e fui com você, não querendo pensar
em mais nada
já no elevador sua expressão mudou, me
olhava só eu sei como
e éramos só nós dois, ninguém mais, até
o 16o andar
você não disse uma palavra até chegar
e foi lá em cima que eu senti como
estava frio
e como a cidade havia crescido e como
era bonito
e como eu tremia
você, como eu previa, não disse nada,
só me olhava
eu já estava ficando angustiada, sabia
que o encanto quebraria
caso eu falasse alguma coisa
você mudo, quieto, com as mãos no bolso
talvez até mais nervoso do que eu
e eu então tomei a iniciativa, voraz,
cheguei perto de você
bem perto mesmo, e pensei
timidez, recato, moral, insegurança,
orgulho, machismo
descansem em paz
1 074
Ruy Belo

Ruy Belo

Poema de Carnaval

Eu estava só naquela tarde e tu vieste
de dentro povoar-me de cidade o coração
prometido para o lugar
onde costumamos deixar as palavras
Tinham posto de novo fitas nas árvores
reuniram-se os corpos e as vozes
para todos juntos sentirem
pontualmente a alegria
E tu pousaste então ó meu pássaro naquele coração
cingido no meio da cidade


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 50 | Editorial Presença Lda., 1984
1 653
Nuno Júdice

Nuno Júdice

O homem de Munique

O homem que falava sozinho na estação central de Munique
que língua falava? Que língua falam os que se perdem assim, nos
corredores das estações de comboio, à noite, quando já nenhum
quiosque vende jornais e cafés? O homem de
Munique não me pediu nada, nem tinha o ar de
quem precisasse de alguma coisa, isto é, tinha aquele ar
de quem chegou ao último estado
que é o de quem não precisa nem de si próprio. No entanto,
falou-me: numa língua sem correspondência com linguagem
alguma de entre as possíveis de exprimirem emoção
ou sentimento, limitando-se a uma sequência de sons cuja lógica
a noite contrariava. Perguntar-me-ia se eu compreendia acaso
a sua língua? Ou queria dizer-me o seu nome e de onde vinha
- àquela hora em que não estava nenhum comboio
nem para chegar nem para partir? Se me dissesse isto,
ter-lhe-ia respondido que também eu não esperava ninguém,
nem me despedia de alguém, naquele canto de uma estação
alemã; mas poderia lembrar-lhe que há encontros que só dependem
do acaso, e que não precisam de uma combinação prévia
para se realizarem. - É então que os horóscopos adquirem sentido;
e a própria vida, para além deles, dá um destino à solidão que empurra
alguém para uma estação deserta, à hora em que já não se compram
jornais nem se tomam cafés, restituindo um resto de alma ao corpo
ausente - o suficiente para que se estabeleça um diálogo, embora
ambos sejamos a sombra do outro. É que, a certas horas da noite,
ninguém pode garantir a sua própria realidade, nem quando outro
como eu próprio, testemunhou toda a solidão do mundo
arrastada num deambular de frases sem sentido numa estação morta.

1 149
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Scarlet

fico feliz quando elas chegam
e feliz quando se vão

feliz quando escuto os saltos
se aproximando de minha porta
feliz quando esses saltos
se afastam

feliz por foder
feliz por me importar
feliz quando tudo termina

e
desde que as coisas ou estão
começando ou terminando
fico feliz
a maior parte do tempo

e os gatos caminham pra cima e pra baixo
e a terra gira em torno do sol
e o telefone toca:

“é a Scarlet”.

“quem?”

“Scarlet.”

“certo, pinta aí.”

e desligo pensando
talvez seja isso

entro
dou uma cagada rápida
me barbeio
me banho

me visto

ponho o lixo
e as caixas cheias de garrafas vazias
pra fora

me sento ao som dos
saltos se aproximando
parecendo mais a aproximação de um exército
do que o som da vitória

é Scarlet
e na minha cozinha a torneira
continua pingando
precisando de conserto.

cuidarei disso mais
tarde.
1 257
Martha Medeiros

Martha Medeiros

vou chegar atrasada

vou chegar atrasada
e distraída
como quem saiu do trabalho
e foi direto pro bar


vou pedir um hi-fi inocente
e olhar toda hora pro relógio
como se tivesse alguém
me esperando em outro lugar


vou rir bastante
manter um ar distante
e esquecer quanto tempo faz


vou perguntar pelos amigos
e se aceitar carona
deixar cair um brinco no banco de trás
1 161
Martha Medeiros

Martha Medeiros

chegou na minha casa cheio de olhares

chegou na minha casa cheio de olhares
e poucas palavras
trouxe champanhe, sentou na cadeira
tentou me abraçar


me desculpei:
– hoje não que eu não ensaiei
1 066
Martha Medeiros

Martha Medeiros

você bem que podia ter surgido na

você bem que podia ter surgido na
minha vida
vinte anos atrás, quando eu ainda tinha
planos
quinze anos atrás, quando eu estava me
formando
onze anos atrás, quando eu morava sozinha
dez anos atras, quando eu ainda era solteira
seis anoatrás, quando eu ainda estava
tentando
dois meses atrás, quando sobrava
alguma força
ontem à noite eu ainda estava te esperando
1 180
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Passava eu na estrada pensando impreciso,

Passava eu na estrada pensando impreciso,
Triste à minha moda.
Cruzou um garoto, olhou-me, e um sorriso
Agradou-lhe a cara toda.

Bem sei, bem sei, sorrirá assim
A um outro qualquer.
Mas então sorriu assim para mim...
Que mais posso eu querer?

Não sou nesta vida nem eu nem ninguém,
Vou sem ser nem prazo...
Que ao menos na estrada me sorria alguém
Ainda que por acaso.


22/04/1928
4 180
Martha Medeiros

Martha Medeiros

ele odeia festas

ele odeia festas
eu adoro frutas
ele odeia figos
eu adoro frango
ele adora fiat
eu odeio fusca
eu odeio frades
eu adoro frascos
ele adora fêmeas
eu odeio fugas
ele adora frança
eu adoro londres
1 128
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Amigos, Quero-Vos Dizer

Amigos, quero-vos dizer
a mui gram coita 'm que me tem
ũa dona que quero bem,
e que me faz ensandecer;
e, catando pola veer,
       assi and'eu, assi and'eu,
       assi and'eu, assi and'eu,
       assi and'eu, assi and'eu.

E já m'eu conselho nom sei,
ca já o meu adubad'é,
e sei mui bem, per bõa fé,
que já sempr'assi andarei:
catando se a veerei,
       assi and'eu, assi and'eu,
       assi and'eu, assi and'eu,
       assi and'eu, assi and'eu.

E já eu nom posso chorar,
ca já chorand'ensandeci,
e faz-mi amor andar assi
como me veedes andar:
catando per cada logar,
       assi and'eu, assi and'eu,
       assi and'eu, assi and'eu,
       assi and'eu, assi and'eu.

E já o nom posso negar:
alguém me faz assi andar.
706
Martha Medeiros

Martha Medeiros

se contarmos todas as palavras que

se contarmos todas as palavras que
trocamos
daria para escrever um bom romance
eu nem te conhecia e contei meus absurdos
tu nem me conhecia e contou teus muitos
planos
se contarmos todos os olhares que trocamos
daria para encher um lago inteiro
eu nem te conhecia e contei o meu passado
tu nem me conhecia e contou teu desespero
se contarmos todos os silêncios que
trocamos
daria para povoar um edifício
eu nem te conhecia e contei meus vinte anos
tu nem me conhecia e contou teus sacrifícios
se contarmos todas as fantasias que trocamos
daria pra dizer que amantes fomos
mas o amor exige beijos e abraços
e não reconheceu o nosso encanto
1 290