Poemas neste tema

Dor e Desespero

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Cristo en la cruz

Cristo en la cruz. Los pies tocan la tierra.
Los tres maderos son de igual altura.
Cristo no está en el medio. Es el tercero.
La negra barba pende sobre el pecho.
El rostro no es el rostro de las láminas.
Es áspero y judío. No lo veo
y seguiré buscándolo hasta el día
último de mis pasos por la tierra.
El hombre quebrantado sufre y calla.
La corona de espinas lo lastima.
No lo alcanza la befa de la plebe
que ha visto su agonía tantas veces.
La suya o la de otro. Da lo mismo.
Cristo en la cruz. Desordenadamente
piensa en el reino que tal vez lo espera,
piensa en una mujer que no fue suya.
No le está dado ver la teología,
la indescifrable Trinidad, los gnósticos,
las catedrales, la navaja de Occam,
la púrpura, la mitra, la liturgia,
la conversión de Guthrum por la espada,
la Inquisición, la sangre de los mártires,
las atroces Cruzadas, Juana de Arco,
el Vaticano que bendice ejércitos.
Sabe que no es un dios y que es un hombre
que muere con el día. No le importa.
Le importa el duro hierro de los clavos.
No es un romano. No es un griego. Gime.
Nos ha dejado espléndidas metáforas
y una doctrina del perdón que puede
anular el pasado. (Esa sentencia
la escribió un irlandés en una cárcel.)
El alma busca el fin, apresurada.
Ha oscurecido un poco. Ya se ha muerto.
Anda una mosca por la carne quieta.
¿De qué puede servirme que aquel hombre
haya sufrido, si yo sufro ahora?



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 585 e 586 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
654
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ii. o Destino

O destino eram
Os homens escuros
Que assim lhe disseram:
— Tu esculpirás Seu rosto
de morte e de agonia.
1 892
Almandrade

Almandrade

VI

Agora devo
dormir
e deixar
o apetite
dos morcegos
devorar
as lágrimas noturnas
indiferentes
aos meus afetos

964
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Uma Noite Caída

você saiu, ela disse,
e então deu um chute no carro deste cara
e então você se jogou em cima de um arbusto
esmagou todo o
arbusto,
não sei nada do porquê de sua
agonia
mas não acha que já era hora de ir a um analista?
tenho um analista que é o bicho, você ia
gostar dele.
me responda, ela disse,
eu me preocupo com a polícia quando você
age assim, sou muito paranoica com essa coisa de
polícia.
me responda, ela disse, por que você
age dessa maneira?
escute, ela disse, você quer que eu vá
embora?
depois que ela se foi, peguei uma cadeira e
joguei na janela. havia vidro por
toda a parte e as esquadrias também se
partiram.
quantas feras mortas flutuam e caminham de Gales a
Los Angeles?
1 034
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Amor

amor, ele disse, gás
me beije todo
beije meus lábios
beije meus cabelos
meus dedos
meus olhos meu cérebro
faça-me esquecer
amor, ele disse, gás
ele tinha um quarto no terceiro andar,
rejeitado por uma dúzia de mulheres
35 editores
e por meia dúzia de agências de serviços,
agora eu não estou dizendo que ele valesse alguma
coisa
ele abriu todas as bocas
sem acendê-las
e foi para a cama
algumas horas depois um cara a caminho
do quarto 309
acendeu um charuto no
corredor
e um sofá voou pela janela
uma parede chacoalhou feito areia molhada
uma chama púrpura bailou doze metros no ar
o cara na cama
não se importou ou deu bola pra isso
mas eu precisava dizer
que ele esteve muito bem
naquele dia
1 218
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Caminho

assassinado nos becos da terra
congelado à morte contra mastros de bandeiras
penhorado por mulheres
educado na escuridão para a escuridão
vomitando em privadas entupidas
em quartos de aluguel tomados por ratos e baratas
não surpreende que raramente cantemos
dia ou tarde ou noite
as guerras inúteis
os anos inúteis
os amores inúteis
e eles nos perguntam,
por que você bebe tanto?
bem, suponho que os dias sejam feitos
para serem desperdiçados
os anos e os amores são feitos
para serem desperdiçados.
não podemos chorar, e ajuda sorrir –
é como deixar brotar
sonhos, ideais
venenos
não nos peça para cantar,
as risadas cantam por nós,
você percebe, era uma piada de mau gosto
Cristo deveria ter rido na cruz
isto teria petrificado seus assassinos
agora há mais assassinos do que nunca
e eu escrevo poemas para eles.
1 148
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Mais Potente do Que de Carne Moída Com Batata –

o movimento do coração humano:
estrangulado no Missouri;
recoberto por cera quente em Boston;
assado feito batata em Norfolk;
perdido nas Montanhas Allegheny;
encontrado mais uma vez numa cama de mogno com dossel
em Nova Orleans;
ensopado e moído com feijões-rajados
em El Paso;
suspenso numa cruz como um cão embriagado
em Denver;
cortado ao meio e tostado em
Kalamazoo;
tomado de câncer num barco pesqueiro
para além da costa do México;
enganado e encurralado em Daytona Beach;
chutado por uma babá
usando um vestido verde e branco de algodão,
que atende mesas numa rodoviária
da Carolina do Norte;
besuntado em azeite e mijo de cabra
por uma puta enxadrista no East Village;
pintado de vermelho, branco e azul
por um ato do Congresso;
torpedeado por uma loira aguada
com o maior rabo em Kansas;
estripado e barbarizado por uma mulher
com a alma de um touro
em East Lansing;
petrificado por uma garota de dedos minúsculos,
faltava a ela um dente,
um da frente na arcada superior, e bombeando gás
em Mesa;
o movimento do coração humano segue
e segue
e segue e segue
por algum tempo.
644
Hilda Hilst

Hilda Hilst

Cantares do Sem Nome e de Partida

Ó tirânico Amor, ó caso vário
Que obrigas um querer que sempre seja
De si contínuo e áspero adversário...
Luiz Vaz de Camões

Cubram-lhe
o rosto, meus olhos ofuscam-se;
ela morreu jovem.
John Webster
1 731
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Oração Pelos Amantes de Mãos Quebradas

em nanica e altaneira fúria, em ambulâncias de ódio,
pisoteando as formigas, pisoteando as insones formigas
para todo o sempre... reze pelos meus cavalos, não reze por mim;
reze pelos para-lamas do meu carro, reze pelo carbono
nos filamentos do meu cérebro... exatamente, e ouça,
não preciso de mais amor, de mais meias molhadas
como as pernas da morte rastejando em meu rosto num banheiro
da meia-noite... tire de mim as visões do sangue e da sabedoria e do
desespero, não me deixe ver o cravo secando
e perdendo seu róseo contra o meu tempo, caseado e sem raiz
como as tumbas da memória;
bem, fui escorraçado de
lugares melhores do que este; tive o xerez derrubado
da minha mão, vi os dentes do piano se moverem
cheios de explosões de podridão; vi os ratos na lareira
saltando como foguetes pelas chamas;
reze pela Alemanha, reze pela França, reze pela Rússia,
não reze por mim... no entanto... no entanto posso ver outra vez
o cruzamento das adoráveis pernas, de mais xerez e mais
decepção, mais bombas – mares revoltos de bombas,
minhas pinturas voando como pássaros entre os brincos
e as garrafas, entres os lábios rubros, entre as cartas de amor
e o último piano, vou gritar que eu tinha razão: nós
nunca deveríamos ter acontecido.
1 188
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Serventia das idéias fixas

Para Vinícius de Morais

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

A

Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.

Mas o que não está
nele está como bala:
tem o ferro do chumbo,
mesma fibra compacta.

Isso que não está
nele é como um relógio
pulsando em sua gaiola,
sem fadiga, sem ócios.

Isso que não está
nele está como a ciosa
presença de uma faca,
de qualquer faca nova.

Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel
(melhor se de Pasmado):

porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
como a imagem da faca
que só tivesse lâmina,

nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega
que a imagem de uma faca
reduzido à sua boca;

que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente.

B

Das mais surpreendentes
é a vida de tal faca:
faca, ou qualquer metáfora,
pode ser cultivada.

E mais surpreendente
ainda é a sua cultura:
medra não do que come
porém do que jejua.

Podes abandoná-la
essa faca intestina:
jamais a encontrarás
com a boca vazia.

Do nada ela destila
a azia e o vinagre
e mais estratagemas
privativos dos sabres.

E como faca que é,
fervorosa e energética,
sem ajuda dispara
sua máquina perversa:

a lâmina despida
que cresce ao se gastar,
que menos dorme
quanto menos sono há,
cujo muito cortar
lhe aumenta mais o corte
e se vive a se parir
em outras, como fonte.
(Que a vida dessa fac
se mede pelo avesso:
seja relógio ou bala,
ou seja faca mesmo.)

C

Cuidado com o objeto,
com o objeto cuidado,
mesmo sendo uma bala
desse chumbo ferrado,

porque seus dentes já
a bala os traz rombudos
e com facilidade
se em botam mais no músculo.

Mais cuidado porém
quando for um relógio
com o seu coração
aceso e espasmódico.

É preciso cuidado
por que não se acompasse
o pulso do relógio
com o pulso do sangue,

e seu cobre tão nítido
não confunda a passada
com o sangue que bate
já sem morder mais nada.

Então se for faca,
maior seja o cuidado:
a bainha do corpo
pode absorver o aço.

Também seu corte às vezes
tende a tornar-se rouco
e há casos em que ferros
degeneram em couro.

O importante é que a faca
o seu ardor não perca
e tampouco a corrompa
o cabo de madeira.

D

Pois essa faca às vezes
por si mesma se apaga.
É a isso que se chama
maré baixa da faca.

Talvez que não se apague
e somente adormeça.
Se a imagem é relógio,
a sua abelha cessa.

Mas quer durma ou se apague:
ao calar tl motor,
a alma inteira se torna
de um alcalino teor

bem semelhante à neutra
substância, quase feltro,
que é a das almas que não
têm facas-esqueleto.

E a espada dessa lâmina,
sua chama antes acesa,
e o relógio nervoso
e a tal bala indigesta,

tudo segue o processo
de lâmina que cega:
faz-se faca, relógio
ou bala de madeira,

bala de couro ou pano,
ou relógio de breu,
faz-se faca sem vértebras,
faca de argila ou mel.

(Porém quando a maré
já nem se espera mais,
eis que a faca ressurge
com todos seus cristais.)

E

Forçoso é conservar
a faca bem oculta
pois na umidade pouco
seu relâmpago dura

(na umidade que criam
salivas de conversas,
tanto mais pegajosas
quanto mais confidências).

Forçoso é esse cuidado
mesmo se não é faca
a brasa que te habita
e sim relógio ou bala.

Não suportam também
todas as atmosferas:
sua carne selvagem
quer câmaras severas.

Mas se deves sacá-los
para melhor sofrê-los,
que seja algum páramo
ou agreste de ar aberto.

Mas nunca seja ao ar
que pássaros habitem.
Deve ser a um ar duro,
sem sombra e sem vertigem.

E nunca seja à noite,
que estas têm as mãos férteis,
Aos ácidos do sol
seja, ao sol do Nordeste,

à febre desse sol
que faz de arame as ervas,
que faz de esponja o vento
e faz de sede a terra.

F

Quer seja aquela bala
ou outra qualquer imagem,
seja esmo um relógio
a ferida que guarde,

ou ainda uma faca
que só tivesse lâmina,
de todas as imagens
a mais voraz e gráfica,

ninguém do próprio corpo
poderá retirá-la,
não importa se é bala
nem se é relógio ou faca,

nem importa qual seja
a raça dessa lâmina:
faca mansa de mesa,
feroz pernambucana.

E se não a retira
quem sofre sua rapina,
menos pode arrancá-la
nenhuma mão vizinha.

Não pode contra ela
a inteira medicina
de facas numerais
e aritméticas pinças.

Nem ainda a polícia
com seus cirurgiões
e até nem mesmo o tempo
como os seus algodões.

E nem a mão de quem
sem o saber plantou
bala, relógio ou faca,
imagens de furor.

G

Essa bala que um homem
leva às vezes na carne
faz menos rarefeito
todo aquele que a guarde

O que um relógio implica
por indócil e inseto,
encerrado no corpo
faz este mais desperto.

E se é faca a metáfora
do que leva no músculo,
facas dentro de um homem
dão-lhe maior impulso.

O fio de uma faca
mordendo o corpo humano,
de outro corpo ou punhal
tal corpo vai armando,

pois lhe mantendo vivas
todas as molas da alma
dá-lhes ímpeto de lâmina
e cio de arma branca,

além de ter o corpo
que a guarda crispado,
insolúvel no sono
e em tudo quanto é vago,

como naquela história
por alguém referida
de um homem que se fez

memória tão ativa
que pôde conservar
treze anos na palma
o peso de uma mão,
feminina, apertada.

H

Quando aquele que os sofre
trabalha com palavras,
são úteis o relógio,
a bala e, mais, a faca.

Os homens que em geral
lidam nessa oficina
têm no almoxarifado
só palavras extintas:

umas que se asfixiam
por debaixo do pó
outras despercebidas
em meio a grandes nós;

palavras que perderam
no uso todo o metal
e a areia que detém
a atenção que lê mal.

Pois somente essa fraca
dará a tal operário
olhos mais frescos para
o seu vocabulário

e somente essa faca
e o exemplo de seu dente
lhe ensinará a obter
de um material doente
o que em todas as facas é
3 243
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Ala Beneficente

e me jogaram num porão por 3 dias
e era um lugar muito escuro, e parecia que
todo mundo era louco lá embaixo e isso,
pelo menos, me mantinha feliz. mas volta e meia
um grande filho da mãe que se autodenominava
“Booboo Cullers, o grandão das Avenidas!”
vinha se meter, quero dizer ele saía de sua cama
e ele era enorme e doido e eu estava fraco, muito,
e ele batia nos outros pacientes com seus punhos,
mas eu sempre dava um jeito de rechaçá-lo
eu pegava meu jarro de água
levantava pra trás com a mão esquerda, praguejava fazendo mira.
Boo desistia.

depois de despacharem 6 mortos
um por causas naturais
5 pelas mãos do fabuloso Booboo Cullers
o grandão das Avenidas,
amarraram o enorme Booboo
com grande dificuldade,
e eu fiquei olhando enquanto os guardas batiam nele
no rosto e na barriga e na genitália até que ele
parou de gritar e cedeu
e eu sorri e me dei conta do que significava
a palavra Humanismo
apenas o máximo de conforto para o máximo número de humanos,
o que no meu entender era
muito bacana.
1 026
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Desculpa Para Uma Possível Imortalidade

se não conseguirmos fazer literatura com nossa
agonia

o que é que faremos com
ela?

mendigar nas ruas?

eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
1 210
Helena Ortiz

Helena Ortiz

Esperando a Hora

não ouço mais teus gritos
não corro mais atrás de ti
não te abraço
não gozo teu riso
não me espanto

trago em mim esse grito
que não rompe
esse tédio de sala de espera
quieta
onde minha ficha é a última
e talvez não haja tempo para hoje

1 060
Hemetério Cabrinha

Hemetério Cabrinha

Geminidade

Numa gôta de orvalho escassa, cintilante,
Há um mundo a rolar latente, palpitante
Em sua pequenez etérea, cristalina,
Que à luz do sol parece estrêla, diamantina;
Há um beijo de Deus para exaltar a vida...
E essa gôta do céu, na pétala caída,
Vivificando a planta e colorindo a flor,
Tem para a Natureza uma expansão de amor.

Assim também o pranto -- a lágrima tremente --
Como a gôta de orvalho, a derramar-se quente
De uns olhos cujo encanto a sobra da tristeza
Apagou, para dar emocional beleza
Que só a dor profunda esboça, plasma, imprime;
Traz em seu cintilar o que há de mais sublime
Nos refolhos sutís da alma desolada;
E num rosto ou num colo ebúrneo derramada,
Como o orvalho do céu, esplende em seu fulgor,
Um ósculo de Deus na exaltação da dor.

1 462
Helena Ortiz

Helena Ortiz

Soco

essa lágrima que dói
esse sufoco
essa boca seca

sempre esse eco
no espaço chumbo
esse galho
que escurece
e cai

980
Otaviano Hudson

Otaviano Hudson

O Operário

(Fragmentos)

Sobre uma velha enxerga repousa o operário
Doente, sem recursos, exposto ao abandono,
Do leito à cabeceira os filhos recostando-se,
Extorcem-se de fome.

"Papai um pão — papai — exclamam esses lábios
Que a taça do infortúnio estréiam no libar,
"Papai, mamãe é má, o pão mamãe esconde-o,
Pede-lhe o pão — oh! pai!"

E a mulher infeliz, vertendo amaras lágrimas
Como louca vagueia opressa pela dor;
E aos céus conforto roga, ao desespero alívio
Implorando-o debalde!

Quantas vezes, oh! Deus abriu ela o armário
Contemplando-o vazio! e quantas a lareira
Sem nada mais achar, exclama genuflexa:
— Protege-nos oh Deus!

Enquanto atordoado o triste proletário
Revolve-se a gemer e sem poder dormir,
Os míseros filhinhos famintos e esquálidos
Lastimam-se chorando.

A noite desenrola a negra enorme túnica
Sobre áureos palácios e tristes pardieiros,
Em uns quê de folguedos, em outros quê de angústias
Travam-se à sua sombra!

Ai, quanto dissabor esmaga o operário
Quer no leito dolente ou ainda na oficina,
Quanto escárnio, meu Deus, às faces arremessa
Estúpida vaidade!

Tragando humilhações, exposto às intempéries,
À fome, frio, chuvas e outras mil agruras,
Eis do mais inditoso, infeliz operário
Horribile existência!

Novos Sísifos a rolar inglórios
O seixo enorme de um trabalho insano,
Quando tombam no leito — uma trindade abraça —
Miséria, escárnio e dores!

As mãos cheias de calos, as mãos que nobilita
Na lima, no martelo, na serra e na bigorna,
Colhem palhetas de ouro e como as conchas níveas
Pródigas emergem pérolas!

Letras, artes, comércio, indústrias e ciências
Não prescindem do braço invicto do trabalho,
E quando a pátria ultrajam, lá corre o operário
Defende-a te morrer!

Honrando do progresso o prefulgente lábaro,
Na vanguarda marchai dos grandes combatentes
Até que um dia reconquisteis impávidos,
Libérrimos direitos.

O sol que doura os montes espraia os raios ígneos,
Beijando as vossas frontes ungidas de suor;
Quando amortece a flama, no horizonte atufa-se,
Saúda-te operários

519
João Baveca

João Baveca

Ai Amiga, Hoje Falou Comigo

- Ai amiga, hoje falou comigo
o voss'amigo e vi-o tam coitado
por vós que nunca vi tant'home nado,
ca morrerá, se lhi vós nom valedes.
- Amiga, quand'eu vir que é guisado,
valer-lh'-ei, mais nom vos maravilhedes
       d'andar por mi coitado meu amigo.

- Per bõa fé, amiga, bem vos digo
que, u estava mig'em vós falando,
esmoreceu, e bem assi andando
morrerá, se vos del dóo nom filha.
- Si, filhará, ai amiga, já quando,
mais nom tenhades vós por maravilha
       d'andar por mi coitado meu amigo.

- Amiga, tal coita d'amor há sigo
que já nunca dorme noite nem dia
coidand'em vós, e, par Santa Maria,
sem vosso bem non'o guarirá nada.
- Guarrei-o eu, amiga, todavia,
mais nom vos façades maravilhada
       d'andar por mi coitado meu amigo.
929
João Baveca

João Baveca

Amiga, Dizem Que Meu Amig'há

Amiga, dizem que meu amig'há
por mi tal coita que nom há poder
per nulha guisa d'um dia viver
se per mi nom; e vedes quant'i há:
       se por mi morre, fic'end'eu mui mal,
       e se lh'ar faç'algum bem, outro tal.

E tam coitad'é, com'aprendi eu,
que o nom pode guarir nulha rem
de morte já, se lh'eu nom faço bem;
mais vedes ora com'estou end'eu:
       se por mi morre, fic'end'eu mui mal,
       e se lh'ar faç'algum bem, outro tal.

Dizem que é por mi coitad'assi
que quantas cousas eno mundo som
nom lhi podem dar vida, se eu nom;
e este preito cae-m'ora assi:
       se por mi morre, fic'end'eu mui mal,
       e se lh'ar faç'algum bem, outro tal.

E, amiga, por Deus, conselho tal
mi dade vós que nom fique end'eu mal.
525
João Baveca

João Baveca

Senhor, Por Vós Hei As Coitas Que Hei

Senhor, por vós hei as coitas que hei,
e per Amor que mi vos fez amar;
ca el sem vós nom mi as podera dar,
nem vós sem el. E por esto nom sei
       se me devo de vós queixar, senhor,
       mais destas coitas que hei, se d'Amor.

Ca muitos vej'a quem ouço dizer
que d'Amor vivem coitados, nom d'al,
e a mim del e de vós me vem mal.
E por aquesto nom poss'entender
       se me devo de vós queixar, senhor,
       mais d'estas coitas que hei, se d'Amor.

Pero Amor nunca me coitas deu,
nem mi fez mal, senom des que vos vi,
nem vós de rem, se ant'el nom foi i.
E por estas razões nom sei eu
       se me devo de vós queixar, senhor,
       mais d'estas coitas que hei, se d'Amor.

E por Deus, fazede-me sabedor
se m'hei de vós [a] queixar, se d'Amor.
692
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Queixei-M'eu Destes Olhos Meus

Queixei-m'eu destes olhos meus;
mais ora, se Deus mi perdom!,
quero-lhis bem de coraçom,
e des oimais quer'amar Deus;
       ca mi mostrou quem hoj'eu vi:
       ai! que parecer hoj'eu vi!

Sempre m'eu d'Amor queixarei,
ca sempre mi dele mal vem;
mais os meus olhos quer'eu bem,
e já sempre Deus amarei;
       ca mi mostrou quem hoj'eu vi:
       ai! que parecer hoj'eu vi!

E mui gram queixum'hei d'Amor,
ca sempre mi coita sol dar;
mais os meus olhos quer'amar,
e quer'amar Nostro Senhor;
       ca mi mostrou quem hoj'eu vi:
       ai! que parecer hoj'eu vi!

E se cedo nom vir quem vi,
cedo morrerei por quem vi.
703
Myriam Fraga

Myriam Fraga

Inquisição

Costuraram sua boca
Com alfinetes

E ele dizia que NÃO
E perguntavam.

E cortaram seus dedos
E o lançaram
Bem no fundo do poço

E ele dizia que não, que não, que não

E seus cabelos cresciam como chamas.

1 365
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

U M'eu Parti D'u M'eu Parti

U m'eu parti d'u m'eu parti,
log'eu parti aquestes meus
olhos de veer e, par Deus,
quanto bem havia perdi,
ca meu bem tod'era 'm veer;
e mais vos ar quero dizer:
pero vejo, nunca ar vi.

Ca nom vej'eu, pero vej'eu:
quanto vej'eu nom mi val rem,
ca perdi o lume por en,
porque nom vej'a quem me deu
esta coita que hoj'eu hei,
que jamais nunca veerei,
se nom vir o parecer seu.

Ca já ceguei, quando ceguei;
de pram ceguei eu log'entom,
e já Deus nunca me perdom,
se bem vejo, nem se bem hei;
pero, se me Deus ajudar
e me cedo quiser tornar
u eu bem vi, bem veerei.
663
Isabel Machado

Isabel Machado

Constantemente

Será constante
esta dor navegante
assolada no peito
que impede a entrega a um beijo
qualquer
que sufoca a loucura mais louca
de uma mulher?!

Será constante
o impedimento inquietante
de qualquer entrega mais ardente
ou provocante?!

Serás constantemente
constante?!

813
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Estes Meus Olhos Nunca Perderám

Estes meus olhos nunca perderám,
senhor, gram coita, mentr'eu vivo for;
e direi-vos, fremosa mia senhor,
destes meus olhos a coita que ham:
       choram e cegam, quand'alguém nom veem,
       e ora cegam por alguém que veem.

Guisado têm de nunca perder
meus olhos coita e meu coraçom,
e estas coitas, senhor, mĩas som:
mais los meus olhos, por alguém veer,
       choram e cegam, quand'alguém nom veem,
       e ora cegam por alguém que veem.

E nunca já poderei haver bem,
pois que Amor já nom quer nem quer Deus;
mais os cativos destes olhos meus
morrerám sempre por veer alguém:
       choram e cegam, quand'alguém nom veem,
       e ora cegam por alguém que veem.
2 068