Poemas neste tema
Amizade
Carlos Drummond de Andrade
A Outra Face
Por onde erra Jules Laforgue,
que não vem cantar a seu jeito
— Lune bénie, blanc médaillon
des Endymions —
a segunda face da lua?
Só há fotógrafos eletrônicos
e supersônicos repórteres?
Pergunto à amiga, e ela pergunta
por sua vez: “Quando, cronista,
haverá desfiles de modas
na segunda face da lua?
Quero entrar na primeira lista
de convidados, não te esqueças”.
No apartamento aqui ao lado,
o disco “Olhe o tempo passado”
filtra, na chuva da manhã,
uma lembrança melancólica:
a voz de Dolores Duran.
A boa chuva criadeira
vai lambendo, suave e metódica,
a minha nova amendoeira.
Chuva, anuncias-me novembro,
e já leio nos vespertinos
a tabela triste de flores
das almas:
roxos agapantos, saudades,
margaridas campistas, palmas
de provinciais variedades,
dessas humilíssimas cores
(“xangai”, dizem decoradores),
que no seu cimério destino
são felizes no cemitério.
Este ano — tudo falso — a dor
amortece com cibalena
de mentira, e a morte, ladina,
toma gotas de coramina,
estimulante circulatório
do movimento funerário.
Morre uma vaca atropelada
em Madureira; logo cada
passante corta um naco, e em breve
seu esqueleto fica leve
de toda carne, horror… O dono,
alertado por um vizinho,
pupilas úmidas de sono,
acode e nem sequer os ossos
pode salvar para um caldinho.
— Esta fila não anda, irmão?
— Mas é claro: seus componentes,
na busca inútil do feijão,
viram todos postes da Light.
A cidade, postificada,
que espera da Cofap? Nada.
Qual novo infante Dom Henrique,
resta explorar, de nossa rua,
em imaginário lunique,
a segunda face da lua.
01/10/1959
que não vem cantar a seu jeito
— Lune bénie, blanc médaillon
des Endymions —
a segunda face da lua?
Só há fotógrafos eletrônicos
e supersônicos repórteres?
Pergunto à amiga, e ela pergunta
por sua vez: “Quando, cronista,
haverá desfiles de modas
na segunda face da lua?
Quero entrar na primeira lista
de convidados, não te esqueças”.
No apartamento aqui ao lado,
o disco “Olhe o tempo passado”
filtra, na chuva da manhã,
uma lembrança melancólica:
a voz de Dolores Duran.
A boa chuva criadeira
vai lambendo, suave e metódica,
a minha nova amendoeira.
Chuva, anuncias-me novembro,
e já leio nos vespertinos
a tabela triste de flores
das almas:
roxos agapantos, saudades,
margaridas campistas, palmas
de provinciais variedades,
dessas humilíssimas cores
(“xangai”, dizem decoradores),
que no seu cimério destino
são felizes no cemitério.
Este ano — tudo falso — a dor
amortece com cibalena
de mentira, e a morte, ladina,
toma gotas de coramina,
estimulante circulatório
do movimento funerário.
Morre uma vaca atropelada
em Madureira; logo cada
passante corta um naco, e em breve
seu esqueleto fica leve
de toda carne, horror… O dono,
alertado por um vizinho,
pupilas úmidas de sono,
acode e nem sequer os ossos
pode salvar para um caldinho.
— Esta fila não anda, irmão?
— Mas é claro: seus componentes,
na busca inútil do feijão,
viram todos postes da Light.
A cidade, postificada,
que espera da Cofap? Nada.
Qual novo infante Dom Henrique,
resta explorar, de nossa rua,
em imaginário lunique,
a segunda face da lua.
01/10/1959
1 255
José Saramago
Carta de José a José
Eu te digo, José: por esta carta
Não garanto mentira nem verdade:
O que de mim não sei sempre me aparta
Da franqueza de ser e da vontade.
São cobiças inúteis, vãos desgostos,
São braços levantados e caídos,
São rugas que cortam os cem rostos
Da comédia e do jogo repetidos.
Desse lado da mesa, ou desse espelho,
Vais seguindo as palavras invertidas:
Assim verás melhor se, quanto, valho
Ao revés dos sinais e das medidas.
(Correm águas geladas no meu rio.
E roucos cantos de aves, derivando
Por silêncio frustrado e calafrio,
Vão manhã doutro dia recordando.)
Cai a chuva do céu, e não te molha,
Está a noite entre nós, e não te cega.
Não sorrias, José: à tua escolha
O que nos sobra de alma se me nega.
Desse lado da mesa, onde me acusas.
Te levantas. A marca do teu pé,
Na soleira da porta que recusas,
Fecha de vez a carta inacabada.
Tua sombra pisada, teu amigo — José.
Não garanto mentira nem verdade:
O que de mim não sei sempre me aparta
Da franqueza de ser e da vontade.
São cobiças inúteis, vãos desgostos,
São braços levantados e caídos,
São rugas que cortam os cem rostos
Da comédia e do jogo repetidos.
Desse lado da mesa, ou desse espelho,
Vais seguindo as palavras invertidas:
Assim verás melhor se, quanto, valho
Ao revés dos sinais e das medidas.
(Correm águas geladas no meu rio.
E roucos cantos de aves, derivando
Por silêncio frustrado e calafrio,
Vão manhã doutro dia recordando.)
Cai a chuva do céu, e não te molha,
Está a noite entre nós, e não te cega.
Não sorrias, José: à tua escolha
O que nos sobra de alma se me nega.
Desse lado da mesa, onde me acusas.
Te levantas. A marca do teu pé,
Na soleira da porta que recusas,
Fecha de vez a carta inacabada.
Tua sombra pisada, teu amigo — José.
1 375
Manuel Bandeira
Maria Teresa
Por Maria Teresa,
Filha de Elza e de Rui,
Mana o meu verso e flui,
Cantando em Guanabara
E toda a redondeza
Seus encantos e a rara
Modéstia, de quem fui
E serei sempre fiel
Admirador.
Manuel.
Filha de Elza e de Rui,
Mana o meu verso e flui,
Cantando em Guanabara
E toda a redondeza
Seus encantos e a rara
Modéstia, de quem fui
E serei sempre fiel
Admirador.
Manuel.
637
Carlos Drummond de Andrade
A Semana
Atendendo, compadre, a seu apelo,
envio-lhe esta carta, mas sem selo
(que a tarifa postal subiu à lua
e a controle nenhum cede ou recua),
para lhe dar as últimas notícias,
enquanto agosto vai, entre carícias
de um leve sol de julho, recordando
a matinal doçura de ir flanando.
Quem encontrei na praia? Aquele moço,
glória da Rússia, presa do alvoroço
de brotos mil: “Que pão!” — diziam elas,
e Gagárin, a sorrir, por entre as belas
garotas espaciais, me botou triste.
Ó mocidade, ave fugida! alpiste
nenhum te faz voltar, e nenhum verso
vale esse giro azul pelo universo.
(Gagarinamos, sim, em pensamento,
e nossa cosmonave é fumo e vento.)
Mas, compadre, voltando ao terra-a-terra,
se minha matemática não erra,
evite, enquanto é tempo, abrir falência,
evitando qualquer correspondência.
(Já pensou na copiosa Sévigné,
no Brasil, reduzida ao miserê?)
Com telegrama a cinco por palavra,
a pena do silêncio faz-se escrava.
Quero me distrair. E eis que se fecha
o velho, bom, jovial Circo Olimecha.
Um circo a menos? Dois. Outro, de horrores,
lá se foi, o de artistas-vereadores.
Não divertiu ninguém e custou caro,
deixando na lembrança gosto amaro…
Marota foi a Câmara, em Brasília:
passa a chamar “descanso” de “vigília”
— não já gratuito, mas remunerado —
e trabalho… é tortura do passado.
Inaugura-se um campo de corridas
quando elas já são coisas abolidas.
Nos açougues paulistas, a prová-lo,
a nova bossa: carne de cavalo.
Disseram por aí que isto é progresso,
porém meu coração diz que é regresso.
O caso de Berlim, você não pense
que, por não ter nascido berlinense,
eu dele me descuide. A autoridade
vem daí: ser alheio a essa cidade.
É Berlim coisa russa? americana?
Ou tudo é confusão, em meio à vana
verba de conferências e tratados?
Adeus, compadre, abraços apertados.
06/08/1961
envio-lhe esta carta, mas sem selo
(que a tarifa postal subiu à lua
e a controle nenhum cede ou recua),
para lhe dar as últimas notícias,
enquanto agosto vai, entre carícias
de um leve sol de julho, recordando
a matinal doçura de ir flanando.
Quem encontrei na praia? Aquele moço,
glória da Rússia, presa do alvoroço
de brotos mil: “Que pão!” — diziam elas,
e Gagárin, a sorrir, por entre as belas
garotas espaciais, me botou triste.
Ó mocidade, ave fugida! alpiste
nenhum te faz voltar, e nenhum verso
vale esse giro azul pelo universo.
(Gagarinamos, sim, em pensamento,
e nossa cosmonave é fumo e vento.)
Mas, compadre, voltando ao terra-a-terra,
se minha matemática não erra,
evite, enquanto é tempo, abrir falência,
evitando qualquer correspondência.
(Já pensou na copiosa Sévigné,
no Brasil, reduzida ao miserê?)
Com telegrama a cinco por palavra,
a pena do silêncio faz-se escrava.
Quero me distrair. E eis que se fecha
o velho, bom, jovial Circo Olimecha.
Um circo a menos? Dois. Outro, de horrores,
lá se foi, o de artistas-vereadores.
Não divertiu ninguém e custou caro,
deixando na lembrança gosto amaro…
Marota foi a Câmara, em Brasília:
passa a chamar “descanso” de “vigília”
— não já gratuito, mas remunerado —
e trabalho… é tortura do passado.
Inaugura-se um campo de corridas
quando elas já são coisas abolidas.
Nos açougues paulistas, a prová-lo,
a nova bossa: carne de cavalo.
Disseram por aí que isto é progresso,
porém meu coração diz que é regresso.
O caso de Berlim, você não pense
que, por não ter nascido berlinense,
eu dele me descuide. A autoridade
vem daí: ser alheio a essa cidade.
É Berlim coisa russa? americana?
Ou tudo é confusão, em meio à vana
verba de conferências e tratados?
Adeus, compadre, abraços apertados.
06/08/1961
1 000
Paio Gomes Charinho
Voss'amigo Que Vos Sempre Serviu
- Voss'amigo que vos sempre serviu,
dized', amiga, que vos mereceu
pois que s'agora convosco perdeu?
Se per vossa culpa foi, nom foi bem.
- Nom sei, amiga, dizem que oiu
dizer nom sei quê e morre por en.
- Nom sei, amiga, que foi ou que é
ou que será, ca sabemos que nom
vos errou nunca voss'amigo, e som
maravilhados todos end'aqui.
- Nom sei, amiga, el, cada u é,
aprende novas com que morr'assi.
- Vós, amiga, nom podedes partir
que nom tenham por cousa desigual
servir-vos sempr'e fazerdes-lhi mal;
e que diredes de s'assi perder?
- Nom sei, amiga, el quer sempr'oír
novas de pouca prol pera morrer.
dized', amiga, que vos mereceu
pois que s'agora convosco perdeu?
Se per vossa culpa foi, nom foi bem.
- Nom sei, amiga, dizem que oiu
dizer nom sei quê e morre por en.
- Nom sei, amiga, que foi ou que é
ou que será, ca sabemos que nom
vos errou nunca voss'amigo, e som
maravilhados todos end'aqui.
- Nom sei, amiga, el, cada u é,
aprende novas com que morr'assi.
- Vós, amiga, nom podedes partir
que nom tenham por cousa desigual
servir-vos sempr'e fazerdes-lhi mal;
e que diredes de s'assi perder?
- Nom sei, amiga, el quer sempr'oír
novas de pouca prol pera morrer.
728
Vinicius de Moraes
Soneto do Amigo
Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.
É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.
Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.
O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...
Los Angeles, 1946.
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.
É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.
Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.
O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...
Los Angeles, 1946.
3 955
José Saramago
Poema Para Luís de Camões
Meu amigo, meu espanto, meu convívio,
Quem pudera dizer-te estas grandezas,
Que eu não falo do mar, e o céu é nada
Se nos olhos me cabe.
A terra basta onde o caminho pára,
Na figura do corpo está a escala do mundo.
Olho cansado as mãos, o meu trabalho,
E sei, se tanto um homem sabe,
As veredas mais fundas da palavra
E do espaço maior que, por trás dela,
São as terras da alma.
E também sei da luz e da memória,
Das correntes do sangue o desafio
Por cima da fronteira e da diferença.
E a ardência das pedras, a dura combustão
Dos corpos percutidos como sílex,
E as grutas do pavor, onde as sombras
De peixes irreais entram as portas
Da última razão, que se esconde
Sob a névoa confusa do discurso.
E depois o silêncio, e a gravidade
Das estátuas jazentes, repousando,
Não mortas, não geladas, devolvidas
À vida inesperada, descoberta.
E depois, verticais, as labaredas
Ateadas nas frontes como espadas,
E os corpos levantados, as mãos presas,
E o instante dos olhos que se fundem
Na lágrima comum. Assim o caos
Devagar se ordenou entre as estrelas.
Eram estas as grandezas que dizia
Ou diria o meu espanto, se dizê-las
Já não fosse este canto.
Quem pudera dizer-te estas grandezas,
Que eu não falo do mar, e o céu é nada
Se nos olhos me cabe.
A terra basta onde o caminho pára,
Na figura do corpo está a escala do mundo.
Olho cansado as mãos, o meu trabalho,
E sei, se tanto um homem sabe,
As veredas mais fundas da palavra
E do espaço maior que, por trás dela,
São as terras da alma.
E também sei da luz e da memória,
Das correntes do sangue o desafio
Por cima da fronteira e da diferença.
E a ardência das pedras, a dura combustão
Dos corpos percutidos como sílex,
E as grutas do pavor, onde as sombras
De peixes irreais entram as portas
Da última razão, que se esconde
Sob a névoa confusa do discurso.
E depois o silêncio, e a gravidade
Das estátuas jazentes, repousando,
Não mortas, não geladas, devolvidas
À vida inesperada, descoberta.
E depois, verticais, as labaredas
Ateadas nas frontes como espadas,
E os corpos levantados, as mãos presas,
E o instante dos olhos que se fundem
Na lágrima comum. Assim o caos
Devagar se ordenou entre as estrelas.
Eram estas as grandezas que dizia
Ou diria o meu espanto, se dizê-las
Já não fosse este canto.
1 516
Vinicius de Moraes
Otávio
Torce a boca, olha as coisas abstrato
Percorre da varanda os quatro cantos
E tirando do corpo um carrapato
Imagina o romance mil e tantos...
Logo após olha o mundo e o vê morrendo
Sob a opressão tirânica do mal
E como um passarinho, vai correndo...
Escrever um tratado social
É amigo de um "braço" na poesia
E de um outro que é só filosofia
E de um terceiro, romancista: veja
Quanto livro a escrever ainda teria
O ditador Otávio de Faria
Sob o signo cristão da nova Igreja...
Percorre da varanda os quatro cantos
E tirando do corpo um carrapato
Imagina o romance mil e tantos...
Logo após olha o mundo e o vê morrendo
Sob a opressão tirânica do mal
E como um passarinho, vai correndo...
Escrever um tratado social
É amigo de um "braço" na poesia
E de um outro que é só filosofia
E de um terceiro, romancista: veja
Quanto livro a escrever ainda teria
O ditador Otávio de Faria
Sob o signo cristão da nova Igreja...
752
Manuel Bandeira
Louvado para Daniel
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Feito isto, ainda que sem brilho
Quero louvar outro tanto
Quem de quem é seu amigo
Sempre é amigo fiel:
Esse homem bom como o trigo,
Hoje cinquentão, Daniel.
Louvo Daniel bom marido,
Daniel bom pai, bom irmão.
E esse meu dever cumprido,
Cumpro a grata obrigação
De desejar-lhe outro tanto
De vida como a que tem.
Louvo o Padre, o Filho, o Santo
Espírito, e Daniel também!
E louvo o Espírito Santo.
Feito isto, ainda que sem brilho
Quero louvar outro tanto
Quem de quem é seu amigo
Sempre é amigo fiel:
Esse homem bom como o trigo,
Hoje cinquentão, Daniel.
Louvo Daniel bom marido,
Daniel bom pai, bom irmão.
E esse meu dever cumprido,
Cumpro a grata obrigação
De desejar-lhe outro tanto
De vida como a que tem.
Louvo o Padre, o Filho, o Santo
Espírito, e Daniel também!
951
Charles Bukowski
Uma Abelha
suponho que como qualquer garoto
tive um melhor amigo na vizinhança.
o nome dele era Eugene e era muito maior
do que eu e um ano mais velho.
Eugene costumava me encher de porrada.
estávamos sempre brigando.
eu tentava vencê-lo mas sempre sem muito
sucesso.
uma vez pulamos juntos de cima do telhado da garagem
para provar que éramos valentes.
torci meu tornozelo e ele saiu ileso
como manteiga recém-tirada do papel.
acho que a única coisa boa que ele fez por mim
foi quando uma abelha me picou o pé descalço
e assim que me sentei para tirar o ferrão
ele disse,
“vou pegar a filha da puta!”
e foi o que ele fez
com uma raquete de tênis
mais um martelo de borracha.
estava tudo bem
dizem que de qualquer modo
elas morrem.
meu pé inchou e dobrou de tamanho
e eu fiquei de cama
rezando para morrer
e Eugene seguiu em frente e se tornou um
almirante ou comandante
de alguma coisa de vulto na Marinha dos Estados Unidos
e conseguiu passar por uma ou duas guerras
sem se ferir.
imagino-o envelhecido agora
numa cadeira de balanço
com seus dentes postiços
bebendo seu leitinho...
enquanto eu bêbado
masturbo esta tiete de 19 anos
que divide a cama comigo.
mas o pior é que
(assim como naquele salto do telhado da garagem)
Eugene segue vencendo
porque ele nem sequer está pensando
em mim.
tive um melhor amigo na vizinhança.
o nome dele era Eugene e era muito maior
do que eu e um ano mais velho.
Eugene costumava me encher de porrada.
estávamos sempre brigando.
eu tentava vencê-lo mas sempre sem muito
sucesso.
uma vez pulamos juntos de cima do telhado da garagem
para provar que éramos valentes.
torci meu tornozelo e ele saiu ileso
como manteiga recém-tirada do papel.
acho que a única coisa boa que ele fez por mim
foi quando uma abelha me picou o pé descalço
e assim que me sentei para tirar o ferrão
ele disse,
“vou pegar a filha da puta!”
e foi o que ele fez
com uma raquete de tênis
mais um martelo de borracha.
estava tudo bem
dizem que de qualquer modo
elas morrem.
meu pé inchou e dobrou de tamanho
e eu fiquei de cama
rezando para morrer
e Eugene seguiu em frente e se tornou um
almirante ou comandante
de alguma coisa de vulto na Marinha dos Estados Unidos
e conseguiu passar por uma ou duas guerras
sem se ferir.
imagino-o envelhecido agora
numa cadeira de balanço
com seus dentes postiços
bebendo seu leitinho...
enquanto eu bêbado
masturbo esta tiete de 19 anos
que divide a cama comigo.
mas o pior é que
(assim como naquele salto do telhado da garagem)
Eugene segue vencendo
porque ele nem sequer está pensando
em mim.
1 442
Manuel Bandeira
Programa para depois de Minha Morte
.. esta outra vida de aquém-túmulo.
Guimarães Rosa
Depois de morto, quando eu chegar ao outro mundo,
Primeiro quererei beijar meus pais, meus irmãos, meus avós, meus tios, meus primos.
Depois irei abraçar longamente uns amigos — Vasconcelos, Ovalle, Mário...
Gostaria ainda de me avistar com o santo Francisco de Assis.
Mas quem sou eu? Não mereço.
Isto feito, me abismarei na contemplação de Deus e de sua glória
Esquecido para sempre de todas as delícias, dores, perplexidades
Desta outra vida de aquém-túmulo.
Guimarães Rosa
Depois de morto, quando eu chegar ao outro mundo,
Primeiro quererei beijar meus pais, meus irmãos, meus avós, meus tios, meus primos.
Depois irei abraçar longamente uns amigos — Vasconcelos, Ovalle, Mário...
Gostaria ainda de me avistar com o santo Francisco de Assis.
Mas quem sou eu? Não mereço.
Isto feito, me abismarei na contemplação de Deus e de sua glória
Esquecido para sempre de todas as delícias, dores, perplexidades
Desta outra vida de aquém-túmulo.
1 065
Carlos Drummond de Andrade
A Morte a Cavalo
A cavalo de galope
a cavalo de galope
a cavalo de galope
lá vem a morte chegando.
A cavalo de galope
a cavalo de galope
a morte numa laçada
vai levando meus amigos.
A cavalo de galope
depois de levar meus pais
a morte sem prazo ou norte
vai levando meus irmãos.
A morte sem avisar
a cavalo de galope
sem dar tempo de escondê-los
vai levando meus amores.
A morte desembestada
com quatro patas de ferro
a cavalo de galope
foi levando minha vida.
A morte de tão depressa
nem repara no que fez.
A cavalo de galope
a cavalo de galope
me deixou sobrante e oco.
a cavalo de galope
a cavalo de galope
lá vem a morte chegando.
A cavalo de galope
a cavalo de galope
a morte numa laçada
vai levando meus amigos.
A cavalo de galope
depois de levar meus pais
a morte sem prazo ou norte
vai levando meus irmãos.
A morte sem avisar
a cavalo de galope
sem dar tempo de escondê-los
vai levando meus amores.
A morte desembestada
com quatro patas de ferro
a cavalo de galope
foi levando minha vida.
A morte de tão depressa
nem repara no que fez.
A cavalo de galope
a cavalo de galope
me deixou sobrante e oco.
2 571
Fernando Pessoa
Não quero a fama, que comigo a têm
Não quero a fama, que comigo a têm
Erostrato e o pretor
Ser olhado de todos — que se eu fosse
Só belo, me olhariam.
O fausto repúdio, porque o compram.
O amor, porque acontece.
Amigo fui, talvez não contente,
Porém nato e sem erro.
Erostrato e o pretor
Ser olhado de todos — que se eu fosse
Só belo, me olhariam.
O fausto repúdio, porque o compram.
O amor, porque acontece.
Amigo fui, talvez não contente,
Porém nato e sem erro.
1 264
Manuel Bandeira
A Lourdes
Nesta estrada tão áspera que trilho
Agora tu me dás em meu caminho
Os tesouros sem par do teu carinho
Como se eu fosse teu segundo filho.
Deus te abençoe, minha amiga, minha
Irmã, irmã que fosse uma mãezinha.
8 maio 1867*
Agora tu me dás em meu caminho
Os tesouros sem par do teu carinho
Como se eu fosse teu segundo filho.
Deus te abençoe, minha amiga, minha
Irmã, irmã que fosse uma mãezinha.
8 maio 1867*
1 134
Alphonsus de Guimaraens Filho
Cantilena II
A Mario Quintana
Mansa cantilena
num mundo que chora:
até me dá pena
te escutar agora.
Ao ouvir-te, tento
ir até ao fundo
de um deslumbramento
que ainda há no mundo
(pelo que segredas,
pelo que me falas),
tu que assim te quedas
em mim, se te calas,
— ai das cantilenas
num mundo de pranto! —
chama que asserenas
e em nós pões o encanto
de nem sei que dia
feito de inocência,
sopro de poesia
da mais pura ardência.
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Nó: poemas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1984. Poema integrante da série Nó
Mansa cantilena
num mundo que chora:
até me dá pena
te escutar agora.
Ao ouvir-te, tento
ir até ao fundo
de um deslumbramento
que ainda há no mundo
(pelo que segredas,
pelo que me falas),
tu que assim te quedas
em mim, se te calas,
— ai das cantilenas
num mundo de pranto! —
chama que asserenas
e em nós pões o encanto
de nem sei que dia
feito de inocência,
sopro de poesia
da mais pura ardência.
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Nó: poemas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1984. Poema integrante da série Nó
1 151
Armindo Trevisan
Funilaria no Ar X
Vamos, irmão, de mãos dadas,
trazer o que no sótão amadureceu
para este momento de palavra e gume,
de melancolia enfiada no sangue.
Vamos, sem tardança, adoecer de instinto,
para que o comprido de nossa exigência
abarque a brevidade de quinhentos anos.
Estou contigo, dá-me a tua mão, sempre.
Vamos até à certeza de que o tremor
da terra que sacudiu a primeira manhã,
e a perdemos por ser infantes,
ressuscite em nós, seja um longo compromisso.
Vamos regredir, se preciso for, somos jovens,
o negro não nos doeu demais na carne,
nem o canibal arreganhou nossa ciência.
Ali estão, neles, os desmandos apetecidos.
Poderemos, por instante, escrever nossos nomes,
as mãos dadas são dadas também quando se separam;
mas as mãos caminham pelos pés, se a estes
incumbe o apoio sem o qual só pensamos.
Demo-nos as palavras, uns aos outros, irmão,
as palavras farejam o álcool da guerra,
cada guerra que se cogita traz dentro do peito
outra guerra maior, a guerra consigo mesmo.
Vamos, irmão! A funilaria está marcada
pela lata que se torce, enferruja, mas corta.
De poesia também se amassa o pão que empurra
o caminho preparado no silêncio do dia.
In: TREVISAN, Armindo. Funilaria no ar. Porto Alegre: Movimento; Brasília: INL, 1973. (Poesia Sul, 7)
trazer o que no sótão amadureceu
para este momento de palavra e gume,
de melancolia enfiada no sangue.
Vamos, sem tardança, adoecer de instinto,
para que o comprido de nossa exigência
abarque a brevidade de quinhentos anos.
Estou contigo, dá-me a tua mão, sempre.
Vamos até à certeza de que o tremor
da terra que sacudiu a primeira manhã,
e a perdemos por ser infantes,
ressuscite em nós, seja um longo compromisso.
Vamos regredir, se preciso for, somos jovens,
o negro não nos doeu demais na carne,
nem o canibal arreganhou nossa ciência.
Ali estão, neles, os desmandos apetecidos.
Poderemos, por instante, escrever nossos nomes,
as mãos dadas são dadas também quando se separam;
mas as mãos caminham pelos pés, se a estes
incumbe o apoio sem o qual só pensamos.
Demo-nos as palavras, uns aos outros, irmão,
as palavras farejam o álcool da guerra,
cada guerra que se cogita traz dentro do peito
outra guerra maior, a guerra consigo mesmo.
Vamos, irmão! A funilaria está marcada
pela lata que se torce, enferruja, mas corta.
De poesia também se amassa o pão que empurra
o caminho preparado no silêncio do dia.
In: TREVISAN, Armindo. Funilaria no ar. Porto Alegre: Movimento; Brasília: INL, 1973. (Poesia Sul, 7)
1 190
Manuel Bandeira
Adalardo
Adalardo! Nome assim
Não parece de homem não.
De estrela alfa, isto sim,
De grande constelação.
Você sempre foi, aliás,
No seu ar fino e galhardo,
Digno do nome que traz,
Meu caro amigo Adalardo.
Não parece de homem não.
De estrela alfa, isto sim,
De grande constelação.
Você sempre foi, aliás,
No seu ar fino e galhardo,
Digno do nome que traz,
Meu caro amigo Adalardo.
998
Vinicius de Moraes
Soneto a Pablo Neruda
Quantos caminhos não fizemos juntos
Neruda, meu irmão, meu companheiro...
Mas este encontro súbito, entre muitos
Não foi ele o mais belo e verdadeiro?
Canto maior, canto menor — dois cantos
Fazem-se agora ouvir sob o Cruzeiro
E em seu recesso as cóleras e os prantos
Do homem chileno e do homem brasileiro
E o seu amor — o amor que hoje encontramos...
Por isso, ao se tocarem nossos ramos
Celebro-te ainda além, Cantor Geral
Porque como eu, bicho pesado, voas
Mas mais alto e melhor do céu entoas
Teu furioso canto material!
Atlântico Sul, a caminho do Rio, 1960
Neruda, meu irmão, meu companheiro...
Mas este encontro súbito, entre muitos
Não foi ele o mais belo e verdadeiro?
Canto maior, canto menor — dois cantos
Fazem-se agora ouvir sob o Cruzeiro
E em seu recesso as cóleras e os prantos
Do homem chileno e do homem brasileiro
E o seu amor — o amor que hoje encontramos...
Por isso, ao se tocarem nossos ramos
Celebro-te ainda além, Cantor Geral
Porque como eu, bicho pesado, voas
Mas mais alto e melhor do céu entoas
Teu furioso canto material!
Atlântico Sul, a caminho do Rio, 1960
1 282
Carlos Drummond de Andrade
A. B. C. Manuelino
Alaúza, minha gente!
Festivo repique o sino
em honra deste menino.
Bem nascido no Recife
lá no bairro do Capunga
e de tendência malunga.
Companheiro de nascença
ficou sendo da poesia,
luz e sol de cada dia.
De nós todos companheiro,
por isso que no seu verso
há um carinho submerso.
Entre a Rua da União
e a união pelo canto,
distribui paz, acalanto.
Faz muito tempo que veio
ao mundo? Está bem lampeiro,
mistura de sábio e arteiro.
Gazal compõe e balada,
mas, se quer ser concretista,
concretos fujam da pista.
Hertziana magia, fluida,
circula em cada palavra,
ouro do campo em que lavra.
Inimigos, não: amigos
são quantos, na trilha amarga
da angústia, encontram Pasárgada.
Já foi doente, mas soube
vencer o mal que há no mal.
É tudo lição ideal.
K., solitário de Kafka,
entraria no castelo
ao ritmo do “Belo Belo”.
Laura, Natércia, outros mitos
o poeta descobre que há
no sabonete Araxá.
Mas percebe ao mesmo tempo
a miséria dos destinos
dos carvoeirinhos meninos.
Na sua lira moderna
a dor de cada criatura
colhe um eco de ternura.
O recado que nos manda
é um recado experiente
de vida e de amor presente.
Para chegar à pureza
de siderais avenidas,
o poeta viveu mil vidas.
Quem disse que é sem família
no seu quarto à beira-oceano?
Seu mano: o gênero humano.
Rosas, rosas e mais rosas
de Barbacena ou Caymmi
em ramalhete sublime
sejam portanto ofertadas
àquele que no seu horto,
mesmo à visão do boi morto,
tem um jeito de existir
tão natural como planta
que em silêncio se alevanta.
Uma planta que dá sombra
e dá música — segredo
assim em tom de brinquedo.
Viva, viva! aos oitent’anos,
quem que pode com o velhinho
amador de chope e vinho?
Xis do problema: este viço
vem-lhe d’alma, fortaleza
de bondade sempre acesa.
Ypissilão foi-se embora
do nosso atual dicionário.
Que importa? Canhestro, vário,
zangarreante cronista,
saúdo Manuel Bandeira,
estrela da vida inteira.
17/04/1966
Festivo repique o sino
em honra deste menino.
Bem nascido no Recife
lá no bairro do Capunga
e de tendência malunga.
Companheiro de nascença
ficou sendo da poesia,
luz e sol de cada dia.
De nós todos companheiro,
por isso que no seu verso
há um carinho submerso.
Entre a Rua da União
e a união pelo canto,
distribui paz, acalanto.
Faz muito tempo que veio
ao mundo? Está bem lampeiro,
mistura de sábio e arteiro.
Gazal compõe e balada,
mas, se quer ser concretista,
concretos fujam da pista.
Hertziana magia, fluida,
circula em cada palavra,
ouro do campo em que lavra.
Inimigos, não: amigos
são quantos, na trilha amarga
da angústia, encontram Pasárgada.
Já foi doente, mas soube
vencer o mal que há no mal.
É tudo lição ideal.
K., solitário de Kafka,
entraria no castelo
ao ritmo do “Belo Belo”.
Laura, Natércia, outros mitos
o poeta descobre que há
no sabonete Araxá.
Mas percebe ao mesmo tempo
a miséria dos destinos
dos carvoeirinhos meninos.
Na sua lira moderna
a dor de cada criatura
colhe um eco de ternura.
O recado que nos manda
é um recado experiente
de vida e de amor presente.
Para chegar à pureza
de siderais avenidas,
o poeta viveu mil vidas.
Quem disse que é sem família
no seu quarto à beira-oceano?
Seu mano: o gênero humano.
Rosas, rosas e mais rosas
de Barbacena ou Caymmi
em ramalhete sublime
sejam portanto ofertadas
àquele que no seu horto,
mesmo à visão do boi morto,
tem um jeito de existir
tão natural como planta
que em silêncio se alevanta.
Uma planta que dá sombra
e dá música — segredo
assim em tom de brinquedo.
Viva, viva! aos oitent’anos,
quem que pode com o velhinho
amador de chope e vinho?
Xis do problema: este viço
vem-lhe d’alma, fortaleza
de bondade sempre acesa.
Ypissilão foi-se embora
do nosso atual dicionário.
Que importa? Canhestro, vário,
zangarreante cronista,
saúdo Manuel Bandeira,
estrela da vida inteira.
17/04/1966
995
Charles Bukowski
Danação E Hora da Sesta
meu amigo está preocupado com a morte
ele vive em Frisco
eu em L.A.
ele vai à academia e
puxa uns ferros e dá golpes
num grande saco.
a velhice o diminui.
não pode beber por causa
do fígado.
consegue fazer
50 flexões.
ele me escreve
cartas
me dizendo
que sou o único que
o escuta.
claro, Hal, eu lhe respondo
num cartão-postal.
mas não quero gastar
toda essa grana em academia.
vou para a cama
com um sanduíche de
linguiça de fígado e cebola
à uma hora da tarde.
depois de comer
tiro um cochilo
com os heli-
cópteros e os abutres
circulando sobre meu
colchão de molas deformado.
ele vive em Frisco
eu em L.A.
ele vai à academia e
puxa uns ferros e dá golpes
num grande saco.
a velhice o diminui.
não pode beber por causa
do fígado.
consegue fazer
50 flexões.
ele me escreve
cartas
me dizendo
que sou o único que
o escuta.
claro, Hal, eu lhe respondo
num cartão-postal.
mas não quero gastar
toda essa grana em academia.
vou para a cama
com um sanduíche de
linguiça de fígado e cebola
à uma hora da tarde.
depois de comer
tiro um cochilo
com os heli-
cópteros e os abutres
circulando sobre meu
colchão de molas deformado.
970
Charles Bukowski
Gêmeos
ei, disse o meu amigo, quero que você conheça
Hangdog Harry, ele me lembra você,
e eu disse, tudo bem, e fomos até
esse hotel ordinário.
velhos assistiam sentados
um programa de tevê no saguão
enquanto subíamos a escada
até o 209 e lá estava Hangdog
sentado numa cadeira de palha
uma garrafa de vinho aos seus pés
o calendário do ano passado na parede,
“sentem-se, rapazes”, ele disse,
“este é o problema:
a desumanidade do homem com o próprio homem”.
ficamos vendo ele enrolar um
cigarro Bull Durham.
“tenho um pescoço de 40 cm e matarei
todos que quiserem foder comigo.”
deu uma lambida no cigarro
e depois cuspiu no tapete.
“sintam-se em casa. fiquem à vontade.”
“como está se sentindo, Hangdog?” perguntou
meu amigo.
“terrível. estou apaixonado por uma prostituta,
não a vejo há 3 ou 4 semanas.”
“o que você acha que ela está fazendo, Hang?”
“bem, neste exato momento eu diria
que ela está chupando algum caralho.”
ele apanhou a garrafa de vinho
e deu uma tremenda enxugada.
“veja”, disse meu amigo a Hangdog,
“temos que ir”.
“certo, o tempo e a maré, ambos não
esperam...”
ele me olhou:
“como disse que era seu nome mesmo?”
“Salomski.”
“prazer em conhecer você, rapaz.”
“o prazer foi meu.”
descemos a escada
eles continuavam no saguão
assistindo tevê.
“o que você achou dele?”
perguntou meu amigo.
“porra”, eu disse, “ele era realmente
um cara legal. com certeza.”
Hangdog Harry, ele me lembra você,
e eu disse, tudo bem, e fomos até
esse hotel ordinário.
velhos assistiam sentados
um programa de tevê no saguão
enquanto subíamos a escada
até o 209 e lá estava Hangdog
sentado numa cadeira de palha
uma garrafa de vinho aos seus pés
o calendário do ano passado na parede,
“sentem-se, rapazes”, ele disse,
“este é o problema:
a desumanidade do homem com o próprio homem”.
ficamos vendo ele enrolar um
cigarro Bull Durham.
“tenho um pescoço de 40 cm e matarei
todos que quiserem foder comigo.”
deu uma lambida no cigarro
e depois cuspiu no tapete.
“sintam-se em casa. fiquem à vontade.”
“como está se sentindo, Hangdog?” perguntou
meu amigo.
“terrível. estou apaixonado por uma prostituta,
não a vejo há 3 ou 4 semanas.”
“o que você acha que ela está fazendo, Hang?”
“bem, neste exato momento eu diria
que ela está chupando algum caralho.”
ele apanhou a garrafa de vinho
e deu uma tremenda enxugada.
“veja”, disse meu amigo a Hangdog,
“temos que ir”.
“certo, o tempo e a maré, ambos não
esperam...”
ele me olhou:
“como disse que era seu nome mesmo?”
“Salomski.”
“prazer em conhecer você, rapaz.”
“o prazer foi meu.”
descemos a escada
eles continuavam no saguão
assistindo tevê.
“o que você achou dele?”
perguntou meu amigo.
“porra”, eu disse, “ele era realmente
um cara legal. com certeza.”
1 186
Manuel Bandeira
Eneida
Amigo houve aqui que excomungo:
— Amigo de cacaracá.
Tu, tão querida do malungo,
Entra, Eneida, neste mafuá.
— Amigo de cacaracá.
Tu, tão querida do malungo,
Entra, Eneida, neste mafuá.
1 117
Vinicius de Moraes
Soneto Na Morte de José Arthur da Frota Moreira
Cantamos ao nascer o mesmo canto
De alegria, de súplica e de horror
E a mulher nos surgiu no mesmo encanto
Na mesma dúvida e na mesma dor.
Criamos toda a sedução, e tanto
Que de nós seduzido, o sedutor
Morreu nas mesmas lágrimas de amor
Ao milagre maior do amor em pranto.
Fui um pouco teu cão e teu mendigo
E tu, como eu, mendigo de outro pão
Sempre guardaste o pão do teu amigo
Meu misterioso irmão, sigo contigo
Há tanto, tanto tempo, mão na mão...
Ouve como chora o coração.
De alegria, de súplica e de horror
E a mulher nos surgiu no mesmo encanto
Na mesma dúvida e na mesma dor.
Criamos toda a sedução, e tanto
Que de nós seduzido, o sedutor
Morreu nas mesmas lágrimas de amor
Ao milagre maior do amor em pranto.
Fui um pouco teu cão e teu mendigo
E tu, como eu, mendigo de outro pão
Sempre guardaste o pão do teu amigo
Meu misterioso irmão, sigo contigo
Há tanto, tanto tempo, mão na mão...
Ouve como chora o coração.
1 288
Vinicius de Moraes
Exumação de Mário de Andrade
No 17º ano da sua morte e no 40º do seu nascimento
Na semana de Arte Moderna
Minha casa de Saint Andrews Place.
Duas da manhã. Abro uma gaveta
Com um gesto sem finalidade
E dou com o retrato do poeta
Me olhando, Mário de Andrade.
Seus olhos nem por um segundo
Piscam. O poeta me encara
E eu vejo pela sua cara
Que o poeta quer ser exumado
Daquela gaveta, desde muito.
Tiro-o de lá. Com mão amiga
Limpo a poeira que lhe embaça
O rosto e suja-lhe a camisa
E o poeta como que acha graça.
Busco um lugar onde instalá-lo
Na minha pequena sala fria
Essa sala tão sem poesia
Onde me encontro todo dia
E onde me sento e onde me calo.
Mas não acho. Ponho-o à minha frente
Sobre a mesa, sentindo a vertigem
Da sensação da forma virgem
Que assume de súbito o ambiente.
No papel branco palpitante
Das moléculas da poesia
A minha mão psicografa
O antigo nome de Maria.
E na sala transverberada
Pelo mistério da presença
Vai se corporificando imensa
A humana forma macerada.
Não tenho medo; mas meus pêlos
Se eriçam, na barba e no braço
Sinto pesar o puro espaço
Às mãos do poeta em meus cabelos.
Depois o toque cessa. Deixo
O poeta a gosto, para que ande
Por ali tudo, esmiuçando.
Depois ouço o som do piano
E olho: só vejo a vasta fronte
Os óculos e o queixo grande
Do poeta, se desincorporando.
E fico só: só como um vivo
Cheio de angústia e de saudade
E corro à porta, e olhando aflito
O silêncio, murmuro empós o bom amigo:
- V olte sempre, Mário de Andrade...
Los Angeles, outubro de 1946
Petrópolis, fevereiro de 1962
Na semana de Arte Moderna
Minha casa de Saint Andrews Place.
Duas da manhã. Abro uma gaveta
Com um gesto sem finalidade
E dou com o retrato do poeta
Me olhando, Mário de Andrade.
Seus olhos nem por um segundo
Piscam. O poeta me encara
E eu vejo pela sua cara
Que o poeta quer ser exumado
Daquela gaveta, desde muito.
Tiro-o de lá. Com mão amiga
Limpo a poeira que lhe embaça
O rosto e suja-lhe a camisa
E o poeta como que acha graça.
Busco um lugar onde instalá-lo
Na minha pequena sala fria
Essa sala tão sem poesia
Onde me encontro todo dia
E onde me sento e onde me calo.
Mas não acho. Ponho-o à minha frente
Sobre a mesa, sentindo a vertigem
Da sensação da forma virgem
Que assume de súbito o ambiente.
No papel branco palpitante
Das moléculas da poesia
A minha mão psicografa
O antigo nome de Maria.
E na sala transverberada
Pelo mistério da presença
Vai se corporificando imensa
A humana forma macerada.
Não tenho medo; mas meus pêlos
Se eriçam, na barba e no braço
Sinto pesar o puro espaço
Às mãos do poeta em meus cabelos.
Depois o toque cessa. Deixo
O poeta a gosto, para que ande
Por ali tudo, esmiuçando.
Depois ouço o som do piano
E olho: só vejo a vasta fronte
Os óculos e o queixo grande
Do poeta, se desincorporando.
E fico só: só como um vivo
Cheio de angústia e de saudade
E corro à porta, e olhando aflito
O silêncio, murmuro empós o bom amigo:
- V olte sempre, Mário de Andrade...
Los Angeles, outubro de 1946
Petrópolis, fevereiro de 1962
1 401