Poemas neste tema

Dor e Desespero

Kenneth Koch

Kenneth Koch

Uma conversa com Patrícia

Patrícia não quer
Falar de amor ela
Diz que só
Quer fazer amor
Mas ela me fala
De amor quase sem parar.

É horrível é
A pior coisa do mundo
Diz Patrícia
Nada
Nem a morte ou a loucura
É tão ruim quanto o amor

Eu estou sempre
Apaixonada estou sempre
Sofrendo por amor
Diz Patrícia. Agora me
Acostumei mas
Continuo sofrendo do mesmo jeito

Você sabe o que eu fiz a ela
Uma vez? – falando de sua
Namorada – Eu a chutei
Literalmente chutei ela estava sentada no chão e eu lhe
Dei uns colpi di piedi assim uns
pontapés. Ela escorregou no chão.

Sabe o que ela fez
Comigo? Me prometeu que viajaríamos
Eu estava pronta esperando
Com as malas e os bilhetes
E ela vem e me diz que sua outra amiga achou que ela
não deveria ir, era o que ela achava. Eu a chutei

Sabe às vezes a gente ainda fica
Junto. Mas o amor é horrível. Eu achei
Que você seria a pessoa
Certa para ter esta conversa Patrícia já que
Você ama as mulheres e ao mesmo tempo
É uma mulher. Você deve ter razão Patrícia

Disse. Mas com essa mulher que te
Abandona eu acho que você deveria
Sumir do mapa. Embora talvez com ela
não vá adiantar
Não, sumir não adianta.
É difícil eu não a conheço

Se eu a conhecesse se eu pudesse vê-la
Por apenas dez minutos – Tenho medo disso
se você a vir você pode
Levá-la de mim. Patrícia
Ri. Não, não aconteceu comigo ainda
Graças a deus de gostar de mulheres jovens assim.

Por quê? Quando você tiver a minha
Idade – ainda jovem – ela terá
Trinta... e nove? Você convive bastante
Com pessoas bem jovens para
Saber como elas são horríveis
E você não gosta delas

Você não quer ter nada
A ver com elas! Hum
Hum, eu disse apoiando
As mãos sobre a mesa e depois tirando
Olhe para você desculpe-me mas eu tenho que rir
De você sentado neste horrível

Restaurante já de
Madrugada em uma
Cidade em que você não quer estar
E por quê? Por esta mulher
É horrível eu sei mas também
É engraçado

Eu sei eu disse. Ouça tenho
Uma idéia. Você tem o endereço dela? Você sabe onde
Ela mora? Você deveria ir até lá ir
E se esconder
Do lado de fora da casa dela
Atrás das árvores

Então quando ela sair
Você a afronta
Você a enfrenta. Você verá
Em seus olhos
Se há amor ou não. É algo que não se
Pode esconder. Você saberá não tem erro.

Funciona. Comigo sempre
Funcionou. Não vai funcionar comigo. Não posso
Ir e me esconder lá. É verdade
Disse Patrícia quando há amor tudo
Funciona quando não há, nada funciona. O amor
É um deus Eu não acredito em nada dessas coisas freudianas

Esse deus para quem você tem que fazer
O que ele quer que você faça você
Está com raiva mas tudo o que você realmente quer
É tê-la de volta. Então – vingança! Se
Essa mulher tivesse feito algo assim comigo
Eu simplesmente não iria mais gostar dela na verdade

Eu iria odiá-la Você deve levar em conta
Disse Patrícia que essa mulher pode estar
fazendo isso para testar você. Não,
eu disse. Eu sei que não é isso. Eu sei de algo. Eu me sinto
Cem anos mais velho. Você não
parece tão mal assim, Patrícia disse.

Procure outra mulher. Não posso. Eu
Sei Patrícia disse. Mas geralmente sempre achamos que
Esta é uma boa idéia. Mas se
Você não pode não pode. Eu
Não consigo nem comer
Isso aqui Patrícia eu disse.

Desculpe Patrícia eu disse por te
Chatear não consigo parar de falar Me
Perdoa. Você não está me chateando
Patrícia diz Este é meu assunto preferido
Não é todo dia que se vê alguém num estado desses,
Em que se pode ajudar dizendo para se manter vivo

Você sabe, disse Patrícia, se ela
Faz essas coisas com você agora
Ela fará de novo
E de novo então é melhor estar pronto
Talvez você possa se adiantar
E dizer que ela tem razão e que você

Não a ama Tchau Que você vai embora
Mas se você a quer mesmo
Você deveria ir para trás das árvores
E surpreendê-la quando eles o virem
Isso sempre faz diferença
Não posso ir me esconder lá Patrícia

É loucura. Eu fui mas sem
Me esconder e sem afrontá-la.
Patrícia: O que ela disse? Eu disse:
As mesmas coisas. Patrícia disse
Você viu amor nos olhos dela? Eu disse
Não, não vi. Eu vi

Alguma outra coisa. Em Florença está um dia nublado
Seu cabelo (relativamente) curto e
Seus olhos ao longo do Arno
Foi a última vez em que a veria outra vez
Como esta que estou vendo outra vez
Quando ver outra vez ainda faz algum sentido

Acabou Patrícia dizia
Por enquanto mas não se preocupe
Eu acho que você vai tê-la de volta
Mas então será tarde demais. Ai Patrícia deixei
Minhas costas e cabeça despencarem na
Cadeira Tarde não quer dizer nada!

(tradução de Marília Garcia)

930
José Saramago

José Saramago

No Coração, Talvez

No coração, talvez, ou diga antes:
Uma ferida rasgada de navalha,
Por onde vai a vida, tão mal gasta,
Na total consciência nos retalha.
O desejar, o querer, o não bastar,
Enganada procura da razão
Que o acaso de sermos justifique,
Eis o que dói, talvez no coração.
996
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Albergue

você não viveu de verdade
até ter estado num
albergue
onde não há nada além de um único
bico de luz
e 56 homens
apertados uns contra os outros
em catres
com todo mundo
roncando
ao mesmo tempo
e alguns desses
roncos
são
tão profundos e
graves e
inacreditáveis –
cavernosos
repulsivos
graves
subumanos
ruídos
vindos do próprio
inferno.
você quase
perde o juízo
submetido a esses
sons que parecem
uma condenação
e os
odores
misturados:
meias
duras e imundas
cuecas
mijadas e
cagadas
e sobre tudo isso
um ar que circula
devagar
que mais parece
a emanação de
lixeiras sem
tampa.
e aqueles
corpos
no escuro
gordos e
magros
e
curvos
alguns
manetas
pernetas
alguns
desmiolados
e o pior de
tudo:
a total
falta de
esperança
que os
amortalha
que os recobre
por completo.
não há como
suportar.
você se
levanta
sai
caminha pelas
ruas
sobe e
desce as
calçadas
passa por prédios
dá a volta na
esquina
e retorna
pela
mesma
rua
pensando
aqueles homens
todos
uma vez foram
crianças
o que aconteceu
com
eles?
e o
que
aconteceu
comigo?
está escuro
e frio
aqui
fora.

Cheguei a Nova Orleans às cinco da manhã, debaixo de chuva. Sentei-me nas proximidades da rodoviária por um tempo, mas as pessoas me deprimiam de tal maneira que peguei minha mala, enfrentei a chuva e comecei a andar. Não sabia onde ficavam as pensões, qual a localização do bairro pobre.
Eu tinha uma mala de papelão que estava se desmanchando. Certa vez tinha sido preta, mas a cobertura havia descascado, expondo o papelão amarelo de que era feita. Eu tentara resolver o problema passando uma cera preta de sapato sobre as partes descobertas. Enquanto caminhava debaixo da chuva, a cera começou a escorrer da mala e, sem eu perceber, foi sujando as duas pernas das minhas calças de preto cada vez que eu mudava a mala de mão.
Bem, era uma nova cidade. Talvez eu tivesse sorte.
A chuva parou e o sol apareceu. Eu estava no bairro negro. Segui caminhando devagar.
– Ei, branquelo sujo!
Coloquei minha mala no chão. Uma mulatona estava sentada nos degraus da varanda, balançando as pernas. Tinha uma boa aparência.
– Olá, branquelo sujo!
Eu não disse nada. Fiquei apenas olhando para ela.
– Está atrás de um bom rabo, branquelo sujo?
Riu na minha cara. Suas pernas estavam cruzadas bem alto e ela mexia um dos pés; tinha ótimas pernas, sapatos de salto, jogava as pernas para lá e para cá e sorria. Recolhi minha mala e comecei a me aproximar dela pela calçada. Ao chegar mais perto, percebi que a cortina da janela ao seu lado havia se mexido um pouco. Vi o rosto de um negro. Ele parecia o Jersey Joe Wolcott.[7] Retornei da passagem para a calçada. Suas risadas me seguiram rua abaixo.
Fiquei em um quarto no segundo andar, de frente para um bar. O bar se chamava Café Gangplank. Do meu quarto eu podia ver através das portas abertas do bar tudo o que acontecia lá dentro. Havia uns rostos ferozes por ali, outros interessantes. Eu ficava no meu quarto à noite, bebia vinho e olhava aqueles rostos no bar enquanto meu dinheiro se esvaía. Durante o dia, eu dava longas e vagarosas caminhadas. Ficava sentado por horas olhando os pombos. Descobri um café imundo, com um dono mais imundo ainda, mas onde se podia tomar um café da manhã caprichado – panquecas, cereais, salsicha – por quase nada.
Saí pela rua, como sempre, e fiquei caminhando sem rumo. Sentia-me feliz e relaxado. O sol estava na medida certa. Brando. Havia paz no ar. Ao me aproximar do meio da quadra, avistei um homem parado junto à entrada de uma loja. Segui em frente.
– Ei, PARCEIRO!
Parei e dei meia-volta.
– Está atrás de trabalho?
Retornei até onde ele estava. Por sobre seu ombro, pude ver uma enorme sala escura. Havia uma mesa comprida, com homens e mulheres de pé, de ambos os lados. Eles tinham martelos com os quais golpeavam objetos a sua frente. Na escuridão, os objetos pareciam ser mexilhões. Cheiravam como mexilhões. Dei meia-volta e segui caminhando pela rua.
Lembrei de como meu pai costumava chegar em casa todas as noites e falar do seu trabalho para minha mãe. A ladainha sobre o trabalho começava assim que ele cruzava a porta, continuava ao longo do jantar e se estendia até o momento em que meu pai gritava lá do quarto “Luzes apagadas!”, às oito da noite, para que ele pudesse descansar e recuperar as forças para o trabalho do dia seguinte. Não havia nenhum outro assunto, exceto o trabalho.
Perto da esquina, fui parado por outro homem.
– Escute, meu amigo... – ele começou.
– Sim? – perguntei.
– Escute. Sou um veterano da Primeira Guerra Mundial. Coloquei minha vida em risco para defender este país, mas ninguém quer me contratar, ninguém me oferece um emprego. Eles não têm consideração pelo que eu fiz. Estou com fome, me ajude...
– Estou desempregado.
– Está desempregado?
– Isso mesmo.
Afastei-me. Atravessei a rua.
– Você está mentindo! – gritou. – Você está trabalhando. Você tem um emprego!
Alguns dias mais tarde, eu estava realmente em busca de um.
Ele era uma espécie de atendente, atrás de sua mesa de escritório, e usava um aparelho auditivo cujo fio se estendia ao longo de seu rosto e passava pela camisa, onde a bateria estava escondida. A sala era escura e confortável. Ele vestia um terno marrom surrado, uma camisa amassada e uma gravata com a ponta puída. Chamava-se Heathercliff.
Eu havia visto o anúncio no jornal, e esse lugar ficava perto da minha pensão.
Procura-se jovem ambicioso com um olho no futuro. Não é necessário ter experiência. Trabalho inicial no setor de expedição, com possibilidade de ascensão.
Esperei do lado de fora com mais cinco ou seis jovens, todos se esforçando em parecer ambiciosos. Tínhamos preenchido nossas fichas de emprego e agora esperávamos. Fui o último a ser chamado.
– Sr. Chinaski, por que razão o senhor abandonou o trabalho na companhia ferroviária?
– Bem, não via muito futuro nesse setor.
– Eles têm bons sindicatos, planos de saúde, aposentadoria.
– Na minha idade, pensar em aposentadoria poderia ser considerado algo supérfluo.
– Por que veio a Nova Orleans?
– Tenho amigos demais em Los Angeles, amigos que estavam atravancando minha carreira. Queria ir para um lugar onde eu pudesse me concentrar, sem ser molestado.
– Como pode saber que permanecerá aqui conosco por tempo suficiente?
– Não tenho como saber.
– Por quê?
– Seu anúncio diz que há um futuro por aqui para um jovem ambicioso. Se não houver qualquer futuro por aqui, será minha hora de partir.
– Por que não está de barba feita? Perdeu uma aposta?
– Ainda não.
– Ainda não?
– Não. Apostei com meu senhorio que poderia conseguir um emprego em um dia, mesmo com essa barba.
– Muito bem, informaremos se o senhor for o escolhido.
– Não tenho telefone.
– Está tudo bem, sr. Chinaski.
Saí dali e voltei para o meu quarto. Cruzei o corredor sujo e fui tomar um banho quente. Logo em seguida, vesti as mesmas roupas e fui atrás de uma garrafa de vinho. Voltei para o quarto e me sentei junto à janela, bebendo, observando as pessoas no bar, o modo como se movimentavam. Eu bebia devagar, tomado novamente pela ideia de comprar uma arma e acabar com tudo aquilo de modo rápido – sem todos aqueles pensamentos e palavrórios. Uma questão de colhões. Perguntava-me se teria mesmo colhões para isso. Terminei a garrafa e fui deitar. Por volta das quatro da manhã, fui acordado por uma batida na porta. Era um mensageiro da Western Union.
Abri o telegrama:
SR. H. CHINASKI. COMPAREÇA AO ESCRITÓRIO
AMANHÃ ÀS 8H. CIA. R. M. HEATHERCLIFF.
Era uma distribuidora de revistas, e ficávamos na mesa de expedição, verificando se os pedidos coincidiam em quantidade com o que estava marcado nas faturas. Então assinávamos a fatura e empacotávamos o pedido para remessas intermunicipais, ou separávamos as revistas para que fossem distribuídas pelo caminhão de entrega local. O trabalho era fácil e monótono, mas os empregados estavam sempre num constante estado de tensão. Estavam preocupados com seus empregos. Havia uma mistura de jovens e mulheres, e não parecia haver nenhum tipo de fiscal. Depois de várias horas, começou uma discussão entre duas das mulheres. Era algo sobre as revistas. Enquanto empacotávamos revistinhas, alguma coisa deu errado do outro lado da mesa. Com o progresso do bate-boca, as mulheres foram se tornando violentas.
– Olhem – eu disse –, essas revistas não valem a pena nem ser lidas, quanto mais que vocês briguem por elas.
– Tudo bem – disse uma das mulheres –, nós sabemos que você se acha bom demais para esse trabalho.
– Bom demais?
– Sim, essa sua atitude. Você acha que a gente não reparou?
Foi quando aprendi, pela primeira vez, que não bastava que você fizesse seu trabalho. Era preciso mostrar interesse, se possível até paixão por ele.
Trabalhei por três ou quatro dias ali, então, na sexta-feira, fomos pagos pelo exato número de horas que tínhamos trabalhado. Os envelopes amarelos que nos deram continham uma série de verdinhas, além dos centavos devidos. Dinheiro de verdade, nada de cheques.
O motorista do caminhão chegou um pouco antes, perto do final do expediente. Sentou-se sobre uma pilha de revistas e fumou um cigarro.
– Sim, Harry – ele disse para um dos empregados –, recebi um aumento hoje. Dois dólares a mais.
Na saída, parei para comprar uma garrafa de vinho, depois fui para o meu quarto, tomei um gole e desci as escadas para ligar para o emprego. O telefone tocou por um longo tempo. Finalmente, o sr. Heathercliff atendeu. Ele ainda estava por lá.
– Sr. Heathercliff?
– Sim?
– É o Chinaski.
– Sim, sr. Chinaski?
– Quero um aumento de dois dólares.
– Como?
– Isso mesmo. O motorista do caminhão ganhou um aumento.
– Mas ele está conosco há dois anos.
– Preciso de um aumento.
– Nesse momento, estamos lhe pagando dezessete dólares por semana e o senhor vem me pedir dezenove?
– Exatamente. Vou receber ou não?
– Não podemos oferecer isso.
– Então me demito.
E desliguei.
– Factótum
1 323
Cesare Pavese

Cesare Pavese

você, vento de março

Você é a vida e a morte.
Você veio de março
por sobre a terra nua.
A tua emoção perdura.
Sangue da primavera,
anêmona ou nuvem,
o teu passo ligeiro
violou a terra.
A dor reabre  –
O teu passo ligeiro
a reabriu.

Era fria a terra
sob o céu pobre,
era imóvel e fechada
em um sonho entorpecido,
como alguém que não mais sofre.
Mesmo o gelo era doce
dentro do coração profundo.
Entre a vida e a morte,
a esperança se calava.

Agora, tem voz e sangue
cada coisa que vive.
Agora, a terra e o céu
são fortes emoções,
as esperanças os torcem,
e as manhãs os perturbam,
e o teu passo os submergem,
o teu hálito d'aurora.
Sangue da primavera,
toda a terra é trêmula
de um antigo tremor.

Você reabriu a dor.
Você é a vida e a morte.
Sobre a terra nua,
passaste ligeira,
como uma andorinha ou uma nuvem,
e a barragem do coração
despertou-se e rompeu-se
e se espelhou no céu
refletindo as coisas,
e as coisas, no céu e no coração,
sofrem e se contorcem
esperando por você.
É a manhã, é a aurora...
– sangue da primavera,
você violou a terra.

A esperança se torce,
te espera e te chama.
Você é a vida e a morte.
O teu passo é ligeiro.
912
Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

canção do mundo novo

Entre eternos dias de poeira
entre noites imensas de ferrugem
bebendo a cinza que nos dão por vida
cuspindo nevoeiros de silêncio
de mãos amarradas pelo medo
e bocas sufocadas pela sombra
com os pés viscosamente presos
num solo de pântano e repulsa
olhos perdidos e sem luz
reflectindo apenas um remoto horizonte
a desfazer-se em treva

assim vamos quotidianamente

mastigando sem força a própria cobardia
afagando a vergonha podre em que vivemos
entre uma longa interminável
estrada de baionetas
na obediência inútil e servil
a uma voz sem rosto e sem presença
cumprindo surdas ordens de ódio e mentira
marchando sem razão e sem destino

assim vamos quotidianamente
522
Maria José de Carvalho

Maria José de Carvalho

o iniciado

que nome te dar
na faca e no gume
na lima e no lume
na lama dos limos
na lança no laço
na trança no traço
na trama dos limbos
que névoa te envolve
e densa
turva
teu sacro perfil
se destravando
a treva
emerso a iluminaste
e
na dança do templo
que o corpo enlaça
a pupila embaça
o passo trava
e o sangue desata
em salva de prata
contido o lábio
na doce taça
que nome te dar
que medo te impele
que tolhida asa
o vôo te impede
que secreta chaga
de ferida pluma
te enluta o âmago
e que maga imagem
te dispara a seta
que o peito afeta
em bruma
e arfagem
ó
iniciado
que êxtase
nos espera
que ardente
dardo
através da estirpe
de transe
e treva
a dor
extirpa
o ir
é nosso rio
ao bramir
do touro
o ouro
de teu corpo
ao sol
o manso bezerro
o túrgido úbere
a plúmbea ave
o fruto maduro
lança e raiz
o chão e o sal
tua urdidura são
ao sol posto
evocamos
a chaga
que a taça embaça
e o violáceo laço
de obscura trama
neste agosto
deposto
nos envolve o rosto
a palavra
o chá
.
.
.
787
José Saramago

José Saramago

Vertigem

Não vai o pensamento aonde o corpo
Não vai. Emparedado entre penedos,
Até o próprio grito se contrai.
E se o eco arremeda uma resposta,
São coisas da montanha, são segredos
Guardados entre as patas duma aranha
Que tece a sua teia de miséria
Sobre a pedra suspensa da encosta.
1 218
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Eu sou como um que entre o mar que lhe avança

Eu sou como um que entre o mar que lhe avança
Se vê e entre um rochedo alto e (...)
Mas com maior horror — ah, quão maior!
Perante a morte — aquilo que eu temo
Com horror que transcende todo o horror
Que os homens hão sentido — lhe aproxima...

Coroai-me de espinhos — sou aquele
Que mais no mundo tem sofrido.

P'ra resignar-se à morte é necessário
Não lhe compreender todo o horror,
Não lho medir. Perdi
A última ilusão que até agora
Ninguém perdera, nem o mais audaz
Cogitador metafísico — essa que faz
Com que o pavor não desça às nossas veias
Tornando-se um com a nossa vida.
1 238
José Saramago

José Saramago

Outro Lugar-Comum

Porque um grito não rompo da garganta,
Uma bola de som que me transporte,
Na ponta incandescente duma seta,
Onde o tempo não gaste nem a morte?
Matéria mal composta e decadente
A fugir de si própria envergonhada,
Personagem esquecida do papel,
Sobre as tábuas do palco assobiada.
1 013
José Saramago

José Saramago

Do Como E do Quando

E quando não se calam os protestos
Do sangue comprimido nas artérias?
E quando sobre a mesa ficam restos,
Dentaduras postiças e misérias?

E quando os animais tremem de frio,
Olhando a sombra nova de castrados?
E quando num deserto de arrepio
Jogamos contra nós cartas e dados?

E quando nos cansamos de perguntas,
E respostas não temos, nem gritando?
E quando às esperanças aqui juntas
Não sabemos dizer como nem quando?
E quando não se calam os protestos
Do sangue comprimido nas artérias?
E quando sobre a mesa ficam restos,
Dentaduras postiças e misérias?

E quando os animais tremem de frio,
Olhando a sombra nova de castrados?
E quando num deserto de arrepio
Jogamos contra nós cartas e dados?

E quando nos cansamos de perguntas,
E respostas não temos, nem gritando?
E quando às esperanças aqui juntas
Não sabemos dizer como nem quando?
945
Paio Gomes Charinho

Paio Gomes Charinho

Oí Eu Sempre, Mia Senhor, Dizer

Oí eu sempre, mia senhor, dizer
que peor é de sofrer o gram bem
ca o gram mal; e maravilho-m'en,
e non'o pude nem posso creer:
ca sofr'eu mal por vós qual mal, senhor,
me quer matar, e guarria melhor
se me vós bem quiséssedes fazer.

E se eu bem de vós podess'haver,
ficass'o mal que por vós hei a quem
aquesto diz; e o que assi tem
o mal em pouco, faça-o viver
Deus com mal sempr'e com coita d'amor;
e pod'assi veer qual é peor,
do gram bem ou do gram mal, de sofrer.

E o que esto diz nom sab'amar
nẽũa cousa tam de coraçom
com'eu, senhor, amo vós; demais nom
creo que sabe que x'é desejar
tal bem qual eu desejei des que vi
o vosso bom parecer, que des i
me faz por vós muitas coitas levar.

E de qual eu, senhor, ouço contar
que o bem éste, faz gram traiçom
o que bem há, se o seu coraçom
em al pom nunca senom em guardar
sempr'aquel bem. Mais eu, que mal sofri
sempre por vós e nom bem, des aqui
terríades por bem de vos nembrar.

Se o fezerdes, faredes bem i,
se nom, sem bem viverei sempr'assi,
ca nom hei eu outro bem de buscar.
648
Paio Gomes Charinho

Paio Gomes Charinho

A Dona Que Home "Senhor" Devia

A dona que home "senhor" devia
com dereito chamar, per boa fé,
meus amigos, direi-vos eu qual é:
ũa dona que eu vi noutro dia,
e nom lh'ousei mais daquesto dizer;
mais quen'a viss'e podess'entender
todo seu bem, "senhor" a chamaria.

Ca senhor é de muito bem; e vi-a
eu por meu mal, sei-o, per boa fé;
e de morrer por en gram dereit'é,
ca bem soub'eu quanto m'end'averria:
morrer assi com'eu moir'e perder,
meus amigos, o corp', e nom poder
veer ela quand'eu veer querria.

E tod'aquesto m'ant'eu entendia
que a visse; mais tant'oí falar
no seu bem, que me nom soube guardar;
nem cuidava que tam bem parecia
que log'eu fosse por ela morrer;
mais, u eu vi o seu bom parecer,
vi, amigos, que mia morte seria.

É por esto que bem conselharia
quantos oírem no seu bem falar:
non'a vejam e podem-se guardar
melhor ca m'end'eu guardei; que morria
e dixe mal: mais fez-me Deus haver
tal ventura, quando a fui veer,
que nunca dix'o que dizer querria.
651
Paio Gomes Charinho

Paio Gomes Charinho

Que Mui de Grad'eu Querria Fazer

Que mui de grad'eu querria fazer
ũa tal cantiga por mia senhor
qual a devia fazer trobador
que atal senhor fosse bem querer
qual eu bem quer'! E fazer non'a sei!
E cuid'i muit', e empero nom hei,
de fazê-la, qual merece, poder.

Tam muit'havia mester de saber
trobar mui bem quem por atal senhor
trobar quissess'! E a mi, pecador,
nunca Deus quiso dar a entender
atal razom qual hoj'eu mester hei
pera falar no que sempre cuidei:
no seu bem e no seu bom parecer.

Mas como pod'achar bõa razom
home coitado que perdeu o sem
com'eu perdi? E quando falo, rem
já nom sei que me digo nem que nom!
E com gram mal nom pod'home trobar;
e prazer nom hei senom em chorar,
e chorando nunca farei bom som.

E por aquesto bem vej'eu que nom
posso fazer a cantiga tam bem,
porque já sõo fora de meu sem,
chorando, cativ'!, e meu coraçom
já nom sab'al fazer senom cuidar
em mia senhor; e, se quero cantar,
choro, ca ela me nembra entom.
706
Paio Gomes Charinho

Paio Gomes Charinho

Quantos Hoj'andam Eno Mar Aqui

Quantos hoj'andam eno mar aqui
coidam que coita no mundo nom há
senom do mar, nem ham outro mal já.
Mais doutra guisa contece hoje a mi:
       coita d'amor me faz escaecer
       a mui gram coita do mar e tẽer

pola maior coita de quantas som,
coita d'amor, a quen'a Deus quer dar.
E é gram coita de mort'a do mar
- mas nom é tal; e por esta razom
       coita d'amor me faz escaecer
       a mui gram coita do mar e tẽer

pola maior coita, per boa fé,
de quantas forom, nem som, nem serám.
E estes outros que amor nom ham
dizem que nom, mas eu direi qual é:
       coita d'amor me faz escaecer
       a mui gram coita d'amor e tẽer

por maior coita a que faz perder
coita do mar, que faz muitos morrer.
797
Paio Gomes Charinho

Paio Gomes Charinho

Senhor Fremosa, Pois Que Deus Nom Quer,

Senhor fremosa, pois que Deus nom quer,
nem mia ventura, que vos eu veer
possa, convém-m'hojemais a sofrer
todas las coitas que sofrer poder
por vós; e quero já sempre coidar
em qual vos vi, e tal vos desejar
tôdolos dias em que eu viver.

E morte assi venha quando vẽer!
Ca desejos nom hei eu de perder
da mansedume e do bom parecer
e da bondade, se eu bem fezer,
que em vós há; mais quer'a Deus rogar
que me leixe meu temp'assi passar,
desejando qual vos vi, e sofrer.

Ca em desejos é tod'o meu bem.
E dizem outros que ham mal, senhor,
desejando; mais eu filh'i sabor,
ca desejo qual vos vi e por en
vivo, ca sempre cuid'em qual vos vi
e atal vos desejei des ali
e desejarei mentr'eu vivo for.

Ca sem desejos nunca eu vi quem
podess'haver tam verdadeir'amor
como hoj'eu hei, nem fosse sofredor
do que eu sofr'; e esto me mantém:
grandes desejos que hei. E assi
quero viver; e o que for de mi
seja, ca esto tenh'eu por melhor:

desejar sempre; ca des que nom vi
vós nom vivera rem do que vivi:
senom coidando em qual vos vi, senhor.
620
Paio Gomes Charinho

Paio Gomes Charinho

Coidava-M'eu, Quand'amor Nom Havia

Coidava-m'eu, quand'Amor nom havia,
que nom podess'el comigo poder;
mais, pois lo hei, já o nom cuidaria,
ca me nom sei nem posso defender.
E, porque soub'esto de mi Amor,
fezo-m'el que amasse tal senhor
em que me bem mostrass'o seu poder.

E de guisa mi o mostrou, que queria
ante mia mort'hojemais ca viver,
ca sofro coitas qual nom sofreria.
Mas hei-as, mal que me pês, de sofrer;
ca de guisa me tem vençud'Amor
que, se Deus ou gram mesura nom for
de mia senhor, poss'em coita viver.

Mais esta mesura, como seria
de mia senhor? Ca nom lh'ouso dizer
que me valha, ca sei ca me diria
que me quitasse bem de a veer;
e por aquesto, bem sei que Amor
me faria cada dia peor
se lho dissess' - e non'ouso dizer.
582
José Saramago

José Saramago

Oceanografia

Volto as costas ao mar que já entendo,
À minha humanidade me regresso,
E quanto há no mar eu surpreendo
Na pequenez que sou e reconheço.

De naufrágios sei mais que sabe o mar,
Dos abismos que sondo, volto exangue,
E para que de mim nada o separe,
Anda um corpo afogado no meu sangue.
1 434
Paio Gomes Charinho

Paio Gomes Charinho

Pois Mia Ventura Tal É, Pecador

Pois mia ventura tal é, pecador!,
que eu hei por molher mort'a prender,
muito per devo a Deus a gradecer
e a servir, enquant'eu vivo for;
porque moiro, u mentira nom há,
por tal molher, que quen'a vir dirá
que moir'eu bem morrer por tal senhor.

Ca, pois eu hei tam gram coita d'amor
de que já muito nom posso viver,
muit'é bem saberem, pois eu morrer,
que moiro com dereit' - e gram sabor
hei eu desto; mais mal baratará,
pois eu morrer, quem mia senhor verá,
ca morrerá como eu moir'ou peor.

Ca nom há no mundo tam sofredor
que a veja que se possa sofrer
que lhe nom haja gram bem de querer.
E por esto baratará melhor:
non'a veer; ca rem nom lhe valrá
e per força bem assi morrerá
com'eu moiro, de bem desejador.

Mais eu, que me faço conselhador
doutros, devera pera mim prender
tal conselho! Mais forom-mi-o tolher
meus pecados, porque vi a melhor
molher que nunca naceu nem será.
E moiro por ela! Pero que há?
Moiro mui bem, se end'é sabedor

ela, pero sei que lhe plazerá
de mia morte – ca nom quis, nem querrá,
nem quer que eu seja seu servidor.
669
Paio Gomes Charinho

Paio Gomes Charinho

Par Deus, Senhor, E Meu Lume E Meu Bem

Par Deus, senhor, e meu lume e meu bem
e mias coitas e meu mui grand'afã
e meus cuidados, que mi coitas dam,
por mesura, dizede-m'ũa rem:
       se mi queredes algum bem fazer;
       se nom já mais nom vos poss'atender.

Mui fremosa, que eu por meu mal vi
sempre, mias coitas, par Deus, ca nom al,
meu coraçom e meu bem e meu mal
dizede-mi, por quanto vos servi:
       se mi queredes algum bem fazer,
       se nom, já mais nom vos poss'atender.

Mui fremosa e muit'aposta senhor,
sempre mui mansa e de boa razom
melhor falar de quantas outras som,
dizede-mi, das bõas a melhor:
       se mi queredes algum bem fazer,
       se nom, já mais nom vos poss'atender.
437
Paio Gomes Charinho

Paio Gomes Charinho

Ua Dona Que Eu Quero Gram Bem

Ũa dona que eu quero gram bem,
por mal de mi, par Deus, que nom por al,
pero que sempre mi fez e faz mal
e fará, direi-vo-lo que m'avém:
       mar, nem terra, nem prazer, nem pesar,
       nem bem, nem mal, nom mi a podem quitar

do coraçom. E que será de mim?
Morto sõ[o], se cedo nom morrer:
ela já nunca bem mi há de fazer,
mais sempre mal; e pero est assi:
       mar, nem terra, nem prazer, nem pesar,
       nem bem, nem mal, nom mi a podem quitar

do coraçom. Ora mi vai peior,
ca mi vem dela, por vos nom mentir,
mal se a vej', e mal se a nom vir,
que de coitas mais cuid[o] a maior:
       mar, nem terra, nem prazer, nem pesar,
       nem bem, nem mal, nom mi a podem quitar.
621
Paio Gomes Charinho

Paio Gomes Charinho

Par Deus, Senhor, de Grado Queria

Par Deus, senhor, de grado queria
se Deus quisesse, de vós ũa rem:
que nom desejass'eu o vosso bem
como desej'a noit'e o dia,
por muit'afã que eu sofr'e sofri
por vós, senhor; e oimais des aqui
poss'entender que faç'i folia.

E pois nom quer a ventura mia
que vos doades do mal que mi avém
por vós, senhor, e maravilh'é-m'en
como nom moir'e morrer devia;
por en rog'a Deus que me valha i,
que sab'a coita que por vós sofr'i,
senom, mia morte mais me valria.
556
Paio Soares de Taveirós

Paio Soares de Taveirós

Meus Olhos, Quer-Vos Deus Fazer

Meus olhos, quer-vos Deus fazer
ora veer tam gram pesar,
onde me nom poss'eu quitar
sem mort'! E nom poss'eu saber
       porque vos faz agora Deus
       tam muito mal, ai olhos meus!

Ca vos farám cedo veer
a por que eu moiro casar;
e nunca me dela quis dar
bem; e nom poss'or'entender
       porque vos faz agora Deus
       tam muito mal, ai olhos meus!

E de quem vos esto mostrar,
nunca vos mostrará prazer,
ca log'eu i cuid'a morrer,
olhos; e nom poss'eu osmar
       porque vos faz agora Deus
       tam muito mal, ai olhos meus!
655
Paio Soares de Taveirós

Paio Soares de Taveirós

Cuidava-M'eu, Quando Nom Entendia

Cuidava-m'eu, quando nom entendia
que mal sem era de vos bem querer,
senhor fremosa, que m'en partiria
atanto que o podess'entender;
mais entend'ora que faç'i mal sem
de vos amar, pero nom me part'en,
ante vos quero melhor todavia.

Eu mi cuidava que nom poderia
de vós viir, mia senhor, senom bem
- ca nom cuidei que me de vós verria
tam muito mal como m'agora vem;
e fazia dereito, ca nom al,
e[m] nom cuidar que me veesse mal,
senhor fremosa, d'u non'[o] havia.

E por mui gram maravilha terria,
senhor, quem ora soubesse de qual
guisa mi vem – e dereito faria,
ca nunca vistes maravilha tal:
ca me vem mal d'u o Deus nom quis dar,
senhor, e coita mui grand'e pesar
de vós, de que mi v[i]ir nom devia.

Por en, senhor, cousimento seria
e mesura grand', assi Deus m'ampar!,
de mi fazerdes vós bem algum dia,
pois tanto mal me fazedes levar;
e se mi bem fezéssedes, senhor,
sabed', a vós x'estaria melhor;
e demais Deus vo-lo gradeceria.
744
Paio Soares de Taveirós

Paio Soares de Taveirós

No Mundo Nom Me Sei Parelh

No mundo nom me sei parelh'
mentre me for como me vai,
ca já moiro por vós e ai,
mia senhor branc'e vermelha!
queredes que vos retraia
quando vos eu vi em saia?
Mao dia me levantei
que vos entom nom vi fea!

E [ai!], mia senhor, des aquelh'
dia, me foi a mi mui lai.
E vós, filha de dom Paai
Moniz, e bem vos semelha
d'haver eu por vós garvaia?
Pois eu, mia senhor, d'alfaia
nunca de vós houve nem hei
valia d'ũa correa.
770