Poemas neste tema

Dor e Desespero

Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

o sol anestesia

o sol anestesia a dor e de dor é feito
como deve ser feito de dor o frio do outro campo
672
Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

fotografia de guerra

o menino de camisa vermelha e sapatinhos
marrons estirado na areia do mar gélido da
Turquia migrou para a palavra e se afogou
no meu poema

a menina de moletom rosa-choque
desenhado com delicadas e surradas
borboletas tapando os olhos da boneca
esfarrapada impedindo a visão do tapete de
mortos no chão da Síria impregnou de medo
a palavra e se escondeu no meu poema

as crianças sem cabelo de pupilas
esbugalhadas e nuas estendendo as mãos
sem cor para os visitantes da Somália me
deram a mais difícil aula de anatomia e
ofertaram a palavra fome para o meu poema
903
Cid Saboia de Carvalho

Cid Saboia de Carvalho

Êxtase

Esperei por ti neste último poema:
tu chegas em fuga, ai, sem ruído e voz
(não temos voz) e através da água dos nossos olhos
olhamos um os olhos do outro (quanto vemos, amor!)
e, oh Cristo, basta! Agora desço por teu rosto,
pois sigo na lágrima tua e quando encostas
o ouvido no meu peito, ouves o tropel nervoso
do meu cavalo louco nos caminhos do fim.
Por aqui ninguém vai, amor: eu vou sem voz
e é meu olhar que ecoa, não minha voz.
(E eu quero voz?) Ela ficou em ti, no teu silêncio
e na tua lágrima vou morrer na angústia dos trovões
calados e com todas as neuroses da alma dos relâmpagos.
Teu pranto é mudo quando morro e nele viajo
com minha morte. Desci por teu rosto e terminei
bem entre teus seios: se na tua lágrima segui
é porque meu último desejo foi estar aqui.
Minhas mãos não acenam (morrem na posse)
ocupadas pela última colheita.

895
Claudia Moraes Rego

Claudia Moraes Rego

Viu só, meu anjo?

Viu só, meu anjo.
Eu não disse
que não ia doer?

Eu disse
que ia doer.

Eu: dói

840
Juan-Eduardo

Juan-Eduardo

Vivir es carecer Del gran desastre

brota una luz de amor sin redención,
un color de violetas y de rosas
cayendo en um abismo sin final.

Mi corazón se alarga hacia la muerte,
crece con este nudo de dolor.
Y las negras hogueras del no ser
consumen mis azules construcciones.

Boca de mi esplendor,¿dónde tu forma;
dónde la fundación del sufrimiento?
La vacilante mano de la sombra
me cruza las palabras sobre el pecho.

937
Juan-Eduardo

Juan-Eduardo

Ni la luz

de la luna
La noche enferma
duerme lejos del río.No me escuches,
no me oigas llorar cuando amanece.
Dime:¿has tocado mis ojos
con tus dedos de hielo?

Es que estoy enterrado;
no pises nunca el césped,
no pises la tristeza,
ni la luz de la Luna
cuando pone lejanos los caminos.

Muchacha,
no me escuches,no.No me escuches.

913
Renato Rezende

Renato Rezende

Paraíso Perdido (Ou Pré-Poema)

Nenhum de nós jamais pensaria
em partir, em despegar-se deste corpo
que nos une e nos consome. Mas todas as noites agora
acordo com a dor de ir embora.

Não mais os aromas,
a côr, o brilho
das partículas do paraíso?

Nenhum de nós, desprovidos de suas asas
gostaria de encostar na terra, decaído.
No entanto, já me acena o mundo
com seu jogo de luz e trevas.

Mas, e o amor, o verdadeiro
Amor que sustenta tudo, que me permite
estar ainda erguido sobre esta nuvem?

Desço, em desespero, com o peso do corpo
à terra da impermanência
para nela destruir o que em mim não é eterno
como o fogo se apaga com fogo
como o ferro se forja no ferro?

Pensei que já não mais desceria.
Pensei que ficaria nesta esfera
até me unir em definitivo
no mais alto círculo divino.

Mas é o meu próprio desejo
que me leva de volta ao solo,
e de novo me descubro
homem.

Pensei que aqui ficaria até a memória
de tudo que vivi antes na terra
desaparecesse da minha memória.

Mas já sinto a própria memória
com sua sede de aranha e infância
arrombar todas as portas.

Que não seja longo, ó anjos, este passeio.
Mas, ao tocar os pés no chão
já começo a andar, e em cada passo mais me esqueço.
923
Jorge Melícias

Jorge Melícias

A mulher borda

violentamente

o ventre contra o chão.

É este o centro do círculo da loucura,

e a luz está toda nos dedos.

O crime tem a idade do mundo,diz,

e recomeça a coser os pulsos

filho a filho.

A loucura é agora uma mão

cheia de sal

voltada para dentro.

Nenhum vaso se entorna

já em seu nome,

e sobre a mesa

os frutos estão fechados como pedras.

de Iniciação ao Remorso(1998)

833
W. H. Auden

W. H. Auden

Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever; I was wrong.
The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood,
For nothing now can ever come to any good.
3 001
Friedrich Hölderlin

Friedrich Hölderlin

Pranto

de Ménon por Diotima
 

2
De nada serve, ó deuses da morte, enquanto tiverdes
Em vosso poder, prisioneiro,o homem acossado pelo destino,
Enquanto, no vosso furor, o tiverdes lançado na noite tenebrosa,
De nada serve então procurar-vos, suplicar-vos ou queixarmo-nos,
Ou viver pacientemente neste desterro de temor,
E escutar sorrindo o vosso canto sóbrio.
Se assim for, esquece a tua felicidade e dormita silenciosamente.
No entanto brota no teu peito uma réstea de esperança,
Tu ainda não podes, ó minha alma! Não podes ainda
Habituar-te e sonhas dentro de um sonho férreo!
Não estou em festa, mas gostaria de coroar-me de flores;
Não me encontro eu só? Mas algo apaziguador deve
Aproximar-se de mim vindo de longe e sou forçado a sorrir e a admirar-me
Por experimentar alegria no meio de tão grande sofrimento.

(tradução de Maria Teresa Furtado)

 

1 239
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

27 - THE BROKEN WINDOW

THE BROKEN WINDOW

My heart is silent as a look.
There is a home beyond the hills.
My heart is silent as a look.
My home is there, beyond the hills.

I bear my heart like an old curse.
There is no reason for regret.
I bear my heart like an old curse.
Why should we reason or regret?

My heart dwells in me like a ghost.
Beyond the hills my hope lies dead.
My heart dwells with me like a ghost.
Beyond my hope the hills lie dead.

They took away my heart like weeds.
It was not true that I should live.
They took away my heart like weeds.
I could not think it true to live.

Now there are great stains in my heart.
They are like blood-stains on a floor.
Now there are great stains in my heart.
And my heart lies upon the floor.

The room is closed for ever now.
My heart is now buried alive.
My heart is closed for ever now.
The whole room is buried alive.
4 745
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

24 - EPISODE

EPISODE

No matter what we dream,
What we dream is true.
No matter what doth seem,
God doth it view
And therefore it is
Real as all this.

No matter what we wish,
We have it elsewhere,
Now, e'er now and rich
Are we here of there.
Inside our felt I
God we self-descry.

Sometimes I think hope
May make this come true,
But I stop, I grope,
And life, fear and woe
Is all that remains.
Wherefore then these pains,

This unrest that thrills
With a possible joy,
All the pain that fills
Our hope till it cloy?
Wherefore this, wherefore
If all is unsure?

O give me a breeze
On a meadow land,
And let that breeze please
Nor I understand.
For all anguish is
A vague wish for bliss.
4 047
Jorge Melícias

Jorge Melícias

O poema são fogueiras levantadas na

gargantaou um sono inclinado sobre as facas.Alguém
diz,a prumotodos os nomes queimam,e há uma
deflagração assombrosa,a palavra acende-se com
uma àrvore de sangue ao centro.

de A Luz nos Pulmões(2000)

757
Renato Rezende

Renato Rezende

O Alto

Subo o Pão de Açúcar.
Subo o Corcovado.
E quero lançar-me lá de cima
acabar com tudo
num vôo de liberdade.
Mas me sento nas escadas
que brilham
e queimam a carne.
É alto o desespero
nesta cidade.
Apesar da claridade
visto de cima
tudo
é tranqüila fatalidade.
A cidade é frágil.
A cidade é um brinco.
Fácil, o mar se une ao lago.
Vamos todos morrer afogados.
Finjo
que não sei de nada
e não reajo.


Rio de Janeiro, 4 de abril 1997
699
José Augusto Seabra

José Augusto Seabra

Sangria

"Como grandes lágrimas de sangue escorrem folhas dos ramos" (George Bacovia)

A árvore dessangra, assim, lágrima a lágrima, crucificando os ramos entre as folhas,
tão magra como a neve pingando seus últimos coágulos
1 063
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

30 - L'INCONNUE

L'INCONNUE

Let thy hand set
My hair back. Look
Into mine eyes.
There runs a brook
Right through the heat
Of my hushed cries.

Let thy hand rest
Upon my brow.
Let thine eyes smile
Into the unrest
Of mine eyes now
Thine for a while.

Ay, forget not
To let that touch
Be felt by me,
Light like a thought
Of it, and such
As hope can be.

Let thy hand sweep
Over my hair
One little while.
I seem asleep
But cannot bear
To feel me smile.

All things have failed.
All hopes are dead.
All joys are brief.
Ay, let thy hand,

As if it quailed
From feeling sad,
Give me relief!
No matter if
None understand.

Ay, on my brow
Let thy hand be.
What life is now
Is worth so little
That pain seems brittle
And thought a slough.

Put my hair back
From my brow's pain.
There runs a track
Of lightness through
My heavy brain.

What does this mean?
These are words set
To an idle tune.
What I regret
Hath never been.
Lest my rest fret,
True rest, come soon!
4 402
Chico Buarque

Chico Buarque

De todas as maneiras

De todas as maneiras
Que há de amar
Nós já nos amamos
Com todas as palavras feitas pra sangrar
Já nos cortamos
Agora já passa da hora
Tá linddo lá fora
Larga a minha mão
Solta as unhas do meu coraçãao
Que ele está apressado
E desanda a bater desvairado
Quando entra o verão

De todas as maneiras que há de amar
Já nos machucamos
Com todas as palavras feitas pra humilhar
Nos afagamos
Agora já passa da hora
Tá lindo lá fora
Larga a minha mão
Solta as unhas do meu coração
Que ele está apressado
E desanda a bater desvairado
Quando entra o verão

2 079
Renato Rezende

Renato Rezende

Nós

Cada um de nós
tem uma vida
atroz e parecida.
Parecida com a daqueles
do nosso meio:
o mesmo score
de infinitas viagens,
aventuras, sexo
e também dinheiro.
Mas igualmente atroz
ou, se quiseres
(a perspectiva
depende do dia)
igualmente feia
ou bonita ou inquieta
ou esquisita
a vida
de outros homens.
Igual em essência
a vida de todos nós
sofrendo no corpo
o fogo do tempo:
o mesmo prazer
a mesmíssima dor
a voz
presa no peito
a sede de amor
os nós
de tantos anseios
e afetos desfeitos,
o destino incerto
sem ritmo
sem nexo,
o enorme desejo
de um dia estar em paz
e conhecer Deus
por fim falso ou verdadeiro.
E por todo o caminho
o espelho perplexo:
quem sou?

Desconfio
que somos o mesmo.


Rio de Janeiro, 26 de maio 1997
1 062
António Carlos Cortez

António Carlos Cortez

Resposta a Drummond

É sempre no meu sempre aquele nunca
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada

No mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta

e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito

e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal

se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
Mas novamente dói a dor no peito

e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro

onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida

a que chamamos coisa e porém amamos
Sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale

e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos

para além do verso e do corpo gasto
Sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos

esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero

este ódio ao mundo que é amor eterno
1 075
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

XXX - I do not know what truth the false untruth

I do not know what truth the false untruth
Of this sad sense of the seen world may own,
Or if this flowered plant bears also a fruit
Unto the true reality unknown.
But as the rainbow, neither earth's nor sky's,
Stands in the dripping freshness of lulled rain,
A hope, note real yet not fancy's, lies
Athwart the moment of our ceasing pain.
Somehow, since pain is felt yet felt as ill,
Hope hath a better warrant than being hoped;
Since pain is felt as aught we should not feel
Man hath a Nature's reason for having groped,
Since Time was Time and age and grief his measures
Towards a better shelter than Time's pleasures.
4 104
Renato Rezende

Renato Rezende

Ruínas

Algo me prende ainda
à vida
e espero que passe.
Algo me prende à vida—é o amor
e a arte;
e espero que logo passem.
1 123
José Miguel Silva

José Miguel Silva

Poema com Apólogo Moral

Há quem diga que depois da batalha de Queroneia,
de Los Alamos, do Rapto das Sabinas,
nunca mais se pode escrever com maiúsculas
a palavra "Deus"; que se tornou imoral
a gente queixar-se à lua de uma farpa no dedo,
do infortúnio, do tempo que perdemos na paragem
do autocarro. Quem o diz que não se pode,
não sabe, não entende o que poesia seja.

Era um homem que vivia a profissão de marceneiro.
É conhecida a ligação do marceneiro com as farpas
que lhe entram na pele. Este falava com elas,
contava-lhes casos de sorte e azar, queria-lhes bem.
Entendia que também as farpas são filhas de Deus,
isto é, do amor que sentia pela sua arte.
Um dia um acidente aconteceu na máquina de corte,
esse homem perdeu a mão direita. Não por isso deixou
de sentir farpas alojarem-se na mão perdida,
de falar com elas, de recomendar-lhes
que tivessem juizo, que fossem brincar para outro lado.
1 319
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

PRAYER

PRAYER

Our lady of Useless Tears,
Thine is my heart's best shrine.
I am sick with the gorging years,
I am drunk with the bitter wine
Of having but cares and fears,
Of knowing but how to pine.

It is useless to pray to thee,
But my heart is full of pain.
Thy glance would be charity,
Even if the look were disdain.
Give me that I may be
A child like thine again.

My sense of me is all tears.
I pity my heart too much.
O a cradle for my fears
And the hem of thy garment to clutch!
O wert thou alive and near us,
And thy hand a hand that could touch!

I do not know how to pray.
My heart is a torn pall.
See how my hair grows gray.
O teach my lips to call
On thy name night and day
As if that name were all.

My fathers' faith doth rise
To my lips this sick hour.
I pray to thee with mine eyes
Rosaries of anguish. O dower
My soul with a least sweet lies
Of thy suffering son's power!

I have forgotten the taste
Of faith, and ache for prayer.
My heart is a garden laid waste.
O thy hand on my hair
Like a mother's hand let rest
And let me die with it there!
4 640
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Pistoia

Como podiam guerrear aqui
entre castelos e vinhedos?
Atirar granadas, estuprar camponesas
como podiam?
Sangue nenhum torna tão fértil a terra
que faça brotar sob essas cruzes
o que morreu, o que morreu
naquela áspera estação.
1 156