Poemas neste tema
Dor e Desespero
Fernando Pessoa
APOLLO UNTO NEPTUNE
Apollo unto Neptune said:
«Come, I shall drink the sea!»
But Neptune laughed out like a lad
In his boyish jollity,
And cried: «You would drink the earth, if you could,
And infinity.»
And the poet the symbol who understood
Felt his misery.
«Come, I shall drink the sea!»
But Neptune laughed out like a lad
In his boyish jollity,
And cried: «You would drink the earth, if you could,
And infinity.»
And the poet the symbol who understood
Felt his misery.
1 439
Fernando Pessoa
Nem vã esperança vem, não anos vão,
Nem vã esperança vem, não anos vão,
Desesperança, Lídia, nos governa
A consumanda vida.
Só espera ou desespera quem conhece
Que há que esperar. Nós, no labento curso
Do ser, só ignoramos.
Breves no triste gozo desfolhamos
Rosas. Mais breves que nós fingem legar
A comparada vida.
Desesperança, Lídia, nos governa
A consumanda vida.
Só espera ou desespera quem conhece
Que há que esperar. Nós, no labento curso
Do ser, só ignoramos.
Breves no triste gozo desfolhamos
Rosas. Mais breves que nós fingem legar
A comparada vida.
1 444
Fernando Pessoa
VI - Ó sono — Oh! ilusão! — o sono?
VI
O sono — Oh, ilusão! — o sono? quem
Logrará esse vácuo ao qual aspira
A alma que, de aspirar em vão, delira,
E já nem força para querer tem?
Que sono apetecemos? O d'alguém
Adormecido na feliz mentira
Da sonolência vaga que nos tira
Todo o sentir no qual a dor nos vem?
Ilusão tudo! Querer um sono eterno,
Um descanso, uma paz, não é senão
O último anseio desesperado e vão.
Perdido, resta o derradeiro inferno
Do tédio intérmino, esse de já não
Nem aspirar a ter aspiração.
O sono — Oh, ilusão! — o sono? quem
Logrará esse vácuo ao qual aspira
A alma que, de aspirar em vão, delira,
E já nem força para querer tem?
Que sono apetecemos? O d'alguém
Adormecido na feliz mentira
Da sonolência vaga que nos tira
Todo o sentir no qual a dor nos vem?
Ilusão tudo! Querer um sono eterno,
Um descanso, uma paz, não é senão
O último anseio desesperado e vão.
Perdido, resta o derradeiro inferno
Do tédio intérmino, esse de já não
Nem aspirar a ter aspiração.
1 588
Pedro Amigo de Sevilha
Nom Sei No Mundo Outro Homem Tam Coitado
Nom sei no mundo outro homem tam coitado
com'hoj'eu vivo, de quantos eu sei;
e, meus amigos, por Deus, que farei
eu, sem conselho, desaconselhado?
Ca mia senhor nom me quer fazer bem
senom por algo; eu nom lhi dou rem,
nem poss'haver que lhi dê, mal pecado.
E, meus amigos, mal dia foi nado,
pois esta dona sempre tant'amei,
des que a vi, quanto vos eu direi:
quant'eu mais pud'- e nom hei dela grado;
e diz que sempre me terrá em vil
atá que barate um maravedil,
e mais d'um soldo nom hei baratado.
E vej'aqui outros eu, desemparado,
que ham seu bem, que sempr'eu desejei,
por senhos soldos, e gram pesar hei,
por quanto dizem que é mal mercado;
ca, se eu podesse mercar assi
com esta dona, que eu por meu mal vi,
log'eu seria guarid'e cobrado
de quant'afã por ela hei levado.
com'hoj'eu vivo, de quantos eu sei;
e, meus amigos, por Deus, que farei
eu, sem conselho, desaconselhado?
Ca mia senhor nom me quer fazer bem
senom por algo; eu nom lhi dou rem,
nem poss'haver que lhi dê, mal pecado.
E, meus amigos, mal dia foi nado,
pois esta dona sempre tant'amei,
des que a vi, quanto vos eu direi:
quant'eu mais pud'- e nom hei dela grado;
e diz que sempre me terrá em vil
atá que barate um maravedil,
e mais d'um soldo nom hei baratado.
E vej'aqui outros eu, desemparado,
que ham seu bem, que sempr'eu desejei,
por senhos soldos, e gram pesar hei,
por quanto dizem que é mal mercado;
ca, se eu podesse mercar assi
com esta dona, que eu por meu mal vi,
log'eu seria guarid'e cobrado
de quant'afã por ela hei levado.
640
Fernando Pessoa
ON BABY'S DEATH
With the doleful dead man's bell
Ring, oh, ring not Baby's knell!
Let her calmly, calmly sleep,
But with the flow’rs fresh from the dell
Make thou a music wild and deep,
Such as men can but know well
When their souls have learnt to weep.
As if Love's self had gone from earth
Oh, sing a music that has birth
In the suspension of commotion
For thus hath death made our emotion.
Sing thou a song more deep and true
Than the vague, soft song of ocean
The quiet darkness moaning through.
Sing into sad tears our distress!
Oh, let soft sorrow be thy strain!
She's gone beyond our love's caress,
Giving to life more loneliness
And to mystery more pain.
Ring, oh, ring not Baby's knell!
Let her calmly, calmly sleep,
But with the flow’rs fresh from the dell
Make thou a music wild and deep,
Such as men can but know well
When their souls have learnt to weep.
As if Love's self had gone from earth
Oh, sing a music that has birth
In the suspension of commotion
For thus hath death made our emotion.
Sing thou a song more deep and true
Than the vague, soft song of ocean
The quiet darkness moaning through.
Sing into sad tears our distress!
Oh, let soft sorrow be thy strain!
She's gone beyond our love's caress,
Giving to life more loneliness
And to mystery more pain.
1 526
Fernando Pessoa
UMA VOZ NA ESCURIDÃO: Melodia vaga,
Melodia vaga,
Para ti se eleva
E chorando, leva
O teu coração,
Já de dor exausto,
E sonhando o afaga.
Os teus olhos, Fausto,
Não mais chorarão.
Para ti se eleva
E chorando, leva
O teu coração,
Já de dor exausto,
E sonhando o afaga.
Os teus olhos, Fausto,
Não mais chorarão.
1 598
Fernando Pessoa
O coração é pequeno,
O coração é pequeno,
Coitado, e trabalha tanto!
De dia a ter que chorar,
De noite a fazer o pranto...
Coitado, e trabalha tanto!
De dia a ter que chorar,
De noite a fazer o pranto...
1 451
Fernando Pessoa
«Thy will be done» (with a capital T)
«Thy will be done» (with a capital T)
Though ever on earth and on sea
There be the shadow of thy curse
Daily more terrible and worse
Thy will be done!
«Thy Will be done» (with a capital W)
O Man, though many a woe doth trouble you,
Still you pray on, and beat your heart,
And thank the Tyrant in his nest:
«Thy w[ill] be done».
«Thy will Be done» (with a capital B).
Though more than horrid misery
Break the whole earth and wreck the nations
Man cries on, in vile resignations:
«Thy will be done!»
«Thy will be Done» (with a capital D)
All are (...) and all unfree,
And yet from cottage and from hall
The groaning and the dying call
«Thy will be done!»
«Thy W[ill] Be Done» (all with capital letters),
Although God (...) our mind and fetters,
We roll our eyes and groan uncheerly
We join our hands and half-sincerely
Exclaim from life we pay too dearly:
«Thy will be done!»
Though ever on earth and on sea
There be the shadow of thy curse
Daily more terrible and worse
Thy will be done!
«Thy Will be done» (with a capital W)
O Man, though many a woe doth trouble you,
Still you pray on, and beat your heart,
And thank the Tyrant in his nest:
«Thy w[ill] be done».
«Thy will Be done» (with a capital B).
Though more than horrid misery
Break the whole earth and wreck the nations
Man cries on, in vile resignations:
«Thy will be done!»
«Thy will be Done» (with a capital D)
All are (...) and all unfree,
And yet from cottage and from hall
The groaning and the dying call
«Thy will be done!»
«Thy W[ill] Be Done» (all with capital letters),
Although God (...) our mind and fetters,
We roll our eyes and groan uncheerly
We join our hands and half-sincerely
Exclaim from life we pay too dearly:
«Thy will be done!»
1 357
Rui Queimado
Nostro Senhor Deus! E Por Que Neguei
Nostro Senhor Deus! e por que neguei
a mia senhor, quando a eu veer
podia e lhe podera dizer
muitas coitas que por ela levei?
Ca já eu tal temp'houv'e atendi
outro melhor! E aquele perdi!
E outro tal nunca já cobrarei!
Ca já eu tal temp'houve que morei
u a podia eu mui bem veer
e u a vi mui melhor parecer
de quantas donas vi nem veerei!
E pero nunca lh'ousei dizer rem
de quantas coitas levei por gram bem
que lh'eu queria e quer'e querrei
mentr'eu viver! Mais já nom viverei
senom mui pouco, pois que a veer
eu nom poder; ca já nẽum prazer
de nulha cousa nunca prenderei;
ca nunca Deus quer que eu cuid'em al
senom porque lhe nom diss'o gram mal
e a gram coita que por ela hei.
Mais a que sazom que m'eu acordei
- quando a nom posso per rem veer,
nem quando nom poss'i conselh'haver!
Mais eu, cativo, e que receei?
Ca nom mi havia por end'a matar,
nem ar havia peor a estar
dela do que m'hoj'estou, ben'o sei.
Mais de que podia peor estar?
Pois eu nom vej'aquela que amar
sei mais de mim nem quantas cousas sei!
a mia senhor, quando a eu veer
podia e lhe podera dizer
muitas coitas que por ela levei?
Ca já eu tal temp'houv'e atendi
outro melhor! E aquele perdi!
E outro tal nunca já cobrarei!
Ca já eu tal temp'houve que morei
u a podia eu mui bem veer
e u a vi mui melhor parecer
de quantas donas vi nem veerei!
E pero nunca lh'ousei dizer rem
de quantas coitas levei por gram bem
que lh'eu queria e quer'e querrei
mentr'eu viver! Mais já nom viverei
senom mui pouco, pois que a veer
eu nom poder; ca já nẽum prazer
de nulha cousa nunca prenderei;
ca nunca Deus quer que eu cuid'em al
senom porque lhe nom diss'o gram mal
e a gram coita que por ela hei.
Mais a que sazom que m'eu acordei
- quando a nom posso per rem veer,
nem quando nom poss'i conselh'haver!
Mais eu, cativo, e que receei?
Ca nom mi havia por end'a matar,
nem ar havia peor a estar
dela do que m'hoj'estou, ben'o sei.
Mais de que podia peor estar?
Pois eu nom vej'aquela que amar
sei mais de mim nem quantas cousas sei!
611
Fernando Pessoa
Uma boneca de trapos
Uma boneca de trapos
Não se parte se cair.
Fizeste-me a alma em farrapos...
Bem: não se pode partir.
Não se parte se cair.
Fizeste-me a alma em farrapos...
Bem: não se pode partir.
1 626
Fernando Pessoa
Sorrow came and wept
Sorrow came and wept
By my side.
Slow and light she stept
As I walked towards God
By my side.
But I can never find that Great Abode,
And there is darkness in Descried.
By my side.
Slow and light she stept
As I walked towards God
By my side.
But I can never find that Great Abode,
And there is darkness in Descried.
1 253
Rui Queimado
Senhor, Que Deus Mui Melhor Parecer
Senhor, que Deus mui melhor parecer
fez de quantas outras donas eu vi,
ora soubéssedes quant'eu temi
sempr'o que ora quero cometer:
de vos dizer, senhor, o mui gram bem
que vos quero e quanto mal me vem,
senhor, por vós, que eu por meu mal vi.
E sabe Deus que adur eu vim i
dizer-vos como me vejo morrer
por vós, senhor; mais nom poss'al fazer!
E vel por Deus!, doede-vos de mi,
ca por vós moir', esto sabede bem;
e se quiserdes, mia senhor, por en
nom me devíades leixar morrer.
E já que vos comecei a dizer
bem que vos quero, se vos nom pesar,
senhor fremosa, quero-vos rogar
que vos nom pês, por Deus, de vos veer,
nem de falar vosc'; e faredes bem
e gram mesura e, quant'é meu sem,
tenho que nom há por que vos pesar.
E, mia senhor, por eu vosco falar,
nunca vós i rem podedes perder
e guarredes mim; e se o fazer
quiserdes, quero-vos desenganar,
senhor: todos vo-lo terram por bem.
E mia senhor, mais vos direi eu en:
muito perdedes vós em me perder.
Ca, mia senhor, havedes vós mui bem
como: que vos nom hei a custar rem
e servir-vos-ei já, mentr'eu viver.
fez de quantas outras donas eu vi,
ora soubéssedes quant'eu temi
sempr'o que ora quero cometer:
de vos dizer, senhor, o mui gram bem
que vos quero e quanto mal me vem,
senhor, por vós, que eu por meu mal vi.
E sabe Deus que adur eu vim i
dizer-vos como me vejo morrer
por vós, senhor; mais nom poss'al fazer!
E vel por Deus!, doede-vos de mi,
ca por vós moir', esto sabede bem;
e se quiserdes, mia senhor, por en
nom me devíades leixar morrer.
E já que vos comecei a dizer
bem que vos quero, se vos nom pesar,
senhor fremosa, quero-vos rogar
que vos nom pês, por Deus, de vos veer,
nem de falar vosc'; e faredes bem
e gram mesura e, quant'é meu sem,
tenho que nom há por que vos pesar.
E, mia senhor, por eu vosco falar,
nunca vós i rem podedes perder
e guarredes mim; e se o fazer
quiserdes, quero-vos desenganar,
senhor: todos vo-lo terram por bem.
E mia senhor, mais vos direi eu en:
muito perdedes vós em me perder.
Ca, mia senhor, havedes vós mui bem
como: que vos nom hei a custar rem
e servir-vos-ei já, mentr'eu viver.
586
Rui Queimado
Agora Viv'eu Como Querria
Agora viv'eu como querria
veer viver quantos me querem mal:
que nom vissem prazer de si nem d'al,
com'eu fiz sempre des aquel dia
que eu mia senhor nom pude veer.
Ca se nunca depois ar vi prazer,
Deus nom me valha (que poderia)!
E quem vivess'assi, viveria,
per bõa fé, em gram coita mortal,
ca 'si viv'eu por ũa dona qual
sab'hoje Deus e Santa Maria,
que a fezerom melhor parecer
de quantas donas vi e mais valer
em todo bem; e bem veeria
quem visse mia senhor; e diria,
eu [o] sei bem, por ela, que é tal
como vos eu dig'; e se me nom val
Deus (que mi a mostre!), já nom guarria
eu mais no mundo, ca nom hei poder
de já mais aquesta coita sofrer
do que sofr'i; e desejaria
muito mia mort', e querria morrer
por mia senhor, a que prazeria;
e por gram coita, em que me viver
vejo por ela, que perderia.
veer viver quantos me querem mal:
que nom vissem prazer de si nem d'al,
com'eu fiz sempre des aquel dia
que eu mia senhor nom pude veer.
Ca se nunca depois ar vi prazer,
Deus nom me valha (que poderia)!
E quem vivess'assi, viveria,
per bõa fé, em gram coita mortal,
ca 'si viv'eu por ũa dona qual
sab'hoje Deus e Santa Maria,
que a fezerom melhor parecer
de quantas donas vi e mais valer
em todo bem; e bem veeria
quem visse mia senhor; e diria,
eu [o] sei bem, por ela, que é tal
como vos eu dig'; e se me nom val
Deus (que mi a mostre!), já nom guarria
eu mais no mundo, ca nom hei poder
de já mais aquesta coita sofrer
do que sofr'i; e desejaria
muito mia mort', e querria morrer
por mia senhor, a que prazeria;
e por gram coita, em que me viver
vejo por ela, que perderia.
586
Raquel Nobre Guerra
Quanto de Areia e Brita
os nossos mestres estão mortos insisto
não exagero que perdemos coragem
até à mãe que pariu isto da beata vita
deram-nos a cruz latada por onde o diabo trepa
separando por jóias os ocidentais dramas
tudo indica que fosse templo de uma reza trena
um still mudo que dissesse que é urgente tocar
à dura-máter do zoo genético, digo
aos que juram que hão-de salvar isto pela literacia
dêem-me as vossas azias cubro-as de cimento quente
esvazio-vos as barrigas, se havemos de nos ler todos
por mãos gitanas
lembrando a médica teórica da mesótes
foi o oráculo enganando que se enganou
estava torto etc, sublinhe-se a morta facilita
a cerveja assiste no limbo perfeito dos deuses
e seus anexos suicidas
torceram-nos ainda as mãos como molhando-as
sobre a cama não é certo o que dormir
e uma presença de coisas exuberando não chega
para que se imponha ao homem a própria vida
adunámos corpo a corpo multiplicámos fornicámos
até ser virgem a porcaria
deitámo-nos fora com um murro sensualmente
e abrimos as persianas sobre isto
muitos paraísos seguidos de paraísos e muita merda
a cobrir-nos por cima
não exagero que perdemos coragem
até à mãe que pariu isto da beata vita
deram-nos a cruz latada por onde o diabo trepa
separando por jóias os ocidentais dramas
tudo indica que fosse templo de uma reza trena
um still mudo que dissesse que é urgente tocar
à dura-máter do zoo genético, digo
aos que juram que hão-de salvar isto pela literacia
dêem-me as vossas azias cubro-as de cimento quente
esvazio-vos as barrigas, se havemos de nos ler todos
por mãos gitanas
lembrando a médica teórica da mesótes
foi o oráculo enganando que se enganou
estava torto etc, sublinhe-se a morta facilita
a cerveja assiste no limbo perfeito dos deuses
e seus anexos suicidas
torceram-nos ainda as mãos como molhando-as
sobre a cama não é certo o que dormir
e uma presença de coisas exuberando não chega
para que se imponha ao homem a própria vida
adunámos corpo a corpo multiplicámos fornicámos
até ser virgem a porcaria
deitámo-nos fora com um murro sensualmente
e abrimos as persianas sobre isto
muitos paraísos seguidos de paraísos e muita merda
a cobrir-nos por cima
1 265
Rui Queimado
Nostro Senhor! E Ora Que Será
Nostro Senhor! e ora que será
de mim? Que moiro, porque me parti
de mia senhor mui fremosa, que vi
polo meu mal! E de mi que será,
Nostro Senhor? Ou ora que farei?
Ca, de pram, nẽum conselho nom hei,
nem sei que faça, nem que xe será
de mim, que moiro e nom me sei já
nẽum conselh'outro senom morrer!
E tam bom conselho nom poss'haver,
pois que nom cuido nunca veer já
esta senhor, que por meu mal amei,
des que a vi, e am'e amarei
mentr'eu viver; mais nom viverei já
mais des aqui, de pram, per nulha rem,
cuidando sempre no meu coraçom
no mui gram bem que lh'hoj'eu quer', e non'
a veer, nen'a cuidar já per rem
a veer. E com aqueste cuidar
cuid'a morrer; ca nom poss'hoj'osmar
com'eu possa viver per nulha rem,
poila nom vej'; e cuid'em quanto bem
lhe Vós fezestes em tod', ar cuid'al,
em com'a mim fezestes muito mal:
pois já quisestes que lh'eu tam gram bem
quisesse, nom mi fazer alongar
de a veer, e tam a meu pesar!
Nostro Senhor, u me faredes bem?
A la fé, nenlhur, aquesto sei já!
Ca, se a nom vir, nunc'haverei rem.
de mim? Que moiro, porque me parti
de mia senhor mui fremosa, que vi
polo meu mal! E de mi que será,
Nostro Senhor? Ou ora que farei?
Ca, de pram, nẽum conselho nom hei,
nem sei que faça, nem que xe será
de mim, que moiro e nom me sei já
nẽum conselh'outro senom morrer!
E tam bom conselho nom poss'haver,
pois que nom cuido nunca veer já
esta senhor, que por meu mal amei,
des que a vi, e am'e amarei
mentr'eu viver; mais nom viverei já
mais des aqui, de pram, per nulha rem,
cuidando sempre no meu coraçom
no mui gram bem que lh'hoj'eu quer', e non'
a veer, nen'a cuidar já per rem
a veer. E com aqueste cuidar
cuid'a morrer; ca nom poss'hoj'osmar
com'eu possa viver per nulha rem,
poila nom vej'; e cuid'em quanto bem
lhe Vós fezestes em tod', ar cuid'al,
em com'a mim fezestes muito mal:
pois já quisestes que lh'eu tam gram bem
quisesse, nom mi fazer alongar
de a veer, e tam a meu pesar!
Nostro Senhor, u me faredes bem?
A la fé, nenlhur, aquesto sei já!
Ca, se a nom vir, nunc'haverei rem.
621
Rui Queimado
De Mia Senhor Direi-Vos Que Mi Avém
De mia senhor direi-vos que mi avém:
porque a vejo mui bem parecer,
tal bem lhe quer'onde cuid'a morrer.
E pero que lhe quero tam gram bem,
ainda lh'eu mui melhor querria
se podesse... mais nom poderia!
Ca lhe quero tam gram bem que perdi
já o dormir; e, de pram, perderei
o sem mui cedo com coita que hei.
E pero que tod'aquesto perç'i,
ainda lh'eu mui melhor querria
se podesse...mais nom poderia!
Ca lhe quero bem tam de coraçom
que sei mui bem que, se m'ela nom val,
que morrerei cedo, nom há i al.
E com tod'esto, si Deus me perdom,
ainda lh'eu mui melhor querria
se podesse... mais nom poderia,
per nulha rem, par Santa Maria!
Ca, se podesse, log'eu querria!
porque a vejo mui bem parecer,
tal bem lhe quer'onde cuid'a morrer.
E pero que lhe quero tam gram bem,
ainda lh'eu mui melhor querria
se podesse... mais nom poderia!
Ca lhe quero tam gram bem que perdi
já o dormir; e, de pram, perderei
o sem mui cedo com coita que hei.
E pero que tod'aquesto perç'i,
ainda lh'eu mui melhor querria
se podesse...mais nom poderia!
Ca lhe quero bem tam de coraçom
que sei mui bem que, se m'ela nom val,
que morrerei cedo, nom há i al.
E com tod'esto, si Deus me perdom,
ainda lh'eu mui melhor querria
se podesse... mais nom poderia,
per nulha rem, par Santa Maria!
Ca, se podesse, log'eu querria!
749
Judas Isgorogota
A Notícia
"Mano:
Não calcula você como está transformado
Tudo aqui.
As vezes, tenho até de mim mesma indagado
Se tudo não será mais bonito que aí...
Eu bem sei que me engano.
De certo, não será; não será, pois, se fosse
Já teria você voltado ao seu rincão.
Mesmo assim, acredito
Que se o mundo daí é mais bonito
Não poderá, no entanto, ser mais doce
Ao seu bondoso coração
De irmão...
Olhe aqui: a Bibi de quando em vez me fala
De você,
E eu não sei porque após, tristíssima se cala.
Não sei, não sei porque...
Ah! como está bonito o jardim cá de casa!
A parreira cresceu
E apesar de viver sob este céu de brasa,
A roseira já está mais alta do que eu!
A laranjeira está coberta de asas louras,
Asas que vivem lhe fazendo festa...
Mais feliz do que eu...
Mais feliz, digo mal; nenhuma laranjeira,
Nenhuma árvore, enfim, da mais verde floresta,
Que exulte em florações belas e duradouras
Ou que tenha por trono a mais linda clareira,
Poderá ser feliz como quem já sofreu!
E os cravos, os jasmins... Nestes últimos dias,
Não podendo sair a passeio, contente
Fico em casa a ouvir as cantigas suaves
Dos pássaros beijando o jasmineiro em flor.
Só agora é que sei que é o amor tão somente
Quem tece aquelas doces melodias
E alinda as penas trêfegas das aves...
Só agora é que sei que tudo aquilo é amor...
Meu irmão, ao depois que você foi embora
Como tudo mudou...
A mamãe está boa, o papai com saúde,
E o seu trabalho agora
Já não é tão pesado nem tão rude...
A casa inteira, enfim, se transformou
O silêncio é completo. Aquela meninada
Vivaz, com a qual você, quando escrevia,
Sempre implicava solenemente,
Hoje em dia,
Muito embora não lhe fizesse nada,
Não me procura como antigamente...
Adeus. Escreva sempre. O papai o abençoa,
Manda um beijo a mamãe. Como ela é boa...
Como tem resisitido à vida que lhe dou...
É ela quem está esta carta escrevendo,
Esta carta que irá, através da distância,
Dar-lhe a nossa saudade...
Ah! ia-me esquecendo
De uma coisa, afinal, de pequena importância:
— Mano, a paralisia me atacou..."
Não calcula você como está transformado
Tudo aqui.
As vezes, tenho até de mim mesma indagado
Se tudo não será mais bonito que aí...
Eu bem sei que me engano.
De certo, não será; não será, pois, se fosse
Já teria você voltado ao seu rincão.
Mesmo assim, acredito
Que se o mundo daí é mais bonito
Não poderá, no entanto, ser mais doce
Ao seu bondoso coração
De irmão...
Olhe aqui: a Bibi de quando em vez me fala
De você,
E eu não sei porque após, tristíssima se cala.
Não sei, não sei porque...
Ah! como está bonito o jardim cá de casa!
A parreira cresceu
E apesar de viver sob este céu de brasa,
A roseira já está mais alta do que eu!
A laranjeira está coberta de asas louras,
Asas que vivem lhe fazendo festa...
Mais feliz do que eu...
Mais feliz, digo mal; nenhuma laranjeira,
Nenhuma árvore, enfim, da mais verde floresta,
Que exulte em florações belas e duradouras
Ou que tenha por trono a mais linda clareira,
Poderá ser feliz como quem já sofreu!
E os cravos, os jasmins... Nestes últimos dias,
Não podendo sair a passeio, contente
Fico em casa a ouvir as cantigas suaves
Dos pássaros beijando o jasmineiro em flor.
Só agora é que sei que é o amor tão somente
Quem tece aquelas doces melodias
E alinda as penas trêfegas das aves...
Só agora é que sei que tudo aquilo é amor...
Meu irmão, ao depois que você foi embora
Como tudo mudou...
A mamãe está boa, o papai com saúde,
E o seu trabalho agora
Já não é tão pesado nem tão rude...
A casa inteira, enfim, se transformou
O silêncio é completo. Aquela meninada
Vivaz, com a qual você, quando escrevia,
Sempre implicava solenemente,
Hoje em dia,
Muito embora não lhe fizesse nada,
Não me procura como antigamente...
Adeus. Escreva sempre. O papai o abençoa,
Manda um beijo a mamãe. Como ela é boa...
Como tem resisitido à vida que lhe dou...
É ela quem está esta carta escrevendo,
Esta carta que irá, através da distância,
Dar-lhe a nossa saudade...
Ah! ia-me esquecendo
De uma coisa, afinal, de pequena importância:
— Mano, a paralisia me atacou..."
1 181
Rui Queimado
Senhor Fremosa, Vejo-Vos Queixar
Senhor fremosa, vejo-vos queixar
porque vos am'e amei, pois vos vi;
e pois vos desto queixades de mi,
se en dereito queredes filhar,
aque-m'aqui eno vosso poder!
Pois vos de mim nom queixades por al,
senom porque vos quero mui gram bem
– e vejo que vos queixades por en –
senhor de mim e meu bem e meu mal,
aque-m'aqui eno vosso poder!
Senhor, se vós teedes por razom
d'eu por aquesto já morte prender,
nom hei eu que me de vós defender;
e por en, coita do meu coraçom,
aque-m'aqui eno vosso poder,
em que fui sempr'e hei já de seer.
porque vos am'e amei, pois vos vi;
e pois vos desto queixades de mi,
se en dereito queredes filhar,
aque-m'aqui eno vosso poder!
Pois vos de mim nom queixades por al,
senom porque vos quero mui gram bem
– e vejo que vos queixades por en –
senhor de mim e meu bem e meu mal,
aque-m'aqui eno vosso poder!
Senhor, se vós teedes por razom
d'eu por aquesto já morte prender,
nom hei eu que me de vós defender;
e por en, coita do meu coraçom,
aque-m'aqui eno vosso poder,
em que fui sempr'e hei já de seer.
414
Dimas Macedo
Espelho
O corpo avança
apalpo a busca
tateio o labirinto.
Em mim
a dor lacera,
dói a solidão.
Em tudo o ser
reage aos passos
pousados no silêncio:
concluo a exatidão
da minha ausência.
No espelho
a meta se assemelha,
reajo à magia, ao perfil,
afasto a sombra.
apalpo a busca
tateio o labirinto.
Em mim
a dor lacera,
dói a solidão.
Em tudo o ser
reage aos passos
pousados no silêncio:
concluo a exatidão
da minha ausência.
No espelho
a meta se assemelha,
reajo à magia, ao perfil,
afasto a sombra.
932
Dimas Macedo
Subitamente
Subitamente
é preciso que os relógios parem,
porque tudo será pedra sobre pedra,
e tudo.
Não mais restarão
as tuas mãos que necessito,
as tuas palavras sem gestos
que eu procuro...
não mais restará o teu silêncio
que o meu silêncio pede,
pois as armas e os brasões
hão de florir por sobre a infância,
e tudo será rocha.
é preciso que os relógios parem,
porque tudo será pedra sobre pedra,
e tudo.
Não mais restarão
as tuas mãos que necessito,
as tuas palavras sem gestos
que eu procuro...
não mais restará o teu silêncio
que o meu silêncio pede,
pois as armas e os brasões
hão de florir por sobre a infância,
e tudo será rocha.
917
Fernão Garcia Esgaravunha
Tod'home Que Deus Faz Morar
Tod'home que Deus faz morar
u est a molher que gram bem
quer, bem sei eu ca nunca tem
gram coita no seu coraçom,
pero se a pode veer;
mais quem end'há lonj'a viver
aquesta coita nom há par!
Ca, pois u ela est' estar
pode, nom sabe nulha rem
de gram coita, ca, de pram, tem
assi eno seu coraçom:
qual bem lhi quer de lho dizer;
e nom pode gram coita haver
enquant'en'aquesto cuidar.
E quem bem quiser preguntar
por gram coita, mim pregunt'en,
ca eu a sei, vedes per quem:
per mim e per meu coraçom.
E mia senhor mi a faz saber
e o seu mui bom parecer
e Deus, que m'en fez alongar
por viver sempr'em gram pesar
de mim, e por perder o sem
com haver a viver sem quem
sei eu bem no meu coraçom.
Ca nunca já posso prazer,
u a nom vir, de rem prender.
Vedes que coita d'endurar!
E o que atal nom sofrer
non'o devedes a creer
de gram coita, se i falar!
u est a molher que gram bem
quer, bem sei eu ca nunca tem
gram coita no seu coraçom,
pero se a pode veer;
mais quem end'há lonj'a viver
aquesta coita nom há par!
Ca, pois u ela est' estar
pode, nom sabe nulha rem
de gram coita, ca, de pram, tem
assi eno seu coraçom:
qual bem lhi quer de lho dizer;
e nom pode gram coita haver
enquant'en'aquesto cuidar.
E quem bem quiser preguntar
por gram coita, mim pregunt'en,
ca eu a sei, vedes per quem:
per mim e per meu coraçom.
E mia senhor mi a faz saber
e o seu mui bom parecer
e Deus, que m'en fez alongar
por viver sempr'em gram pesar
de mim, e por perder o sem
com haver a viver sem quem
sei eu bem no meu coraçom.
Ca nunca já posso prazer,
u a nom vir, de rem prender.
Vedes que coita d'endurar!
E o que atal nom sofrer
non'o devedes a creer
de gram coita, se i falar!
686
Fernão Garcia Esgaravunha
Quand'eu Mia Senhor Conhoci
Quand'eu mia senhor conhoci
e vi o seu bom parecer
e o gram bem que lhi Deus dar
quis, por meu mal, log'entendi
que por ela ensandecer
me veeriam e levar
grandes coitas e padecer.
Pero que eu soub'entender,
quando os seus olhos catei,
que por ela, e nom por al,
me veeriam morte prender,
por que me log'i nom quitei
d'u a nom visse? É que o mal,
que hoj'eu sofro, receei
muit'e temi; mais eu cuidei,
com mui mal sem que houv'entom,
que podess'eu sofrer mui bem
as grandes coitas que levei
por ela eno coraçom;
e provei-o, e pois, quand'en
me quis partir, nom foi sazom
de m'en partir; ca em outra rem
nom pud'eu cuidar des entom!
e vi o seu bom parecer
e o gram bem que lhi Deus dar
quis, por meu mal, log'entendi
que por ela ensandecer
me veeriam e levar
grandes coitas e padecer.
Pero que eu soub'entender,
quando os seus olhos catei,
que por ela, e nom por al,
me veeriam morte prender,
por que me log'i nom quitei
d'u a nom visse? É que o mal,
que hoj'eu sofro, receei
muit'e temi; mais eu cuidei,
com mui mal sem que houv'entom,
que podess'eu sofrer mui bem
as grandes coitas que levei
por ela eno coraçom;
e provei-o, e pois, quand'en
me quis partir, nom foi sazom
de m'en partir; ca em outra rem
nom pud'eu cuidar des entom!
513
Fernanda Teixeira
Nos Campos do Senhor
Nos campos do senhor,
aqui,
reflito,
penso:
vida
Nos campos do senhor,
aqui compartilho
lágrimas:
me obrigam a pedir:
Oh, tristeza!
Cadê teu fim?
aqui,
reflito,
penso:
vida
Nos campos do senhor,
aqui compartilho
lágrimas:
me obrigam a pedir:
Oh, tristeza!
Cadê teu fim?
861
Fernando Pessoa
O horror de me sentir viver,
O horror de me sentir viver,
De me sentir um sonho ante outros sonhos...
Horroroso sonhar, o horror de ver-me
Mais que ignorante do que é isto tudo.
De me sentir um sonho ante outros sonhos...
Horroroso sonhar, o horror de ver-me
Mais que ignorante do que é isto tudo.
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