Poemas neste tema
Dor e Desespero
Charles Bukowski
Desculpa Para Uma Possível Imortalidade
se não conseguirmos fazer literatura com nossa
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
1 210
Dora Ferreira da Silva
Haicai
As sombras amigas
pouco a pouco se adensaram:
agora verei.
Ó desesperados:
lamentáveis tartarugas
de pernas pro ar
pouco a pouco se adensaram:
agora verei.
Ó desesperados:
lamentáveis tartarugas
de pernas pro ar
1 580
Edmundo de Bettencourt
A Máquina Prisioneira
A máquina acabava o dia a mastigar
e aos poucos os dentes lhe caíam
perdendo-se na espuma do ar negro,
ondulante, da fábrica.
Um desejo insubmisso
de cercar os átomos gigantes
vinha encher um braço
donde surgia um corpo
lacerado
sangrento!
e donde surgia um braço
cheio de sangue novo
que libertava a máquina!
A sorrir desdentada
a máquina adormecia...
e aos poucos os dentes lhe caíam
perdendo-se na espuma do ar negro,
ondulante, da fábrica.
Um desejo insubmisso
de cercar os átomos gigantes
vinha encher um braço
donde surgia um corpo
lacerado
sangrento!
e donde surgia um braço
cheio de sangue novo
que libertava a máquina!
A sorrir desdentada
a máquina adormecia...
954
Emílio Burlamaqui
De Nietzsche a Dante, com Amor
Se vais à mulher, não esqueças o chicote
Para fustigares o perigo do amor.
Carrega a lança, pois és sempre um D. Quixote,
Mas leva o lenço para a inexorável dor.
O amor não é mais forte que a espuma
(espuma do mar: Venus, amor... tormento)
E muito menos que a neblina, que a bruma
Que se desfazem com o sol ou com o vento.
O amor é instável, sutil, evanescente.
Não há prazo para tempo tão fugaz,
Sua essência é ser assim inconsistente,
Não há norma, não há tino, não há paz.
Porta o chicote, leva o corpo, deixa a alma,
Guarda receio se a mulher tua mão alcança,
Conduz teu lenço, teu escudo, tua calma,
Se vais ao amor, deixa atrás toda esperança.
Para fustigares o perigo do amor.
Carrega a lança, pois és sempre um D. Quixote,
Mas leva o lenço para a inexorável dor.
O amor não é mais forte que a espuma
(espuma do mar: Venus, amor... tormento)
E muito menos que a neblina, que a bruma
Que se desfazem com o sol ou com o vento.
O amor é instável, sutil, evanescente.
Não há prazo para tempo tão fugaz,
Sua essência é ser assim inconsistente,
Não há norma, não há tino, não há paz.
Porta o chicote, leva o corpo, deixa a alma,
Guarda receio se a mulher tua mão alcança,
Conduz teu lenço, teu escudo, tua calma,
Se vais ao amor, deixa atrás toda esperança.
940
Adélia Prado
Canção de Amor
Veio o câncer no fígado, veio o homem
pulando da cama no chão e andando
de gatinhas, gritando: ‘me deixa, gente,
me deixa’, tanta era sua dor sem remédio.
Veio a morte e nesta hora H, a camisa sem botão.
Eu supliquei: eu prego, gente, eu prego,
mas, espera, deixa eu chorar primeiro.
Ah, disseram Marta e Maria, se estivésseis aqui,
nosso irmão não teria morrido. Espera, disse Jesus,
deixa eu chorar primeiro.
Então se pode chorar? Eu posso então?
Se me perguntassem agora da alegria da vida,
eu só tinha a lembrança de uma flor miudinha.
Pode não ser só isso, hoje estou muito triste,
o que digo, desdigo. Mas a Palavra de Deus
é a verdade. Por isso esta canção tem o nome que tem.
pulando da cama no chão e andando
de gatinhas, gritando: ‘me deixa, gente,
me deixa’, tanta era sua dor sem remédio.
Veio a morte e nesta hora H, a camisa sem botão.
Eu supliquei: eu prego, gente, eu prego,
mas, espera, deixa eu chorar primeiro.
Ah, disseram Marta e Maria, se estivésseis aqui,
nosso irmão não teria morrido. Espera, disse Jesus,
deixa eu chorar primeiro.
Então se pode chorar? Eu posso então?
Se me perguntassem agora da alegria da vida,
eu só tinha a lembrança de uma flor miudinha.
Pode não ser só isso, hoje estou muito triste,
o que digo, desdigo. Mas a Palavra de Deus
é a verdade. Por isso esta canção tem o nome que tem.
1 572
João Airas de Santiago
Morreredes, Se Vos Nom Fezer Bem
Morreredes, se vos nom fezer bem,
por mim, amig', e nom sei que vos i
faça, pero muitas vezes cuid'i,
e deste preito vedes que mi avém:
é-mi mui grave de vos bem fazer
e mui grav'é de vos leixar morrer.
Rem nom vos pode de morte guardar,
e sei bem que morr[er]edes por mi,
se nom houverdes algum bem de mim;
e quant'eu hei em tod'est'a cuidar:
é-mi mui grave de vos bem fazer
e mui grav'é de vos leixar morrer.
Se vos nom fezer bem, por mi Amor
vos matará, bem sei que será assi,
mais bem vos jur'e digo-vos assi,
se Deus mi leix'en fazer o melhor:
é-mi mui grave de vos bem fazer
e mui grav'é de vos leixar morrer.
E rog'a Deus, que há end'o poder,
que El me leix'end'o melhor fazer.
por mim, amig', e nom sei que vos i
faça, pero muitas vezes cuid'i,
e deste preito vedes que mi avém:
é-mi mui grave de vos bem fazer
e mui grav'é de vos leixar morrer.
Rem nom vos pode de morte guardar,
e sei bem que morr[er]edes por mi,
se nom houverdes algum bem de mim;
e quant'eu hei em tod'est'a cuidar:
é-mi mui grave de vos bem fazer
e mui grav'é de vos leixar morrer.
Se vos nom fezer bem, por mi Amor
vos matará, bem sei que será assi,
mais bem vos jur'e digo-vos assi,
se Deus mi leix'en fazer o melhor:
é-mi mui grave de vos bem fazer
e mui grav'é de vos leixar morrer.
E rog'a Deus, que há end'o poder,
que El me leix'end'o melhor fazer.
670
Eunice Arruda
Hora Poética
Para esquecer esta
dor
— transformá-la em poesia
Para eternizar esta
dor
— transformá-la em poesia
dor
— transformá-la em poesia
Para eternizar esta
dor
— transformá-la em poesia
1 006
João Airas de Santiago
Foi-S'o Meu Amigo a Cas D'el-Rei
Foi-s'o meu amigo a cas d'el-rei
e, amigas, com grand'amor que lh'hei,
quand'el veer, já eu morta serei,
mais nom lhe digam que morri assi,
ca, se souber com'eu por el morri,
será mui pouca sa vida des i.
Per nulha rem nom me posso guardar
que nom moira ced'e com gram pesar,
e, amigas, quand'el aqui chegar,
nom sábia per vós qual mort'eu prendi,
ca, se souber com'eu por el morri,
será mui pouca sa vida des i.
Eu morrerei cedo, se Deus quiser,
e, amigas, quand'el aqui veer,
desmesura dirá quem lhi disser
qual mort'eu filhei des que o nom vi,
ca, se souber com'eu por el morri,
será mui pouca sa vida des i.
Já nom posso de morte guarecer,
mais, quando s'el tornar por me veer,
nom lhi digam como m'el fez morrer
ante tempo, porque se foi daqui,
ca, se souber com'eu por el morri,
será mui pouca sa vida des i.
e, amigas, com grand'amor que lh'hei,
quand'el veer, já eu morta serei,
mais nom lhe digam que morri assi,
ca, se souber com'eu por el morri,
será mui pouca sa vida des i.
Per nulha rem nom me posso guardar
que nom moira ced'e com gram pesar,
e, amigas, quand'el aqui chegar,
nom sábia per vós qual mort'eu prendi,
ca, se souber com'eu por el morri,
será mui pouca sa vida des i.
Eu morrerei cedo, se Deus quiser,
e, amigas, quand'el aqui veer,
desmesura dirá quem lhi disser
qual mort'eu filhei des que o nom vi,
ca, se souber com'eu por el morri,
será mui pouca sa vida des i.
Já nom posso de morte guarecer,
mais, quando s'el tornar por me veer,
nom lhi digam como m'el fez morrer
ante tempo, porque se foi daqui,
ca, se souber com'eu por el morri,
será mui pouca sa vida des i.
520
Eunice Arruda
Notícias
As crianças morrem
Em piscinas
lagoas
no centro da cidade
o corte na testa
barrigas inchadas
costas afundadas
As crianças
elas também nos abandonam
Em piscinas
lagoas
no centro da cidade
o corte na testa
barrigas inchadas
costas afundadas
As crianças
elas também nos abandonam
785
Eunice Arruda
Tema para a Abertura de um Novo Sentimento
Agora
a morte
da paz.
a morte
da paz.
651
Ricardo Aleixo
TREVA
vazio até o
fundo
crispado na
treva
mais um
día des
liza para
dentro
de um
dos tres
caminhos
sem volta
fundo
crispado na
treva
mais um
día des
liza para
dentro
de um
dos tres
caminhos
sem volta
444
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - Rosas
Desfolharam-se as rosas sobre o rio e, passando, espalharam-nas os
ventos.
como se o rio fosse a couraça de um guerreiro rasgada pelas lanças, por
onde corresse o sangue das feridas.
ventos.
como se o rio fosse a couraça de um guerreiro rasgada pelas lanças, por
onde corresse o sangue das feridas.
940
Efer Cilas dos Santos Junior
Dor Infinita
Dor Infinita
Um dia nasce e, por fim, morre então;
Surge depois outro e também fenece,
Assim nossa existência acontece
E, aos poucos se dissipa qual poção.
Mas o que tem o pesar como irmão,
E de uma dor profunda assim padece,
Todo dia tormento lhe parece
Insuportável sua condição...
Não há riqueza, sorte, ou até conquista
Que impedir possa que tal dor persista
E faça rir de novo o triste ser...
Que dor é essa maior que o existir?
É sem um amor ter que resistir!
É sem carinho ter que então viver!
Um dia nasce e, por fim, morre então;
Surge depois outro e também fenece,
Assim nossa existência acontece
E, aos poucos se dissipa qual poção.
Mas o que tem o pesar como irmão,
E de uma dor profunda assim padece,
Todo dia tormento lhe parece
Insuportável sua condição...
Não há riqueza, sorte, ou até conquista
Que impedir possa que tal dor persista
E faça rir de novo o triste ser...
Que dor é essa maior que o existir?
É sem um amor ter que resistir!
É sem carinho ter que então viver!
973
António Ramos Rosa
As Palavras Desenham-Se Na Parede
As palavras desenham-se na parede.
Não há centro, tudo prolifera.
A vela entre as espinhas.
As palavras ásperas resplandecem.
São as mais nuas feridas,
as mais desertas entre pedras.
O rosto é percorrido por formigas.
Raspado, e luz uma malícia pura.
Um cigarro aqui é mais do que uma estrela.
Um risco mais rápido que um foguete.
E a seara acende-se para além do muro.
Não há centro, tudo prolifera.
A vela entre as espinhas.
As palavras ásperas resplandecem.
São as mais nuas feridas,
as mais desertas entre pedras.
O rosto é percorrido por formigas.
Raspado, e luz uma malícia pura.
Um cigarro aqui é mais do que uma estrela.
Um risco mais rápido que um foguete.
E a seara acende-se para além do muro.
1 094
Martha Medeiros
Faz-de-conta
Não respondo teus e-mails, e quando respondo sou ríspido, distante, mantenho-me alheio: faz-de-conta que eu te odeio.
Te encho de palavras carinhosas, não economizo elogios, me surpreendo de tanto afeto que consigo inventar, sou uma atriz, sou do ramo: faz-de-conta que te amo.
Estou sempre olhando pro relógio, sempre enaltecendo os planos que eu tinha e que os outros boicotaram, sempre reclamando que os outros fazem tudo errado: faz-de-conta que dou conta do recado.
Debocho de festas e de roupas glamurosas, não entendo como é que alguém consegue dormir tarde todas as noites, convidados permanentes para baladas na área vip do inferno: faz-de-conta que não quero.
Choro ao assistir o telejornal, lamento a dor dos outros e passo noites em claro tentando entender corrupções, descasos, tudo o que demonstra o quanto foi desperdiçado meu voto: faz-de-conto que me importo.
Jogo uma perna pro alto, a outra pro lado, faço cara de gostosa, os cabelos escorridos na rosto, me retorço, gemo, sussurro, grito e poso: faz-de-conta que eu gozo.
Digo que perdôo, ofereço cafezinho, lembro dos bons momentos, digo que os ruins ficaram no passado, que já não lembro de nada, pessoas maduras sabem que toda mágoa é peso morto: faz-de-conta que não sofro.
Cito Aristóteles e Platão, aplaudo ferros retorcidos em galerias de arte, leio poesia concreta, compro telas abstratas, fico fascinada com um arranjo techno para uma música clássica e assisto sem legenda o mais recente filme romeno: faz-de-conta que eu entendo.
Tenho todos os ingredientes para um sanduíche inesquecível, a porta da geladeira está lotada de imãs de tele-entrega, mantenho um bar razoavelmente abastecido, um pouco de sal e pimenta na despensa e o fogão tem oito anos mas parece zerinho: faz-de-conta que eu cozinho.
Bem-vindo à Disney, o mundo da fantasia, qual é o seu papel? Você pode ser um fantasma que atravessa paredes, ser anão ou ser gigante, um menino prodígio que decorou bem o texto, a criança ingênua que confiou na bruxa, uma sex symbol a espera do seu cowboy: faz-de-conta que não dói.
Te encho de palavras carinhosas, não economizo elogios, me surpreendo de tanto afeto que consigo inventar, sou uma atriz, sou do ramo: faz-de-conta que te amo.
Estou sempre olhando pro relógio, sempre enaltecendo os planos que eu tinha e que os outros boicotaram, sempre reclamando que os outros fazem tudo errado: faz-de-conta que dou conta do recado.
Debocho de festas e de roupas glamurosas, não entendo como é que alguém consegue dormir tarde todas as noites, convidados permanentes para baladas na área vip do inferno: faz-de-conta que não quero.
Choro ao assistir o telejornal, lamento a dor dos outros e passo noites em claro tentando entender corrupções, descasos, tudo o que demonstra o quanto foi desperdiçado meu voto: faz-de-conto que me importo.
Jogo uma perna pro alto, a outra pro lado, faço cara de gostosa, os cabelos escorridos na rosto, me retorço, gemo, sussurro, grito e poso: faz-de-conta que eu gozo.
Digo que perdôo, ofereço cafezinho, lembro dos bons momentos, digo que os ruins ficaram no passado, que já não lembro de nada, pessoas maduras sabem que toda mágoa é peso morto: faz-de-conta que não sofro.
Cito Aristóteles e Platão, aplaudo ferros retorcidos em galerias de arte, leio poesia concreta, compro telas abstratas, fico fascinada com um arranjo techno para uma música clássica e assisto sem legenda o mais recente filme romeno: faz-de-conta que eu entendo.
Tenho todos os ingredientes para um sanduíche inesquecível, a porta da geladeira está lotada de imãs de tele-entrega, mantenho um bar razoavelmente abastecido, um pouco de sal e pimenta na despensa e o fogão tem oito anos mas parece zerinho: faz-de-conta que eu cozinho.
Bem-vindo à Disney, o mundo da fantasia, qual é o seu papel? Você pode ser um fantasma que atravessa paredes, ser anão ou ser gigante, um menino prodígio que decorou bem o texto, a criança ingênua que confiou na bruxa, uma sex symbol a espera do seu cowboy: faz-de-conta que não dói.
1 494
Efer Cilas dos Santos Junior
Viver como um Médico
Viver como um Médico
Médico é amar o semelhante,
Nunca negar ajuda a quem precisa;
Conviver com a dor que martiriza,
Lutar contra percalços como um infante!
É uma vida muito desgastante.
Não é a que o estudante idealiza,
Quando sua exaustão ele ameniza,
Com visões de uma clínica brilhante.
Ser um médico é nunca ter hora;
É estar à vontade de quem chora;
É tentar salvar quem não quer morrer...
É uma vida muito dolorosa,
Mas premiada de uma forma honrosa,
Quando um sorriso vem agradecer!
Médico é amar o semelhante,
Nunca negar ajuda a quem precisa;
Conviver com a dor que martiriza,
Lutar contra percalços como um infante!
É uma vida muito desgastante.
Não é a que o estudante idealiza,
Quando sua exaustão ele ameniza,
Com visões de uma clínica brilhante.
Ser um médico é nunca ter hora;
É estar à vontade de quem chora;
É tentar salvar quem não quer morrer...
É uma vida muito dolorosa,
Mas premiada de uma forma honrosa,
Quando um sorriso vem agradecer!
817
Edimilson de Almeida Pereira
Magnificat
Porque não há ofício
espero desaparecer.
O vão desejado
poreja
(para aquele tempo,
talvez)
não para a secura
que implode a memória.
O céu virá limpo,
depois.
espero desaparecer.
O vão desejado
poreja
(para aquele tempo,
talvez)
não para a secura
que implode a memória.
O céu virá limpo,
depois.
1 050
João Baveca
U Vos Nom Vejo, Senhor, Sol Poder
U vos nom vejo, senhor, sol poder
nom hei de mim, nem me sei conselhar,
nem hei sabor de mi, erg'em cuidar
em como vos poderia veer;
e pois vos vejo, maior coita hei
que ant'havia, senhor, porque m'hei
end'a partir. E quem viu nunca tal
coita sofrer qual eu sofro? Ca sem
perç'e dormir. E tod'esto mi avém
por vos veer, senhor, e nom por al!
E pois vos vejo, maior coita hei
que ant'havia, senhor, porque m'hei
end'a partir. E por en sei que nom
perderei coita, mentr'eu vivo for,
ca, u vos eu nom vejo, mia senhor,
por vos veer, perç'este coraçom.
E pois vos vejo, maior coita hei
que ant'havia, senhor, porque m'hei
end'a partir, mia senhor, e bem sei
que d'ũa destas coitas morrerei.
nom hei de mim, nem me sei conselhar,
nem hei sabor de mi, erg'em cuidar
em como vos poderia veer;
e pois vos vejo, maior coita hei
que ant'havia, senhor, porque m'hei
end'a partir. E quem viu nunca tal
coita sofrer qual eu sofro? Ca sem
perç'e dormir. E tod'esto mi avém
por vos veer, senhor, e nom por al!
E pois vos vejo, maior coita hei
que ant'havia, senhor, porque m'hei
end'a partir. E por en sei que nom
perderei coita, mentr'eu vivo for,
ca, u vos eu nom vejo, mia senhor,
por vos veer, perç'este coraçom.
E pois vos vejo, maior coita hei
que ant'havia, senhor, porque m'hei
end'a partir, mia senhor, e bem sei
que d'ũa destas coitas morrerei.
471
João Baveca
Mui Desguisado Tenho D'haver Bem!
Mui desguisado tenho d'haver bem!
Enquant'eu já eno mundo viver,
hei tal coita qual sofro a sofrer;
ca vos direi, amigos, que mi avém:
cada que cuid'estar de mia senhor
bem, estou mal e, quando mal, peor.
E por aquesto, se Deus mi perdom,
entendo já que nunca perderei
a maior coita do mundo que hei;
e quero logo dizer porque nom:
cada que cuid'estar de mia senhor
bem, estou mal e, quando mal, peor.
E por aquesto já bem fiz estou
d'haver gram coita no mund'e nom al,
e d'haver sempr', em logar de bem, mal;
ca vos direi como xi me guisou:
cada que cuid'estar de mia senhor
bem, estou mal e, quando mal, peor.
E por aquesto sofr'eu a maior
coita de quantas fez sofrer Amor.
Enquant'eu já eno mundo viver,
hei tal coita qual sofro a sofrer;
ca vos direi, amigos, que mi avém:
cada que cuid'estar de mia senhor
bem, estou mal e, quando mal, peor.
E por aquesto, se Deus mi perdom,
entendo já que nunca perderei
a maior coita do mundo que hei;
e quero logo dizer porque nom:
cada que cuid'estar de mia senhor
bem, estou mal e, quando mal, peor.
E por aquesto já bem fiz estou
d'haver gram coita no mund'e nom al,
e d'haver sempr', em logar de bem, mal;
ca vos direi como xi me guisou:
cada que cuid'estar de mia senhor
bem, estou mal e, quando mal, peor.
E por aquesto sofr'eu a maior
coita de quantas fez sofrer Amor.
336
Vinicius de Moraes
Poema Para Todas As Mulheres
No teu branco seio eu choro.
Minhas lágrimas descem pelo teu ventre
E se embebedam do perfume do teu sexo.
Mulher, que máquina és, que só me tens desesperado
Confuso, criança para te conter!
Oh, não feches os teus braços sobre a minha tristeza não!
Ah, não abandones a tua boca à minha inocência, não!
Homem sou belo
Macho sou forte, poeta sou altíssimo
E só a pureza me ama e ela é em mim uma cidade e tem mil e uma portas.
Ai! teus cabelos recendem à flor da murta
Melhor seria morrer ou ver-te morta
E nunca, nunca poder te tocar!
Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços
Anjo, sinto o calor do vento nas espumas
Passarinho, sinto o ninho nos teus pelos...
Correi, correi, ó lágrimas saudosas
Afogai-me, tirai-me deste tempo
Levai-me para o campo das estrelas
Entregai-me depressa à lua cheia
Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me
o cântico dos cânticos
Que eu não posso mais, ai!
Que esta mulher me devora!
Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha quero o colo de Nossa
Senhora!
Minhas lágrimas descem pelo teu ventre
E se embebedam do perfume do teu sexo.
Mulher, que máquina és, que só me tens desesperado
Confuso, criança para te conter!
Oh, não feches os teus braços sobre a minha tristeza não!
Ah, não abandones a tua boca à minha inocência, não!
Homem sou belo
Macho sou forte, poeta sou altíssimo
E só a pureza me ama e ela é em mim uma cidade e tem mil e uma portas.
Ai! teus cabelos recendem à flor da murta
Melhor seria morrer ou ver-te morta
E nunca, nunca poder te tocar!
Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços
Anjo, sinto o calor do vento nas espumas
Passarinho, sinto o ninho nos teus pelos...
Correi, correi, ó lágrimas saudosas
Afogai-me, tirai-me deste tempo
Levai-me para o campo das estrelas
Entregai-me depressa à lua cheia
Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me
o cântico dos cânticos
Que eu não posso mais, ai!
Que esta mulher me devora!
Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha quero o colo de Nossa
Senhora!
1 232
Herberto Helder
Canções de Camponeses do Japão - Arrozal de Madrugada
Às quatro da manhã, arranco
ervas daninhas do arrozal.
Mas que é isto: orvalho do campo,
ou lágrimas de dor?
ervas daninhas do arrozal.
Mas que é isto: orvalho do campo,
ou lágrimas de dor?
1 196
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - Bolhas
Troca-me a prata peio oiro do vinho — digo eu ao copeiro. — Dá-me vinho
novo.
Vinho para a minha dor. E logo ao cimo sobrenadam, como espuma, as
bolhas:
brancos dedos de um bebedor petrificado, na mão retendo eternamente a sua
taça.
novo.
Vinho para a minha dor. E logo ao cimo sobrenadam, como espuma, as
bolhas:
brancos dedos de um bebedor petrificado, na mão retendo eternamente a sua
taça.
975
Sérgio Milliet
Oh Valsa Latejante
Oh valsa latejante. . .
O poema que eu hei de escrever
será nu e simplesmente rude
O poema que eu hei de escrever será um palavrão.
Dor recalcada
inveja mesquinha
perversidades impotentes
todo o fracasso e a sub-angústia
O espezinhamento usa batom
Mas tudo há de jorrar com ele
numa amarga libertação...
O cacto com seus espinhos
apertado entre as palmas da mão
é menos doloroso
Oh valsa latejante...
O poema que eu hei de escrever
será nu e simplesmente rude
O poema que eu hei de escrever será um palavrão.
Dor recalcada
inveja mesquinha
perversidades impotentes
todo o fracasso e a sub-angústia
O espezinhamento usa batom
Mas tudo há de jorrar com ele
numa amarga libertação...
O cacto com seus espinhos
apertado entre as palmas da mão
é menos doloroso
Oh valsa latejante...
1 774
Vinicius de Moraes
O Falso Mendigo
Minha mãe, manda comprar um quilo de papel almaço na venda
Quero fazer uma poesia.
Diz a Amélia para preparar um refresco bem gelado
E me trazer muito devagarinho.
Não corram, não falem, fechem todas as portas a chave
Quero fazer uma poesia.
Se me telefonarem, só estou para Maria
Se for o Ministro, só recebo amanhã
Se for um trote, me chama depressa
Tenho um tédio enorme da vida.
Diz a Amélia para procurar a “Patética” no rádio
Se houver um grande desastre vem logo contar
Se o aneurisma de dona Ângela arrebentar, me avisa
Tenho um tédio enorme da vida.
Liga para vovó Neném, pede a ela uma ideia bem inocente
Quero fazer uma grande poesia.
Quando meu pai chegar tragam-me logo os jornais da tarde
Se eu dormir, pelo amor de Deus, me acordem
Não quero perder nada na vida.
Fizeram bicos de rouxinol para o meu jantar?
Puseram no lugar meu cachimbo e meus poetas?
Tenho um tédio enorme da vida.
Minha mãe estou com vontade de chorar
Estou com taquicardia, me dá um remédio
Não, antes me deixa morrer, quero morrer, a vida
Já não me diz mais nada
Tenho horror da vida, quero fazer a maior poesia do mundo
Quero morrer imediatamente.
Fala com o Presidente para fecharem todos os cinemas
Não aguento mais ser censor.
Ah, pensa uma coisa, minha mãe, para distrair teu filho
Teu falso, teu miserável, teu sórdido filho
Que estala em força, sacrifício, violência, devotamento
Que podia britar pedra alegremente
Ser negociante cantando
Fazer advocacia com o sorriso exato
Se com isso não perdesse o que por fatalidade de amor
Sabe ser o melhor, o mais doce e o mais eterno da tua puríssima carícia.
Quero fazer uma poesia.
Diz a Amélia para preparar um refresco bem gelado
E me trazer muito devagarinho.
Não corram, não falem, fechem todas as portas a chave
Quero fazer uma poesia.
Se me telefonarem, só estou para Maria
Se for o Ministro, só recebo amanhã
Se for um trote, me chama depressa
Tenho um tédio enorme da vida.
Diz a Amélia para procurar a “Patética” no rádio
Se houver um grande desastre vem logo contar
Se o aneurisma de dona Ângela arrebentar, me avisa
Tenho um tédio enorme da vida.
Liga para vovó Neném, pede a ela uma ideia bem inocente
Quero fazer uma grande poesia.
Quando meu pai chegar tragam-me logo os jornais da tarde
Se eu dormir, pelo amor de Deus, me acordem
Não quero perder nada na vida.
Fizeram bicos de rouxinol para o meu jantar?
Puseram no lugar meu cachimbo e meus poetas?
Tenho um tédio enorme da vida.
Minha mãe estou com vontade de chorar
Estou com taquicardia, me dá um remédio
Não, antes me deixa morrer, quero morrer, a vida
Já não me diz mais nada
Tenho horror da vida, quero fazer a maior poesia do mundo
Quero morrer imediatamente.
Fala com o Presidente para fecharem todos os cinemas
Não aguento mais ser censor.
Ah, pensa uma coisa, minha mãe, para distrair teu filho
Teu falso, teu miserável, teu sórdido filho
Que estala em força, sacrifício, violência, devotamento
Que podia britar pedra alegremente
Ser negociante cantando
Fazer advocacia com o sorriso exato
Se com isso não perdesse o que por fatalidade de amor
Sabe ser o melhor, o mais doce e o mais eterno da tua puríssima carícia.
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