Poemas neste tema

Amizade

Manuel Alegre

Manuel Alegre

Como ouvi Linda cantar por seu amigo José

Se sabeis novas do meu amigo
novas dizei-me que vou morrendo
por meu amigo que me levaram
num carro negro de madrugada.

Dizei-me novas do meu amigo
em sua torre tecendo os dias
dai-me palavras pra lhe mandar
com ruas brisas domingo sol.

Se sabeis novas de meu amigo
novas dizei-me que desespero
por meu amigo que longe espera
tecendo os dias tecendo a esperança.

Mando recados não sei se chegam
leva-me ó vento da noite triste
ou diz-me novas de meu amigo
que tece o tempo na torre negra.

Que tece o tempo que tece a esperança.
Já da ternura fiz uma corda
ó vento prende-a na torre negra
que o meu amigo por ela desça.

Por essa corda feita de lágrimas
que o meu amigo por ela desça
ou mande a esperança que vai tecendo
que eu desespero sem meu amigo.

4 462
Noel Rosa

Noel Rosa

Amor de Parceria

Saibam primeiro
Que fulano é meu amigo
E com ele eu não brigo
Com ciúmes de você.

Você provocou briga entre rivais
Pra depois ver nos jornais
Seu nome, seu clichê.

Há muito tempo meu amigo já sabia
Que você me oferecia
Chocolate no jardim.
E começou a nossa parceria:
Eu fui por ele
E ele foi por mim.

Você pensou
Que fomos enganados,
Marcando encontro em dias alternados.
E nós fizemos a sua vontade.
Dentro daquele enredo
Eu e ele não tivemos prejuízo
Na sociedade.

Quando meu sócio
Namorava em seu portão,
Eu ficava na esquina
Distraindo seu irmão.
E quantas vezes eu perdia a fala
Quando estava sem tostão

E ele pedia bala!
Nós aturamos sua tia implicante
Mas filamos seu jantar,
Não pagamos restaurante.
Você não sai do nosso pensamento.
Você foi negócio, foi divertimento.

1 106
Gilson Nascimento

Gilson Nascimento

Noite de São João

A festa qui nóis fizemo
No convite já dissemo
Mas car ece ispilicá
É pra mode arrelembrá
Do São João que se passou

São João das fogueira grande
Das labareda bunita
Que assubia lá pra riba
Lambendo a cara da noite
Levando junto com ela
O grito das meninada
Os papouco dos foguete
As reza da gente grande
O gargaiá da moçada

São João das bacia dágua
Friinha de fazê gosto
Pra gente oiá bem no fundo
E percurá pela cara
Quando a cara aparecia
Meu Deus, qui sastifação!
A criatura vivia
Inté o outro São João

Mais porém quando essa água
A cara do ente escondia
Valei-me, Virge Maria
Mal sinal, assombração
Pro mode qui a morte vinha
Dizia os véi, os antigo
Com a sua foice bem grande
Antes do outro São João

São João das comida boa
Faz minha boca miná
Cangica, pé-de-moleque
Pamonha, mi, aluá
São João das bomba estourando
Dos busca-pé percurando
Muié mode aperreá
Dos coió e das rodinha
Dos traque, das estrelinha
Quaje sem luz, pobrezinha
Num briava, mais porém
Infeitiçava o oiá

Afiado, afiada
Padrim, madrinha também
Dando volta na fogueira
Com as mão bem agrudada
Dando nó nas amizade
Arrochando os parafuso
Dos amô, das afeição.
São João qui taqui guardado
No meu véio coração
Coração já mei cansado
Mas quinda bate avexado
Toda vez que o calendaro
Me amostra na sua fôia
Que é noite de São João

992
Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Foi Gastão Cruz quem. em Lisboa, me levou
a ela. a velha senhora, a senhora bela;

era um dia diadema, de azul líquido e sim
simultaneamente matemático;

nenhum de nós morreria naquele outono
de arames claros: a hora como que se curvava

quando Sophia falava, e então
todas as palavras eram números mágicos.
651
José Olimpio

José Olimpio

Sou Alentejano

Sou alentejano
poeta e cantor
filho dos montados
neto de uma flor.
Não tive lições
de livros doirados
não usei nos dedos
anéis brasonados.
Nasci entre as dobras
de ventos e trigos
- nunca traí os amigos.

Sou alentejano
poeta e cantor
só falo das coisas
que falem de amor:
das rosas, dos rios,
dos velhos maiorais...
Das águias altivas
dos tristes pardais
das lendas e loas
de ritos antigos...
- nunca traí os amigos.

Sou alentejano.
Um homem não mais
com pulsos de feno
sangue de pinhais.
Não fui às estrelas
senão a sonhar.
Não tive castelos
senão de luar.
Andei pelos montes
dormi em abrigos
- Nunca traí os amigos

396
Amparo Jimenez

Amparo Jimenez

Encuentro

Besos, caricias, encuentros
mujeres a flor de piel.
Cuerpos desnudos
almas vestidas de amor
listas para danzar
en la fiesta de la unión.
Lucha, discurso, revuelta
intensidad que nos confronta
crecemos con energía, vitalidad y miedos.
Máscaras que caen al suelo
rodando a los pies del imperio.
Música
Alegría
Poesía
erotismo por siglos retenido
despertando hoy, para sentirnos,
bugas, lesbianas, dudosas
rompiendo cadenas
bailando al ritmo de la vida.
Brujas, magas, curanderas
entregándonos con fuerza
destruyendo esquemas.
Amigas nuevas y viejas conocidas
parejas
novias
compañeras
unidas al fin en el espacio.
Lágrimas
risas
promesas
deseo cumplidos y anhelos
volando por el tiempo
desencuentros que se quedan en el camino,
recuerdos del futuro que presiento.

1 055
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Amizade

Amigos, oh todos, Albertos e Olgas de toda a terra!
Não escrevem os livros de amor a amizade do amigo ao amor,
não escrevem o dom que suscitam e o pão que outorgaram ao amante errante,
esqueça o sortilégio olhando os olhos de puma de sua
bem-amada
que mãos amigas lavraram madeiras, elevaram estacas
para que enlaçassem em paz sua alegria os dois errabundos.
Injusto ou tardio tu e eu inauguramos Matilde no livro do amor
o capítulo aberto que indica ao amor o que deve
e aqui se estabelece com mel a amizade verdadeira:
a dos que acolhem na felicidade sem empalidecer de nevralgia
e elevam a taça de ouro em honra da honra e do amor.
1 531
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Coroa do Arquipélago para Ruben Azócar

Do Chile chegou a notícia mal-escrita por mão da Morte:
o melhor dos meus, meu irmão Rubén está imóvel
dentro de um nicho, na tumba mesquinha dos cidadãos.

Bem-amada, na hora do ar recolhe uma lágrima e leva-a
através do Atlântico negro à sua rude cabeça adormecida;
não me tragas notícias; não posso entender sua agonia:
ele deveria terminar como um tronco queimado na selva,
erguido na ilustre armadura de sua desarmada inocência.

Nunca vi outra árvore como esta, não vi no bosque
tal cortiça gigante riscada e escrita pelas cicatrizes:
o rosto de Azócar, de pedra e de vento, de luz macerada,
e sob a pele da estátua de couro e de pelo
o magnânimo mel que ninguém possui na terra.

Talvez no fundo da África, no meio-dia compacto,
uma flecha revela na ave que cai voando o esplêndido sal da safira,
ou melhor o arpão baleeiro saindo sangrento da besta pura
tocou uma presença que ali preservava o aroma do âmbar:
assim foi em meu caminho meu irmão que agora chorando recubro
com a mínima pompa que não necessitam seus olhos
adormecidos.
Assim foi por aquelas épocas felizes e malbaratadas
que descobri a bondade no homem, porque ele me ensinava,
abrindo sorrindo com sobrancelhas de árvore, o ninho de abelhas invictas
que andava com ele sussurrando de noite e de dia
e então, a mim que saía da juventude invejosa e suprema,
tocando o peito coberto por sua abandonada jaqueta,
me deu a conhecer a bondade, e provei a bondade, e até agora
não tenho podido mudar a medida do homem em meu canto;
nunca mais aprendi senão aquilo que aprendi de meu irmão nas ilhas.

Ele passeava em Boroa, em Temuco com um charlatão agregado,
com um pobre ladrão de galinhas vestido de negro
que burlava, servil e silvestre, os fazendeiros:
era um cão avariado e roído pela enfermidade literária
que, graças a Nietzsche e a Whitman, se dissimulava ladrando
e meu pobre Rubén antagônico suportava o pedante inclemente
até que o charlatão o deixou de refém no pobre hoteleco
sem dinheiro e sem roupa, em honra da literatura.

Meu irmão! Meu pobre leão das gredas amargas de Lota,
mineral, inflamado como os fulgores do raio na noite de chuva,
meu irmão, recordo teus olhos atônitos ante o desacato
e tua pura pureza empenhada por um espantalhovargasvilovante.
Nunca vi uns olhos tranquilos como em ti nesse instante teus olhos
ao pesar o veneno do mundo e apartar com sombria inteireza
o punhal da dor, e seguir o caminho do homem.

Ai irmão, ai irmão de ciência escondida, ai irmão de todo o inverno nas ilhas:
ai, irmão, comendo contigo feijão com milho verde recém-separado
do marfim silencioso que educa o milho em suas lanças,
e depois os mexilhões saindo do mar arquipélago,
as ostras de Ancud, cheirosas à mitologia,
o vinho de inverno bebido sem trégua na chuva
e teu coração debulhando-se sobre o território.

Não é a vida que faz os homens, é antes,
é antes: remoto é o peso da alma no sangue;
os séculos azuis, os sonhos do bosque, os sáurios perdidos
na caravana, o terror vegetal do silêncio,
se agregaram a ti antes de nada, teceram com sombra e madeira
o assombro da criança que te acompanhou pela terra.

Sei que no México bravio em um dia desértico esteve
tua cabeça angustiada, tua boca com fome, teu riso feito pó.

E não posso olvidar que ao cruzar o Peru te esqueceram em um calabouço.
Enquanto no Panamá na maranha de umidade e raízes,
tu, sabendo que ali as serpentes tomavam o tórrido sol e mordiam,
ali te estendeste para morrer de regresso às lianas, e então
um milagre salvou tua pele para nossa alegria.
Já se sabe que um dia em Cuba, transformado em donoso donzel,
parodiaste com verso e donaire os exílios daquele Cavaleiro
que deixou à sua galante Madama uma recordação em um cofre cheiroso
e se sabe que quando com flor na mão tua graça passeava
pelo equinócio da história hilariante e patética,
Fidel com sua barba e altura ficou assombrado ao ouvir-te e olhar-te
e depois abraçando-te, com riso e delícia, baixou a cabeça,
porque entre uma batalha e outra não há louro que mais cative o guerreiro
que tua generosa presença regalando a magia e o mel,
adorável palhaço, capitão da dissipação, redentor da sabedoria.

Se contasse, se pudesse contar teus milagres, as histórias
que penduraste no colo do mundo como um colar claro:
dispuseste de um amplo desvão com navios
e bonecas, bonecos que te obedeciam logo que
se moviam tuas sobrancelhas povoadas por árvores negras.

Porque tu antes de ser o adivinho, escolheste teu reino,
tua pequena estatura, tua cabeça de rei araucano,
e de quanto mais nobre e mais firme encontraste no nada
construíste teu corpo e teu sonho, pequeno monarca,
agregando-lhe inúteis fibras que continuam brilhando
com o ouro enlutado de tua travessura grandiosa.

Às vezes olhando-te o cenho com que vigilavas meus passos,
temendo por mim como o pai do pai do pai do filho,
divisei em teu olhar uma antiga tristeza
e teria tido razão a tristeza em teus olhos antigos:
os próximos a ti não souberam venerar tua madeira celeste
e a miúdo puseram espinhos em tua cabeleira
e com lanças de ferro oxidado te cravaram na desventura.

Mas aquela água escura que certa vez encontrei em teu olhar
guardava o silêncio normal da natureza
e se tinham caído as folhas no fundo do poço em trevas
não apodreceram as folhas defuntas a cisterna de onde surgia
tua solene bondade florescida por um ramo indomável de rosas.

Tenho o Ás! Tenho o Dois! Tenho o Três! cantarão e talvez cantaremos;
cantarão, cantaremos na borda do vinho de Outubro;
cantaremos a inútil beleza do mundo sem que tu a vejas,
sem que tu, companheiro, respondas rindo e cantando,
cantando e chorando algum dia na nave ou melhor à beira
do mar das ilhas que amaste, marinheiro sonoro;
cantarão, cantaremos, e o bosque do homem perdido,
a bruma huaiteca, o lariço de peito implacável
te acompanharão, companheiro, em teu canto invisível.

Tenho o Ás! Tenho o Dois! Tenho o Três! Mas falta tu, irmão!
Falta o rei que se foi para sempre com o riso e a rosa na mão.
1 071
Papiniano Carlos

Papiniano Carlos

Bom Dia, Afonso Duarte

Nas ruas exaustas de morte e silêncio,
entre rios mortos e áspera solidão,
passeio contigo, Afonso Duarte.

Sob teu rosto grave, teus nevados cabelos,
seara cansada de tantas espigas,
couves e rosas, Afonso Duarte.

Um galo canta longínquo, ou é tua voz
a seiva do chão, oculta e milenária,
a cantar ainda, Afonso Duarte?

Em teu jardim de angústia (ao longe o mar) colho
no ramo quebrado nossa ave imperecível
e a dor da Pátria, Afonso Duarte.

E vendo-te, raiz e flor, a meio do teu povo,
(eu mesmo cavo e sou quem poda a vida)
só te digo: Bom-dia, Afonso Duarte.

1 682
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Combate da Itália

Europa vestida de velhas violetas e torres de estirpe angustiada
nos fez voar na sua onda de ilustres paixões
e em Roma as flores, as vozes, a noite iracunda,
os nobres irmãos que me resgataram da Polícia:
mas logo se abriram os braços da Itália abraçando-nos
com seus jasmineiros crescidos em gretas de rocha
e seu paroxismo de olhos que nos ensinaram a olhar o mundo.
1 064
José Castello

José Castello

Manoel de Barros busca o sentido da vida

Poeta diz ter solidão, mas acha que é opulência da alma e a traz, em sua obra, como amargor e sol
Manoel de Barros ficou perto de cinco meses com um longo questionário que lhe enviei pouco antes do carnaval deste ano. "Vou responder devagar e do meu jeito", ele me advertiu na época. Aceitei suas condições. Não imaginei, porém, que necessitasse de tanto tempo. Barros seguiu, em parte, as instruções de seus novos editores, da Record, que preferiam ver uma grande entrevista publicada no Estado apenas na época do lançamento do Livro sobre Nada. Mas não foi só essa preferência que o fez deixar o questionário de lado por um período tão longo. O poeta é um homem de hábitos lentos, que gosta de meditar muito antes de agir e não está acostumado a trair seu temperamento interiorano. Finalmente, no dia 12, ele despachou de Campo Grande, pelo correio, suas respostas a algumas perguntas que formulei. Assim começa um breve bilhete anexo: "Aí está o que pude; peço desculpas pela demora." Manoel de Barros respondeu por escrito, em organizadas folhas brancas do tipo ofício, datilografadas com esmero. Corrigiu os erros com a esferográfica, numerou metodicamente as questões e grampeou as páginas.
É um homem, sempre, cheio de cuidados. Antes de aceitar o convite da editora Record para se transferir - "proposta irrecusável por todos os motivos, até mesmo os financeiros", limita-se a dizer -, o poeta consultou José Elias Salomão, o proprietário da Civilização Brasileira. "Falei com ele e tudo bem; ficamos em paz todos", relata. A morte recente do editor Ênio Silveira, por certo, influenciou nessa decisão. Manoel de Barros se sentia tão ligado a Ênio que, enqunto ele estava vivo e mesmo com as condições precárias que a editora Civilização Brasileira atravessou na última década, não ousou mudar de casa. Os laços de amizade e a fidelidade pesaram mais que os interesses pessoais. Cada um de seus últimos livros editados por Ênio Silveira, mal ou bem (e, considerando que são livros de poemas, esses números são ótimos) vendeu, de todo modo, perto de 10 mil exemplares. "Acho que, na Record, esse número deve crescer por causa da estrutura de marketing da editora", diz. Apesar desse otimismo, Manoel de Barros continua a ser um homem basicamente melancólico e pessimista. "Acho que no futuro o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo", diz. "Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser." A seguir, as questões que ele decidiu responder.
Estado - Em que medida Mato Grosso do Sul está presente em sua poesia? Qual é sua relação com o regionalismo?
Manoel de Barros - Há sempre um lastro de ancestralidades que nos situa no espaço. Mas não importa muito onde o artista tenha nascido. O que marca um estilo literário é a maneira de mexer com as palavras. Poesia é um fenômeno de linguagem. De minha parte, confesso que fujo do regionalismo que não dê em arte, que só quer fazer registro. Não gosto de descrever lugares, bichos, coisas da natureza. Gosto de inventar. Quem descreve não é dono do assunto; quem inventa é. Não tenho compromisso com as verdades consagradas. O que desejo é me constar por meio de um trabalho estético. Se de tudo resultar um cheiro de coisa do chão, é bom. Pode até ser que seja regionalismo. Porém, há de ser mais transfigurismo pela palavra.
Estado - Você se sente isolado em Campo Grande?
Barros - Isolado não me sinto, juro. Às vezes me isolo, me tranco na minha toca para escrever, para ler, para imaginar. Parece que, no fechado, o imaginário se solta melhor. O que sinto mesmo é incompletude: essa falta de explicação para o sentido da vida. O que tenho é solidão. Mas solidão é opulência da alma. Tudo isso parece que destila amargor e sol na minha poesia.
Estado - As viagens marcaram sua poesia? Penso em um poeta como Vinícius de Moraes que, em cada cidade que viveu, parece ter sido um homem diferente.
Barros - Alguns anos da minha vida ambulei por lugares decadentes. Havia um certo fascínio em mim por cidades mortas, casas abandonadas, vestígios de civilizações. Um fascínio por ruínas habitadas por sapos e borboletas. Eu gostava de ver alguma germinação da inércia sobre ervinhas doentes, paredes leprentas, coissa desprezadas. As fontes de minha poesia, estou certo, vêm de errâncias desurbanas. Agora, o caso do Vinícius é outro. Ele é um poeta inumerável. Ele vem das grandes paixões, das grandes complexidades, das perplexidades humanas. Ele era 300, ele era 350, como diria o nosso Mário de Andrade. Manoel de Barros só é um bugre perturbado.
Estado - Existe essa entidade chamada poesia brasileira ou existem apenas poetas nascidos no Brasil?
Barros - Penso que existe sim uma poesia brasileira. Uma poesia que expresa a nossa alma e o nosso quintal. Porém, a linguagem, o tratamento que o poeta imprima à sua matéria pode fazer dele um poeta universal. Assim, as nossas particularidades podem ser universais por meio das palavras. Temos poetas do mundo nascidos no Brasil.
Estado - Como foi sua relação com o editor Ênio Silveira, recém- falecido?
Barros - Do Ênio fui amigo e companheiro desde o primeiro dia que conversamos. Uma das criaturas mais puras, mais honestas, mais idealistas que conheci. Um ser de escol - como se diz. Trocamos cartas por muitos anos. Trocamos amizades. Mandava a ele os meus originais e ficava quieto, esperando. De repente, me mandava as provas. Fazia questão de escrever as orelhas. Tenho cinco livros lançados por ele.
Estado - Como é hoje sua rotina de poeta?
Barros - Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo "lugar de ser inútil". Exploro há 60 anos esses mistéros. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc. Faço escavações. Entro às 7 horas, saio ao meio-dia. Anoto coisas em pequenos cadernos de rascunho. Arrumo versos, frases, desenho bonecos. Leio a Bíblia, dicionários, às vezes percorro século para descobrir o primeiro esgar de uma palavra. E gosto de ouvir e ler Vozes da Origem. Gosto de coissa que começam assim: "Antigamente, o tatu era gente e namorou a mulher de outro homem." Está no livro Vozes da Origem, da antropóloga Betty Mindlin. Essas leituras me ajudam a explorar os mistérios irracionais. Não uso computador para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento.
Estado - Seu último livro publicado se chama O livro das Ignorãças (Civilização Brasileira, 1983). A citação de abertura é eloqüente: "As coisas que não existem são mais bonitas." Qual é o papel da ignorância na atividade poética?
Barros - Gosto de ver o que não aparece. Um que não era o adivinha de Tebas, o Tirésias, um que era apenas o Pote-Cru, andejo de beira de rios, criado em grotas de preá, me disse um dia: "Eu tenho vaticínios de lugares." Pote-Cru, ele tinha percepções sensoriais largas, como os adivinhos, os videntes, os bruxos, os urgos, os demiurgos, os curandeiros, os magos. Essa gente toda usa muito a ignorância para nos conhecer. Como é que eles podem dizer: "Vi a tarde se encolher no olho de um pássaro?" Entretanto, se encolhe! Como é que eles podem dizer: "Os carrapichos não pregam no vento." E, entretanto, não pregam. Essas descobertas vêm da ignorância.
Estado - Você vive em uma região brasileira em que a natureza, mal ou bem, ainda resiste. Há futuro para a natureza?
Barros - No grande futuro, não sei o que seja, acho que o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo. Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser. Aquela liberdade que o homem tem de se sentir livre para o silêncio das árvores não vai ter mais. O idioma não vai servir mais para celebrar. O ser não vai mais comungar com as coisas. A imaginação não vai mais desabrochar, porque os nossos desejos e fantasias serão realizados. O mundo vai ter outro cheiro. Salvo não seja.
1 911
Olympia Mahu

Olympia Mahu

Voar, voar

Não entendo como te admiras
Quando quero sair para voar sozinha.

Quero sair, voar
Voar bem alto...
Quem sabe, até, um vôo errante,
Estabanado, atropelado
Quem sabe, até, em queda livre..

Já vivi bastante sob tuas asas
Não tenho queixas, apenas alguns medos.

Quero soltar-me
Mostrar quem sou, o que aprendi
Que sei, não esqueço, Muito foi contigo...

Desprender-me de ti, é como soltar as amarras
Cortar o cordão que muito me protegeu
Mas, que hoje me aprisiona...

Gratidão te tenho demais
Mas, a inquietude é ainda maior.

Preciso sair por aí
Descobrir-me
Saber quem sou, o que faço,
Por onde caminhar...

Não te assuste!
Que bom que ainda tenho muitas dúvidas dentro de mim
E força suficiente para descobri-las
Quem sabe, solucioná-las.

Quero de ti a amizade, o apoio e o carinho
Coisas tão grande em ti
Que divides tão bem com todos.

Quero poder crescer
Para estar sempre por perto
Merecendo o teu respeito...

Olimpya Mahu, 26/7/94

1 046
Heinrich Heine

Heinrich Heine

Os anjos

Eu, incrédulo Tomé,
Já não creio na doutrina
Que o rabi e o padre ensinam:
Nesse “céu” não levo fé!

Mas nos anjos acredito,
Dou aqui meu testemunho:
Perambulam pelo mundo,
Impolutos e bonitos.

Só refuto essa bobagem
De anjo aparecer de asinha;
Sei de muitos, Senhorinha,
Desprovidos de penagem.

Com carinho e claridade,
De olho atento nos humanos,
Nos protegem, afastando
O infortúnio e a tempestade.

Amizade tão discreta
Reconforta toda gente,
Tanto mais o duplamente
Judiado, que é o poeta.


1 576
Marcial

Marcial

A Musa Puerilis de Marcial

1, 23


Ninguém convidas, só com quem te lavas, Cota,
...e só os banhos dão o teu conviva.
Admirava-me, Cota, o nunca me chamares:
...agora sei que, nu, não te agradei.


Inuitas nullum nisi cum quo, Cotta, lauaris
...et dant conuiuam balnea sola tibi.
Mirabar, quare numquam me, Cotta, uocasses:
...iam scio, me nudum displicuisse tibi.



901
Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Cada Lugar Teu

Esta é só uma noite para partilhar
Qualquer coisa que ainda podemos guardar cá dentro
Um lugar a salvo para onde correr
Quando nada bate certo
E se fica a céu aberto
Sem saber o que fazer

Esta é uma noite pra comemorar
Qualquer coisa que ainda podemos salvar do tempo
Um lugar pra nós onde demorar
Quando nada faz sentido
E se fica mais perdido
E se anseia pelo abraço de um amigo

Esta é só uma noite para me vingar
Do que a vida foi fazendo sem nos avisar
Foi-se acumulando em fotografias
Em distâncias e saudade
Numa dor que nunca cabe
E faz transbordar os dias

Esta é uma noite para me lembrar
Que há qualquer coisa infinita como o firmamento
Um sorriso, um abraço
Que transcende o tempo
E ter medo como dantes
De acordar a meio da noite
A precisar de um regaço
1 278
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Dedicatória da Terceira Edição do «Coral» Ao Ruy Cinatti

Para o Ruy Cinatti porque neste livro
De folha em folha passam gestos seus
Assim como de folha em folha em arvoredo
A brisa perde ao sussurrar seus dedos
1 910
Henrique de Rezende

Henrique de Rezende

As Usinas

este canto da terra verde
é para Rosário Fusco,
meu amigo.

Desce o rio, lento, pesadão, molengo.

Mas, de repente,
se despenha no desespero do despenhadeiro.
É a cachoeira, a acachoar, zoando e retumbando no seio virgem da floresta virgem.

E, além, são as águas, que se refreiam,
que se represam,
e é a luta esplêndida de mil cavalos imaginários
nos canos grossos,
nos tubos longos,
pelas turbinas adentro, — em turbilhão.

E, então, lá no alto, à luz do dia, apoteóticamente,
as fábricas gemem,
os teares cantam,
as serras guincham,

— e, à noite, como que num milagre, é a cidadela
toda esplendente de alampadários.

925
Anderson Guerra

Anderson Guerra

Conjunto Vazio

Será que um dia
vou poder estar
entre vocês, meus amigos,
sem explicar a que vim e
porque vivo?

Verei a interrogação
no campo morto
e sem tempo das línguas caducas?

Vivo e permaneço inquieto.

Não fosse a Providência
quem seria meu sofrimento?

Porque padeceria de angústia
se com sangue
eu limpasse a consciência?

Maldita interrogação!

842
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

La noche que en el sur lo velaron

A Letizia Álvarez de Toledo


Por el deceso de alguien
-misterio cuyo vacante nombre poseo y cuya reali-
dad no abarcamos-
hay hasta el alba una casa abierta en el Sur,
una ignorada casa que no estoy destinado a rever,
pero que me espera esta noche
con desvelada luz en las altas horas del sueño,
demacrada de malas noches, distinta,
minuciosa de realidad.

A su vigilia gravitada en muerte camino
por las calles elementales como recuerdos,
por el tiempo abundante de la noche,
sin más oíble vida
que los vagos hombres de barrio junto al apagado
almacén
y algún silbido solo en el mundo.

Lento el andar, en la posesión de la espera,
llego a la cuadra y a la casa y a la sincera puerta que
busco
y me reciben hombres obligados a gravedad
que participaron de los años de mis mayores,
y nivelamos destinos en una pieza habilitada que mira
al patio
-patio que est?bajo el poder y en la integridad de la
noche-
y decimos, porque la realidad es mayor, cosas indife-
rentes
y somos desganados y argentinos en el espejo
y el mate compartido mide horas vanas.

Me conmueven las menudas sabidurías
que en todo fallecimiento de hombres se pierden
-hábito de unos libros, de una llave, de un cuerpo
entre los otros-
frecuencias irrecuperables que fueron
la precisión y la amistad del mundo para él.
Yo s?que todo privilegio, aunque oscuro, es de linaje
de milagro
y mucho lo es el de participar en esta vigilia,
reunida alrededor de lo que no se sabe: del muerto,
reunida para incomunicar y guardar su primera noche
en la muerte.

(El velorio gasta las caras;
los ojos se nos están muriendo en lo alto como Jesús).

¿Y el muerto, el increíble?
Su realidad est?bajo las flores diferentes de él
y su mortal hospitalidad nos dar?
un recuerdo más para el tiempo
y sentenciosas calles del Sur para merecerlas despacio
y brisa oscura sobre la frente que vuelve
y la noche que de la mayor congoja nos libra:
la prolijidad de lo real.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 95 e 96 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 062
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

A Francisco López Merino

Si te cubriste, por deliberada mano, de muerte,
si tu voluntad fue rehusar todas las mañanas del mundo,
es inútil que palabras rechazadas te soliciten,
predestinadas a imposibilidad y a derrota.

Sólo nos queda entonces
decir el deshonor de las rosa que no supieron demorarte,
el oprobio del día que te permitió el balazo y el fin.

¿Qué sabrá oponer nuestra voz
a lo confirmado por la disolución, la lágrima, el mármol?
Pero hay ternuras que por ninguna muerte son menos:
las íntimas, indescifrables noticias que nos cuenta la música,
la patria que condesciende a higueras y aljibe,
la gravitación del amor, que nos justifica.

Pienso en ellas y pienso también, amigo escondido,
que tal vez a imagen de la predilección, obramos la muerte,
que la supiste de campanas, niña y graciosa,
hermana de tu aplicada letra de colegial,
y que hubieras querido distraerte en ella como en un sueño.

Si esto es verdad y si cuando el tiempo nos deja,
nos queda un sedimento de eternidad, un gusto del mundo,
entonces es ligera tu muerte,
como los versos en que siempre estás esperándonos,
entonces no profanarán tu tiniebla
estas amistades que invocan.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 101 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Barrio norte

Esta declaración es la de un secreto
que está vedado por la inutilidad y el descuido,
secreto sin misterio ni juramento
que sólo por la indiferencia lo es:
hábitos de hombres y de anocheceres lo tienen,
lo preserva el olvido, que es el modo más pobre de misterio.

Alguna vez era una amistad este barrio,
un argumento de aversiones y afectos, como las otras cosas del amor;
apenas si persiste esa fe
en unos hechos distanciados que morirán:
en la milonga que de las Cinco Esquinas se acuerda,
en el patio como una firme rosa bajo las paredes crecientes,
en el despintado letrero que dice todavía La Flor del Norte,
en los muchachos de guitarra y baraja del almacén,
en la memoria detenida del ciego.

Ese disperso amor es nuestro desanimado secreto.

Una cosa invisible está pereciendo del mundo,
un amor no más ancho que una música.
Se nos aparta el barrio,
los balconcitos retacones de mármol no nos enfrentan cielo.
Nuestro cariño se acobarda en desganos,
la estrella de aire de las Cinco Esquinas es otra.

Pero sin ruido y siempre,
en cosas incomunicadas, perdidas, como los están siempre las cosas,
en el gomero con su veteado cielo de sombra,
en la bacía que recoge el primer sol y el último,
perdura ese hecho servicial y amistoso,
esa lealtad oscura que mi palabra está declarando:
el barrio.




Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 102 e 103 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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Ana Martins Marques

Ana Martins Marques

O que nos aconteceu

O que nos aconteceu
o que não nos aconteceu
têm o mesmo peso no poema

Ontem visitamos
nosso amigo doente
era comovente ver seu esforço
para parecer melhor do que estava

Andamos um pouco pela praia
a certa altura me dei conta
de que nunca perguntei onde ele nasceu

Encontramos uma água-viva na areia
alguém disse que ser assim
indistinguível como a areia da areia
o mar do mar
deve ser algo próximo da felicidade

Uma dessas coisas não aconteceu
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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

A un poeta menor de la antologia

¿Dónde está la memoria de los días
que fueron tuyos en la tierra, y tejieron
dicha y dolor y fueron para ti el universo?

El río numerable de los años
los ha perdido; eres una palabra en un índice.

Dieron a otros gloria interminable los dioses,
inscripciones y exergos y monumentos y puntuales historiadores;
de ti sólo sabemos, oscuro amigo,
que oíste al ruiseñor, una tarde.

Entre los asfodelos de la sombra, tu vana sombra
pensará que los dioses han sido avaros.

Pero los días son una red de triviales miserias,
¿y habrá suerte mejor que ser la ceniza,
de que está hecho el olvido?

Sobre otros arrojaron los dioses
la inexorable luz de la gloria, que mira las entrañas y enumera las grietas,
de la gloria, que acaba por ajar la rosa que venera;
contigo fueron más piadosos, hermano.

En el éxtasis de un atardecer que no será una noche,
oyes la voz del ruiseñor de Teócrito.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 179 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Ii - Assim Teria Acontecido

Assim teria acontecido, assim teria acontecido
se não houvesses também, quase invisível,
entrado para sempre na História.
Nos teríamos visto diariamente,
teríamos mudado certos livros que amamos,
se eu te houvesse relatado
contos de pescadores e mineiros
de minha pátria marinha,
e teríamos rido
de tal maneira que os transeuntes
achariam perigosa
nossa grande alegria.
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