Poemas neste tema

Dor e Desespero

Martha Medeiros

Martha Medeiros

sou uma mulher esguia

sou uma mulher esguia
pareço chinesa dobrando as esquinas
quando seguida
sumo na multidão


às vezes um pouco nervosa
não sei o que fazer com as mãos


levanto suspeitas no ar
carrego um revólver na bolsa
e um disparo no coração
1 205
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Reviravolta

ela dirige para a vaga no estacionamento enquanto
eu me escoro contra o para-choque de meu carro.
ela está bêbada e seus olhos estão molhados de lágrimas:
“seu filho da puta, você trepou comigo quando não
estava a fim. disse pra eu continuar ligando,
disse pra eu me mudar pra perto da cidade,
e então me disse pra deixar você em paz.”

tudo muito dramático e eu gostando daquilo.
“claro, bem, o que você quer?”

“quero falar com você. quero ir pra sua
casa e falar com você...”

“estou com alguém agora. ela foi buscar um
sanduíche.”

“quero falar com você... demora um pouco pra
superar as coisas. preciso de mais tempo.”

“claro. espere até que ela saia. não somos
desumanos. podemos tomar um drinque juntos.”

“merda,” ela disse, “oh, merda!”

pulou dentro do carro e arrancou.

a outra apareceu: “quem era aquela?”

“uma ex-amiga.”

agora ela se foi e estou aqui sentado e bêbado
e meus olhos parecem molhados de lágrimas.
está tudo muito silencioso e sinto como se um arpão
estivesse atravessado no meio das minhas tripas.
caminho até o banheiro e vomito.

piedade, eu penso, será que a raça humana não sabe nada
sobre piedade?
1 294
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Negra I

A que diz não e nunca
inexorável e negra
a impossível e só
pedra desolação.

Quando imensamente cresce
abraçando desmembrando
toda a distância obscura
estéril inútil cega.

Que silêncios alucinam
a já nunca mensageira
dos obscuros relâmpagos
de um pensamento sem música.

Já nos cinzentos abismos
sem jardim nem horizonte.
Ávida, inerme, enorme
delira palavras vãs.
1 039
Reynaldo Bessa

Reynaldo Bessa

quando cai da rede

quando cai da rede
vi que eu existia mesmo
minha mae apareceu no umbral da porta
logo, meu pai, nu, nasceu de uma sombra e a puxou
ele queria terminar de foder com ela, e
parece que comigo também
os dois, silenciosamente, desapareceram na sombra
vi que eu nao existia mesmo
quando cai da rede.
1 252
Ruy Belo

Ruy Belo

Cinco palavras cinco pedras

Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
E em parte resume o que penso da vida
Passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
E delas vem a música precisa
Para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
Antigamente quando OS deuses eram grandes
Eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 148 | Editorial Presença Lda., 1984
2 098
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O sono é bom pois despertamos dele

O sono é bom pois despertamos dele
Para saber que é bom. Se a morte é sono
Despertaremos dela;
Se não, e não é sono,

Conquanto em nós é nosso a refusemos
Enquanto em nossos corpos condenados
Dura, do carcereiro,
A licença indecisa.

Lídia, a vida mais vil antes que a morte,
Que desconheço, quero; e as Dores colho
Que te entrego, votivas
De um pequeno destino.


19/11/1927
2 805
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

DOLORA

POEMAS DISPERSOS


DOLORA

Dantes quão ledo afectava
Uma atroz melancolia!
Poeta triste ser queria
E por não chorar chorava.

Depois, tive que encontrar
A vida rígida e má.
Triste então chorava já
Porque tinha que chorar.

Num desolado alvoroço
Mais que triste não me ignoro.
Hoje em dia apenas choro
Porque já chorar não posso.


19/11/1908
4 379
Martha Medeiros

Martha Medeiros

tenho náuseas

tenho náuseas
e nostalgia


tomei uma aspirina
e a febre não passou


reli a tua carta
e quase morri de dor
1 071
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Onda que, enrolada, tornas,

Onda que, enrolada, tornas,
Pequena, ao mar que te trouxe
E ao recuar te transtornas
Como se o mar nada fosse,

Porque é que levas contigo
Só a tua cessação,
E, ao voltar ao mar antigo,
Não levas meu coração?

Há tanto tempo que o tenho
Que me pesa de o sentir.
Leva-o no som sem tamanho
Com que te ouço fugir!


09/05/1934
4 695
Martha Medeiros

Martha Medeiros

não tenho testemunhas

não tenho testemunhas
ninguém viu
aquele cara que me atropelou
e fugiu
1 064
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

MARINHA

MARINHA

Ditosos a quem acena
Um lenço de despedida!
São felizes: têm pena...
Eu sofro sem pena a vida.

Doo-me até onde penso,
E a dor é já de pensar,
Órfão de um sonho suspenso
Pela maré a vazar...

E sobe até mim, já farto
De improfícuas agonias,
No cais de onde nunca parto,
A maresia dos dias.


(Presença, nº 5, Junho de 1927)
7 721
Martim Soares

Martim Soares

Ai Mia Senhor! Se Eu Nom Merecesse

Ai mia senhor! se eu nom merecesse
a Deus quam muito mal lh'eu mereci,
doutra guisa pensara El de mi,
ca nom que m'em vosso poder metesse;
mais soube-Lh'eu muito mal merecer
e meteu-m'El eno vosso poder,
u eu jamais nunca coita perdesse.

E, mia senhor, se m'eu desto temesse,
u primeiro de vós falar oí,
guardara-m'eu de vos veer des i;
mais nom quis Deus que meu mal entendesse
e mostrou-mi o vosso bom parecer,
por mal de mim, e nom m'ar quis valer
El contra vós, nem quis que m'al valesse.

E, mia senhor, se eu morte prendesse
aquel primeiro dia em que vos vi
fora meu bem; mais nom quis Deus assi,
ante me fez, por meu mal, que vivesse;
ca me valvera a mim mais de prender
mort'aquel dia que vos fui veer,
que vos eu visse nem vos conhocesse.
553
Martim Soares

Martim Soares

Qual Senhor Devia Filhar

Qual senhor devia filhar
quen'a bem soubess'escolher,
essa faz a mim Deus amar
e essa me tem em poder
e essa est a mia senhor
e essa mi faz o maior
bem deste mundo desejar:

o seu bem, que nom há i par;
tam muito a faz Deus valer,
por bom prez e por bom falar,
per bom sem e per parecer.
E d'atal dona o seu bem
nom sei hoj'eu no mundo quem
o podesse saber osmar,

nen'a mia coit', a meu cuidar,
em que m'hoj'eu vejo viver;
ca m'hei de tal don'a guardar,
de qual mi ora oístes dizer:
de a veer; ca, se a vir,
fará-m'ela de si partir
mui trist'e muit'a meu pesar.

Por en nom devia quitar
os seus olhos de a veer
a quem Deus quisesse guisar
de lho querer ela sofrer;
por que os quitaria d'i?
Por tal coit'haver come mi?
Ante se devia matar!
358
Martim Soares

Martim Soares

Já, Mia Senhor, Nem Um Prazer

Já, mia senhor, nem um prazer
nom mi fará mui gram prazer
sem vosso bem;
ca outro bem
nom mi fará coita perder
mentr'eu viver;
e quem viver
haver-mi-á pois est'a creer.

E que mal conselho filhei
aquel dia em que filhei
vós por senhor!
Ca, mia senhor,
sempr'eu mia morte desejei;
meu mal cuidei
porque cuidei
d'amar-vos; já mais que farei?

Que farei eu com tanto mal,
- pois vosso bem tod'é meu mal?
Pois est assi,
morrer assi,
com'hom'a que, senhor, nom val
a coita tal,
que nunca tal
houv'outr'home, d'amor nem d'al.

Como que me faz desejar
Deus vosso bem, por desejar
a mia mort'eu;
pero sei eu,
pois que me Deus nom quer quitar
d'em vós cuidar,
ca, a meu cuidar,
nom m'haverá mort'a filhar.
686
Martim Soares

Martim Soares

Nunca Bom Grad'amor Haja de Mi

Nunca bom grad'Amor haja de mi
nem d'al, porque me mais leixa viver;
e direi-vos porque o dig'assi
e a gram coita que mi o faz dizer:
hei gram pavor de me fazer levar
coit'alongadament'e m'ar matar,
por me fazer peor morte prender.

Por en me leixa viver des aqui
Amor; e ben'o pod'hom'entender;
ca muit'há que lh'eu morte mereci,
se dev'homem per amar a morrer.
Mais nom me mata nem me quer guarir!
Pero nom m'hei del, pois viv', a partir,
nom me quer [el] matar a meu prazer.

E d'Amor nunca um prazer prendi,
por mil pesares que m'el faz sofrer;
e a senhor que eu por meu mal vi
nom me quer el contra ela valer,
nem dar-m'esforço, que m'era mester.
Pois m'esto faz e matar nom me quer,
por que lh'hei eu tal vid'agradecer?

Ca des que m'eu em seu poder meti
nom desejei bem que podess'haver;
sequer mia morte desejei des i,
que ant'eu muito soía temer.
E Amor nom me mata nem mi val,
mais matar-m'-ia, se fosse meu mal,
ou eu cuidass'em mia mort'a perder.
605
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O LOUCO

O LOUCO

E fala aos constelados céus
De trás das mágoas e das grades
Talvez com sonhos como os meus...
Talvez, meu Deus!, com que verdades!

As grades de uma cela estreita
Separam-no de céu e terra...
Às grades mãos humanas deita
E com voz não humana berra...


30/10/1928
5 355
Martim Soares

Martim Soares

Nostro Senhor! Como Jaço Coitado

Nostro Senhor! como jaço coitado,
morrend'assi em tal poder d'Amor,
que me tolheu o sem e, mal pecado!,
al me tolh'el, de que mi faz peor:
tolhe-me vós, a que nom sei rogar
pola mia coita, nem vo-la mostrar
– assi me tem end'Amor obridado.

E grave dia com Amor foi nado,
que me de coita sempre sofredor
fez e m'ar faz viver tam alongado
d'u eu os olhos vi da mia senhor
e d'u eu vi o seu bom parecer;
se m'est'a mim podess'escaecer,
log'eu seria guarid'e cobrado.

E saberia, d'algum bem, mandado,
de que hoj'eu nom sõo sabedor
– mais sei que éste desej'e cuidado,
e como morre quem jaz na maior
coita d'amor das que eu nunca vi;
e, mal pecado!, moir'hoj'eu assi,
de mia senhor long'e desemparado.

E dereit'é, ca fui mal conselhado
que lhe falei, pero m'houv'en sabor,
ca entendi que foi tam sem seu grado,
que lhe fugi da terra com pavor
que houve dela; e fiz mui mal sem,
ca nom mi havi'a dizer nulha rem
ond'eu nem outrem fosse despagado.
712
Martim Soares

Martim Soares

Maravilho-M'eu, Mia Senhor

Maravilho-m'eu, mia senhor,
de mim, como posso sofrer
quanta coita me faz haver,
des que vos vi, o voss'amor;
e maravilho-me log'i
de vós, por leixardes assi
voss'hom'em tal coita viver.

Aquesto dig'eu, mia senhor,
por quanto vos quero dizer:
porque vos fez Deus entender
de todo bem sempr'o melhor;
e a quem Deus tanto bem deu
devia-s'a nembrar do seu
homem coitado e a doer

de tam coitado, mia senhor,
com'hoj'eu vivo, que poder
nom hei de gram coita perder
per al já, se per vós nom for;
e se quiserdes, perderei
coita per vós ou morrerei;
ca todo é em vosso prazer.

E a mia coita, mia senhor,
nom vo-la houvera a dizer,
ante me leixara morrer,
senom por vós, que hei pavor
de que têm, senhor, por mal
de quem a seu homem nom val,
pois poder há de lhi valer.

E pois vos outro bem nom fal,
por Deus, nom façades atal
torto qual oídes dizer.
724
Martim Soares

Martim Soares

Senhor Fremosa, Pois Me Nom Queredes

Senhor fremosa, pois me nom queredes
creer a coita 'm que me tem Amor,
por meu mal é que tam bem parecedes
e por meu mal vos filhei por senhor
e por meu mal tam muito bem oí
dizer de vós e por meu mal vos vi:
pois meu mal é quanto bem vós havedes.

E pois vos vós da coita nom nembrades,
nem do afã que mi o Amor faz sofrer,
por meu mal vivo mais ca vós cuidades
e por meu mal me fezo Deus nacer
e por meu mal nom morri u cuidei
como vos viss'e por meu mal fiquei
vivo, pois vós por meu mal rem nom dades.

[E] desta coita 'm que me vós tẽedes,
em que hoj'eu vivo tam sem sabor,
que farei eu, pois mi a vós nom creedes?
Que farei eu, cativo, pecador?
Que farei eu, vivendo sempre assi?
Que farei eu, que mal dia naci?
Que farei eu, pois me vós nom valedes?

E pois que Deus nom quer que me valhades,
nem me queirades mia coita creer,
que farei eu? Por Deus, que mi o digades!
Que farei eu, se logo nom morrer?
Que farei eu, se mais a viver hei?
Que farei eu, que conselh'i nom sei?
Que farei eu, que vós desemparades?
1 289
Martim Soares

Martim Soares

Meu Senhor Deus, Se Vos Prouguer

Meu senhor Deus, se vos prouguer,
tolhed'Amor de sobre mi
e nom me leixedes assi
em tamanha coita viver;
ca vós devedes a valer
a tod'home que coita houver.

Ca me seria mais mester;
ca me tem hoj'el na maior
coita 'm que home tem Amor.
E Deus, se vos for em prazer,
sacade-me de seu poder,
e pois fazede-mi al que quer.

E des que mi Amor nom fezer
a coita que levo levar,
Deus! nunca por outro pesar
haverei sabor de morrer
– o que eu nom cuido perder,
mentr'Amor sobre mim poder.
550
Martim Soares

Martim Soares

Mal Conselhado Que Fui, Mia Senhor

Mal conselhado que fui, mia senhor,
quando vos fui primeiro conhocer!
Ca nunca pudi gram coita perder,
nem perderei já, mentre vivo for;
nem viss'eu vós, nem quem mi o conselhou,
nem viss'aquel que me vos amostrou,
nem viss'o dia 'm que vos fui veer!

Ca des entom me fez o voss'amor
na mui gram coita 'm que vivo viver;
e, por mi a nom leixar escaecer
e mi a fazer cada dia maior,
faz-me, senhor, em vós sempre cuidar
e faz-mi a Deus por mia morte rogar
e faz a vós a mim gram mal fazer.

E quem se fez de mim conselhador
que eu viss'o vosso bom parecer,
aquant'eu posso de vós entender,
de mia morte houve, e de meu mal, sabor;
e, mal pecado!, nom moir'eu por en,
nem moiro, porque seria meu bem,
nem moiro, porque queria morrer.

E porque mi seria mui melhor
morte ca mais esta coita sofrer,
pois nom mi há prol de vo-la eu dizer,
nem vos faz outrem por mim sabedor,
nem mi val rem de queixar-m'end'assi,
nem me val coita que por vós sofri,
nem mi val Deus, nem me poss'eu valer.

Pero, entanto com'eu vivo for,
queixar-m'-ei sempre de vós e d'Amor,
pois conselh'outro nom poss'i prender.
703
Martim Soares

Martim Soares

O Que Conselh'a Mim de M'eu Quitar

O que conselh'a mim de m'eu quitar
de mia senhor, porque me nom faz bem,
e me por tam poderos'ora tem
de m'en partir, nunca el houv'amor
qual hoj'eu hei, nem viu esta senhor
com que Amor fez a mim començar.

Mais non'a viu e vai-mi agora dar
tal conselho, em que perde seu sem;
ca, se a vir ou lha mostrar alguém,
bem me faç'eu d'atanto sabedor:
que me terrá mia morte por melhor
ca me partir do seu bem desejar.

Ca, se el vir o seu bom semelhar,
desta dona por que mi a mi mal vem,
nom m'ar terrá que m'eu possa per rem
dela partir, enquant'eu vivo for,
nem que m'end'eu tenha por devedor,
nem outr'home que tal senhor amar.

E pois la vir, se poder-s'i guardar
de lh'aviir com'end'a mim avém,
bem terrei eu que escapará en;

mais d'ũa rem hei ora gram pavor:
des que a vir, este conselhador
de nom poder mim nem si conselhar.
350
Martim Soares

Martim Soares

Senhor, Pois Deus Nom Quer Que Mi Queirades

Senhor, pois Deus nom quer que mi queirades
creer a coita que me por vós vem,
por Deus, creede ca vos quero bem
e jamais nunca m'outro bem façades;
e se mi aquesto queredes creer,
poderei eu mui gram coita perder;
e vós, senhor, nom sei que i perçades

em guarirdes voss'homem, que matades,
e que vos ama mais que outra rem;
por mim vos digo, que nom acho quem
me dê conselho, nem vós nom mi o dades.
Pero Deus sabe quam de coraçom
hoj'eu vos amo e, se El me perdom,
desamo mi porque me desamades,

per bõa fé, mia senhor; e sabiades
ca por aquest'hei perdudo meu sem;
mais se Deus quiser que vos dig'alguém
quam bem vos quero e que o vós creades,
poderei eu meu sem cobrar des i;
e se a vós prouguer que seja assi,
sempre por en bõa ventura hajades.
558
Martim Soares

Martim Soares

Em Tal Poder, Fremosa Mia Senhor

Em tal poder, fremosa mia senhor,
sõo de vós qual vos ora direi:
que bem ou mal, enquant'eu vivo for,
qual vos prouguer, de vós atendê-l'-ei;
ca se me vós, senhor, fezerdes bem,
bem me verrá de Deus e doutra rem;
e se me vós quiserdes fazer al,
Amor e Deus logo me farám mal.

E entend'eu, fremosa mia senhor,
mentr'eu vos vir, que nunca perderei
gram bem de Deus, nem de vós, nem d'Amor,
ca, pois vos vejo, de tod'eu bem hei;
e direi-vos, mia senhor, que mi avém:
amor de Deus prend'[e] esforç'e sem,
mentre vos vejo; mais pois vos nom vir,
esforç'e sem e Deus ham-mi a falir.

E des entom, fremosa mia senhor,
nunca de Deus nem de mim prenderei
prazer, nem bem de que haja sabor;
ca, mia senhor, de qual guisa haverei
bem deste mundo, pois me for daquém?
Ca perderei quanto prazer me vem,
pois vos nom vir, e perderei des i
Deus, mia senhor, e o seu bem e mi.

E direi-vos, fremosa mia senhor,
pois vos nom vir, quam perdudo serei:
perderei sem e esforç'e pavor
e des i bem nem mal nom sentirei;
e, mia senhor, al vos ar direi en:
nom mi terrá, conselho que me dem,
dano, nem prol, nem pesar, nem prazer
e per qual guisa m'hei mais a perder.

Ca perdud'é, senhor, a meu cuidar,
quem perde sem e prazer e pesar.
698