Poemas neste tema
Amizade
Antonio Roberval Miketen
Octava Cantiga de Amigo
Junto a las olas del mar de Vigo,
vengo al recuerdo de un amigo.
Aves ponen plumas en el horizonte
y las plumas, aguas de una fuente,
en Vigo, en las algas del mar,
del amigo me traen el tardar.
De más allá del mar viene, leve por plumas,
el dolor que no quiero llorar.
Sin embargo, las gaviotas ponen brumas
en lo profundo de mi penar,
donde, a orillas del mar de Vigo,
vengo al recuerdo de un amigo.
vengo al recuerdo de un amigo.
Aves ponen plumas en el horizonte
y las plumas, aguas de una fuente,
en Vigo, en las algas del mar,
del amigo me traen el tardar.
De más allá del mar viene, leve por plumas,
el dolor que no quiero llorar.
Sin embargo, las gaviotas ponen brumas
en lo profundo de mi penar,
donde, a orillas del mar de Vigo,
vengo al recuerdo de un amigo.
836
Henriqueta Lisboa
Saudação a Drummond
Eu te saúdo Irmão Maior
pelo que tens sido e serás
dentro do tempo espaço afora
e além da vida: luminar
homem simples da terra
aprisionado no íntimo
para libertador de pássaros
e agenciador de símbolos.
Pela pedra no caminho
que foi ato de bravura
e foi cabo de tormentas.
Pelo brejo das almas
em verde com margaridas.
Pelo sentimento do mundo
com que orvalhas o linho
da comunhão geral.
Pelas fazendas do ar
em que brindas cultivos
de transcedentes dimensões.
Pelos claros enigmas
que decifras e que armas
em desdobrados ciclos.
Pela vida passada a limpo
em lâminas de cristal.
Pela rosa do povo
com que humanizas o asfalto.
Pela lição de coisas
que nos ensinas a aprender.
Pelo boitempo este sabor
de renascimento da infância.
Em nome de Mário de Andrade
— até as amendoeiras falam —
em nome de Manuel Bandeira
em nome de Emílio Moura
presentes embora silentes
no alto da Casa em outros
mais cômodos aposentos
de onde nos contemplam líricos
a nós abaixo no vestíbulo.
Saúdo-te mineiro Carlos
de olhos azuis como os da criança
guardada sempre mais a fundo
em candidez e malícia
ao largo de lavouras híspidas
ao longo de setenta outubros
vincados de diamante e ferro
sem nostalgia de crepúsculo.
Saúdo-te com sete rosas
em botão as mais puras
colhidas de madrugada
antes do sol em suas pétalas
por teu sétimo aniversário
outrora
de menino poeta.
Publicado no livro Miradouro e Outros Poemas (1976). Poema integrante da série Miradouro, 1968/1974.
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
pelo que tens sido e serás
dentro do tempo espaço afora
e além da vida: luminar
homem simples da terra
aprisionado no íntimo
para libertador de pássaros
e agenciador de símbolos.
Pela pedra no caminho
que foi ato de bravura
e foi cabo de tormentas.
Pelo brejo das almas
em verde com margaridas.
Pelo sentimento do mundo
com que orvalhas o linho
da comunhão geral.
Pelas fazendas do ar
em que brindas cultivos
de transcedentes dimensões.
Pelos claros enigmas
que decifras e que armas
em desdobrados ciclos.
Pela vida passada a limpo
em lâminas de cristal.
Pela rosa do povo
com que humanizas o asfalto.
Pela lição de coisas
que nos ensinas a aprender.
Pelo boitempo este sabor
de renascimento da infância.
Em nome de Mário de Andrade
— até as amendoeiras falam —
em nome de Manuel Bandeira
em nome de Emílio Moura
presentes embora silentes
no alto da Casa em outros
mais cômodos aposentos
de onde nos contemplam líricos
a nós abaixo no vestíbulo.
Saúdo-te mineiro Carlos
de olhos azuis como os da criança
guardada sempre mais a fundo
em candidez e malícia
ao largo de lavouras híspidas
ao longo de setenta outubros
vincados de diamante e ferro
sem nostalgia de crepúsculo.
Saúdo-te com sete rosas
em botão as mais puras
colhidas de madrugada
antes do sol em suas pétalas
por teu sétimo aniversário
outrora
de menino poeta.
Publicado no livro Miradouro e Outros Poemas (1976). Poema integrante da série Miradouro, 1968/1974.
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
1 914
Raniere Rodrigues dos Santos
Minha Morena
Tão sublime e doce me olhaste,
Com ternura enfeitiçaste-me.
Ó garota dos cabelos brilhosos,
E olhares negros
E com pele morena me cegaste.
Tua meiguice me fez ver
A pureza do teu ser
Que tão sincero expressou
Uma simples amizade
E decepcionou-me
enlarguecidamente.
Ó Cíntia querida quão perseverante
É o meu amor por ti
Chegando às alturas do pensamento
E o sentimento que tão frágil
Transborda em minha íntima emoção.
Feliz estou por ti,
Que prossegue uma vida amarga.
Triste e alegre, sem objetivo
Foste agarrada a um destino
Crítico e bonito.
Ó sofrimento que machuca,
Peço para que não me corroa,
O ciúme miserável,
És o defeito que menos desejo.
O alegria clamo por ti.
Ó Cíntia querida
Te quero mais que tudo.
O meu desejo que se mostra egoísta
Sente por ti
Ó bela morena como sinto em te amar.
Com ternura enfeitiçaste-me.
Ó garota dos cabelos brilhosos,
E olhares negros
E com pele morena me cegaste.
Tua meiguice me fez ver
A pureza do teu ser
Que tão sincero expressou
Uma simples amizade
E decepcionou-me
enlarguecidamente.
Ó Cíntia querida quão perseverante
É o meu amor por ti
Chegando às alturas do pensamento
E o sentimento que tão frágil
Transborda em minha íntima emoção.
Feliz estou por ti,
Que prossegue uma vida amarga.
Triste e alegre, sem objetivo
Foste agarrada a um destino
Crítico e bonito.
Ó sofrimento que machuca,
Peço para que não me corroa,
O ciúme miserável,
És o defeito que menos desejo.
O alegria clamo por ti.
Ó Cíntia querida
Te quero mais que tudo.
O meu desejo que se mostra egoísta
Sente por ti
Ó bela morena como sinto em te amar.
972
Gabriela Mistral
Todas íamos ser rainhas
Todas íamos ser rainhas
de quatro reinos sobre o mar:
Rosalia com Efigenia e
Lucila com Soledad
No vale de Elqui, rodeado
de cem montanhas ou de mais,
que como oferendas ou tributos
ardem em vermelho e açafrão
O dizíamos embriagadas
e o tivemos por verdade
que seriamos todas rainhas
e chegaríamos ao mar.
Com as tranças dos sete anos
e batas claras de percal
perseguindo pássaros foragidos
na sombra do figueiral.
Dos quatro reinos,
dizíamos, indubitável como o Korán,
que por grandes e por certos
alcançariam até o mar
Quatro esposos desposariam
no tempo de desposar
e eram reis e cantadores
como David, rei de Judá.
de quatro reinos sobre o mar:
Rosalia com Efigenia e
Lucila com Soledad
No vale de Elqui, rodeado
de cem montanhas ou de mais,
que como oferendas ou tributos
ardem em vermelho e açafrão
O dizíamos embriagadas
e o tivemos por verdade
que seriamos todas rainhas
e chegaríamos ao mar.
Com as tranças dos sete anos
e batas claras de percal
perseguindo pássaros foragidos
na sombra do figueiral.
Dos quatro reinos,
dizíamos, indubitável como o Korán,
que por grandes e por certos
alcançariam até o mar
Quatro esposos desposariam
no tempo de desposar
e eram reis e cantadores
como David, rei de Judá.
2 131
Rosani Abou Adal
Contemplação
Presa no meu dormitório
tento dividir a solidão com o peixe
cercado de paredes de vidro.
Cabisbaixo no fundo do aquário,
absorto, perplexo, faceiro,
companheiro me olha.
Quero tocá-lo e senti-lo
através da parede invisível.
Ele acompanha meus movimentos,
entende meus sinais.
Nada e nada e bóia na superfície
à espera de carinho.
Suavemente toco
suas escamas sedosas.
Ficamos horas a nos contemplar.
tento dividir a solidão com o peixe
cercado de paredes de vidro.
Cabisbaixo no fundo do aquário,
absorto, perplexo, faceiro,
companheiro me olha.
Quero tocá-lo e senti-lo
através da parede invisível.
Ele acompanha meus movimentos,
entende meus sinais.
Nada e nada e bóia na superfície
à espera de carinho.
Suavemente toco
suas escamas sedosas.
Ficamos horas a nos contemplar.
915
Antonio Roberval Miketen
Eight Song of Friendship
Close to the waves of the sea of Vigo
I come to remember a friend.
Birds shed feathers at the horizon
and the feathers, water from a spring
in Vigo, on the seaweeds
of the friend announce his delay.
From beyond comes, light as feathers,
the pain I do not want to lament.
But the svagulls fill with mist
the depth of my sorrow,
when, on the shores of the sea of Vigo
I come to remember a friend.
I come to remember a friend.
Birds shed feathers at the horizon
and the feathers, water from a spring
in Vigo, on the seaweeds
of the friend announce his delay.
From beyond comes, light as feathers,
the pain I do not want to lament.
But the svagulls fill with mist
the depth of my sorrow,
when, on the shores of the sea of Vigo
I come to remember a friend.
981
Cristina Lacerda
Tem uma outra cabeça
Tem uma outra cabeça
na minha cama
faz barulho de motor
às vezes ronrona
às vezes tem pesadelos
às vezes me estende a mão
tem uma outra cabeça
na minha cama
e me é às vezes desconhecida
tem barulho de gente
na minha cama
não é metade de mim
mas me acompanha
- e eu estou aqui
tem corpo conhecido
na minha cama
há séculos eu o escuto dormir
e isso
me emociona
na minha cama
faz barulho de motor
às vezes ronrona
às vezes tem pesadelos
às vezes me estende a mão
tem uma outra cabeça
na minha cama
e me é às vezes desconhecida
tem barulho de gente
na minha cama
não é metade de mim
mas me acompanha
- e eu estou aqui
tem corpo conhecido
na minha cama
há séculos eu o escuto dormir
e isso
me emociona
906
Antero Coelho Neto
Palavras a um Amigo Triste
Meu querido amigo triste,
eu nunca encontrei as palavras.
Digo, as palavras certas e verdadeiras,
porque as outras são ditas fáceis
e logo, sempre esquecidas.
Eu falo daquelas palavras amigas,
justamente significativas para o pranto
da dor maior quando sofrida.
Essas eu acho que não existem,
pois jamais puderam dizer-me.
eu nunca encontrei as palavras.
Digo, as palavras certas e verdadeiras,
porque as outras são ditas fáceis
e logo, sempre esquecidas.
Eu falo daquelas palavras amigas,
justamente significativas para o pranto
da dor maior quando sofrida.
Essas eu acho que não existem,
pois jamais puderam dizer-me.
1 374
Adailton Medeiros
Pré-texto para Cassiano Ricardo
amanhã o bom dia
na difícil manhã
chão romã
clã reipã
no reVerSo SIGno
EU mEU poemachão
poemapa poemassa
fada fica
riso rico
falo fala
sobre / vivEntes e
ternos amigos do
peito ó Jeremias
sem choro
nem velas
canto RICo ARDOr
sabiá-do-rosa-mente
na difícil manhã
chão romã
clã reipã
no reVerSo SIGno
EU mEU poemachão
poemapa poemassa
fada fica
riso rico
falo fala
sobre / vivEntes e
ternos amigos do
peito ó Jeremias
sem choro
nem velas
canto RICo ARDOr
sabiá-do-rosa-mente
949
Albano Dias Martins
Crepúsculo de Agosto
Para a minha filha
Dos amigos que perdi
não falo. Sei
que estamos em agosto, mês
dos remos escaldantes, sei
que há lodo sob as algas,
sob a pele. Oblíqua,
sei também, a sombra
cai sobre as oliveiras. É
tempo de içares
tuas velas, teus ergueres
teus guindastes
junto ao rio. Dis
poníveis estão
as luzes; preparadas,
ermas estão as águas.
Preciso de arrumar a casa, rever o sistema, brunir
os móveis e o tato.
Preciso de opor o tempo ao tempo.
O espaço ao espaço.
Dos amigos que perdi
não falo. Sei
que estamos em agosto, mês
dos remos escaldantes, sei
que há lodo sob as algas,
sob a pele. Oblíqua,
sei também, a sombra
cai sobre as oliveiras. É
tempo de içares
tuas velas, teus ergueres
teus guindastes
junto ao rio. Dis
poníveis estão
as luzes; preparadas,
ermas estão as águas.
Preciso de arrumar a casa, rever o sistema, brunir
os móveis e o tato.
Preciso de opor o tempo ao tempo.
O espaço ao espaço.
1 438
Gláucia Lemos
Sonetos das Mãos
(A um amigo)
Não há de ser da tua mão esguia
que me virão o lanho e a ferida.
Não há de ser a tua, a que esvazia
as emoções guardadas pouco a pouco.
Nem há de ser das tuas mãos em prece
que esperarei as bênçãos de uma vida.
Chega-se ao bem - se um dia se merece -
pelo amor que se deu sem buscar troco.
Se há quem quer para mim o gosto amargo
que não me venha da tua boca o trago
a envenenar a mais meus longos dias.
Que não venha, jamais, punhal daninho
da tua destra! Cuidarás que o espinho
não esteja ele em tuas mãos esguias!
08.07.96
Não há de ser da tua mão esguia
que me virão o lanho e a ferida.
Não há de ser a tua, a que esvazia
as emoções guardadas pouco a pouco.
Nem há de ser das tuas mãos em prece
que esperarei as bênçãos de uma vida.
Chega-se ao bem - se um dia se merece -
pelo amor que se deu sem buscar troco.
Se há quem quer para mim o gosto amargo
que não me venha da tua boca o trago
a envenenar a mais meus longos dias.
Que não venha, jamais, punhal daninho
da tua destra! Cuidarás que o espinho
não esteja ele em tuas mãos esguias!
08.07.96
1 046
Gláucia Lemos
Outrem
Há os que acendem luzes no teu rosto
e os que atiram flores nos teus braços.
Os que semeiam cardos nos teus passos
e há quem aposte a vida em teu desgosto.
Seja um sorriso o teu único laço.
Saiba Deus se ele expressa bem teu gosto.
Não há limites para o que for posto
pelo silêncio de quem tens nos braços.
Olha pra quem põe luzes no teu rosto...
Descobre quem aposta em teu desgosto...
Teu amigo pode ser teu mal maior.
Que te guardes de crer na humana fala.
Anjos e demos numa mesma igualha
repartem dor e riso a teu redor.
11.07.96
e os que atiram flores nos teus braços.
Os que semeiam cardos nos teus passos
e há quem aposte a vida em teu desgosto.
Seja um sorriso o teu único laço.
Saiba Deus se ele expressa bem teu gosto.
Não há limites para o que for posto
pelo silêncio de quem tens nos braços.
Olha pra quem põe luzes no teu rosto...
Descobre quem aposta em teu desgosto...
Teu amigo pode ser teu mal maior.
Que te guardes de crer na humana fala.
Anjos e demos numa mesma igualha
repartem dor e riso a teu redor.
11.07.96
1 195
Angela Santos
Esteio
Acalma-me
e dá sentido,
quando estendes tua mão e sinto
a firmeza dessa presença ao meu lado
sinto-me mais e sinto- te esteio
quando perdida no turbilhão das minhas dúvidas
e medos
abro-te o coração magoado e o tocas com dedos de renda
ou me puxas para realidade
com a palavra mais certa...
Eu sei então porque caminho ao teu lado
porque conto contigo,
saboreio a palavra amizade,
estendo-te a mão
e te chamo amiga!
e dá sentido,
quando estendes tua mão e sinto
a firmeza dessa presença ao meu lado
sinto-me mais e sinto- te esteio
quando perdida no turbilhão das minhas dúvidas
e medos
abro-te o coração magoado e o tocas com dedos de renda
ou me puxas para realidade
com a palavra mais certa...
Eu sei então porque caminho ao teu lado
porque conto contigo,
saboreio a palavra amizade,
estendo-te a mão
e te chamo amiga!
1 038
Antônio Girão Barroso
As Três Pessoas
Eram três pessoas distintas mas uma só, na verdade:
eu, o Floro e o Assis.
Três corpos numa lama só.
(O povo dizia que nós éramos
três amizades perfeitas
e meninos de futuro, sim senhor.)
Depois veio o tempo mau
o tempo que tudo leva
e levou o Floro pro céu.
O Assis ficou na terra.
Eu não sei onde fiquei.
eu, o Floro e o Assis.
Três corpos numa lama só.
(O povo dizia que nós éramos
três amizades perfeitas
e meninos de futuro, sim senhor.)
Depois veio o tempo mau
o tempo que tudo leva
e levou o Floro pro céu.
O Assis ficou na terra.
Eu não sei onde fiquei.
1 114
Daniel Faria
Como doem as árvores
Como doem as árvores
Quando vem a Primavera
E os amigos que ainda estão de pé
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
Quando vem a Primavera
E os amigos que ainda estão de pé
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
1 783
Jaumir Valença da Silveira
Cumplicidade
"Give me your hands,
if we be friends."
Se eu vos disser que o mar que agora encaro
me faz um bem supremo ou mal me ampara,
é vero que o seu sal, de gosto extremo,
talvez vos teça a fé que me declara
ser tão feliz que a morte a mim me esqueça
ou sofrimento é só com que deparo.
Mas neste mesmo mar, se eu ponho o vento
vagando pelas crispas das marolas,
haveis de crer que sinto ser mais brando
o que já imaginais das priscas horas;
o que antes era júbilo é só paz,
não passa de um queixume o tal lamento.
E se eu não venho a por escuro ou lume
na tela que o sentido me extravasa,
é que vos trago a forma mais singela
de respeitar o céu que vos abrasa:
deixando, pra tintura do papel
o vosso sentimento que nos une.
if we be friends."
Se eu vos disser que o mar que agora encaro
me faz um bem supremo ou mal me ampara,
é vero que o seu sal, de gosto extremo,
talvez vos teça a fé que me declara
ser tão feliz que a morte a mim me esqueça
ou sofrimento é só com que deparo.
Mas neste mesmo mar, se eu ponho o vento
vagando pelas crispas das marolas,
haveis de crer que sinto ser mais brando
o que já imaginais das priscas horas;
o que antes era júbilo é só paz,
não passa de um queixume o tal lamento.
E se eu não venho a por escuro ou lume
na tela que o sentido me extravasa,
é que vos trago a forma mais singela
de respeitar o céu que vos abrasa:
deixando, pra tintura do papel
o vosso sentimento que nos une.
852
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os Amigos
Voltar ali onde
A verde rebentação da vaga
A espuma o nevoeiro o horizonte a praia
Guardam intacta a impetuosa
Juventude antiga —
Mas como sem os amigos
Sem a partilha o abraço a comunhão
Respirar o cheiro a alga da maresia
E colher a estrela do mar em minha mão
1993
A verde rebentação da vaga
A espuma o nevoeiro o horizonte a praia
Guardam intacta a impetuosa
Juventude antiga —
Mas como sem os amigos
Sem a partilha o abraço a comunhão
Respirar o cheiro a alga da maresia
E colher a estrela do mar em minha mão
1993
4 882
Florbela Espanca
Roseira Brava
Há nos teus olhos de oiro um tal fulgor
E no teu riso tanta claridade,
Que o lembrar-me de ti é ter saudade
Duma roseira brava toda em flor.
Tuas mãos foram feitas para a dor,
Para os gestos de doçura e piedade;
E os teus beijos de sonho e de ansiedade
São como a alma a arder do próprio amor!
Nasci envolta em trajes de mendiga;
E, ao dares-me o teu amor de maravilha,
Deste-me o manto de oiro de rainha!
Tua irmã... teu amor... e tua amiga...
E também – toda em flor – a tua filha,
Minha roseira brava que é só minha!...
E no teu riso tanta claridade,
Que o lembrar-me de ti é ter saudade
Duma roseira brava toda em flor.
Tuas mãos foram feitas para a dor,
Para os gestos de doçura e piedade;
E os teus beijos de sonho e de ansiedade
São como a alma a arder do próprio amor!
Nasci envolta em trajes de mendiga;
E, ao dares-me o teu amor de maravilha,
Deste-me o manto de oiro de rainha!
Tua irmã... teu amor... e tua amiga...
E também – toda em flor – a tua filha,
Minha roseira brava que é só minha!...
3 045
Florbela Espanca
Para quê?
Ao velho amigo João
Para que ser o musgo do rochedo
Ou urze atormentada da montanha?
Se a arranca a ansiedade e o medo
E este enleio e esta angústia estranha
E todo este feitiço e este enredo
Do nosso próprio peito? E é tamanha
E tão profunda a gente que o segredo
Da vida como um grande mar nos banha?
Pra que ser asa quando a gente voa
De que serve ser cântico se entoa
Toda a canção de amor do Universo?
Para que ser altura e ansiedade,
Se se pode gritar uma Verdade
Ao mundo vão nas sílabas dum verso?
Para que ser o musgo do rochedo
Ou urze atormentada da montanha?
Se a arranca a ansiedade e o medo
E este enleio e esta angústia estranha
E todo este feitiço e este enredo
Do nosso próprio peito? E é tamanha
E tão profunda a gente que o segredo
Da vida como um grande mar nos banha?
Pra que ser asa quando a gente voa
De que serve ser cântico se entoa
Toda a canção de amor do Universo?
Para que ser altura e ansiedade,
Se se pode gritar uma Verdade
Ao mundo vão nas sílabas dum verso?
1 929
José de Paula Ramos Jr.
Aquiles
A minha morte escolho nesta hora,
ao pé do corpo frio que jaz inerte.
No campo de batalha, junto a Tróia,
não mais verei, entrando nessa tenda,
sentado no divã, tocando a lira,
o amigo que foi morto em meu lugar.
Tristes despojos, Pátroclo divino,
regressas sem a vida e sem o escudo,
teu cadáver saqueado à tenda torna,
pilhado da armadura que envergaste.
Heitor, que te deu fim, e agora empunha
as armas que brandiste bravamente,
ufano está do feito vitorioso.
Pois regozije enquanto a Moira escura
no gume de meu gládio não provar.
Bem sei que morrerei dessa vingança,
assim me foi predito pelos deuses;
mas nada vale a vida sem a cólera,
que me dará na morte eterna glória.
ao pé do corpo frio que jaz inerte.
No campo de batalha, junto a Tróia,
não mais verei, entrando nessa tenda,
sentado no divã, tocando a lira,
o amigo que foi morto em meu lugar.
Tristes despojos, Pátroclo divino,
regressas sem a vida e sem o escudo,
teu cadáver saqueado à tenda torna,
pilhado da armadura que envergaste.
Heitor, que te deu fim, e agora empunha
as armas que brandiste bravamente,
ufano está do feito vitorioso.
Pois regozije enquanto a Moira escura
no gume de meu gládio não provar.
Bem sei que morrerei dessa vingança,
assim me foi predito pelos deuses;
mas nada vale a vida sem a cólera,
que me dará na morte eterna glória.
1 694
António Jacinto
Vadiagem
Naquela hora já noite
quando o vento nos traz mistérios a desvendar
musseque em fora fui passear as loucuras
com os rapazes das ilhas:
Uma viola a tocar
o Chico a cantar
(que bem que canta o Chico!)
e a noite quebrada na luz das nossas vozes
Vieram também, vieram também
cheirando a flor de mato
- cheiro gravido de terra fértil -
as moças das ilhas
sangue moço aquecendo
a Bebiana, a Teresa, a Carminda, a Maria.
Uma viola a tocar
o Chico a cantar
a vida aquecida com o sol esquecido
a noite é caminho
caminho, caminho, tudo caminho serenamente negro
sangue fervendo
cheiro bom a flor de mato
a Maria a dançar
(que bem que dança remexendo as ancas!)
E eu a querer, a querer a Maria
e ela sem se dar
Vozes dolentes no ar
a esconder os punhos cerrados
alegria nas cordas da viola
alegria nas cordas da garganta
e os anseios libertados
das cordas de nos amordaçar
Lua morna a cantar com a gente
as estrelas se namorando sem romantismo
na praia da Boavista
o mar ronronante a nos incitar
Todos cantando certezas
a Maria a bailar se aproximando
sangue a pulsar
sangue a pulsar
mocidade correndo
a vida
peito com peito
beijos e beijos
as vozes cada vez mais bebadas de liberdade
a Maria se chegando
a Maria se entregando
Uma viola a tocar
e a noite quebrada na luz do nosso amor...
quando o vento nos traz mistérios a desvendar
musseque em fora fui passear as loucuras
com os rapazes das ilhas:
Uma viola a tocar
o Chico a cantar
(que bem que canta o Chico!)
e a noite quebrada na luz das nossas vozes
Vieram também, vieram também
cheirando a flor de mato
- cheiro gravido de terra fértil -
as moças das ilhas
sangue moço aquecendo
a Bebiana, a Teresa, a Carminda, a Maria.
Uma viola a tocar
o Chico a cantar
a vida aquecida com o sol esquecido
a noite é caminho
caminho, caminho, tudo caminho serenamente negro
sangue fervendo
cheiro bom a flor de mato
a Maria a dançar
(que bem que dança remexendo as ancas!)
E eu a querer, a querer a Maria
e ela sem se dar
Vozes dolentes no ar
a esconder os punhos cerrados
alegria nas cordas da viola
alegria nas cordas da garganta
e os anseios libertados
das cordas de nos amordaçar
Lua morna a cantar com a gente
as estrelas se namorando sem romantismo
na praia da Boavista
o mar ronronante a nos incitar
Todos cantando certezas
a Maria a bailar se aproximando
sangue a pulsar
sangue a pulsar
mocidade correndo
a vida
peito com peito
beijos e beijos
as vozes cada vez mais bebadas de liberdade
a Maria se chegando
a Maria se entregando
Uma viola a tocar
e a noite quebrada na luz do nosso amor...
3 244
Raymond Federman
Diga-lhes
Diga-lhes
àqueles de viagem
com você agora
milhas a-
dentro
do imperdoável
como fomos nós
(que sempre os
acompanhamos)
que com força
os afundamos
ainda mais longe
nas funduras
onde encontraram
nossos amaríssimos
sonhos
e também os
dulcíssimos
e como mais tarde
mais tarde
de um lado a outro
de um lado a outro
no oco de nossos
nomes inextinguíveis
aprendemos juntos
a voar de novo
juntos
em nosso nome
(tradução de Ricardo Domeneck)
àqueles de viagem
com você agora
milhas a-
dentro
do imperdoável
como fomos nós
(que sempre os
acompanhamos)
que com força
os afundamos
ainda mais longe
nas funduras
onde encontraram
nossos amaríssimos
sonhos
e também os
dulcíssimos
e como mais tarde
mais tarde
de um lado a outro
de um lado a outro
no oco de nossos
nomes inextinguíveis
aprendemos juntos
a voar de novo
juntos
em nosso nome
(tradução de Ricardo Domeneck)
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Orlando Mendes
Exortação
Jovem, se tens exercícios de literatura
escritos há mais de um mês, destrói-os.
Rasga-os ou queima-os de preferência
(consta ser universalmente mais ortodoxo)
e se a chama te chamuscar unhas e pele
e as sujar a cinza, não queixes a dor
e lava-te. Destrói-os. Guarda-os todavia
fiéis na memória, palavra por palavra,
para que possas transmiti-los a um amigo
quando depois do venal acto de amor
forem também vender a irresistível suspeita
da tua voz trémula e dos teus outros actos.
Mas não deixes de escrever. Peço-te que não.
escritos há mais de um mês, destrói-os.
Rasga-os ou queima-os de preferência
(consta ser universalmente mais ortodoxo)
e se a chama te chamuscar unhas e pele
e as sujar a cinza, não queixes a dor
e lava-te. Destrói-os. Guarda-os todavia
fiéis na memória, palavra por palavra,
para que possas transmiti-los a um amigo
quando depois do venal acto de amor
forem também vender a irresistível suspeita
da tua voz trémula e dos teus outros actos.
Mas não deixes de escrever. Peço-te que não.
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Carlos Drummond de Andrade
Artistas Adolescentes
O piano de Mário,
o violoncelo de Luís Eduardo,
o violino de Clibas,
quem, entre Grandes, Médios e Menores,
suplantará?
O piano, talvez, de Luís Cintra?
O violoncelo de Henrique?
O violino de Vítor Saraiva?
Alguém, ainda, que vai nascer?
Empate. Empate. Empate. O jeito
é fazer com que toquem sempre aos pares,
imbatíveis.
o violoncelo de Luís Eduardo,
o violino de Clibas,
quem, entre Grandes, Médios e Menores,
suplantará?
O piano, talvez, de Luís Cintra?
O violoncelo de Henrique?
O violino de Vítor Saraiva?
Alguém, ainda, que vai nascer?
Empate. Empate. Empate. O jeito
é fazer com que toquem sempre aos pares,
imbatíveis.
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