Poemas neste tema

Educação e Conhecimento

Charles Bukowski

Charles Bukowski

As Garotinhas

lá no norte da Califórnia
ele estava de pé no púlpito
e estivera lendo por algum tempo
poemas sobre
a natureza e a bondade
do homem.

ele sabia que tudo estava
certo e não se podia culpá-lo:
ele era um professor e nunca
estivera na cadeia ou num bordel
nunca tivera uma lata velha que enguiçou
no meio de um engarrafamento;
jamais precisara de mais de
3 drinques durante sua noite mais
selvagem;
jamais tinha sido logrado, espancado,
assaltado,
nem fora mordido por um cachorro
ele recebia cartas bacanas de Gary
Snyder, e seu rosto era
amável, liso e
meigo.
sua esposa jamais o traíra,
nem tivera sua sorte.

ele disse, “vou ler apenas mais
3 poemas e então
desço daqui e passo a
palavra ao Bukowski”.

“oh, não, William”, disseram todas
as garotinhas em seus vestidos rosas
e azuis e brancos e laranjas e
lavandas, “oh, não, William,
leia um pouco mais, leia um pouco
mais”!

ele leu mais um poema e então disse,
“este será o último poema que
lerei”.

“oh, não, William”, disseram todas as
garotinhas em seus vestidos transparentes
vermelhos e verdes, “oh, não, William”, disseram
todas as garotinhas em seus jeans colados
com pequenos corações a eles bordados,
“oh, não, William”, disseram todas as garotinhas,
“leia mais poemas, leia mais poemas!”

mas ele manteve a palavra.
terminou o poema e desceu do púlpito e
desapareceu. quando me levantei para ler
as garotinhas se agitaram em
seus assentos e algumas delas assobiaram e
algumas fizeram comentários a meu respeito
que usarei em outra ocasião.

duas ou três semanas depois
recebi uma carta de William
dizendo que tinha gostado de fato da minha leitura.
um cavalheiro de verdade.
eu estava na cama de cuecas e com uma
ressaca de 3 dias. perdi o envelope
mas peguei a carta e fiz com ela
um aviãozinho como aqueles que
aprendi a fazer na época do
colégio. ele cruzou o quarto
antes de aterrissar entre um velho programa de corrida
e um par de cuecas carimbadas.

não nos correspondemos desde então.
1 100
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

O Pai

Procuro em meus papéis,
nos baús familiares
um perdido testamento.
Encontro cartas, provérbios em Esperanto,
pensamentos de Raumsol e a caligrafia de meu pai.
Homem de fé, rezava nos cemitérios.
Expulsou demônios em Uberlândia
e alta madrugada enfrentou o diabo
cara a cara em Carangola.
Nenhum dos filhos a tempo o entendeu.
Mas ele, esperantista,
esperava as cartas da Holanda,
as vacas gordas de José,
e o fim da Torre de Babel.
Meu pai, cidadão do mundo,
pobre professor de Esperanto
à beira do Paraibuna.
Lia, lia, lia. Havia sempre
um livro em sua mão.
E chegavam missivas
e selos fraternais
– mia caro samiedano –
Polônia, China,
Bélgica e Japão.
Maçom, grau 33,
letra caprichosa,
bordava atas da confraria,
falava-nos de bodes e caveiras,
liturgias impenetráveis
e um dia trouxe-nos a espada
que entre os maçons usava.
Aos domingos, à mesa
refastelava-se de Salmos:
lia os mais compridos
ante a fria macarronada,
mas sua flauta domingueira
apascentava meu desejo
de pecar lá no quintal
e arrebanhava as dívidas
despertas na segunda-feira.
Esteve em três revoluções.
Não sei se dava tiros
e medalhas nunca foi buscar.
Capitão de milícias
aposentado por desacato ao superior
discutia política sem muito empenho.
Votava com os pobres: PTB-PSD.
Tio Ernesto era udenista
e cobrava-lhe rigor.
Levou-me a ver Getúlio
num desfile militar.
No bolso, uma carta
expondo ao Presidente
penosa situação:
injustiças militares,
necessidade de abono
e pedia uma pasta de livros
pro meu irmão.
Isto posto, era capaz de esperar
semanas e meses
sem desconfiar, que ao chorar
ouvindo novelas
da Rádio Nacional
era ele próprio personagem,
porque se, como diz García Márquez,
ninguém escreve ao coronel,
o ditador jamais escreveria ao capitão.
Noivo contrariado,
fugiu com minha mãe
e com ela trocou cartas, que vi,
escritas com o próprio sangue.
Brigou com um carroceiro
que chicoteava uma besta
diante de nossa porta.
E quando a tarde crepusculava,
tomava a filha paralítica no colo
passeando seu calvário pelas ruas
do interior.
Certa vez, como os irmãos
pusessem em mim trinta apelidos
querendo me degradar
chamando-me de “guga”
“tora”, “manduca” e “júpiter”,
certa noite, notando-me a tristeza
levou-me pro quintal
entre couves e chuchus:
mostrou-me Júpiter, a enorme estrela
e outras constelações: peixes
touros, centauros, ursas maiores e menores
tudo a brilhar em mim
estrelas que com ele eu distinguia
e desde aquela noite
nunca mais pude encontrar.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não leio já; queria abrir um livro

Não leio já; queria abrir um livro
E ver, de chofre, ali, a ciência toda...
Queria ao menos poder crer que, lendo,
E em prolongadas horas lendo e lendo,
No fim alguma cousa me ficava
Do essencial do mundo, que eu subia
Até ao menos cada vez mais perto
Do mistério... Que ele, inda que inatingido,
Ao menos dele que eu [me] aproximava...
Não fosse tudo um (...)
Como uma criança que a fingir sobe
Uns degraus que pintou no chão...

Não leio. Horas intérminas, perdido
De tudo, salvo de uma dolorosa
Consciência vazia de mim próprio,
Como um frio numa noite intensa,
Em frente ao livro aberto vivo e morro...
Nada... E a impaciência fria e dolorosa
De ler p'ra não sonhar e ter perdido
O sonho! Assim como um (...) engenho
Que, abandonado, em vão trabalha ainda,
Sem nexo, sem propósito, eu môo
E remôo a ilusão do pensamento...
E hora a hora na minha estéril alma
Mais fundo o abismo entre meu ser e mim
Se abre, e nesse (...) abismo não há nada...

Ditoso o tempo em que eu sonhava, e às vezes
Eu parava de ler para seguir
Os cortejos em mim... Amor, orgulho,
— Crenças inda! — pintavam os meus sonhos...
E com muita insistência[?], eu era (...)
O amante de belezas (...)
E o rei de povos vagos e submissos;
E quer em braços que eu sonhava, ou entre
As filas (...) prostradas, eu vivia
Sublimes nadas, alegrias sem cor.
Mas
Hoje nenhuma imagem, nenhum vulto
Evoco em mim... Só um deserto aonde
Não a cor dum areal, nem um ar morto
Posso sonhar... Mas tendo só a ideia,
Tendo da cor o pensamento apenas,
Vazio, oco, sem calor nem frio,
Sem posição, nem direcção, nem (...)
Só o vazio lugar do pensamento...
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Bocage

Bocage

Ao Sr Tomé Barbosa de Figueiredo de Almeida Cardoso,

Ao Sr. Tomé Barbosa de Figueiredo de Almeida Cardoso,
oficial de Línguas na Secretaria dos Negócios Estrangeiros

Dos tórrido sertões, pejados de oiro,
Saiu um sabichão de escassa fama,
Que os livros preza, os cartapácios ama,
Que das línguas repartem o tesoiro.

Arranha o persiano, arranha o moiro,
Sabe que Deus em turco Allah se chama;
Que no grego alfabeto o G é gama,
Que taurus em latim quer dizer toiro.

Para papaguear saiu do mato:
Abocanha talentos, que não goza;
É mono, e prega unhadas como gato.

É nada em verso, quase nada em prosa:
Não conheces, leitor, neste retrato
O guapo charlatão Tomé Barbosa?

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Felipe Larson

Felipe Larson

SABEMOS

Sabemos que saberíamos saber,
Mas o sábio que soube saber,
Saberia falar sobre a sabedoria,
De quem soube saber,
Sabendo que o saber é infinito.
Mas quem sabe do que soube sem saber,
Saberá sobrar o saber de um sábio,
Sem saber que saberia o sabido.
Saberei, saberás, saberemos o saber
Sabendo que não é sabido o saber do individuo
Que soube saber sem saber o sabido

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Salomé Ureña de Henríquez

Salomé Ureña de Henríquez

Meu Pedro

Meu Pedro não é soldado; não ambiciona
de César nem de Alexandre os louros;
se a suas têmporas aguardam uma coroa,
a achará do estudo nos vergéis.

Sim, o vereis jogar! Tem seus jogos
algo de sério que apesar inclina.
Nunca a guerra lhe inspirou seus jogos:
a força do progresso o domina.

Filho do século, para o bem criado,
a febre da vida o sacode;
busca a luz, como o inseto alado,
e em seus fulgores a invadir-se açude.

Amante da Pátria, generoso e bom,
todo o velho lhe merece o respeito;
entre o ruído do mundo irá sereno,
que leva de virtude gérmen oculto.

Quando sacode sua infantil cabeça
o pensamento que lhe inspira brio,
estala em bênçãos minha ternura
e digo ao porvir: Te o confio!

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Mutimati

Mutimati

O Ferro

Como se faz o ferro perguntou agora esta criança pequena
Que é um pastor de cabritos e há de ser homem
E há de ser um homem melhor que sabe do ferro
Com coragem de ferro e um coração generoso.

Expliquei-lhe mal porque só sei o que vi
E ninguém me falou nunca mais completo.

Menino: Há uma pedra de ferro que vem da Terra
Há outra pedra carvão que vem da Terra
Faz um forno de Terra como uma cabeça redonda
E no lugar dos cabelos põe canudos de Terra
Com dentro pedra de ferro bem apertada
E enche aquela cabeça de boca pequena
Com pedras carvão da Terra, bem apertadas.

Casa toda esta Terra de sorrisos diferentes
Com o Fogo macho acendido na manhã baixa
Com o Padrinho Ar de Fole sempre a dizer piadas
E a Madrinha Água Pouca esperando
Para dizer a sua sentença importante.

O ferro é o que fica da boda dos quatro elementos
Por isso o ferreiro é um Homem sábio
Faz a enxada, faz a machada, faz faca.

Com a semente de ferro que semeou
Planta e colhe nesta especial Agricultura
Come um pão de ferro que faz o coração generoso
O Ferreiro, este camponês especial
Menino.

Quanto tempo vai ficar esta criança pequena
Sem uma resposta melhor mais completa?

2 013
Milena Azevedo

Milena Azevedo

Poesia Internetiana

São bits e bites,
chips e sites.
Agora homepages invadem
o campo da publicidade.

O mundo está plugado
através de um jogo de cabos
muito finos
e super estruturados.

Eles prendem a atenção,
hoje, também, o coração
da grande multidão
que navega nessa emoção.

Através de uma modesta tela,
fronteiras são abertas,
o conhecimento é ilimitado
e constantemente renovado.

806
Virgílio Fernandes Almeida

Virgílio Fernandes Almeida

Crônica de Um Dia Digital

Sete horas da manhã: uma xícara de café, forte, cheiroso e real. É hora de começar o dia. Por onde? Pelo mundo material que conhecemos e estamos acostumados ou por um mundo novo, digital, regido pelos bits dos computadores? Um bit é o menor elemento da informação. Comparando com a matéria, é como se fosse o átomo da informação. Por razões práticas, um bit é representado pelos dígitos 0 ou 1. Números, nomes, livros, jornais, retratos de família, filmes românticos, CDs de rock, fitas de samba, vídeos violentos, programas de computador podem todos ser reduzidos a simples sequências de 0s e 1s. Por exemplo, o número 6 seria representado pela sequência 110. De maneira semelhante, todas as outras coisas mencionadas seriam codificadas em intermináveis sequências de bits, que podem ser transmitidos pelas linhas telefônicas e satélites por todo o planeta em poucos segundos. É o mundo digital, com novos termos e novos hábitos.
Ligar o carro ou ``logar’’ no computador, isto é, dar seu nome e sua senha para entrar no sistema. Dirigir pela Avenida Afonso Pena, Antônio Carlos rumo ao campus da universidade ou, usando a nova linguagem, navegar pelas vias de informação da Internet. Sentar numa poltrona e ler os jornais no seu tradicional formato 45x57 cm em papel ou percorrer com os olhos a fria e pequena tela do computador em busca das notícias do dia. Conversar face-a-face com o colega de sala ou entabular uma diálogo eletrônico, através de mensagens pela Internet, com algum amigo digital, localizado a milhares de kilômetros daqui. Ir a uma loja, folhear livros, examinar presentes, enfrentar filas, conversar com os vendedores, comprar, pagar e levar ou conectar-se ao Internet Shoping Center e, solitariamente, vasculhar os catálogos de produtos, fechar a compra por cartão de crédito e aguardar alguns dias até a chegada da encomenda pelo correio. Fugir de um bando de pivetes que procura roubar uma bolsa ou se proteger dos piratas eletrônicos que navegam na Internet em busca de informações confidenciais de negócios ou de um simples número de cartão de crédito de algum desavisado. Participar de alguma associação comunitária de seu bairro ou envolver-se em uma comunidade eletrônica, onde os participantes digitais discutem através da Internet as políticas ambientais nos vários países do planeta. Assombrar-se com a variedade e riqueza das informações dos museus, bibliotecas, centros de pesquisa existentes nas infovias do espaço cibernético ou indignar-se com a pobreza absoluta de milhares de pessoas analfabetas que vagam pelas ruas e estradas do Brasil.
No mundo digital as noções de espaço e tempo tomam novas feições. Por exemplo, a Biblioteca Nacional de Medicina em Washington já não está tão longe assim e visitá-la na Internet requer apenas alguns segundos. Dia após dia, as tecnologias da informática e telecomunicação seguem silenciosamente alterando o estilo de vida de um número cada vez maior de pessoas. Basta ver como as crianças tratam de maneira tão natural palavras como computador, software, disquete, CD-ROM, e games. A Internet tornou-se capa de revistas, assunto de programas de televisão, notícia diária nos jornais e, no próximo carnaval, será tema de enredo de escola de samba. São os objetos e ícones desse novo mundo digital, que se constrói sobre o velho mundo material, repleto de divisões, contrastes e injustiças. Diante de tudo isso, vejo surgir uma versão moderna do dilema de Hamlet. Ser ou não ser digital, eis uma nova questão!

1 118
Eduardo Dominguez Trindade

Eduardo Dominguez Trindade

Versos Estudantis

Hoje farei uma prova
Que seria de geografia,
Mas também cai biologia
Na louca prova que farei;
Não cai a matéria nova,
Mas a guerra de Jerusalém.

De tão louco, o professor
Deixa a Amazônia à parte,
Só para falar de Marte
Ou do gene da calvície.
Oh, eu sinto um dissabor
Ouvindo esta maluquice!

P. Alegre, 1995.

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Sebastião Uchoa Leite

Sebastião Uchoa Leite

O observador privilegiado

O espólio intelectual de Alexandre Eulálio, que vem surgindo em publicações post-mortem, entre as quais o substancial Livro Involuntário, seleção de Carlos Augusto Calil e Maria Eugenia Boaventura, revela-se precioso. Os organizadores, pela inteligente classificação do material, surpreenderam a ordem secreta na aparente aleatoriedade dos múltiplos interesses eulalianos. As oito partes são precedidas pelo texto A Imaginação do Passado e complementadas por posfácio, notas e índices. Assim, o espírito meticuloso do autor parece homenageado: nos detalhes obsessivos, distingue-se o mestre de um método oculto.
A Imaginação do Passado defende uma organicidade subterrânea de escritos ocasionais, mas estes não se contrapõem ao que o autor chama de nobre gueto universitário. Ele defende as mediações e nega a oposição maniqueísta entre modos de operar diversos. Defende ainda que análise formal e interpretação histórica se defrontem numa instância dialógica, que anularia os feixes de intersecção de diacronia e sincronia. Contra as generalizações, Alexandre exige ainda referenciamentos objetivos e aparato filológico, chegando ao corolário: A abrangência da história intelectual como história das formas é antes de mais nada história das idéias. Nessa utopia, enxerga o perfil ideal da crítica.
Os interesses plurais de Alexandre podem ser rastreados através das várias partes da publicação. A primeira, Crônicas do Brasil, parte do começo dos começos, a carta de Pero Vaz de Caminha, cujo cine-olho, segundo o autor, o identifica como um Flaherty quinhentista. Nesse deslocamento metonímico, comparando Caminha ao documentarista cinematográfico, se espelha um dos aspectos do método eulaliano de aproximação crítica. Do mesmo modo, quando aborda uma das suas paixões, o livro Minha Vida de Menina, de Helena Morley, retira uma lição crítica de evocações descritivas da inglesinha. Naquele livro se surpreenderia um interesse sociológico como crítica ao ambiente da província, onde coexistiam dois mundos culturais divergentes (o britânico protestante-liberal e o ibero-católico, mal saído da escravidão) que se contemplam e se julgam no interior de um eu tornado harmonioso pelo equilíbrio mesmo das suas contradições.
É este método de se retirar lições que se manifesta ainda, na seção Desejo de História, nos vários retratos de Tiradentes, que se torna apenas a tragédia individual de um homem, que seria ainda mais imponente dentro de suas limitações, observação que poderia caber também ao perfil de Tomás Antonio Gonzaga, logo adiante. Observe-se ainda a extrema isenção quanto ao prisma ideológico quando se refere ao folhetim de Joaquim Felício dos Santos, As Páginas do Ano de 2000, uma das mais violentas sátiras escritas ao reinado de Pedro 2º. A capacidade de dissociar valores crítico-literários e valores históricos, sem entrar num juízo pessoal, seria mesmo um dos melhores atributos críticos de Alexandre Eulálio.
Esta isenção se emaranha ainda em maior complexidade quando trata da personalidade dúplice de Paulo Prado, que conciliava um apaixonado da pesquisa histórica e um entusiasta de movimentos artísticos de vanguarda. O Retrato do Brasil seria próspera sementeira de questões e problemas, que se revelaria como um valor em si mesmo.
Os textos de uma coluna em O Globo em 1965 estão em Matéria e Memória, título que evoca o filósofo Henri Bergson. É matéria filtrada pela memória, passando pelo filtro de Marcel Proust, para o qual mais se inclinaria o autor. As admirações envolvem do irônico estilista mexicano Júlio Torri e os seus aforismos satíricos, passando pelo louvor de Bocage, ou, antes, os vários Bocages que o autor conheceu, e chegando ao Artur Azevedo da revista teatral O Tribofe, óculo de alcance de um observador privilegiado. Destaque-se a nota sobre Thomas de Quincey e o seu Confessions of an English Opium Eater, que revela o apego do crítico às pesquisas de um imaginário em liberdade, em contraposição a convenções da época e preconceitos do próprio De Quincey.
No centro do livro, Talento Maior nos revela um Alexandre talvez inesperado para os que não o conheceram, voltado para questões interpretativas genéricas. Em Noble Brutus, o que importa é o dilema psicológico entre o homem privado e o público, o novo conceito de liberdade e o conceito grego de predestinação conciliados e, enfim, a possibilidade de tudo fazer, que seria a grande contribuição de Shakespeare ao teatro moderno. Esta possibilidade é o centro da questão em O Édipo de Gide. Mais além do Édipo prometéico gideano, dividido entre a predestinação e a afirmação humana contra o deus, mais do que a questão literária entre liberdade & predestinação, o crítico vê o conflito real entre submissão e autoridade, simbolizado na luta de Édipo contra Tirésias.
Das ambiguidades, retira o autor a lição de que a solução para um problema proposto é só aquela solução e mais nada. Não há receitas genéricas. Disso pode-se pular para o extremamente particular, que é o poético no breve ensaio Maio em São Cristóvão. O poeta é Clarice Lispector no conto Mistério em São Cristóvão. Descrevendo-o, Alexandre se torna ele mesmo um crítico-poeta, ao propor que do cotidiano prosaico se passa para a ante-sala do desconhecido, através de uma imprevista colocação de peças no tabuleiro de xadrez.
As formas e relações violentamente novas criariam o clima de alucinação do conto clariceano. Ou seja, a ficção como química verbal, alquimia do verbo rimbaudiana.
Machado, as Mais das Vezes, reúne textos dedicados a um dos seus ídolos, Machado de Assis. Alexandre escolhe, com Esaú e Jacó em Inglês, o viés da visão de fora, um viés universalista para um Machado que abandonara os aspectos fundamentalmente éticos dos romances anteriores (Quincas Borba, Dom Casmurro) em favor de um realismo simbólico, que tinha raiz (na) fria maravilha que é o Brás Cubas. Esse viés prossegue em Aspiral Ascendente, pela visão de Jean-Michel Massa da formação jovem de Machado, onde se vêem transmutações (...) pouco perceptíveis a olho nu.
Em contraste com a pesquisa crítica de La Jeunesse de Machado de Assis, estão os quatro volumes de Vida e Obra de Machado de Assis, de R. Magalhães Júnior, com o seu enorme luxo de minúcias, ou seja, a lupa faiscante da história pequena (com h minúsculo: petite histoire). Contudo, o que mais o interessa é a paixão crítica, ao expor a argúcia de um crítico de fora, o inglês John Gledson em Machado de Assis: Ficção e História, desvendando no mestre a intrincada teia de alusões e referências do discurso ficcional. O breve estudo final, A Estrutura Narrativa de Quincas Borba, vê em Machado uma muito mais radical e duradoura denúncia contra imposturas e mistificações do tempo.
Notas de uma Agenda será, para certa classe de leitores, uma leitura de mais particular fascínio. Vêem-se evocações sartreanas a propósito de Cruz e Souza e sua negritude; o encontro do decadentista mineiro Severiano de Resende com Miguel Angel Astúrias e sua prosa impregnada da forma simbolista, e, por tabela, o encontro de Astúrias com James Joyce (entrevisto/observado com curiosidade numa vitrine de antiquário); o encontro de Carlos Felipe (Saldanha), criador do personagem Capitão Fantasma e uma velhinha que abominava toda poesia (Je la déteste, vraiment je la déteste); as minúcias linguísticas da Lição de Coisas de Carlos Drummond de Andrade e o seu inventário do atingir o sussurro do ptyx, arco mallarmaico, alegoria arbitrária (...) de significado ocluso; o pedido para se acentuar a última sílaba de Caniboswáld, comentário do Oswald canibal de Benedito Nunes, para não confundir Oswáld (de Andrade) e o assassino indigitado do primeiro Kennedy (Lee Ôswald), mas sim evocar o tempestuoso herói da Corinne, de Madame de Stael, e outras relações faiscantes pelo arguto jogo de referências e pelo discretíssimo humor eulaliano. Finalmente, anote-se que em Um Sentido Mais Puro (de Mallarmé) Alexandre revela nã
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Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Uma Honra, Perigosa Privilégio

Conta Serge Lifar que, ao receber um troféu de ouro, na Sagração da Primavera, Nijinski, Vaslav Fomitch Nijinski, o bailarino que dançava para dar glória a Deus e que escrevia no espaço a imagem efêmera e eterna de seus gestos e o sortilégio de seu corpo, recebeu a incubência de falar em nome dos demais agraciados. Ele, que não sabia fazer outra coisa, a não ser dançar, embaraçou-se, tropeçou, escorregou e caiu no palco. É o que temo que me aconteça aqui. Pois, além da emoção e da honra de receber pelas mãos fidalgas de Yolanda Queiroz, a Sereia de Ouro do Sistema Verdes Mares, nesta Sagração da Primavera de 1996, querem os ritos da cerimônia que eu fale também pelos outros contemplados. É uma honra. Um perigoso privilégio.
Como poderei expressar a graça e o encantamento de nossa grande Sinhá D’Amora? Ela é até minha prima distante — mas vamos nos aproximando. Pois, também eu pertenço ao clã daquela Dona Federalina Correia Lima. Sinhá D’Amora, hoje na adolescência pristina, de seus noventa anos, está no meu conhecimento e no meu bem-querer desde 1935 ou 36. Desde então, acostumei-me a encontrá-la no salão azul de minha doce e inesquecível amiga Julinha Galeno, que mantinha um verdadeiro Consulado do Ceará em sua bela casa de Ipanema. Guardo, daqueles tempos, a memória de sua leve estampa de mulher elegante e seus olhos sábios de ver as coisas e as pessoas, sempre ao lado da figura cavalheirisca e cordial de seu marido, Amora Maciel. Lembro-me de uma de suas primeiras exposições, creio que no salão mais conspícuo do Rio, no Palace Hotel. Seus pincéis, que já sugeriam um trânsito refinado entre o impressionismo francês e o expressionistas alemães, levaram depois suas cores e suas formas aos melhores espaços da Europa e dos Estados Unidos. O que ela recebe hoje é a gratidão do Ceará pelos momentos de beleza que nos traz. A mão e os olhos de um pintor, transfigurados em formas e cores, são sempre, como no verso de Keats, "a thing of beauty, a joy forever". Uma coisa de alegria, uma beleza para sempre. Por isso ela é hoje aqui agraciada, como na velha cantiga da infância, ao lado de três cavaleiros que a saúdam, todos três chapéu na mão.
Um deles é o meu velho amigo, o Dr. José Bonifácio da Silva Câmara, cheio de títulos e serviços na vida pública deste País. Mas o título maior, o que o traz a esta celebração, é o amor simultâneo pelo Ceará e pelos livros. Sou um velho rato de bibliotecas. As vivas e as mortas. Recebi, não faz muito tempo, um pequeno tratado de Umberto Eco sobre o corpo e a alma das bibliotecas. Com ele, percorri alguma delas. Como visitei, com Jorge Luis Borges, em seus delírios, no apartamento da Calle Maypu, em Buenos Aires, a Biblioteca de Babel e seu labirinto de livros, alguns em línguas que não existem mais. Como visitei, com Umberto Eco, as legendárias bibliotecas poligonais, de Nínive e de Samos, a de Pisístrato, em Atenas, e a de Alexandria que, com a de Serapion, tinha 700 mil volumes no século I. Vimos a de Pérgamo e a de Augusto e as 28 bibliotecas de Roma, do tempo de Constantino. E visitei, com minha mulher, as impressionantes bibliotecas de pedra na China e na Cochinchina, em Hanói e Xian, onde os livros são insculpidos na beleza rupestre das lâminas de granito. Mas a biblioteca que mais me comoveu, na verdade, foi aquela de mais de 6 mil volumes, na casa de José Bonifácio, todos eles escritos e editados no e sobre o Ceará. Como sabemos todos, a palavra biblioteca vem do grego — biblos — que quer dizer — livro — e — theke — que quer dizer — armário — e, pois, significa "armário de livros". A de José Bonifácio deveria se chamar "cardioteca" — é um armário do coração. Ou "pneumoteca". É um armário do coração e do espírito de nossa pátria cearense, de nosso País do Ceará. Naqueles livros e naquela biblioteca, faiscada em livrarias novas, em sebos de livros e nos empenhos de amigos, está assegurada a sobrevivência de cada um de nossos escritores. E a sobrevivência de nossas raízes.
Outro agraciado é o Dr. Luiz Esteves Neto. Sua vocação o transformou numa presença humana, exemplar e fecunda, na vida da sociedade cearense. Talvez não tenha nunca pintado quadros, como Sinhá D’Amora, nem guardado livros como José Bonifácio, nem escrito elegias, como este vosso cantador. Mas sem homens como ele nenhum de nós estaria aqui. Participante efetivo das atividades sociais, seu nome é um emblema da vida econômica e da vida associativa. Industrial, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará, sua representatividade o levou aos órgãos de direção da Confederação Nacional da Indústria, para onde levou a fibra e o vigor dos capitães de empresa de nossa terra. Seu nome figura na nominata egrégia dos clubes sociais e dos grupos de construção da riqueza e do desenvolvimento. Luiz Esteves Neto é para nós, aquilo que nosso filósofo maior, Farias Brito, chamava "a base física do espírito". Homem de formação universitária, ele poderia ter escolhido qualquer outro tipo de ocupação, nas áreas da inteligência. Escolheu esta, para dar à sociedade que pertencemos, horizontes melhores à esperança do desenvolvimento.
Quanto a mim, pobre cantador das Ipueiras, do pé-da-serra da Ibiapaba, aqui estou com único cabedal maior que mereservou a vida: — a riqueza de ser cearense. No país do sul, nas opulentas babilônias de São Paulo, com seus milhões de descendentes de primeira geração de imigrantes, algumas pessoas invocam a nobreza de suas origens, como na exclamação famosa de Alcântara Machado: — "Paulista eu sou, há quatrocentos anos".
Em nossa terra, aonde quase não chegou a vaga de imigrações da segunda metade do século passado e das primeiras décadas dos novecentos, todos nós, quase todos nós, podemos proclamar, como eu mesmo o faço: — "Cearense eu sou há quatrocentos anos". O que em outras terras é privilégio de uns poucos, aqui é patrimônio de todos. A este patrimônio, devo as vigências mais profundas que me nutriram ao longo da vida.
Teria eu de seis para sete anos, quando minha mãe, pobre professora primária do interior, me fazia decorar páginas inteiras do romance lírico de José de Alencar, cantando os verdes mares bravios e, ao mesmo tempo, um poema grandiloqüente, ufanista e saborosamente ingênuo, de nosso poeta popular, Juvenal Galeno, que ainda hoje sei de cor: "sou cearense e me ufano"...
Estas foram as primeiras plantas enraizadas no chão de minha alma. Depois, foram os cantadores de feira, especialmente o cantador Anselmo Vieira, das Ipueiras, catalogado por Leonardo Mota. Com eles aprendi o ritmo cantante das redondilhas maiores, dos decassílabos de gabinete e dos hendecassílabos sonoros, cantando galope na beira do mar. E aqui lembro — e rendo-lhe uma homenagem — um agraciado da Sereia de Ouro, desaparecido este ano, meu saudoso amigo Eleazar de Carvalho, o egrégio mestre-de-capela, que teve entre seus discípulos até mesmo o mais famoso maestro do mundo em nossos dias, Zumbin Mehta. Eleazar de Carvalho também me dizia um dia que toda a sua disciplina musical se edificara no metro escandido dos cantores de viola e de rabeca nas feiras do Ceará. Afinal, Homero também foi um cantador de lira nas feiras da Jônia.
Nos labirintos do saber e da cultura erudita, varando o oco do mundo, por Europas, Ásias, Áfricas e Américas, peregrino de todas as vicissitudes, talvez eu possa dizer como Keats: — acho que meu nome constará depois da minha morte entre os poetas de meu tempo". Se isto ocorrrer, à uma coisa eu o devo — à fidelidade obstinada à minha terra, aos seus valores primitivos.
Ainda recentemente o Presidente da República se queixava do caráter provinciano de nosso povo. Aprendi com meu saudoso amigo, o presidente Eduardo Frei, do Chile, uma linção fundamental: a distinção entre provincial e provinciano. Ser provinciano é uma coisa negativa. O provinciano é o homem sem perspectiva, que não conhece e não imagina nada além da pobre cerca de seu quintal. O resto do mundo não existe
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Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

As Tias

Tenho mais tias
que as titias,
irmãs da mãe e do pai.

Vejam só:
uma tia me ensina
a dançar,
outra me ensina
a rezar,
uma senta comigo
para historinhas
contar,
outra me olha
a brincar,
uma...
outra...

Mas, a tia
de quem mais gosto...
— Posso falar?
É a que mostra
as sementinhas das letras
e me faz ler e estudar.

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.

O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.

óóóó–óóóóóóóóó–óóóóóóóóóóóóóóó

(O vento lá fora).
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Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Luisinho

Na manhã de luz
e "deveres para casa",
preso no apartamento,
Luisinho, tonto, não sabe
controlar o pensamento.

Faz subir às paredes
árvores, passarinhos
e põe no chão a nadar
lindos peixinhos.

Olha a altura do teto
pensa e pergunta enfim:
— Será que cabem na sala
as palmeiras do jardim?

Do campo da imaginação
vem uma bola pulando
entre cadernos e livros.
E o menino erra as contas,
desalinha a escrita
e feia torna a letra bonita.

Depois sobe no patinete,
rodando sobre o carpete,
logo tirando um fininho...

Porque a mãe aparece,
zanga e ralha com Luisinho
que quer estudar e brincar
ao mesmo tempo!... Bobinho,
ele ainda não aprendeu
que cada coisa tem hora
e tem também seu lugar.

888
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Minha Rainha

Minha mestra é igual mamãe:
amiga, me dá a mão,
abre meu caminho
e põe sentimentos bons
no meu coração.

Minha mestra é inteligente,
tem o dom da bondade
e sabe orientar, ensinar,
fazer a gente
descobrir a verdade
de muitas coisas.

Transmite idéias novas,
que pergunta nas provas,
e... imaginem! também
sabe, como ninguém,
segurar meu pensamento
no exato momento
em que ele quer vadiar...

Minha mestra é minha tia
de mentirinha,
mas, na escola, em casa,
em qualquer lugar,
ela é igual mamãe:
— Minha Rainha!

Por isso, hoje, seu dia,
— Mestra minha, tão querida —
ponho-lhe uma coroa de flores,
para enaltecer sua vida
e aumentar minha. alegria.

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Pe. Osvaldo Chaves

Pe. Osvaldo Chaves

Culto de Ricardo Reis

A um infiel

Horácio é um rio...
Batiza-te, infiel, nas santas águas,
Receberás o espírito!
Mergulha de uma vez,
Terás em plenitude
A graça e a saúde
Para entender e amar Ricardo Reis.

927
José Miguel Silva

José Miguel Silva

Faculdade

Não me deixa a sensação
de estar aqui para expiar
a culpa de ter fome,
cinco nós por desatar
em cada linha de cabelo.


O truque é não erguer
As sobrancelhas,
colocar no cabeçalho
um nome falso,
sorrir a 100%.


As perguntas que levantas
são perdizes abatidas
por calibres ideais.
Afias outro lápis, aprendes
a calar o que te dói.


Mais um ano e sairás
daqui formado em miudezas
de futuro gradeado. E o mundo
vai abrir-se, já o sabes,
num esgoto cor de prata.
1 019
Gonzalo Rojas

Gonzalo Rojas

A lepra

Ainda lembro a minha aula de Retórica.
Cerimônia do Juízo Final. Um grande silêncio
até que o Professor irrompia: “Sentem-se”.
“Trago-lhes carne fresca”. E esvaziava um pacote
de algo mole e viscoso
envolto em jornais velhos como um peixe cru
sobre a mesa em que celebrava sua missa.

“Capítulo Primeiro”. “O estilo do homem
corresponde a um defeito em sua língua”. E mostrava
uma língua comida por moscas de ataúde
para ilustrar sua tese com a luz do exemplo.
“Olhem: a língua inglesa não é a língua espanhola”.
“Aqui tenho a língua de Cervantes. Sua forma
de espada não coincide com o eco do paladar”. O Professor falava
de condições, traços, influências,
metáforas, estrofes. E cada afirmação
era provada pela Crítica.

Ora, os pontos de vista da Crítica
– pobres vasilhas vazias –
eram toda essa carne palpitante
saqueada dos mais diferentes cemitérios:
línguas, dentes, narizes, pulmões, ventres, mãos,
que um dia foram órgãos dos grandes autores,
hoje, tumores malignos servidos em bandejas
por professores-asnos a discípulos-asnos
dentro de uma sala-esgoto.

Garotos e garotas extasiados
copiavam em “papéis” todas as proporções
de uma obra-prima: as leis da lírica,
da épica e do dramática, causas e conseqüências,
a decadência, o desenvolver
das literaturas.

Ante tal entusiasmo,
o cheiro dos restos dos grandes autores
mesclava-se ao cheiro desses belos defuntos
sentados na cadeira do seu próprio excremento,
e a corrente de ar era uma imundície só,
enquanto a admiração chegava ao descomedido
quando esse Professor: “Se aprenderem – dizia-nos –
os requisitos da criação,
serão fortes rivais de Goethe. E superiores.”
E encerrava sua aula.
Guardava todos os despojos nojentos
em seu pacote e, com a cabeça erguida,
coroado com louros pelo bom êxito,
virava-nos as costas como um Deus do Olimpo
que regressa à sua concha.

Ainda recordo minha aula de Retórica
em que a vida e a beleza
eram um prato de carne podre.
Tive que cortar a língua na raiz
para livrar-me da lepra.


(tradução de Fabiano Calixto, publicada originalmente no primeiro número impresso da Modo de Usar & Co., novembro de 2007.)


:


LA LEPRA: Todavía recuerdo mi clase de Retórica. / Ceremonia del Juicio Final. Un gran silencio / hasta que el Profesor irrumpía: “Sentaos”. / “Os traigo carne fresca”. Y vaciaba un paquete / de algo blando y viscoso / envuelto en diarios viejos como un pescado crudo, / sobre la mesa en que él oficiaba su misa. // “Capítulo Primero”. / “El estilo del hombre / corresponde a un defecto de su lengua”. Y mostraba / una lengua comida por moscas de ataúd / para ilustrar su tesis con la luz del ejemplo. // “Mirad: la lengua inglesa no es la lengua española” / “Aquí tengo la lengua de Cervantes. Su forma / de espada no coincide con el hueco del paladar”. El Profesor hablaba / de condiciones, rasgos, influencias, / metáforas, estrofas. Y cada afirmación / era probada por la Crítica // Ahora bien, los puntos de vistas de la Crítica / – pobres cuencas vacías – / eran toda esa carne palpitante / saqueada a los distintos cementerios: / lenguas, dientes, narices, pulmones, vientres, manos / que un día fueron órganos de los grandes autores, / hoy tumores malignos servidos en bandejas / por profesores-asnos a discípulos-asnos / adentro de una sala-alcantarilla. // Donceles y doncellas extasiados / copiaban en “papeles” todas las proporciones / de una obra maestra: las leyes de la lírica / la épica u dramática, causas y consecuencias, / la decadencia, el desarrollo / de las literaturas. // Ante tal entusiasmo, / el olor de los restos de los grandes autores / se mezclaba al olor de esos bellos difuntos / sentados en la silla de su propio excremento, / y una sola corriente de inmundicia era el aire, / mientras la admiración llegaba a al desenfreno / cuando ese Profesor: “Si aprendéis – nos decía – / los requisitos de la creación, / seréis fieros rivales de Goethe, y superiores.” // Y cerraba su clase. / Guardaba todos los despojos nauseabundos / en su paquete, y con la frente en alto, / coronado en laurel por su buen éxito / nos volvía la espalda como un Dios del Olimpo / que regresa a su concha. // Todavía recuerdo mi clase de Retórica / en que la vida y la belleza / eran un plato de carne podrida. // Yo tuve que cortarme la lengua en la raíz / para librarme de la lepra.


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Francesca Angiolillo

Francesca Angiolillo

Meditação Universitária

As pessoas que se apaixonam
pela técnica
são felizes.

Eu tive uma colega, ela
vinha de longe
ela não tinha mãe
a lhe enfiar
sanduíches de atum
com muita maionese
na mochila.

Enquanto eu me debatia,
a cara quase
mergulhada na gaveta
da mesa do estúdio,
com interpretações
de quadros renascentistas,
de estátuas gregas,
com a semiótica
dos cartazes alemães
ou tentava dotar
de algum sentido oculto
uma curva no papel,
ela caminhava ereta
e sorridente pela rampa
abraçada à sua régua T.
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Geir Campos

Geir Campos

A Árvore

Ó árvore, quantos séculos levaste
a aprender a lição que hoje me dizes:
o equilíbrio, das flores às raízes,
sugerindo harmonia onde há contraste?

Como consegues evitar que uma haste
e outra se batam, pondo cicatrizes
inúteis sobre os membros infelizes?
Quando as folhas e os frutos comungaste?

Quantos séculos, árvore, de estudos
e experiências — que o vigor consomem
entre vigílias e cismares mudos —

demoraste aprendendo o teu exemplo,
no sossego da selva armada em templo?
Dize: e não há esperança para o Homem?


Publicado no livro Rosa dos rumos (1950).

In: RAMOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
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Alcides Villaça

Alcides Villaça

A Língua Num Canto da Boca

Onde aprendi a ler foi Toddy
— com seus DD, com seu Y.
Quem me ensinou a ler foi ela,
seu papel de pão, seu lápis,
seu reino de mantimentos.

Muito mais tarde soube de multinacionais,
de Édipo, de poesia
que mancha o pardo simples do papel
com beabás.


In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988 (Claro enigma). Poema integrante da série Sala de Espera
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Juó Bananére

Juó Bananére

O Studenti du Bó Retiro

POISIA PATRIOTICA

(Premiata c'oa medaglia de pratina na insposiçó da
Xéca-Slovaca i c'oa medaglia di brigliantina na
sposiçó internazionale da Varzea du Carmo).


Antigamanti a scuola era rizogna e franga;
Du veglio professore a brutta barba branga,
Apparecia um cavagnac da relia,
Che pugna rispetto inzima a saparia.
O maestro éra um veglio bunitigno,
I a scuóla era nu Bellezigno,
Di tarde inveiz, quano cabava a scuola,
Marcáno o passo i abaténo a sola,
Tutto pissoalo iva saino in ligna,
Uguali come un bando di pombigna.
Ma assí chi a genti pigliava o portó,
Incominciava a insgugliambaçó;
Tuttos pissoalo intó adisparava,
I iva mexeno c'oa genti chi passava.
* * *

Oggi inveiz stá tutto mudado!
O maestro é um uómo indisgraziado,
Che o pissoalo stá molto chétamente
E illo giá quére dá na gente.
Inveiz u ndí intrô na scuóla un rapazigno
Co typio uguali d'un intalianigno,
O perfilo inergico i o visagio bello.

Come a virgia du pittore Rafaello.
Stava vistido di lutto acarregado.
Du páio chi murreu inforgado.
O maestro xamô elli un dia,
I priguntô: — Vuce sabe giograffia?
— Come nó!? Se molto bê si signore.
— Intó mi diga — aparlô o professore, —
Quale é o maiore distritto di Zan Baolo?
— O maiore distritto di Zan Baolo,
O maise bello e ch'io maise dimiro
É o Bó Ritiro.
O maestro furioso di indignaçó,
Batte con nergia u pé nu chó,
I gritta tutto virmeligno:
— O migliore distritto é o Billezigno.
Ma u aguia du piqueno inviez,
C'oa brutta carma disse otraveis:
— O distritto che io maise dimiro,
É o Bó Retiro!
O maestro, virmeglio di indignacó
Alivantô da mesa come un furacó,
I pigano um mappa du Braiz
Disse: Mostre o Bó Retiro aqui se fô capaiz!
Aóra o piqueno tambê si alevantô
I baténo a mon inzima o goraçó,
Disse: — O BO' RITIRO STÁ AQUI!

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In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 1966

NOTA: Publicado em O Pirralho, São Paulo, n.123, 27 dez. 191
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Luís Canelo de Noronha

Luís Canelo de Noronha

Soneto

Esta, que habitação foi algum dia
das trevas superiores da ignorância
sendo Assento silvestre, rude Estância
Lugar inculto, bruta Monarquia;

hoje, que já brilhante Estrela a guia,
que já um Astro lhe dá luz de abundância,
que um Planeta lhe dá toda a prestância,
que um Sol a faz luzir, brilha a Bahia.

Bem assim, porque um sumo Apolo nela
consagra por divino e alto intento
um Coro celestial, Morada bela:

ficando, por lugar da Terra isento,
para o Sol, o Planeta, o Astro, a Estrela,
Monarquia, Lugar, Estância, Assento.

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