Poemas neste tema

Amizade

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Caminho do Alento

ao Luís Amaro


As que dançam no caminho, ervas dos lábios,
as sinuosas e leves,
sabem ao vento em que navegam,
caem na maciez das pálpebras.
Ó amêndoas do ar
nos ébrios dedos,
e na boca um forno de flor.
Quando se caminha assim, quase volante,
a terra amiga e lenta,
no calor forte,
com a fronte do alento perfumada
ardente entre as searas?
561
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Contigo Pelas Ruas

 
 
 
Quero contar e cantar as coisas
da larga terra russa.
Só algumas poucas coisas,
porque não cabem todas em meu canto.
Humildes fatos, plantas,
pessoas,
pássaros,
empresas dos homens.
Muitas sempre existiram,
outras
estão nascendo,
porque aquela é a terra
do nascimento infinito.
E assim começo, andando
contigo pelas ruas,
pelos campos,
perto do mar no inverno.
Es meu amigo, vem,
vamos andando.
 
1 123
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Puteiro

minha primeira experiência num puteiro
foi em Tijuana.
era uma casa enorme nos confins da
cidade.
eu tinha 17 anos, com dois amigos.
enchemos a cara para criar
coragem
aí fomos lá e
entramos.
o lugar estava lotado de
militares
principalmente
marinheiros.
os marinheiros formavam longas
filas
bradando e batendo nas
portas.

Lance entrou numa fila
pequena (as filas indicavam a
idade da puta: quanto menor a
fila mais velha a
puta)
e resolveu a
parada, saiu audaz e
sorridente: “bem, o que é que vocês
estão esperando?”

o outro cara, Jack, ele me passou
a garrafa de tequila e eu dei um
gole e passei de volta e ele
deu um gole.
Lance olhou para nós: “vou esperar
no carro, tirar minha soneca
reparadora”.

Jack e eu esperamos até ele
sumir
e aí começamos a andar na direção da
saída.
Jack estava usando um grande
sombreiro
e bem na saída havia uma
puta velha sentada numa
cadeira.
ela esticou a perna
barrando nosso
caminho: “ora, meninos, dou
gostoso pra vocês e
barato!”

de algum modo aquilo deixou
Jack cagado de medo e ele
disse “meu deus, eu vou
VOMITAR!”

“NÃO NO PISO!”, gritou
a puta
e sob tal aviso
Jack arrancou seu
sombreiro
e o segurando
diante de si
deve ter vomitado um
galão.

aí ele só ficou ali parado
olhando
aquilo nas mãos
e a puta
disse “fora
daqui!”

Jack correu porta afora com
seu sombreiro
e aí a puta
olhou para mim com um rosto muito
bondoso e disse:
“barato!” e eu entrei
num quarto com ela
e havia um homem gordo e grandalhão
sentado numa cadeira e
perguntei a ela “quem
é esse aí?”
e ela disse “ele está aqui pra
garantir que ninguém me
machuque”.

e eu fui até o
homem e disse “ei, como cê
tá?”

e ele disse “bem,
señor...”

e eu disse
“você mora por
aqui?”

e ele disse “dê
o dinheiro pra
ela”.

“quanto?”

“dois dólares.”

dei os dois dólares
à dama
então voltei até o
homem.

“pode ser que eu venha viver
no México um dia”, eu
disse a ele.

“dá o fora
daqui”, ele disse,
“AGORA!”

quando passei pela
saída
Jack ainda estava ali esperando
sem seu
sombreiro
mas ele ainda estava
cambaleando
de bêbado.

“meu Jesus”, eu disse, “ela foi
ótima, ela sem brincadeira botou minhas
bolas na
boca!”

nós fomos andando até o carro.
Lance estava desmaiado, nós
o acordamos e ele nos
levou
dali

de algum modo
nós passamos pela
fronteira
e rodamos todo
o caminho de volta para
L.A.

debochamos de Jack por ele ser um
virgem
cagão.
Lance debochou com
delicadeza
mas eu esbravejava
humilhando Jack por sua falta de
fibra
e não me calei
até Jack desmaiar
perto de
San Clemente.

fiquei ali ao lado de Lance
passando e repassando
a última garrafa de
tequila.

enquanto Los Angeles voava na nossa
direção
Jack perguntou “como é que
foi?”
e eu respondi
num tom de
conhecedor: “já peguei
melhores”.
1 881
Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Passada

Norman e eu, ambos aos 19, passeando pelas ruas da
noite... nos sentindo grandes, jovens jovens, grandes e
jovens

Norman disse “Deus do céu, aposto que ninguém
caminha com passadas gigantes que nem a gente!”

1939
depois de ter ouvido
Stravinsky

não muito
depois,
a guerra pegou
Norman.

agora estou sentado aqui
46 anos depois
no segundo andar de uma quente
uma da manhã

bêbado

ainda grande
não
tão jovem.

Norman, você jamais
adivinharia
o que
aconteceu
comigo
o que
aconteceu
com todos
nós.
eu lembro o seu
ditado: “construa ou
destrua”.

não aconteceu e não
acontecerá
nem uma coisa nem outra.
1 082
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Falecimento de Um Grande Homem

ele era o único escritor vivo que conheci e verdadeiramente
admirava e ele estava morrendo quando o
conheci.
(neste esporte somos retraídos nos louvores até mesmo para com
quem o pratica muito bem, mas nunca tive esse
problema com J.F.)
eu o visitei diversas vezes no
hospital (nunca havia ninguém por
perto) e ao entrar no quarto
eu nunca tinha certeza se ele estava adormecido
ou?

“John?”

ele estava estirado ali na cama, cego
e amputado:
diabetes
avançada.

“John, é o
Hank...”

ele respondia e aí nós conversávamos por
um breve tempo (quase sempre ele falava e eu
ouvia: afinal, ele era o nosso mentor, nosso
deus):

Pergunte ao pó
Espere a primavera, Bandini
Dago Red

todos os outros.
ir parar em Hollywood escrevendo
roteiros de cinema
foi isso que o
matou.

“a pior coisa”, ele me disse,
“é a amargura, as pessoas acabam tão
amargas.”

ele não estava amargo, embora tivesse
total direito de
estar...

no enterro eu
encontrei vários de seus coleguinhas
roteiristas.

“que tal a gente escrever algo sobre
o John”, um deles
sugeriu.

“acho que não consigo”, eu
disse a eles.

e, claro, eles nunca
escreveram.
1 033
Manuel de Freitas

Manuel de Freitas

ZULMIRA, AO AMANHECER

No urinol público lia-se UTILIZAÇÃO GRATUITA.
Fiquei quase feliz (quantas coisas gratuitas
há neste mundozinho de horror?).
Mas o que desta manhã eu mais agradeço, Zulmira,
é a tua sopa, essa que tantas vezes
me salvou a vida, entre centenas de superbocks.

Não me inquietam os chulos, os assassinos
ou estes mendigos calados. Ilustríssima gente,
de uma má-raça inegável. Prefiro perder
com eles os meus dias, e falar da fome, dos joanetes
ou do preço do azeite. Não tenho tempo
para aprofundar desrazões, nem para conviver com puetas.

Sei apenas que as poucas pessoas que amei
estavam por detrás de um balcão
onde o álcool ardia, muito devagar.
Os meus pobres anjos.
Também por isso gostava de te obrigar a esta taberna,
exílio cantante de todas as minhas antigas manhãs.

Por esta mãe desolada, pelo rumor sombrio
do vinho que nunca azedou nos meus lábios,
por certas inábeis palavras que sobre os barris
faleceram e te pertenciam somente.

Mas “até logo, Zulmira”, bem sabes que do amor
ou do futebol nada poderei jamais dizer
ou sentir. Entre os teus braços largos deponho
em silêncio aquela negra noite do meu mal.
Por uma sopa encorpada, sobre destroços
imperecíveis, bocados de morte partidos.
938
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Maus Momentos No Hotel da 3Rd Com a Vermont

Alabam era um ladrão sorrateiro e ele entrou no meu
quarto quando eu estava bêbado e
toda vez que eu me levantava ele me derrubava
de novo.

seu babaca, eu disse, você sabe que apanha
de mim!

ele apenas me derrubou
outra vez.

quando ficar sóbrio, falei, vou espalhar os teus dentes
daqui até o inferno!

ele só seguiu me empurrando
pra lá e pra cá.

finalmente acertei um em cheio, bem na
têmpora
e ele recuou e
saiu.

foi uns dias depois
que eu me vinguei: comi a namorada
dele.

então desci e bati na porta
dele.

bem, Alabam, comi a tua mulher e agora vou
espalhar os teus dentes daqui até o
inferno!

o pobre coitado começou a chorar, cobriu o rosto com as
mãos e apenas chorou

fiquei ali parado observando
o cara.

e falei, me desculpa,
Alabam.

então o deixei lá, voltei ao
meu quarto.

éramos todos bebuns e nenhum de nós tinha emprego, tudo que tínhamos
era um ao outro.

naquele momento a minha assim chamada mulher estava em algum bar ou
sei lá onde, eu não a via fazia uns
dias.

ainda me restava uma garrafa de
porto.

saquei a rolha e levei o porto até o quarto do
Alabam.

falei, que tal um trago,
Rebelde?

ele levantou a cabeça, ficou de pé, bebeu duas
taças.
1 118
José Manuel Capêlo

José Manuel Capêlo

NO CUME DA GUARDUNHA

para o Peado Loução
 
Viver é criar. Subir é ver.
Eu que não criei montanhas, nem aves, nem espaços
vejo-me criá-los ao erguer os braços no ponto mais alto da serra
na Senhora da Penha, em pleno maciço da Guardunha
como Godofredo, o conquistador do Templo, o fez
— quando a cidade sagrada lhe foi entregue
depois de acometida, tomada e saqueada—
brandidas as audácias e a loucura da posse.
Deixando o caminho mais largo, com os meus amigos, começo  a  subida

do morro firme e vário, como que escondido pela serra maior,
por entre caminhos antigos e pedras de leitura
que nos descobrem os vestígios dos passos, do arquitecto lúcido
que por ali andara há alguns séculos e escolhera aquela região .
para deixar nome em rio, terras, ameias e memórias.

 Sinto-me na terra, que é bela e estranha
— gerida por uma força que não se vê, mas sente —
a cada palmo de rocha trepada. Subo para ver
a íngreme escadaria de pedra, própria de deuses
com sinais deles, até ao cume.
Recuperado o fôlego perdido, preso à grande pedra em que me firmo
ergo os braços de punhos cerrados e grito como o vento:
— Sou o senhor do mundo!... O senhor do mundo!...
624
António Ferreira

António Ferreira

Carta

Fez força ao meu intento a doce e branda
Musa tua, Bernardes, que a meu peito
Dá novo espírito, novo fogo manda.

Como um juízo queres que sujeito
Viva a tantos juízos, se não guarda
De tanto riso o rosto contrafeito?

Quanto em mi mais das musas o fogo arde,
Tanto trabalho mais para apagá-lo:
Quanto o silêncio val sabe-se tarde.

A medo vivo, a medo escrevo e falo;
Hei medo do que falo só comigo;
Mais inda a medo cuido, a medo calo.

Encontro a cada passo com um inimigo
De todo bom espírito: este me faz
Temer-me de mi mesmo, e do amigo.

Tais novidades este tempo traz,
Que é necessário fingir pouco siso,
Se queres vida ter, se queres paz.

Vida em tanta cautela, tanto aviso,
Quando me deixarás? quando verei
Um verdadeiro rosto, um simples riso?

Quando a mi me creram, todos crerei
Sem dúvida, sem cores, sem enganos,
E eu, que de mi mesmo seja reis

Ali tantos dias tristes, tantos anos
Levados pelos ares em desejos
De falsos bens, e nossos tristes danos!

A quem os deixa e foge, quão sobejos
Lhe parecem mais bens que os que só bastam,
Desviar da virtude os cegos pejos.

Quantos as vidas, quantos almas gastam
Em buscar seu perigo, e sua morte,
E trás ela seus jugos cruéis arrastam

Aqueles vivem só, a que coube em sorte
Ao som da flauta, que dos ombros pende,
O mundo desprezar com espírito forte.

Toda minhalma em desejar se estende
A doce vida, que tão doce cantas,
Que quase a força quebra, que me prende.

Mas ajunta a estas forças outras tantas,
Todas quebraria eu, se asas tivesse
Com que chegasse onde me tu levantas.

Se eu pudesse, Bernardes, se eu pudesse
Ser senhor só de mi, eu voaria
Onde do vulgo mais longe estivesse.

Ali quão livremente me riria
De quanto agora choro! ali meu canto
Livre por ares livres soltaria.

Enquanto me vês preso, amigo, enquanto
Sem espírito, sem forças, não me chames
Com teus versos, que a ti só honram tanto.

Por mais que me desejes, mais que me ames,
Não empregues em mi tão cegamente
Teu canto com que é bem que heróis afames.

Mas tratarei contigo amigamente
Do conselho que pedes, juízo e lima
Tem em si todo humilde e diligente.

Quem tanto a si mesmo ama, tanto amima,
Que a si se favorece, e se perdoa,
Que espírito mostrará em prosa ou rima?

Tais são alguns a que triste a hera coroa
Roubada do vão povo ao claro espírito
Que esconder-se trabalha, e então mais soa.

Aquele dá de si público grito:
Este cala e se esconde: o tempo enfim
Uma apaga; imortal faz doutro o escrito.

A primeira lei minha é, que de mim
Primeiro me guarde eu, e a mim não creia,
Nem os que levemente se me rim.

Conheça-me a mi mesmo: siga a veia
Natural, não forçada: o juízo quero
De quem com juízo, e sem paixão me leia.

Na boa imitação e uso, que o fero
Engenho abranda, ao inculto dá arte,
No conselho do amigo douto espero.

Muito, ó poeta! o engenho pode dar-te;
Mas muito mais que o engenho, o tempo e o estudo;
Não queiras de ti logo contentar-te.

É necessário ser um tempo mudo:
Ouvir e ler somente: que aproveita
Sem armas, com fervor, cometer tudo?

Caminha por aqui. Esta é a direita
Estrada dos que sobem ó alto monte
Ao brando Apolo, às nove irmãs aceita.

Do bom escrever, saber primeiro é fonte:
Enriquece a memória de doutrina
De que um cante, outro ensine, outro se conte.

Isto me disse sempre uma divina
Voz à orelha; isto entendo e creio;
Isto ora me castiga, ora me ensina.

Cada um para seu fim, busca um meio:
Quem não sabe do ofício, não o trata;
Dos que sem saber escrevem o mundo é cheio.

Se ornares de fino ouro e branca prata
Quanto mais e melhor já resplandece,
Tanto mais val o engenho, sua arte se ata.

Não prende logo a planta, não florece
Sem ser da destra mão limpa e regada,
Co tempo e arte flor fruto parece.

Questão já foi de muitos disputada
Se obra em verso arte mais, se a natureza?
Uma sem outra val ou pouco ou nada.

Mas eu tomaria antes a dureza
Daquele que o trabalho e arte abrandou,
Que destoutro a corrente e vã presteza.

Vence o trabalho tudo; o que cansou
Seu espírito e seus olhos, alguma hora
Mostrará parte alguma do que achou.

A palavra que sai uma vez fora,
Mal se sabe tornar: é mais seguro
Não tê-la, que escusar a culpa agora.

Vejo teu verso brando, estilo puro,
Engenho, arte, doutrina: só queria
Tempo e lima de inveja forte muro.

Ensina muito, e muda um ano e um dia:
Como em pintura os erros vai mostrando
Depois o tempo, que o olho antes não via.

Corta o sobejo, vai acrescentando
O que falta, o baixo ergue, o alto modera,
Tudo a uma igual regra conformando.

Sirva própria palavra ao bom intento;
Haja juízo e regra e diferença
Da prática comum ó pensamento.

Dana ó estilo às vezes a sentença;
Tão igual venha tudo, e tão conforme,
Que em dúvida este ver qual deles vença.

Mas deligente assim a lima reforme
Teu verso, que não entre pelo são,
Tornando-o, em vez de orná-lo, então disforme.

O vício que se dá ó pintor, que a mão
Não sabe erguer da tábua, fuge: a graça
Tiram, quando alguns cuidam que a mais dão.

Roendo o triste verso, como traça
Sem sangue o deixam, sem espírito e vida:
Outro o parto sem forma traz à praça.

Há nas coisas um fim, há tal medida,
Que quanto passa, ou falta dela, é vício:
É necessária a emenda bem regida.

Necessário é, confesso, o artifício,
Não afeitado: empece a tenra planta
O muito mimo, o muito benefício.

Às vezes o que vem primeiro, tanta
Natural graça traz, que uma das nove
Deusas parece que o inspira e canta.

Qual é a língua cruel, que inda ouse e prove
Em vão ali seus fios? deixe inteiro
O bem-nascido verso, o mau renove?

Não mude, ou tire, ou ponha, sem primeiro
Vir os ouvidos do prudente esperto
Amigo, não invejoso ou lisonjeiro.

Engana-se o amor-próprio, falso e incerto
Também se engana o medo de aprazer-se;
Em ambos erro há quase igual e certo.

Para isto é bom remédio às vezes ler-se
A dois ou três amigos; o bom pejo
Honesto ajuda então melhor a ver-se.

Ali como juiz então me vejo:
Sinto quando igual vou, quando descaio,
Quando doutra maneira me desejo.

Quando eu meus versos lia ao meu Sampaio,
"Muda (dizia) e tira". Ia, e tornava:
"Inda (diz) na sentença bem não caio".

O que mais suavemente me soava,
O que me enchia o espírito, por mau tinha;
O que me desprazia me louvava.

Então conheci eu a dita minha
Em tal amigo, tão desenganado
juízo e certo, em que eu confiado vinha.

Quem dos olhos tantos lido, quem julgado
De tanto inimigo às vezes há de ser,
Convém tempo esperar, e ir bem armado.

Isto me faz, Bernardes meu, temer
No teu, como no meu: não val escusa;
Dói muito ver meu erro, e arrepender.

Quem louva o bom? quem bom e mau não escusa?
Mas tu não tens razão de temer muito,

1 872
Fernando José dos Santos Oliveira

Fernando José dos Santos Oliveira

Sou alguém comum

Sou alguém comum

Sou alguém comum, que a multidão de homens comuns esconde.
(ainda que charmoso não admitir).
Algumas vezes fui maior, menor, mais alto, mais baixo, mais feio, mais bonito.
Sou tão incomum quanto qualquer homem comum.
Algumas vezes nadei, outras, em corredeiras me arrebentei.
Já morri muitas mortes e em todas renasci;
Nem sempre certo, nem sempre errado,
às vezes sequer diferente.
Já desisti de viver muitos sonhos; jamais de sonhá-los.
Quando definirem amor, talvez eu diga que já amei,
ou que fui amado.
Não sei.
Mas, por Deus, eu sempre tentei.
Não sei se sei quem sou, ou mesmo se quero sabê-lo:
o que me encanta é a jornada.
Sou alguém que busca, e não sabe se quer encontrar.
Já senti saudades doloridas de mim,
Já me escondi, apavorado.
Já menti, já matei, já fiz chorar, já magoei, já pisei;
Mas eu me lembro de quando lutei verdades,
de vidas que dei,
de lágrimas que sequei,
das mágoas que tomei a mim,
e vejo marcas de pés no meu corpo, também.
Já chorei de dor,
ou por uma flor.
Já dei porradas e recebi outras tantas, dolorosas - e sobrevivi.
Já sorri sorrisos de todas as cores;
Já dei e me esquivei de muitos abraços;
Já beijei e fui beijado, de muitas formas:
dos falsos aos essenciais.
Já transei, já "trepei", já "comi";
e talvez um dia (sonho meu) eu venha a fazer amor.
Já tive amigos (e ainda os tenho, todos, mesmo que não se lembrem).
Tenho o corpo de quem abraça, mas também quero ser abraçado.
Já tive medo da morte, e já a desejei, e já a venci.
Já tive medo da vida, e já a desejei, e já a vivi
Sou alguém que caminha pela estrada,
às vezes de mãos dadas com a alegria;
outras, abraçado pela tristeza.
Tenho os pés no chão mas não me furto o prazer de voar.
Tenho os olhos tristes (já o disseram) mas consigo, aqui e ali, sorrir
- mesmo que para esconder.
Tenho estado num lugar ou noutro, nas horas certas e nas erradas.
Tenho sido vários e espero jamais ter que escolher um.
Tenho sido um pouco disso, daquilo e talvez mais,
e talvez menos.
Nada de mais, não!
Saio por aí, voando ou me arrastando, e sempre volto para aqui:
Sou alguém comum, que a multidão de homens comuns esconde.

982
Adélia Prado

Adélia Prado

Em Português

Aranha, cortiça, pérola
e mais quatro que não falo
são palavras perfeitas.
Morrer é inexcedível.
Deus não tem peso algum.
Borboleta é atelobrob,
um sabão no tacho fervendo.
Tomara estas estranhezas
sejam psicologismos,
corruptelas devidas
ao pecado original.
Palavras, quero-as antes como coisas.
Minha cabeça se cansa
neste discurso infeliz.
Jonathan me falou:
‘Já tomou seu iogurte?’
Que doçura cobriu-me, que conforto!
As línguas são imperfeitas
pra que os poemas existam
e eu pergunte donde vêm
os insetos alados e este afeto,
seu braço roçando o meu.
1 182
Charles Bukowski

Charles Bukowski

2 Vistas

meu amigo diz, como é que você pode escrever tantos poemas
daí desta janela? eu escrevo, do útero,
ele me diz. a coisa escura da dor,
a ponta da pena da dor.
bom, isso impressiona muito
mas acontece que eu sei que nós dois recebemos uma boa quantidade de
cartas de recusa, fumamos uma boa quantidade de cigarros,
bebemos demais e tentamos roubar as mulheres
um do outro, o que não é poesia de jeito nenhum.
e ele me lê seus poemas
ele sempre me lê seus poemas
e eu ouço e não digo muita coisa,
olho pela janela,
e lá está a mesma rua
minha rua,
minha rua bêbada, ensolarada, enchuvarada, da
criançada,
e à noite olho para esta rua
às vezes
quando ela pensa que não a estou olhando,
os 1 ou 2 carros movendo-se silenciosamente,
o mesmo velho, ainda vivo, em sua
caminhada noturna,
as cortinas das casas cerradas,
o amor falhou mas
se aguenta
então vamos em frente.
mas agora é dia claro e as crianças
que algum dia serão homens velhos e mulheres velhas
caminhando através de seus últimos momentos,
essas crianças correm ao redor de um carro vermelho
gritando qualquer bobagem,
então meu amigo pousa seu poema.
bem, o que você acha?, ele pergunta.
tente assim e assim, eu cito uma revista
e então estranhamente
penso em guitarras sob o mar
tentando tocar música;
isso é triste e bom e quieto.
ele me vê parado à janela.
o que há lá fora?
olhe, eu digo,
e veja...
ele é 11 anos mais novo que eu.
ele se afasta da janela. eu preciso de uma cerveja,
não tenho mais cerveja.
caminho até a geladeira
e o assunto está encerrado.
1 132
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Adolf

tenho um amigo que tem um
álbum de recortes dedicado a Hitler
e seus companheiros nazistas
e as paredes estão
cobertas de velhos
instantâneos de Al Capone
Fatty Arbuckle
Roy Rogers e
muitos muitos outros.
as paredes estão tortas de cola apodrecendo
e memórias, e há
interruptores escondidos que disparam
um frenesi de luzes
coloridas -
cada padrão diferente, nunca
o mesmo -
e descendo até seu porão há toneladas de
papéis inchados pela chuva
e comidos pelos
ratos: é muito
escuro lá embaixo
e há muitas pinturas meio inacabadas com
um olho que o encara
do assoalho.
saímos e
subimos por uma
escada sifilítica e voltamos
à cozinha onde
uma cabeça de porco está nadando
em uma panela branca
muito grande junto com
cebolas
cenouras
batatas,
uma cebola pequena flutuando em um
olho vazio,
e aí está a
filha dele
com a altura de 65 centímetros
que se lembra de mim
do outro
dia.
ela nos diz algumas coisas genuinamente
divertidas
depois se retira para
um quarto de dormir
no andar de cima
enquanto seu pai e eu ficamos por lá
ouvindo antigas canções
alemãs de marchas
e fumando
Picayunes.
642
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Neblina

pior neblina
que já vi
estava voltando de carro da
praia
com meu chapa Desmond
quando
ela
chegou
era tão grossa
que dava
para cortá-la com
a proverbial
faca.
e nós estávamos um bocado
bêbados.
não podíamos sair
fora da estrada porque tínhamos
medo de
bater nos carros já estacionados
no
acostamento
mas paramos por
um momento e
Desmond subiu
no capô
e se ajoelhou nele
e disse, "está bem,
vamos, vou
guiar você!"
e eu arranquei
e
Desmond berrava,
"MERDA! NÃO CONSIGO
VER NADA!"
e ele começou
a rire eu
comecei a rir.
eu mal podia
ver sua bunda
enfiada lá
no capô
e então ele
disse
de novo: "MERDA!
NÃO CONSIGO
VER NADA!"
e nós dois começamos
a rir cada vez
mais
uma risada que
não conseguíamos parar
toda aquela neblina
ao nosso redor
enquanto
seguíamos
só continuávamos
a dirigir e
a rir
passamos por
cruzamento após
cruzamento
frequentemente ouvindo
motores e buzinas
mas sem ver
nada
até que em um
cruzamento a
neblina se desfez
um pouco
consegui entrever
um posto de gasolina
uma lanchonete
e havia uma
luz verde
e
Desmond estava
ausente
saí fora
e estacionei no
posto de gasolina e
esperei
e lá veio
Desmond a pé
através da
neblina
berrei e
acenei e ele me
viu
correu até o carro
e entrou
dirigimos para
L.A.
uma semana mais tarde
ele foi para
Hlinois para ver
a mulher com a qual
havia
rompido
e eu
nunca mais
o vi.
1 053
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Suicídio

eu havia recentemente enterrado uma mulher com a qual vivi
por três anos
estava entre empregos
meus dentes apodrecendo na minha boca
(liquidei a dor com aspirina e
cerveja)
eu estava sentado no sofá quebrado
olhando o entardecer transformar-se em noite
quando o telefone tocou.
era Morrie.
"sim, Morrie?"
"ouça, Mark está aqui. ele diz que tem que
vê-lo! ele diz que vai cometer
suicídio!"
"ponha-o na linha..."
"não, ele não pode falar, ele
pirou!"
pisei em uma barata que passava.
"passe-me seu pai", eu lhe disse.
Bernie pegou o fone.
"escute, Bernie", eu disse, "que besteira
é essa sobre Mark?"
"é verdade! ele disse que se você não
vier já para cá ele vai se matar!
ele precisa de ajuda, Hank!"
"você acha que ele realmente vai
fazer isso?"
"eu não brincaria com uma coisa
dessas!"
"é longe até San Bernardino."
"são apenas 50 milhas! você pode fazer
em 45 minutos."
"tudo certo, Bernie..."
terminei minha cerveja, andei até meu
carro velho de 12 anos.
deu partida e peguei a
autoestrada.
foi uma viagem longa, sombria e estúpida.
Mark era uma dessas pessoas que
sempre insistiam que nossa amizade
era de verdade
pouco importando quanto esforço eu
fizesse para
ficar longe dele.
eu finalmente parei na frente da
casa.
desci do carro, bati na porta.
Morrie atendeu à porta.
ele tinha um tique na cabeça.
quando algo o aborrecia sua
cabeça começava a pular.
ela estava pulando por toda a
entrada da casa.
"Mark tem estado conosco",
ele disse, "pelas últimas duas
semanas."
entrei.
Mark estava sentado no sofá
segurando uma cerveja.
sorriu para mim.
estava usando o velho roupão
de Bernie.
não aparentava
estar
contemplando
suicídio.
"onde está seu pai?", perguntei
a Morrie.
"foi dormir. foi para a
cama. ele não está
passando bem."
"são apenas 7: 30."
"ele não está passando bem."
eu me sentei. havia um fogo aceso
na lareira.
"que tal uma cerveja?", Morrie perguntou,
sua cabeça pulando.
"com certeza. cadê sua mãe?"
"ela não está em casa."
Mark pigarreou. então, em sua
voz calma, começou a falar sobre a
escrita dele: agora estava fixado em serial killers. ele
havia escrito um romance. tinha uma
agente. fora vê-la naquela
tarde. ela tinha uma piscina.
haviam nadado juntos na piscina. ela
era um pedação de mulher com grandes conexões.
entendia que sua escrita era excepcional.
ela ia assumir sua carreira e
torná-lo famoso e...
desliguei enquanto ele seguia em frente e seguia em frente.
ele estava usando um lenço de seda ao redor de seu pescoço
gordo.
terminei minha cerveja e Morrie levantou-se de um pulo,
a cabeça saltitando, e me deu outra.
então ouvi de novo a voz de Mark. "sua
escrita me lembra muito a
minha!"
Morrie me deu a cerveja. tomei um bom
gole e olhei a lareira. um
pedaço de madeira estalou naquele momento, uma
fagulha vermelha se soltou, subiu e caiu
para trás.
aquilo foi bonito. aquilo foi bonito e de algum modo
tranquilizador
"gostaria que você lesse um capítulo do meu
romance", Mark disse. "você tem aquela pasta
azul, Morrie?"
Morrie tinha. ele a pôs cuidadosamente em meu
colo.
eu a abri, fui para a primeira página
e comecei a ler...
Mark não sabia escrever, nunca soube.
eu continuei lendo, meus dentes começando a doer.
perguntei para Morrie,
"você tem algum uísque?"
Morrie foi buscar enquanto Mark permanecia sentado ereto
no roupão velho de Morrie, esperando
por minhas palavras de elogio.
eu acharia um jeito de deixá-lo pra lá facilmente
tomara que
sem mentir.
o uísque chegou e tomei um trago
segui na leitura
bebendo
olhando o fogo.
a cabeça de Morrie continuava a pular.
por que certos indivíduos nunca percebem o quanto
são chatos?
ou eles sabem e simplesmente não
ligam?
continuei a ler, desesperançada-
mente.
1 328
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Caixão da Criação

o talento para sofrer e suportar,
isso é nobreza, amigo.
o talento para sofrer e suportar
por uma ideia, um sentimento, um caminho,
isso é arte, meu amigo.
o talento para sofrer e suportar
quando o amor fracassa,
isso é o inferno, velho amigo.
nobreza, arte e inferno,
vamos falar um pouco de arte.
o destino é minha filha aleijada.
veja, é difícil,
eu contra eles,
com eles.
Kafka, deixe-me entrar!
Hemingway, cuidado!
Hegel, você é engraçado!
Cervantes, quer dizer que você escreveu aquele
romance com a idade de
80 anos?
grandes escritores são pessoas indecentes
eles vivem de modo injusto
guardando a melhor parte para o papel.
bons seres humanos salvam o mundo
para que desgraçados como eu possam continuar a criar arte,
a tornar-se imortais.
se você ler isto depois de eu estar morto há muito tempo
quer dizer que consegui.
assim, escritores do mundo
agora é a sua Vez
de abusar da sua mulher
e abusar de seus filhos
amem-se a si mesmos
vivam dos recursos dos outros
desgostem de toda arte criada antes e
durante seu tempo,
e desgostem ou até odeiem a humanidade
individualmente ou em massa.
desgraçados, mesmo se lerem isto
muito tempo depois de eu ter morrido
esqueçam-me. eu
provavelmente não era tão
bom assim.
855
Francisco Orban

Francisco Orban

1975

Éramos 33 poetas
apesar das falhas no céu
apesar dos talhos na carne
33 poetas
amontoados sob o silêncio
das tardes com gomos de chuva
por cima da morte
das baleias e do jasmim
dizendo que assim era o plano
que ninguem morreria
no Outono.
33 poetas
como Maria Cristina
que tinha cheiro de hortelã
e maresia
e bunda morena de porcelana
33 poetas
como Luiz Carlos
batalhando no sol de São Gonçalo
ferido nos inúmeros sobrados
que trazia em si e não sabia

33 poetas como tantos
esperando a polícia todo dia
fosse inverno, verão ou primavera.
Isso no tempo do "milagre"
quando eu ia correndo pro
ginásio
e o tempo estava estancado
não era como agora
Éramos como Edgar, caçador
de balões
heroi como todos nós
que sabia subir em jaqueira
e nunca pensou que iria
enlouquecer
33 poetas
como janda em Salvador
falando da guerrilha perdida
da adolescência perdida
de todas as coisas que não iam
mais da certo
apesar do mistério da Bahia
e da dialética das ruas
em plena terça-feira de
carnaval
no verão da anistia
Éramos 33 poetas
como o meu amigo Ernesto
que um dia chegou em casa
e estourou os miolos
com um 38 emprestado

33 poetas
como Odemir
que escreveu um poema assim:
"Marta, um homem não é um trombone"
como Gregório
voltando do exílio
falando dos canaviais
e das lutas pela vida e pela paz
numa avenida paulista
corrompida de carros
Éramos 33 poetas
apesar do tempo ser um animal
solto,
a máquina de quebrar encantação
que antes não quebrava nada
mas hoje me quebra os dentes
e a cartilagem do rosto.
Se desse pra fazer girar a máquina
escreveria um conto
entre plantas e algas de sol
ergueria nas paredes brilhantes
blocos de ventania sumidos
e beberia contigo
nas fontes, nas águas, nos vinhos
nas cidades sem tempo
nos horizontes abertos
com a pele chamuscada
de marítimas vertigens
e perigos.

Onde está Luiz
sumido em 1975?
ninguem sabe
ninguem responde
havia o cheiro de cilade
e sonho
como em São Paulo
sovrevoando
milharal de luzes
diamante aceso
na noite perdida
de 1975

-Anônimos membros do
degredo unânime-

Como em Santa Teresa
longe da Av. São João
do petróleo queimado
e das vidas queimadas
inutilmente
nas ruas escuras
nos planos nefastos
onde para sempre se baniram
a realidade e a ternura
Éramos 33 poetas
com planos na terra
com as almas brandas
e as noites soltas
mas não sabíamos
que o vendaval espalharia
os nossos versos
as vozes, as cópulas,

músicas sobrariam no ar
o tempo, uma rede blindada
faria apagar na memória
os tratados das noites mornas
como se isso fosse possível
e Edgar ainda não subisse
em Jaqueiras,
Ernesto ainda não tomasse
a sua cerveja gelada,
Cristina ainda com sua boca
de fada,
o tempo com sua malha
de máquinas
telha frágil, nó desatado
não viu sua face aguada
só viu seu lado concreto
que não vai pro mar
dá pro deserto
e assim se proclamou
súdito vitalício da
cidade
senhor da dor e da saudade
embora no calendário do tempo
eu não vejo o último verão
sinto os 33 poetas
com seus violões
velhos e gastos
tomarem de assalto
o dia.

1 080
Fabio Valor Caldas

Fabio Valor Caldas

Soneto a um Amigo

Só a amizade possui um poder singular assim,
E mesmo em um temporal envenenado,
Ou durante a queda em um abismo sem fim,
É confortante ter um braço forte ao seu lado.

Por mais que minhas palavras lhe pareçam distantes,
Ou minha virtude se torne ausente,
São nos momentos em que mais sofrer, no mais precioso instante,
Que sentirá o valor de ter uma mão que te acalente.

E o desconhecido nada mais é do que uma cumplicidade,
Que vigora tanto nas alegrias como na dor,
E respeita toda forma de se reagir ao desafio.

E afinal, basta querer com desejo, com anseio...
Aquele pote de ouro ao final do arco-íris
Está, muito mais do que imagina, ao alcance de sua mãos.

858
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

O essencial é ter o vento

O essencial é ter o vento.
Compra-o; compra-o depressa,
A qualquer preço.
Dá por ele um princípio, uma ideia,
Uma dúzia ou mesmo dúzia e meia
Dos teus melhores amigos, mas compra-o.
Outros, menos sagazes
E mais convencionais,
Te dirão que o preciso, o urgente,
É ser o jogador mais influente
Dum trust de petróleo ou de carvão.
Eu não:
O essencial é ter o vento.
E agora que o Outono se insinua
No cadáver das folhas
Que atapeta a rua
E o grande vento afina a voz
Para requiem do Verão,
A baixa é certa.
Compra-o; mas compra-o todo,
De modo
Que não fique sopro ou brisa
Nas mãos de um concorrente
Incompetente.

1 486
Gilberto Avelino

Gilberto Avelino

Diante do Mar

É janeiro. O claro
mês das marés
de sizígia.

Ontem,
a bolandeira circulou
a lua,

em sinal da proximidade
das chuvas.

Hoje,
sobre o mar,
as chuvas
vieram.
E os pescadores descansam
as quilhas.

— Os peixes
alumbram-se
com as águas doces.

Envolvem o mar
as escuras sombras
da noite.

Contudo,
em harmonias
o mar
tece os fios
de níveas rendas.

O farol
permanece atento,
indicando
os rumos.

E nós — amada
amiga,
nos enternecendo
ao som da onda,

da onda
alta,

com quem dividimos
a vigília.

1 030
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Minha Pedra Para José Gomes Ferreira

Prólogo

Se houvesse uma pedra
a que eu pudesse chamar pedra

Se não houvesse o cansaço
das pedras
que não são pedras
que são apenas cansaço sem nenhuma pedra

Se tivesse ao menos uma pedra
que faria da pedra?

Que farei desta mão
definitivamente sem a pedra?

Farei o que puder
com a palavra pedra
quer tenha a pedra ou não

E se eu tivesse a pedra
sem o saber
se a pedra pedra ou não
de qualquer modo
fosse essa pedra já
que há tanto tempo habita
a pedra que é desejo
da transparência viva?

A pedra que eu habito

A pedra que eu habito
é um arco
um arco de pedra

Podes chamar-lhe buraco

No buraco
está o arco
do buraco

Queria mais que uma pedra
queria outra pedra

Invento uma pedra
para esta pedra

Invento outro arco
e outro
e outro ainda

Não saio do buraco

Atiro uma pedra
para ser flecha

Mas será flecha?
E será de fogo?

Saio do buraco
vou ao teu encontro
com a minha pedra

É uma pedra mesmo?
Inventada ou não
inventada e não
é a minha pedra

e por isso dou-ta
com o calor da mão

O prodígio é simples
uma pedra apenas
um buraco
um insecto
de súbito foge

Agora é que é teu

Se te dou a pedra
logo a pedra existe

Logo a pedra é pedra

A pedra que encontrei
quando ta quis dar
quando te encontrei

Se uma pedra existe
todo o mundo existe

Se esta pedra é pedra
logo tu existes

Todo o mundo habita
no gesto da mão
que te dá a pedra

Toma então a pedra
meu irmão
1 047
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Até Onde Vós Estais

Ó presenças amigas, ó momento
em que alongo o braço e toco em cheio os rostos.
A minha língua abriu-se para dizer a face
do vento que percorre as vossas vidas.

Estou perante a noite mais profunda,
a delicada noite das raízes: vejo rostos
vejo os sinais e os suores das vossas vidas.

Atravesso árvores submersas, ruas obscuras,
poços de água verde, e vou convosco ter,
minhas faces lívidas, mãe, amigos, amores.

A terra que penetro é este chão de terra
com as raízes feridas, com os ferozes pulsos,
a vertente que desço é uma subida às vossas vidas.
1 007
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Que Nos Diz a Imagem? Diz-Nos o Que É E Não o Diz

O que nos diz a imagem? Diz-nos o que é e não o diz.
Porque não é uma palavra. Antes um silêncio,
uma ausência, um vazio.
O seu sentido é uma promessa de sentido
ou o silêncio do sentido que respira e transparece
Ausência na presença plena
Cintilação silenciosa e fixa de um olhar sem fim
Um olhar vazio de tudo — que vê e não vê
e só vê porque é cego.
Tudo nele é visão, mas a visão vê tudo.

Um signo que aponta a uma infinidade de sentidos
ou o sentido é infinito. Um sentido impossível.
Este é o aspecto incessante do signo,
o seu vazio e a sua vida,
todos os signos de um signo
de um incessante signo.

O olhar vazio é visão de um puro espaço
onde tudo é exterior e ao mesmo tempo íntimo
Todo o interior é nele o puro olhar do exterior
e a profundidade infinita do olhar silencioso.

Tudo o que ele vê a partir do puro espaço
o horizonte que está em si e à sua frente
e vem de dentro, do íntimo exterior,
e é todo ele olhar em si
a pura exterioridade de si mesmo
que ao abrir-se fecha-se e para dentro se abre.

Mas este olhar vazio
é ainda mais exterior do que qualquer olhar
porque reflecte à superfície todo o exterior
o puro exterior a partir do qual nos olha
e em si mesmo vê
numa esfera
em que a visão é presença fascinante
do que não vemos,
a ausência do que ela vê
— o tudo e o nada da visão,
a vacuidade do próprio acto de ver.

Ela olha… Não. Não olha. Vê.
Não vê. Olha.
Olha o vazio, o vazio do centro.
E ela vê.
Mas quando vê
deixa de ver: olha
apenas.
Porque a visão suspende-se
ante o vazio do centro.

Ela não pode ver-nos. Ela olha-nos.
Olhemo-la.
Olhemos os seus olhos, o seu olhar.
Não vemos, olhamos apenas.
Estes olhos não se vêem.
Como não se vê a luz vazia,
a luz do imo,
o fundo sem fundo do próprio fundo.

Mas podemos olhá-la
porque olhar é deixar-se fascinar
e o que olhamos é a fascinação do vazio
sem fundo algum.

Mas o seu rosto reflecte a harmonia
do seu fundo sem fundo com a superfície pura.
O seu rosto fala do silêncio
que é o silêncio da sua beleza.
E a discreta plenitude deste rosto
revela-nos
que o puro espaço inacessível
é também a pura presença da terra,
a misteriosa transparência de cada ser,
a plenitude de uma semelhança.

Este rosto reconhece-nos
porque é a própria semelhança.
Esta semelhança reúne-nos,
reconcilia-nos connosco
é o nosso coração reencontrado.

Este rosto aceita-nos no seu silêncio
na sua distância próxima.
É um sorriso de uma serena plenitude,
um sorriso de aceitação e amor,
uma amizade no mistério do ser.

Este rosto atrai-nos para uma distância
uma longínqua proximidade
ponderação da nossa transparência
porque nela nós estamos presentes
através de uma contemplação
que recusa olhar o que não deve ser visto
que atravessa o visível para ver.

Ela vê o que se oculta no visível,
o único, o ser,
o centro onde não estamos
mas que talvez em nós amadureça
que o seu olhar faz amadurecer.

Não a vemos. Olhamo-la.
E é todo o seu corpo que nos olha
que não cessa de nos olhar.
Vemos o seu corpo.
Mas é antes o seu corpo que nos olha.

O seu corpo é palavra e silêncio da palavra.

A palavra-silêncio do seu corpo
entra no íntimo de nós
onde recolhe o sonho de viver
que só pode revelar-se numa infinita
contemplação
que não pode deter-se em nenhum sentido
porque é o incessante, o interminável sim do amor.
557
Castro Alves

Castro Alves

Quando eu Morrer

Eu morro, eu morro. A matutina brisa
Já não me arranca um riso. A rósea tarde
Já não me doura as descoradas faces
Que gélidas se encovam.
JUNQUEIRA FREIRE


Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.

Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil de messalina,
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro o boca libertina.

Ei-la a nau do sepulcro — o cemitério...
Que povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as plagas sem fim do outro mundo.

Tem os fogos — errantes — por santelmo.
Tem por velame — os panos do sudário...
Por mastro — o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas — o mocho funerário...

Ali ninguém se firma a um braço amigo
Do inverno pelas lúgubres noitadas...
No tombadilho indiferentes chocam-se
E nas trevas esbarram-se as ossadas...

Como deve custar ao pobre morto
Ver as plagas da vida além perdidas,
Sem ver o branco fumo de seus lares
Levantar-se por entre as avenidas!...

Oh! perguntai aos frios esqueletos
Por que não têm o coração no peito...
E um deles vos dirá "Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito."

Outro: "Dei-o a meu pai". Outro: "Esqueci-o
Nas inocentes mãos de meu filhinho"...
...Meus amigos! Notai... bem como um pássaro
O coração do morto volta ao ninho!...

São Paulo, março de 1869.


Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).

In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
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