Poemas neste tema
Dor e Desespero
Renata Trocoli
Sem Titulo VII
Meu coração se despedaça...
Desta vez a dor é ainda mais aguda,
pois você me deu a esperança de uma nova vida...
Teu amor foi novo e
a coisa mais doce que eu podia sentir.
Seus lábios e suas mãos
me tocavam com carinho e ternura
que só você tinha...
só você tinha o poder de me alegrar e fazer palpitar
meu tão sensível e triste coração...
Com você longe de mim
me sinto mais uma vez perdida e solitária...
totalmente confusa e sem rumo.
Sem motivação para seguir meu caminho sozinha...
Sinto como se tivessem arrancado se aviso
meu bem mais precioso e amado...
Como se me tivessem roubado você de mim meu amor,
como se no caminho não existisse mais luz nem sentido...
Desta vez a dor é ainda mais aguda,
pois você me deu a esperança de uma nova vida...
Teu amor foi novo e
a coisa mais doce que eu podia sentir.
Seus lábios e suas mãos
me tocavam com carinho e ternura
que só você tinha...
só você tinha o poder de me alegrar e fazer palpitar
meu tão sensível e triste coração...
Com você longe de mim
me sinto mais uma vez perdida e solitária...
totalmente confusa e sem rumo.
Sem motivação para seguir meu caminho sozinha...
Sinto como se tivessem arrancado se aviso
meu bem mais precioso e amado...
Como se me tivessem roubado você de mim meu amor,
como se no caminho não existisse mais luz nem sentido...
797
Sophia de Mello Breyner Andresen
Viii. Canção de Matar
Do dia nada sei
O teu amor em mim
Está como o gume
De uma faca nua
Ele me atravessa
E atravessa os dias
Ele me divide
Tudo o que em mim vive
Traz dentro uma faca
O teu amor em mim
Que por dentro me corta
Com uma faca limpa
Me libertarei
Do teu sangue que põe
Na minha alma nódoas
O teu amor em mim
De tudo me separa
No gume de uma faca
O meu viver se corta
Do dia nada sei
E a própria noite azul
Me fecha a sua porta
Do dia nada sei
Com uma faca limpa
Me libertarei.
O teu amor em mim
Está como o gume
De uma faca nua
Ele me atravessa
E atravessa os dias
Ele me divide
Tudo o que em mim vive
Traz dentro uma faca
O teu amor em mim
Que por dentro me corta
Com uma faca limpa
Me libertarei
Do teu sangue que põe
Na minha alma nódoas
O teu amor em mim
De tudo me separa
No gume de uma faca
O meu viver se corta
Do dia nada sei
E a própria noite azul
Me fecha a sua porta
Do dia nada sei
Com uma faca limpa
Me libertarei.
2 572
Mariana Angélica de Andrade
Só Por Ti
Se a luz dos teus olhares me reanima,
Dando-me gozos que jamais senti;
Se és a minha esperança mais querida,
Hei-de perder-te? Não! Se o amor é vida,
Quero viver por ti!
Mas se a vida tem dores cruciantes,
Temer não sei! Para sofrer nasci…
Abraço a minha cruz, busco o tormento,
E embora me domine o desalento
Quero sofrer por ti!
Não estranho os espinhos da desdita,
Porque sempre em espinhos me feri…
Se hei-de trilhar ainda mais abrolhos,
Se mais prantos virão turvar meus olhos,
Quero chorar por ti!
Só pelo teu afecto esqueço os entes
Que mais amei na terra, e que perdi!
É destino! Quem foge à sua sorte?…
Eu a bendigo; e, se o amor é morte,
Quero morrer por ti!
Dando-me gozos que jamais senti;
Se és a minha esperança mais querida,
Hei-de perder-te? Não! Se o amor é vida,
Quero viver por ti!
Mas se a vida tem dores cruciantes,
Temer não sei! Para sofrer nasci…
Abraço a minha cruz, busco o tormento,
E embora me domine o desalento
Quero sofrer por ti!
Não estranho os espinhos da desdita,
Porque sempre em espinhos me feri…
Se hei-de trilhar ainda mais abrolhos,
Se mais prantos virão turvar meus olhos,
Quero chorar por ti!
Só pelo teu afecto esqueço os entes
Que mais amei na terra, e que perdi!
É destino! Quem foge à sua sorte?…
Eu a bendigo; e, se o amor é morte,
Quero morrer por ti!
1 182
Hilda Hilst
Cantares do Sem Nome e de Partida
Ó tirânico Amor, ó caso vário
Que obrigas um querer que sempre seja
De si contínuo e áspero adversário...
Luiz Vaz de Camões
Cubram-lhe
o rosto, meus olhos ofuscam-se;
ela morreu jovem.
John Webster
Que obrigas um querer que sempre seja
De si contínuo e áspero adversário...
Luiz Vaz de Camões
Cubram-lhe
o rosto, meus olhos ofuscam-se;
ela morreu jovem.
John Webster
1 731
João Cabral de Melo Neto
Serventia das idéias fixas
Para Vinícius de Morais
Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;
assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;
qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo
igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,
relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;
assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;
qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto
de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.
A
Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.
Mas o que não está
nele está como bala:
tem o ferro do chumbo,
mesma fibra compacta.
Isso que não está
nele é como um relógio
pulsando em sua gaiola,
sem fadiga, sem ócios.
Isso que não está
nele está como a ciosa
presença de uma faca,
de qualquer faca nova.
Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel
(melhor se de Pasmado):
porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
como a imagem da faca
que só tivesse lâmina,
nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega
que a imagem de uma faca
reduzido à sua boca;
que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente.
B
Das mais surpreendentes
é a vida de tal faca:
faca, ou qualquer metáfora,
pode ser cultivada.
E mais surpreendente
ainda é a sua cultura:
medra não do que come
porém do que jejua.
Podes abandoná-la
essa faca intestina:
jamais a encontrarás
com a boca vazia.
Do nada ela destila
a azia e o vinagre
e mais estratagemas
privativos dos sabres.
E como faca que é,
fervorosa e energética,
sem ajuda dispara
sua máquina perversa:
a lâmina despida
que cresce ao se gastar,
que menos dorme
quanto menos sono há,
cujo muito cortar
lhe aumenta mais o corte
e se vive a se parir
em outras, como fonte.
(Que a vida dessa fac
se mede pelo avesso:
seja relógio ou bala,
ou seja faca mesmo.)
C
Cuidado com o objeto,
com o objeto cuidado,
mesmo sendo uma bala
desse chumbo ferrado,
porque seus dentes já
a bala os traz rombudos
e com facilidade
se em botam mais no músculo.
Mais cuidado porém
quando for um relógio
com o seu coração
aceso e espasmódico.
É preciso cuidado
por que não se acompasse
o pulso do relógio
com o pulso do sangue,
e seu cobre tão nítido
não confunda a passada
com o sangue que bate
já sem morder mais nada.
Então se for faca,
maior seja o cuidado:
a bainha do corpo
pode absorver o aço.
Também seu corte às vezes
tende a tornar-se rouco
e há casos em que ferros
degeneram em couro.
O importante é que a faca
o seu ardor não perca
e tampouco a corrompa
o cabo de madeira.
D
Pois essa faca às vezes
por si mesma se apaga.
É a isso que se chama
maré baixa da faca.
Talvez que não se apague
e somente adormeça.
Se a imagem é relógio,
a sua abelha cessa.
Mas quer durma ou se apague:
ao calar tl motor,
a alma inteira se torna
de um alcalino teor
bem semelhante à neutra
substância, quase feltro,
que é a das almas que não
têm facas-esqueleto.
E a espada dessa lâmina,
sua chama antes acesa,
e o relógio nervoso
e a tal bala indigesta,
tudo segue o processo
de lâmina que cega:
faz-se faca, relógio
ou bala de madeira,
bala de couro ou pano,
ou relógio de breu,
faz-se faca sem vértebras,
faca de argila ou mel.
(Porém quando a maré
já nem se espera mais,
eis que a faca ressurge
com todos seus cristais.)
E
Forçoso é conservar
a faca bem oculta
pois na umidade pouco
seu relâmpago dura
(na umidade que criam
salivas de conversas,
tanto mais pegajosas
quanto mais confidências).
Forçoso é esse cuidado
mesmo se não é faca
a brasa que te habita
e sim relógio ou bala.
Não suportam também
todas as atmosferas:
sua carne selvagem
quer câmaras severas.
Mas se deves sacá-los
para melhor sofrê-los,
que seja algum páramo
ou agreste de ar aberto.
Mas nunca seja ao ar
que pássaros habitem.
Deve ser a um ar duro,
sem sombra e sem vertigem.
E nunca seja à noite,
que estas têm as mãos férteis,
Aos ácidos do sol
seja, ao sol do Nordeste,
à febre desse sol
que faz de arame as ervas,
que faz de esponja o vento
e faz de sede a terra.
F
Quer seja aquela bala
ou outra qualquer imagem,
seja esmo um relógio
a ferida que guarde,
ou ainda uma faca
que só tivesse lâmina,
de todas as imagens
a mais voraz e gráfica,
ninguém do próprio corpo
poderá retirá-la,
não importa se é bala
nem se é relógio ou faca,
nem importa qual seja
a raça dessa lâmina:
faca mansa de mesa,
feroz pernambucana.
E se não a retira
quem sofre sua rapina,
menos pode arrancá-la
nenhuma mão vizinha.
Não pode contra ela
a inteira medicina
de facas numerais
e aritméticas pinças.
Nem ainda a polícia
com seus cirurgiões
e até nem mesmo o tempo
como os seus algodões.
E nem a mão de quem
sem o saber plantou
bala, relógio ou faca,
imagens de furor.
G
Essa bala que um homem
leva às vezes na carne
faz menos rarefeito
todo aquele que a guarde
O que um relógio implica
por indócil e inseto,
encerrado no corpo
faz este mais desperto.
E se é faca a metáfora
do que leva no músculo,
facas dentro de um homem
dão-lhe maior impulso.
O fio de uma faca
mordendo o corpo humano,
de outro corpo ou punhal
tal corpo vai armando,
pois lhe mantendo vivas
todas as molas da alma
dá-lhes ímpeto de lâmina
e cio de arma branca,
além de ter o corpo
que a guarda crispado,
insolúvel no sono
e em tudo quanto é vago,
como naquela história
por alguém referida
de um homem que se fez
memória tão ativa
que pôde conservar
treze anos na palma
o peso de uma mão,
feminina, apertada.
H
Quando aquele que os sofre
trabalha com palavras,
são úteis o relógio,
a bala e, mais, a faca.
Os homens que em geral
lidam nessa oficina
têm no almoxarifado
só palavras extintas:
umas que se asfixiam
por debaixo do pó
outras despercebidas
em meio a grandes nós;
palavras que perderam
no uso todo o metal
e a areia que detém
a atenção que lê mal.
Pois somente essa fraca
dará a tal operário
olhos mais frescos para
o seu vocabulário
e somente essa faca
e o exemplo de seu dente
lhe ensinará a obter
de um material doente
o que em todas as facas é
Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;
assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;
qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo
igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,
relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;
assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;
qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto
de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.
A
Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.
Mas o que não está
nele está como bala:
tem o ferro do chumbo,
mesma fibra compacta.
Isso que não está
nele é como um relógio
pulsando em sua gaiola,
sem fadiga, sem ócios.
Isso que não está
nele está como a ciosa
presença de uma faca,
de qualquer faca nova.
Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel
(melhor se de Pasmado):
porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
como a imagem da faca
que só tivesse lâmina,
nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega
que a imagem de uma faca
reduzido à sua boca;
que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente.
B
Das mais surpreendentes
é a vida de tal faca:
faca, ou qualquer metáfora,
pode ser cultivada.
E mais surpreendente
ainda é a sua cultura:
medra não do que come
porém do que jejua.
Podes abandoná-la
essa faca intestina:
jamais a encontrarás
com a boca vazia.
Do nada ela destila
a azia e o vinagre
e mais estratagemas
privativos dos sabres.
E como faca que é,
fervorosa e energética,
sem ajuda dispara
sua máquina perversa:
a lâmina despida
que cresce ao se gastar,
que menos dorme
quanto menos sono há,
cujo muito cortar
lhe aumenta mais o corte
e se vive a se parir
em outras, como fonte.
(Que a vida dessa fac
se mede pelo avesso:
seja relógio ou bala,
ou seja faca mesmo.)
C
Cuidado com o objeto,
com o objeto cuidado,
mesmo sendo uma bala
desse chumbo ferrado,
porque seus dentes já
a bala os traz rombudos
e com facilidade
se em botam mais no músculo.
Mais cuidado porém
quando for um relógio
com o seu coração
aceso e espasmódico.
É preciso cuidado
por que não se acompasse
o pulso do relógio
com o pulso do sangue,
e seu cobre tão nítido
não confunda a passada
com o sangue que bate
já sem morder mais nada.
Então se for faca,
maior seja o cuidado:
a bainha do corpo
pode absorver o aço.
Também seu corte às vezes
tende a tornar-se rouco
e há casos em que ferros
degeneram em couro.
O importante é que a faca
o seu ardor não perca
e tampouco a corrompa
o cabo de madeira.
D
Pois essa faca às vezes
por si mesma se apaga.
É a isso que se chama
maré baixa da faca.
Talvez que não se apague
e somente adormeça.
Se a imagem é relógio,
a sua abelha cessa.
Mas quer durma ou se apague:
ao calar tl motor,
a alma inteira se torna
de um alcalino teor
bem semelhante à neutra
substância, quase feltro,
que é a das almas que não
têm facas-esqueleto.
E a espada dessa lâmina,
sua chama antes acesa,
e o relógio nervoso
e a tal bala indigesta,
tudo segue o processo
de lâmina que cega:
faz-se faca, relógio
ou bala de madeira,
bala de couro ou pano,
ou relógio de breu,
faz-se faca sem vértebras,
faca de argila ou mel.
(Porém quando a maré
já nem se espera mais,
eis que a faca ressurge
com todos seus cristais.)
E
Forçoso é conservar
a faca bem oculta
pois na umidade pouco
seu relâmpago dura
(na umidade que criam
salivas de conversas,
tanto mais pegajosas
quanto mais confidências).
Forçoso é esse cuidado
mesmo se não é faca
a brasa que te habita
e sim relógio ou bala.
Não suportam também
todas as atmosferas:
sua carne selvagem
quer câmaras severas.
Mas se deves sacá-los
para melhor sofrê-los,
que seja algum páramo
ou agreste de ar aberto.
Mas nunca seja ao ar
que pássaros habitem.
Deve ser a um ar duro,
sem sombra e sem vertigem.
E nunca seja à noite,
que estas têm as mãos férteis,
Aos ácidos do sol
seja, ao sol do Nordeste,
à febre desse sol
que faz de arame as ervas,
que faz de esponja o vento
e faz de sede a terra.
F
Quer seja aquela bala
ou outra qualquer imagem,
seja esmo um relógio
a ferida que guarde,
ou ainda uma faca
que só tivesse lâmina,
de todas as imagens
a mais voraz e gráfica,
ninguém do próprio corpo
poderá retirá-la,
não importa se é bala
nem se é relógio ou faca,
nem importa qual seja
a raça dessa lâmina:
faca mansa de mesa,
feroz pernambucana.
E se não a retira
quem sofre sua rapina,
menos pode arrancá-la
nenhuma mão vizinha.
Não pode contra ela
a inteira medicina
de facas numerais
e aritméticas pinças.
Nem ainda a polícia
com seus cirurgiões
e até nem mesmo o tempo
como os seus algodões.
E nem a mão de quem
sem o saber plantou
bala, relógio ou faca,
imagens de furor.
G
Essa bala que um homem
leva às vezes na carne
faz menos rarefeito
todo aquele que a guarde
O que um relógio implica
por indócil e inseto,
encerrado no corpo
faz este mais desperto.
E se é faca a metáfora
do que leva no músculo,
facas dentro de um homem
dão-lhe maior impulso.
O fio de uma faca
mordendo o corpo humano,
de outro corpo ou punhal
tal corpo vai armando,
pois lhe mantendo vivas
todas as molas da alma
dá-lhes ímpeto de lâmina
e cio de arma branca,
além de ter o corpo
que a guarda crispado,
insolúvel no sono
e em tudo quanto é vago,
como naquela história
por alguém referida
de um homem que se fez
memória tão ativa
que pôde conservar
treze anos na palma
o peso de uma mão,
feminina, apertada.
H
Quando aquele que os sofre
trabalha com palavras,
são úteis o relógio,
a bala e, mais, a faca.
Os homens que em geral
lidam nessa oficina
têm no almoxarifado
só palavras extintas:
umas que se asfixiam
por debaixo do pó
outras despercebidas
em meio a grandes nós;
palavras que perderam
no uso todo o metal
e a areia que detém
a atenção que lê mal.
Pois somente essa fraca
dará a tal operário
olhos mais frescos para
o seu vocabulário
e somente essa faca
e o exemplo de seu dente
lhe ensinará a obter
de um material doente
o que em todas as facas é
3 242
Ricardo Madeira
Em Pântanos Esquecidos
Vejo fétidos seres disformes
Movendo-se em pântanos esquecidos,
Vultos nas brumas do mistério,
Sonhos para sempre perdidos.
Aqui vêm afogar a sua luz
Estrelas que do céu se desprenderam,
Tentando agora esquecer
Uma vida que nunca viveram.
Fétidos seres disformes,
Urrando ao vento sinfonias de tristeza,
Malévolas melodias de tão rara beleza,
Notas obscenas numa estranha cadência,
Majésticas vibrações de dor e violência.
Estralhaçando corações como uma seta,
Esta sua obra magna nunca se completa,
Há sempre novas notas de agonia da dor,
A implacável dor com o nome de amor...
Sou a luz que tu roubaste,
O sol que não voltará a brilhar,
Num destino sem saída,
Sem ninguém a quem rezar.
Renuncio ao meu coração,
Aquele que finges não ver,
Prefiro a mesma escuridão
Onde as estrelas vão morrer.
Atravesso fronteiras desconhecidas,
Caindo sem nunca poder parar,
Não sei para onde vou,
Estou ansioso por lá chegar.
"The moon is red and bleeeding,
The sun is burned and black,
The book of life is silent,
No turning back..."
-Iron Maiden
Movendo-se em pântanos esquecidos,
Vultos nas brumas do mistério,
Sonhos para sempre perdidos.
Aqui vêm afogar a sua luz
Estrelas que do céu se desprenderam,
Tentando agora esquecer
Uma vida que nunca viveram.
Fétidos seres disformes,
Urrando ao vento sinfonias de tristeza,
Malévolas melodias de tão rara beleza,
Notas obscenas numa estranha cadência,
Majésticas vibrações de dor e violência.
Estralhaçando corações como uma seta,
Esta sua obra magna nunca se completa,
Há sempre novas notas de agonia da dor,
A implacável dor com o nome de amor...
Sou a luz que tu roubaste,
O sol que não voltará a brilhar,
Num destino sem saída,
Sem ninguém a quem rezar.
Renuncio ao meu coração,
Aquele que finges não ver,
Prefiro a mesma escuridão
Onde as estrelas vão morrer.
Atravesso fronteiras desconhecidas,
Caindo sem nunca poder parar,
Não sei para onde vou,
Estou ansioso por lá chegar.
"The moon is red and bleeeding,
The sun is burned and black,
The book of life is silent,
No turning back..."
-Iron Maiden
826
Ricardo Madeira
As Vozes da Noite
O Sol não nasce para os que amam,
A Lua, negra, não os pode consolar,
Uma a uma, apagam-se as estrelas,
Até não ficar nada para os iluminar.
Enterrados, numa sepultura sem nome,
Para sempre aprisionados no seu caixão,
Sentindo na língua o sabor dos vermes,
Os sonhos agora pregos no seu coração.
Espectros, vagueiam ainda sem destino,
Para sempre movidos pela perpétua dor,
Tentando libertar-se do que já perderam,
Sabendo que não há vida depois do amor.
"Morte..."
Desejo morto, a causa do seu sinistro pranto,
Direito negado aos seres do mais puro branco.
"Morte..."
Acariciando o silêncio, por um breve momento,
Um suspiro arrancado à pálida noite pelo vento.
A Lua, negra, não os pode consolar,
Uma a uma, apagam-se as estrelas,
Até não ficar nada para os iluminar.
Enterrados, numa sepultura sem nome,
Para sempre aprisionados no seu caixão,
Sentindo na língua o sabor dos vermes,
Os sonhos agora pregos no seu coração.
Espectros, vagueiam ainda sem destino,
Para sempre movidos pela perpétua dor,
Tentando libertar-se do que já perderam,
Sabendo que não há vida depois do amor.
"Morte..."
Desejo morto, a causa do seu sinistro pranto,
Direito negado aos seres do mais puro branco.
"Morte..."
Acariciando o silêncio, por um breve momento,
Um suspiro arrancado à pálida noite pelo vento.
922
Mauricio Segall
Descalço e nu
Descalço
e nu
na escuridão de cada madrugada,
quando meus olhos em água
nem conseguem enxergar a caminhada,
Do quarto à sala
da sala ao quarto
Tropeço minha maratona,
treinando não sei por que
nem para que medalha
só pensando chegar à alvorada.
e nu
na escuridão de cada madrugada,
quando meus olhos em água
nem conseguem enxergar a caminhada,
Do quarto à sala
da sala ao quarto
Tropeço minha maratona,
treinando não sei por que
nem para que medalha
só pensando chegar à alvorada.
960
Sophia de Mello Breyner Andresen
Estranha Noite Velada
Estranha noite velada,
Sem estrelas e sem lua,
Em cuja bruma recua
Fantasma de si mesma cada imagem.
Jaz em ruínas a paisagem,
A dissolução habita cada linha.
Enorme, lenta e vaga
A noite ferozmente apaga
Tudo quanto eu era e quanto eu tinha.
E mais silenciosa do que um lago,
Sobre a agonia desse mundo vago,
A morte dança
E em seu redor tudo recua
Sem força e sem esperança.
Tudo o que era certo se dissolve;
O mar e a praia tudo se resolve
Na mesma solidão eterna e nua.
Sem estrelas e sem lua,
Em cuja bruma recua
Fantasma de si mesma cada imagem.
Jaz em ruínas a paisagem,
A dissolução habita cada linha.
Enorme, lenta e vaga
A noite ferozmente apaga
Tudo quanto eu era e quanto eu tinha.
E mais silenciosa do que um lago,
Sobre a agonia desse mundo vago,
A morte dança
E em seu redor tudo recua
Sem força e sem esperança.
Tudo o que era certo se dissolve;
O mar e a praia tudo se resolve
Na mesma solidão eterna e nua.
2 535
Raquel Naveira
Elegância Suprema
Caminho por um tapete violeta
Estendido sobre nuvens.
Como é suntuosa tua morada!
Gotículas de chuva
Cristalizam-se em diamantes
E raios de sol
Pendem das colunas
Como correntes de ouro!
Meu rei, meu Senhor!
Quanto fausto!
Quanto brilho
Na tua túnica,
Na tua coroa,
No escabelo
A teus pés!
Por que ocultaste até o último instante que eras rei?
Por que não trouxeste teu séquito de anjos?
Tuas hordas,
Teus leões,
Tuas trombetas?
Por que te abandonaste a ti mesmo?
Indefeso,
Preso ao madeiro
Como fruto apodrecido?
Meu rei, meu Senhor!
Que suprema elegância!
O manto,
O cetro,
O olhar que me lanças
E que gera e mim a ânsia de combate,
A fé segura,
O equilíbrio.
Como eu poderia adivinhar
Que um homem era Deus?
Estendido sobre nuvens.
Como é suntuosa tua morada!
Gotículas de chuva
Cristalizam-se em diamantes
E raios de sol
Pendem das colunas
Como correntes de ouro!
Meu rei, meu Senhor!
Quanto fausto!
Quanto brilho
Na tua túnica,
Na tua coroa,
No escabelo
A teus pés!
Por que ocultaste até o último instante que eras rei?
Por que não trouxeste teu séquito de anjos?
Tuas hordas,
Teus leões,
Tuas trombetas?
Por que te abandonaste a ti mesmo?
Indefeso,
Preso ao madeiro
Como fruto apodrecido?
Meu rei, meu Senhor!
Que suprema elegância!
O manto,
O cetro,
O olhar que me lanças
E que gera e mim a ânsia de combate,
A fé segura,
O equilíbrio.
Como eu poderia adivinhar
Que um homem era Deus?
1 261
Ricardo Madeira
O Metropolitano
Num rosto
Nasceu e faleceu
Um sorriso
Que riu e ruiu.
Um Sol
Caído e ferido,
Astro-rei
Queimado, gelado.
Mas é assim que acaba tudo,
Sem saber aquilo que poderias ter alcançado,
O teu olhar tornou-se mudo,
Desconhecido um paraíso que jaz inexplorado.
Olhos sem brilho,
De luz despidos,
Nem caminho nem trilho,
Hotéis escuros...
Impuros...
Horror em tudo o que vês...
Olhos e caras,
Foges e páras,
Sombras e luzes,
Pregos e cruzes...
O som do martelo,
Tão suave, tão belo,
Apenas mais uma crucificação,
Apenas outra só razão
Para esquecer...
Para adormecer...
O túnel, o clarão,
Pensamentos, sentimentos a brotar,
O chiar e o trovão,
Tão poucos momentos, tanto para dar...
Em sangue um sol... não se tornará a erguer, infeliz...
Pedaços de algo outrora eterno são cadáver nos carris.
Nasceu e faleceu
Um sorriso
Que riu e ruiu.
Um Sol
Caído e ferido,
Astro-rei
Queimado, gelado.
Mas é assim que acaba tudo,
Sem saber aquilo que poderias ter alcançado,
O teu olhar tornou-se mudo,
Desconhecido um paraíso que jaz inexplorado.
Olhos sem brilho,
De luz despidos,
Nem caminho nem trilho,
Hotéis escuros...
Impuros...
Horror em tudo o que vês...
Olhos e caras,
Foges e páras,
Sombras e luzes,
Pregos e cruzes...
O som do martelo,
Tão suave, tão belo,
Apenas mais uma crucificação,
Apenas outra só razão
Para esquecer...
Para adormecer...
O túnel, o clarão,
Pensamentos, sentimentos a brotar,
O chiar e o trovão,
Tão poucos momentos, tanto para dar...
Em sangue um sol... não se tornará a erguer, infeliz...
Pedaços de algo outrora eterno são cadáver nos carris.
836
Ricardo Madeira
D Roga
Por entre a tua escuridão,
Dois olhos brilham mais negro,
Nas veias, espesso e em ebulição,
Teu sangue não mais arde vermelho.
Mais uma vez, a agulha viola a carne,
Com a alegria de quem impala um coração,
O sorriso nos lábios roxos do enforcado,
A gargalhada do cadáver na exumação.
Sonhos, tal cristais que se quebram,
Tua fome saciada pelo vidro partido,
Dormência nos membros gangrenosos,
Larvas em defunto apodrecido.
Como um peixe que mordeu anzol,
Forçado sorri, arrastado para terra,
E ri ao ver metal em brasa, possante,
Que pulsa e na carne se enterra.
Solidão alimenta a melancolia,
A agulha cura a dor em alegria,
Outra promessa nunca cumprida,
Morte não é objectivo da vida.
Dois olhos brilham mais negro,
Nas veias, espesso e em ebulição,
Teu sangue não mais arde vermelho.
Mais uma vez, a agulha viola a carne,
Com a alegria de quem impala um coração,
O sorriso nos lábios roxos do enforcado,
A gargalhada do cadáver na exumação.
Sonhos, tal cristais que se quebram,
Tua fome saciada pelo vidro partido,
Dormência nos membros gangrenosos,
Larvas em defunto apodrecido.
Como um peixe que mordeu anzol,
Forçado sorri, arrastado para terra,
E ri ao ver metal em brasa, possante,
Que pulsa e na carne se enterra.
Solidão alimenta a melancolia,
A agulha cura a dor em alegria,
Outra promessa nunca cumprida,
Morte não é objectivo da vida.
905
Nauro Machado
Caxangá
Há um desespero
real na palavra
um desespero contra o desespero
enlouquecido em tudo que é palavra
incapaz de dizer o real nela,
e um desespero dentro, um desespero
da palavra assentada na palavra,
da palavra assentada nela mesma,
canal e boca de uma angustia virgem,
de um dia novo contra a noite fora
envolvendo de luto os nomes todos:
antônio, ténis, sonho, árvore, morte.
sombra dentro de sombra, mas girando
em rodopio eterno, o pião da sombra,
o que fazer da voz, senão clamar
em uivos de absurda sombra , á noite
geradora de braços e destroços
vogando intérminos no extinto brado?
real na palavra
um desespero contra o desespero
enlouquecido em tudo que é palavra
incapaz de dizer o real nela,
e um desespero dentro, um desespero
da palavra assentada na palavra,
da palavra assentada nela mesma,
canal e boca de uma angustia virgem,
de um dia novo contra a noite fora
envolvendo de luto os nomes todos:
antônio, ténis, sonho, árvore, morte.
sombra dentro de sombra, mas girando
em rodopio eterno, o pião da sombra,
o que fazer da voz, senão clamar
em uivos de absurda sombra , á noite
geradora de braços e destroços
vogando intérminos no extinto brado?
1 497
Mário Donizete Massari
Sinos
Os sinos batem
e bate em meu peito
uma dor profunda
Outrora, este sinos
me pareciam amigos
anunciando com a morte
o nascimento do mundo
Mas hoje, eles batem
E a minha dor é profunda
a dor de perder,
parte do meu mundo.
e bate em meu peito
uma dor profunda
Outrora, este sinos
me pareciam amigos
anunciando com a morte
o nascimento do mundo
Mas hoje, eles batem
E a minha dor é profunda
a dor de perder,
parte do meu mundo.
909
Paulo Augusto Rodrigues
Vida
Vem vida,
Porque eu não posso parar.
Vem noite,
Porque eu não posso parar.
Vem gente,
Venham todos,
Não me deixem pensar.
Não durmam,
Não me deixem lembrar...
Me salvem da tal solidão.
Que solidão mais sofrida,
É a solidão do amor,
É a solidão da saudade.
Um simples vacilo,
Ela vem, entra, para,
Estanca os músculos,
Embota a mente,
Turva a visão.
Esmaga,
Entristece,
Arranca,
Rasga,
Dói,
Mata.
Vem Vida,
Porque eu não posso...
Porque eu não posso parar.
Vem noite,
Porque eu não posso parar.
Vem gente,
Venham todos,
Não me deixem pensar.
Não durmam,
Não me deixem lembrar...
Me salvem da tal solidão.
Que solidão mais sofrida,
É a solidão do amor,
É a solidão da saudade.
Um simples vacilo,
Ela vem, entra, para,
Estanca os músculos,
Embota a mente,
Turva a visão.
Esmaga,
Entristece,
Arranca,
Rasga,
Dói,
Mata.
Vem Vida,
Porque eu não posso...
969
Paulo Augusto Rodrigues
Dor
As cinzas queimando sozinhas
O gelo derretendo na álcool que resta.
O mundo girando afogado,
Na fumaça e na penumbra.
Pela fresta,
O primeiro raio de vida
Se assusta ao entrar.
O cheiro acre do bafo,
Esconde o desgosto.
Despido de tudo,
Morto até acordar
Vive sem sonhos,
A imagem do desânimo.
Suando em lágrimas,
Chora um coração rejeitado.
Sofre,
O sopro de vida,
Que ainda resta naquele raio solar.
Desmancham-se líquidas,
Esperanças e forças.
Abrem-se tristes os olhos,
Perdidos em si,
Contemplando o infinito.
A podridão interior,
Deteriora o sangue
Tornando venoso,
Respirar.
O ar carregado estoura no peito
E a mente capta,
Dor...
O gelo derretendo na álcool que resta.
O mundo girando afogado,
Na fumaça e na penumbra.
Pela fresta,
O primeiro raio de vida
Se assusta ao entrar.
O cheiro acre do bafo,
Esconde o desgosto.
Despido de tudo,
Morto até acordar
Vive sem sonhos,
A imagem do desânimo.
Suando em lágrimas,
Chora um coração rejeitado.
Sofre,
O sopro de vida,
Que ainda resta naquele raio solar.
Desmancham-se líquidas,
Esperanças e forças.
Abrem-se tristes os olhos,
Perdidos em si,
Contemplando o infinito.
A podridão interior,
Deteriora o sangue
Tornando venoso,
Respirar.
O ar carregado estoura no peito
E a mente capta,
Dor...
854
Maria do Carmo Barreto Campello de Melo
Lição de Amor
Não te direi de amor
assim como tu queres
pois não se faz o amor, amor existe
e permeia e transcende coração e mente
e dá se dando e dando inteiramente
que despojado é o amor, sem adereços
e a pele é a melhor das vestimentas.
Não te direi
assim como o entendes
mas se eu disser de mim, direi do amor
que há quem não se dando já deu tudo
e visitou a face do teu ser impuro
e adormeceu à sombra dos teus sonhos.
Não
assim como desejas
só que me entrego à noite e ao desespero
e ferida de amor digo teu nome
e ele me cobre como uma vestidura.
assim como tu queres
pois não se faz o amor, amor existe
e permeia e transcende coração e mente
e dá se dando e dando inteiramente
que despojado é o amor, sem adereços
e a pele é a melhor das vestimentas.
Não te direi
assim como o entendes
mas se eu disser de mim, direi do amor
que há quem não se dando já deu tudo
e visitou a face do teu ser impuro
e adormeceu à sombra dos teus sonhos.
Não
assim como desejas
só que me entrego à noite e ao desespero
e ferida de amor digo teu nome
e ele me cobre como uma vestidura.
1 139
Sophia de Mello Breyner Andresen
Círculo
Num círculo se move
Num círculo fechado
Sua morte o envolve
Como uma borboleta
Seus verdugos o cercam
Como quem cerca o toiro
Em sua volta não vê
Nenhuma porta aberta
Grandes panos de sangue
Sobre os olhos lhe estendem
A sua hora estava
— Como se diz — marcada
Pegador não houve
Nem pega de caras
E as portas estavam
Sobre o grito fechadas
Num círculo fechado
Sua morte o envolve
Como uma borboleta
Seus verdugos o cercam
Como quem cerca o toiro
Em sua volta não vê
Nenhuma porta aberta
Grandes panos de sangue
Sobre os olhos lhe estendem
A sua hora estava
— Como se diz — marcada
Pegador não houve
Nem pega de caras
E as portas estavam
Sobre o grito fechadas
2 406
Cruz e Sousa
PRESA DO ÓDIO
Últimos Sonetos
Da tu'alma a funda galeria
descendo às vezes, eu às vezes sinto
que como o mais feroz lobo faminto
teu ódio baixo de alcatéia espia.
Do desespero a noite cava e fria,
de boêmias vis o pérfido absinto
pôs no teu ser um negro labirinto,
desencadeou sinistra ventania.
Desencadeou a ventania rouca,
surda, tremenda, desvairada, louca,
que a tu'alma abalou de lado a lado.
Que te inflamou de cóleras supremas
e deixou-te nas trágicas algemas
do teu ódio sangrento acorrentado!
Da tu'alma a funda galeria
descendo às vezes, eu às vezes sinto
que como o mais feroz lobo faminto
teu ódio baixo de alcatéia espia.
Do desespero a noite cava e fria,
de boêmias vis o pérfido absinto
pôs no teu ser um negro labirinto,
desencadeou sinistra ventania.
Desencadeou a ventania rouca,
surda, tremenda, desvairada, louca,
que a tu'alma abalou de lado a lado.
Que te inflamou de cóleras supremas
e deixou-te nas trágicas algemas
do teu ódio sangrento acorrentado!
2 408
Cruz e Sousa
PRODÍGIO!
Últimos Sonetos
Como o Rei Lear não sentes a tormenta
que te desaba na fatal cabeça!
(Que o céu d'estrelas todo resplandeça.)
A tua alma, na Dor, mais nobre aumenta.
A Desventura mais sanguinolenta
sobre os teus ombros impiedosa desça,
seja a treva mais funda e mais espessa,
Todo o teu ser em músicas rebenta.
Em músicas e em flores infinitas
de aromas e de formas esquisitas
e de um mistério singular, nevoento...
Ah! só da Dor o alto farol supremo,
consegue iluminar, de extremo a extremo,
o estranho mar genial do Sentimento!
Como o Rei Lear não sentes a tormenta
que te desaba na fatal cabeça!
(Que o céu d'estrelas todo resplandeça.)
A tua alma, na Dor, mais nobre aumenta.
A Desventura mais sanguinolenta
sobre os teus ombros impiedosa desça,
seja a treva mais funda e mais espessa,
Todo o teu ser em músicas rebenta.
Em músicas e em flores infinitas
de aromas e de formas esquisitas
e de um mistério singular, nevoento...
Ah! só da Dor o alto farol supremo,
consegue iluminar, de extremo a extremo,
o estranho mar genial do Sentimento!
1 823
Cruz e Sousa
COGITAÇÃO
Últimos Sonetos
Ah! mas então tudo será baldado?!
Tudo desfeito e tudo consumido?!
No Ergástulo d'ergástulos perdido
tanto desejo e sonho soluçado?!
Tudo se abismará desesperado,
do desespero do Viver batido,
na convulsão de um único Gemido
nas entranhas da Terra concentrado?!
Nas espirais tremendas dos suspiros
a alma congelará nos grandes giros,
rastejará e rugirá rolando?!
Ou, entre estranhas sensações sombrias,
melancolias e melancolias,
no eixo da alma de Hamlet irá girando ?!
Ah! mas então tudo será baldado?!
Tudo desfeito e tudo consumido?!
No Ergástulo d'ergástulos perdido
tanto desejo e sonho soluçado?!
Tudo se abismará desesperado,
do desespero do Viver batido,
na convulsão de um único Gemido
nas entranhas da Terra concentrado?!
Nas espirais tremendas dos suspiros
a alma congelará nos grandes giros,
rastejará e rugirá rolando?!
Ou, entre estranhas sensações sombrias,
melancolias e melancolias,
no eixo da alma de Hamlet irá girando ?!
1 538
Cruz e Sousa
CONCILIAÇÃO
Últimos Sonetos
Se essa angústia de amar te crucifica,
não és da Dor um simples fugitivo:
ela marcou-te com o sinete vivo
da sua estranha majestade rica.
És sempre o Assinalado ideal que fica
sorrindo e contemplando o céu altivo;
dos Compassivos és o Compassivo,
na Transfiguração que glorifica.
Nunca mais de tremer terás direito...
Da Natureza todo o Amor perfeito
adorarás, venerarás contrito.
Ah! Basta encher, eternamente basta
encher, encher toda esta Esfera vasta
da convulsão do teu soluço aflito!
Se essa angústia de amar te crucifica,
não és da Dor um simples fugitivo:
ela marcou-te com o sinete vivo
da sua estranha majestade rica.
És sempre o Assinalado ideal que fica
sorrindo e contemplando o céu altivo;
dos Compassivos és o Compassivo,
na Transfiguração que glorifica.
Nunca mais de tremer terás direito...
Da Natureza todo o Amor perfeito
adorarás, venerarás contrito.
Ah! Basta encher, eternamente basta
encher, encher toda esta Esfera vasta
da convulsão do teu soluço aflito!
2 124
Mário Hélio
26-VI(Expássaro)
ícaro sem asa
pássaro sem casa
trovador
trova
dor
a
caro em as
ássaro em asa
rovador
rova
or
a v
aro ma
ssaro m sa
ovador
ova
r
a vi
ros
saro as
vador
va
a v id
o s
aro s
a dor
a
a v id a
o
aro
a or
a vida a
a
a
a vida a v
a
a vida a vi
a vida: ávida ave do ar
pássaro sem casa
trovador
trova
dor
a
caro em as
ássaro em asa
rovador
rova
or
a v
aro ma
ssaro m sa
ovador
ova
r
a vi
ros
saro as
vador
va
a v id
o s
aro s
a dor
a
a v id a
o
aro
a or
a vida a
a
a
a vida a v
a
a vida a vi
a vida: ávida ave do ar
891
Mário Hélio
33-III-(Bird)
a fragata espera na porta do circo
lábicos tão fechados
bocas entreabertas a ponto de gritar
a fraca esperança espera na porta do coração
lábios tão fechados
bocas entreabertas a ponto de gritar
mas não há gritos
nem haverá
lábicos tão fechados
bocas entreabertas a ponto de gritar
a fraca esperança espera na porta do coração
lábios tão fechados
bocas entreabertas a ponto de gritar
mas não há gritos
nem haverá
993