Poemas neste tema

Dor e Desespero

Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Tragédia Das Folhas

despertei para a aridez e as samambaias estavam mortas,
as plantas nos vasos, amarelas como milho;
minha mulher partira
e as garrafas vazias como cadáveres exangues
cercavam-me com sua inutilidade;
o sol seguia bem, no entanto,
e o bilhete da minha senhoria se quebrava num belo e
resignado tom de amarelo; o que se precisava agora
era de um bom comediante, ao velho estilo, um bobo da corte
com piadas sobre a dor absurda; a dor é absurda
porque ela existe, quando nada mais;
cuidadosamente faço a barba com uma velha navalha
o homem que uma vez tinha sido jovem e
dizia ter gênio; mas
essa é a tragédia das folhas,
as samambaias mortas, as plantas mortas;
e eu caminho por um corredor negro
onde a senhoria se mantém
execrável e decisiva,
mandando-me para o inferno,
balançando seus braços gordos e sudorentos
e gritando
gritando pelo aluguel
porque o mundo falhou conosco
duplamente.
1 176
Álvaro Viana

Álvaro Viana

White Birds

Ando a sonhar uns pobres sonhos brancos,
Cheios de tédio e de desesperança.
Pela estrada da Morte não descansa
Quem só vive a pedir e nada alcança.

Tantos pecados vis, tantos arrancos,
Para arrancar-me a túnica dos flancos
Onde as feridas de combates francos
Ainda sangram na dor que se não cansa.

Mãos em cruz, a pedir por quem espera
A ilusão derradeira nesta vida,
já não sou, ai de mim! quem dantes era.

A sombra estreita de unia cruz — mais nada:
Sob um monte de terra revolvida
Dormirá a Esperança, enluarada.

943
Walmir Ayala

Walmir Ayala

33 [Um grito nos porões

Um grito nos porões
lembra que somos outro;
que estamos no outro, na dor,
como a vara
na raiz dividida.

Livres manipulamos
uma rede invisível
onde dedos e nervos
debatem-se ofegantes.

Um grito nos desperta quando sequer dormíamos,
ou quando estremecida a pele celebrava
o orvalho e a aragem.
Grito
que nos dói, corrompido
de injustiçado jugo.

Alguém que já não canta ao nosso lado grita,
e o canto se perverte.


In: AYALA, Walmir. Os reinos e as vestes. Pref. Lélia Coelho Frota. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. (Poesia brasileira)
1 138
Eunice Arruda

Eunice Arruda

Outra Dúvida

Não sei se é
amor

ou

minha vida que pede
socorro


In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
958
Viviane Gehlen

Viviane Gehlen

Mar

Mar

O céu, cinza
Cinza também o mar....

A praia, vazia
vazio também meu olhar....

A areia se desfaz sob meus pés.
Lágrimas rolam dos meus olhos,
descem pelo meu corpo e
se fundem com o mar...

sou onda,
sou espuma,
sou nada.

Imersa no mar, descubro a Vida.
Submersa na dor, descubro a Vida.
Escondido nas nuvens, descubro o Sol.
Refletido no mar, descubro o Sol.

meu coração renasce
meus olhos sorriem

Um veleiro cruza o horizonte....

09-01-97

973
Vivaldo Beldade

Vivaldo Beldade

A Morte da Arvore

Leio nos teus ramos desnudados
e nas hastes quebradas
a luta travada na noite em que tombaste.
As tuas veias sem sangue
trazem-me aos sentidos a sinfonia da morte
no último acorde da tempestade.
Arvore agonizante,
eu sinto a dor da última folha que te abandona
e a prece desesperada do fim
na última lágrima que aspiras à terra.

1 043
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Conto Cruel

A uremia não o deixava dormir. A filha deu uma injeção de sedol.
— Papai verá que vai dormir.
O pai aquietou-se e esperou. Dez minutos... Quinze minutos... Vinte minutos... Quem disse que o sono chegava? Então, ele implorou chorando:
— Meu Jesus-Cristinho!
Mas Jesus-Cristinho nem se incomodou.
2 429
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Com seu grito imenso

O moço meu vizinho
jogou-se da janela.
Quinze andares
abismo de pastilhas azuis
céu vertical
que acaba no cimento.
Nenhum arbusto ou galho
na descida
nenhuma mão estendida
e as janelas iguais
que ninguém abre.

Agora
quando olho da rua
o meu edifício
vejo um corpo caindo
ao lado esquerdo
caindo sempre
e sempre ali suspenso
um corpo mudo
com seu grito imenso.
1 119
Rubens Rodrigues Torres Filho

Rubens Rodrigues Torres Filho

Circunflexo

O vôo circunflexo de uma ave,
ponto de exclamação e convergência
de um olhar mais que nítido: vazado.
(— E, transpassada por um vento externo e interno,
a praça, com janelas para a praça.)

Deixamos de esperar que alguma dança
perdoe nosso espaço alucinado.
O desenho dos gestos se extravia,
a dor se agrava, grava em nós seu mapa.

Pouco faltou para que nosso invento
tivesse sopro, fosse além do traço:
navegação, mais rápida que a barca,
ia tecendo sua própria água.

As linhas, uma a uma, caem mortas
diante desta manhã, trava, aguçada
pelas doces palavras
desarmadas.


In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. O vôo circunflexo: poesia. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.1
1 724
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Amoroso palor

No amor basta uma noite para fazer de um homem um Deus.
PROPÉRCIO

Amoroso palor meu rosto inunda,
Mórbida languidez me banha os olhos,
Ardem sem sono as pálpebras doridas,
Convulsivo tremor meu corpo vibra...
Quanto sofro por ti! Nas longas noites
Adoeço de amor e de desejos...
E nos meus sonhos desmaiando passa
A imagem voluptuosa da ventura:
Eu sinto-a de paixão encher a brisa,
Embalsamar a noite e o céu sem nuvens;
E ela mesma suave descorando
Os alvacentos véus soltar do colo,
Cheirosas flores desparzir sorrindo
Da mágica cintura.
Sinto na fronte pétalas de flores,
Sinto-as nos lábios e de amor suspiro...
Mas flores e perfumes embriagam...
E no fogo da febre, e em meu delírio
Embebem na minh'alma enamorada
Delicioso veneno.

Estrela de mistério! em tua fronte
Os céus revela e mostra-me na terra,
Como um anjo que dorme, a tua imagem
E teus encantos, onde amor estende
Nessa morena tez a cor de rosa.
Meu amor, minha vida, eu sofro tanto!
O fogo de teus olhos me fascina,
O langor de teus olhos me enlanguece,
Cada suspiro que te abala o seio
Vem no meu peito enlouquecer minh'alma!

Ah! vem, pálida virgem, se tens pena
De quem morre por ti, e morre amando,
Dá vida em teu alento à minha vida,
Une nos lábios meus minh'alma à tua!
Eu quero ao pé de ti sentir o mundo
Na tu'alma infantil; na tua fronte
Beijar a luz de Deus; nos teus suspiros
Sentir as virações do paraíso...
E a teus pés, de joelhos, crer ainda
Que não mente o amor que um anjo inspira,
Que eu posso na tu'alma ser ditoso,
Beijar-te nos cabelos soluçando
E no teu seio ser feliz morrendo!

Dezembro, 1851.
2 681
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

D'outra vida mais bela

D'outra vida mais bela
A esperança já desesperada,
A gélida e constante aspiração.
1 287
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

HERE AND THERE

Here is the same as there, my friend,
All places in this world are like.
If doomed thy life in grief to spend,
What change can then thy fate amend,
What from thy soul the pain can strike?

When pain doth wound the tired heart
And grief doth tie the fevered eye,
Some joy indeed the world's great art
May to thy pained soul impart -
What's this if joy in thee not lie?

When on my restless couch I lie
And count the throbbing of my breath,
I see the joy of earth and sky
Yet hate it all; why should not I
So keep my coward mind from death?

True joy comes not from outward show
But in our deepest soul doth rest.
What matter if the sun can glow
And stars at night look sweetly so
When hearts are by their grief opprest?

For when the darkness weighs thy thought,
And night doth fall upon thy soul,
Are not again thy sorrows brought?
Is not thy mind in shadows caught?
Do fears not back upon thee roll?

I cannot do but hope; as mine
Thy mind I see to hopes doth bend;
I in my land and thou in thine
We suffer both - our griefs entwine.
Here is the same as there, my friend.
1 364
Felipe Larson

Felipe Larson

SEM SENTIDO

Sentado bem perto do abismo
Há dias perdido no deserto
Dormindo sempre com o inimigo
E seguindo a ilusão de estar certo

Não tem medo do perigo
Aceita todos os desafios
Um tiro já não tem sentido
Quando está quase por um fio

Explodindo todos os carros
Um acorde tão desafinado
Acabaram os seus cigarros
O sol ficou abandonado

Desafiando a própria vida
Não corrigiram a ortografia
Arruinando toda a geografia
Que os incas diriam estar perdida

Mas é um Deus
Tem o controle da situação
E não foi por um adeus
Que agora não tem coração

851
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tão linda e finda a memoro!

Tão linda e finda a memoro!
        Tão pequena a enterrarão!
Quem me entalou este choro
        Nas goelas do coração?
1 338
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

BEGINNING

Darkness and storm outside make inward gloom,
Quiet and home within and useless pain
Weigh down upon me as a wasted life,
        Save where from the vile tomb
Of day there comes a semblance of a strife
Through the blown varying of the pallid rain.

Before the thunder shall the mansion shake
A blankly‑smiling day informs our eyne,
And there is here a ghastness and a gale
        That make my frail form quake;
And strange to me who think all things must quail,
A voice is raised in joy ­- alas! not mine.

Why cannot youth be joyous, full of love?
Why am I made the corpse that woes and fears
And problems grim and world‑enigmas dire
        Should like a body wove
Close to my nature, in which is a fire
The feverous source of Iying pains and tears?

Blow hard, thou wind; look pale, thou awful day!
Ye cannot in your dread and horror match
The thing that I bear in me and is me,
        These idle thoughts that stray
Subordinate to the deep agony
Of him who hears the gate of reason's latch
Fall with a sound of termination,
As of a thing locked past and for e'er done.
1 460
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

JOSEPH CHAMBERLAIN

Their blood on thy head, whom the Afric waste
Saw struggling, puppets with unwilful hand,
Brother and brother: their bought souls shall brand
Thine own with horror. Be thy name erased

From the full mouth of men; nor be there traced
To thee one glory to thy parent land;
But'fore us, as'fore God e'er do thou stand
In that thy deed forevermore disgraced.

Where lie the sons and husbands, where those dear
That thy curst craft hath lost? Their drops of blood,
One by one fallen, and many a cadenced tear,

With triple justice weighted trebly dread,
Shall each, rolled onward in a burning flood,
Crush thy dark soul. Their blood be on thy head!
1 092
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

CONVENTION

Mother of slaves and fools, Thou who dost hold
Within Thine iron chains enslaved mankind,
Old in Thy yoke and in their slavery blind,
Harden'd to grief and woo, corrupt and cold,

But in the craven following, as of old,
Of those old ways, unwise, unfirm, unkind,
Bound ever in the animal bonds that bind
Fish, bird and beast in flock and herd and fold.

The light hath fallen of many a cherished name,
And many a land of love hath been the nurse,
But man's worn heart is evermore the same ­-

Unwilling ever to shake off the curse,
Once self‑inflicted, and the time‑grown shame
That loads the weary, lightless universe.
1 421
Marina Colasanti

Marina Colasanti

MULHERES SUICIDAS

Mulheres suicidas
mulheres despidas varando
a vidraça
mulheres no espaço baço
do formicida
cabeça no forno sem fogo
cabeça servida
pescoço quebrado pendente
da viga
cadeira caída
gilete na veia esvaída
mulheres suicidas
sem rumo
sem brida
entregando as chaves
da vida.
544
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Esse é um génio, é o que é novo é (...)

Esse é um génio, é o que é novo é (...)
Outro é um deus, e as crianças do mundo não lhe cospem na cara.
Queria ser uma pedra, não aspiro a mais, quero
Ser uma coisa que não possa ter vergonha nem desespero,
Fui rei nos meus sonhos, mas nem sonhos houve, além de mim
E a última palavra que se escreve nos livros é a palavra Fim.
1 292
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Roçou-me

Roçou-me
O [...] pelo rosto o manto seu
E o seu manto é de Mal e Escuridão.
Coroou-me rei e a coroa que me deu
É um sinal de servidão.
1 401
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SONG OF THE LEPER

He was a nauseous leper
Who in the ruins was;
There ever and anon
The hollow wind did pass,
And wild and feeble and yellow all
        Was the grass.

And the leper sang this song:

«The leper is excluded from his race,
        The leper is driven out,
        The leper is thrust out
        From hall and street and way;
        He must not show his face
        Where human beings may.
        For him there are whips and stones;
        He cannot even stay
        Where mongrels fight for bones
        And are allowed to play.

«No beast as the poor leper is
Worms and snakes have greater bliss.
        But the leper is accurst
        And he knows that well accurst
Is he because a nauseous leper,
Of evil things the worst.

«The toad, the newt, the viper
        Are tolerate and borne,
        But the vile and nauseous leper
        Makes vomit in deep scorn;
        Repugnance is for him
        Inevitably born

«Sometimes he hears the laughter
Of human feast to come,
And music followed, after
By sounds of peace and of home.
        Upon the wind they stray,
        The wind bears them away,
And the nauseous leper, he remains,
        Through night, through day,
Alone with his sores, with his pains.

And bands of strollers pass,
Taking the road afar,
For in the ruins they know well
The leper's sores there are.
And if perchance they see
The leper from their way,
He sees their finger point
And he knows that they say:

«He is the nauseous leper
Who in the ruins doth sit;
He is viler than the plague,
More loathsome far than it;
If near to him we dared do come
Upon him we would spit.»

«Poor leper who is a man,
Poor leper who is alive,
Under his being's ban,
Whose torture's chain unearned
No pity comes to rive.

«A Hand of Might created
The newt, the toad, the viper,
But gave them not its worst;
Kept them from loneliness,
Gave them their kindred's bliss.
        But that hand made the leper
And it made the leper leper:
And that Hand Almighty is
        Of all things the most curst.
1 592
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Aos homens tu produzes palidezes

Aos homens tu produzes palidezes
Da sensação não tristes sempre, a alguns
Um mais acentuado sentimento
De tristeza; mas em mim, ah tarde! trazes,
Em mim m'acordas e m'intensificas
Meu desolado e vago natural.
Qu'importa? Tudo é o mesmo. A mim, quer seja
Manhã inda d'orvalho arrepiada,
Dia, ligeiro em sol, pesado em nuvens
Ou tarde (...)
Ou noite misteriosa e (...)
Tudo, se nele penso, só me amarga
E me angustia.

Tenho no sangue o enigma do universo
E o seu pavor que outros não conhecem
E alguns talvez, mas não profundamente.
Só a mim me foi dado sentir sempre.
E se às vezes pareço indiferente
E em mim mesmo calmo, é apenas
O excesso da dor e do horror
Cuja constante (...) me dói.
853
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não poder Tarde

Não poder Tarde
Adivinhar (...) o teu segredo
E o teu mistério ilúcido ignorar
E o que tens que (...) esta emoção
Encontrar   (...)    e o sentido,
Vaga desesperança quase amarga,
Da sensação que dás. Dás-me um aumento
Da muda comoção indefinida
Que sonha dentro em mim, uma ânsia como
Que um esquecer de mal lembradas cousas,
Ou de esquecidas vago relembrar,
Intensas, rumorosas, torturadas,
Mágoas de quem (a) existir se sente,
Inconsolável desesperação,
Vazia plenitude do sofrer.
1 174
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

RAGE

I feel a rage - ay, a rage!
At time that passes, passes away,
A thirst of life nought can assuage,
        An anger that nothing can stay.
And every hour that passes by
        And merges into night a day
Makes, when I think, my soul to cry:
«Torture eternal, torture without end!
        All days pass and not a deed!
        A desire strong as a greed
By an ill of will - oh, misery!
To be a dream of pain condemned!»

I feel a rage! 'tis to feel
Mystery and sadness at one time,
        Till the maddened brain doth reel,
Looking on that bodiless curse.
The passing of the world, as one
Paralytic at a deed of blood
Which he hath no power to avert.
I feel a stranger before the sun,
        A weeper before field and flood,
        A cynic before dirt,
        A revolt before God.
1 472