Poemas neste tema

Dor e Desespero

Carlos Vogt

Carlos Vogt

Ateliê

Recorta a tarde
tesoura
da memória

de um lado
o ponto por ponto
cruz
da nau tecida

do outro
apagada imagem
uma dor
de agulhas

entre
a mesa posta
o travesseiro brando:
retalhos


In: VOGT, Carlos. Cantografia: o itinerário do carteiro cartógrafo. Pref. Antonio Candido. São Paulo: Massao Ohno: Hucitec; Brasília: INL, 1982. Poema integrante da série Redondos
1 161
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Nunca [A]Tam Gram Torto Vi

Nunca [a]tam gram torto vi
com'eu prendo d'um infançom,
e quantos ena terra som,
todo'lo têm por assi:
o infançom, cada que quer,
vai-se deitar com sa molher
e nulha rem nom dá por mi.

E já me nunca temerá,
ca sempre me tev'em desdém,
des i ar quer sa molher bem
e já sempr'i filhos fará
- siquer três filhos que fiz i,
filha-os todos pera si:
o Demo lev'o que m'en dá!

Em tam gram coita viv'hoj'eu
que nom poderia maior:
vai-se deitar com mia senhor
e diz do leito que é seu
e deita-se a dormir em paz;
des i, se filh'ou filha faz,
nõn'o quer outorgar por meu!
550
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Balada do Enterrado Vivo

Na mais medonha das trevas
Acabei de despertar
Soterrado sob um túmulo.
De nada chego a lembrar
Sinto meu corpo pesar
Como se fosse de chumbo.
Não posso me levantar
Debalde tentei clamar
Aos habitantes do mundo.
Tenho um minuto de vida
Em breve estará perdida
Quando eu quiser respirar.

Meu caixão me prende os braços.
Enorme, a tampa fechada
Roça-me quase a cabeça.
Se ao menos a escuridão
Não estivesse tão espessa!
Se eu conseguisse fincar
Os joelhos nessa tampa
E os sete palmos de terra
Do fundo à campa rasgar!
Se um som eu chegasse a ouvir
No oco deste caixão
Que não fosse esse soturno
Bater do meu coração!
Se eu conseguisse esticar
Os braços num repelão
Inda rasgassem-me a carne
Os ossos que restarão!

Se eu pudesse me virar
As omoplatas romper
Na fúria de uma evasão
Ou se eu pudesse sorrir
Ou de ódio me estrangular
E de outra morte morrer!

Mas só me resta esperar
Suster a respiração
Sentindo o sangue subir-me
Como a lava de um vulcão
Enquanto a terra me esmaga
O caixão me oprime os membros
A gravata me asfixia
E um lenço me cerra os dentes!
Não há como me mover
E este lenço desatar
Não há como desmanchar
O laço que os pés me prende!

Bate, bate, mão aflita
No fundo deste caixão
Marca a angústia dos segundos
Que sem ar se extinguirão!

Lutai, pés espavoridos
Presos num nó de cordão
Que acima, os homens passando
Não ouvem vossa aflição!
Raspa, cara enlouquecida
Contra a lenha da prisão
Pesando sobre teus olhos
Há sete palmos de chão!
Corre mente desvairada
Sem consolo e sem perdão
Que nem a prece te ocorre
À louca imaginação!
Busca o ar que se te finda
Na caverna do pulmão
O pouco que tens ainda
Te há de erguer na convulsão
Que romperá teu sepulcro
E os sete palmos de chão:
Não te restassem por cima
Setecentos de amplidão!
1 097
José Saramago

José Saramago

Não Há Mais Horizonte

Não há mais horizonte. Outro passo que desse,
Se o limite não fosse esta ruptura,
Era em falso que o dava:
Numa baça cortina indivisível
De espaço e duração.
Aqui se juntarão as paralelas,
E as parábolas em rectas se rebatem.
Não há mais horizonte. O silêncio responde.
É Deus que se enganou e o confessa.
1 109
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Por Quê?

Amor meu, minhas penas, meu delírio,
aonde quer que vás, irá contigo
meu corpo, mais que um corpo, irá um’alma,
sabendo embora ser perdido intento

o de cingir-se forte de tal modo
que, desde então se misturando as partes,
resultaria o mais perfeito andrógino
nunca citado em lendas e cimélios.

Amor meu, punhal meu, fera miragem
consubstanciada em vulto feminino,
por que não me libertas de teu jugo,
por que não me convertes em rochedo,

por que não me eliminas do sistema
dos humanos prostrados, miseráveis,
por que preferes doer-me como chaga
e fazer dessa chaga meu prazer?
1 084
João Lobeira

João Lobeira

Se Soubess'ora Mia Senhor

Se soubess'ora mia senhor
que muit'a mi praz d'eu morrer
ante ca sa ira temer,
(que houv' e que sempre temi
mais ca morte, des que a vi)
pesar-lh'-ia mais doutra rem
d'eu morrer, pois a mi praz en.

Esto entend'eu do seu amor,
ca, des que a vi, vi-lh'haver
sempre pesar do meu prazer
e sempre sanha contra mi;
e por esto entend'eu assi:
que da morte, que m'ora vem,
pesar-lh'-á, porque é meu bem.

Desto sõo já sabedor;
e ar prazer-mi-á de saber:
des que eu mort'[assi] prender,
que[m] lhi sofrerá des ali
tantas coitas com'eu sofri?
Eu creo que lhi falrá quem,
pero m'ela tev'em desdém,

des que a vi; e se pavor
eu nom houvesse de viver
(o que Deus nom leixe seer),
diria quanto mal prendi
dela, por bem que a servi,
e de como errou o sem
contra mi; mais nom mi convém.
525
João Mendes de Briteiros

João Mendes de Briteiros

Tal Ventura Quis Deus a Mim, Senhor

Tal ventura quis Deus a mim, senhor,
dar contra vós, que nom posso partir
meu coraçom de vos gram bem querer,
assi me tem forçad'o voss'amor,
de tal força que nom posso fugir
a esses olhos, que forom veer
aquestes meus, mia senhor, por meu mal.

Pero bem sabe Deus, que pod'e val,
que sempr'eu pugi no meu coraçom
em vos servir, porque vos sei amar
mais doutra rem; mais mia ventura tal
é contra vós, que nenhum galardom
nom hei de vós, senom quando catar
vou esses olhos, que por meu mal vi.

Que eu vi sempre por gram mal de mi
e por gram mal daquestes olhos meus
que vos virom, mia senhor; e por en
a mia ventura me traj'or'assi
atam coitado, assi me valha Deus,
por esses olhos, que per nulha rem
perder nom posso a gram coita que hei.
752
João Mendes de Briteiros

João Mendes de Briteiros

Estranho Mal E Estranho Pesar

Estranho mal e estranho pesar
é hoje o meu de quantos outros som
no mundo já, pois [a] mia senhor nom
praz que eu moira, mais quer que assi
haj'a viver a gram pesar de mim.
E por aquesto, assi Deus me perdom,
muito m'é grave de viver e nom
posso viver se est'hei a passar.

E por en sempre todo[s] m'estranhar
devia[m] esto, com mui gram razom,
pois as mias coitas o meu coraçom
sofrer nom pode; mais sei que, des i,
tanto [so]fresse[m] com'eu sofr'aqui:
hei a viver sem grad'e, des entom,
viv'em pesar; por en me[u] coraçom
nom pode já tanto mal endurar.
635
José Carlos Souza Santos

José Carlos Souza Santos

O Romanceiro

Vinte e quatro sóis
acesos no meu caminho

um grito coagulado
na fuga desperto
e debruçada nos meus olhos
caminhaste o filho da noite
inteiro

Vinte e quatro sóis
acesos dentro de mim

um grito assassinado
no peito
deflorando o sono da fuga
nas imaturas distâncias
onde perdido deixei
o cântaro último da fé

Penetrando nos meus olhos
violentaste o aviso
da proibida entrada
perambulando
como se fosse quarta-feira
e colhendo
numa primavera de sonhos
nos jardins do que fui
vinte e quatro sóis azuis
que sem saber
p´ra você eu guardei

Na avenida de cantos
renasceste do meu peito no teu mundo
pisando as pedras do meu caminho

e lançaste o pregão ao vento :

- Ele está renascido
estive lá dentro dele
e vi flores e prantos
e notas e dores
e cantos
nos recantos escondidos
de não mostrar a ninguém
fui estranha em ruelas sem passado
conseguindo o norte encontrar
depois de caminhos tantos

- Sim, eu sei, tu descobriste
o grito há tanto escondido

Nasci em tempo de festival
meu mundo incompreendido
tem notas que são espinhos
tem flores embrutecidas
rebentadas no meu peito
tem cantos são sentidos
que às vezes eu mesmo sinto
ter tão estranho nascido

- Estranho, nasceste sim
estranho cantor eu sei
na estranheza do teu canto
existe um outro encanto
embora não saibas qual seja
é o encanto das flores mutiladas
na fronteira dos teus olhos
é a fuga dos teus lenços
num cais já vazio
é o grito acorrentado
no alagado do teu peito

O teu encanto é o gemido guardado
e nunca soluçado
nas tuas mãos de poeta !

- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito,
e sei que nos limites
do que sou
ou nas amarras do meu verso
como pomba artesã
na minha lira te encontro

- Poeta, o meu nome é infortúnio
somos pó na mesma estrada
e nem assim nos encontramos
somos água de um só rio
que não corre o mesmo leito
no teu peito a esperança
é terra já amanhada
no meu corre a solidão
na roca do meu sonhar

- Teu suspiro não assino
nem teu pranto faço meu
no tear da esperança
há um riso que se alcança
quando o linho dá um nó
há um vento que levanta
do passado o areal
e um sol que o sepulta
quando o fuso entristecido
faz da curva o seu caminho

- A esperança rebentada no meu peito
poeta
é uma flor desesperada,
traz no seio o escarlate
das visões de fome e guerra,
nas veias abertas o choro
de crianças abandonadas
das farpas que me protegem
emanam dores e gritos
não há roca nem esperança
p´ra quem vive de amanhar
choro, dor, lamento e pranto

- Infortúnio, Infortúnio,
não há poço sem um fundo
nem túnel sem uma luz
a corda não é sempre
do enforcado o colar
nem a semente fenece
sem antes dela brotar
o fruto, a flor e a sombra
e mesmo nas mãos vermelhas
das abelhas lívidas
há um néctar
de esperança a ser sugado

- Poeta ! sonhas e deliras
quando esperanças alardeia
desespero é o cavalo
ao qual me encilhei
as abelhas de que falas
aninhadas se encontram
no ventre das minhas aranhas
minhas flores enlouquecidas
giram ao redor de um fuso
sem linha no meu tear

- Donde vens Infortúnio !
onde as sombras
que te abrigam

- Venho de longe e de perto
do tempo sou viajante
nas canaletas da dor
fui Sabra, Chatilla,
Treblinka, Sorbibor

Quem me viu Sabra
conhece o amontoado das minhas
fugas
e a profundidade da angústia
revelada na aspereza dos meus
cactos
mas sabia quanto eu era terna
e doce

Quem me conheceu Chatilla
sabia-me flor nascida em lodo,
de mãos desarmadas,
e vivendo como uma rosa
pelo espaço de uma manhã

Quando Sabra e Chatilla fui
tive os braços levantados
e os gestos inconclusos
e me vejo ainda nas flores
rebentadas
no peito daquelas mulheres

Não procures Poeta
o insondável com teu verso desvendar
somos do mesmo caminho as
pedras
e nem assim nos conhecemos
somos da mesma luz a cor
e nem assim tu me iluminas

- Infortúnio, Infortúnio !
há mil anos nossas palavras são sussurradas
e encalacradas ao peito
sem ouvidos a ouvi-las
e dizer que a tua voz me é conhecida
como a serra que me teve em berço,
e dizer que sei teu nome
embora de Infortúnio não a chamasse
nos meus sonhos, rota e triste
te chamava Liberdade ... Liberdade

- Morto o tempo Poeta
em que Liberdade fui chamada,
antes aurora brilhante
houve vácuo, mais nada,
daquela imagem altiva a sombra
se apagou
nem o eco, da solidão o amante,
guardou os meus passos, na poeira
desandados

- Infortúnio ou Liberdade
em dor também me vi envolto
passou como um vendaval
destruiu, arrancou,
renasci sem o riso
insensível ao pranto
e, com uma estrela
incrustada no peito
me fiz poeta do esquecimento

Como a fênix
das cinzas renascida
esbocei levantar-me do desespero
tentando esquecer as mãos que se estenderam
para apagar as minhas estrelas

As minhas asas
dilatadas
se enfunavam de sonho e fantasia
e no alto do meu horizonte
um rosto vagava, diluído

Eras tu Liberdade,
a pomba órfã
voluntária e sozinha
voando contra o Levante,
as esquecidas asas
não voavam em meu caminho
e o vento, meu irmão,
aprendeu a criar sombras e
nuvens de não ver

- E eu que queria uma luz acender
no ventre das estrelas
enlouquecidas de sombras
contentei-me em apagar a chama
que por meu nome o peito ardia

Cimentada nos meus passos
trago viva a esperança
de no galope azul do vento
nos quatro cantos do mundo
o meu nome ecoar .
Invadindo os teus olhos
percebi a antiga chama
e no gemido guardado
e nunca soluçado nas tuas mãos
de poeta
aninho a esperança de brilhar
a minha luz

- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito

1 127
João Mendes de Briteiros

João Mendes de Briteiros

Que Pret'esteve de Me Fazer Bem

Que pret'esteve de me fazer bem
Nostro Senhor, e nom mi o quis fazer,
quand'entendeu que podera morrer
por vós, senhor! Que logo nom morri!
Matando-m'El fezera-me bem i,
tal que tevera que m'era gram bem.

Ante me quis leixar perder o sem
por vós, senhor; des i soub'alongar
meu bem, que era em mi a morte dar,
e quis que já sempre eu vivess'assi,
em gram coita como sempre vivi,
e que m'houvesse perdudo meu sem.

E vej'eu que mal coraçom me tem
Nostro Senhor, assi El me perdom:
nom me deu morte, que de coraçom
Lhe roguei sempr'e muito Lha pedi,
mais deu-me vida, a pesar de mim,
desejando a que m'em pouco tem.

Atal ventura quis El dar a mim:
fez-me veer-vos e ar fez log'i
a vós que nom déssedes por mi rem.
633
João Mendes de Briteiros

João Mendes de Briteiros

Eia, Senhor, Aque-Vos Mim Aqui!

Eia, senhor, aque-vos mim aqui!
Que coita houvestes, ora, d'enviar
por mim? Nom foi senom por me matar,
pois todo meu mal teedes por bem:
por en, senhor, mais val d'eu ir daquém
ca d'eu ficar, sem vosso bem fazer,

de mais haver esses olhos veer
e desejar o vosso bem, senhor,
de que eu sempre foi desejador;
e meus desejos e meu coraçom
nunca de vós houveram se mal nom;
e, por est', é milhor de m'ir, par Deus,

u eu nom possa poer estes meus
olhos nos vossos, de que tanto mal
me vem, senhor; e gram coita mortal
me vós destes eno coraçom meu;
e, mia senhor, pero que m'é mui greu,
nulh'home nunca mi o [e]straĩará.

E, pois m'eu for, mia senhor, que será?
Pois mi assi faz o voss'amor ir já,
como vai cervo lançad'a fugir.
508
João Soares Coelho

João Soares Coelho

Em Grave Dia, Senhor, Que Vos Vi

Em grave dia, senhor, que vos vi,
por mi e por quantos me querem bem!
E por Deus, senhor, que vos nom pês en!
E direi-vos quanto per vós perdi:
perdi o mund'e perdi-me com Deus,
e perdi-me com estes olhos meus,
e meus amigos perdem, senhor, mim.

E, mia senhor, mal dia eu naci
por tod'este mal que me por vós vem!
Ca per vós perdi tod'est'e o sem
e quisera morrer e nom morri;
ca me nom quiso Deus leixar morrer
por me fazer maior coita sofrer,
por muito mal que me lh'eu mereci.

Ena mia coita, pero vos pesar
seja, senhor, já quê vos falarei,
ca nom sei se me vos ar veerei:
tanto me vej'em mui gram coit'andar
que morrerei por vós, u nom jaz al.
Catade, senhor, nom vos éste mal,
ca polo meu nom vos venh'eu rogar.

E ar quero-vos ora conselhar,
per bõa fé, o melhor que eu sei
- metede mentes no que vos direi:
quem me vos assi vir desamparar
e morrer por vós, pois eu morto for,
tam bem vos dirá por mi "traedor"
come a mim por vós, se vos matar.

E de tal preço guarde-vos vós Deus,
senhor e lume destes olhos meus,
se vos vós en nom quiserdes guardar!
693
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Verbos

Sofrer é outro nome
do ato de viver.
Não há literatura
que dome a onça escura.

Amar, nome-programa
de muito procurar.
Mas quem afirma que eu
sei o reflexo meu?

Rir, astúcia do rosto
na ameaça de sentir.
Jamais se soube ao certo
o que oculta um deserto.

Esquecer, outro nome
do ofício de perder.
Uma inútil lanterna
jaz em cada caverna.

Verbos outros imperam
em momentos acerbos.
Mas para que nomeá-los,
imperfeitos gargalos?
1 120
José Saramago

José Saramago

Romeu a Julieta

Eu vou amor, mas deixo cá a vida,
No calor desta cama que abandono,
Areia dispersada que foi duna.
Se a noite se fez dia, e com a luz
O negro afastamento se interpõe,
A escuridão da morte nos reúna.
1 229
João Soares Coelho

João Soares Coelho

Ora Nom Sei No Mundo Que Fazer

Ora nom sei no mundo que fazer,
nem hei conselho, nem mi o quis Deus dar,
ca nom quis El, u me nom quis guardar,
e nom houv'eu, de me guardar, poder.
       Ca díx'eu ca morria por alguém,
       e dereit'hei de lazerar por en.

Ca nom fora tam gram cousa dizer,
se se mi a mim bem houvess'a parar
a mia fazenda; mas quem Deus guardar
nom quer, nom pode guardado seer.
       Ca dix'eu ca morria por alguém,
       e dereit'hei de lazerar por en.

E mal dia eu entom nom morri
quand'esto dix'e quando vi os seus
olhos; pero nom dixi mais, par Deus,
e[u] esto dixi, em mal dia por mim.
       Ca dix'eu ca morria por alguém,
       e dereit'hei de lazerar por en.

Ca des aquel dia 'm que a eu vi
(que nom visse) daquestes olhos meus,
nom perdi coita, ca nom quiso Deus,
nem perderei, ca eu mi o mereci.
       Ca dix'eu ca morria por alguém,
       e dereit'hei de lazerar por en.
727
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Zona de Belo Horizonte, Anos 20

A festa de aniversário de Pingo de Ouro
acaba em frege.
Maria Pinguinho corre nervosa à delegacia
para soltar a Alemãzinha
engalfinhada com Maria Triste
no véu de cocaína e éter.

Serão sempre assim as mulheres perdidas,
e perdidas porque nunca se acham
mesmo no véu de cocaína e éter?
1 055
João Soares Coelho

João Soares Coelho

Nom Me Soub'eu Dos Meus Olhos Melhor

Nom me soub'eu dos meus olhos melhor,
per nulha rem, vingar ca me vinguei.
E direi-vos que mal que os matei:
levei-os d'u veíam sa senhor.
       E fiz seu mal e do meu coraçom
       por me vengar deles e por al nom!

Ca me nom podiam, per nulha rem,
sem veê'lo mui bom parecer seu,
fazer gram mal. Mais que lhes ar fiz eu?
Levei-os d'u a viiam por en!
       E fiz seu mal e do meu coraçom
       por me vengar deles e por al nom.

E na sazom que lhes eu entendi
que eles haviam de a veer
maior sabor, pero me de fazer
mui grave foi, levei-os [eu] dali.
       E fiz seu mal e do meu coraçom
       por me vengar deles e por al nom.

E na vengança que deles prendi,
gram mal per fiz a eles e a mi.
625
João Soares Coelho

João Soares Coelho

Nunca Coitas de Tantas Guisas Vi

Nunca coitas de tantas guisas vi
como me fazedes, senhor, sofrer;
e nom vos queredes de mim doer!
E, vel por Deus, doede-vos de mi!
       Ca, senhor, moir'e vedes que mi avém:
       se vos alguém mal quer, quero-lh'eu mal,
       e quero mal quantos vos querem bem.

E os meus olhos, com que vos eu vi,
mal quer', e Deus que me vos fez veer,
e a morte que me leixa viver,
e mal o mundo, porquant'i naci.
       Ca, senhor, moir'e vedes que mi avém:
       se vos alguem mal quer, quero-lh'eu mal,
       e quero mal quantos vos querem bem.

A mia ventura quer'eu mui gram mal
e quero mal ao meu coraçom,
e tod'aquesto, senhor, coitas som;
e quero mal Deus porque me nom val.
       Ca, senhor, moir'e vedes que mi avém:
       se vos alguém mal quer, quero-lh'eu mal,
       e quero mal quantos vos querem bem.

E tenho que faço dereit'e sem
em querer mal quem vos quer mal e bem.
474
João Soares Coelho

João Soares Coelho

Pelos Meus Olhos Houv'eu Muito Mal

Pelos meus olhos houv'eu muito mal
e pesar tant'e tam pouco prazer,
que me valvera mais non'os haver,
nem veer nunca mia senhor, nem al.
       E nom mi há prol de queixar-m'end'assi;
       mais mal dia eu dos meus olhos vi!

Ca por eles houv'eu mui pouco bem;
e o pesar que me fazem sofrer
e a gram coita nom é de dizer.
E queixar-m'-ia, mais nom hei a quem.
       E nom mi há prol de queixar m'end'assi,.
       mais mal dia eu dos meus olhos vi!

E a senhor que me forom mostrar,
de quantas donas Deus quiso fazer
de falar bem e de bem parecer,
e por que moiro, nom lh'ouso falar.
       E nom mi há prol de queixar m'end'assi;
       mais mal dia eu dos meus olhos vi!
272
João Soares Coelho

João Soares Coelho

Eu Me Coidei, U Me Deus Fez Veer

Eu me coidei, u me Deus fez veer
esta senhor, contra que me nom val,
que nunca me dela verria mal:
tanto a vi fremoso parecer,
e falar mans', e fremos'e tam bem
e tam de bom prez e tam de bom sem
que nunca dela mal cuidei prender.

Esto tiv'eu que m'havi'a valer
contra ela, e todo mi ora fal,
e de mais Deus; e viv'em coita tal
qual poderedes mui ced'entender
per mia morte, ca moir'e praze-m'en.
E d'al me praz: que nom sabem por quem,
nen'o podem jamais per mi saber!

Pero vos eu seu bem queira dizer
todo, nom sei, pero convosc'em al
nunca fale. Mais fezo-a Deus qual
El melhor soube no mundo fazer.
Ainda vos al direi que lh'avém:
todas as outras donas nom som rem
contra ela, nem ham já de seer.

E esta dona, poilo nom souber,
nom lhe podem, se torto nom houver,
Deus nem ar as gentes culpa põer.

Maila mia ventur'e aquestes meus
olhos ham i grande culpa e [ar] Deus
que me fezerom tal dona veer.
560
João Soares Coelho

João Soares Coelho

Pero M'eu Hei Amigos, Nom Hei Ni Um Amigo

Pero m'eu hei amigos, nom hei ni um amigo
com que falar ousasse a coita que comigo
hei, nem ar hei a quem ous'en mais dizer; e digo:
       de mui bom grado querria a um logar ir
       e nunca m'end'ar vĩir.

Vi eu viver coitados, mas nunca tam coitado
viveu com'hoj'eu vivo, nen'o viu home nado,
des quando fui u fui. E aque vo-lo recado:
       de mui bom grado querria a um logar ir
       e nunca m'end'ar vĩir!

A coita que eu prendo nom sei quem atal prenda,
que me faz fazer sempre dano de mia fazenda;
tod'aquest'entend'eu, e quem mais quiser entenda:
       de mui bom grado querria a um logar ir
       e nunca m'end'ar vĩir!

De cousas me nam guardo, mais pero guardar-m'-ia
de sofrer a gram coita que sofri, dê'lo dia
des que vi o que vi, e mais nom vos en diria:
       de mui bom grado querria a um logar ir
       e nunca m'end'ar vĩir!
552
João Soares Coelho

João Soares Coelho

Senhor E Lume Destes Olhos Meus

Senhor e lume destes olhos meus,
per bõa [fé], direi-vos ũa rem;
e se vos mentir, nom me venha bem
nunca de vós, nem d'outrem, nem de Deus:
       dê'lo dia 'm que vos nom vi,
       mia senhor, nunca despois vi

prazer nem bem; nen'o ar veerei,
se nom vir vós, enquant'eu vivo for,
ou mia morte, fremosa mia senhor;
ca estou de vós como vos en direi:
       dê'lo dia 'm que vos nom vi,
       mia senhor, nunca despois vi

per bõa fé, se mui gram pesar nom;
ca todo quanto vi me foi pesar
e nom me soube conselho filhar.
E direi-vos, senhor, des qual sazom:
       dê'lo dia 'm que vos nom vi,
       mia senhor, nunca despois vi,

nem veerei, senhor, mentr'eu viver,
- se nom vir vós ou mia morte - prazer!
666
João Soares Coelho

João Soares Coelho

As Graves Coitas, a Quen'as Deus Dar

As graves coitas, a quen'as Deus dar
quer, e o mal d'amor, gram bem faria
se lhe desse (pero nom lhe daria)
com quem ousass'em sas coitas falar,
em tal guisa que lho nom entendesse
com quen'o falass'e que se doesse
del; mais nom sei de Deus se poderia.

Pero sei bem, aquant'é meu cuidar,
a quem esto desse, ca lhe daria
mais longa vida e que lhi faria
daquelas coitas haver mais vagar.
E nom sei al per que sem nom perdesse,
que mais houvess', e cedo nom morresse;
e per esto cuido que viveria.

Destas coitas eu podia falar
come quen'as padece cada dia;
mais nom é tempo já, nem me valria.
Mais guarde-se quem se poder guardar
e nom s'esforc'em senhor que prendesse,
a melhor, nem que melhor parecesse
deste mundo, ca peor lhi faria!

Em tam grave dia senhor filhei,
a que nunca "senhor" chamar ousei.

Desta coita nunca eu vi maior:
morrer e nom lh'ousar dizer: "senhor"!

Ca, de pram, moiro, querendo-lhe bem,
pero nom lh'ous'en dizer nulha rem.

Ca dizê-lo cuidei ou a morrer
e, pois la vi, nom lh'ousei rem dizer,

Ca por mais mia prol tenho de morrer!
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Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Balada Dos Mortos Dos Campos de Concentração

Cadáveres de Nordhausen Erla, Belsen e Buchenwald!
Ocos, flácidos cadáveres
Como espantalhos, largados
Na sementeira espectral
Dos ermos campos estéreis
De Buchenwald e Dachau.
Cadáveres necrosados
Amontoados no chão
Esquálidos enlaçados
Em beijos estupefatos
Como ascetas siderados
Em presença da visão.
Cadáveres putrefatos
Os magros braços em cruz
Em vossas faces hediondas
Há sorrisos de giocondas
E em vossos corpos, a luz
Que da treva cria a aurora.
Cadáveres fluorescentes
Desenraizados do pó
Que emoção não dá-me o ver-vos
Em vosso êxtase sem nervos
Em vossa prece tão-só
Grandes, góticos cadáveres!
Ah, doces mortos atônitos
Quebrados a torniquete
V ossas louras manicuras
Arrancaram-vos as unhas
No requinte de tortura
Da última toalete...
A vós vos tiraram a casa
A vós vos tiraram o nome
Fostes marcados a brasa
Depois voz mataram de fome!
V ossa peles afrouxadas
Sobre os esqueletos dão-me
A impressão que éreis tambores —
Os instrumentos do Monstro —
Desfibrados a pancada:
Ó mortos de percussão!
Cadáveres de Nordhausen Erla, Belsen e Buchenwald!
Vós sois o húmus da terra
De onde a árvore do castigo
Dará madeira ao patíbulo
E de onde os frutos da paz
Tombarão no chão da guerra!
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