Poemas neste tema

Destino e Superação

Fanny Luíza Dupré

Fanny Luíza Dupré

Verão

Sobe a piracema
desafiando a correnteza
do rio caudaloso.

Vestibular...
Entra para a faculdade
o candidato cego.

816
Virgílio Martinho

Virgílio Martinho

Biografia Inventada

Sou Úrsula, chamo-me Luísa,
Tenho olhos de distância,
Cresci na neve, vivo no sol.

De mulher tenho o feminino,
Medalha que me enfeita,
O meu sorriso é espelho.

Nele me vi, havia música,
Também anjos, também guerras,
Também dores, também amores.

Cantei no espaço, uma voz branca,
Voz de mulher, minha do nascer,
Soube a matéria, tentei o destino.

Depois pisei a água fria
E mergulhei até ao peixe,
Das escamas fiz um colar.

Cada escama era uma pedra
Colorida para enfeitiçar,
de todas escolhi a do cantar.

O canto é o meu hálito,
Escorre-me pelos lábios,
Na garganta tenho éguas.

Uma é céu, outra é terra,
Uma é mar, outra é fogo,
Juntas são o meu cantar.

Canto sobre o canto, o canto,
Uma Úrsula chamada Luísa
Na aventura do mundo.
1 084
Fernanda Benevides

Fernanda Benevides

O Plantador de Sonhos

O lavrador prepara a terra, lentamente.
Cultiva o solo com amor.
Alimenta o chão com carinho e devoção.
Cuidadoso, escolhe a semente.
E faz a plantação.
Semeia o trigo e nasce o joio.
Paciente, reinicia.
Planta roseira e brota baobá.
Cauteloso, extirpa-o.
E recomeça.
A vegetação viça.
Súbito, vem o estio.
As plantas secam.
E continua...
A flor renasce.
E vem a inundação.
Não desiste.
Rega a poesia.
Na certeza de um dia,
colher a flor tardia.

(in, A ROSA - FÊNIX)
Fortaleza - Ce, 1997

1 059
Renato Russo

Renato Russo

Faroeste Caboclo

- Não tinha medo, o tal João de Santo Cristo,
Era o que todos diziam quando se perdeu.
Deixou prá trás todo o marasmo da fazenda
Só para sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu.
Quando criança só pensava em ser bandido,
Ainda mais quando com tiro de um soldado o pai morreu
Era o terror da cercania onde morava
E na escola até o professor com ele aprendeu.

Ia prá igreja só prá roubar o dinheiro
Que as velhinhas colocavam na caixinha do altar.
Sentia mesmo que era diferente
E sentia que aquilo ali não era o seu lugar.
Ele queria sair para ver o mar
E as coisas que ele via na televisão
Juntou dinheiro para poder viajar
E de escolha própria, escolheu a solidão

Comia todas as menininhas da cidade
De tanto brincar de médico, aos doze era professor.
Aos quinze, foi mandado para o reformatório
Onde aumentou seu ódio diante de tanto terror.

Não entendia como a vida funcionava -
Discriminação por causa da sua classe ou sua cor
Ficou cansado de tentar achar resposta
E comprou uma passagem, foi direto a Salvador.

E lá chegando foi tomar um cafezinho
E encontrou um boiadeiro com quem foi falar
E o boiadeiro tinha uma passagem e eia perder a viagem
Mas João foi lhe salvar
Dizia ele: - Estou indo prá Brasília,
Neste país lugar melhor não há.
Estou precisando visitar a minha filha
Então fico aqui e você vai no meu lugar.

E João aceitou sua proposta e num ônibus entrou no Planalto Central
Ele ficou bestificado com a cidade
Saindo da rodoviária, viu as luzes de natal
- Meu Deus, mas que cidade linda,
No ano-novo eu começo a trabalhar.
Cortar madeira, aprendiz de carpinteiro
Ganhava três mil por mês em Taguatinga

Na sexta-feira ia prá zona da cidade
Gastar todo o seu dinheiro de rapaz trabalhador
E conhecia muita gente interessante
Até um neto bastardo de seu bisavô:
Um peruano que vivia na Bolívia
E muitas coisas trazia de lá
Seu nome era Pablo e ele dizia
Que um negócio ia começar

E o Santo Cristo até a morte trabalhava
Mas o dinheiro não dava prá ele se alimentar
E ouvia às sete horas o noticiário
Que sempre dizia que o seu ministro ia ajudar
Mas ele não queria mais conversa e decidiu que,
Como Pablo, ele ia se virar
Elaborou mais uma vez seu plano santo
E, sem ser crucificado, a plantação foi começar

Logo logo os malucos da cidade souberam da novidade:
- Tem bagulho bom aí !
E João de Santo Cristo ficou rico
E acabou com todos os traficantes dali.
Fez amigos, frequentava a Asa Norte
E ia prá festa de rock, prá se libertar
Mas de repente
Sob uma má influência dos boyzinhos da cidade
Começou a roubar
Já no primeiro roubo ele dançou
E pro inferno ele foi pela primeira vez
Violência e estupro do seu corpo
- Vocês vão ver, eu vou pegar vocês.

Agora o Santo Cristo era bandido
Destemido e temido no Distrito Federal.
Não tinha nenhum medo de polícia
Capitão ou traficante, playboy ou general.
Foi quando conehceu uma menina
E de todos seus pecados ele se arrependeu.
Maria Lúcia era uma menina linda
E o coração dele
Prá ela o Santo Cristo prometeu
Ele dizia que queria se casar
E carpinteiro ele voltou a ser
- Maria Lúcia prá sempre vou te amar
E um filho seu eu quero ter.

O tempo passa e um dia vem à porta um senhor de alta classe
com dinheiro na mão
E ele faz uma proposta indecorosa e diz que espera uma resposta.
Uma resposta de João:
- Não boto bomba em banca de jornal nem em colégio de criança
Isso eu não faço não
E não protejo general de dez estrelas, que fica atrás da mesa
Com o cu na mão
E é melhor o senhor sair da minha casa
Nunca brinque com um Peixes de ascendente Escorpião.
Mas antes de sair, com um ódio no olhar, o velho disse:
- Você perdeu sua vida, meu irmão.

Você perdeu a sua vida meu irmão. Você perdeu a sua vida meu irmão.
Essas palavras vão entrar no coração
E eu vou sofrer as consequências como um cão.
Não é que o Santo Cristo estava certo
E seu futuro era incerto e ele não foi trabalhar
Se embebedou e no meio da bebedeira descobriu que tinha outro
Trabalhando em seu lugar
Falou com Pablo que queria um parceiro
E também tinha dinheiro e queria se armar
Pablo trazia o contrabando da Bolívia e Santo Cristo revendia em Planaltina.

Mas acontece que um tal de Jeremias, traficante de renome,
Apareceu por lá
Ficou sabendo dos planos de Santo Cristo
E decidiu que, com João ele ia acabar.
Mas Pablo trouxe uma Winchester-22
E Santo Cristo já sabia atirar
E decidiu usar a arma só depois
Que o Jeremias começasse a brigar.

(O Jeremias, maconheiro sem-vergonha,
organizou a Rockonha
E fez todo mundo dançar.)
Desvirginava mocinhas inocentes
E dizia que era crente mas não sabia rezar

E Santo Cristo há muito não ia prá casa
E a saudade começou a apertar
- Eu vou embora, eu vou ver Maria Lúcia
Já está em tempo da gente se casar.

Chegando em casa então ele chorou
E pro inferno ele foi pela segunda vez
Com Maria Lúcia, Jeremias se casou
E um filho nela ele fez

Santo Cristo era só ódio por dentro
e então o Jeremias prá um duelo ele chamou
Amanhã às duas horas na Ceilândia,
em frente ao lote 14, é prá lá que eu vou
E você pode escolher as suas armas que eu acabo mesmo com você,
seu porco traidor
E mato também Maria Lúcia, aquela menina falsa prá quem jurei o meu amor

Santo Cristo não sabia o que fazer

Quando viu o repórter na televisão
Que deu notícia do duelo na TV
Dizendo a hora e o local e a razão

No sábado então, às duas horas, todo o povo
Sem demora foi lá só prá assistir
Um homem que atirava pelas costas e acertou o Santo Cristo
E começou a sorrir.
Sentindo o sangue na garganta,
João olhou prás bandeirinhas e pro povo a aplaudir
E olhou pro sorveteiro e prás câmeras e
A gente da TV que filmava tudo ali.

E se lembrou de quando era uma criança e de tudo que vivera até ali
E decidiu entrar de vez naquela dança
- Se a via-crucis virou circo, estou aqui

E nisso o sol cegou seus olhos e então Maria Lúcia ele reconheceu.
Ela trazia a Winchester-22
A arma que Pablo lhe deu.

- Jeremias, eu sou homem, coisa que você não é.
E não atiro pelas costas não
Olha prá cá filha-da-puta sem-vergonha,
dá uma olhada no meu sangue
E vem sentir o seu perdão

E Santo Cristo com a Winchester-22
Deu cinco tiros no bandido traidor
Maria Lúcia se arrependeu depois
E morreu junto com João, seu protetor.

E o povo declarava que João de Santo Cristo era santo porque sabia morrer
E a alta burguesia da cidade não acreditou na história que eles viram na TV
E João não conseguiu o que queria quando veio prá Brasília, com o diabo ter
Ele queria era falar pro presidente,
Prá ajudar toda essa gente
Que só faz sofrer.

2 377
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Romanza

Branca mulher de olhos claros
De olhar branco e luminoso
Que tinhas luz nas pupilas
E luz nos cabelos louros
Onde levou-te o destino
Que te afastou para longe
Da minha vista sem vida
Da minha vida sem vista?

Andavas sempre sozinha
Sem cão, sem homem, sem Deus
Eu te seguia sozinho
Sem cão, sem mulher, sem Deus
Eras a imagem de um sonho
A imagem de um sonho eu era
Ambos levando a tristeza
Dos que andam em busca do sonho.

Ias sempre, sempre andando
E eu ia sempre seguindo
Pisando na tua sombra
Vendo-a às vezes se afastar
Nem sabias quem eu era
Não te assustavam meus passos
Tu sempre andando na frente
Eu sempre atrás caminhando.

Toda a noite em minha casa
Passavas na caminhada
Eu te esperava e seguia

Na proteção do meu passo
E após o curto caminho
Da praia de ponta a ponta
Entravas na tua casa
E eu ia, na caminhada.

Eu te amei, mulher serena
Amei teu vulto distante
Amei teu passo elegante
E a tua beleza clara
Na noite que sempre vinha
Mas sempre custava tanto
Eu via a hora suprema
Das horas da minha vida.

Eu te seguia e sonhava
Sonhava que te seguia
Esperava ansioso o instante
De defender-te de alguém
E então meu passo mais forte
Dizia: quero falar-te
E o teu, mais brando, dizia:
Se queres destruir... vem.

Eu ficava. E te seguia
Pelo deserto da praia
Até avistar a casa
Pequena e branca da esquina.
Entravas. Por um momento
Esperavas que eu passasse
Para o olhar de boa-noite
E o olhar de até-amanhã.

Quase um ano o nosso idílio.
Uma noite... não passaste.
Esperei-te ansioso, inquieto

Mas não vieste. Por quê?
Foste embora? Procuraste
O amor de algum outro passo
Que em vez de seguir-te sempre
Andasse sempre ao teu lado?

Eu ando agora sozinho
Na praia longa e deserta
Eu ando agora sozinho
Por que fugiste? Por quê?
Ao meu passo solitário
Triste e incerto como nunca
Só responde a voz das ondas
Que se esfacelam na areia.

Branca mulher de olhos claros
Minha alma ainda te deseja
Traze ao meu passo cansado
A alegria do teu passo
Onde levou-te o destino
Que te afastou para longe
Da minha vista sem vida
Da minha vida sem vista?

1 267
Herberto Helder

Herberto Helder

84

se me vendam os olhos, eu, o arqueiro! acerto
em cheio no alvo porque o não vejo:
por pensamento e paixão,
ou porque foi tão sentido o vento a luzir nos botões dos salgueiros
como se atirasse do outro lado do vento,
ou na solidão de um sonho,
ou como se tudo fosse o mesmo: flecha e alvo —
e
cego
acerto em cheio:
porque não quero
984
Ruy Pereira e Alvim

Ruy Pereira e Alvim

Cada esperança é uma estrela

Com um gesto
ou um risco
muda a geografia
muda o leito do rio
e o destino é cisco
que flutua
nas águas represadas.

Não grito nem resisto.
Minha voz cansada
flutua no ar,
abafada
pela multidão
solidária
que me devolve a solidão
das noites sem destino.

No meu universo de exilados
cada esperança é uma estrela
solitária
que precede os três Reis Magos.

869
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Fim

Será que cheguei ao fim de todos os caminhos
E só resta a possibilidade de permanecer?
Será a Verdade apenas um incentivo à caminhada
Ou será ela a própria caminhada?
Terão mentido os que surgiram da treva e gritaram — Espírito!
E gritaram — Coragem!
Rasgarei as mãos nas pedras da enorme muralha
Que fecha tudo à libertação?
Lançarei meu corpo à vala comum dos falidos
Ou cairei lutando contra o impossível que antolha-me os passos
Apenas pela glória de tombar lutando?

Será que eu cheguei ao fim de todos os caminhos...
Ao fim de todos os caminhos?
624
Fábio Afonso de Almeida

Fábio Afonso de Almeida

Queda

Então fui; sabia de meu fIm,
Apenas, em recônditos de minha alma
Um atavismo indefinido agia sem cessar
Na busca incessante do que estaVa escrito.

E fui. Ninguém viu a luta formidável
Que destroçou todas as fibras do meu ser
Quando, patético, segui como um morto vivo
A estrada longa e árida do deserto

Na solidão absoluta vi-me, então,
Como uma pálida sombra do que fui,
A descer mais e mais a senda do abandono.

E já sem reação alguma, chorei
Como uma criança desprotegida,
E implorei, titubante: Pai, me ajude!

902
Nuno Júdice

Nuno Júdice

A caminho da feira

Deito à sorte a sorte que se abre
nas mãos da cigana que lê as cartas
como se fizesse um comércio de destinos.
Pergunto-lhe quanto pode custar
um amanhã que seja igual a ontem;
e ela fala-me das sinas impopulares,
dando-me o tempo que eu quiser como
simples troféu para meter no bolso (e
perder na primeira esquina). Por baixo dela,
as sombras escondem-se; e eu próprio
procuro a minha nos folhos da sua saia,
para onde caem todos os fantasmas que
saltam dos seus olhos. Mas a música
trazida pelo vento começa a inquietá-la;
e espera que passe a carroça que a há-de
levar à feira, onde os homens se irão
juntar à sua volta. «Diz-me o que vou ser»,
perguntam; ou então: «Será este um dia bom
para os negócios?» Ela não abre a boca, e
tira das cartas todas as respostas que eles
pedem, enquanto não pedem a sua boca.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 95 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
912
Adélia Prado

Adélia Prado

Agora, Ó José

É teu destino, ó José,
a esta hora da tarde,
se encostar na parede,
as mãos para trás.
Teu paletó abotoado
de outro frio te guarda,
enfeita com três botões
tua paciência dura.
A mulher que tens, tão histérica,
tão histórica, desanima.
Mas, ó José, o que fazes?
Passeias no quarteirão
o teu passeio maneiro
e olhas assim e pensas,
o modo de olhar tão pálido.
Por improvável não conta
o que tu sentes, José?
O que te salva da vida
é a vida mesma, ó José,
e o que sobre ela está escrito
a rogo de tua fé:
“No meio do caminho tinha uma pedra”,
“Tu és pedra e sobre esta pedra”,
a pedra, ó José, a pedra.
Resiste, ó José. Deita, José,
dorme com tua mulher,
gira a aldraba de ferro pesadíssima.
O reino do céu é semelhante a um homem
como você, José.
1 657
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Interrogação

Para que serve a poesia?, perguntas. Uma das
respostas está na forma como o destino do humano
se projecta na necessidade de absoluto que surge
num rosto, para além das circunstâncias, quando
a palidez imprime o vazio do tempo. A dúvida
transforma-se na única certeza possível,
envolvendo os olhos marcados pela dor;
e o corpo que se abandona ao fim ganha
raízes no chão efémero de uma substância
de palavras, como se lhe pudéssemos oferecer
o sacrifício da alma que nenhum deus
aceitou. No entanto, esta árvore cresce;
e os seus ramos estéreis bebem o ar
da memória que alimenta uma seiva
de silêncio, entregando à noite
as suas flores de sombra.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 116 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 192
Estêvão da Guarda

Estêvão da Guarda

Ora É Já Martim Vaasques Certo

Ora é já Martim Vaasques certo
das planetas que tragia erradas,
Mars e Saturno, mal aventuradas,
cujo poder trax em si encoberto:
ca per Mars foi mal chagad'em peleja,
e per Saturno cobrou tal egreja
sem prol nẽũa, em logar deserto.

Outras planetas de boa ventura
achou per vezes em seu calandairo,
mais das outras que lh'andam em contrairo,
cujo poder ainda sobr'el dura,
per ũa delas foi mui mal chagado
e pela outra cobrou priorado
u tem lazeira em logar de cura.

El rapou barva e fez gram coroa
e cerceou seu topet'espartido
e os cabelos cabo do oído,
cuidand'haver per i egreja boa;
mais Saturno lha guisou de tal renda,
u nom há pam nem vinho d'oferenda
nem, de herdade, milho pera boroa.

E pois el é prior de tal prevenda,
convém que leix'a cura e atenda
a capela igual a sa pessoa.
484
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

V. Faz da Tua Vida Em Frente À Luz

Faz da tua vida em frente à luz
Um lúcido terraço exacto e branco,
Docemente cortado
Pelo rio das noites.

Alheio o passo em tão perdida estrada
Vive, sem seres ele, o teu destino.
Inflexível assiste
À tua própria ausência.
1 160
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

SEIS SONETOS SOTURNOS - III

E durma-se com um barulho desses,
engulam-se os sapos necessários.
Resolução? Final feliz? Esquece.
Por outro lado, tudo está bem claro,

nada é ambíguo, e nas entrelinhas
é só espaço em branco. Noves fora,
não há saída. A coisa não termina.
A hora chega, e ainda não é a hora,

ou já é tarde e Inês é morta. Não,
não adianta mais. E no entanto
há que seguir em frente, sempre. Mãos

à obra, sim. Conforme o combinado.
Igual à outra vez: táticas, planos,
metas. É claro que vai dar errado.
770
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

MADRIGAL

Desista: não vai dar certo.
O mundo é o mesmo de sempre,
desejo é uma coisa cega.
Desista, enquanto é tempo.

As mãos não sabem o que pegam,
os pés vão aonde não sabem.
As cartas estão marcadas:
vai dar desgraça na certa.

O mundo é sempre a esmo,
desejo é uma porta aberta.
Desista, que a vida é incerta.
Ou insista. Dá no mesmo.
831
Eunice Arruda

Eunice Arruda

Erro

Edifiquei minha vida
casa sobre a
areia

Todo dia recomeço.

868
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Querido Papai

uma das coisas mais venturosas
que me aconteceram
foi ter um pai cruel e
sádico.

depois dele
as piores coisas que as Moiras
lançaram sobre mim
nem de longe pareceram tão
terríveis –
coisas que a outros homens
causariam
raiva, desespero, desgosto,
loucura, pensamentos suicidas
e
assim por diante
tiveram efeitos irrelevantes
sobre mim
graças à minha
criação:
depois do meu pai
praticamente tudo parecia
bom.
eu deveria realmente ser
grato àquele
velho de merda
morto há tanto tempo
agora
ele me preparou
para todos os numerosos
infernos
me levando lá
bem antes
do tempo
através dos inescapáveis
anos.
985
José Saramago

José Saramago

Elegia À Moda Antiga

Nem tão tarde que me farte
Nem que me raive de cedo
Quando o mundo não tiver
Nada mais por descobrir
Quando o amor se acabar
Morra com ele o desejo
De ficar a ver as sobras
Os restos da vida cheia
Parado à beira do rio
Onde as águas não descansam
No outro lado milagres
E margens verdes eternas
Enterro os dedos no lodo
Quatrocentas gerações
Um grande sonho pairando
Enquanto o céu se carrega
Ai o destino dos homens
Ai o destino de mim
Corta-se a voz ao para encontrar
Consolo só no fim
1 082
José Saramago

José Saramago

Tenho a Alma Queimada

Tenho a alma queimada
Por saliva de sapo
Fingindo que descubro
Tapo
A palavra me infecta
Sob a pele da aparência
Deito o certo remédio
Paciência
Neste mal não se vive
Mas também ninguém morre
Quando a ave não voa
Corre
Quem às estrelas não chega
Pode vê-las da terra
Quem não tem voz de cantar
Berra
1 072
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Procelária

É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala

As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente

Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança sua força
E do risco de morrer seu alimento

Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo
1 891
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iv. Ele Porém Dobrou o Cabo E Não Achou a Índia

Ele porém dobrou o cabo e não achou a Índia
E o mar o devorou com o instinto de destino que há no mar
1982
1 375
Daniel Francoy

Daniel Francoy

LATITUDES

Fala-me Conrad de um tempo,
ou melhor, de uma latitude
que ultrapassada impede
qualquer regresso –
como se o destino de um homem
fosse descer por uma luz vacilante
degrau após degrau.

Sujamo-nos, não há outro caminho
que não seja ter as mãos sujas.
Sujamo-nos e são as mãos sujas
o último elo a romper-se.
Por elas passa o ouro conseguido
a um custo indizível,
o perfume de amores enlouquecidos,
as flores que colhemos quando
muito jovens ou muito cansados.
O último elo a romper-se porque
da luz mais gasta permanece o pólen.
1 171
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Príncipe Bastardo

O príncipe bastardo António Prior do Crato
Morreu no exílio não conquistou seu reino
E aqueles que invocou não o coroaram

Entre ele e seu destino havia um outro
Perdido em batalha tão confusa
Que ninguém sabe se está vivo ou morto
1 036