Poemas neste tema
Destino e Superação
Soares de Passos
A Camões
Ai do que a sorte assinalou no berço
Inspirado cantor, rei da harmonia!
Ai do que Deus às gerações envia
Dizendo – vai, padece, é teu fadário;
Como um astro brilhante o mundo o admira,
Mas não vê que essa chama abrasadora
Que o cerca d'esplendor, também devora
Seu peito solitário.
Pairar nos céus em alteroso adejo,
Buscando amor, e vida, e luz, e glórias;
E ver passar, quais sombras ilusórias,
Essas imagens de fulgor divino:
Tais s o vossos destinos, ó poetas,
Almas de fogo, que um vil mundo encerra;
Tal foi, grande Camões, tal foi na terra
Teu mísero destino.
A cruz levaste desde o berço à campa:
Esgotaste a amargura ate às fezes:
Parece que a fortuna em seus revezes
Te mediu pelo génio a desventura.
Combateste com ela como o cedro
Que provoca o rancor da tempestade,
Mas cuja inabalável majestade
Lhe resiste segura.
Foste grande na dor como na lira!
Quem soube mais sofrer, quem sofreu tanto?
Um anjo viste de celeste encanto,
E aos pés caíste da visão querida...
Engano! foi um astro passageiro,
Foi uma flor de perfumado alento
Que ao longe te sorriu, mas que sedento
Jamais colheste em vida.
Sob a couraça que cingiste ao peito
Do peito ansioso sufocaste a chama,
E foste ao longe procurar a fama,
Talvez, quem sabe? procurar a morte.
Mas, qual onda que o náufrago arremessa
Sobre inóspita praia sem guarida,
A morte crua te arrojou a vida,
E as injúrias da sorte.
De praia em praia divagando incerto
Tuas desditas ensinaste ao mundo:
A terra, os homens, 'té o mar profundo
Conspirados achavas em teu dano.
Ave canora em solidão gemendo,
Tiveste o génio por algoz ferino:
Teu alento imortal era divino,
Perdeste em ser humano:
Índicos vales, solidões do Ganges,
E tu, ó gruta de Macau, sombria,
Vós lhe ouvistes as queixas, e a harmonia
Desses hinos que o tempo não consome.
Foi lá, nessa rocha solitária,
Que o vate desterrado e perseguido,
À pátria, ingrata, que lhe dera o olvido,
Deu eterno renome.
"Cantemos!" disse, e triunfou da sorte.
"Cantemos!" disse, e recordando glórias,
Sobre o mesmo teatro das vitórias,
Bardo guerreiro, levantou seus hinos.
Os desastres da pátria, a sua queda,
Temendo já no meditar profundo,
Quis dar-lhe a voz do cisne moribundo
Em seus cantos divinos.
E que sentidos cantos! d'Inês triste
Se ouve mais triste o derradeiro alento,
Ensinando o que pode o sentimento
Quando um seio que amou d'amores canta:
No brado heróico da guerreira tuba
O valor português soa tremendo,
E o fero Adamastor com gesto horrendo
Inda hoje o mundo espanta!
Mas ai! a pátria não lhe ouvia o canto!
Da pátria e do cantor findava a sorte:
Aos dois juraram perdição e morte,
E os dois juntaram na mansão funérea...
Ingratos! ao que, alçando a voz do génio
Além dos astros nos erguera um sólio,
Decretaram por louro e capitólio
O leito da miséria!
Ninguém o pranto lhe enxugou piedoso...
Valeu-lhe o seu escravo, o seu amigo:
"Dai esmola a Camões, dai-lhe um abrigo!"
Dizia o triste a mendigar confuso!
Homero, Ovídio, Tasso, estranhos cisnes,
Vós, que sorvestes do infortúnio a taça,
Vinde depor as c'roas da desgraça
Aos pés do cisne luso!
Mas não tardava o derradeiro instante...
O raio ardente, que fulmina a rocha,
Também a flor que nela desabrocha,
Cresta, passando, coas etéreas lavas!
Que cena! enquanto ao longe a pátria exangue
Aos alfanges mouriscos dava o peito,
De mísero hospital num pobre leito,
Camões, tu expiravas!
Oh! quem me dera desse leito à beira
Sondar teu grande espírito nessa hora,
Por saber, quando a mágoa nos devora,
Que dor pode conter um peito humano;
Palpar teu seio, e nesse estreito espaço
Sentir a imensidade do tormento,
Combatendo-te n'alma, como o vento,
Nas ondas do Oceano!
O amor da pátria, a ingratidão dos homens,
Natércia, a glória, as ilusões passadas,
Entre as sombras da morte debuxadas,
Em teu pálido rosto já pendido;
E a pátria, oh! e a pátria que exaltaras
Nessas canções d'inspiração profunda,
Exalando contigo moribunda
Seu último gemido!
Expirou! como o nauta destemido,
Vendo a procela que o navio alaga,
E ouvindo em roda no bramir da vaga
D'horrenda morte o funeral presságio,
Aos entes corre que adorou na vida,
Em seguro baixel os põe a nado,
E esquecido de si morre abraçado
Aos restos do naufrágio:
Assim, da pátria que baixava à tumba,
Em cantos imortais salvando a pátria,
E entregando-a dos tempos à memória,
Como em gigante pedestal segura:
"Pátria querida, morreremos juntos!"
Murmurou em acento funerário,
E envolvido da pátria no sudário
Baixou à sepultura.
Quebrando a lousa do feral jazigo,
Portugal ressurgiu, vingando a afronta,
E inda hoje ao mundo sua glória aponta
Dos cantos de Camões no eterno brado;
Mas do vate imortal as frias cinzas
Esquecidas deixou na sepultura,
E o estrangeiro que passa, em vão procura
Seu túmulo ignorado.
Nenhuma pedra ou inscrição ligeira
Recorda o grã cantor... porém calemos!
Silêncio! do imortal não profanemos
Com tributos mortais a alta memória.
Camões, grande Camões; foste poeta!
Eu sei que tua sombra nos perdoa:
Que valem mausoléus antes a coroa
De tua eterna glória?
Inspirado cantor, rei da harmonia!
Ai do que Deus às gerações envia
Dizendo – vai, padece, é teu fadário;
Como um astro brilhante o mundo o admira,
Mas não vê que essa chama abrasadora
Que o cerca d'esplendor, também devora
Seu peito solitário.
Pairar nos céus em alteroso adejo,
Buscando amor, e vida, e luz, e glórias;
E ver passar, quais sombras ilusórias,
Essas imagens de fulgor divino:
Tais s o vossos destinos, ó poetas,
Almas de fogo, que um vil mundo encerra;
Tal foi, grande Camões, tal foi na terra
Teu mísero destino.
A cruz levaste desde o berço à campa:
Esgotaste a amargura ate às fezes:
Parece que a fortuna em seus revezes
Te mediu pelo génio a desventura.
Combateste com ela como o cedro
Que provoca o rancor da tempestade,
Mas cuja inabalável majestade
Lhe resiste segura.
Foste grande na dor como na lira!
Quem soube mais sofrer, quem sofreu tanto?
Um anjo viste de celeste encanto,
E aos pés caíste da visão querida...
Engano! foi um astro passageiro,
Foi uma flor de perfumado alento
Que ao longe te sorriu, mas que sedento
Jamais colheste em vida.
Sob a couraça que cingiste ao peito
Do peito ansioso sufocaste a chama,
E foste ao longe procurar a fama,
Talvez, quem sabe? procurar a morte.
Mas, qual onda que o náufrago arremessa
Sobre inóspita praia sem guarida,
A morte crua te arrojou a vida,
E as injúrias da sorte.
De praia em praia divagando incerto
Tuas desditas ensinaste ao mundo:
A terra, os homens, 'té o mar profundo
Conspirados achavas em teu dano.
Ave canora em solidão gemendo,
Tiveste o génio por algoz ferino:
Teu alento imortal era divino,
Perdeste em ser humano:
Índicos vales, solidões do Ganges,
E tu, ó gruta de Macau, sombria,
Vós lhe ouvistes as queixas, e a harmonia
Desses hinos que o tempo não consome.
Foi lá, nessa rocha solitária,
Que o vate desterrado e perseguido,
À pátria, ingrata, que lhe dera o olvido,
Deu eterno renome.
"Cantemos!" disse, e triunfou da sorte.
"Cantemos!" disse, e recordando glórias,
Sobre o mesmo teatro das vitórias,
Bardo guerreiro, levantou seus hinos.
Os desastres da pátria, a sua queda,
Temendo já no meditar profundo,
Quis dar-lhe a voz do cisne moribundo
Em seus cantos divinos.
E que sentidos cantos! d'Inês triste
Se ouve mais triste o derradeiro alento,
Ensinando o que pode o sentimento
Quando um seio que amou d'amores canta:
No brado heróico da guerreira tuba
O valor português soa tremendo,
E o fero Adamastor com gesto horrendo
Inda hoje o mundo espanta!
Mas ai! a pátria não lhe ouvia o canto!
Da pátria e do cantor findava a sorte:
Aos dois juraram perdição e morte,
E os dois juntaram na mansão funérea...
Ingratos! ao que, alçando a voz do génio
Além dos astros nos erguera um sólio,
Decretaram por louro e capitólio
O leito da miséria!
Ninguém o pranto lhe enxugou piedoso...
Valeu-lhe o seu escravo, o seu amigo:
"Dai esmola a Camões, dai-lhe um abrigo!"
Dizia o triste a mendigar confuso!
Homero, Ovídio, Tasso, estranhos cisnes,
Vós, que sorvestes do infortúnio a taça,
Vinde depor as c'roas da desgraça
Aos pés do cisne luso!
Mas não tardava o derradeiro instante...
O raio ardente, que fulmina a rocha,
Também a flor que nela desabrocha,
Cresta, passando, coas etéreas lavas!
Que cena! enquanto ao longe a pátria exangue
Aos alfanges mouriscos dava o peito,
De mísero hospital num pobre leito,
Camões, tu expiravas!
Oh! quem me dera desse leito à beira
Sondar teu grande espírito nessa hora,
Por saber, quando a mágoa nos devora,
Que dor pode conter um peito humano;
Palpar teu seio, e nesse estreito espaço
Sentir a imensidade do tormento,
Combatendo-te n'alma, como o vento,
Nas ondas do Oceano!
O amor da pátria, a ingratidão dos homens,
Natércia, a glória, as ilusões passadas,
Entre as sombras da morte debuxadas,
Em teu pálido rosto já pendido;
E a pátria, oh! e a pátria que exaltaras
Nessas canções d'inspiração profunda,
Exalando contigo moribunda
Seu último gemido!
Expirou! como o nauta destemido,
Vendo a procela que o navio alaga,
E ouvindo em roda no bramir da vaga
D'horrenda morte o funeral presságio,
Aos entes corre que adorou na vida,
Em seguro baixel os põe a nado,
E esquecido de si morre abraçado
Aos restos do naufrágio:
Assim, da pátria que baixava à tumba,
Em cantos imortais salvando a pátria,
E entregando-a dos tempos à memória,
Como em gigante pedestal segura:
"Pátria querida, morreremos juntos!"
Murmurou em acento funerário,
E envolvido da pátria no sudário
Baixou à sepultura.
Quebrando a lousa do feral jazigo,
Portugal ressurgiu, vingando a afronta,
E inda hoje ao mundo sua glória aponta
Dos cantos de Camões no eterno brado;
Mas do vate imortal as frias cinzas
Esquecidas deixou na sepultura,
E o estrangeiro que passa, em vão procura
Seu túmulo ignorado.
Nenhuma pedra ou inscrição ligeira
Recorda o grã cantor... porém calemos!
Silêncio! do imortal não profanemos
Com tributos mortais a alta memória.
Camões, grande Camões; foste poeta!
Eu sei que tua sombra nos perdoa:
Que valem mausoléus antes a coroa
De tua eterna glória?
946
Fernando Pessoa
XXV - We are in Fate and Fate's and do but lack
We are in Fate and Fate's and do but lack
Outness from soul to know ourselves its dwelling,
And do but compel Fate aside or back
By Fate's own immanence in the compelling.
We are too far in us from outward truth
To know how much we are not what we are,
And live but in the heat of error's youth,
Yet young enough its acting youth to ignore.
The doubleness of mind fails us, to glance
At our exterior presence amid things,
Sizing from otherness our countenance
And seeing our puppet will's act-acting strings.
An unknown language speaks in us, which we
Are at the words of, fronted from reality.
Outness from soul to know ourselves its dwelling,
And do but compel Fate aside or back
By Fate's own immanence in the compelling.
We are too far in us from outward truth
To know how much we are not what we are,
And live but in the heat of error's youth,
Yet young enough its acting youth to ignore.
The doubleness of mind fails us, to glance
At our exterior presence amid things,
Sizing from otherness our countenance
And seeing our puppet will's act-acting strings.
An unknown language speaks in us, which we
Are at the words of, fronted from reality.
4 212
Fernando Pessoa
II - Me, Chloe, a maid, the mighty fates have given,
Me, Chloe, a maid, the mighty fates have given,
Who was nought to them, to the peopled shades.
Thus the gods will. My years were but twice seven.
I am forgotten in my distant glades.
Who was nought to them, to the peopled shades.
Thus the gods will. My years were but twice seven.
I am forgotten in my distant glades.
3 724
Fernando Pessoa
V - I conquered. Far barbarians hear my name.
I conquered. Far barbarians hear my name.
Men were dice in my game,
But to my throw myself did lesser come:
I threw dice, Fate the sum.
Men were dice in my game,
But to my throw myself did lesser come:
I threw dice, Fate the sum.
3 915
Fernando Pessoa
[3] A Outra Asa do Grifo: AFONSO DE ALBUQUERQUE
A OUTRA ASA DO GRIFO
AFONSO DE ALBUQUERQUE
De pé, sobre os países conquistados
Desce os olhos cansados
De ver o mundo e a injustiça e a sorte.
Não pensa em vida ou morte,
Tão poderoso que não quer o quanto
Pode, que o querer tanto
Calcara mais do que o submisso mundo
Sob o seu passo fundo.
Três impérios do chão lhe a Sorte apanha.
Criou-os como quem desdenha.
26/09/1928
AFONSO DE ALBUQUERQUE
De pé, sobre os países conquistados
Desce os olhos cansados
De ver o mundo e a injustiça e a sorte.
Não pensa em vida ou morte,
Tão poderoso que não quer o quanto
Pode, que o querer tanto
Calcara mais do que o submisso mundo
Sob o seu passo fundo.
Três impérios do chão lhe a Sorte apanha.
Criou-os como quem desdenha.
26/09/1928
4 515
Fernando Pessoa
Primeiro: O DOS CASTELOS
PRIMEIRO
O DOS CASTELOS
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
O DOS CASTELOS
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
5 450
José Tolentino Mendonça
Da verdade do amor
Da verdade do amor se meditam
relatos de viagens confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito
pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados
não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce sem rumor
relatos de viagens confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito
pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados
não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce sem rumor
2 452
Maria João
Um amor proibido
Estou silenciosa, de frente para a ponte
atrevendo-me, sem me atrever a atravessá-la
Tu olhas-me carinhoso, do outro lado,
atrevendo-te, sem te atreveres a atravessá-la
o meu coração mantém-se embrulhado em
seda branca
Incapaz de respirar ou ver
Estou parada neste homem, sem me mover,
à espera
Uma poeira laranja invade devagar
esta paisagem estrangeira
e o meu coração estoira
Então, enquanto o dia entra pela noite
eu abro a gaveta da minha bravura
e firme passo sobre o preconceito das gentes
Um passo
depois outro
amorosamente atravessando a ponte
atrevendo-me, sem me atrever a atravessá-la
Tu olhas-me carinhoso, do outro lado,
atrevendo-te, sem te atreveres a atravessá-la
o meu coração mantém-se embrulhado em
seda branca
Incapaz de respirar ou ver
Estou parada neste homem, sem me mover,
à espera
Uma poeira laranja invade devagar
esta paisagem estrangeira
e o meu coração estoira
Então, enquanto o dia entra pela noite
eu abro a gaveta da minha bravura
e firme passo sobre o preconceito das gentes
Um passo
depois outro
amorosamente atravessando a ponte
1 022
Arsenii Tarkovskii
Os Primeiros Encontros
Os Primeiros Encontros
Cada momento passado juntos Era uma celebração, uma Epifania, Nós os dois sozinhos no mundo. Tu, tão audaz, mais leve que uma asa, Descias numa vertigem a escada A dois e dois, arrastando-me Através de húmidos lilases, aos teus domínios Do outro lado, passando o espelho.
Pela noite
concedias-me o favor,
Abriam-se as portas do altar
E a nossa nudez iluminava o escuro
À medida que genufletia. E ao acordar
Eu diria Abençoada sejas!
Sabendo como pretenciosa era a benção:
Dormias, os lilases tombavam da mesa
Para tocar-te as pálpebras num universo de azul,
E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras
Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.
Rios palpitantes
por dentro do cristal,
A montanha assomando na bruma, mar enfurecido,
E tu com a bola de cristal nas mãos,
Sentada num trono enquanto domes,
Deus do céu! tu pertences-me.
Acordas para transfigurar
As palavras de todos os dias,
E o teu discorrer transbordante
De poder revela na palavra tu
o seu novo sentido: significa rei.
Simples objectos transfigurados,
Tudo a bacia, o jarro , tudo
Uma vez de sentinela entre nós
Se torna límpido, laminar e firme.
Íamos,
sem saber para onde,
Perseguidos por miragens de cidades
Derrotadas construídas no milagre,
Hortelã pimenta aos nossos pés,
As aves acompanhando-nos o voo,
E no rio os peixes á procura da nascente;
O céu, a nós se abrindo.
Porque o destino
seguia-nos o rastro
Como um louco com uma navalha na mão.
Cada momento passado juntos Era uma celebração, uma Epifania, Nós os dois sozinhos no mundo. Tu, tão audaz, mais leve que uma asa, Descias numa vertigem a escada A dois e dois, arrastando-me Através de húmidos lilases, aos teus domínios Do outro lado, passando o espelho.
Pela noite
concedias-me o favor,
Abriam-se as portas do altar
E a nossa nudez iluminava o escuro
À medida que genufletia. E ao acordar
Eu diria Abençoada sejas!
Sabendo como pretenciosa era a benção:
Dormias, os lilases tombavam da mesa
Para tocar-te as pálpebras num universo de azul,
E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras
Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.
Rios palpitantes
por dentro do cristal,
A montanha assomando na bruma, mar enfurecido,
E tu com a bola de cristal nas mãos,
Sentada num trono enquanto domes,
Deus do céu! tu pertences-me.
Acordas para transfigurar
As palavras de todos os dias,
E o teu discorrer transbordante
De poder revela na palavra tu
o seu novo sentido: significa rei.
Simples objectos transfigurados,
Tudo a bacia, o jarro , tudo
Uma vez de sentinela entre nós
Se torna límpido, laminar e firme.
Íamos,
sem saber para onde,
Perseguidos por miragens de cidades
Derrotadas construídas no milagre,
Hortelã pimenta aos nossos pés,
As aves acompanhando-nos o voo,
E no rio os peixes á procura da nascente;
O céu, a nós se abrindo.
Porque o destino
seguia-nos o rastro
Como um louco com uma navalha na mão.
1 150
Pablo Neruda
Esperemos
Há outros dias que não têm chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
— há fábricas de dias que virão —
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
— há fábricas de dias que virão —
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.
1 455
Nilton Santos Filho
Poeta Baiano Contemporâneo
I
Enlouquecendo, observo o tempo passar
Num sucessivo desenho sem bússola a marcar...
Logo que percebo esta cadência de heróico astral,
Ocorre-me à idéia da captura do segundo capital
Um ímpeto gigante traduzido em furor
Que, embora intocável, mostra-me pavor. É o
Ultimato que recebo e percebo.
É a certeza de que o escore fossilizado é
Concentrado no seu próprio contexto impregnado
Entardece a minha consciência...
Navega a minha paciência...
Dissipam-se os meus conflitos...
Ofuscam-se os meus delitos...
Estou certo de que o instante
Se cornporta sendo gestação de juventude,
Tomado pela captura de um certo flagrante
Ou pela busca de máxima magnitude
Ultrapasso e solto meu laço.
II
Caminhado incansavelmente na direção,
Aposto na corrida pelo desempate...
Marco o labirinto, mas a minha afobação,
Idealizada numa fuga em arremate,
Não me proporciona histeria, somente alegria.
Hei de ser um fugitivo da instabilidade,
Apesar de ser socorrido pela fragilidade
Na hora em que me encontro distante
Do grito, do rito, da cura incessante!
Oro, às vezes choro, mas nunca demoro...
Vou exibindo uma forma com estrutura
Onde cada flanco se encaixa na conjuntura:
Uma honra, minha sombra, jamais cãibra.
III
Seguindo adiante,
Encontro, triste, a censura:
Gentileza ou sutileza do destino que me força à clausura,
Uma fadiga que tenta impedir-me avante.
Inconformado, porém não impune,
Necessito da denúncia que ora se reúne,
Ditando seu próprio neologismo,
Ofertando-me todo empenho do seu fisiologismo.
Esta castração é para mim mesmo apática...
Sequer necessita de dose homeopática. Ela é
Totalmente desvirtuada de propósito,
Apesar do seu domínio em mim não ter depósito.
Trilha de carência em decadência.
Rumo de vida, de opção assumida.
Inferno de pó, para quem está só.
Luta ferina de própria doutrina.
Hipérbole neurótica da lógica ou ótica.
Abismo sem luta para quem reluta.
IV
Jamais pensei que a força do improviso
Abandonasse a minha fome.
Mesmo que uma sede me venha como aviso,
Atravessarei, desatinadamente, um oceano
Inundado pelo nome, agitado pelo plano.
Serei seguido somente, sem ser suprimido.
Serei acerto e não fútil.
Experimentarei a ilusão útil.
Retratarei a razão por mim caricaturada
E, encontrarei a defensiva suturada,
Invertida, comprometida, machucada.
Ilha incendiando, impera-me a criatividade inesgotável
Limites são o meu calvário.
Habitualmente, são pontos de controle insuportável
Atirando-me de encontro ao meu desejo visionário.
V
Estarei assim, fazendo figa cirandar,
Sendo cópia de um choro,
Tomado por causa falada em coro:
Acrobacia de um filósofo do sonhar.
Repetirei a tentativa trêmula
E, agitarei esta pequena flâmula,
Inventando uma linguagem de tatuagem.
Espalhando a poesia como fermento,
Sentirei que o fenômeno é movimento
Paulatino que se exibe estratégico,
Afora seu comportamento léxico.
Lançarei ao vento a eutanásia evaporada,
Hipnotizada pela crença sem freio,
Aonde a inabilidade da escrita for encontrada
Num instante em que o devaneio
De um poeta seja a porta indiscreta,
Ou um arrobo gêmeo do seu próprio roubo.
VI
Meu caminho se lançará sem temer o adultério
Em ondas de acúmulo sem aborto:
Um bálsamo de etéreo acordo.
Canto, encanto, desato e afronto,
Assim conseguirei sobreviver
Num espaço onde a consciência
Toma conta da paciência,
Ordenando-lhe sua incansável fonte de saber.
Meu instante que sempre se renova
Está prestes a se tornar múltiplo :
Unitários mesmo só a vontade nova e o gesto último.
Mando celebrar a minha reza,
Acabando com a minha passividade
Num altar perfumado pela luz vermelha
Distorcida na verdade que se reveza,
Ocultando a imagem iniciando a minha nova viagem...
Enlouquecendo, observo o tempo passar
Num sucessivo desenho sem bússola a marcar...
Logo que percebo esta cadência de heróico astral,
Ocorre-me à idéia da captura do segundo capital
Um ímpeto gigante traduzido em furor
Que, embora intocável, mostra-me pavor. É o
Ultimato que recebo e percebo.
É a certeza de que o escore fossilizado é
Concentrado no seu próprio contexto impregnado
Entardece a minha consciência...
Navega a minha paciência...
Dissipam-se os meus conflitos...
Ofuscam-se os meus delitos...
Estou certo de que o instante
Se cornporta sendo gestação de juventude,
Tomado pela captura de um certo flagrante
Ou pela busca de máxima magnitude
Ultrapasso e solto meu laço.
II
Caminhado incansavelmente na direção,
Aposto na corrida pelo desempate...
Marco o labirinto, mas a minha afobação,
Idealizada numa fuga em arremate,
Não me proporciona histeria, somente alegria.
Hei de ser um fugitivo da instabilidade,
Apesar de ser socorrido pela fragilidade
Na hora em que me encontro distante
Do grito, do rito, da cura incessante!
Oro, às vezes choro, mas nunca demoro...
Vou exibindo uma forma com estrutura
Onde cada flanco se encaixa na conjuntura:
Uma honra, minha sombra, jamais cãibra.
III
Seguindo adiante,
Encontro, triste, a censura:
Gentileza ou sutileza do destino que me força à clausura,
Uma fadiga que tenta impedir-me avante.
Inconformado, porém não impune,
Necessito da denúncia que ora se reúne,
Ditando seu próprio neologismo,
Ofertando-me todo empenho do seu fisiologismo.
Esta castração é para mim mesmo apática...
Sequer necessita de dose homeopática. Ela é
Totalmente desvirtuada de propósito,
Apesar do seu domínio em mim não ter depósito.
Trilha de carência em decadência.
Rumo de vida, de opção assumida.
Inferno de pó, para quem está só.
Luta ferina de própria doutrina.
Hipérbole neurótica da lógica ou ótica.
Abismo sem luta para quem reluta.
IV
Jamais pensei que a força do improviso
Abandonasse a minha fome.
Mesmo que uma sede me venha como aviso,
Atravessarei, desatinadamente, um oceano
Inundado pelo nome, agitado pelo plano.
Serei seguido somente, sem ser suprimido.
Serei acerto e não fútil.
Experimentarei a ilusão útil.
Retratarei a razão por mim caricaturada
E, encontrarei a defensiva suturada,
Invertida, comprometida, machucada.
Ilha incendiando, impera-me a criatividade inesgotável
Limites são o meu calvário.
Habitualmente, são pontos de controle insuportável
Atirando-me de encontro ao meu desejo visionário.
V
Estarei assim, fazendo figa cirandar,
Sendo cópia de um choro,
Tomado por causa falada em coro:
Acrobacia de um filósofo do sonhar.
Repetirei a tentativa trêmula
E, agitarei esta pequena flâmula,
Inventando uma linguagem de tatuagem.
Espalhando a poesia como fermento,
Sentirei que o fenômeno é movimento
Paulatino que se exibe estratégico,
Afora seu comportamento léxico.
Lançarei ao vento a eutanásia evaporada,
Hipnotizada pela crença sem freio,
Aonde a inabilidade da escrita for encontrada
Num instante em que o devaneio
De um poeta seja a porta indiscreta,
Ou um arrobo gêmeo do seu próprio roubo.
VI
Meu caminho se lançará sem temer o adultério
Em ondas de acúmulo sem aborto:
Um bálsamo de etéreo acordo.
Canto, encanto, desato e afronto,
Assim conseguirei sobreviver
Num espaço onde a consciência
Toma conta da paciência,
Ordenando-lhe sua incansável fonte de saber.
Meu instante que sempre se renova
Está prestes a se tornar múltiplo :
Unitários mesmo só a vontade nova e o gesto último.
Mando celebrar a minha reza,
Acabando com a minha passividade
Num altar perfumado pela luz vermelha
Distorcida na verdade que se reveza,
Ocultando a imagem iniciando a minha nova viagem...
558
Noel Rosa
Até amanhã
Até amanha, se Deus quiser
Se não chover eu volto
Pra te ver, ó mulher
De ti gosto mais que outra qualquer
Não vou por gosto
O destino é quem quer
Adeus é pra quem deixa a vida
É sempre na certa que eu jogo
Três palavras vou dizer por despedida
Até amanha, até já, até logo
O mundo é um samba que eu danço
Sem nunca sair do meu trilho
Vou cantando o teu nome sem descanso
Pois do meu samba tu és o estrilho.
Se não chover eu volto
Pra te ver, ó mulher
De ti gosto mais que outra qualquer
Não vou por gosto
O destino é quem quer
Adeus é pra quem deixa a vida
É sempre na certa que eu jogo
Três palavras vou dizer por despedida
Até amanha, até já, até logo
O mundo é um samba que eu danço
Sem nunca sair do meu trilho
Vou cantando o teu nome sem descanso
Pois do meu samba tu és o estrilho.
1 625
Nilton Santos Filho
O encontro
O encontro...
Luzes sorrindo do destino alcançado.
Cascatas em cores múltiplas combinadas
Vibrações sísmicas destruidoras do medo.
Orgulho passado ao vento lançado.
Receio jogado pelas mãos
Momento infinito que nunca foi cedo:
uma história prevista jamais um conto.
O encanto...
Sinal permissível ao intenso convívio.
Noite caindo sob o olho vigilante da lua
Choque tímido de escandaloso contentamento.
Ânsia colada nas asas do futuro que continua.
Prisão cercada de completo desprendimento.
Recompensa acariciada pelo suspiro de um alívio:
um destino implacável, um verdadeiro espanto.
A aceitação...
Convite sincero mascarado de pretexto.
Cumplicidade fiel de sorridente deleite.
Prazer amadurecendo sobretudo supremo.
Sutileza inteligente sempre num contexto.
Confirmação convexa e reflexa do lógico aceite,
Evidência que busca a recíproca ao extremo:
um sentimento mais nobre que a sorte lançada.
A convivência...
Entrelace de nós amarrado com firmeza.
Clareza da situação divisória do refúgio.
Prelúdio do êxtase sempre e sempre vigente.
Semente paciente contemplada pela paixão.
Refrão uníssono com verso diverso.
Reverso adverso à perda sorrateira da razão:
a condição já é filha de uma premissa alcançada.
Luzes sorrindo do destino alcançado.
Cascatas em cores múltiplas combinadas
Vibrações sísmicas destruidoras do medo.
Orgulho passado ao vento lançado.
Receio jogado pelas mãos
Momento infinito que nunca foi cedo:
uma história prevista jamais um conto.
O encanto...
Sinal permissível ao intenso convívio.
Noite caindo sob o olho vigilante da lua
Choque tímido de escandaloso contentamento.
Ânsia colada nas asas do futuro que continua.
Prisão cercada de completo desprendimento.
Recompensa acariciada pelo suspiro de um alívio:
um destino implacável, um verdadeiro espanto.
A aceitação...
Convite sincero mascarado de pretexto.
Cumplicidade fiel de sorridente deleite.
Prazer amadurecendo sobretudo supremo.
Sutileza inteligente sempre num contexto.
Confirmação convexa e reflexa do lógico aceite,
Evidência que busca a recíproca ao extremo:
um sentimento mais nobre que a sorte lançada.
A convivência...
Entrelace de nós amarrado com firmeza.
Clareza da situação divisória do refúgio.
Prelúdio do êxtase sempre e sempre vigente.
Semente paciente contemplada pela paixão.
Refrão uníssono com verso diverso.
Reverso adverso à perda sorrateira da razão:
a condição já é filha de uma premissa alcançada.
531
Goulart Gomes
Batalha Final
se amanhã me condenarem à morte
ou se o halley beijar sofregamente a terra
quero ver por último o brilho dos teus olhos
quando a praia vier dar no meu quintal
e todo magma exsudar na minha sala
vou inalar profundamente os teus cabelos
quando toda lava do vesúvio e
todo suspiro dos vendavais
assomarem à minha rua
será no teu colo que estarei deitado
(des)esperando o último momento
ainda que todo o sal dos oceanos
e toda terra das montanhas
aterrissem no meu teto
só teus lábios soterrarão meu corpo
os tanques cinzas do tio sam estacionarão no abaeté
e ferirão o farol com seus punhais
mas eu estarei deitado
acima, abaixo, sob, sobre, ao lado
em você, de qualquer jeito
quando todos se forem, míssil indetonado
e quando os patriots e exocets desfizerem minhas nuvens
não haverá dia seguinte:
estarei no túmulo dos teus braços
explodindo em milhões de átomos, desintegrando:
o último soldado desconhecido...
ou se o halley beijar sofregamente a terra
quero ver por último o brilho dos teus olhos
quando a praia vier dar no meu quintal
e todo magma exsudar na minha sala
vou inalar profundamente os teus cabelos
quando toda lava do vesúvio e
todo suspiro dos vendavais
assomarem à minha rua
será no teu colo que estarei deitado
(des)esperando o último momento
ainda que todo o sal dos oceanos
e toda terra das montanhas
aterrissem no meu teto
só teus lábios soterrarão meu corpo
os tanques cinzas do tio sam estacionarão no abaeté
e ferirão o farol com seus punhais
mas eu estarei deitado
acima, abaixo, sob, sobre, ao lado
em você, de qualquer jeito
quando todos se forem, míssil indetonado
e quando os patriots e exocets desfizerem minhas nuvens
não haverá dia seguinte:
estarei no túmulo dos teus braços
explodindo em milhões de átomos, desintegrando:
o último soldado desconhecido...
1 050
Dunshee de Abranches
A Selva
De pé, no tombadilho, olhos fitos no espaço,
Colombo, palpitante, estende o forte braço,
aos capitães mostrando, ao longe, sobre a esteira
dos negros vagalhões a luz de uma fogueira...
Há três noites velava, há três noites sentia
a esperança deixar-lhe o peito, e a fantasia
fugir-lhe já também. Rugiam os porões
de fome e de cansaço... e ocas conspirações
iam lentas mudando a bruta marinhagem
o amor do comandante em amor à carnagem.
Há três luas partira a frota de Castela;
e em cada uma lufada a enfunar a vela,
em toda a aurora nova, em todo o novo ocaso,
mais a pátria fugia, e mais e mais o acaso,
impávido matava as velhas tradições,
mostrando a cada instante aos crentes corações
que o Caos inda era a luz, que o Abismo inda era o mar!
jamais se vira um monstro, um só, se levantar
por sobre os vagalhões, grandíloquo, medonho,
como a Grécia sentiu nesse homérico sonho
que os templos levantou e fez as Odisséias.
Colombo, palpitante, estende o forte braço,
aos capitães mostrando, ao longe, sobre a esteira
dos negros vagalhões a luz de uma fogueira...
Há três noites velava, há três noites sentia
a esperança deixar-lhe o peito, e a fantasia
fugir-lhe já também. Rugiam os porões
de fome e de cansaço... e ocas conspirações
iam lentas mudando a bruta marinhagem
o amor do comandante em amor à carnagem.
Há três luas partira a frota de Castela;
e em cada uma lufada a enfunar a vela,
em toda a aurora nova, em todo o novo ocaso,
mais a pátria fugia, e mais e mais o acaso,
impávido matava as velhas tradições,
mostrando a cada instante aos crentes corações
que o Caos inda era a luz, que o Abismo inda era o mar!
jamais se vira um monstro, um só, se levantar
por sobre os vagalhões, grandíloquo, medonho,
como a Grécia sentiu nesse homérico sonho
que os templos levantou e fez as Odisséias.
1 012
Pablo Neruda
Fulgor e morte de Joaquín Murieta
Esta é a longa história de um homem inflamado.
Natural, valoroso, sua memória é uma acha de guerra.
É tempo de abrir o repouso, o sepulcro do claro bandido
e romper o ouvido oxidado que agora o enterra.
Talvez não encontrou seu destino o soldado e lamento
não ter conversado com ele, e com uma garrafa de vinho
ter esperado na História que passasse algum dia seu grande regimento.
Talvez aquele homem perdido no vento houvesse mudado o caminho.
O sangue caído lhe pôs nas mãos um raio violento,
agora passaram cem anos e já não podemos mudar seu destino:
assim é que comecemos sem ele e sem vinho nesta hora quieta
a história de meu compatriota, o bandido honorável don Joaquín Murieta.
É longa a história que aterra mais tarde e que nasce aqui abaixo
nesta angustura de terra que o Polo nos trouxe e o mar e a neve disputam,
aqui entre pereiras e telhas e chuva brilhavam as uvas chilenas
e como uma taça de prata que enche a noite sombria de pálido vinho
a lua do Chile crescia entre boldos, maitenes10, alfavacas, orégano, jasmins, feijões, loureiros, orvalho,
então nascia à luz do planeta um infante moreno
e na sombra serena é o raio que nasce, se chama Murieta,
e ninguém suspeita à luz da lua que um raio nascente
adormece no berço enquanto se esconde nos montes a lua:
é um menino chileno cor de azeitona e seus olhos ignoram o pranto.
Minha pátria lhe deu as medalhas do campo bravio, do pampa ardente:
parece ter forjado com frio e com brasas para uma batalha
seu corpo de arado e é um desafio sua voz e suas mãos são duas ameaças.
Vingança é o ferro, a pedra, a chuva, a fúria, a lança,
a chama, o rancor do desterro, a paz crepitante,
e o homem distante fica cego clamando na sombra vingança,
buscando na noite esperança sangrenta e castigo constante,
desperta o arredio e percorre a cavalo a terra noturna. Deus meu,
que busca o escuro à espreita do dano que brilha em sua mão cortante?
Vingança é o nome instantâneo de seu calafrio
que crava a carne ou golpeia no crânio ou assusta com boca alarmante
e mata e se afasta o dançante mortal galopando à beira do rio.
A chama do ouro percorre a terra do Chile do mar aos montes
e começa o desfile do horizonte até o Porto, o magnético feitiço,
despovoa Quillota, debulha Coquimbo, as naves esperam em Valparaíso.
Crescendo à sombra de salgueiros flexíveis nadava nos rios, domava os potros, lançava os laços,
ardia no brio, educava os braços, a alma, os olhos, e se ouviam cantar as esporas
quando do fundo do outono vermelho descia a galope em sua égua de estanho
vinha da cordilheira, de pedras hirsutas, de cerros hostis, de vento inumano,
trazia nas mãos o golpe vizinho do rio que fustiga e divide a neve fragrante e jazente
e o transpassava aquele livre alvedrio, a virtude selvagem que toca a fronte
dos indomáveis e sela com ira e limpeza o orgulho de algumas cabeças
que guarda o destino em suas atas de fogo e pureza, e assim o elegido
não sabe que está prometido e que deve matar e morrer na empresa.
Assim são as coisas amigo e é bom aprender e que saiba e conheça
os versos que escrevi e repita contando e cantando a lembrança de um livre chileno proscrito
que andando e andando e morrendo foi um mito infinito:
sua infância cantei ao instante e sabemos que foi o caminhante muito longe,
um dia mataram o chileno errante, contam os velhos de noite ao braseiro
e é como se falasse o riacho, a chuva silvante ou na nevasca chorasse no vento a neve distante
porque de Aconcágua partiu num veleiro buscando na água um caminho
e para a Califórnia a morte e o ouro chamavam com vozes ardentes que no fim decidiram seu negro destino.
Mas no caminho marinho, no branco veleiro maulino11
o amor sobreveio e Murieta descobre uns olhos escuros,
se sente inseguro perdido na nova certeza:
sua noiva se chama Tereza e ele não conheceu mulher camponesa
como esta Tereza que beija sua boca e seu sangue, e no grande oceano
perdida a barca na bruma, o amor se consuma e Murieta pressente que é este o amor infinito
e sabe talvez que está escrito seu fim e a morte o espera
e pede à Tereza sua noiva e mulher que se case com ele na nave veleira
e na primavera marinha Joaquín, domador de cavalos, tomou por esposa Tereza, mulher camponesa,
e os imigrantes em busca do ouro inumano e distante celebram este casamento
ouvindo as ondas que elevam seu eterno lamento;
e tal é a estranha cegueira do homem no rito da passageira alegria;
na nave o amor acendeu uma fogueira; não sabem que já começou a agonia.
Natural, valoroso, sua memória é uma acha de guerra.
É tempo de abrir o repouso, o sepulcro do claro bandido
e romper o ouvido oxidado que agora o enterra.
Talvez não encontrou seu destino o soldado e lamento
não ter conversado com ele, e com uma garrafa de vinho
ter esperado na História que passasse algum dia seu grande regimento.
Talvez aquele homem perdido no vento houvesse mudado o caminho.
O sangue caído lhe pôs nas mãos um raio violento,
agora passaram cem anos e já não podemos mudar seu destino:
assim é que comecemos sem ele e sem vinho nesta hora quieta
a história de meu compatriota, o bandido honorável don Joaquín Murieta.
É longa a história que aterra mais tarde e que nasce aqui abaixo
nesta angustura de terra que o Polo nos trouxe e o mar e a neve disputam,
aqui entre pereiras e telhas e chuva brilhavam as uvas chilenas
e como uma taça de prata que enche a noite sombria de pálido vinho
a lua do Chile crescia entre boldos, maitenes10, alfavacas, orégano, jasmins, feijões, loureiros, orvalho,
então nascia à luz do planeta um infante moreno
e na sombra serena é o raio que nasce, se chama Murieta,
e ninguém suspeita à luz da lua que um raio nascente
adormece no berço enquanto se esconde nos montes a lua:
é um menino chileno cor de azeitona e seus olhos ignoram o pranto.
Minha pátria lhe deu as medalhas do campo bravio, do pampa ardente:
parece ter forjado com frio e com brasas para uma batalha
seu corpo de arado e é um desafio sua voz e suas mãos são duas ameaças.
Vingança é o ferro, a pedra, a chuva, a fúria, a lança,
a chama, o rancor do desterro, a paz crepitante,
e o homem distante fica cego clamando na sombra vingança,
buscando na noite esperança sangrenta e castigo constante,
desperta o arredio e percorre a cavalo a terra noturna. Deus meu,
que busca o escuro à espreita do dano que brilha em sua mão cortante?
Vingança é o nome instantâneo de seu calafrio
que crava a carne ou golpeia no crânio ou assusta com boca alarmante
e mata e se afasta o dançante mortal galopando à beira do rio.
A chama do ouro percorre a terra do Chile do mar aos montes
e começa o desfile do horizonte até o Porto, o magnético feitiço,
despovoa Quillota, debulha Coquimbo, as naves esperam em Valparaíso.
Crescendo à sombra de salgueiros flexíveis nadava nos rios, domava os potros, lançava os laços,
ardia no brio, educava os braços, a alma, os olhos, e se ouviam cantar as esporas
quando do fundo do outono vermelho descia a galope em sua égua de estanho
vinha da cordilheira, de pedras hirsutas, de cerros hostis, de vento inumano,
trazia nas mãos o golpe vizinho do rio que fustiga e divide a neve fragrante e jazente
e o transpassava aquele livre alvedrio, a virtude selvagem que toca a fronte
dos indomáveis e sela com ira e limpeza o orgulho de algumas cabeças
que guarda o destino em suas atas de fogo e pureza, e assim o elegido
não sabe que está prometido e que deve matar e morrer na empresa.
Assim são as coisas amigo e é bom aprender e que saiba e conheça
os versos que escrevi e repita contando e cantando a lembrança de um livre chileno proscrito
que andando e andando e morrendo foi um mito infinito:
sua infância cantei ao instante e sabemos que foi o caminhante muito longe,
um dia mataram o chileno errante, contam os velhos de noite ao braseiro
e é como se falasse o riacho, a chuva silvante ou na nevasca chorasse no vento a neve distante
porque de Aconcágua partiu num veleiro buscando na água um caminho
e para a Califórnia a morte e o ouro chamavam com vozes ardentes que no fim decidiram seu negro destino.
Mas no caminho marinho, no branco veleiro maulino11
o amor sobreveio e Murieta descobre uns olhos escuros,
se sente inseguro perdido na nova certeza:
sua noiva se chama Tereza e ele não conheceu mulher camponesa
como esta Tereza que beija sua boca e seu sangue, e no grande oceano
perdida a barca na bruma, o amor se consuma e Murieta pressente que é este o amor infinito
e sabe talvez que está escrito seu fim e a morte o espera
e pede à Tereza sua noiva e mulher que se case com ele na nave veleira
e na primavera marinha Joaquín, domador de cavalos, tomou por esposa Tereza, mulher camponesa,
e os imigrantes em busca do ouro inumano e distante celebram este casamento
ouvindo as ondas que elevam seu eterno lamento;
e tal é a estranha cegueira do homem no rito da passageira alegria;
na nave o amor acendeu uma fogueira; não sabem que já começou a agonia.
1 125
Pablo Neruda
L
Quem pode convencer o mar
para que seja razoável?
De que lhe serve demolir
âmbar azul, granito verde?
E para que tantas marcas
e tantos sulcos no rochedo?
Cheguei de detrás do mar
e onde vou quando me atalha?
Por que encerrei meu caminho
caindo no ardil do mar?
para que seja razoável?
De que lhe serve demolir
âmbar azul, granito verde?
E para que tantas marcas
e tantos sulcos no rochedo?
Cheguei de detrás do mar
e onde vou quando me atalha?
Por que encerrei meu caminho
caindo no ardil do mar?
950
Ona Gaia
Evolução
As armas sangram açaí
de risos ariscos e roxos
mas na décima parte
de toda a vida
a ida não encontrará fim
porque se num dia foram muitos
na eterna abóbada celeste sim
pras estrelas só haverá um
mais poderoso que todos eles
quando tudo parecer perdido
quando tudo parecer nenhum.
de risos ariscos e roxos
mas na décima parte
de toda a vida
a ida não encontrará fim
porque se num dia foram muitos
na eterna abóbada celeste sim
pras estrelas só haverá um
mais poderoso que todos eles
quando tudo parecer perdido
quando tudo parecer nenhum.
829
Prado Kelly
Relógio
Teces, fios do Tempo, as Horas... Em nevoentos
dias, severo deus, Cronos vívido, escreves,
na eterna oscilação dos nossos pensamentos,
glórias benditas, gozos suaves, sonhos leves.
E, enquanto marcas, no fragor dos sentimentos,
horas rubras de chama e horas frias de neves,
para instantes de dor teus compassos são lentos,
para sonhos de amor teus minutos são breves.
Dá-me repouso, ó Tempo, e dai-me, Horas augustas,
a esmola do sossego e a mercê do abandono.
Quero dormir... A treva é a luz das almas justas.
E, ó Destino, concede à minha alma incendida
a Morte, pois a Morte é o infinito do sono
e o sono, mais que tudo, é o conforto da Vida.
dias, severo deus, Cronos vívido, escreves,
na eterna oscilação dos nossos pensamentos,
glórias benditas, gozos suaves, sonhos leves.
E, enquanto marcas, no fragor dos sentimentos,
horas rubras de chama e horas frias de neves,
para instantes de dor teus compassos são lentos,
para sonhos de amor teus minutos são breves.
Dá-me repouso, ó Tempo, e dai-me, Horas augustas,
a esmola do sossego e a mercê do abandono.
Quero dormir... A treva é a luz das almas justas.
E, ó Destino, concede à minha alma incendida
a Morte, pois a Morte é o infinito do sono
e o sono, mais que tudo, é o conforto da Vida.
639
Natércia Freire
Fantasmas
Mesmo que vós me toqueis,
ainda assim me não contento.
Mesmo que vós me leveis ...
Estão muito longe os anéis
que há nos cabelos ao vento ...
Para nossos bailes de fumo
não há saletas reais.
Corpos de fio de prumo,
olhos de barcos sem rumo
e ouvidos nos temporais.
Quando a casa dorme e sonha
é que os passos vem espreitar.
Da torre negra, as cegonhas,
sobre a planície que sonha,
deitam fantasmas ao mar.
Minhas claras companhias!
Ainda assim me não contento.
Há de haver praias vazias,
melancolias bravias
como aquelas que eu invento.
Tudo que em mim é fracasso
já não tem raiz humana.
Nas pontas do mesmo laço
é que o aço nos irmana.
Convosco em pó me desato
e a viagem não termina.
Parto de mim em retrato
no movimento sem ato
que o Destino me destina.
ainda assim me não contento.
Mesmo que vós me leveis ...
Estão muito longe os anéis
que há nos cabelos ao vento ...
Para nossos bailes de fumo
não há saletas reais.
Corpos de fio de prumo,
olhos de barcos sem rumo
e ouvidos nos temporais.
Quando a casa dorme e sonha
é que os passos vem espreitar.
Da torre negra, as cegonhas,
sobre a planície que sonha,
deitam fantasmas ao mar.
Minhas claras companhias!
Ainda assim me não contento.
Há de haver praias vazias,
melancolias bravias
como aquelas que eu invento.
Tudo que em mim é fracasso
já não tem raiz humana.
Nas pontas do mesmo laço
é que o aço nos irmana.
Convosco em pó me desato
e a viagem não termina.
Parto de mim em retrato
no movimento sem ato
que o Destino me destina.
1 197
José Castello
Histórias de poesia e pobreza
Amais inquietante história relatada por Paul Auster em A Arte da Fome, coletânea de prefácios, entrevistas e ensaios que acaba de ser traduzida pela José Olympio, não fala de fantasmas, ou de meninos que voam, como os que aparecem em sua Trilogia de Nova York, mas ainda assim é de dar arrepios. Auster, que foi um poeta mediano antes de se transformar em grande ficcionista, a conta em uma entrevista, concedida 11 anos depois da experiência que rememora e agora reproduzida no livro.
Dominado pelo sonho de escrever narrativas de ficção, mas obrigado pelos fatos da vida a se satisfazer com o espaço mais restrito (e, para ele, menos perigoso) da poesia, Auster já tinha se decidido, no fim dos anos 70, a abandonar de vez as fantasias literárias para se dedicar, apenas, a ganhar dinheiro. "Houve momentos em que eu pensei que tivesse chegado ao fim, que eu jamais escreveria outra palavra", rememora. Em dezembro de 1978, porém, um amigo coreógrafo o leva, sem nenhuma intenção particular, ao ensaio aberto de um balé. Auster, deprimido, se deixa arrastar. Sem qualquer expectativa especial em relação ao espetáculo, o escritor é, aos poucos, inundado pelo que vê. Dá-se uma revelação, um desses eventos inexplicáveis em que o acaso se mescla à sensibilidade e, no rasto desse vazamento, o invisível se torna visível.
Ao voltar para casa, ele se tranca no escritório e começa a escrever Espaços Brancos, obra sem gênero preciso onde, por fim, a vocação para a prosa se impõe. Escreve, compulsivamente, até as três da madrugada quando cai, exaurido, em sono profundo. Às oito da manhã, o telefone toca: alguém lhe comunica a morte repentina de seu pai, vítima de um ataque cardíaco. Semanas depois, Auster recebe uma herança que lhe dá, pela primeira vez na vida, a liberdade de escrever o que bem entende, sem se preocupar com as urgências do tempo e as contas do fim do mês.
"Não consigo me sentar e escrever sem pensar nisso", diz. "Afinal, que terrível equação! Pensar que a morte de meu pai salvou minha vida." Não é preciso aqui rastejar até a lama dos clichês edipianos, ou buscar a muleta das interpretações esotéricas. O horror está nos fatos. Auster teria permanecido um poeta medíocre se o acaso, esse deus sinuoso e complicado, não tivesse agido simultaneamente contra ele e a favor dele.
Essa história não me abandona no momento em que vejo Orides Fontela, a autora de Teia, a professora aposentada que vive na miséria, a poeta que a mídia transformou em "caso clínico", inteiramente asfixiada pela manipulação pública de sua pobreza. Não que Orides tenha que, ela também, ser bafejada por um golpe ambíguo da sorte para abandonar a poesia e se dedicar a outro gênero. Os versos são, mesmo, seu destino. Mas, diante da pobreza, todo discurso elevado - e o mais elevado de todos é o cínico - se torna uma malversação. E nem a piedade, nem o cinismo, produzem poesia.
Penso em Orides porque é impossível não dar valor à sua raiva, à sua decepção à sua sede aturdida de respeito que a mídia, cruel, transforma em curiosidade, como se ela fosse uma poeta de cera em um museu de horrores. Nela, também - como em Auster - a necessidade tinha tudo para matar o desejo insensato e se impor como um destino. Paul Auster teve a visita da sorte num momento de azar; Orides Fontela tem o azar de ser sozinha, ser aposentada e ser poeta, atributos que não parecem combinar com os modelos de sucesso em vigor, mas tem a sorte infinita de ser teimosa. E isso a salva. Em Teia, ela sintetiza: "A vida é que nos tem: nada mais temos".
Auster relata em seu livro uma segunda história que, pensando bem, dá uma resposta ríspida à primeira. Já no fim dos anos 80, passando uma temporada em uma velha mansão de Vermont, o escritor consegue, certa tarde, colocar o ponto final no romance A Música do Acaso. Orgulhoso, pleno, ele sai para fumar um charuto no jardim e desfilar seu sentimento de vencedor. Depara, dois passos adiante, com sua filha de dois anos, Sophie, totalmente nua, agachada sobre algumas pedras, concentrada em fazer cocô. A menina o vê e, sem interromper o ritual, grita: "Olha, papai! Olha o que estou fazendo!". Auster é obrigado, ali, a abandonar suas divagações de sucesso e glória para cuidar do asseio da filha. "Não sei se Sophie estava me oferecendo uma forma nada agradável de crítica literária ou se estava simplesmente fazendo uma observação filosófica sobre a igualdade de todos os atos criativos", diz.
Todo o esforço de Auster para ser livre se iguala, em um breve instante, à liberdade gratuita da pequena Sophie. Sou obrigado a pensar, novamente, em Orides Fontela, que não precisa de nossa piedade, nem de nossa repugnância, nem de nossa aprovação, nem de nossos louvores para ser uma poeta feroz. Nós a manipulamos para lá e para cá, enquanto ela, indiferente, continua a escrever.
("in" O Estado de S. Paulo, Caderno 2)
Dominado pelo sonho de escrever narrativas de ficção, mas obrigado pelos fatos da vida a se satisfazer com o espaço mais restrito (e, para ele, menos perigoso) da poesia, Auster já tinha se decidido, no fim dos anos 70, a abandonar de vez as fantasias literárias para se dedicar, apenas, a ganhar dinheiro. "Houve momentos em que eu pensei que tivesse chegado ao fim, que eu jamais escreveria outra palavra", rememora. Em dezembro de 1978, porém, um amigo coreógrafo o leva, sem nenhuma intenção particular, ao ensaio aberto de um balé. Auster, deprimido, se deixa arrastar. Sem qualquer expectativa especial em relação ao espetáculo, o escritor é, aos poucos, inundado pelo que vê. Dá-se uma revelação, um desses eventos inexplicáveis em que o acaso se mescla à sensibilidade e, no rasto desse vazamento, o invisível se torna visível.
Ao voltar para casa, ele se tranca no escritório e começa a escrever Espaços Brancos, obra sem gênero preciso onde, por fim, a vocação para a prosa se impõe. Escreve, compulsivamente, até as três da madrugada quando cai, exaurido, em sono profundo. Às oito da manhã, o telefone toca: alguém lhe comunica a morte repentina de seu pai, vítima de um ataque cardíaco. Semanas depois, Auster recebe uma herança que lhe dá, pela primeira vez na vida, a liberdade de escrever o que bem entende, sem se preocupar com as urgências do tempo e as contas do fim do mês.
"Não consigo me sentar e escrever sem pensar nisso", diz. "Afinal, que terrível equação! Pensar que a morte de meu pai salvou minha vida." Não é preciso aqui rastejar até a lama dos clichês edipianos, ou buscar a muleta das interpretações esotéricas. O horror está nos fatos. Auster teria permanecido um poeta medíocre se o acaso, esse deus sinuoso e complicado, não tivesse agido simultaneamente contra ele e a favor dele.
Essa história não me abandona no momento em que vejo Orides Fontela, a autora de Teia, a professora aposentada que vive na miséria, a poeta que a mídia transformou em "caso clínico", inteiramente asfixiada pela manipulação pública de sua pobreza. Não que Orides tenha que, ela também, ser bafejada por um golpe ambíguo da sorte para abandonar a poesia e se dedicar a outro gênero. Os versos são, mesmo, seu destino. Mas, diante da pobreza, todo discurso elevado - e o mais elevado de todos é o cínico - se torna uma malversação. E nem a piedade, nem o cinismo, produzem poesia.
Penso em Orides porque é impossível não dar valor à sua raiva, à sua decepção à sua sede aturdida de respeito que a mídia, cruel, transforma em curiosidade, como se ela fosse uma poeta de cera em um museu de horrores. Nela, também - como em Auster - a necessidade tinha tudo para matar o desejo insensato e se impor como um destino. Paul Auster teve a visita da sorte num momento de azar; Orides Fontela tem o azar de ser sozinha, ser aposentada e ser poeta, atributos que não parecem combinar com os modelos de sucesso em vigor, mas tem a sorte infinita de ser teimosa. E isso a salva. Em Teia, ela sintetiza: "A vida é que nos tem: nada mais temos".
Auster relata em seu livro uma segunda história que, pensando bem, dá uma resposta ríspida à primeira. Já no fim dos anos 80, passando uma temporada em uma velha mansão de Vermont, o escritor consegue, certa tarde, colocar o ponto final no romance A Música do Acaso. Orgulhoso, pleno, ele sai para fumar um charuto no jardim e desfilar seu sentimento de vencedor. Depara, dois passos adiante, com sua filha de dois anos, Sophie, totalmente nua, agachada sobre algumas pedras, concentrada em fazer cocô. A menina o vê e, sem interromper o ritual, grita: "Olha, papai! Olha o que estou fazendo!". Auster é obrigado, ali, a abandonar suas divagações de sucesso e glória para cuidar do asseio da filha. "Não sei se Sophie estava me oferecendo uma forma nada agradável de crítica literária ou se estava simplesmente fazendo uma observação filosófica sobre a igualdade de todos os atos criativos", diz.
Todo o esforço de Auster para ser livre se iguala, em um breve instante, à liberdade gratuita da pequena Sophie. Sou obrigado a pensar, novamente, em Orides Fontela, que não precisa de nossa piedade, nem de nossa repugnância, nem de nossa aprovação, nem de nossos louvores para ser uma poeta feroz. Nós a manipulamos para lá e para cá, enquanto ela, indiferente, continua a escrever.
("in" O Estado de S. Paulo, Caderno 2)
924
Castro Alves
Fatalidade
DAMA NEGRA
Que fatalidade, meu pai!
ÁLVARES DE AZEVEDO
ADEUS! ADEUS! ó meu extremo abrigo!
Adeus! eu digo-te a chorar de dor!
É o derradeiro suspirar das crenças,
Que se despedem das visões do amor...
Pálido e triste atravessei a vida
Sempre orgulhoso, concentrado e só...
É que eu sentia que um fadário estranho
Meus sonhos todos reduzia a pó.
Mas tu vieste... E acreditei na vida...
Abri os braços... caminhei pra luz...
E a borboleta da fatal crisálida
Soltou as asas pelos céus azuis.
O tronco morto — refloriu de novo
Ergue-se vivo, perfumado, em flor,
Abençoando a primavera amiga...
Ai! primavera de meu santo amor!
Porém que importa, se há fadários negros. .
Frontes — voltadas do sepulcro ao chão...
Pedras coladas de um abismo à beira...
Astros sem norte, de um cruel clarão!
Quem mostra o trilho ao viajor das sombras?
Quem ergue o morto que esfriou o pó?
Quem diz à pedra que não desça ao pego?
Quem segue a estrela desgraçada e só?
Ninguém!... Na terra tudo vai... gravita
Lá para o ponto que lhe marca Deus.
Os raios tombam — as estrelas sobem!...
Lutar coa sorte — é combater os céus!
"Vai! pois, é rosa, que em meu seio, outrora
Acalentava a suspirar e a rir...
Deixas minha alma como um chão deserto,
Vai! flor virente! mais além florir ...
"Vai! flor virente! no rumor das festas,
Entre esplendores, como o sol, viver
Enquanto eu subo tropeçando incerto
Pelo patiblo — que se diz sofrer! ...
............................................
Que resta ao triste, sem amor, sem crenças?
— Seguir a sina... se ocultar no chão ...
... Mas, quando, estrela! pelo céu voares,
Banha-me a lousa de feral clarão!...
Que fatalidade, meu pai!
ÁLVARES DE AZEVEDO
ADEUS! ADEUS! ó meu extremo abrigo!
Adeus! eu digo-te a chorar de dor!
É o derradeiro suspirar das crenças,
Que se despedem das visões do amor...
Pálido e triste atravessei a vida
Sempre orgulhoso, concentrado e só...
É que eu sentia que um fadário estranho
Meus sonhos todos reduzia a pó.
Mas tu vieste... E acreditei na vida...
Abri os braços... caminhei pra luz...
E a borboleta da fatal crisálida
Soltou as asas pelos céus azuis.
O tronco morto — refloriu de novo
Ergue-se vivo, perfumado, em flor,
Abençoando a primavera amiga...
Ai! primavera de meu santo amor!
Porém que importa, se há fadários negros. .
Frontes — voltadas do sepulcro ao chão...
Pedras coladas de um abismo à beira...
Astros sem norte, de um cruel clarão!
Quem mostra o trilho ao viajor das sombras?
Quem ergue o morto que esfriou o pó?
Quem diz à pedra que não desça ao pego?
Quem segue a estrela desgraçada e só?
Ninguém!... Na terra tudo vai... gravita
Lá para o ponto que lhe marca Deus.
Os raios tombam — as estrelas sobem!...
Lutar coa sorte — é combater os céus!
"Vai! pois, é rosa, que em meu seio, outrora
Acalentava a suspirar e a rir...
Deixas minha alma como um chão deserto,
Vai! flor virente! mais além florir ...
"Vai! flor virente! no rumor das festas,
Entre esplendores, como o sol, viver
Enquanto eu subo tropeçando incerto
Pelo patiblo — que se diz sofrer! ...
............................................
Que resta ao triste, sem amor, sem crenças?
— Seguir a sina... se ocultar no chão ...
... Mas, quando, estrela! pelo céu voares,
Banha-me a lousa de feral clarão!...
2 256
José Paulo Moreira da Fonseca
Buscar a Rosa
Buscar a rosa no cimo dos penhascos,
a rosa supérflua e essencial,
perdida pelos ventos agrestes,
pelas grimpas sem-fim,
uma rosa dádiva —
e desprezares a morte
sob o céu azul.
a rosa supérflua e essencial,
perdida pelos ventos agrestes,
pelas grimpas sem-fim,
uma rosa dádiva —
e desprezares a morte
sob o céu azul.
950
Castro Alves
A Eugênia Câmara
AINDA UMA VEZ tu brilhas sobre o palco,
Ainda uma vez eu venho te saudar...
Também o povo vem rolando aplausos
Às tuas plantas mil troféus lançar...
Após a noite, que passou sombria,
A estrela-dalva pelo céu rasgou...
Errante estrela, se lutaste um dia,
Vê como o povo o teu sofrer pagou...
Lutar!... que importa, se afinal venceste?
Chorar!... que importa, se afinal sorris?
A tempestade se não rompe a estátua
Lava-lhe os pés e a triunfal cerviz.
Ouves o aplauso deste povo imenso,
Lava, que irrompe do poplar vulcão?
É o bronze rubro, que ao fundir dos bustos
Referve ardente do porvir na mão.
O povo o povo
Maldiz as trevas, abençoa a luz
Sentiu teu gênio e rebramiu soberbo:
— Pra ti altares, não do poste a cruz.
Que queres? Ouve! — são mil palmas férvidas,
Olha! — é o delírio, que prorrompe audaz.
Pisa! — são flores, que tu tens às plantas,
Toca no fronte — coroada estás.
Descansa, pois, como o condor nos Andes,
Pairando altivo sobre terra e mar,
Pousa nas nuvens pra arrogante em breve
Distante ... longe ... mais além voar.
Ainda uma vez eu venho te saudar...
Também o povo vem rolando aplausos
Às tuas plantas mil troféus lançar...
Após a noite, que passou sombria,
A estrela-dalva pelo céu rasgou...
Errante estrela, se lutaste um dia,
Vê como o povo o teu sofrer pagou...
Lutar!... que importa, se afinal venceste?
Chorar!... que importa, se afinal sorris?
A tempestade se não rompe a estátua
Lava-lhe os pés e a triunfal cerviz.
Ouves o aplauso deste povo imenso,
Lava, que irrompe do poplar vulcão?
É o bronze rubro, que ao fundir dos bustos
Referve ardente do porvir na mão.
O povo o povo
Maldiz as trevas, abençoa a luz
Sentiu teu gênio e rebramiu soberbo:
— Pra ti altares, não do poste a cruz.
Que queres? Ouve! — são mil palmas férvidas,
Olha! — é o delírio, que prorrompe audaz.
Pisa! — são flores, que tu tens às plantas,
Toca no fronte — coroada estás.
Descansa, pois, como o condor nos Andes,
Pairando altivo sobre terra e mar,
Pousa nas nuvens pra arrogante em breve
Distante ... longe ... mais além voar.
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