Poemas neste tema
Amizade
Silvaney Paes
Amor de Amigo
Amigo,
Parece que algo lhe sobra no peito!
Creio careças de meu abraço
Sei que não devo,
Mais haverei de faze-lo
Amigo
Reparaste se há alguém olhando?
Pois parece que estás chorando!
Vem, esconde-se aqui em meu ombro
Embora acho que também não devo.
Amigo,
Chega! Enxuga esse pranto nos panos.
Não podem vê-lo deitado em meu ombro.
Verão isso com assombro
E acharão que nós somos...
Amigo,
Sei que viestes buscando um colo,
Lamento muito, mais também não posso,
Mais eu porei minha mão em teu ombro
E veja nela o afago e o colo.
Amigo,
Terei que falar bem baixinho.
Pois não posso ouvir o teu pranto
E que ninguém nos ouça pelos cantos,
Mais quero que saibas que te amo
Amigo
Parece que algo lhe sobra no peito!
Creio careças de meu abraço
Sei que não devo,
Mais haverei de faze-lo
Amigo
Reparaste se há alguém olhando?
Pois parece que estás chorando!
Vem, esconde-se aqui em meu ombro
Embora acho que também não devo.
Amigo,
Chega! Enxuga esse pranto nos panos.
Não podem vê-lo deitado em meu ombro.
Verão isso com assombro
E acharão que nós somos...
Amigo,
Sei que viestes buscando um colo,
Lamento muito, mais também não posso,
Mais eu porei minha mão em teu ombro
E veja nela o afago e o colo.
Amigo,
Terei que falar bem baixinho.
Pois não posso ouvir o teu pranto
E que ninguém nos ouça pelos cantos,
Mais quero que saibas que te amo
Amigo
1 201
1
Lucas Tenório
Meu Pensamento, minha Cotovia
Pensamento meu...
És meu melhor amigo,
Mensageiro ambulante
em gaivota fugaz.
Turbilhão de desejos
em carrossel de sentidos,
Que em minh`alma se faz,
se desfaz, se refaz...
Cotovia, alegria,
és meu tinido mudo!
Como a brisa passante
dessas primaveras...
Pensamento, espera!
... me emudeça com ela...
......................
(- Será este pr`a ti
um cortejo absurdo?)
Mas por quê? Afinal,
não és tu a que voa?
Pois que tal, da janela,
joga aos ares tuas velas!
Que os meus sonhos, menina,
já vão de vento em proa...
Cotovia, psiu! Ô Cotovia,
sê`nessa caravela,
nosso pouso distante,
e que nos deixem à toa...
Tempestades, Tufões...?
Só nos querem as garoas...
(Inspirado em Manuel Bandeira
e Chico Buarque, e em homenagem
a uma pernambucaninha da garoa,
não menos leve e talentosa.)
És meu melhor amigo,
Mensageiro ambulante
em gaivota fugaz.
Turbilhão de desejos
em carrossel de sentidos,
Que em minh`alma se faz,
se desfaz, se refaz...
Cotovia, alegria,
és meu tinido mudo!
Como a brisa passante
dessas primaveras...
Pensamento, espera!
... me emudeça com ela...
......................
(- Será este pr`a ti
um cortejo absurdo?)
Mas por quê? Afinal,
não és tu a que voa?
Pois que tal, da janela,
joga aos ares tuas velas!
Que os meus sonhos, menina,
já vão de vento em proa...
Cotovia, psiu! Ô Cotovia,
sê`nessa caravela,
nosso pouso distante,
e que nos deixem à toa...
Tempestades, Tufões...?
Só nos querem as garoas...
(Inspirado em Manuel Bandeira
e Chico Buarque, e em homenagem
a uma pernambucaninha da garoa,
não menos leve e talentosa.)
839
1
Mario Benedetti
Te quero
Tuas mãos são minha carícia
Meus acordes cotidianos
Te quero porque tuas mãos
Trabalham pela justiça
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois
Teus olhos são meu conjuro
Contra a má jornada
Te quero por teu olhar
Que olha e semeia futuro
Tua boca que é tua e minha
Tua boca não se equivoca
Te quero porque tua boca
Sabe gritar rebeldia
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois
E por teu rosto sincero
E teu passo vagabundo
E teu pranto pelo mundo
Porque és povo te quero
E porque o amor não é auréola
Nem cândida moral
E porque somos casal
Que sabe que não está só
Te quero em meu paraíso
E dizer que em meu país
As pessoas vivem felizes
Embora não tenham permissão
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois.
Meus acordes cotidianos
Te quero porque tuas mãos
Trabalham pela justiça
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois
Teus olhos são meu conjuro
Contra a má jornada
Te quero por teu olhar
Que olha e semeia futuro
Tua boca que é tua e minha
Tua boca não se equivoca
Te quero porque tua boca
Sabe gritar rebeldia
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois
E por teu rosto sincero
E teu passo vagabundo
E teu pranto pelo mundo
Porque és povo te quero
E porque o amor não é auréola
Nem cândida moral
E porque somos casal
Que sabe que não está só
Te quero em meu paraíso
E dizer que em meu país
As pessoas vivem felizes
Embora não tenham permissão
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois.
8 977
1
Silvaney Paes
Teu Silêncio
Mulher...
Se Algum dia
Ferir-te o peito,
A minha língua manca,
E me ferires de silêncio,
Coloca na ferida aberta
Os sentimentos,
Como o melhor ungüento,
Não os concebi à contra-gotas
E os enviei em grandes somas,
Em assomos, perdidos na linguagem,
Que regurgitei nas poesias
Que a ti, eu, dediquei.
Mulher...
Se abrires os olhos
Por detrás da carne,
Verás que foram dentre eles
A jóia que considerais mais cara,
Como já me declarastes:
À do vértice
Da pirâmide de tua existência,
A da amizade...
Mas foi também ali meu diamante,
Um bem querer menino,
Também amigo,
E que achei que sobejastes,
Mas que ainda cresce
Na pretensão que guardo,
Ou mesmo no delírio que me escapa -
A quem chamo de esperança -
De que um dia me respostas,
Como gostaria.
Mulher...
Assim como eu,
Somente um outro louco
Veria no silêncio momentâneo
Um quando em branco,
Uma promessa, um pacto,
Um contrato assinado,
Entre tu e eu -
Num doloroso aguardo-
De vê-lo pintado, como um retrato,
Do pacto,
Por quatro mãos,
Por duas almas,
Um dia...
Mulher...
E se festejo agora,
Revelaste-me numa carta
Enxergar além do turvo que te mostro,
E que abraçastes em minhas letras
O tesouro de minha pobreza:
Amizade, respeito, apreço...
Minha alma oferecida em bandeja,
Bandeja do mais fino barro
De minha existência.
Se Algum dia
Ferir-te o peito,
A minha língua manca,
E me ferires de silêncio,
Coloca na ferida aberta
Os sentimentos,
Como o melhor ungüento,
Não os concebi à contra-gotas
E os enviei em grandes somas,
Em assomos, perdidos na linguagem,
Que regurgitei nas poesias
Que a ti, eu, dediquei.
Mulher...
Se abrires os olhos
Por detrás da carne,
Verás que foram dentre eles
A jóia que considerais mais cara,
Como já me declarastes:
À do vértice
Da pirâmide de tua existência,
A da amizade...
Mas foi também ali meu diamante,
Um bem querer menino,
Também amigo,
E que achei que sobejastes,
Mas que ainda cresce
Na pretensão que guardo,
Ou mesmo no delírio que me escapa -
A quem chamo de esperança -
De que um dia me respostas,
Como gostaria.
Mulher...
Assim como eu,
Somente um outro louco
Veria no silêncio momentâneo
Um quando em branco,
Uma promessa, um pacto,
Um contrato assinado,
Entre tu e eu -
Num doloroso aguardo-
De vê-lo pintado, como um retrato,
Do pacto,
Por quatro mãos,
Por duas almas,
Um dia...
Mulher...
E se festejo agora,
Revelaste-me numa carta
Enxergar além do turvo que te mostro,
E que abraçastes em minhas letras
O tesouro de minha pobreza:
Amizade, respeito, apreço...
Minha alma oferecida em bandeja,
Bandeja do mais fino barro
De minha existência.
1 181
1
Mafalda Veiga
Balada de um Soldado
Madre, anoche en las trincheras
Entre el fuego y la metralla
Vi un enemigo correr
La noche estaba cerada,
La apunté con mi fusil
Y al tiempo que disparaba
Una luz iluminó
El rostro que yo mataba
Clavó su mirada en mi
Con sus ojos ya vacios
Madre, sabes quien maté?
Aquél soldado enemigo
Era mi amigo José
Compañero de la escuela
Con quien tanto yo jugué
De soldados y trincheras
Hoy el fuego era verdad
Y mi amigo ya se entierra
Madre, yo quiero morir
Estoy harto de esta guerra
Y si vuelvo a escribir
Talvez lo haga del cielo
Donde encontraré a José
Y jugaremos de nuevo
Madre, sabes quien maté?
Aquél soldado enemigo
Era mi amigo José
Compañero de la escuela
Con quien tanto yo jugué
De soldados y trincheras
Madre, sabes quien maté?
Aquél soldado enemigo
Era mi amigo José
Entre el fuego y la metralla
Vi un enemigo correr
La noche estaba cerada,
La apunté con mi fusil
Y al tiempo que disparaba
Una luz iluminó
El rostro que yo mataba
Clavó su mirada en mi
Con sus ojos ya vacios
Madre, sabes quien maté?
Aquél soldado enemigo
Era mi amigo José
Compañero de la escuela
Con quien tanto yo jugué
De soldados y trincheras
Hoy el fuego era verdad
Y mi amigo ya se entierra
Madre, yo quiero morir
Estoy harto de esta guerra
Y si vuelvo a escribir
Talvez lo haga del cielo
Donde encontraré a José
Y jugaremos de nuevo
Madre, sabes quien maté?
Aquél soldado enemigo
Era mi amigo José
Compañero de la escuela
Con quien tanto yo jugué
De soldados y trincheras
Madre, sabes quien maté?
Aquél soldado enemigo
Era mi amigo José
1 437
1
Mafalda Veiga
O meu abrigo
Olha pra mim
Deixa voar os sonhos
Deixa acalmar a tormenta
Senta-te um pouco aí
Olha pra mim
Fica no meu abrigo
Dorme no meu abraço
E conta comigo
Que eu estarei aqui
Enquanto anoitece
Enquanto escurece
E os brilhos do mundo
Cintilam em nós
Enquanto tu sentes
Que se quebrou tudo
Eu estarei
Sempre que te sentires só
Olha pra mim
Hoje não há batalhas
Hoje não há tristeza
Deixa sair o sol
Olha pra mim
Fica no meu abrigo
Perde-te nos teus sonhos
E conta comigo
Deixa voar os sonhos
Deixa acalmar a tormenta
Senta-te um pouco aí
Olha pra mim
Fica no meu abrigo
Dorme no meu abraço
E conta comigo
Que eu estarei aqui
Enquanto anoitece
Enquanto escurece
E os brilhos do mundo
Cintilam em nós
Enquanto tu sentes
Que se quebrou tudo
Eu estarei
Sempre que te sentires só
Olha pra mim
Hoje não há batalhas
Hoje não há tristeza
Deixa sair o sol
Olha pra mim
Fica no meu abrigo
Perde-te nos teus sonhos
E conta comigo
1 681
1
Amélia Rodrigues
Você é Isso
Um clarão que desponta
Nas trevas do coração ...
Um elo transparente
Das carícias à ilusão...
Um afeto que surge
E fortalece a união,
Sempre pronto para ser,
Poder estar, viver
Pleno de amor
E amargura no coração.
Um ser que busca
A cidade
Da alma do amigo,
Que escorrega no seu pranto
E abafa o seu grito ...
Alguém que aceita a dor
Como um lenitivo
Nas luzes enegrecidas
Pelo fumo do inimigo ...
A fuga discordante
De um momento de paz
Quando chora o amor
Que tanta falta lhe faz.
Você é isso
Que eu encaro, reparo
E aceito
Como um amigo que tenho
No peito
Junto à liberdade
De ser quem sou.
Nas trevas do coração ...
Um elo transparente
Das carícias à ilusão...
Um afeto que surge
E fortalece a união,
Sempre pronto para ser,
Poder estar, viver
Pleno de amor
E amargura no coração.
Um ser que busca
A cidade
Da alma do amigo,
Que escorrega no seu pranto
E abafa o seu grito ...
Alguém que aceita a dor
Como um lenitivo
Nas luzes enegrecidas
Pelo fumo do inimigo ...
A fuga discordante
De um momento de paz
Quando chora o amor
Que tanta falta lhe faz.
Você é isso
Que eu encaro, reparo
E aceito
Como um amigo que tenho
No peito
Junto à liberdade
De ser quem sou.
2 091
1
Eucanaã Ferraz
VIDA E OBRA
Repare, Cicero, que os copos se tornam
mais leves quando cheios de vinho.
E, você há de concordar comigo, a cada copo
essa impressão cresce. Deuses, vazio,
canções, vinho: este é um poema sobre poemas
e amizade.
Repare que o mesmo se dá conosco: o peso
faz-se leve em nós se um verso nos acontece.
mais leves quando cheios de vinho.
E, você há de concordar comigo, a cada copo
essa impressão cresce. Deuses, vazio,
canções, vinho: este é um poema sobre poemas
e amizade.
Repare que o mesmo se dá conosco: o peso
faz-se leve em nós se um verso nos acontece.
754
1
Casimiro de Abreu
A Faustino Xavier de Novais
Bem-vindo sejas, poeta,
A estas praias brasileiras!
Na pátria das bananeiras
As glórias não são de mais:
Bem-vindo o filho do Douro!
A terra das harmonias,
Que tem Magalhães e Dias,
Bem pode saudar Novais.
Vieste a tempo, poeta,
Trazer-nos o sal da graça,
Pois c'os terrores da praça
Andava a gente a fugir:
Agora calmando o medo,
E ao bom humor dando largas,
A comprimir as ilhargas
Agora vão todos rir.
Entre todos os paquetes
Que o velho mundo nos manda,
Eu sustento sem demanda
Tamar foi o mais feliz:
Os outros trazem cebolas,
Vinho em pipas, trapalhadas,
Este trouxe gargalhadas,
Sem ser fazenda em barris.
Venha a sátira mordente,
Brilhe viva a tua veia,
Já que a cidade está cheia
Desses eternos Manéis:
Os barões andam às dúzias,
Como os frades nos conventos,
Comendadores aos centos,
Viscondes a pontapés.
Aproveita estes bons tipos,
Há-os aqui com fartura,
E salte a caricatura
Nos traços do teu pincel:
Ou quer na prosa ou no verso,
Dá-lhes bem severo ensino,
Ressuscita o Tolentino,
Embeleza o teu laurel.
Pinta este Rio num quadro,
As letras falsas dum lado,
As discussões do senado,
As quebras, os trambulhões;
Mascates roubando moças,
E lá no fundo da tela
Desenha a febre amarela,
Vida e morte aos cachações.
Oh! canta! o povo te aplaude,
E os louros pra ti são certos!
Acharás braços abertos
No meu paterno torrão:
Se és português lá na Europa,
Aqui, vivendo conosco
Debaixo do colmo tosco,
Aqui serás nosso irmão!
Bem-vindo, bem-vindo sejas
A estas praias brasileiras!
Na pátria das bananeiras
As glórias não são de mais.
Bem-vindo o filho do Douro!
A terra das harmonias,
Que tem Magalhães e Dias,
Bem pode saudar Novais.
1860
Imagem - 00300006
Publicado no livro As primaveras (1867). Poema integrante da série Suplemento às Primaveras.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
A estas praias brasileiras!
Na pátria das bananeiras
As glórias não são de mais:
Bem-vindo o filho do Douro!
A terra das harmonias,
Que tem Magalhães e Dias,
Bem pode saudar Novais.
Vieste a tempo, poeta,
Trazer-nos o sal da graça,
Pois c'os terrores da praça
Andava a gente a fugir:
Agora calmando o medo,
E ao bom humor dando largas,
A comprimir as ilhargas
Agora vão todos rir.
Entre todos os paquetes
Que o velho mundo nos manda,
Eu sustento sem demanda
Tamar foi o mais feliz:
Os outros trazem cebolas,
Vinho em pipas, trapalhadas,
Este trouxe gargalhadas,
Sem ser fazenda em barris.
Venha a sátira mordente,
Brilhe viva a tua veia,
Já que a cidade está cheia
Desses eternos Manéis:
Os barões andam às dúzias,
Como os frades nos conventos,
Comendadores aos centos,
Viscondes a pontapés.
Aproveita estes bons tipos,
Há-os aqui com fartura,
E salte a caricatura
Nos traços do teu pincel:
Ou quer na prosa ou no verso,
Dá-lhes bem severo ensino,
Ressuscita o Tolentino,
Embeleza o teu laurel.
Pinta este Rio num quadro,
As letras falsas dum lado,
As discussões do senado,
As quebras, os trambulhões;
Mascates roubando moças,
E lá no fundo da tela
Desenha a febre amarela,
Vida e morte aos cachações.
Oh! canta! o povo te aplaude,
E os louros pra ti são certos!
Acharás braços abertos
No meu paterno torrão:
Se és português lá na Europa,
Aqui, vivendo conosco
Debaixo do colmo tosco,
Aqui serás nosso irmão!
Bem-vindo, bem-vindo sejas
A estas praias brasileiras!
Na pátria das bananeiras
As glórias não são de mais.
Bem-vindo o filho do Douro!
A terra das harmonias,
Que tem Magalhães e Dias,
Bem pode saudar Novais.
1860
Imagem - 00300006
Publicado no livro As primaveras (1867). Poema integrante da série Suplemento às Primaveras.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
2 901
1
Mário Dionísio
Elegia ao Companheiro Morto
Meu companheiro morreu às cinco da manhã
Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã
Ah antes fosse noite noite apenas noite
sem a promessa da manhã
Ah antes fosse noite noite noite apenas noite
e não houvesse em tudo a promessa da manhã
Deitado para sempre às cinco da manhã
Agora que sabia olhar os homens com força
e ver nas sombras que até aí não via a promessa risonha da manhã
Mas quem se vai interessar amigos quem
por quem só tem o sonho da manhã?
E uma vez de noite ao fim da noite mesmo ao cabo da noite
meu companheiro ficou deitado para sempre
e com a boca cerrada para sempre
e com os olhos fechados para sempre
e com as mãos cruzadas para sempre
imóvel e calado para sempre
E era quase manhã E era quase amanhã
Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã
Ah antes fosse noite noite apenas noite
sem a promessa da manhã
Ah antes fosse noite noite noite apenas noite
e não houvesse em tudo a promessa da manhã
Deitado para sempre às cinco da manhã
Agora que sabia olhar os homens com força
e ver nas sombras que até aí não via a promessa risonha da manhã
Mas quem se vai interessar amigos quem
por quem só tem o sonho da manhã?
E uma vez de noite ao fim da noite mesmo ao cabo da noite
meu companheiro ficou deitado para sempre
e com a boca cerrada para sempre
e com os olhos fechados para sempre
e com as mãos cruzadas para sempre
imóvel e calado para sempre
E era quase manhã E era quase amanhã
2 554
1
Franz Kafka
Comunidade
Somos cinco amigos; uma vez saímos um atrás do outro de uma casa; primeiro veio um e pôs-se junto à entrada, depois veio, ou melhor dito, deslizou-se tão ligeiramente como se desliza uma bolinha de mercúrio, o segundo e se pôs não distante do primeiro, depois o terceiro, depois o quarto, depois o quinto. Finalmente, estávamos todos de pé, em uma linha. A gente fixou-se em nós e assinalando-nos, dizia: os cinco acabam de sair dessa casa. A partir dessa época vivemos juntos, e teríamos uma existência pacífica se um sexto não viesse sempre intrometer-se. Não nos faz nada, mas nos incomoda, o que já é bastante; porque se introduz por fôrça ali onde não é querido? Não o conhecemos e não queremos aceitá-lo. Nós cinco tampouco nos conhecíamosantes e, se quer, tampouco nos conhecemos agora, mas aquilo que entre nós cinco é possível e tolerado, não é nem possível nem tolerado com respeito àquele sexto. Além do mais somos cinco e não queremos ser convivência permanente, se entre nós cinco tampouco tem sentido, mas nós estamos já juntos e continuamos juntos, mas não queremos uma nova união, exatamente em razão de nossas experiências. Mas, como ensinar tudo isto ao sexto, pôsto que longas explicações implicariam já em uma aceitação de nosso círculo? É preferível não explicar nada e não o aceitar. Por muito que franza os lábios, afastamo-lo, empurrando-o com o cotovelo, mas por mais que o façamos, volta outra vez.
6 379
1
Fernando Pessoa
Tenho um desejo comigo/Que hoje te venho dizer:
Tenho um desejo comigo/Que hoje te venho dizer:
Tenho um desejo comigo
Que hoje te venho dizer:
Queria ser teu amigo
Com amizade a valer.
Tenho um desejo comigo
Que hoje te venho dizer:
Queria ser teu amigo
Com amizade a valer.
2 183
1
Zacarias Martins
O Aniversário
Finalmente chegou
o tão esperado dia
de quem comigo ficou
na tristeza e na alegria.
Isso sim é companheira!
Jamais vi nada igual.
Ela é tão faceira,
— não é brincadeira —
é muito especial.
Ela sempre me entende
e eu a entendo, também.
Ao tocar-lhe suavemente
ela fica comovente
e se sente tão bem.
E hoje,
no seu aniversário
eu seria um salafrário
se nada falasse
para comemorar esse dia.
o tão esperado dia
de quem comigo ficou
na tristeza e na alegria.
Isso sim é companheira!
Jamais vi nada igual.
Ela é tão faceira,
— não é brincadeira —
é muito especial.
Ela sempre me entende
e eu a entendo, também.
Ao tocar-lhe suavemente
ela fica comovente
e se sente tão bem.
E hoje,
no seu aniversário
eu seria um salafrário
se nada falasse
para comemorar esse dia.
1 205
1
Valéry Larbaud
Mesmo
Somos ambos o mesmo:
Linhas de um mesmo desenho,
Sombras de um mesmo desejo,
Paisagens de luzes violentas
Que um mesmo sol ilumina.
Deixamos igual rastro sobre a neve
E quando a luz da noite nos concede
Alguma música, algum espanto,
Choram nossos olhos igual lágrima.
Linhas de um mesmo desenho,
Sombras de um mesmo desejo,
Paisagens de luzes violentas
Que um mesmo sol ilumina.
Deixamos igual rastro sobre a neve
E quando a luz da noite nos concede
Alguma música, algum espanto,
Choram nossos olhos igual lágrima.
819
1
Martim Codax
Quantas Sabedes Amar Amigo
Quantas sabedes amar amigo,
treides comig'a lo mar de Vigo
e banhar-nos-emos nas ondas.
Quantas sabedes amar amado,
treides comig' a lo mar levado
e banhar-nos-emos nas ondas.
Treides comig' a lo mar de Vigo
e veeremo' lo meu amigo
e banhar-nos-emos nas ondas.
Treides comig' a lo mar levado
e veeremo' lo meu amado
e banhar-nos-emos nas ondas.
treides comig'a lo mar de Vigo
e banhar-nos-emos nas ondas.
Quantas sabedes amar amado,
treides comig' a lo mar levado
e banhar-nos-emos nas ondas.
Treides comig' a lo mar de Vigo
e veeremo' lo meu amigo
e banhar-nos-emos nas ondas.
Treides comig' a lo mar levado
e veeremo' lo meu amado
e banhar-nos-emos nas ondas.
1 059
1
Pedro Amigo de Sevilha
Amiga, Muit'amigos Som
Amiga, muit'amigos som
muitos no mundo por filhar
amigas, polas muit'amar;
ma[i]s já Deus nunca mi perdom
se nunca eu vi tam amigo
d'amiga come meu amigo.
Pode voss'amigo dizer,
amiga, ca vos quer gram bem
e quer-vo-lo; mais eu por en
nunca veja do meu prazer
se nunca eu vi tam amigo
d'amiga come meu amigo.
Vi-m'eu com estes olhos meus
amigo d'amiga que lh'é
muit'amigo, per bõa fé;
mais nom mi valha nunca Deus
se nunca eu vi tam amigo
d'amiga come meu amigo.
muitos no mundo por filhar
amigas, polas muit'amar;
ma[i]s já Deus nunca mi perdom
se nunca eu vi tam amigo
d'amiga come meu amigo.
Pode voss'amigo dizer,
amiga, ca vos quer gram bem
e quer-vo-lo; mais eu por en
nunca veja do meu prazer
se nunca eu vi tam amigo
d'amiga come meu amigo.
Vi-m'eu com estes olhos meus
amigo d'amiga que lh'é
muit'amigo, per bõa fé;
mais nom mi valha nunca Deus
se nunca eu vi tam amigo
d'amiga come meu amigo.
662
1
Manoel de Barros
Na Rua Mário de Andrade
Na Rua Mário de Andrade
vou andar —
por ter sido Tarumã
e hoje ser Mário de Andrade
Ainda não sei onde é
mas vou procurar —
na rua Mário de Andrade
vou andar...
Vou ir com Macunaíma
rente às paredes
vou ir com Mário de Andrade
Ele, Mário, me diz: é preciso
flanar...
Eu digo a ele — ó Mário,
era o que eu ia te falar
É preciso flanar em ruas
— os passos levando sempre
para nenhum lugar
E Mário me diz: — Poeta,
nenhum-lugar é o melhor
lugar de um poeta chegar
Não há que ter nem começo
nem fim
essa antiga rua Tarumã
Como serão seus moradores?
Vou até lá
Saberão quem foi esse homem
bom — o da rua Lopes Chaves? Bem —
mas também ele não sabia
quem fora Lopes Chaves
Não há como não saber
quem foi o nome da rua
em que se morou ou vai morar
Se nome de gente, é bom
que ele desapareça
completamente
Não seja mais nem lembrança
nem a sombra de um homem
— como queria o poeta Bandeira
Talvez melhor conservar
rua Tarumã
mas vai ver que lá não existe
um pé de tarumã!
sequer uma criança
que conheça tarumã
(...)
Se houver flores nessa rua
Mário de Andrade — a todos nós
ela agradará
Se houver sobrados líricos
com janelas azuis ou verdes — pronto!
nada mais necessário será
para nutrir uns sonhos brancos...
(...)
Mas,
há de ser como ele foi
essa rua Mário de Andrade: simples
amiga — uma rua companheira —
uma grande alma de rua —
uma rua de óculos, de cara enorme
e de uma enorme ternura debaixo dos óculos...
Rua Mário de Andrade...
Publicado no livro Poesias (1956).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
vou andar —
por ter sido Tarumã
e hoje ser Mário de Andrade
Ainda não sei onde é
mas vou procurar —
na rua Mário de Andrade
vou andar...
Vou ir com Macunaíma
rente às paredes
vou ir com Mário de Andrade
Ele, Mário, me diz: é preciso
flanar...
Eu digo a ele — ó Mário,
era o que eu ia te falar
É preciso flanar em ruas
— os passos levando sempre
para nenhum lugar
E Mário me diz: — Poeta,
nenhum-lugar é o melhor
lugar de um poeta chegar
Não há que ter nem começo
nem fim
essa antiga rua Tarumã
Como serão seus moradores?
Vou até lá
Saberão quem foi esse homem
bom — o da rua Lopes Chaves? Bem —
mas também ele não sabia
quem fora Lopes Chaves
Não há como não saber
quem foi o nome da rua
em que se morou ou vai morar
Se nome de gente, é bom
que ele desapareça
completamente
Não seja mais nem lembrança
nem a sombra de um homem
— como queria o poeta Bandeira
Talvez melhor conservar
rua Tarumã
mas vai ver que lá não existe
um pé de tarumã!
sequer uma criança
que conheça tarumã
(...)
Se houver flores nessa rua
Mário de Andrade — a todos nós
ela agradará
Se houver sobrados líricos
com janelas azuis ou verdes — pronto!
nada mais necessário será
para nutrir uns sonhos brancos...
(...)
Mas,
há de ser como ele foi
essa rua Mário de Andrade: simples
amiga — uma rua companheira —
uma grande alma de rua —
uma rua de óculos, de cara enorme
e de uma enorme ternura debaixo dos óculos...
Rua Mário de Andrade...
Publicado no livro Poesias (1956).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
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1
João Garcia de Guilhade
Amigas, Que Deus Vos Valha, Quando Veer Meu Amigo
Amigas, que Deus vos valha, quando veer meu amigo,
falade sempr'ũas outras enquant'el falar comigo,
ca muitas cousas diremos
que ante vós nom diremos.
Sei eu que por falar migo chegará el mui coitado,
e vós ide-vos chegando lá todas per ess'estrado,
ca muitas cousas diremos
que ante vós nom diremos.
falade sempr'ũas outras enquant'el falar comigo,
ca muitas cousas diremos
que ante vós nom diremos.
Sei eu que por falar migo chegará el mui coitado,
e vós ide-vos chegando lá todas per ess'estrado,
ca muitas cousas diremos
que ante vós nom diremos.
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Renata Pallottini
Poema da Rua Maria Antonia
Por sobre o muro
voam bombas e garrafas incendiadas
pedras agudas e palavras
duras.
Por sobre o muro
voa a lembrança de um amor que houve
uma visão passada e deslocada
que tenta ultrapassar o muro e do alto
proclamar-se intocada.
Mas as garrafas incendeiam tudo
e a palavras
tornam menos urgente o amor antigo
e mais urgente o aviso:
esta é a guerra das guerras
guerra civil dos que foram amigos.
Por sobre o muro
espio com espanto o pátio incendiado
os jovens que se atingem entre lágrimas
os feridos e os gestos e os detalhes.
Minha cabeça ponho sobre o muro.
É uma cabeça desligada do seu corpo
como a cabeça de um guilhotinado
de olhos abertos.
Com meus olhos abertos sobre o muro
vejo o sangue e a fumaça da contenda.
Não posso distinguir qual dos lados do muro
é o mais claro, o mais limpo, o mais certo, o mais justo.
Meus olhos na cabeça decepada,
Buscam ansiosamente sobre o muro
o caminho mais curto, a razão mais sensata,
ou pelo menos a mais desinteressada.
Meus olhos, na cabeça desnorteada
procuram com inútil desespero
a arma de lutar, a faca de se defender
o punho de atacar.
Na cabeça infeliz meus olhos são culpados
de verem o que aos mortos foi negado.
In: PALLOTTINI, Renata. Coração americano. Pref. Luiz Carlos Cardoso. Il. Aldemir Martins. 2.ed. São Paulo: Feira de Poesia, 1979
NOTA: "Poema da Rua Maria Antonia" é a quarta parte do poema "Simposium", composto de 10 partes
voam bombas e garrafas incendiadas
pedras agudas e palavras
duras.
Por sobre o muro
voa a lembrança de um amor que houve
uma visão passada e deslocada
que tenta ultrapassar o muro e do alto
proclamar-se intocada.
Mas as garrafas incendeiam tudo
e a palavras
tornam menos urgente o amor antigo
e mais urgente o aviso:
esta é a guerra das guerras
guerra civil dos que foram amigos.
Por sobre o muro
espio com espanto o pátio incendiado
os jovens que se atingem entre lágrimas
os feridos e os gestos e os detalhes.
Minha cabeça ponho sobre o muro.
É uma cabeça desligada do seu corpo
como a cabeça de um guilhotinado
de olhos abertos.
Com meus olhos abertos sobre o muro
vejo o sangue e a fumaça da contenda.
Não posso distinguir qual dos lados do muro
é o mais claro, o mais limpo, o mais certo, o mais justo.
Meus olhos na cabeça decepada,
Buscam ansiosamente sobre o muro
o caminho mais curto, a razão mais sensata,
ou pelo menos a mais desinteressada.
Meus olhos, na cabeça desnorteada
procuram com inútil desespero
a arma de lutar, a faca de se defender
o punho de atacar.
Na cabeça infeliz meus olhos são culpados
de verem o que aos mortos foi negado.
In: PALLOTTINI, Renata. Coração americano. Pref. Luiz Carlos Cardoso. Il. Aldemir Martins. 2.ed. São Paulo: Feira de Poesia, 1979
NOTA: "Poema da Rua Maria Antonia" é a quarta parte do poema "Simposium", composto de 10 partes
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1
Cleonice Rainho
Alvo
Companheiro,
vem beber a branca espuma
desse mar de carneiro que me toca
e colher as coisas transitivas
que ora viajam para o meu espírito
Vem ser o obreiro-irmão da cidade azul
onde bordaremos puros capitéis
e aprender os discursos de meu timbre
acertando o alvo de alvas direções
Vem abrir comigo este pombal
sentir o que do traço das asas subsiste
a envolver-nos nos fios desta tarde
em que a Paz se oferece como pão.
in Intuições da Tarde / José Olympio Editora.
vem beber a branca espuma
desse mar de carneiro que me toca
e colher as coisas transitivas
que ora viajam para o meu espírito
Vem ser o obreiro-irmão da cidade azul
onde bordaremos puros capitéis
e aprender os discursos de meu timbre
acertando o alvo de alvas direções
Vem abrir comigo este pombal
sentir o que do traço das asas subsiste
a envolver-nos nos fios desta tarde
em que a Paz se oferece como pão.
in Intuições da Tarde / José Olympio Editora.
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1
Joaquim Namorado
Cantar de Amigo
Eu e tu: milhões!…
Entre nós — perto ou longe!
— entre nós rios e mares
montanhas e cordilheiras…
Eu e tu perdidos
nesta distância sem fim do desconhecido.
Eu e tu unidos
para além das cordilheiras
por sobre mares de diferença
na comunhão de nossos destinos confundidos
— a minha e a tua vida
correndo para a confluência
num mesmo Norte.
Eu e tu amassados
nesta angútia que é de nós,
minha e tua,
e mais do que de nós…
Eu e tu
carne do mesmo corpo
amor do mesmo amor
sangue do mesmo sacrificio!
Eu e tu
elos da mesma cadeia
grãos da mesma seara
pedras da mesma muralha!
Eu e tu, que não sei quem és.
Que não sabes quem sou:
— Eu e tu: Amigo! Milhões…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
Entre nós — perto ou longe!
— entre nós rios e mares
montanhas e cordilheiras…
Eu e tu perdidos
nesta distância sem fim do desconhecido.
Eu e tu unidos
para além das cordilheiras
por sobre mares de diferença
na comunhão de nossos destinos confundidos
— a minha e a tua vida
correndo para a confluência
num mesmo Norte.
Eu e tu amassados
nesta angútia que é de nós,
minha e tua,
e mais do que de nós…
Eu e tu
carne do mesmo corpo
amor do mesmo amor
sangue do mesmo sacrificio!
Eu e tu
elos da mesma cadeia
grãos da mesma seara
pedras da mesma muralha!
Eu e tu, que não sei quem és.
Que não sabes quem sou:
— Eu e tu: Amigo! Milhões…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
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1
Álvares de Azevedo
Fragmento de um canto em cordas de bronze
Deixai que o pranto esse palor me queime,
Deixai que as fibras que estalaram dores
Desse maldito coração me vibrem
A canção dos meus últimos amores!
Da delirante embriaguez de bardo
Sonhos em que afoguei o ardor da vida,
Ardente orvalhos de febris pranteios,
Que lucro à alma descrida?
Deixai que chore pois. — Nem loucas venham
Consolações a importunar-me as dores:
Quero a sós murmurá-la à noite escura
A canção dos meus últimos amores!
Da ventania às rápidas lufadas
A vida maldirei em meu tormento
— Que é falsa, como em prostitutos lábios
Um ósculo visguento.
Escárnio! Para essa muitas virgens
Como flores — românticas e belas —
Mas que no seio o coração tem árido,
Insensível e estúpido como elas!
Que agreste vibrar, ruja-me as cordas
Mais selvagens desta harpa — quero acentos
De áspero som como o ranger dos mastros
Na orquestra dos ventos!
Corre feio o trovão nos céus bramindo;
Vão torvos do relâmpago os livores:
Quero às rajadas do tufão gemê-la,
A canção dos meus últimos amores!
Vem, pois, meu fulvo cão! ergue-te, asinha,
Meu derradeiro e solitário amigo!
— Quero me ir embrenhar pelos desvios
Da serra — ao desabrigo...
Deixai que as fibras que estalaram dores
Desse maldito coração me vibrem
A canção dos meus últimos amores!
Da delirante embriaguez de bardo
Sonhos em que afoguei o ardor da vida,
Ardente orvalhos de febris pranteios,
Que lucro à alma descrida?
Deixai que chore pois. — Nem loucas venham
Consolações a importunar-me as dores:
Quero a sós murmurá-la à noite escura
A canção dos meus últimos amores!
Da ventania às rápidas lufadas
A vida maldirei em meu tormento
— Que é falsa, como em prostitutos lábios
Um ósculo visguento.
Escárnio! Para essa muitas virgens
Como flores — românticas e belas —
Mas que no seio o coração tem árido,
Insensível e estúpido como elas!
Que agreste vibrar, ruja-me as cordas
Mais selvagens desta harpa — quero acentos
De áspero som como o ranger dos mastros
Na orquestra dos ventos!
Corre feio o trovão nos céus bramindo;
Vão torvos do relâmpago os livores:
Quero às rajadas do tufão gemê-la,
A canção dos meus últimos amores!
Vem, pois, meu fulvo cão! ergue-te, asinha,
Meu derradeiro e solitário amigo!
— Quero me ir embrenhar pelos desvios
Da serra — ao desabrigo...
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Áurea de Arruda Féres
Inverno
No bolso do casaco
a carta com notícias
da pátria distante.
A tosse do amigo
agride o silêncio da noite,
sacode o meu barco...
a carta com notícias
da pátria distante.
A tosse do amigo
agride o silêncio da noite,
sacode o meu barco...
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1
Lya Carvalho Jardim
A Casa
Uma casa deve ser ampla
com janelas abertas
sem trancas
espaçosa como um coração.
Onde sempre caberá mais um.
Uma casa além de madeira e vidraça
tem que ter a medida certa dos carinhos
Além de concreto e massa
uma casa é feita de riso e graça
A arquitetura fica a cargo da emoção
Tem que ter espaço cativo
para livros
Aconchego para os amigos
Lugar exclusivo para flor
Não poderá faltar varanda
para as redes
Nem teto de vidro
para se mirar a lua
Muitas janelas para o vento entrar
Muitos mirantes para se ver a chuva
Uma casa bonita
se faz com relativa paz
tonelas de alegrias
Com tijolos de antigamente
argamassa de ternura
Uma casa se constrói
como a um filho
É preciso uma fértil imaginação
algumas canções
Sonhos da infância
muitos balões
Uma casa tem que ter brando afeto
gosto de festas
jeito de quem vive eternamente
na primavera
Se constrói uma casa
com fios de sol
com pingos de lua
com chão de estrelas
e muita doçura
Uma casa tem que ter
cheiro de campo
som de pássaro em árvores
ruído de água saindo da fonte
Arco-íris de tintas
Uma casa se constrói
com pedras brutas e alegorias
com vitórias-régias nas banheiras
cachoeiras nas pias
ondas do mar no quintal
tapetes de musgos pelas salas
candelabros de prilampos
Volutas de amor-perfeito
Portal de saudades
colunas de alegrias
Uma casa se constrói
para que caibam nela
discos
amigos
sonhos
filhos
tudo que é carinho
todas as vidas
todos os caminhos
Uma casa se constrói
dentro de um jardim
o jardim dentro da vida
a vida dentro dos sonhos
os sonhos dentro de nós.
com janelas abertas
sem trancas
espaçosa como um coração.
Onde sempre caberá mais um.
Uma casa além de madeira e vidraça
tem que ter a medida certa dos carinhos
Além de concreto e massa
uma casa é feita de riso e graça
A arquitetura fica a cargo da emoção
Tem que ter espaço cativo
para livros
Aconchego para os amigos
Lugar exclusivo para flor
Não poderá faltar varanda
para as redes
Nem teto de vidro
para se mirar a lua
Muitas janelas para o vento entrar
Muitos mirantes para se ver a chuva
Uma casa bonita
se faz com relativa paz
tonelas de alegrias
Com tijolos de antigamente
argamassa de ternura
Uma casa se constrói
como a um filho
É preciso uma fértil imaginação
algumas canções
Sonhos da infância
muitos balões
Uma casa tem que ter brando afeto
gosto de festas
jeito de quem vive eternamente
na primavera
Se constrói uma casa
com fios de sol
com pingos de lua
com chão de estrelas
e muita doçura
Uma casa tem que ter
cheiro de campo
som de pássaro em árvores
ruído de água saindo da fonte
Arco-íris de tintas
Uma casa se constrói
com pedras brutas e alegorias
com vitórias-régias nas banheiras
cachoeiras nas pias
ondas do mar no quintal
tapetes de musgos pelas salas
candelabros de prilampos
Volutas de amor-perfeito
Portal de saudades
colunas de alegrias
Uma casa se constrói
para que caibam nela
discos
amigos
sonhos
filhos
tudo que é carinho
todas as vidas
todos os caminhos
Uma casa se constrói
dentro de um jardim
o jardim dentro da vida
a vida dentro dos sonhos
os sonhos dentro de nós.
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