Poemas neste tema
Amizade
Emílio Moura
Marinha
Grito teu nome aos ventos.
Olha: há uma revoada marítima.
O horizonte se afasta, há um ritmo largo
de ondas que se espreguiçam.
Velas esguias,
para onde voam?
Sulcos de prata,
para onde levam?
Amiga, amiga! Ah, dize-me depressa:
Quem grita aos ventos o teu nome?
O mar, ou eu,
o grande mar que o está cantando?
Olha: há uma revoada marítima.
O horizonte se afasta, há um ritmo largo
de ondas que se espreguiçam.
Velas esguias,
para onde voam?
Sulcos de prata,
para onde levam?
Amiga, amiga! Ah, dize-me depressa:
Quem grita aos ventos o teu nome?
O mar, ou eu,
o grande mar que o está cantando?
987
João Airas de Santiago
Tôdalas Cousas Eu Vejo Partir
Tôdalas cousas eu vejo partir
do mund', em como soíam seer,
e vej'as gentes partir de fazer
bem que soíam, tal tempo nos vem!
Mais nom se pod'o coraçom partir
do meu amigo de mi querer bem.
Pero que home part'o coraçom
das cousas que ama, per bõa fé,
e parte-s'home da terra ond'é,
e parte-s'home d'u gran[de] prol tem,
nom se pode parti'lo coraçom
do meu amigo de mi querer bem.
Tôdalas cousas eu vejo mudar,
mudam-s'os tempos e muda-s'o al,
muda-s'a gente em fazer bem ou mal,
mudam-s'os ventos e tod'outra rem,
mais nom se pod'o coraçom mudar
do meu amigo de mi querer bem.
do mund', em como soíam seer,
e vej'as gentes partir de fazer
bem que soíam, tal tempo nos vem!
Mais nom se pod'o coraçom partir
do meu amigo de mi querer bem.
Pero que home part'o coraçom
das cousas que ama, per bõa fé,
e parte-s'home da terra ond'é,
e parte-s'home d'u gran[de] prol tem,
nom se pode parti'lo coraçom
do meu amigo de mi querer bem.
Tôdalas cousas eu vejo mudar,
mudam-s'os tempos e muda-s'o al,
muda-s'a gente em fazer bem ou mal,
mudam-s'os ventos e tod'outra rem,
mais nom se pod'o coraçom mudar
do meu amigo de mi querer bem.
734
Vinicius de Moraes
Alba
Alba, no canteiro dos lírios estão caídas as pétalas de uma rosa cor de
sangue
Que tristeza esta vida, minha amiga...
Lembras-te quando vínhamos na tarde roxa e eles jaziam puros
E houve um grande amor no nosso coração pela morte distante?
Ontem, Alba, sofri porque vi subitamente a nódoa rubra entre a carne pálida
ferida
Eu vinha passando tão calmo, Alba, tão longe da angústia, tão suavizado
Quando a visão daquela flor gloriosa matando a serenidade dos lírios entrou
em mim
E eu senti correr em meu corpo palpitações desordenadas de luxúria.
Eu sofri, minha amiga, porque aquela rosa me trouxe a lembrança do teu
sexo que eu não via
Sob a lívida pureza da tua pele aveludada e calma
Eu sofri porque de repente senti o vento e vi que estava nu e ardente
E porque era teu corpo dormindo que existia diante de meus olhos.
Como poderias me perdoar, minha amiga, se soubesses que me aproximei
da flor como um perdido
E a tive desfolhada entre minhas mãos nervosas e senti escorrer de mim o
sêmen da minha volúpia?
Ela está lá, Alba, sobre o canteiro dos lírios, desfeita e cor de sangue
Que destino nas coisas, minha amiga!
Lembras-te quando eram só os lírios altos e puros?
Hoje eles continuam misteriosamente vivendo, altos e trêmulos
Mas a pureza fugiu dos lírios como o último suspiro dos moribundos
Ficaram apenas as pétalas da rosa, vivas e rubras como a tua lembrança
Ficou o vento que soprou nas minhas faces e a terra que eu segurei nas
minhas mãos.
sangue
Que tristeza esta vida, minha amiga...
Lembras-te quando vínhamos na tarde roxa e eles jaziam puros
E houve um grande amor no nosso coração pela morte distante?
Ontem, Alba, sofri porque vi subitamente a nódoa rubra entre a carne pálida
ferida
Eu vinha passando tão calmo, Alba, tão longe da angústia, tão suavizado
Quando a visão daquela flor gloriosa matando a serenidade dos lírios entrou
em mim
E eu senti correr em meu corpo palpitações desordenadas de luxúria.
Eu sofri, minha amiga, porque aquela rosa me trouxe a lembrança do teu
sexo que eu não via
Sob a lívida pureza da tua pele aveludada e calma
Eu sofri porque de repente senti o vento e vi que estava nu e ardente
E porque era teu corpo dormindo que existia diante de meus olhos.
Como poderias me perdoar, minha amiga, se soubesses que me aproximei
da flor como um perdido
E a tive desfolhada entre minhas mãos nervosas e senti escorrer de mim o
sêmen da minha volúpia?
Ela está lá, Alba, sobre o canteiro dos lírios, desfeita e cor de sangue
Que destino nas coisas, minha amiga!
Lembras-te quando eram só os lírios altos e puros?
Hoje eles continuam misteriosamente vivendo, altos e trêmulos
Mas a pureza fugiu dos lírios como o último suspiro dos moribundos
Ficaram apenas as pétalas da rosa, vivas e rubras como a tua lembrança
Ficou o vento que soprou nas minhas faces e a terra que eu segurei nas
minhas mãos.
1 309
Charles Bukowski
Viciado Em Cavalo
nós trabalhávamos em banquetas lado a lado.
ele era negro e eu era branco
mas não é uma história racial –
nós éramos camaradas de apostas em cavalo
e ficávamos ali sentados enfiando cartas
a noite toda e por horas extras.
nossos olhos pareciam olhos de drogados:
estávamos viciados em Cavalo.
pelas 2 da manhã eu dava um salto e jogava minhas cartas todas no chão,
“ah, jesus!”, eu gritava, “ah, jesus cristo!”
“o quê o quê?”, meu camarada perguntava.
eu ficava ali parado com um cigarro queimando meus lábios:
“ah, jesus do céu, eu saquei! eu saquei! ah, jesus do céu,
é tão simples! me veio do nada! por que é que eu nunca tinha pensado?”
“o que é?”, ele perguntava, “me conta.”
então o supervisor vinha ver:
“Bukowski, qual é o maldito problema com você? cuide da sua estante! você
enlouqueceu?”
eu ficava ali parado e acendia calmamente um novo cigarro:
“escuta, bebê, cai fora! você me irrita! vou ser o primeiro a te contar, bebê,
meus dias de trabalho aqui estão definitivamente contados! eu saquei! eu realmente saquei
agora!”
“seus dias de trabalho aqui, Bukowski, estão definitivamente contados! agora cuide da sua estante e
pare de gritar!”
eu olhava pra ele como um cocô de cachorro e pegava o rumo da
latrina. por que é que eu não tinha pensado antes? eu ia comprar uma casa em Hollywood
Hills, beber e trepar a noite toda, ficar na jogatina o dia
todo.
então eu voltava, calmo.
ficava tudo bem até 4 da manhã e aí meu camarada dava um salto
jogando a correspondência pela estante toda:
“está tudo acabado! está tudo acabado! eu saquei! ah, meu deus, eu saquei!
é tão simples! tudo que você precisa fazer é pegar o cavalo que...”
“sim, sim?”, eu perguntava.
e o supervisor vinha correndo de novo
e perguntava ao meu camarada:
“e agora qual é o maldito problema com você? tá louco também?”
“escuta, cara, sai fora! tira essa cara da minha cara
ou eu te tiro no tapa!”
“tá me ameaçando, cara?”
“eu tô te dizendo, já era pra mim esse emprego! agora sai
fora!”
nós corríamos ao hipódromo no dia seguinte pra cair matando
mas de noite já estávamos de volta em nossas banquetas postais, como
sempre. sem dúvida, não faz muito sentido trabalhar a 20 ou 30 pratas por noite
quando você perde 50 pratas por dia. ele largou primeiro e eu logo
larguei atrás. vejo ele na pista todos os dias agora.
a esposa cuida dele. “eu finalmente aperfeiçoei minha jogada”, ele me diz.
“claro”, eu digo e me afasto pensando, esse filho da puta é realmente louco,
então vou até o guichê de 5 pela vitória pra apostar no meu esquema mais recente,
basta pegar a média de velocidade, acrescentar os 2 primeiros números na coluna de
dinheiro recebido, aí você...
ele era negro e eu era branco
mas não é uma história racial –
nós éramos camaradas de apostas em cavalo
e ficávamos ali sentados enfiando cartas
a noite toda e por horas extras.
nossos olhos pareciam olhos de drogados:
estávamos viciados em Cavalo.
pelas 2 da manhã eu dava um salto e jogava minhas cartas todas no chão,
“ah, jesus!”, eu gritava, “ah, jesus cristo!”
“o quê o quê?”, meu camarada perguntava.
eu ficava ali parado com um cigarro queimando meus lábios:
“ah, jesus do céu, eu saquei! eu saquei! ah, jesus do céu,
é tão simples! me veio do nada! por que é que eu nunca tinha pensado?”
“o que é?”, ele perguntava, “me conta.”
então o supervisor vinha ver:
“Bukowski, qual é o maldito problema com você? cuide da sua estante! você
enlouqueceu?”
eu ficava ali parado e acendia calmamente um novo cigarro:
“escuta, bebê, cai fora! você me irrita! vou ser o primeiro a te contar, bebê,
meus dias de trabalho aqui estão definitivamente contados! eu saquei! eu realmente saquei
agora!”
“seus dias de trabalho aqui, Bukowski, estão definitivamente contados! agora cuide da sua estante e
pare de gritar!”
eu olhava pra ele como um cocô de cachorro e pegava o rumo da
latrina. por que é que eu não tinha pensado antes? eu ia comprar uma casa em Hollywood
Hills, beber e trepar a noite toda, ficar na jogatina o dia
todo.
então eu voltava, calmo.
ficava tudo bem até 4 da manhã e aí meu camarada dava um salto
jogando a correspondência pela estante toda:
“está tudo acabado! está tudo acabado! eu saquei! ah, meu deus, eu saquei!
é tão simples! tudo que você precisa fazer é pegar o cavalo que...”
“sim, sim?”, eu perguntava.
e o supervisor vinha correndo de novo
e perguntava ao meu camarada:
“e agora qual é o maldito problema com você? tá louco também?”
“escuta, cara, sai fora! tira essa cara da minha cara
ou eu te tiro no tapa!”
“tá me ameaçando, cara?”
“eu tô te dizendo, já era pra mim esse emprego! agora sai
fora!”
nós corríamos ao hipódromo no dia seguinte pra cair matando
mas de noite já estávamos de volta em nossas banquetas postais, como
sempre. sem dúvida, não faz muito sentido trabalhar a 20 ou 30 pratas por noite
quando você perde 50 pratas por dia. ele largou primeiro e eu logo
larguei atrás. vejo ele na pista todos os dias agora.
a esposa cuida dele. “eu finalmente aperfeiçoei minha jogada”, ele me diz.
“claro”, eu digo e me afasto pensando, esse filho da puta é realmente louco,
então vou até o guichê de 5 pela vitória pra apostar no meu esquema mais recente,
basta pegar a média de velocidade, acrescentar os 2 primeiros números na coluna de
dinheiro recebido, aí você...
1 139
Charles Bukowski
A Massa Solar: Alma: Gênese E Geotropismo:
permitam-me agora tentar
atenuar a grandeza laríngea de Veechy:
pois que homem do tempo poderia ter
dito:
“Espiões, Espadas, Espinhos – externo extrapsino.
Oósporo aguilhão do ofito opino.”
Bigorna!
e isso foi antes de
Pound, Olson, Williams, John
Muir.
“Planos planímetros planifólios!”, certa vez ele me
escreveu.
“Pelas barbas da rocha quinquangular”, retorqui
eu, “acertou em cheio!”
eu o visitei na Itália no Dia de Todos os Tolos
e sua autoridade nos pulvilos pontilhados
nunca me deixou em dúvida
umbrosa.
“Trépano”, ele disse, “ode – uíste! – fragrantes astrágalos.”
foi a última vez. que. o vi. Veechy tinha
embocaduras brasonadas, criptônimos, drosômetros;
que o favoso favor dele
ressoe pela ruma,
rubefaciente, causando também o ruído na
rutabaga.
atenuar a grandeza laríngea de Veechy:
pois que homem do tempo poderia ter
dito:
“Espiões, Espadas, Espinhos – externo extrapsino.
Oósporo aguilhão do ofito opino.”
Bigorna!
e isso foi antes de
Pound, Olson, Williams, John
Muir.
“Planos planímetros planifólios!”, certa vez ele me
escreveu.
“Pelas barbas da rocha quinquangular”, retorqui
eu, “acertou em cheio!”
eu o visitei na Itália no Dia de Todos os Tolos
e sua autoridade nos pulvilos pontilhados
nunca me deixou em dúvida
umbrosa.
“Trépano”, ele disse, “ode – uíste! – fragrantes astrágalos.”
foi a última vez. que. o vi. Veechy tinha
embocaduras brasonadas, criptônimos, drosômetros;
que o favoso favor dele
ressoe pela ruma,
rubefaciente, causando também o ruído na
rutabaga.
697
Reynaldo Jardim
Não somos um
Não lhe direi o impossível,
a verdade alastrou-me:
o seu valor equivale
à densidade dos outros.
Não somos um. Que outrora
éramos um, ou pensamos
sermos eu, você, o outro,
três elementos distintos.
Cada movimento teu
altera, sem restrição,
o passo próximo dado
pelo seu pai ou amigo.
A função é coligada,
contínua, una, solúvel,
se arrebentarmos todos,
você se dissolverá.
Calarei o impossível
a multidão alastrou-me.
O meu valor equivale
à conjunta redenção.
a verdade alastrou-me:
o seu valor equivale
à densidade dos outros.
Não somos um. Que outrora
éramos um, ou pensamos
sermos eu, você, o outro,
três elementos distintos.
Cada movimento teu
altera, sem restrição,
o passo próximo dado
pelo seu pai ou amigo.
A função é coligada,
contínua, una, solúvel,
se arrebentarmos todos,
você se dissolverá.
Calarei o impossível
a multidão alastrou-me.
O meu valor equivale
à conjunta redenção.
707
Diamond
Mosaico
Cada uma em seu lugar
Como cores, mil palavras
O ladrilheiro dos poemas
E seu trabalho para acomodar
Em forma de verso e prosa
Há um verbo para sonhar
A mensagem corajosa
Dizendo que vou amar
Você por toda minha vida
Enquanto a vida durar
Para amigos muito especiais.
Para o dia dezenove e
Para toda a vida
Como cores, mil palavras
O ladrilheiro dos poemas
E seu trabalho para acomodar
Em forma de verso e prosa
Há um verbo para sonhar
A mensagem corajosa
Dizendo que vou amar
Você por toda minha vida
Enquanto a vida durar
Para amigos muito especiais.
Para o dia dezenove e
Para toda a vida
1 124
João Airas de Santiago
Entend'eu, Amiga, Per Boa Fé
Entend'eu, amiga, per boa fé,
que havedes queixum', u al nom há,
de voss'amigo, que aqui está,
e el de vós, [e] nom sei por que é,
mais quero-vos ora bem conselhar:
fazed'i ambos o que eu mandar.
E, amiga, de pram, u nom jaz al,
este preito deve-se de fazer,
ca vos vejo del gram queixum'haver
e el de vós, e tenho que é mal;
mais quero-vos ora bem conselhar:
fazed'i ambos o que eu mandar.
Sanha d'amigos é, nom será bem,
e sei que faredes end'o melhor,
pero vejo-vos haver desamor
del, amiga, e esto nom convém;
mais quero-vos ora bem conselhar:
fazed'i ambos o que eu mandar.
E mal [l]h'en venh'a quem nom outorgar
antre vós ambos o que eu mandar.
que havedes queixum', u al nom há,
de voss'amigo, que aqui está,
e el de vós, [e] nom sei por que é,
mais quero-vos ora bem conselhar:
fazed'i ambos o que eu mandar.
E, amiga, de pram, u nom jaz al,
este preito deve-se de fazer,
ca vos vejo del gram queixum'haver
e el de vós, e tenho que é mal;
mais quero-vos ora bem conselhar:
fazed'i ambos o que eu mandar.
Sanha d'amigos é, nom será bem,
e sei que faredes end'o melhor,
pero vejo-vos haver desamor
del, amiga, e esto nom convém;
mais quero-vos ora bem conselhar:
fazed'i ambos o que eu mandar.
E mal [l]h'en venh'a quem nom outorgar
antre vós ambos o que eu mandar.
646
João Airas de Santiago
Par Deus, Amigo, Nom Sei Eu Que É
Par Deus, amigo, nom sei eu que é,
mais muit'há já que vos vejo partir
de trobar por mi e de me servir,
mais ũa destas é, per bõa fé:
ou é per mi, que vos nom faço bem,
ou é sinal de morte que vos vem.
Mui gram temp'há, e tenho que é mal,
que vos nom oí já cantar fazer,
nem loar-mi, nem meu bom parecer,
mais ũa destas é, u nom ja[z] al:
ou é per mi, que vos nom faço bem,
ou é sinal de morte que vos vem.
Já m'eu do tempo acordar nom sei
que vos oísse fazer um cantar,
como soíades, por me loar,
mais ũa destas é que vos direi:
ou é per mi, que vos nom faço bem,
ou é sinal de morte que vos vem.
Se é per mi, que vos nom faço bem,
dizede-mi-o, e já quê farei en.
mais muit'há já que vos vejo partir
de trobar por mi e de me servir,
mais ũa destas é, per bõa fé:
ou é per mi, que vos nom faço bem,
ou é sinal de morte que vos vem.
Mui gram temp'há, e tenho que é mal,
que vos nom oí já cantar fazer,
nem loar-mi, nem meu bom parecer,
mais ũa destas é, u nom ja[z] al:
ou é per mi, que vos nom faço bem,
ou é sinal de morte que vos vem.
Já m'eu do tempo acordar nom sei
que vos oísse fazer um cantar,
como soíades, por me loar,
mais ũa destas é que vos direi:
ou é per mi, que vos nom faço bem,
ou é sinal de morte que vos vem.
Se é per mi, que vos nom faço bem,
dizede-mi-o, e já quê farei en.
633
Martha Medeiros
Entre Amigos
Para que serve um amigo? Para rachar a gasolina, emprestar a prancha, recomendar um disco, dar carona pra festa, passar cola, caminhar no shopping, segurar a barra. Todas as alternativas estão corretas, porém isso não basta para guardar um amigo do lado esquerdo do peito.
Milan Kundera, escritor tcheco, escreveu em seu último livro, "A Identidade", que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos.
Verdade verdadeira. Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo construído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou se serão varridos numa chuva de verão. Veremos.
Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos.
Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta.
Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país.
Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu.
Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o réveillon.
Um amigo não caminha apenas no shopping. Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado.
Um amigo não segura a barra, apenas. Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.
Duas dúzias de amigos assim ninguém tem. Se tiver um, amém.
Milan Kundera, escritor tcheco, escreveu em seu último livro, "A Identidade", que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos.
Verdade verdadeira. Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo construído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou se serão varridos numa chuva de verão. Veremos.
Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos.
Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta.
Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país.
Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu.
Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o réveillon.
Um amigo não caminha apenas no shopping. Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado.
Um amigo não segura a barra, apenas. Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.
Duas dúzias de amigos assim ninguém tem. Se tiver um, amém.
1 727
António Ramos Rosa
Tertúlia
Não encontro casa
casa onde estar
Ai amigo senta-te
fala-me de ti
Não encontro amiga
não encontro amigo
Se não tenho casa
como ser amigo?
Os meus estão longe
e não têm casa
A natureza é longe
A uma mesa de café
somos quatro quatro quê?
casa onde estar
Ai amigo senta-te
fala-me de ti
Não encontro amiga
não encontro amigo
Se não tenho casa
como ser amigo?
Os meus estão longe
e não têm casa
A natureza é longe
A uma mesa de café
somos quatro quatro quê?
1 096
Herberto Helder
Quatro Poemas Árabes - Ornatos
O vinho cor-de-rosa é bom, ó companheiros.
Sim, eu voltei, e melhor do que o vinho é o regresso.
Dai-me esse vinho antigo no seu vestido de vidro,
jacinto flamante no interior de uma pérola.
Cinzela nele a água ornatos cor de prata,
ramalhete de círculos evanescentes
que me livraram, eles, das chamas do inferno —
o que não posso negar e humildemente agradeço.
Sim, eu voltei, e melhor do que o vinho é o regresso.
Dai-me esse vinho antigo no seu vestido de vidro,
jacinto flamante no interior de uma pérola.
Cinzela nele a água ornatos cor de prata,
ramalhete de círculos evanescentes
que me livraram, eles, das chamas do inferno —
o que não posso negar e humildemente agradeço.
1 139
Charles Bukowski
Meus Novos Pais
(para o sr. e a sra. P.C.)
ele tem 60 anos. ela tem 55. eu tenho 53.
nós sentamos e bebemos na cozinha
deles. esvaziamos nossas cervejas de um litro
e fumamos um cigarro atrás do outro.
somos bebuns bobos. as horas voam.
discutimos religião, futebol,
estrelas de cinema.
digo a eles que eu poderia ser uma estrela de cinema.
ele me diz que é uma estrela de cinema.
um rádio vermelho toca música atrás
de nós.
“vocês são os meus novos pais”, digo a eles.
eu me levanto e beijo ambos
no alto da cabeça.
ele tem 60 anos. ela tem 55. eu tenho 53.
meus novos pais.
eu ergo meu litro de cerveja:
“eu compro da próxima vez, o trago é por minha conta
da próxima vez.”
eles não respondem.
“vou estar de volta em meados de janeiro,
vou trazer um presente, vou trazer um presente
valendo uns 14 dólares.”
“como estão os seus dentes?”, ele pergunta.
“estão bem, o que restou deles.”
“se precisar de dentes procure a U.S.C.
Medical School.”
ele põe a mão dentro da boca
tira uma dentadura, depois a
outra. ele as coloca na
mesa. “olha só esses dentes, não se acha
coisa melhor do que esses aí. U.S.C. Medical
School.”
“você consegue comer qualquer coisa?”, pergunto.
“qualquer coisa que se mexer”, ele diz.
logo ele adormece
cabeça sobre os braços. ela me acompanha até a
porta.
dou o beijo de boa noite na minha mãe.
“você me dá tesão, seu filho da puta”, ela
diz.
“ora, mamãe”, digo eu, “não fale desse jeito.
o bom Deus está escutando.”
ela fecha a porta e eu desço a
entrada da garagem
bêbado ao luar.
ele tem 60 anos. ela tem 55. eu tenho 53.
nós sentamos e bebemos na cozinha
deles. esvaziamos nossas cervejas de um litro
e fumamos um cigarro atrás do outro.
somos bebuns bobos. as horas voam.
discutimos religião, futebol,
estrelas de cinema.
digo a eles que eu poderia ser uma estrela de cinema.
ele me diz que é uma estrela de cinema.
um rádio vermelho toca música atrás
de nós.
“vocês são os meus novos pais”, digo a eles.
eu me levanto e beijo ambos
no alto da cabeça.
ele tem 60 anos. ela tem 55. eu tenho 53.
meus novos pais.
eu ergo meu litro de cerveja:
“eu compro da próxima vez, o trago é por minha conta
da próxima vez.”
eles não respondem.
“vou estar de volta em meados de janeiro,
vou trazer um presente, vou trazer um presente
valendo uns 14 dólares.”
“como estão os seus dentes?”, ele pergunta.
“estão bem, o que restou deles.”
“se precisar de dentes procure a U.S.C.
Medical School.”
ele põe a mão dentro da boca
tira uma dentadura, depois a
outra. ele as coloca na
mesa. “olha só esses dentes, não se acha
coisa melhor do que esses aí. U.S.C. Medical
School.”
“você consegue comer qualquer coisa?”, pergunto.
“qualquer coisa que se mexer”, ele diz.
logo ele adormece
cabeça sobre os braços. ela me acompanha até a
porta.
dou o beijo de boa noite na minha mãe.
“você me dá tesão, seu filho da puta”, ela
diz.
“ora, mamãe”, digo eu, “não fale desse jeito.
o bom Deus está escutando.”
ela fecha a porta e eu desço a
entrada da garagem
bêbado ao luar.
956
João Airas de Santiago
O Meu Amigo, Forçado D'amor
O meu amigo, forçado d'amor,
pois agora comigo quer viver
ũa sazom, se o puder fazer,
nom dórmia já mentre comigo for,
ca daquel tempo que migo guarir
atanto perderá quanto dormir.
E quem bem quer [o] seu tempo passar
u é com sa senhor, nom dorme rem;
e meu amigo, pois pera mi vem,
nom dórmia já mentre migo morar,
ca daquel tempo que migo guarir
atanto perderá quanto dormir.
E, se lh'aprouguer de dormir alá
u el é, prazer-mi-á, per bõa fé,
pero dormir tempo perdud[o] é,
mais per meu grad'aqui nom dormirá,
ca daquel tempo que migo guarir
atanto perderá quanto dormir.
E, depois que s[e] el de mim partir,
tanto dórmia quanto quiser dormir.
pois agora comigo quer viver
ũa sazom, se o puder fazer,
nom dórmia já mentre comigo for,
ca daquel tempo que migo guarir
atanto perderá quanto dormir.
E quem bem quer [o] seu tempo passar
u é com sa senhor, nom dorme rem;
e meu amigo, pois pera mi vem,
nom dórmia já mentre migo morar,
ca daquel tempo que migo guarir
atanto perderá quanto dormir.
E, se lh'aprouguer de dormir alá
u el é, prazer-mi-á, per bõa fé,
pero dormir tempo perdud[o] é,
mais per meu grad'aqui nom dormirá,
ca daquel tempo que migo guarir
atanto perderá quanto dormir.
E, depois que s[e] el de mim partir,
tanto dórmia quanto quiser dormir.
640
Ruy Belo
Haceldama
Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha
capaz de perseguir uma criança pelas ruas à infância reservadas
alheio e silencioso e tão distante como alguma ideia
Alguém – mas quem? – caiu de bruços ante o santuário
de insídias e ciladas vinha cego
manso senhor dos templos à mercê dos lábios
primeiro e derradeiro como Adão
abolidor da humana deficiência de alma
controlador dos mais subtis movimentos interiores
firme como quem visse o invisível
sol nascente do alto de olhar incendiado e rosto irresistível
senhor indescritível da palavra capaz de destruir
arrancar arruinar e assolar
e levantar e plantar e edificar
nos ombros manto de seus cuidados o outono
na fronte o coração durante imensos dias
as mãos erguidas como sacrifício à tarde
os braços repetidos pelo tempo inumerável
além do mar ou mesmo além do mundo
Será o Alentejo e o que em seus campos vejo
ou o resto de tudo, o que ninguém procura
Mas nesse alguém – quem quer que seja – são reais
o prazer da maçã mordida ocultamente
a casa entreaberta nas veladas vestes da memória
ou Trindade Coelho lido alguma vez à noite
ou simplesmente antigos dias de oliveiras
ou água sobre alguns recém-passados passos
um sábado uma lua ou uma festa
E a palavra – o prometido e adiado coração –
nos é já sem parábolas proposta
lá onde sobre o vulto trigo insistentemente corre
e um só nome oscila nas eleitas frontes
num movimento lento como o vento
e onde ainda vagamente é sábado
e os homens perseveram nos antigos rigorosos rostos
de encontro ao prometido amanhecer de Deus.
Outrora vinha Deus e nós dizíamos:
ouve-se o mar
Ou: há na vida ou no quintal a nosso lado
crianças a brincar
Agora nenhum gesto nesse alguém começa ou morre
brilhos tristes ternos gatos mornos mortes males
Já não há ruas para os vários e pequenos sofrimentos
nem ali estamos temos filhos ou envelhecemos
sofremos chuva ou frio a ocidente
não mais somos injustos para com muito mais que os nossos pais
nem a menor ausência nos magoa enormemente
E tudo inalteravelmente soma e segue
Mas vede-o entretanto vir da vida velho do regresso
por muitos rostos gestos longes dispersado
as inúmeras mãos caídas sem remédio ao lado
comprometido o brilho do olhar em excesso
Grande era a história que trazia para contar
Ele quis – oh! quantas vezes – transmiti-la aos outros
mas poucos o ouviram começar retroceder recomeçar
Passai-lhe no entanto o sono pela face e pelos membros
dominicalmente originariamente como com mãos de mãe
vesti-o longos dias meses anos de silêncio
dai-lhe a beber vinagre atai-lhe os movimentos
roubai-lhe pelas feridas o sonho e a saúde
Ungi-o mais – oh! muito mais – humano do que nós
que saberá levar bem mais do que uma enxada às costas
e até determinar as qualidades físicas dos sons
Donde veio ele agora? Quem o tornou possível
e estas nossas mãos abundantes em dias?
Foi visto – dizem – na cidade ia sozinho
preso a uma dor lavada como rua ao sol
perdido e trespassado entre o número dos olhos
levemente submerso nos mais altos rostos
aonde a solidão é mais visível
e a dor perfeitamente navegável a muitas milhas da foz
E há um grande coração em construção
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 107 a 109 | Círculo de Leitores, Dez 2000
capaz de perseguir uma criança pelas ruas à infância reservadas
alheio e silencioso e tão distante como alguma ideia
Alguém – mas quem? – caiu de bruços ante o santuário
de insídias e ciladas vinha cego
manso senhor dos templos à mercê dos lábios
primeiro e derradeiro como Adão
abolidor da humana deficiência de alma
controlador dos mais subtis movimentos interiores
firme como quem visse o invisível
sol nascente do alto de olhar incendiado e rosto irresistível
senhor indescritível da palavra capaz de destruir
arrancar arruinar e assolar
e levantar e plantar e edificar
nos ombros manto de seus cuidados o outono
na fronte o coração durante imensos dias
as mãos erguidas como sacrifício à tarde
os braços repetidos pelo tempo inumerável
além do mar ou mesmo além do mundo
Será o Alentejo e o que em seus campos vejo
ou o resto de tudo, o que ninguém procura
Mas nesse alguém – quem quer que seja – são reais
o prazer da maçã mordida ocultamente
a casa entreaberta nas veladas vestes da memória
ou Trindade Coelho lido alguma vez à noite
ou simplesmente antigos dias de oliveiras
ou água sobre alguns recém-passados passos
um sábado uma lua ou uma festa
E a palavra – o prometido e adiado coração –
nos é já sem parábolas proposta
lá onde sobre o vulto trigo insistentemente corre
e um só nome oscila nas eleitas frontes
num movimento lento como o vento
e onde ainda vagamente é sábado
e os homens perseveram nos antigos rigorosos rostos
de encontro ao prometido amanhecer de Deus.
Outrora vinha Deus e nós dizíamos:
ouve-se o mar
Ou: há na vida ou no quintal a nosso lado
crianças a brincar
Agora nenhum gesto nesse alguém começa ou morre
brilhos tristes ternos gatos mornos mortes males
Já não há ruas para os vários e pequenos sofrimentos
nem ali estamos temos filhos ou envelhecemos
sofremos chuva ou frio a ocidente
não mais somos injustos para com muito mais que os nossos pais
nem a menor ausência nos magoa enormemente
E tudo inalteravelmente soma e segue
Mas vede-o entretanto vir da vida velho do regresso
por muitos rostos gestos longes dispersado
as inúmeras mãos caídas sem remédio ao lado
comprometido o brilho do olhar em excesso
Grande era a história que trazia para contar
Ele quis – oh! quantas vezes – transmiti-la aos outros
mas poucos o ouviram começar retroceder recomeçar
Passai-lhe no entanto o sono pela face e pelos membros
dominicalmente originariamente como com mãos de mãe
vesti-o longos dias meses anos de silêncio
dai-lhe a beber vinagre atai-lhe os movimentos
roubai-lhe pelas feridas o sonho e a saúde
Ungi-o mais – oh! muito mais – humano do que nós
que saberá levar bem mais do que uma enxada às costas
e até determinar as qualidades físicas dos sons
Donde veio ele agora? Quem o tornou possível
e estas nossas mãos abundantes em dias?
Foi visto – dizem – na cidade ia sozinho
preso a uma dor lavada como rua ao sol
perdido e trespassado entre o número dos olhos
levemente submerso nos mais altos rostos
aonde a solidão é mais visível
e a dor perfeitamente navegável a muitas milhas da foz
E há um grande coração em construção
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 107 a 109 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 275
João Airas de Santiago
Diz, Amiga, o Que Mi Gram Bem Quer
Diz, amiga, o que mi gram bem quer
que nunca mais mi rem demandará,
sol que lh'ouça quanto dizer quiser,
e, mentre viver, que me servirá;
e vedes ora com'é sabedor:
que, pois que lh'eu tod'este bem fezer,
log'el querrá que lhi faça melhor.
Mui bem cuid'eu que com mentira vem,
pero jura que mi nom quer mentir,
mais diz que fale conmig', e por en,
mentre viver, nom mi quer al pedir;
e vedes ora com'é sabedor:
que, pois que lh'eu tod'este bem fezer,
log'el querrá que lhi faça melhor.
Gram pavor hei nom me queira enganar,
pero diz el que nom quer al de mim
senom falar mig', e mais demandar,
mentre viver, nom [mi] quer des ali;
e vedes ora com'é sabedor:
que, pois que lh'eu tod'este bem fezer,
log'el querrá que lhi faça melhor.
E esto será mentr'o mundo for:
quant'home mais houver ou acabar,
tanto d'haver mais haverá sabor.
Mais id', amiga, vós, por meu amor,
conmig'ali u m'el quiser falar,
ca mal mi venha, se lh'eu soa for.
que nunca mais mi rem demandará,
sol que lh'ouça quanto dizer quiser,
e, mentre viver, que me servirá;
e vedes ora com'é sabedor:
que, pois que lh'eu tod'este bem fezer,
log'el querrá que lhi faça melhor.
Mui bem cuid'eu que com mentira vem,
pero jura que mi nom quer mentir,
mais diz que fale conmig', e por en,
mentre viver, nom mi quer al pedir;
e vedes ora com'é sabedor:
que, pois que lh'eu tod'este bem fezer,
log'el querrá que lhi faça melhor.
Gram pavor hei nom me queira enganar,
pero diz el que nom quer al de mim
senom falar mig', e mais demandar,
mentre viver, nom [mi] quer des ali;
e vedes ora com'é sabedor:
que, pois que lh'eu tod'este bem fezer,
log'el querrá que lhi faça melhor.
E esto será mentr'o mundo for:
quant'home mais houver ou acabar,
tanto d'haver mais haverá sabor.
Mais id', amiga, vós, por meu amor,
conmig'ali u m'el quiser falar,
ca mal mi venha, se lh'eu soa for.
284
João Airas de Santiago
Alguém Vos Diss', Amig', E Sei-O Eu
Alguém vos diss', amig', e sei-o eu,
por mi miscrar convosco, que falei
com outr'homem, mais nunca o cuidei,
e, meu amig', e direi-vo-l[o] eu:
de mentira nom me poss'eu guardar,
mais guardar-m'-ei de vos fazer pesar.
Alguém sabe que mi queredes bem
e pesa-lh'end'e nom pod'al fazer
senom que mi quer mentira põer;
[e] meu amig'e meu lum'e meu bem
de mentira nom me poss'eu guardar,
mais guardar-m'-ei de vos fazer pesar.
E bem sei de quem tam gram sabor há
de mentir e nom teme Deus nem al,
que mi assaca tal mentira e al,
[e], meu amig', e vedes quant'i há:
de mentira nom me poss'eu guardar,
mais guardar-m'-ei de vos fazer pesar.
De fazer mentira sei-m'eu guardar,
mais nom de quem me mal quer assacar.
por mi miscrar convosco, que falei
com outr'homem, mais nunca o cuidei,
e, meu amig', e direi-vo-l[o] eu:
de mentira nom me poss'eu guardar,
mais guardar-m'-ei de vos fazer pesar.
Alguém sabe que mi queredes bem
e pesa-lh'end'e nom pod'al fazer
senom que mi quer mentira põer;
[e] meu amig'e meu lum'e meu bem
de mentira nom me poss'eu guardar,
mais guardar-m'-ei de vos fazer pesar.
E bem sei de quem tam gram sabor há
de mentir e nom teme Deus nem al,
que mi assaca tal mentira e al,
[e], meu amig', e vedes quant'i há:
de mentira nom me poss'eu guardar,
mais guardar-m'-ei de vos fazer pesar.
De fazer mentira sei-m'eu guardar,
mais nom de quem me mal quer assacar.
897
Charles Bukowski
Língua Cortada
ele mora nos fundos e aparece na minha porta
carregando a espingarda numa das mãos.
“escuta”, ele diz, “tinha um cara sentado
no seu sofá na varanda enquanto você estava
fora. agindo estranho. perguntei o que ele
queria, ele disse que queria falar com você.
falei que você não estava. você conhece um
negro alto chamado ‘Dave’?”
“não conheço ninguém assim...”
“vi esse cara na rua depois e
perguntei o que ele estava fazendo na vizi-
nhança.”
“não conheço nenhum negro alto chamado ‘Dave’.”
“andei vigiando sua casa. botei pra correr um par
daqueles alemães. você não quer saber de alemão nenhum,
quer?”
“não, Max, não gosto de alemães, franceses e sobretudo
não gosto de ingleses. os mexicanos e os gregos são
ok mas tem algo que me desagrada na expressão que eles têm no
rosto.”
“tem aparecido mais alemães do que qualquer outro tipo.”
“bota pra correr...”
“tá bom, pode deixar... quando você viaja de novo?”
“amanhã.”
“amanhã...?”
“amanhã, sim, e se você encontrar um filho da puta sentado no
meu sofá da varanda, pode estourar a porra da cabeça dele...”
“tá bom, pode deixar...”
“obrigado, Max...”
“sem problema...”
ele volta para o pátio dele nos fundos com sua
espingarda e
entra.
“meu deus”, diz Linda Lee, “sabe o que você
fez?”
“sim”, eu digo.
“ele acredita em você. quando a gente voltar vai ter
um cadáver na varanda.”
“tudo bem...”
“você não lembra quando eu tirei meu dia de silêncio?
você disse pra ele que tinha cortado minha língua... e ele
levou a sério...”
“Max é o único amigão de verdade que eu
tenho...”
“você é um cúmplice...”
“não gosto de caras não convidados sentados no meu sofá
da varanda esperando por mim...”
“digamos que seja um poeta, um cara que admira a sua
obra?”
“como eu disse, ‘Max é o único amigão de verdade que eu tenho.’
vamos fazer as malas...”
“o que houve com meu vestido verde?”,
ela pergunta.
carregando a espingarda numa das mãos.
“escuta”, ele diz, “tinha um cara sentado
no seu sofá na varanda enquanto você estava
fora. agindo estranho. perguntei o que ele
queria, ele disse que queria falar com você.
falei que você não estava. você conhece um
negro alto chamado ‘Dave’?”
“não conheço ninguém assim...”
“vi esse cara na rua depois e
perguntei o que ele estava fazendo na vizi-
nhança.”
“não conheço nenhum negro alto chamado ‘Dave’.”
“andei vigiando sua casa. botei pra correr um par
daqueles alemães. você não quer saber de alemão nenhum,
quer?”
“não, Max, não gosto de alemães, franceses e sobretudo
não gosto de ingleses. os mexicanos e os gregos são
ok mas tem algo que me desagrada na expressão que eles têm no
rosto.”
“tem aparecido mais alemães do que qualquer outro tipo.”
“bota pra correr...”
“tá bom, pode deixar... quando você viaja de novo?”
“amanhã.”
“amanhã...?”
“amanhã, sim, e se você encontrar um filho da puta sentado no
meu sofá da varanda, pode estourar a porra da cabeça dele...”
“tá bom, pode deixar...”
“obrigado, Max...”
“sem problema...”
ele volta para o pátio dele nos fundos com sua
espingarda e
entra.
“meu deus”, diz Linda Lee, “sabe o que você
fez?”
“sim”, eu digo.
“ele acredita em você. quando a gente voltar vai ter
um cadáver na varanda.”
“tudo bem...”
“você não lembra quando eu tirei meu dia de silêncio?
você disse pra ele que tinha cortado minha língua... e ele
levou a sério...”
“Max é o único amigão de verdade que eu
tenho...”
“você é um cúmplice...”
“não gosto de caras não convidados sentados no meu sofá
da varanda esperando por mim...”
“digamos que seja um poeta, um cara que admira a sua
obra?”
“como eu disse, ‘Max é o único amigão de verdade que eu tenho.’
vamos fazer as malas...”
“o que houve com meu vestido verde?”,
ela pergunta.
1 157
Charles Bukowski
Um Longo Dia Quente No Hipódromo
o dia todo lá no hipódromo queimando no sol
eles viraram tudo de ponta-cabeça, lançaram as
apostas remotas todas. tive um único vencedor, um
lance de 6 pra 1. é em dias como esse que você percebe
o logro em andamento.
eu estava no clube. encontro geralmente o
maître d’ do Musso’s no clube. naquele
dia eu encontrei meu médico. “mas onde é que você andava?”,
ele me perguntou. “nada além de ressacas ultimamente”,
respondi. “apareça mesmo assim. você não vai
querer ficar doente. podemos almoçar. conheço um
tailandês, vamos comer uma comida tailandesa. você ainda
escreve aqueles troços pornográficos?” “sim”, eu disse,
“é só assim que eu consigo fazer.” “vou me
sentar com você”, ele disse, “peguei o 6.”
“peguei o 6 também”, eu disse, “ou seja,
estamos fodidos.”
sentamos e ele me falou sobre suas quatro
esposas: a primeira não queria copular.
a segunda queria ir esquiar em
Aspen toda hora. a terceira era
louca. a quarta era ok, eles
ficaram juntos por sete anos.
os cavalos saíram do portão. o médico
apenas olhava para mim e falava sobre sua quarta
esposa. um médico bem falastrão. eu tinha
acessos de tontura ouvindo sua falação sentado
na beira da mesa de exame. mas ele tinha
trazido minha filha ao mundo e tinha cortado
fora minhas hemorroidas.
ele seguia falando da quarta esposa...
a corrida era de 6 furlongs e a menos que seja um bando
de perdedores lentos os 6 furlongs são geralmente corridos
em algo entre um minuto e nove ou dez
segundos. o primeiro cavalo era 24 pra um e tinha
pulado para uma liderança de três comprimentos. o filho da
puta parecia não ter nenhuma intenção de
parar.
“escuta”, eu disse, “você não vai olhar
a corrida?”
“não”, ele disse, “não aguento olhar, fico
aflito demais.”
ele começou de novo com a quarta esposa.
“espera”, eu disse, “estão vindo pela
reta final!”
o 24 pra um chegou com cinco comprimentos. já
era.
“não tem lógica nenhuma em nada desse troço aqui”,
disse o médico.
“eu sei”, eu disse, “mas a pergunta que você deve
me responder é: ‘por que nós estamos aqui?’.”
ele abriu a carteira e me mostrou uma foto de
seus dois filhos. falei que eram belas
crianças e que restava uma corrida.
“estou quebrado”, ele disse, “preciso ir. perdi
$425.”
“tá bom, tchau.” apertamos as mãos.
“me liga”, ele disse, “a gente vai no restaurante tailandês.”
a última corrida não foi melhor: botaram pra correr um
9 pra um que estava subindo de categoria e
não tinha vencido nenhuma corrida em dois anos.
desci a escada rolante com os perdedores. era
uma quinta-feira quente de julho. o que é que o meu médico
estava fazendo no hipódromo numa quinta? e
se eu estivesse com câncer ou gonorreia? Jesus Cristo, não
dava pra confiar mais em ninguém.
eu tinha lido no jornal entre as corridas
que uns garotos haviam invadido uma
casa e espancado uma mulher de 96 anos
até a morte e haviam espancado quase até a morte
a irmã ou filha cega de 82 anos,
eu não lembrava direito. mas haviam levado um
aparelho de televisão a cores.
pensei, se me pegarem aqui
amanhã, eu mereço perder. não
estarei aqui, creio que
não.
andei até o meu carro com o Programa
das Corridas do dia seguinte enrolado na
mão direita.
eles viraram tudo de ponta-cabeça, lançaram as
apostas remotas todas. tive um único vencedor, um
lance de 6 pra 1. é em dias como esse que você percebe
o logro em andamento.
eu estava no clube. encontro geralmente o
maître d’ do Musso’s no clube. naquele
dia eu encontrei meu médico. “mas onde é que você andava?”,
ele me perguntou. “nada além de ressacas ultimamente”,
respondi. “apareça mesmo assim. você não vai
querer ficar doente. podemos almoçar. conheço um
tailandês, vamos comer uma comida tailandesa. você ainda
escreve aqueles troços pornográficos?” “sim”, eu disse,
“é só assim que eu consigo fazer.” “vou me
sentar com você”, ele disse, “peguei o 6.”
“peguei o 6 também”, eu disse, “ou seja,
estamos fodidos.”
sentamos e ele me falou sobre suas quatro
esposas: a primeira não queria copular.
a segunda queria ir esquiar em
Aspen toda hora. a terceira era
louca. a quarta era ok, eles
ficaram juntos por sete anos.
os cavalos saíram do portão. o médico
apenas olhava para mim e falava sobre sua quarta
esposa. um médico bem falastrão. eu tinha
acessos de tontura ouvindo sua falação sentado
na beira da mesa de exame. mas ele tinha
trazido minha filha ao mundo e tinha cortado
fora minhas hemorroidas.
ele seguia falando da quarta esposa...
a corrida era de 6 furlongs e a menos que seja um bando
de perdedores lentos os 6 furlongs são geralmente corridos
em algo entre um minuto e nove ou dez
segundos. o primeiro cavalo era 24 pra um e tinha
pulado para uma liderança de três comprimentos. o filho da
puta parecia não ter nenhuma intenção de
parar.
“escuta”, eu disse, “você não vai olhar
a corrida?”
“não”, ele disse, “não aguento olhar, fico
aflito demais.”
ele começou de novo com a quarta esposa.
“espera”, eu disse, “estão vindo pela
reta final!”
o 24 pra um chegou com cinco comprimentos. já
era.
“não tem lógica nenhuma em nada desse troço aqui”,
disse o médico.
“eu sei”, eu disse, “mas a pergunta que você deve
me responder é: ‘por que nós estamos aqui?’.”
ele abriu a carteira e me mostrou uma foto de
seus dois filhos. falei que eram belas
crianças e que restava uma corrida.
“estou quebrado”, ele disse, “preciso ir. perdi
$425.”
“tá bom, tchau.” apertamos as mãos.
“me liga”, ele disse, “a gente vai no restaurante tailandês.”
a última corrida não foi melhor: botaram pra correr um
9 pra um que estava subindo de categoria e
não tinha vencido nenhuma corrida em dois anos.
desci a escada rolante com os perdedores. era
uma quinta-feira quente de julho. o que é que o meu médico
estava fazendo no hipódromo numa quinta? e
se eu estivesse com câncer ou gonorreia? Jesus Cristo, não
dava pra confiar mais em ninguém.
eu tinha lido no jornal entre as corridas
que uns garotos haviam invadido uma
casa e espancado uma mulher de 96 anos
até a morte e haviam espancado quase até a morte
a irmã ou filha cega de 82 anos,
eu não lembrava direito. mas haviam levado um
aparelho de televisão a cores.
pensei, se me pegarem aqui
amanhã, eu mereço perder. não
estarei aqui, creio que
não.
andei até o meu carro com o Programa
das Corridas do dia seguinte enrolado na
mão direita.
1 089
João Airas de Santiago
Vai Meu Amigo Com El-Rei Morar
Vai meu amigo com el-rei morar
e nom mi o disse nem lh[o] outorguei,
e faz mal sem de mi faz[er] pesar;
mais eu perça bom parecer que hei,
se nunca lh'el-rei tanto bem fezer
quanto lh'eu farei, quando mi quiser.
E [el] quer muito com el-rei viver
e [a] mia sanha non'a tem em rem;
e el-rei pode quanto quer poder,
mas mal mi venha onde vem o bem,
se nunca lh'el-rei tanto bem fezer
quanto lh'eu farei, quando mi quiser.
E el punhou muit[o sempr'] em me servir
e a [e]l-rei nunca serviço fez,
por end'el-rei nom há que lhi gracir;
mais eu perça bom parecer e bom prez,
se nunca lh'el-rei tanto bem fezer
quanto lh'eu farei, quando mi quiser.
Ca mais [lhi] valrá se lh'eu [bem] quiser,
que quanto bem lh'el-rei fazer poder.
e nom mi o disse nem lh[o] outorguei,
e faz mal sem de mi faz[er] pesar;
mais eu perça bom parecer que hei,
se nunca lh'el-rei tanto bem fezer
quanto lh'eu farei, quando mi quiser.
E [el] quer muito com el-rei viver
e [a] mia sanha non'a tem em rem;
e el-rei pode quanto quer poder,
mas mal mi venha onde vem o bem,
se nunca lh'el-rei tanto bem fezer
quanto lh'eu farei, quando mi quiser.
E el punhou muit[o sempr'] em me servir
e a [e]l-rei nunca serviço fez,
por end'el-rei nom há que lhi gracir;
mais eu perça bom parecer e bom prez,
se nunca lh'el-rei tanto bem fezer
quanto lh'eu farei, quando mi quiser.
Ca mais [lhi] valrá se lh'eu [bem] quiser,
que quanto bem lh'el-rei fazer poder.
555
João Airas de Santiago
o Voss'amigo Que S'a Cas D'el-Rei
- O voss'amigo que s'a cas d'el-rei
foi, amiga, mui cedo vos verrá,
e partide as dõas que vos dará
- Amiga, verdade bem vos direi:
fará-mi Deus bem, se mi o adusser,
e sas dõas dé-as a quem quiser.
- Disserom-mi ora, se Deus mi perdom,
que vos trage dõas de Portugal,
e, amiga, non'as partades mal.
- Direi-vos, amiga, meu coraçom:
fará-mi Deus bem, se mi o adusser,
e sas dõas dé-as a quem quiser.
- Dizem, amiga, que nom vem o meu
amigo, mailo vosso cedo vem,
e partid'as dõas, que trage, bem.
- Direi-vos, amiga, o que dig'eu:
fará-mi Deus bem, se mi o adusser,
e sas dõas dé-as a quem quiser.
E bem sei eu [que], des que el veer,
haverei dõas e quant'al quiser.
foi, amiga, mui cedo vos verrá,
e partide as dõas que vos dará
- Amiga, verdade bem vos direi:
fará-mi Deus bem, se mi o adusser,
e sas dõas dé-as a quem quiser.
- Disserom-mi ora, se Deus mi perdom,
que vos trage dõas de Portugal,
e, amiga, non'as partades mal.
- Direi-vos, amiga, meu coraçom:
fará-mi Deus bem, se mi o adusser,
e sas dõas dé-as a quem quiser.
- Dizem, amiga, que nom vem o meu
amigo, mailo vosso cedo vem,
e partid'as dõas, que trage, bem.
- Direi-vos, amiga, o que dig'eu:
fará-mi Deus bem, se mi o adusser,
e sas dõas dé-as a quem quiser.
E bem sei eu [que], des que el veer,
haverei dõas e quant'al quiser.
763
Charles Bukowski
Carta Para Um Amigo Com Um Problema Doméstico:
Olá Carl:
não se preocupe por sua esposa ter fugido de você
ela simplesmente não te entendia.
um pneu me furou hoje na autoestrada
e tive que trocar a roda com uns cheira-
dores voando em seus Maseratis soprando vento na minha
bunda.
o principal é você simplesmente tocar sua vida
e seguir fazendo aquilo que você precisa fazer, ou melhor –
aquilo que você quer fazer.
eu estava no consultório do dentista esses dias
e li uma publicação médica
e ela dizia
que você só precisa
viver até o ano 2020 d.C. e aí
se você tiver dinheiro suficiente
quando seu corpo morrer será possível transplantar seu
cérebro num corpo sem carne que te dá
visão e movimento – tipo você pode pedalar uma
bicicleta ou qualquer coisa do tipo e você também
não perderá tempo urinando ou defe-
cando ou comendo – você só ganha um
tanquinho de sangue no alto da cabeça pra encher
mais ou menos uma vez por mês – é uma espécie de óleo
pro cérebro.
e não se preocupe, tem até sexo, dizem,
só que é um pouco diferente (haha) você pode
ficar metendo até ela implorar pra você parar!
(ela só vai te largar por não aguentar mais
em vez de querer mais.)
esse é o lance do transplante sem carne.
mas tem outra alternativa: eles podem
transplantar o seu cérebro num corpo vivo
cujo cérebro foi retirado de modo a
abrir espaço para o seu.
só que o custo para isso será mais
proibitivo
pois eles terão de localizar um corpo,
um corpo vivo em algum lugar
num hospício digamos ou numa prisão ou
nas ruas em algum lugar – talvez um sequestro –
e embora esses corpos venham a ser melhores,
mais realistas, eles não vão durar tanto quanto
o corpo sem carne que pode funcionar por uns
500 anos antes de exigir troca.
então é tudo uma questão de escolha, daquilo que
você gosta, ou daquilo que você pode bancar.
quando você entra no corpo ele não vai
durar tanto assim – eles dizem uns 110 anos lá por
2020 d.C. – e aí você terá de encontrar
uma reposição de corpo vivo (de novo) ou optar por um
dos trecos sem carne.
em geral, como dão a entender nesse artigo que eu li
no consultório do meu dentista, se você não for tão rico
você pega o treco sem carne mas
se continuar muito bem de capital você
vai pegando o corpo-vivo repetidas vezes.
(os modelos de corpo-vivo têm certas vantagens
pois você será capaz de enganar a maioria do pessoal
da rua e também
a vida sexual é mais realista embora
mais curta.)
Carl, não estou passando a coisa exatamente como
estava escrita mas estou traduzindo todo aquele
lero-lero médico em algo que nós
possamos entender,
mas você acha que dentistas deveriam ter esse tipo de
merda
repousando em suas mesas?
de todo modo, provavelmente quando você receber esta carta
a sua patroa estará de volta com você.
de todo modo, Carl, continuei lendo
e o cara depois dizia que
em ambos os transplantes de cérebro no
corpo vivo e no corpo sem carne
outra coisa ocorreria com as pessoas que
tivessem dinheiro suficiente pra fazer os truques de transferência:
o computadorizado conhecimento dos séculos seria
introduzido no cérebro – e pra onde quer que você quisesse ir
você poderia ir – você seria capaz de pintar como
Rembrandt ou Picasso,
conquistar como César. você poderia fazer todas as coisas
que esses e outros como eles haviam feito
só que melhor.
você seria mais brilhante do que Einstein –
haveria pouquíssimo que você não poderia fazer
e talvez o corpo mais próximo de você
pudesse fazê-lo.
nesse ponto a coisa fica um tanto desconcertante –
o cara prossegue
ele é tipo um daqueles caras em seus
Maseratis cheirados; ele prossegue dizendo
numa linguagem um tanto técnica e obscura que
isso não é Ficção Científica
isso é a abertura de uma porta de horror e assombro
nunca antes especulada e ele diz que a
Última Guerra do Homem se dará entre os ricos
transplantados computadorizados e os não ricos que são
os Muitos
que afinal se ressentirão da sacanagem de terem sido excluídos da
imortalidade
e os ricos vão querer proteger o que é deles
para sempre
e
que
no final
os ricos computadorizados vão ganhar a última
Guerra do Homem (e da
Mulher)
depois ele diz que a subsequente Nova
Guerra tomará forma com os
Imortais lutando contra os Imortais
e o que sucederá será um
acontecimento
exemplar
de modo que o Tempo tal como o conhecemos
entrega os pontos.
mas que bela loucura, não é mesmo,
Carl?
eu gostaria de dizer
que à luz de tudo isso
que a sua esposa fugir não significa
grande coisa
mas eu sei que significa
só pensei em te mostrar
como outras coisas poderiam acontecer.
enquanto isso, as coisas não estão boas aqui
tampouco.
seu amigão,
Hank
não se preocupe por sua esposa ter fugido de você
ela simplesmente não te entendia.
um pneu me furou hoje na autoestrada
e tive que trocar a roda com uns cheira-
dores voando em seus Maseratis soprando vento na minha
bunda.
o principal é você simplesmente tocar sua vida
e seguir fazendo aquilo que você precisa fazer, ou melhor –
aquilo que você quer fazer.
eu estava no consultório do dentista esses dias
e li uma publicação médica
e ela dizia
que você só precisa
viver até o ano 2020 d.C. e aí
se você tiver dinheiro suficiente
quando seu corpo morrer será possível transplantar seu
cérebro num corpo sem carne que te dá
visão e movimento – tipo você pode pedalar uma
bicicleta ou qualquer coisa do tipo e você também
não perderá tempo urinando ou defe-
cando ou comendo – você só ganha um
tanquinho de sangue no alto da cabeça pra encher
mais ou menos uma vez por mês – é uma espécie de óleo
pro cérebro.
e não se preocupe, tem até sexo, dizem,
só que é um pouco diferente (haha) você pode
ficar metendo até ela implorar pra você parar!
(ela só vai te largar por não aguentar mais
em vez de querer mais.)
esse é o lance do transplante sem carne.
mas tem outra alternativa: eles podem
transplantar o seu cérebro num corpo vivo
cujo cérebro foi retirado de modo a
abrir espaço para o seu.
só que o custo para isso será mais
proibitivo
pois eles terão de localizar um corpo,
um corpo vivo em algum lugar
num hospício digamos ou numa prisão ou
nas ruas em algum lugar – talvez um sequestro –
e embora esses corpos venham a ser melhores,
mais realistas, eles não vão durar tanto quanto
o corpo sem carne que pode funcionar por uns
500 anos antes de exigir troca.
então é tudo uma questão de escolha, daquilo que
você gosta, ou daquilo que você pode bancar.
quando você entra no corpo ele não vai
durar tanto assim – eles dizem uns 110 anos lá por
2020 d.C. – e aí você terá de encontrar
uma reposição de corpo vivo (de novo) ou optar por um
dos trecos sem carne.
em geral, como dão a entender nesse artigo que eu li
no consultório do meu dentista, se você não for tão rico
você pega o treco sem carne mas
se continuar muito bem de capital você
vai pegando o corpo-vivo repetidas vezes.
(os modelos de corpo-vivo têm certas vantagens
pois você será capaz de enganar a maioria do pessoal
da rua e também
a vida sexual é mais realista embora
mais curta.)
Carl, não estou passando a coisa exatamente como
estava escrita mas estou traduzindo todo aquele
lero-lero médico em algo que nós
possamos entender,
mas você acha que dentistas deveriam ter esse tipo de
merda
repousando em suas mesas?
de todo modo, provavelmente quando você receber esta carta
a sua patroa estará de volta com você.
de todo modo, Carl, continuei lendo
e o cara depois dizia que
em ambos os transplantes de cérebro no
corpo vivo e no corpo sem carne
outra coisa ocorreria com as pessoas que
tivessem dinheiro suficiente pra fazer os truques de transferência:
o computadorizado conhecimento dos séculos seria
introduzido no cérebro – e pra onde quer que você quisesse ir
você poderia ir – você seria capaz de pintar como
Rembrandt ou Picasso,
conquistar como César. você poderia fazer todas as coisas
que esses e outros como eles haviam feito
só que melhor.
você seria mais brilhante do que Einstein –
haveria pouquíssimo que você não poderia fazer
e talvez o corpo mais próximo de você
pudesse fazê-lo.
nesse ponto a coisa fica um tanto desconcertante –
o cara prossegue
ele é tipo um daqueles caras em seus
Maseratis cheirados; ele prossegue dizendo
numa linguagem um tanto técnica e obscura que
isso não é Ficção Científica
isso é a abertura de uma porta de horror e assombro
nunca antes especulada e ele diz que a
Última Guerra do Homem se dará entre os ricos
transplantados computadorizados e os não ricos que são
os Muitos
que afinal se ressentirão da sacanagem de terem sido excluídos da
imortalidade
e os ricos vão querer proteger o que é deles
para sempre
e
que
no final
os ricos computadorizados vão ganhar a última
Guerra do Homem (e da
Mulher)
depois ele diz que a subsequente Nova
Guerra tomará forma com os
Imortais lutando contra os Imortais
e o que sucederá será um
acontecimento
exemplar
de modo que o Tempo tal como o conhecemos
entrega os pontos.
mas que bela loucura, não é mesmo,
Carl?
eu gostaria de dizer
que à luz de tudo isso
que a sua esposa fugir não significa
grande coisa
mas eu sei que significa
só pensei em te mostrar
como outras coisas poderiam acontecer.
enquanto isso, as coisas não estão boas aqui
tampouco.
seu amigão,
Hank
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João Airas de Santiago
Amei-Vos Sempr', Amigo, E Fiz-Vos Lealdade:
Amei-vos sempr', amigo, e fiz-vos lealdade:
se preguntar quiserdes em vossa puridade,
saberedes, amigo, que vos digo verdade;
ou, se falar houverdes com algum maldizente
e vos quiser, amigo, faz[er d]'al entendente,
dizede-lhi que mente,
dizede-lhi que mente.
se preguntar quiserdes em vossa puridade,
saberedes, amigo, que vos digo verdade;
ou, se falar houverdes com algum maldizente
e vos quiser, amigo, faz[er d]'al entendente,
dizede-lhi que mente,
dizede-lhi que mente.
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Vinicius de Moraes
Soneto Simples
Chegara enfim o mesmo que partira: a porta aberta e o coração voando ao
encontro dos olhos e das mãos. Velhos pássaros, velhas criaturas, almas
cinzentas plácidas passando — somente a amiga é como o melro branco!
E enfim partira o mesmo que chegara; o horizonte transpondo o pensamento
e nas auroras plácidas passando o doce perfil da amiga adormecida. Desejo
de morrer de nostalgia da noite dos vales tristes e perdidos... (foi quando
desceu do céu a poesia como um grito de luz nos meus ouvidos...)
encontro dos olhos e das mãos. Velhos pássaros, velhas criaturas, almas
cinzentas plácidas passando — somente a amiga é como o melro branco!
E enfim partira o mesmo que chegara; o horizonte transpondo o pensamento
e nas auroras plácidas passando o doce perfil da amiga adormecida. Desejo
de morrer de nostalgia da noite dos vales tristes e perdidos... (foi quando
desceu do céu a poesia como um grito de luz nos meus ouvidos...)
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