Poemas neste tema

Educação e Conhecimento

Antero Coelho Neto

Antero Coelho Neto

Eu Aprendi a Dizer Sim

Eu aprendi a dizer sim quando via natureza
molhada na manhã alegre do primeiro dia novo.

Eu aprendi a dizer não quando reconheci a fome
no homem indefeso e não achei nenhuma razão.

Eu aprendi a dizer sim quando o dia amanheceu
e fiquei deslumbrado com a esperança renovada.

Eu aprendi a dizer não quando quiseram que traísse
os princípios fundamentais da humanidade em luta.

Eu aprendi a dizer sim quando fui à escola
de minha infância e corri, gritei e... aprendi.

E então o sim e o não passaram a ser inexoráveis
durante todo o resto da vida, depois que aprendi.

1 395
Cláudio Alex

Cláudio Alex

Poesia Diária

- Um digest diário sobre poesia em português.

O que traz este digest:

- poesias de autores que escrevem na língua
portuguesa;

- poesias estrangeiras traduzidas para o
português;

- poesias inéditas e novos poetas;

- ensaios, críticas sobre poesia;

- textos em prosa poética;

- biografias;

- notícias sobre prêmios e concursos;

- dicas sobre novos lançamentos em poesia;

- dicas para quem está começando a escrever;

- dicas sobre a poesia na Internet.

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o Poesia Diária traz a oportunidade de troca de
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1 122
Vladimir Maiakovski

Vladimir Maiakovski

MINHA UNIVERSIDADE

Conheceis o francês sabeis dividir, multiplicar, declinar com perfeição.
Pois, declinai!
Mas sabeis por acasos cantar em dueto com os edifícios?
Entendeis por acaso a linguagem dos bondes?
O pintainho humano mal abandona a cascas atraca-se aos livro e as resmas de cadernos.
Eu aprendi o alfabeto nos letreiros folheando páginas de estanho e ferro.
Os professores tomam a terra e a descarnam e a descascam para afinal ensinar:
"Toda ela não passa dum globinho!"
Eu com os costados aprendi geografia.
Os historiadores levantam a angustiante questão:
- Era ou não roxa a barba de Barba Roxa?
Que me importa! Não costumo remexer o pó dessas velharias.
Mas das ruas de Moscou conheço todas as histórias.
Uma vez instruídos, há os que se propõem a agradar às damas, fazendo soar no crânio suas poucas idéias,como pobres moedas numa caixa de pau.
Eu, somente com os edifícios,conversava.
Somente os canos respondiam.
Os tetos como orelhas espichando suas lucarnas aguardavam as palavras que eu lhes deitaria.
Noite a dentro uns com os outros palravam girando suas línguas de catavento.


2 391
Castro Alves

Castro Alves

Jesuítas e Frades

Que o mundo antigo serga e lance a maldição
Sobre vós... remembrando a negra lnquisição,
A hidra escura e vil da vil Teocracia,
O Santo Ofício, as provas, o azeite, a gemonia ...
Lisboa, Tours, Sevilha e Nantes na tortura,
Na fogueira Grandier, João Huss na sepultura,
Colombo a soluçar, a gemer Galileu...
De mil autos-da-fé o fumo enchendo o céu...
Que a maldição vos lance a pena do Gaulês
Tendo por tinta a borra das caldeiras de pez...
Que o Germano a sangrar maldiz em férreos hinos.

É justo! . . .

A História cega, aquentando o estilete
Nas brasas que apagar não pôde o Guadalete,
Tem jus de vos marcar com o ferro do labéu,
Como queima o carrasco o ombro nu do réu ...

Mas enquanto existir o grande, o novo mundo,
Ó Filhos de Jesus!... um cântico profundo
Irá vos embalar do sepulcro no solo...
A América por vós reza de pólo a pólo!
Dizei-o, vós, dizei, Tamoios, Guaranis,
Iroqueses, Tapuias, Incas, e Tupis...

A santa abnegação, o heroísmo, a doçura,
O amor paternal, a castidade pura
Destes homens que vinham, envoltos no burel,
A derramar dos lábios o amor — divino mel,
O perdão — óleo santo, a fé — mística luz,
E o Deus da caridade - o pródigo Jesus! ...

Oh! não! Mil vezes não! O poeta Americano
Vos deve sepultar no verso soberano
— Pano negro que tem por lágrimas de prata
As lágrimas que a Musa inspirada desata!!!

Se aqui houve cativos — eles os libertaram.
Se aqui houve selvagens — eles os educaram.
Se aqui houve fogueiras — eles nelas sofreram.
Se lá carrascos foram — cá mártires morreram.
Em vez do Inquisidor — tivemos a vedeta.
Loiola — aqui foi Nóbrega, Arbues — foi Anchieta!

Oh! Não! Mil vezes nãol O poeta Americano
Vos deve amortalhar no verso soberano
— Pano negro que tem por lágrimas de prata
As lágrimas que a musa inspirada desata!...

1 657
António Diniz da Cruz e Silva

António Diniz da Cruz e Silva

A francesia

Ao pé de cada canto, hoje, sem pejo
Se tratam de Monsieur os Portugueses.
Isto, senhor, é moda, e como é moda,
A quisemos seguir, e sobretudo
Mostrar ao mundo que francês sabemos.

- De tanto peso pois (lhe volve o Lara)
É, padre jubilado, porventura
O saber o francês, que disso alarde
Fazer quisessem Vossas Reverências?
Por acaso, sem esse sacramento,
Não podiam salvar-se, e serem sábios?
Pois aqui, em segredo, lhe descubro
Que o francês, para mim, o mesmo monta
Que a língua dos selvagens botocudos.

- Não diga, senhor, tal! Que neste tempo
(Ó tempos, ó costumes! diz o padre)
O saber o francês é saber tudo.
É pasmar! ver, senhor, como um pascácio,
De francês com dois dedos, se abalança
Perante os homens doutos e sisudos,
A falar das ciências mais profundas,
Sem que lhe escape a santa teologia,
Alta ciência, aos claustros reservada,
Que tanto fez suar ao grande Sesto,
Aos Bacónios, aos Lélios, e a mim próprio.
Desta audácia, senhor, deste descoco,
Que entre nós sem limite vai lavrando,
Quem mais sente as terríveis consequências
É a nossa portuguesa, casta linguagem,
Que em tantas traduções anda envasada
(Traduções que merecem ser queimadas!)
Em mil termos e frases galicanas.
Ah! Se as marmóreas campas levantando,
Saíssem dos sepulcros, onde jazem
Suas honradas cinzas, os antigos
Lusitanos varões, que com a pena
Ou com a espada e lança, a pátria ornaram,
Os novos idiotismos escutando,
A mesclada dicção, bastardos termos,
Com que enfeitar intentam seus escritos
Estes novos, ridículos autores;
(Como se a bela e fértil língua nossa,
Primogénita filha da latina,
Precisasse de estranhos atavios!)
Súbito, certamente, pensariam
Que nos sertões estavam de Caconda,
Quelimane, Sofala ou Moçambique;
Até que, já por fim desenganados
Que eram em Portugal, que portugueses
Eram também os que costumes, língua,
Por tão estranhos modos afrontaram,
Segunda vez de pejo morreriam...
Mas eles têm desculpa. A negra fome
Os míseros mortais a mais obriga.
Sem saber o que escrevem, escrevendo
Buscam dela o remédio; e como logram
Os fins de seus intentos, o que escrevem
Seja ou não português, isso que monta?
Quem desculpa não tem, nem a merece,
É quem vedar-lho deve, e não lho veda...
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Castro Alves

Castro Alves

O Livro e a América

ao grêmio literário

Talhado para as grandezas,
Pra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".

Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
Outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.

Olhando em torno então brada:
"Tudo marcha!... Ó grande Deus!
As cataratas — pra terra,
As estrelas — para os céus
Lá, do pólo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar...
Eu quero marchar com os ventos,
Corn os mundos... coos firmamentos!!!"
E Deus responde — "Marchar!"

"Marchar! ... Mas como?... Da Grécia
Nos dóricos Partenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Panteons?...
Marchar coa espada de Roma
— Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo. . .
— Com as garras nas mãos do mundo,
— Com os dentes no coração?...

"Marchar!... Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?...
Não!... Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir...
Lá brada César morrendo:
"No pugilato tremendo
"Quem sempre vence é o porvir!"

Filhos do sec’lo das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo...
Eólo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade vooul...

Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O seclo, que viu Colombo,
Viu Guttenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...

Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo nalma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar,

Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões,
Pra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz! ...

Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão! ...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
Num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...

2 004
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Doce

A boca aberta para o doce
já prelibando a gostosura,
e o doce cai no chão de areia, droga!

Olha em redor. Os outros viram.
Logo aquele doce cobiçado
a semana inteira, e pago do seu bolso!
Irá deixá-lo ali, só porque os outros
estão presentes, vigilantes?

A mão se inclina, pega o doce, limpa-o
de toda areia e mácula do chão.
“Se fosse em casa eu não pegava não,
mas aqui no colégio, que mal faz?”
2 441
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Estreia Literária

Desde antes de Homero
a aurora de dedos róseos
pousava todas as manhãs
por obrigação.
Não assim tão róseos.
Nossa aurora particular baixa num vapor
de frio do alto da serra, e mal nos vemos,
errantes, no recreio, em meio a rolos
de névoa.
Outra aurora eu namoro: a Colegial.
Quatro páginas. Quinzenal. 300 réis.

“Periódico da Divisão dos Maiores.”
Quero escrever, quero emitir clarões
de astro-rei literário em suas edições.
Dão-me, que esplendor, primeira página,
primeira, soberbíssima coluna.
É a glória, entre muros, mas a glória.
Contemplo, extasiado,
o meu próprio talento em letras públicas.
Ler? Não leio não.
Quero é sentir meu nome, com a notinha:
“Aluno do segundo ginasial”.

Já são quatro da tarde.
Até agora ninguém
veio gabar-me a nobre criação.
Ninguém gastou 300 réis para me ler?
Será que meu escrito
não é lá uma peça tão sublime?
Decido-me a encará-lo mais a fundo.
Vou me ler a mim mesmo. Decepção.
O padre-redator introduziu
certas mimosas flores estilísticas
no meu jardim de verbos e adjetivos.
Aquilo não é meu. Antes assim,
ninguém me admirar.
1 235
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Rato Sem Rabo

Que vem fazer este ratão sem rabo
no rancho dos Maiores, provocando
tamanha bulha que derruba a mesa
de pingue-pongue em pleno jogo
e entra o center-forward com bola e tudo
no goal-post sem goalkeeper
e arregaça o prefeito a negra túnica
para correr atrás do bicho insólito
e a disciplina se desfaz em pândega?

Que quer dizer esse rabão sem rato
na ratoeira do pátio dos Médios
despojada de queijo,
senão que nos Médios ninguém sabe
pegar de um rato mais que seu apêndice?

A pau e pontapé vamos caçá-lo
e, está claro, vivo devolvê-lo
com os nossos cumprimentos
ao sítio de onde veio,
para que, unindo rabo e rato, aqueles frouxos
saibam matar um rato por inteiro.
712
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Inventor

Entre Deus, que comanda,
e guris, que obedecem,
entre aulas a dar
o mês inteiro, a vida inteira, a inteira eternidade
(não cresça o Brasil afastado da ciência,
nem do Senhor acima de toda ciência)
e sob a esperança do Paraíso,
o padre português, no confessionário,
antes que o pecador
debulhe seus pecados
indaga:
“Quantas vezes mexeste no pirulito?”.
Finda a obrigação,
recolhe-se ao quarto ascético,
dedica-se ao aperfeiçoamento
de sua invenção, o ovoscópio,
que identifica os ovos chocos
e os separa dos bons,
assim como Deus, no Juízo Final,
vai separar as almas santas e as corruptas.
1 123
Sebastião Uchoa Leite

Sebastião Uchoa Leite

As Categorias Límpidas

Constroem tocas em margens de córregos
e riachos, e passam quase toda a vida
na água em busca de larvas e insetos e
cutucam sedimentos de aluvião com os
bicos. Os machos têm espora afiada e
oca nos calcanhares, que se liga a uma
glândula venenosa na coxa. Os organis-
mos ovíparos formam ovos no corpo e
óvulos muito protoplasmáticos onde o pla-
no de clivagem não consegue penetrar
e dividir a extremidade vegetativa, ou
seja, a clivagem meroblástica caracteri-
za vertebrados terrestres répteis ou pás-
saros. Caldwell enfatizou o caráter rep-
tiliano desses mamíferos paradoxais, mas
navegadores europeus por muito tempo
foram ludibriados por taxidermistas chine-
ses e por costuras de cabeças e troncos
de macacos às partes traseiras de peixes.
Porém não se conseguiu achar emendas
ou costuras. O enigma interno sendo ainda
maior, contudo, os primeiros evolucionis-
tas franceses insistiram em que a anato-
mia não podia mentir: os ovos, eles bra-
davam, acabarão por serem encontra-
dos um dia (naquele tempo ainda não se
encontrara glândulas mamárias). Saint-
Hilaire manteve acesa a chama da ovi-
paridade. Caldwell solucionou um misté-
rio específico, intensificando, porém, o
problema geral. A natureza clamava pe-
las categorias límpidas, pois é impossí-
vel vencer num mundo assim: ou se é um
primitivo prima facie ou especializado
por uma simplicidade implícita e oculta.

1991


Poema integrante da série Informes.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A ficção vida. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993
1 204
Renata Pallottini

Renata Pallottini

Vestibular

De novo acomodo o corpo
(que de novo me incomoda)
na carteira de pau áspero;
de novo tomo a caneta.

De novo passo entre as filas
ponho a mão no ombro trêmulo
de alguma estudante tímida
(e agora sou professora).

De novo é aquela angústia,
não saber o que se sabe
ser de novo examinada
e de novo posta à prova.

De novo adivinho o amor,
olho-me e olho; já fui
o que hoje sou. Já sofri
o que sofro. E vem de novo

esse temor, como novo.
Ensino, ou sou ensinada?
Estou acima, ou me afogo?
De novo perco o respiro
ou já domino a questão?

De novo sofro e transpiro
porque hoje sou a mestra
tão escassa como sempre
e como sempre carente.

Olho-me quieta de novo
e vejo toda essa gente.
Passas de novo a meu lado
e me pões a mão no ombro

e me marcas com teu sopro
e me deixas tua sombra.


In: PALLOTTINI, Renata. Cantar meu povo. São Paulo: Massao Ohno, 198
1 753
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ombro

Se triste é ir para o colégio distante,
fica mais triste ainda
ao ver Sebastião Ramos chorando no ombro de meu pai:

“Estou perdido! Nunca mais levanto!
A quebra dessa casa é a minha morte”.
O fragor do trem martela seu desespero,
ou seu desespero rilha nos trilhos
e, na caldeira, queima?

Ei, Sebastião Ramos, faz assim não na minha frente!
Também estou perdido: morte no internato.
Morrer vivo o ano inteiro é mais morrer
embora ninguém perceba
e ficarei sem ombro
para acalentar a minha morte.
Ó Sebastião Ramos, você roubou meu ombro.
1 239
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Fim da Casa Paterna

I
E chega a hora negra de estudar.
Hora de viajar
rumo à sabedoria do colégio.

Além, muito além de mato e serra,
fica o internato sem doçura.
Risos perguntando, maliciosos
no pátio de recreio, imprevisível.
O colchão diferente.

O despertar em série (nunca mais
acordo individualmente, soberano).
A fisionomia indecifrável
dos padres professores.
Até o céu diferente: céu de exílio.
Eu sei, que nunca vi, e tenho medo.

Vou dobrar-me
à regra nova de viver.
Ser outro que não eu, até agora
musicalmente agasalhado
na voz de minha mãe, que cura doenças,
escorado
no bronze de meu pai, que afasta os raios.

Ou vou ser — talvez isso — apenas eu
unicamente eu, a revelar-me
na sozinha aventura em terra estranha?
Agora me retalha
o canivete desta descoberta:
eu não quero ser eu, prefiro continuar
objeto de família.
II
A “condução” me espera:
o cavalo arreado, o alforje
da matalotagem,
o burrinho de carga,
o camarada-escudeiro, que irá
na retaguarda,
meu pai-imperador, o Abre-Caminho.

Os olhos se despedem da paisagem
que não me retribui.
A casa, a própria casa me ignora.
Nenhuma xícara ou porta me deseja
boa viagem.
Só o lenço de minha mãe fala comigo
e já se recolheu.
III
São oito léguas compridas
no universo sem estradas.
São morros de não acaba
e trilhas de tropa lenta
a nos barrar a passagem.
Pequenos rios de barro
sem iaras, sem canoas
e uns solitários coqueiros
vigiando mortas casas
de falecidas fazendas.
Ou são mergulhos na lama
de patas que não têm pressa
de chegar a Santa Bárbara.
Quando termina a viagem,
se por acaso termina,
pois vai sempre se adiando
o pouso que o pai promete
a consolar o menino?
Que imenso país é este
das Minas fora do mapa
contido no meu caderno?
Que Minas sem fim nem traço
de resmungo entre raríssimos
roceiros que apenas roçam
mão na aba do chapéu
em saudação de passante?
O cavalgar inexperto
martiriza o corpo exausto.
Se bem que macia a seda,
deixa o traseiro esfolado.
Até que afinal, hosana!
apeando em São Gonçalo
diante da suspirada
venda de Augusto Pessoa,
meu pai, descansando, estende-me
o copo quente e divino
de uma cerveja Fidalga.
Bebi. Bebemos. Avante.
IV
Tenho que assimilar a singularidade
do trem de ferro.
Sua bufante locomotiva, seus estertores,
seus rangidos, a angustiante
ou festiva mensagem do seu apito.

Ah, seus assentos conjugados de palhinha
sobre o estofo.
Nunca viajei em bloco, a vida
começa a complicar-se.
Novidade intrigante, o sabonete
preso na corrente.

Minha terra era livre, e meu quarto infinito.
1 642
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Mestre

Arduíno Bolivar, o teu latim
não foi, não foi perdido para mim.
Muito aprendi contigo: a vida é um verso
sem sentido talvez, mas com que música!
1 425
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Figuras

O Meirinho, o Meirão. Um é craque na bola,
o outro, caricaturista. A vontade que sinto
de ter nascido J. Carlos e vencê-lo.
Dos três irmãos Lins, Ivan ainda não conhece
Auguste Comte e já se mostra sábio.
Capanema, o estudante
três vezes estudante, e completo.
O completo vadio,
ignoro se sou. Sei que não sei
estudar, e isto é grave. Jamais aprenderei.
Vou rasgando papéis pelo pátio varrido.
Todos riem baixinho. Volto-me,
pressentimento.
Atrás de mim Padre Piquet vem, passo a passo,
pousa em meu ombro a punição.
1 067
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Aula de Francês

Cette Hélène qui trouble et l’Europe et l’Asie,
mas o professor é distraído,
não vê que a classe inteira se aliena
das severas belezas de Racine.
Cochicham, trocam bilhetes e risadas.
Este desenha a eterna moça nua
que em algum país existe, e nunca viu.
Outro some debaixo da carteira.
Os bárbaros. Será que vale a pena
ofertar o sublime a estes selvagens?

O Professor Arduíno Bolivar
fecha a cara, abre o livro.
Ele não os despreza. Ama-os até.
Podem fazer o que quiserem.
Ele navega só, em mar antigo,
a doce navegação de estar sozinho.
Tine a campainha.
Acabou a viagem, no fragor
de carteiras e pés.
O professor regressa ao rígido
sistema métrico decimal das ruas de Belo Horizonte.
1 030
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Aula de Português

A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.

A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.

Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.

O português são dois; o outro, mistério.
2 842
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Aula de Alemão

Baixo, retaco, primitivo,
Irmão Paulo, encarregado da livraria
e do ensino de Goethe a principiantes,
leu um único livro em sua vida:
Arte de Dar Cascudos,
que ele pratica bem, mas não ensina.
Os lábios assustados ficam mudos
para sempre, em germânico.
1 121
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Programa

Que vais fazer no dia de saída?
Acaso vais reinventar a vida?

Dizendo adeus a negras matemáticas,
nunca mais voltar ao colégio férreo?

Montar em pelo o macho Trintapatas
e galopar no rumo do Insondável?

Buscar destino de cigano ou pária,
livre pra lá da Serra do Curral?

Vais procurar o que é vedado e chama:
a pedra, o som, o signo, a senha, o sumo?

— Vou visitar os tios e os padrinhos.
Vou chateá-los e chatear-me, apenas.

(Preceito Dez, das Tábuas da Família.)
1 077
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cultura Francesa

Com mestre Emílio aprendi
esse pouco de francês
que deu para ler Jarry.

Murilo, diabo na aula,
tinha gestos impossíveis,
que nem macaco na jaula.

Mestre Emílio, tão severo
não via no último banco
o aluno de moral zero.

Os verbos irregulares
saltavam do meu Halbout,
perdiam-se pelos ares.

Nunca mais os encontrei…
Talvez Brigitte Bardot
me ensinasse o que não sei.
896
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Orgulho

Com toda a sua pomada
e seu horror a pedir,
ao ver a Agência fechada,
Manduca diz, soberano:
“Meu tio, quer me emprestar
um selinho de cem réis?”.
“Pois não, lhe empresto, sobrinho.”
A carta segue seu rumo,
passa um dia, um mês, um ano
e Manduca, muito ancho,
se gaba de não dever
nem um tostão a ninguém.
“Alto lá, sobrinho, então
eu não lhe emprestei um selo
justamente de tostão?
Se me pagar nesta hora,
prometo não desmenti-lo,
dispenso juro de mora,
mas você fica devendo
o preço desta lição.”
741
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Hortênsia

A professora me ensina
que Hortênsia é saxifragácea.
Mas no moreno de Hortênsia,
na cabeleira de Hortênsia,
no busto e buço de Hortênsia,
o que eu diviso é uma graça
mais estranha que a palavra
saxifragácea.
Hortênsia, jardim trancado,
onde sei que o namorado
percorre umbrosos canteiros,
contando depois pra gente.
Oi namorada dos outros,
oi outros que não se calam,
fazem só para contar!
O namorado de Hortênsia
me ensina coisas diversas
do ensino da escola pública.
Eu sei, eu percebo, eu sinto
que Hortênsia (existe a palavra?)
é sexifragrância.
1 388
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Genética II

"ALERTA"

OS JORNAIS AVISAM

"cientista renomado
conseguiu incrível feito
unindo genes preciosos
à evolução física do homem"

NOTIFICAÇÃO

Está aberto o caminho
para quem quiser aperfeiçoar
a mentalidade e a vida.

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