Poemas neste tema

Educação e Conhecimento

Pablo Neruda

Pablo Neruda

VII

É paz a paz da pomba?

Faz a guerra o leopardo?

Por que ensina o professor
a geografia da morte?

Que ocorre com as andorinhas
que chegam tarde ao colégio?

É verdade que distribuem cartas
transparentes, por todo o céu?
1 152
Gregório de Matos

Gregório de Matos

Descreve a Vida Escolástica

Mancebo sem dinheiro, bom barrete,
Medíocre o vestido, bom sapato,
Meias velhas, calção de esfola-gato,
Cabelo penteado, bom topete.

Presumir de dançar, cantar falsete,
Jogo de fidalguia, bom barato,
Tirar falsídia ao Moço do seu trato,
Furtar a carne à ama, que promete.

A putinha aldeã achada em feira,
Eterno murmurar de alheias famas,
Soneto infame, sátira elegante.

Cartinhas de trocado para a Freira,
Comer boi, ser Quixote com as Damas,
Pouco estudo, isto é ser estudante.


In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
6 210
Roberto Piva

Roberto Piva

Manifesto Utópico-Ecológico em Defesa da Poesia e do Delírio

Invocação
Ao Grande deus Dagon de olhos de fogo, ao deus da vegetação Dionisos, ao deus Puer que hipnotiza o Universo com seu ânus de diamante, ao deus Escorpião atravessando a cabeça do Anjo, ao deus Luper que desafiou as galáxias roedoras, a Baal deus da pedra negra, a Xangô deus-caralho fecundador da Tempestade.
Eu defendo o direito de todo ser Humano ao Pão & à Poesia
Estamos sendo destruídos em nosso núcleo biológico,
nosso espaço vital & dos animais está reduzido a
proporções ínfimas
quero dizer que o torniquete da civilização está
provocando dor no corpo & baba histérica
o delírio foi afastado da Teoria do Conhecimento
& nossas escolas estão atrasadas pelo menos cem anos
em relação às últimas descobertas científicas no
campo da física, biologia, astronomia, linguagem,
pesquisa espacial, religião, ecologia,
poesia-cósmica, etc.,
provocando abandono das escolas no vício de linguagem &
perda de tempo
em currículos de adestramento, onde nunca ninguém vai
estudar Einstein, Gerard de Nerval, Nietzsche,
Gilberto Freyre, J. Rostand, Fourier, W.
Heinsenberg, Paul Goodman, Virgílio, Murilo
Mendes, Max Born, Sousandrade, Hynek, G. Benn,
Barthes, Robert Sheckley, Rimbaud, Raymond
Roussel, Leopardi, Trakl, Rajneesh, Catulo, Crevel,
São Francisco, Vico, Darwin, Blake, Blavatsky,
Krucënych, Joyce, Reverdy, Villon, Novalis,
Marinetti, Heidegger & Jacob Boehme
& por essa razão a escola se coagulou em Galinheiro
onde se choca a histeria, o torcicolo & repressão
sexual,
não existindo mais saída a não ser fechá-la &
transformá-la em Cinema onde crianças &
adolescentes sigam de novo as pegadas da
Fantasia com muita bolinação no escuro.
Os partidos políticos brasileiros não têm nenhuma
preocupação em trazer a UTOPIA para o quotidiano.
Por isso em nome da saúde mental das novas gerações
eu reivindico o seguinte:
1 - Transformar a Praça da Sé em horta coletiva & pública.
2 - Distribuir obras dos poetas brasileiros entre os
garotos (as) da Febem, únicos capazes de
transformar a violência & angústia de suas almas
em música das esferas.
3 - Saunas para o povo.
4 - Construção urgente de mictórios públicos ( existem
pouquíssimos, o que prova que nossos políticos
nunca andam a Pé ) & espelhos.
5 - Fazer da Onça (pintada, preta & suçuarana) o
Totem da nacionalidade. Organizar grupos de
Proteção à Onça em seu habitat natural. Devolver
as onças que vivem trançadas em zoológicos às
florestas. Abertura de inscrições para voluntários
que queiram se comunicar telepaticamente com
as onças para sabermos de suas reais dificuldades.
Desta maneira as onças poderiam passar uma
temporada de 2 semanas entre os homens &
nesse período poderiam servir de guias &
professores na orientação das crianças cegas.
6 - Criação de uma política eficiente & com grande
informação ao público em relação aos
Discos-Voadores. Formação de grupos de contato
& troca de informação. Facilitar relações eróticas
entre terrestres & tripulantes dos OVNIS.
7 - Nova orientação dos neurônios através da
Gastronomia Combinada & da Respiração.
8 - Distribuição de manuais entre sexólogas (os)
explicando por que o coito anal derruba o Kapital
9 - Banquetes oferecidos à população pela Federação das Indústrias.
10 - Provocar o surgimento da Bossa-Nova Metafísica
& do Pornosamba.
O Estado mantém as pessoas ocupadas o tempo integral
para que elas NÃO pensem eroticamente,
libertariamente. Novalis, o poeta do romantismo
alemão que contemplou a Flor Azul, afirmou: "Quem
é muito velho para delirar evite reuniões juvenis. Agora
é tempo de saturnais literárias. Quanto mais variada a
vida tanto melhor ".

2 034
Fernando Rocha Peres

Fernando Rocha Peres

Fatos Documentados

Revisão de Gregório

(entrevista concedida ao jornal A Tarde)
O historiador e poeta Fernando da Rocha Peres, aborda adiante, em entrevista, fatos documentados e lendas relativas a Gregório de Mattos e Guerra, revelando que aaproximação temática entre a obra do poeta doséculo XVII e a do seu contemporâneo, o padre Antônio Vieira, será tema de seus próximos estudos.
P - Ao que parece, novos dados biográficos sobre Gregório de Mattos estão condicionados ao aparecimento de novos documentos. Por que alguns registros-chave, como o de batismo e óbito do poeta não são encontrados?
R - As lacunas sobre a vida de Gregório de Mattos de certo modo já foram preenchidas, quando fiz a revisão da biografia escrita no século XVIII por Manuel Pereira Rabelo. Se estes dados, de registro de nascimento e óbito, não foram encontrados é porque essa documentação deve ter perecido. A certidão de batismo deveria estar aqui, no arquivo da cúria metropolitana, e hoje não se encontra mais. O registro de óbito deveria estar em Recife, onde ele faleceu. Eu estive pesquisando aqui na Bahia, em Pernambuco, em Portugal e o que pude encontrar sobre Gregório de Mattos foi, como disse Antônio Houaiss, o suficiente para uma reescritura da biografia do poeta. Creio que a data de nascimento e a de morte já estão suficientemente fixadas.
P - Nestes 13 anos desde a publicação da revisão biográfica de Gregório de Mattos, de sua autoria, surgiram muitos dados novos?
O que poderia ser acrescentado em uma nova edição?
R - Esses fatos novos já surgiram e foram acrescentados em outras publicações que fiz. Alguns documentos estão, como costumo dizer, na encubadora, porque, em verdade, um trabalho em cima de fontes primárias é um trabalho lento. Temos que checar as informações documentais de todas as maneiras possíveis. De 1983 para cá, muita coisa já foi acrescentada. Por exemplo, o fato de Gregório de Mattos ter sido provedor da Santa Casa de Misericórdia de uma vila portuguesa, Alcácias do Sal, onde ele foi juiz de fora. A descoberta de uma terceira sentença dele, publicada pelo jurista do século XVII Emanuel Alvares Pegas. O levantamento que fiz mais sistemático sobre a família extensiva do poeta, da questão referente ao processo inquisitorial contra ele, de 1685. Todos esses dados serão acrescidos a uma nova edição ou, quem sabe, a um desenho novo do poeta.
P - Que tipo de documentação se encontra no Brasil? Há informações sobre a passagem do poeta no Colégio da Bahia, dos jesuítas?
R - Infelizmente não existe nada, porque quando os jesuítas saíram daqui, no século XVIII, deixaram a biblioteca e o arquivo. Vilhena, cronista da Bahia do século XVIII, nos informa que os papéis do colégio foram vendidos para serem usados como embrulho de gêneros na área do Terreiro de Jesus e no Pelourinho. Toda documentação primária, levantei basicamente em Portugal, em Coimbra e em Lisboa. Há aqui um registro no arquivo da Santa Casa da Misericórdia da Bahia, quando ele entrou para irmão da Santa Casa. Este é o único documento primário. As outras informações relativas a Gregório existentes na Bahia estão, algumas delas, publicadas nas atas e cartas da Câmara da Cidade do Salvador, hoje a Câmara de Vereadores. Há muita informação sobre ele, que foi procurador da Bahia, defendeu os interesses dos proprietários de engenho de cana e defendeu o quanto pode a criação de uma universidade na Bahia, no século XVII. Registros não só dele, também de seu pai, avô, e irmãos estavam em documentos cujos originais já não existem mais, mas por sorte foram publicados pela Prefeitura Municipal da Cidade de Salvador.
P - E sobre o magistrado Gregorio de Mattos?
R - Sobre o juiz de fora, juiz do cível, representante do Brasil nas cortes, há documentação em elementos da língua espanhola, vocábulos africanos, indígenas e do português falado no Brasil, são traços particulares do poeta?
R - Gregório de Mattos usou sobretudo os termos indígenas e africanos no sentido pejorativo, para estabelecer uma comparação negativa com determinados elementos importantes da sociedade baiana da época, que se davam ares de grande destaque. Quando utiliza esse vocabulário - que enriquece muito sua poesia - o faz com o sentido satírico e não com a preocupação barroca de acrescentar elementos múltiplos à criação. Mas ele realmente ampliou os meios expressionais da poesia barroca do Brasil, pela incorporação de vocábulos indígenas e africanos.
P - Para o crítico, torna-se difícil se desvencilhar da personalidade de Gregório para concentrar-se numa análise que se detenha no texto, ou mesmo intertextual?
R - A obra de Gregório de Mattos sobreviveu através de apógrafos. Não há um único poema assinado por Gregório entre os mais de 700 que James Amado reuniu nos sete volumes da edição das obras completas. Aspectos da vida do poeta se harmonizam com a visão satírica que os poemas revelam. Na mesma época, existiram poetas dessa linha satírica, cuja linguagem se aproxima muito da de Gregório de Mattos. Mas, certas situações só poderiam ter sido vividas por um poeta satírico que aqui estivesse radicado.
Saber, por exemplo, que ele foi demitido do cargo de tesoureiro da Sé, pouco depois de chegar à Bahia, lança luz sobre o fato dele ter uma aversão profunda pelo clero. As informações biográficas estabelecem certos nexos que ajudam a compreender a poesia satírica de Gregório de Mattos e conceber que realmente um poeta como ele a escreveu. O estilo de época era muito universal, os procedimentos poéticos do barroco, os recursos retóricos, os tropos eram uniformes entre a poesia portuguesa, a castelhana e, naturalmente, a poesia brasileira, da época. Esta recebia influência natural, um processo normal de intertextualidade, das duas outras - sobretudo da poesia castelhana, que influênciou também poesia portuguesa. O gongorismo foi avassalador. Já o quevedismo é a particularidade satírica de Gregório de Mattos. Embora Quevedo tivesse, por exemplo, escrito poemas de uma inquietação religiosa, sobretudo uma obsessão com a idéia da morte, do aniquilamento físico do homem. Esse problema de apógrafos não atinge só á obra de Gregório. Há uma boa quantidade de poemas de Quevedo e do próprio Gôngora que não foram publicados com assinatura, sobre os quais existe grande controvérsia.
P - Quando a posição ideológica do poeta contrária às instituições estabelecidas se afirma?
R - As pesquisas, inclusive realizadas pelo professor Fernando Peres, mostram que Gregório de Mattos ocupou cargos importantes na magistratura de Lisboa, o que para um brasileiro, na época, era de grande significado. Ele casou-se com a filha de um magistrado importante, o que deve ter facilitado seu acesso, mas não bastaria para que ele fosse nomeado magistrado em Lisboa. É no retorno ao Brasil que o lado satírico se aguça, embora atribuam a ele um poema escrito em Portugal chamado Marinicolas. Poderia afirmar com convicção, pelo estudo que fiz, que o Gregório importante para a literatura brasileira nasce com a volta à Bahia. Há uma mudança na sua conduta de vida, concepção de mundo e nas suas relações sociais. Ele começa a ser o homem que ia com os amigos fazer grandes caçadas e farras no Recôncavo, ou nos bairros afastados de Salvador daquela época - Brotas, Rio Vermelho... - nomeados na poesia dele. Passa a atacar os padres, os representantes do poder constituído, as relações econômicas Brasil-Portugal . Era um homem de família rica, mas um produtor rural brasileiro prejudicado pela política portuguesa. Em alguns poemas, ele denuncia inclusive que as naus de Portugal vinham cheias de pedras e voltavam abarrotadas com as riquezas da terra. Até por esse aspecto sua poesia é importante, porque já revela uma certa consciência anti-colonialista se formando nas elites econômicas brasileiras da época. Muitos críticos dizem que Gregório não tinha sentimento patriótico. Como nós temos hoje em dia, certamente n
1 808
Ivan Junqueira

Ivan Junqueira

Palimpsesto

A Antônio Carlos Secchin
Eu vi um sábio numa esfera,
os olhos postos sobre os dédalos
de um hermético palimpsesto,
tatear as letras e as hipérboles
de um antiqüíssimo alfabeto.
Sob a grafia seca e austera
algo aflorava, mais secreto,
por entre grifos e quimeras,
como se um código babélico
em suas runas contivesse
tudo o que ali, durante séculos,
houvesse escrito a mão terrestre.

Sabia o sábio que o mistério
jamais emerge à flor da pele;
por isso, aos poucos, a epiderme
daquele códice amarelo
ia arrancando como pétalas
e, por debaixo, outros arquétipos
se articulavam, claras vértebras
de um esqueleto mais completo.
Sabia mais: que o que se escreve,
com a sinistra ou com a destra,
uma outra mão o faz na véspera,
e que o artista, em sua inépcia,
somente o crê quando o reescreve.
Depois tangeu, em tom profético:
"Nunca busqueis nessa odisséia
senão o anzol daquele nexo
que fisga o presente e o pretérito
entre os corais do palimpsesto."
E para espanto de um intérprete
que lhe bebia o mel do verbo,
pôs-se a brincar, dentro da esfera,
com duendes, górgonas e insetos.

1 522
João Borges de Barros

João Borges de Barros

Soneto

Tão brilhante não é quando amanhece
Do Sol, vencendo névoas, a luz pura,
Dissipando do Inverno a estação dura,
A Primavera tanto não floresce:

Como a luz que as idéias enriquece,
Como a pomba que os frutos assegura,
Nesta, que do descuido a sombra escura
Removendo, Academia hoje aparece.

Nasce pois, brilha já e o tempo avaro
Do progresso feliz nunca te prive,
Como já cometeu, Liceu preclaro,

Um númen mais sublime hoje revive,
Do luso Jove enfim no régio amparo,
Abre flor, Sol renasce, Fênix vive.

1 124
José Eduardo Mendes Camargo

José Eduardo Mendes Camargo

Aprendendo

Aprender, às vezes, é muito fácil,
basta ouvir uma canção.
Outras vezes, é muito difícil,
só levando um safanão.
Aprender, por vezes, na badalação,
em outras vezes, na solidão.
Aprender, por vezes, na conversação,
em outras vezes, na meditação.
E eu quero morrer aprendendo.

630
João Ferry

João Ferry

Fim de Escola

Na escola toda vez, quando aparece
O exame final do fim do ano,
Nervoso cada qual faz uma prece,
Receando sofrer um desengano.

Boas notas só tem quem as merece,
E quem as obtém vaidoso e ufano,
Muitas vezes até depressa esquece,
Da professora e seu trabalho insano.

E o aluno fica alegre e mui contente,
Para gozar as férias bem feliz,
No lar para onde volta sorridente.

Mas acontece que o aluno mau,
Que de vadio estudar não quis,
Volta pra casa, mas só leva pau!...

902
Francilda Costa

Francilda Costa

A Poesia na Literatura Infantil

Em princípio, a priori, assim como não há, na verdade uma Literatura Infantil, direcionada no ato de criação, pelo autor, não existe, a bem da verdade, uma Poesia Infantil. Duas hipóteses parecem justificar esta conclusão, a qual apenas é endosso meu, do pensamento lúcido de Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles. A poesia para crianças, é, em essência, a mesma obra de arte para o adulto. Ou temos vergonha, diante de um momento poético despojado de complexidade, vergonha de assumir que ele nos impressionou, ou ainda temos aquela idéia velhíssima de que criança é criatura em grau diminutivo, dotada de pouca percepção, limitada em recursos, um homúnculo a quem se deve minimizar conteúdos e reduzir os obstáculos.
A simplicidade de linguagem e um repasse cristalino de mensagem não impedem a feitura de um grande poema (e não um poema grande) nem comprometem a verticalidade de uma abordagem.
O que não me parece viável nem honesto é adaptar, construir uma "simplicidade" falsa, denotativa pela falta de coragem de trabalhar um caminho de acesso ou por acreditar seja a criança um ser reprodutivo, um claudicante observador, incapaz de direcionar sua própria descoberta.
O simples nunca foi o fácil, e nisto reside a confusão maior deste questionamento. Ninguém pode imaginar quanto sofre um poeta, quanto exige de si mesmo para alcançar o que Drummond chama de estado de simplicidade.
A simplicidade, e não a simplificação, brota da depuração, da eliminação difícil da sedução formal (coisa espetacular) e funciona como uma centrífuga que de uma fruta tirasse apenas o suco, sem resíduos adicionais. O preconceituoso erudito, muitas vezes, não sabe que persegue acessório e não o essencial. Como afirma Drummond, quanto mais pura é a obra, mais perplexa a indagação: "Mas é somente isso? Não há mais nada? É o caso de se dizer: haveria, mas o gato comeu. (e ninguém viu o gato).
A criança apenas não tem acesso a determinadas construções do verso, mas é perfeitamente capaz de compreendê-las , bem entendido, se já tem domínio lógico. Daí não existirem poemas infantis para menores de 7 anos. Apenas gravuras das quais se extrai um texto.
O tom moralizador numa poesia, como também uma carga didática, não só intolerável para o adulto, mas para a criança também e sua repugnância mostra-se até bem mais acentuada. Qualquer poesia que tolha o melhor dos bens, a liberdade, é anti-literária e nunca deve ser encaminhada àqueles que se pode moldar, segundo a tradição, no caso a criança.
Deve ser realmente um suplício, tortura chinesa, agüentar dizer, no meio de um palco, em cima de uma cadeira ou a frente da classe:

"Sou pequenina, das pernas grossas
Vestido curto papai não gosta
Fui na cozinha comer salada
Mamãe me viu, me deu palmada
Fui na despensa roubar um queijo
Papai me viu, me deu um beijo"

Esses direcionamentos ideológicos da mamãe carrasca e do papai herói, tem sustentado muitas das idéias sobre equilíbrio familiar. Se não analisarmos poemas assim questionando sua filosofia e sim a título de mera informação reprodutiva, estaremos bloqueando o avanço de uma futura geração na direção de um mundo menos hipócrita e mais justo em seu senso comum.
Lobato propunha que se usasse a poesia para ensinar todas as áreas de conhecimento do currículo da Escola Básica. A poesia tem o dom de aguçar a sensibilidade e pelo seu processo de síntese forçar desdobramentos do raciocínio.
Grotesco era dizer às crianças, no catecismo infantil a linearidade de coisas assim: "Maria, a mãe de Jesus foi virgem antes do parto no parto e depois do parto." Patativa do Assaré rompe o hermetismo dogmático, utilizando-se tão somente da função poética: "Jesus entrou em Maria como o sol pela vidraça."
Por que não se aproveitam os versos de Juca Chaves para cantar a história do descobrimento? Medo do tom de sátira, de uma possível queda no fervor cívico? O objeto amado que não resiste a uma radiografia, não adquire sustentação permanente e profunda.
Se não vejamos os versos à guisa de um estilo trovadoresco, talvez até um misto de cantiga de amor e escárnio.

"Então partiu Cabral
comandando as caravelas
oh cara, oh cara,
oh cara, oh caravelas.

Bem no meio do oceano
Encontraram calmaria BIS
Oh calma, oh calma,
Oh calma, oh calmaria.

Enxergaram logo um monte
que chamaram de Pascoal
era dia 21 de abril
2 meses depois do carnaval."

O esforço para arrolar como infantil alguns poemas da lavra de poetas maiores, como é o caso de Mário Quintana, Vinícius de Moraes e Cecília Meireles é evidente nos exercícios de interpretação de texto, contidos nos livros didáticos, os quais drenam o que há de mais importante no sub-texto do poema, tornando-o um mero referencial que atende apenas o elemento instrutivo (o educare) deixando de lado o educare, o elemento provocador de descobertas, que perfaz o educar e diverte pela aventura de, com ele, alcançar-se a compreensão maior, a chave que abre o mundo "não dito do poema".
Vejamos o poema "O Cavalinho Branco" de Cecília Meireles e a ficha de leitura que se lhe segue:

"À tarde, o cavalinho branco
está muito cansado:
mas há um pedacinho de campo
onde é sempre feriado,

O cavalo sacode a crina
loura e comprida,
e nas verdes ervas atira
sua branca vida.
Seu relincho estremece as raízes
e ele ensina aos ventos
a alegria de sentir livres
seus movimentos.
Trabalhou todo o dia tanto
desde a madrugada!
descansa entre as flores, cavalinho branco
de crina dourada."

Atente-se agora para o questionamento que é aplicado ao poema:

l - Qual é a cor do cavalinho?
2 - Onde ele está?
3 - Como é sua crina?
4 - Ele está dormindo ou acordado?
5 - Que ele come?

Sabemos que, desta maneira dois desastres didático-literários acontecem: primeiramente, o poético foi inviabilizado; segundo, a criança e condicionada a manter-se nas informações secundárias, superficiais, impedida de se emocionar ou recriar o poema, numa co-autoria.
O mesmo acontece com o poema "Pedro" de Bartolomeu Campos Queiroz.

"Pedro é um nome que agente conhece em muitas línguas:
Pedro, Pierre, Pietro, Peter, Pether, Petrus.
Pedro pintou, um dia, em alguma parte do mundo, o retrato
de uma borboleta.
O papel tinha o tamanho de sua intenção.
As cores, as de seu desejo.
Pintou ainda, sobre o papel, flores para a borboleta se esconder
e galhos para descansar.
É mesmo fácil imaginar sua pintura ou faze-la, mas a
conseqüência não foi tão simples.
É melhor saber toda a história.
Pierre acordou com o coração cheio de domingo.
Domingo é dia em que a gente não quer nada e por isso
acontece quase tudo.
Não era domingo, mas ele se sentia em paz com o mundo.
Nesse dia ele viu o vôo de uma borboleta (vôo de borboleta
pode transformar qualquer dia em domingo)."

Com relação a este poema, uma professora sofreu admoestações do supervisar por colocar um estudo das idéias do texto, acima da compreensão dos alunos, de acordo com reclamações das mães e não dos garotos, que estavam gostando do desafio da dificuldade. Vejamos as perguntas:

l - Por que será que Pedro é um nome tão comum?
2 - Pedro é um nome forte ou fraco? Fica bem acompanhado de
outro nome sozinho? Explique sua escolha.
3 - Por que as flores serviam para a borboleta se esconder
e não para delas sugar o mel?
4 - O coração da gente muda quando o domingo
se transforma em 2a feira?
5 - Qualquer dia pode ser domingo? Como?

O adulto, via de regra, tem em mente que fazer a criança pensar ou conflita
1 837
Paulo Leminski

Paulo Leminski

saber é pouco

saber é pouco
como é que a água do mar
entra dentro do coco?

2 662
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Composición escrita en un ejemplar de la Gesta de Beowulf

A veces me pregunto qué razones
me mueven a estudiar sin esperanza
de precisión, mientras mi noche avanza
la lengua de los ásperos sajones.
Gastada por los años la memoria
deja caer la en vano repetida
palabra y es así como mi vida
teje y desteje su cansada historia.
Será (me digo entonces) que de un modo
secreto y suficiente el alma sabe
que es inmortal y que su vasto y grave
círculo abarca todo y puede todo.
Más allá de este afán y de este verso
me aguarda inagotable el universo.



"El otro, el mismo" (1969)


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 211 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
2 918
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quisera ter

Quisera ter
Isso que escuramente em mim aspiro:
O pensamento abrangedor de tudo
Numa compreensão única e funda.
Todo o contido em artes, letras, todas
As leis no fundo do universo nadas
Que regem       (...)       até a história
Em modalizações(...)

Era isto que eu, num pensamento único,
Abrangedor, quisera compreender.
966
Inácio José de Alvarenga Peixoto

Inácio José de Alvarenga Peixoto

Amada filha, é já chegado o dia

Amada filha, é já chegado o dia,
em que a luz da razão, qual tocha acesa
vem conduzir a simples natureza,
é hoje que o teu mundo principia.

A mão que te gerou teus passos guia,
despreza ofertas de uma vã beleza,
e sacrifica as honras e a riqueza
às santas leis do filho de Maria.

Estampa na tua alma a caridade,
que amar a Deus, amar aos semelhantes,
são eternos preceitos da verdade.

Tudo o mais são idéias delirantes;
procura ser feliz na eternidade,
que o mundo são brevíssimos instantes.


In: LAPA, M. Rodrigues. Vida e obra de Alvarenga Peixoto. Rio de Janeiro: INL, 1960
3 975
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Al adquiri una enciclopedia

Aquí la vasta enciclopedia de Brockhaus
aquí los muchos y cargados volúmenes y el volumen del atlas,
aquí la devoción de Alemania,
aquí los neoplatónicos y los agnósticos,
aquí el primer Adán y Adán de Bremen,
aquí el tigre y el tártaro,
aquí la escrupulosa tipografía y el azul de los mares,
aquí la memoria del tiempo y los laberintos del tiempo,
aquí el error y la verdad,
aquí la dilatada miscelánea que sabe más que cualquier hombre,
aquí la suma de la larga vigilia.
Aquí también los ojos que no sirven, las manos que no aciertan las ilegibles páginas,
la dudosa penumbra de la ceguera, los muros que se alejan.
Pero también aquí una costumbre nueva,
de esta costumbre vieja, la casa,
una gravitación y una presencia,
el misterioso amor de las cosas
que nos ignoran y se ignoran.


Jorge Luis Borges | "Poesía Completa", pág. 530 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 301
Anterior Página 9