Poemas neste tema

Amizade

Afonso Mendes de Besteiros

Afonso Mendes de Besteiros

Coitado Vivo, Há Mui Gram Sazom

Coitado vivo, há mui gram sazom,
que nunca home tam coitado vi
viver no mundo, des quando naci.
E pero x'as mias coitas muitas som,
       nom querria deste mundo outro bem
       senom poder negar quem quero bem!

Vivo coitado no meu coraçom,
[e] vivo no mundo mui sem prazer,
e as mias coitas nom ouso dizer.
E meus amigos, se Deus mi perdom,
       nom querria deste mundo outro bem
       senom poder negar quem quero bem!

E de chorar quitar-s'-iam os meus
olhos e poderia en perder
as coitas que a mim Deus faz sofrer.
E meus amigos, se mi valha Deus,
       nom querria deste mundo outro bem
       senom poder negar quem quero bem!

E per negá-lo eu cuidaria bem
a perder coitas e mal que mi vem!
674
D. Dinis

D. Dinis

Amad'e Meu Amigo

Amad'e meu amigo,
       valha Deus!
vede'la frol do pinho
       e guisade d'andar.

Amig'e meu amado,
       valha Deus!
vede'la frol do ramo
       e guisade d'andar.

Vede la frol do pinho,
       valha Deus!
selad'o baiozinho
       e guisade d'andar.

Vede la frol do ramo,
       valha Deus!
selad'o bel cavalo
       e guisade d'andar.

Selad'o baiozinho,
       valha Deus!
treide-vos, ai amigo,
       e guisade d'andar.

[Selad'o bel cavalo,
       valha Deus!
treide-vos, ai amado,
       e guisade d'andar.]
875
D. Dinis

D. Dinis

Amiga, Faço-Me Maravilhada

- Amiga, faço-me maravilhada
como pode meu amigo viver
u os meus olhos nom pode veer
ou como pod'alá fazer tardada;
ca nunca tam gram maravilha vi:
poder meu amigo viver sem mi;
e, par Deus, é cousa mui desguisada.

- Amiga, estad[e] ora calada
um pouco, e leixad'a mim dizer:
per quant'eu sei cert'e poss'entender,
nunca no mundo foi molher amada
come vós de voss'amig'; e assi,
se el tarda, sol nom é culpad'i;
se nom, eu quer'en ficar por culpada.

- Ai amiga, eu ando tam coitada
que sol nom poss'em mi tomar prazer,
cuidand'em como se pode fazer
que nom é já comigo de tornada;
e, par Deus, porque o nom vej'aqui,
que é morto gram sospeita tom'i,
e, se mort'é, mal dia eu fui nada.

- Amiga fremosa e mesurada,
nom vos dig'eu que nom pode seer
voss'amigo, pois hom'é, de morrer;
mais, por Deus, nom sejades sospeitada
doutro mal del, ca des quand'eu naci,
nunca doutr'home tam leal oí
falar, e quem end'al diz, nom diz nada.
825
Renato Russo

Renato Russo

Meninos e Meninhas

Quero me encontrar mas não sei onde estou
Vem comigo procurar um lugar mais calmo
Longe dessa confusão
E dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui
Acho que gosto de São Paulo
E gosto de São João
Gosto de São Francisco
E São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas
Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim prá sempre
Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente
Estou cansado de bater e ninguém abrir
Você me deixou sentindo tanto frio
Não sei mais o que dizer
Te fiz comida
Velei teu sono
Fui teu amigo
Te levei comigo e me diz:
Prá mim o que é que ficou ?
Me deixa ver como viver é bom
Não é a vida como está e sim as coisas como são
Você não quis tentar me ajudar
Então a culpa é de quem ?
A culpa é de quem ?
Eu canto em português errado
Acho que o imperfeito não participa do passado
Troco as pessoas
Troco os pronomes
Preciso de oxigênio
Preciso ter amigos
Preciso de dinheiro
Preciso de carinho
Acho que te amava
Agora acho que te odeio
São tudo pequenas coisas
E tudo deve passar
Acho que gosto de São Paulo
E gosto de São João
Gosto de São Francisco
E São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas

1 026
D. Dinis

D. Dinis

Chegou-Mi, Amiga, Recado

Chegou-mi, amiga, recado
daquel que quero gram bem,
que, pois que viu meu mandado,
quanto pode viir, vem;
e and'eu leda por en
e faço muit'aguisado.

El vem por chegar coitado,
ca sofre gram mal d'amor,
er anda muit'alongado
d'haver prazer nem sabor,
se nom ali u eu for,
u é todo seu cuidado.

Por quanto mal há levado,
amiga, razom farei
de lhi dar end'algum grado,
pois vem como lh'eu mandei;
e log'el será, bem sei,
do mal guarid'e cobrado,

e das coitas que lh'eu dei
des que foi meu namorado.
573
Afonso Mendes de Besteiros

Afonso Mendes de Besteiros

Amigos, Nunca Mereceu

Amigos, nunca mereceu
homem, com'eu mereci, mal,
em meu cuidar, ca nom em al;
mais ando-me por en sandeu:
       por quanto mi faz cuidador
       d'haver eu bem de mia senhor.

Mais leixade-mi andar assi!
Pero vós hajades poder,
meus amigos, de me valer,
sol nom vos doades de mi:
       por quanto mi faz cuidador
       d'haver eu bem de mia senhor.

Ca sei que per nẽum logar,
amigos, que nom haverei
dela bem, por quanto cuidei;
mais leixade-m'assi andar:
       por quanto mi faz cuidador
       d'haver eu bem de mia senhor.

Ca o sandeu, quanto mais for
d'amor sandeu, tant'é milhor.
808
D. Dinis

D. Dinis

Por Deus, Punhade de Veerdes Meu

Por Deus, punhade de veerdes meu
amig', amiga, que aqui chegou,
e dizede-lhi, pero me foi greu
o que m'el já muitas vezes rogou,
       que lhi faria end'eu o prazer,
       mais tolhe-m'ende mia madr'o poder.

De o veerdes gradecer-vo-lo-ei,
ca sabedes quant'há que me serviu,
e dizede-lhi, pero lh'estranhei
o que m'el rogou cada que me viu,
       que lhi faria end'eu o prazer,
       mais tolhe-m'ende mia madr'o poder.

De o veerdes gram prazer hei i,
pois do meu bem desasperad'está;
por end', amiga, dizede-lh'assi:
que o que m'el per vezes rogou já
       que lhi faria end'eu o prazer,
       mais tolhe-m'ende mia madr'o poder.

E por aquesto nom hei eu poder
de fazer a mim nem a el prazer.
278
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Lúcio Cardoso (Na Casa de Saúde)

(na casa de saúde)
Entre visitas que perguntam,
no corredor, por tua vida
de artista recolhido à noite
sensorial, entre os amigos
que se inclinam preocupados
sobre a cisterna e não distinguem
teu reflexo brilhar no fundo,
entre os mais próximos e diletos
— não estou eu, porém de longe
mais perto me sinto e decifro
melhor teu perfil na sombra,
e perfil não só: tudo mais
que deu sentido a teu chamado
à rua dos homens: palavras
tramadas em papel, soando
em palco, problemas falantes,
movediços em preto e branco,
projeção em tela ou parede,
em cor quase som, mensagens
da mais subterrânea estação,
espectrais retratos do ser
para além de radiografias,
e um hálito de amor pedindo
espaços claros, praias de ouro
que se vão modelando em sonho
acordado, escrito, pintado.
Respiras, falas, comunicas-te
à revelia do corpo enfermo,
em tudo que é sinal. Contemplo
tua vida primeira e plena
a circular, transfigurada,
ó criador, entre vazios
sótãos de casa assassinada.
1 113
D. Dinis

D. Dinis

O Voss'amig', Ai Amiga,

O voss'amig', ai amiga,
de que vos muito fiades,
tanto quer'eu que sabiades:
que ũa, que Deus maldiga,
       vo-lo tem louc'e tolheito,
       e moir'end'eu com despeito.

Nom hei rem que vos asconda
nem vos será encoberto,
mais sabede bem por certo
que ũa, que Deus cofonda,
       vo-lo tem louc'e tolheito,
       e moir'end'eu com despeito.

Nom sei molher que se pague
de lh'outras o seu amigo
filhar, e por en vos digo
que ũa, que Deus estrague,
       vo-lo tem louc'e tolheito,
       e moir'end'eu com despeito.

E faço mui gram dereito,
pois quero vosso proveito.
329
Renato Russo

Renato Russo

Leila

Estou pensando em você
Quero lhe ver
Mas nesse horário você deve estar
Pegando os filhotes no colégio
Depois chegar em casa
Ver o resto de tudo
E quando vem o silêncio
Fumar unzinho e fumar Coltrane
Não faço mais isso mas entendo muito bem
Adoro os teus cabelos
Adoro a tua voz
Adoro teu estilo
Adoro tua paz de espírito
O encanador te deixou na mão
Tem reunião do condomínio
O telefone não dá linha
E o chuveiro tá dando choque
Tem uma barata voadora no quarto das crianças
E os monstrinhos estão gritando alucinados
Pra eles tudo é diversão
Mas você sabe o eu é ter pavor pavor pavor de baratas voadoras
E você diz daquele seu jeito: - Ai, preciso de um homem
E eu digo: - Ah, Leila! Eu também
E a gente ri
Você monta suas fotos para exposição
Promete trabalhar mais com o computador
E terminar seu vídeo até setembro
Ter que pegar o carro no conserto
Ver a conta do banco, cartão, IPTU
Sábado vai ter peixada na Analú
E domingo, cachorro-quente com as crianças na Fernanda
Adoro teu olhar
Adoro tua força
E adoro dizer seu nome: Leila
Às vezes as coisas são difíceis, minha amiga
Mas você sabe enfrentar a beleza dessa vida
Adoro dizer seu nome: Leila, Leila, Leila

1 619
D. Dinis

D. Dinis

Por Deus, Amiga, Pês-Vos do Gram Mal

Por Deus, amiga, pês-vos do gram mal
que diz andand'aquel meu desleal,
ca diz de mi e de vós outro tal,
andand'a muitos, que lhi fiz eu bem
e que vós soubestes tod'este mal,
       de que eu nem vós nom soubemos rem.

De vos en pesar é mui gram razom,
ca diz andando mui gram traiçom
de mim e de vós, se Deus mi perdom,
u se louva de mim que lhi fiz bem,
e que vós soubestes end'a razom,
       de que eu nem vós nom soubemos rem.

De vos en pesar dereito per é,
ca diz de mim gram mal, per bõa fé,
e de vós, amiga, cada u sé
falando, ca diz que lhi fiz eu bem
e ca vós soubestes todo com'é,
       de que eu nem vós nom soubemos rem.
670
Ruy Pereira e Alvim

Ruy Pereira e Alvim

Carta Aberta ao Homem Novo

Irmão que não conheço
e a quem não peço
a identidade.

Homem de qualquer cidade
a tua cor desconheço
e não peço a tua condição.

Procuro na palavra exacta
a ponte em que atravesso
o abismo da indeferença
que nos separa
em margens sem acesso.

Procuro no olhar adverso
o espaço, a nesga aberta
no teu coração hermético
para apoiar meu verso.

951
D. Dinis

D. Dinis

Disse-M'hoj'um Cavaleiro

Disse-m'hoj'um cavaleiro
que jazia feramente
um seu amigo doente
e buscava-lhi lorbaga;
dixi-lh'eu: - Seguramente
       come-o praga por praga

que el muitas vezes disse,
per essa per que o come,
quantas en nunca diss'homem;
e o que disse ben'o paga,
ca, come cam que há fome,
       comeo praga por praga

que el muitas vezes disse;
e jaz ora o astroso
mui doent'e mui nojoso
e com medo per si caga,
ca, come lobo ravioso,
       come-o praga por praga.
689
Martha Medeiros

Martha Medeiros

Atraso é ter que mentir

Em Londres um pub está fazendo sucesso porque instalou para seus clientes uma cabine telefônica com uma sonorização peculiar: enquanto a pessoa fala ao telefone, pode acessar o som de um congestionamento, com muito buzinaço. 

Ou pode acessar o som de um ambiente de escritório. Toda essa parafernália é para que quem esteja do outro lado da linha não identifique o som do bar. 

Assim o bebum pode dar uma desculpa esfarrapada e chegar em casa sem levar uma descompostura, afinal, estava trabalhando até tarde, o coitado, e ainda por cima ficou preso num engarrafamento depois. 

Essa cabine telefônica com efeitos especiais só vem demonstrar que os bares andam muito moderninhos, mas os casamentos continuam parados no tempo, mesmo na vanguardista Inglaterra. "Só vou se você for" segue na moda. Enquanto isso a hipocrisia deita e rola. 

Muitas pessoas ainda têm uma idéia convencional do casamento: encaminham-se para o altar como quem encaminha-se para o supermercado em busca de um produto pronto, industrializado, com um rótulo dando as instruções de como utilizá-lo, e parece que a primeira instrução é: nenhum dos dois têm o direito de se divertir sozinho ou com os amigos, a menos que o cônjuge esteja junto. 

Não é de estranhar que os prazos de validade do amor andem cada vez mais curtos. 

Não há paixão que resista ao grude. 

Não há paciência que resista à patrulha. 

Não há grande amor que prescinda de outras amizades. 

Sair sozinho para beber com os amigos deveria ser um dos 10 mandamentos para uma união estável, valendo para ambos os sexos. Quem não gosta de bar pode substituir por futebol, cinema, shows, sinuca, saraus ou o que o Caderno de Cultura sugerir.

E não perca tempo lamentando por aquele que vai ficar em casa. Provavelmente ele vai se divertir tanto quanto. Ouvir música, ver televisão, ler livros, abrir um vinho, tomar um banho de duas horas, navegar na internet, dormir cedinho, tudo isso também é um programação. 

Quem não sabe ficar sozinho não pode casar, sob pena de transformar o matrimônio num presídio para dois. Tem muita coisa em Londres que eu gostaria de ter aqui: parques mais bem cuidados, mais livrarias, mais respeito à individualidade, melhor transporte público, prédios mais charmosos. Só dispensaria o clima e esse pub pra lá de vitoriano, onde pessoas adultas são incentivadas a inventar um álibi para justificar um atraso. 

Atraso é ter que mentir para que o outro não perceba que você está feliz.
1 028
Martha Medeiros

Martha Medeiros

O anel que tu me deste

Aconteceu em 2005. Eu estava almoçando com uma amiga na cidade onde ela mora, fora do Brasil. Era a segunda vez que nos víamos. Os contatos anteriores haviam sido sempre por e-mail, nos quais tratávamos de assuntos profissionais. De repente, olhei para sua mão e fiz um elogio ao anel lindíssimo que ela usava. Ato contínuo, ela retirou o anel e me deu. "É seu." Fiquei superconstrangida, não era essa minha intenção, queria apenas elogiar, mas ela me convenceu a ficar com ele, dizendo que ela mesma fazia aqueles anéis e que poderia fazer outro igualzinho. De fato, fez. Acabaram virando nossas "alianças": desde então nossa amizade só cresceu.

Meses atrás, Marilia Gabriela entrevistou Ivete Sangalo em seu programa no GNT quando aconteceu uma cena idêntica. Ela elogiou o anel da cantora e esta, na mesma hora, tirou-o do dedo e deu de presente a Gabi, que ficou envergonhada, não estava ali para ganhar presentes e sim para trabalhar. Mas tanto Ivete insistiu, e com tanto carinho, que recusar seria deselegância, e lá se foi o anel da morena para a mão da loira.

Nesta era de acúmulo, egoísmo e posse, gestos de desapego são raros e transformam um dia banal em um dia especial. Não é comum alguém retirar do próprio corpo algo que deve gostar muito - ou não estaria usando - e dar de presente, numa reação espontânea de afeto. Pessoas assim fazem isso por nada, aparentemente, mas, na verdade, fazem por tudo. Por gostarem realmente da pessoa com quem estão. Por generosidade. Para exercitarem seu senso de oportunidade. Pelo prazer de surpreender. Por saberem que certas atitudes falam mais do que palavras. E por terem a exata noção de que um anel, ou qualquer outro bem material, pode ser substituído, mas um momento de extasiar um amigo é coisa que não vale perder.
Estou falando desse assunto não porque eu também seja uma desprendida. Bem pelo contrário. Já me desfiz de muita coisa, mas me desfaço com planejamento, pensando antes. Assim, de supetão, por impulso, raramente. Meu único mérito é reconhecer a grandeza alheia, coisa que também está em desuso, pois sei de muita gente que, ao ver gestos como o de Ivete e o da minha amiga, diria apenas: que trouxas.

Devo estar me transformando numa sentimentalóide, mas o fato é que acredito que esses pequenos instantes de delicadeza merecem um holofote, já que andamos todos muito rudes e autofocados. Desfazer-se dos seus bens para fazer o bem é uma coisa meio franciscana, mas não se pode negar que um pouco de desapego torna qualquer relação mais fácil. E não falo só de bens materiais. Desapego das mágoas, desapego da inveja, desapego das próprias verdades para ouvir atentamente a dos outros. Não seria um mundo melhor?

Bom, o anel que minha amiga me deu seguirá no meu dedo, nem adianta vir elogiá-lo pra ver se o truque funciona. Faz parte da minha história pessoal. Mas posso me desprender de outras coisas das quais gosto, basta que eu saiba que serão mais bem aproveitadas por outras pessoas. É com esse espírito de compartilhamento que encerro essa crônica desejando a todos os leitores um Natal com muitos presentes - mas no sentido de presença. Que na sua lista de chamada afetiva estejam todos ao seu lado, brindando o que lhes for mais importante: seja o nascimento de Jesus, ou a reunião familiar, ou apenas mais uma noite festiva de dezembro, ou um momento de paz entre tanto espanto, ou simplesmente a sensação de que uma inesperada gentileza pode ser o melhor pacotinho embaixo da nossa árvore.
1 342
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Eddie E Eve

você sabe
sentei no mesmo banco de bar por 5 anos na
Filadélfia
eu bebia álcool etílico e o vinho mais barato
apanhava nos becos de caminhoneiros bem-alimentados
apenas para diversão de
senhoras e senhores da noite
nada lhe direi da minha vida de criança
é doentiamente
irreal
mas o que quero dizer
é que fui enfim ver meu amigo Eddie
depois de 30 anos
ele continuava na mesma casa
com a mesma esposa
deixo você adivinhar:
ele parecia bem pior do que eu
não conseguia se levantar da cadeira
uma bengala
artrite
o que restava a ele de cabelo havia
embranquecido
meu deus, Eddie, eu disse.
eu sei, ele disse, me fodi, não
consigo respirar.
então sua esposa apareceu. aquela que uma vez fora a magra
Eve com quem eu costumava flertar.
95 quilos
me olhando de soslaio.
meu deus, Eve, eu disse.
eu sei, ela disse.
ficamos todos bêbados. muitas horas depois
Eddie me disse,
vá para a cama com ela, faça-lhe algum bem,
eu já não sirvo para nada
mais.
Eve deu um risinho.
não posso, Eddie, eu disse, você é meu
chapa.
bebemos um pouco mais.
infinitas garrafas de
cerveja.
Eddie começou a vomitar.
Eve lhe trouxe uma bacia
e ele vomitou dentro da
bacia
me dizendo entre os espasmos
que nós éramos homens
homens de verdade
sabíamos as coisas de fato
por deus
esses moleques
não sabiam de nada.
levamos ele para a cama
tiramos sua roupa
e ele logo apagou,
roncando.
me despedi de Eve.
fui embora e entrei no meu carro
e fiquei ali sentado olhando para a casa.
então dei a partida.
era só o que me restava fazer.
1 121
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Ilha do Governador

Esse ruído dentro do mar invisível são barcos passando
Esse ei-ou que ficou nos meus ouvidos são os pescadores esquecidos
Eles vêm remando sob o peso de grandes mágoas
Vêm de longe e murmurando desaparecem no escuro quieto.
De onde chega essa voz que canta a juventude calma?
De onde sai esse som de piano antigo sonhando a Berceuse?
Por que vieram as grandes carroças entornando cal no barro molhado?

Os olhos de Susana eram doces mas Eli tinha seios bonitos
Eu sofria junto de Susana — ela era a contemplação das tardes longas
Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.
Eu me admirava horas e horas no espelho.

Um dia mandei: “Susana, esquece-me, não sou digno de ti — sempre teu...”
Depois, eu e Eli fomos andando... — ela tremia no meu braço
Eu tremia no braço dela, os seios dela tremiam
A noite tremia nos ei-ou dos pescadores...

Meus amigos se chamavam Mário e Quincas, eram humildes, não sabiam
Com eles aprendi a rachar lenha e ir buscar conchas sonoras no mar fundo
Comigo eles aprenderam a conquistar as jovens praianas tímidas e risonhas.
Eu mostrava meus sonetos aos meus amigos — eles mostravam os grandes
olhos abertos
E gratos me traziam mangas maduras roubadas nos caminhos.

Um dia eu li Alexandre Dumas e esqueci os meus amigos.
Depois recebi um saco de mangas
Toda a afeição da ausência...

Como não lembrar essas noites cheias de mar batendo?

Como não lembrar Susana e Eli?
Como esquecer os amigos pobres?
Eles são essa memória que é sempre sofrimento
Vêm da noite inquieta que agora me cobre
São o olhar de Clara e o beijo de Carmem
São os novos amigos, os que roubaram luz e me trouxeram.
Como esquecer isso que foi a primeira angústia
Se o murmúrio do mar está sempre nos meus ouvidos
Se o barco que eu não via é a vida passando
Se o ei-ou dos pescadores é o gemido de angústia de todas as noites?
1 136
Estêvão da Guarda

Estêvão da Guarda

O Caparom de Marvi

O caparom de marvi
que vos a testa bem cobre
com pena veira tam nobre,
alfaiat'ou peliteiro,
dized'ora, cavaleiro,
       cal vo-l'apostou assi?

Tal caparom vos convém
com tal pena que tragaes;
mais i, dos dous mesteiraes,
me dized'o que vos digo,
cavaleiro, meu amigo:
       cal vo-l'apostou tam bem?

Do que é mais sabedor
de caperom empenado
me dad'agora recado,
e nom seja encoberto
de como vós sodes certo:
       cal vo-l'apostou melhor?
564
Elisa Lucinda

Elisa Lucinda

Penetração do Poema das Sete Faces

A Carlos Drumond de Andrade

Ele entrou em mim sem cerimônias
Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu
Na primeira fala eu já falava como se fosse meu
O poema só existe quando pode ser do outro
Quando cabe na vida do outro
Sem serventia não há poesia não há poeta não há nada
Há apenas frases e desabafos pessoais
Me ouça, Carlos, choro toda vez que minha boca diz
A letra que eu sei que você escreveu com lágrimas
Te amo porque nunca nos vimos
E me impressiono com o estupendo conhecimento
Que temos um do outro
Carlos, me escuta
Você que dizem ter morrido
Me ressuscitou ontem à tarde
A mim a quem chamam viva
Meu coração volta a ser uma remington disposta
Aprendi outra vez com você
A ouvir o barulho das montanhas
A perceber o silêncio dos carros
Ontem decorei um poema seu
Em cinco minutos
Agora dorme, Carlos.

1 849
Eliane Pantoja Vaidya

Eliane Pantoja Vaidya

Conta Akutagawa

Conta Akutagawa
que Bashô
o notável mestre
do hai-kai
estava morrendo.
Em seu quarto
reunidos
os mais queridos discípulos.
O silêncio estava presente
nem lua havia
e se distinguiam soluços e suspiros.
O maior poeta daquela Terra
agora morria
cercado de seus amigos.
Ah Quimera, ilusão graciosa
os que choravam o faziam
cada um por si
nenhum por ele.
Bashô olhou em torno
o coração árido
daqueles que o cercavam
— Terra morta —
Só os rostos eram quentes
e as lágrimas naturais.

804
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

De Me Preguntar Ham Sabor

De me preguntar ham sabor
muitos, e dizem-mi por en
com'estou eu com mia senhor;
e direi-vos eu que m'avém:
       se disser "bem", mentir-lhis-ei;
       tam mal é que o nom direi.

Os que me vêm preguntar
como mi vai, querem saber,
com esta que sei muit'amar;
e eu nom sei que lhis dizer:
       se disser "bem", mentir-lhis-ei;
       tam mal é que o nom direi.

Os meus amigos, com que vou
falar, me preguntam assi:
com mia senhor, com'eu estou?,
e nom sei que lhis diga i;
       se disser "bem", mentir-lhis-ei;
       tam mal é que o nom direi.

Mais, pois dela bem nom hei,
preguntar-m'-am e calar-m'-ei.
274
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

DE VULGARI ELOQUENTIA

A realidade é coisa delicada,
de se pegar com as pontas dos dedos.

Um gesto mais brutal, e pronto: o nada. A
qualquer hora pode advir o fim. O mais
terrível de todos os medos.

Mas, felizmente, nao é bem assim. Há urna
saída — falar, falar muito. Sao as palavras
que suportam o mundo, nao os ombros.
Sem o "porqué", o "sim",

todos os ombros afundavam juntos. Basta
urna boca aberta (ou um rabisco num
papel) para salvar o universo. Portanto,
meus amigos, eu insisto: falem sem parar.
Mesmo sem assunto.
989
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Como Uma Sombra Vã

Como uma sombra vã
como uma sombra inútil
numa rua deserta
numa árvore seca

uma caneta inerte sobre a página
onde o sangue das palavras e das veias
uma taça rota pelo sangue
um lenço esburacado pelas lágrimas

uma gota de sangue
na neve
As palavras mais simples têm frio
como a palavra amor
como a palavra tempo

O esquecimento sem sombra é o país onde te abraço
como uma sombra inútil
no qual habitaste o sol antes da morte
As palavras mais simples são as mais preciosas
como uma sombra vã
numa rua deserta

Os dedos são mais tristes que formigas
as formigas que nascem sob as pálpebras
as pálpebras que são dunas de areia
a areia que é mais fina do que o gelo
o gelo que é cintilante nos teus dedos
cinzelados como líquenes de cristal
onde uma lágrima fulge como um sol
como uma sombra vã
numa rua deserta

Uma criança triste
pelo crivo das lágrimas
faz cintilar a luz
pelo crivo da vida
faz passar o céu puro

É um amante e um amigo
é uma criança com um barco
é uma sombra generosa
é um esqueleto de sangue
sobre o papel

É uma sombra uma sombra
sobre o cimo da neve
é uma gota de sangue
é um homem na fronteira
do vazio e da calma
um nosso irmão
1 147
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Da Inocência à Confiança

Da inocência à confiança
da claridade à fidelidade
do sonho à consciência
da beleza à bondade
da poesia ao amor
do amor à verdade
da solidão à harmonia
da angústia à liberdade
todas as cores uniste
num arco-íris fraternal
1 099