Poemas neste tema

Dor e Desespero

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tudo quanto sonhei tenho perdido

Tudo quanto sonhei tenho perdido
Antes de o ter.
Um verso ao menos fique do inobtido,
Música de perder.

Pobre criança a quem não deram nada,
Choras? É em vão.
Como eu choro à beira da erma estrada.
Perdi o coração.

A ti talvez, que não te tens dado,
Daria enfim...
A mim... Sei eu que duro e inato fado
Me espera a mim?


1920
4 500
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Queixei-M'eu Destes Olhos Meus

Queixei-m'eu destes olhos meus;
mais ora, se Deus mi perdom!,
quero-lhis bem de coraçom,
e des oimais quer'amar Deus;
       ca mi mostrou quem hoj'eu vi:
       ai! que parecer hoj'eu vi!

Sempre m'eu d'Amor queixarei,
ca sempre mi dele mal vem;
mais os meus olhos quer'eu bem,
e já sempre Deus amarei;
       ca mi mostrou quem hoj'eu vi:
       ai! que parecer hoj'eu vi!

E mui gram queixum'hei d'Amor,
ca sempre mi coita sol dar;
mais os meus olhos quer'amar,
e quer'amar Nostro Senhor;
       ca mi mostrou quem hoj'eu vi:
       ai! que parecer hoj'eu vi!

E se cedo nom vir quem vi,
cedo morrerei por quem vi.
700
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

U M'eu Parti D'u M'eu Parti

U m'eu parti d'u m'eu parti,
log'eu parti aquestes meus
olhos de veer e, par Deus,
quanto bem havia perdi,
ca meu bem tod'era 'm veer;
e mais vos ar quero dizer:
pero vejo, nunca ar vi.

Ca nom vej'eu, pero vej'eu:
quanto vej'eu nom mi val rem,
ca perdi o lume por en,
porque nom vej'a quem me deu
esta coita que hoj'eu hei,
que jamais nunca veerei,
se nom vir o parecer seu.

Ca já ceguei, quando ceguei;
de pram ceguei eu log'entom,
e já Deus nunca me perdom,
se bem vejo, nem se bem hei;
pero, se me Deus ajudar
e me cedo quiser tornar
u eu bem vi, bem veerei.
663
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

A Bõa Dona Por Que Eu Trobava

A bõa dona por que eu trobava,
e que nom dava nulha rem por mi,
pero s'ela de mi rem nom pagava,
sofrendo coita sempre a servi;
e ora já por ela 'nsandeci,
e dá por mi bem quanto x'ante dava.

E pero x'ela com bom prez estava
e com [tam] bom parecer, qual lh'eu vi,
e lhi sempre com meu trobar pesava,
trobei eu tant'e tanto a servi
que já por ela lum'e sem perdi;
e anda-x'ela por qual x'ant'andava:

por de bom prez; e muito se preçava,
e dereit'é de sempr'andar assi;
ca, se lh'alguém na mia coita falava,
sol nom oía, nem tornava i;
pero, por coita grande que sofri,
oimais hei dela quant'haver cuidava:

sandec'e morte, que busquei sempr'i,
e seu amor me deu quant'eu buscava!
923
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

A Mia Senhor Já Lh'eu Muito Neguei

A mia senhor já lh'eu muito neguei
o mui gram mal que me por ela vem,
e o pesar, e nom baratei bem;
e des oimais já lho nom negarei:
       ante lhi quer'a mia senhor dizer
       o por que posso guarir ou morrer.

Neguei-lho muit'e nunca lhi falar
ousei na coita que sofr'e no mal
por ela; e se me cedo nom val,
eu já oimais lho nom posso negar:
       ante lhe quer'a mia senhor dizer
       o por que posso guarir ou morrer.

Eu lhe neguei sempre, per bõa fé,
a gram coita que por ela sofri;
e eu morrerei por en des aqui,
se lho negar, mais pois que assi é,
       ante lhe quer'a mia senhor dizer
       o por que posso guarir ou morrer.
782
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Cuidou-S'amor Que Logo Me Faria

Cuidou-s'Amor que logo me faria
per sa coita o sem que hei perder;
e pero nunca o pôdo fazer,
mais aprendeu outra sabedoria:
quer-me matar mui cedo por alguém,
e aquesto pod'el fazer mui bem,
ca mia senhor esto quer todavia.

E tem-s'Amor que demandei folia
em demandar o que nom poss'haver;
e aquesto nom poss'eu escolher,
ca logo m'eu en[d'] al escolheria:
escolheria, mentr'houvesse sem,
de nunca já morrer por nulha rem;
ca esta morte nom é jograria.

Ai! que de coita levei em Faria!
E vim aqui a Segóbia morrer!
Ca nom vej'i quem soía veer
meu pouc'e pouc'e per esso guaria.
Mais pois que já nom posso guarecer,
a por que moiro vos quero dizer:
d'i d'alguém éste filha: de Maria.

E o que sempre neguei em trobar,
ora o dix'! E pês a quem pesar,
pois que alguém acabou sa perfia.
406
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Treides Todas, Ai Amigas, Comigo

Treides todas, ai amigas, comigo
veer um home muito namorado,
que aqui jaz cabo nós mal chagado,
e pero hoj'há muitas coitas sigo,
       nom quer morrer, por nom pesar a'lguém
       que lh'amor há, mais el muit'ama alguém.

Já x'ora el das chagas morreria,
se nom foss'o grand'amor verdadeiro.
Preçade sempr'amor de cavaleiro;
ca el, de pram, sobr'aquesto perfia:
       nom quer morrer, por nom pesar a'lguém
       que lh'amor há, mais el muit'ama alguém.

Lealmente ama Joam de Guilhade,
e de nós todas lhi seja loado
e Deus lhi dê, da por que o faz, grado,
ca el, de pram, com mui gram lealdade,
       nom quer morrer, por nom pesar a’lguém
       que lh'amor há, mais el muit'ama alguém.
425
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Estes Meus Olhos Nunca Perderám

Estes meus olhos nunca perderám,
senhor, gram coita, mentr'eu vivo for;
e direi-vos, fremosa mia senhor,
destes meus olhos a coita que ham:
       choram e cegam, quand'alguém nom veem,
       e ora cegam por alguém que veem.

Guisado têm de nunca perder
meus olhos coita e meu coraçom,
e estas coitas, senhor, mĩas som:
mais los meus olhos, por alguém veer,
       choram e cegam, quand'alguém nom veem,
       e ora cegam por alguém que veem.

E nunca já poderei haver bem,
pois que Amor já nom quer nem quer Deus;
mais os cativos destes olhos meus
morrerám sempre por veer alguém:
       choram e cegam, quand'alguém nom veem,
       e ora cegam por alguém que veem.
2 067
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tu és Maria das Dores,

Tu és Maria das Dores,
Tratam-te só por Maria.
Está bem, porque deste as dores
A quem quer que em ti se fia.
1 542
Vasko Popa

Vasko Popa

No suspiro

Pelas estradas da profundeza da alma
Pelas estradas azul-celeste
A erva-daninha viaja
As estradas se perdem
Sob os pés
Enxames de pregos violentam
As plantações cansadas
As lavouras desaparecem
Do campo
Lábios invisíveis
Apagaram o campo
A dimensão triunfa
Encantada pelas palmas de suas mãos lisas
Cinzalisas
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Alexandre S. Santos

Alexandre S. Santos

Por Muito Pouco

E ao léu lançadas
buscam sua própria lógica
as palavras despropositadas,
imbuídas de tarefa lúdica:

Socorro! - um lamento ecoante,
de fibra tensa, tocada,
distendida, balouçante -
dizia a lágrima incontida.

Socorro! - sentia seu orvalhar
no incandescente seio do rosto
dissipar os traços do triste olhar -
pedia à sombra do sol posto.

Socorro! - violentava, o vício,
o templo da gratidão
em atitude de gozo doentio -
pedia, seca, a lágrima, na escuridão.

Socorro! - o vácuo famélico,
cego, justo, punia
o movimento meu, tétrico -
já seu lamento não se via.

Numa inesperada saída:
acorda suarento doidivanas,
deixa de sonho, chegou a alvorada;
sacode essa modorra insana!

872
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não sei que desgosta

Não sei o que desgosta
A minha alma doente.
Uma dor suposta
Dói‑me realmente.

Como um barco absorto
Em se naufragar
1 381
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ODE IN CONSOLATION FOR MISFORTUNE

He that would conquer must a soldier be.
He that a soldier will be must be made
To bear all the hard preface of his trade,
        All the rough training must he bear
Whereby he shall the conqueror
……

All pain, all failure and all woe ­
These are but training we must undergo
Ere those heights of ourselves we full can reach
        Whence God has things to teach
And the discarnate fate that girds us round
        Still more to teach and more to wound.

With patience and with fortitude
        Bear thou thy training rude,
Support with grace thy masters that are days
        Made of pain and amaze,
Thy potion take, even it that potion look
That Socrates for his divinity took.

To Aesculape the cock immolate,
        To the Masters of thy fate
Abandon life, thyself strong above all
        Thy power to let things thee appall,
By the sole virtue of thy power set far
        Over thy power to feel fate's war.

The rest, that thing that shall remain of thee
        When land and sky and sea
Alike are mist in thy unseeing eyes,
        This shall nowise
Mater, nor all when all is thine abode,
        Nor God himself when all is God.
1 404
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Ânsia

Na treva que se fez em torno a mim
Eu vi a carne.
Eu senti a carne que me afogava o peito
E me trazia à boca o beijo maldito.

Eu gritei.

De horror eu gritei que a perdição me possuía a alma
E ninguém me atendeu.

Eu me debati em ânsias impuras
A treva ficou rubra em torno a mim
E eu caí!

As horas longas passaram.

O pavor da morte me possuiu.

No vazio interior ouvi gritos lúgubres
Mas a boca beijada não respondeu aos gritos.

Tudo quedou na prostração.

O movimento da treva cessou ante mim.

A carne fugiu
Desapareceu devagar, sombria, indistinta
Mas na boca ficou o beijo morto.

A carne desapareceu na treva

E eu senti que desaparecia na dor
Que eu tinha a dor em mim como tivera a carne
Na violência da posse.

Olhos que olharam a carne
Por que chorais?
Chorais talvez a carne que foi
Ou chorais a carne que jamais voltará?
Lábios que beijaram a carne
Por que tremeis?
Não vos bastou o afago de outros lábios
Tremeis pelo prazer que eles trouxeram
Ou tremeis no balbucio da oração?
Carne que possui a carne
Onde o frio?
Lá fora a noite é quente e o vento é tépido
Gritam luxúria nesse vento
Onde o frio?

Pela noite quente eu caminhei...
Caminhei sem rumo, para o ruído longínquo
Que eu ouvia, do mar.
Caminhei talvez para a carne
Que vira fugir de mim.

No desespero das árvores paradas busquei consoloção
E no silêncio das folhas que caíam senti o ódio
Nos ruídos do mar ouvi o grito de revolta
E de pavor fugi.

Nada mais existe para mim
Só talvez tu, Senhor.
Mas eu sinto em mim o aniquilamento...

Dá-me apenas a aurora, Senhor
Já que eu não poderei jamais ver a luz do dia.
1 194
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

THE PICTURE

In a saloon that is a sleep
Mine eyes did a picture meet,
And wondrously wise and woefully deep
        And horribly complete.
A profound meaning more than tears
Are seen to give, and human fears,
And human madness and woe,
Come as a scent from that picture weird.

The name of the painter is ignored
        And his purpose none do know.
1 370
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Poeta

A vida do poeta tem um ritmo diferente
É um contínuo de dor angustiante.
O poeta é o destinado do sofrimento
Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza
E a sua alma é uma parcela do infinito distante
O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende.

Ele é o eterno errante dos caminhos
Que vai, pisando a terra e olhando o céu
Preso pelos extremos intangíveis
Clareando como um raio de sol a paisagem da vida.
O poeta tem o coração claro das aves
E a sensibilidade das crianças.
O poeta chora.
Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes
Olhando o espaço imenso da sua alma.
O poeta sorri.
Sorri à vida e à beleza e à amizade
Sorri com a sua mocidade a todas as mulheres que passam.
O poeta é bom.
Ele ama as mulheres castas e as mulheres impuras
Sua alma as compreende na luz e na lama
Ele é cheio de amor para as coisas da vida
E é cheio de respeito para as coisas da morte.
O poeta não teme a morte.
Seu espírito penetra a sua visão silenciosa
E a sua alma de artista possui-a cheia de um novo mistério.
A sua poesia é a razão da sua existência
Ela o faz puro e grande e nobre
E o consola da dor e o consola da angústia.

A vida do poeta tem um ritmo diferente
Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu
Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis.
1 184
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A TEMPLE

I have built my temple — wall and face —
Outside the idea of space,
Complex — built as a full-rigged ship;
I made its walls of my fears,
Its turrets many of weird thoughts and tears —
And that strange temple thus unfurled
Like a death's-head flag, that like a whip
Stinging around my soul is curled,
Is far more real than the world.
1 415
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Vigília

Eu às vezes acordo e olho a noite estrelada
E sofro doidamente.
A lágrima que brilha nos meus olhos
Possui por um segundo a estrela que brilha no céu.

Eu sofro no silêncio
Olhando a noite que dorme iluminada
Pavorosamente acordado à dor e ao silêncio
Pavorosamente acordado!

Tudo em mim sofre.
Ao peito opresso não basta o ar embalsamado da noite
Ao coração esmagado não basta a lágrima triste que desce,
E ao espírito aturdido não basta a consolação do sofrimento.
Há qualquer coisa fora de mim, não sei, no vago
Como que uma presença indefinida
Que eu sinto mas não tenho.

Meu sofrimento é o maior de todos os sentimentos
Porque ele não precisou a visão que flutua
E não a precisará jamais.
A dor estará em mim e eu estarei na dor
Em todas as minhas vigílias...
Eu sofrerei até o último dia
Porque será meu último dia o último dia da minha mocidade.
1 242
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Enrique Banchs

Un hombre gris. La equívoca fortuna
hizo que una mujer no lo quisiera;
esa historia es la historia de cualquiera
pero de cuantas hay bajo la luna
es la que duele más. Habrá pensado
en quitarse la vida. No sabía
que esa espada, esa hiel, esa agonía,
eran el talismán que le fue dado
para alcanzar la página que vive
más allá de la mano que la escribe
y del alto cristal de catedrales.
Cumplida su labor, fue oscuramente
un hombre que se pierde entre la gente;
nos ha dejado cosas inmortales.


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 612 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 289
Carlos Figueiredo

Carlos Figueiredo

Pode-se bater

Pode-se bater
em uma criança
sem acordar os vizinhos.
Comparada a uma criatura
de médio porte
a criança é a vítima ideal.
É fácil sufocar
o seu pequeno grito.

910
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

THE WOMAN IN BLACK

I

My tale is simple, sad and brief -
As simple as all tales of grief,
As brief as all that is ours, though
It seem eternal to its woe;
No tale of glorious deeds or fair,
But one short poem of despair;
Dark as all things where man is caught
In the fine‑poisoned nets of thought.
Here is no flame of love's old fire,
Nor song of pent or free desire,
No thousand herses [?] fill its plan,
But it is centred round one man.
A man? A boy, if boyhood be
That where is sober misery.
About a boy all moves, an elf
Careless of happiness or pelf,
But fated to sing but himself.

I was not born to joy nor love.
The earth below, the sky above
Compel a sense within my soul
That deeply, heavily doth roll,
Like a tremendous, mystic sea
In lands where dreams alone can be;
A feeling that a sadness is,
Weeping in broken‑hearted bliss;
A sense that is a deep despair -
I know not why I should feel this
Before the things that are most fair.

Beauty is more than pleasure's joy:
That which must please is made to cloy,
And Nature cloys not with distaste
But gives a sorrow [?], as of past
Things whence the Present does inherit
Something where [...] is and deep
Beauty delicious in a sleep
That is half‑sadness to the spirit.

For Pleasure is not Joy - we know
Joy lives as sorrow in the heart;
One or the other lives; the dart
That Sorrow kills comes from Joy's bow.
Pleasure and distaste are not so.
Sorrow and Joy are as the strange
And unknown forms of life and change
That are ignored in depths of ocean:
Pure is the depth of their emotion.
Pleasure and Pain are not like these,
But as on surfaces of seas
The alternation of their motion
And shows of shifting without end.
Joy may like the sun's light transcend
The clouds of Pain; Pleasure may be
The face and look of Misery.

III

Ay, Nature chills me with deep fear,
For Nature, to my seeing, spent
With looking on my woes too near,
It is but Mystery eloquent.
The plainest stone, the simplest flower -
All have a meaning deep and vast,
Mocking their living of an hour.
But this significance, that hath past
So oft to poet’s song and word,
Makes them but madmen, even as I,
Speaking in outline [?] sense absurd
Strange thoughts for beings that must die.
But Man to me is dreader still,
The thing of thought, feeling and will,
Which is so dark unto mine eyes
That of the sense he calls his soul
- Let not of seeing speak the mole [?] -
I cannot dream to theorize.

For men, who have wrought creeds and codes
And guided nations by the roads
Of feeling and of speculation,
Have seen as much - nothing - as I
Into the world. All could perceive
That Nature aught doth signify:
Beyond this they could stop or rave.
Most raved and therefore could believe.

Yet I, naturally wrapt about,
Normally, as in feathers the bird,
With hesitation and with doubt,
Find all the world a thing absurd.
Because myself, a part of it,
Am an absurdity unfit.

Too young I learnt to reason coldly
And draw conclusions firmly, boldly,
From thoughts and facts to shatter creeds,
Careless of man's mendacious needs.
Preciseness cast in me the seeds
Of madness, and the soil was good
For that abnormal growth of pain
Whose flowers are red, colour of blood.

Too soon I learned to see too clear,
And therefore nothing now can capture
My heart, to which reasoning is rapture,
That sees night where most poets say
«'Tis day - I see it all - ­'tis day.ª
They sing of joy, T sing of fear.

Alas! Why should I stop thus long
Over the illness of my life,
That has Insanity for wife?
Turn I back with an impulse strong.
Leave I this shallowness and sing.
The deeper sorrow of my song.
1 635
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

FLASHES OF MADNESS — IV

IV.

1.
When thou didst speak but now I felt
        A terror mad and strange.
Conceive it thou. I could have knelt
To thy lips, to their curve, to its change.
        The talking curve of thy lips
        And thy teeth but slightly shown
Were my delirium's waking whips.
        I felt my reason overthrown.

A super-sensual fetichism
        Haunts my deep-raving brain.
Greater than ever grows the abysm
Of my reason's and feeling's schism,
        Cut with the pickaxe of pain.

More than they show all things contain.

2.
Something not of this world doth lie
        In thy smile, in thy lips live turn;
A figure, a form I know not why
That wakes in me — without a sigh
        But with terror I cannot spurn
        With terror wild and mute —
Is it remembrances, is it
        Desires so vague half-known they flit
And not in thought nor sentiment take root?

        My mind grows madder and more fit
        In everything to catch and find
        Meanings, resemblances defined
        By not a form that thought can hit.

Smile not. Thou canst not comprehend!
        What is this? What truth doth sleep
        In these ravings without end
                And beyond notion deep?
Laugh not. Know'st thou what madness is?
Wonder not. All is mysteries.
        Ask not. For who can reply?
Weep for me, child, but do not love me
Who have in me too much that is above me,
        Too much I cannot call «I».
        Weep for the ruin of my mind
Weep rather, child, that things so deep should move me
        To lose the clear thoughts that could prove me
                One worthy of mankind.
1 421
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A vida é um hospital

A vida é um hospital
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.
2 574
Carlos Falck

Carlos Falck

Poema

Minha dor é só minha.
Ganho luz no deserto
enquanto morro
de sede sobre a cal.
Agora, me pensando não resisto,
imagino-me Pierrot
num carnaval.

Caminho no meu silêncio,
sou rio e riso.
Andei meu caminho
com passo indeciso.
Na face que tenho
pus cores sombrias;
nas mãos, só possuo
as coisas vazias
que herdei da aurora
num tempo sem traço.
Agora meu passo
não vai a nenhum
lugar. Ando a esmo
nem sinto-me o mesmo.

770