Poemas neste tema

Destino e Superação

Carlos Nejar

Carlos Nejar

Cântico

Limarás
tua esperança
Até que a mó se desgaste;
Mesmo sem mó, limarás
Contra a sorte e o desespero.

Até que tudo te seja
Mais doloroso e profundo
Limarás sem mãos ou braços,
Com o coração resoluto.

Conhecerás a esperança,
Após a morte de tudo.

1 155
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Jogada

João rola a bola
que mais se embola

Num rolo a bola rola
enrolando João

Que já não tem como sair
do rolo, do bolo
que enrolou sua vida

(numa mesa de bilhar)

1 010
Reynaldo Valinho Alvarez

Reynaldo Valinho Alvarez

Canto Em Si

1
Não busco outro caminho, cedo a calma
A angústia de lavrar no mesmo chão.

A pétrea consistência deste solo
Não dissolve meu ânimo, enlouquece
O que dentro de mim mais alto grita.

Nesta lavoura, a mão é o instrumento
Com que se abrir a terra e pene trá-la
Para entregar-lhe o amor de um a semente
Exposta ao tempo, a fungos e carunchos.

No arado não se pense, o chão se fecha
Ao fio agudo e firme, assim a enxada
Também se parte contra o solo duro
E apenas resta a ponta de meus dedos
Para feri-lo, amá-lo e fecundá-lo.

A par o som arranca ao rijo solo
E nada mais, que à concha, em cada mão,
Feita de pele, carne, nervo e sangue,
Cabe a tarefa e sol de revolvê-lo,
Suada, escalavrada, enegrecida,
Porto em que a terra é nau posta em abrigo.

A estas leiras, labrego, me transporto
A cada madrugada e delas volto
Para comer, se existe, a cada noite,
O pão que elas não deram por ser bruto
O chão e fraca a mão que dele trata,
Mas que insiste em cuidá-lo, porque o grão
E causa, muito mais que conseqüência...

2
Cansei de andar em busca do destino
E tranqüilo retraço meu caminho.

Para curar melancolias fundas,
Há sempre mais um hausto que permite
Viver um pouco mais, se é isto vida.

Ouço ainda o ruído das batalhas
Terminadas. Vencidas ou perdidas,
Foram batalhas de uma guerra santa
Em que ao nascer acaso me alistassem.

Assim posso dar fé que a morte obscura
De quantos vão ficando no caminho,
Bem mais do que parece, ofusca o brilho
Das falsas aparências de vitória
Dos que falam mais alto e se confundem.

Confundem-se os que gritam, confundindo
Os que ouvem e não sabem que os caídos
Dizem mais no silêncio em que caíram,
Dizem mais e mais fundo, enquanto a voz
Oprimida e apagada fere o nervo
Exposto a golpes sempre repetidos.

Retraço no que posso meu caminho
Aberto pela quilha entre os sargaços
Imensos deste mar, ora parado,
Ora coberto de ondas pelo vento
Que sopra não de um ponto, mas de vários,
Para provar a força, não do braço,
Mas do ânimo que imprime rumo ao barco.

1 056
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Dos caminhos

Dos caminhos nada sei
a não ser os passos incertos que dei
vez ou outra sem saber os achei
e me perdi ao encontrar você

Dos caminhos nada sei
a não ser o brilho dos olhos
a construir o trajeto e as
mãos vazias a tatear um verso

Os caminhos me são estranhos
assim como o são esses seres
que nada dizem, apenas me vêem
como um entre tantos

Os caminhos me fogem às mãos
e persigo-os de fato
itinerário incerto
pés descalços . . .

724
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Poema do sol de amanhã

Um corpo magro
caminho lentamente
como soubesse ser a vida
um facho de luz.

Como soubesse que as palavras
encerram um sentido
às vezes incompreensíveis
a certos olhos.

O caminho contém pedregulhos
esparsas incertezas
momentâneas alegrias
de descobrir que algo está errado.

Quando a noite chegar
brincará de contar estrelas
e no berço de feno
sonhará com belezas.

Levantará cedo
quando o sol traçar seu primeiro perfil
como uma avenida iluminada

o mundo é uma grande avenida iluminada
que brilha para alguns

Então sua caminhada reiniciará

o longo caminho dos que não têm para [onde ir

745
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Círculo

Num círculo se move
Num círculo fechado

Sua morte o envolve
Como uma borboleta

Seus verdugos o cercam
Como quem cerca o toiro

Em sua volta não vê
Nenhuma porta aberta

Grandes panos de sangue
Sobre os olhos lhe estendem

A sua hora estava
— Como se diz — marcada

Pegador não houve
Nem pega de caras

E as portas estavam
Sobre o grito fechadas
2 405
Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

PRODÍGIO!

Últimos Sonetos

Como o Rei Lear não sentes a tormenta
que te desaba na fatal cabeça!
(Que o céu d'estrelas todo resplandeça.)
A tua alma, na Dor, mais nobre aumenta.

A Desventura mais sanguinolenta
sobre os teus ombros impiedosa desça,
seja a treva mais funda e mais espessa,
Todo o teu ser em músicas rebenta.

Em músicas e em flores infinitas
de aromas e de formas esquisitas
e de um mistério singular, nevoento...

Ah! só da Dor o alto farol supremo,
consegue iluminar, de extremo a extremo,
o estranho mar genial do Sentimento!

1 822
Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos

Canto de Onipotência

Cloto, Átropos, Tifon, Laquesis, Siva...
E acima deles, como um astro, a arder,
Na hiperculminação definitiva
O meu supremo e extraordinário Ser!

Em minha sobre-humana retentiva
Brilhavam, como a luz do amanhecer,
A perfeição virtual tornada viva
E o embrião do que podia acontecer!

Por antecipação divinatória,
Eu, projetado muito além da História,
Sentia dos fenômenos o fim...

A coisa em si movia-se aos meus brados
E os acontecimentos subjugados
Olhavam como escravos para mim!

2 426
Castro Alves

Castro Alves

OITAVAS A NAPOLEÃO

(Tradução do espanhol, de LOZANO)

Águia das solidões!... Ninho atrevido
Foram-te as borrascosas tempestades,
Flamígero cometa suspendido
Sobre o céu infinito das idades.
Tu que, no lago intérmino do olvido,
Lançaste tuas régias claridades...
Deus caído do trono dos mais deuses
Quem recebeu teus últimos adeuses?

Não foram as Pirâmides, que ouviram
De teus passos o som e se inclinaram...
Nem as águas do Nilo, que te viram,
E coas ondas teu nome murmuraram...
Não foram as cidades, que brandiram
As torres como facho... te aclararam...
Quem foi? Silêncio!.. trêmulo de medo
Vejo apenas — um mar... vejo — um rochedo...

A terra, o mar, os céus... espaço estreito
Eram pra tua planta de gigante,
Para tecto dos paços teus foi feito
O firmamento colossal, flutuante
Como diadema — os sóis... E como leito
O antártico pólo de diamante...
Teu féretro qual foi?... Titão do Sena,
O penhasco fatal de Santa Helena...

Assassina do Encélado da guerra
Só tu foste, Albion... do mar senhora...
Por quê? Porque um pedaço aí de terra
Foi pedir-te o gigante em negra hora...
E lhe deste um penhasco... Oh! Lá sencerra
Tua lenda mais hórrida... Traidora!
Lá seu espectro envolto, na mortalha
Aos quatro céus a maldição espalha...

Ao leão, que temias, enjaulaste;
E de longe escutando seu rugido,
Tu, senhora do mar... tu desmaiaste!
Pelo punhal traidor ele ferido
Caiu-te aos pés... Então tu respiraste,
Cobarde vencedora do vencido...
Nem mesmo todo o oceano poderia
Lavar este padrão de covardia...

Tu não és tão culpada!... Aonde estava
A França tão potente e tão temida?...
Oh! por que o não salvou?... se o contemplava
Lá dos gelos dos Alpes — soerguida!?...
E ele que a fez tão grande?... Ela folgava!...
Enquanto ao longe do colosso a vida,
Como um vulcão antigo e moribundo
Lento expirava nesse mar profundo.

2 011
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Quem Sabe?!...


Eu sigo-te e tu foges. É este o meu destino:
Beber o fel amargo em luminosa taça,
Chorar amargamente um beijo teu, divino,
E rir olhando o vulto altivo da desgraça!

Tu foges-me, e eu sigo o teu olhar bendito;
Por mais que fujas sempre, um sonho há de alcançar-te
Se um sonho pode andar por todo o infinito,
De que serve fugir se um sonho há de encontrar-te?!

Demais, nem eu talvez, perceba se o amor
É este perseguir de raiva, de furor,
Com que eu te sigo assim como os rafeiros leais.

Ou se é então a fuga eterna, misteriosa,
Com que me foges sempre, ó noite tenebrosa!
......................................................................
Por me fugires, sim, talvez me queiras mais!
5 314
Luis Germano Graal

Luis Germano Graal

Quem Nasceu Vendedor de Peixes

Quem nasceu vendedor de peixes
Vende peixes
Não enjoa de vender
Em verdade
Peixes lhe aparecerão
Tal e qual
Aparecem fantasmas
Nos castelos dos países no norte
Quem nasceu
Pra navegar
Não sossega
Não fica quieto
Não esquenta lugar
Não dorme direito
Fora da linha do mar
Nós nascemos para navegar
A vida inteira
Não adivinhamos
Nosso vero destino
Alguns de nós zanzaram
Pelas ruas
A pedir esmolas
A roubar nas feiras
A rolar pelas calçadas
Mas nosso destino era
Navegar
Outros de nós
Tiveram dinheiro
E os estrangeiros nos tiraram
O dinheiro que tivemos
Tiraram-nos a vontade
A visão
Talvez as pessoas que assim fizeram
Soubessem
(Sequer sabendo
Que sabiam)
A verdade sobre nosso destino
E apenas seguiram
Os desígnios
Outros de nós fomos depravados
Fomos prostitutas
Muitos fomos chamados
De escória
Pelos ainda terrestres
Muitos escreveram versos
Escrevemos autos
Cartas
Poemas
Mas nenhum de nós sabia
Do nosso final

Desde o dia
Em que nos puseram
Nesta nave, navegamos
Navegamos
Navegamos
Nossa vida é navegar
Nosso destino
Missão

As quiromantes sabiam
As videntes dos circos
Sabiam
Os oráculos, idem
As pitonisas sabiam
Mas não nos disseram
Uma única palavra
Os marinheiros também
Deviam saber
Um marinheiro reconhece
Outro
Mesmo na selva
Mas nada nos deram
(Tudo é segredo
Tudo ainda é
Segredo
Nada nos é revelado)
Nós
Habitantes da nau
Passamos nossa vida a saber
De nada
Nada nos é dito
Tudo nos é escondido
Tudo nos é roubado
Tudo acontece
Para que cumpramos o destino
De navegar
Mesmo quando
No oceano pleno
Estamos
E não há um só navio
Uma numa embarcação
A vista
É-nos sonegado saber
Por que estamos
Nesta nave
Pois navegar é bom
Mas temos fome
Navegar é bom
Mas temos sede
Navegar é bom
Mas temos frio
Navegar é bom
Mas temos sono
Navegar é preciso
Mas estamos cansados
Estamos cansados
Estamos cansados
Navegar é viver
Mas estamos quase mortos
Navegar é o que nos resta
Mas não queremos

Navegar
E nossa missão
Mas que vá para o diabo
Para o diablo
Para as profundas
A nossa missão
Estamos aqui
Marítimos
Mas não queremos estar
Nem todos de nós
Queremos
Estar
Muitos querem ir embora
Dois já foram
Um com a sereia
E o primeiro
Com outro peixe
Mais da nossa metade
Junto à amurada
Junto ao muro
Junto à fronteira
Do mar
Está
A fazer últimas orações
Para eles chegado o momento
O porto
A pedra
Já começam a cair
Começam a se jogar
O mar que era calmo
Faz marulho
Agora
Ao engolir os corpos
De nós
Que caímos
Os corpos de alguns
De muitos
Caídos
No mar tanatificado

Maktub?

850
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Então Te Ocultavas

Ali onde estavas, anjo da Guarda?
Eras tu a vivenda com espinhos
em que devi dormir? Eras a mesa
da pobreza que me preparavam?
Eras o ódio, arame interminável
que tive que cortar, ou talvez eras
a miséria de seres infelizes,
o que fui encontrando nos caminhos,
nas cidades, nos socavões
dos abandonados? Aí, foste invisível,
posto que só a lances de infortúnio,
só rompendo portas inumanas,
vi crescer na minha voz todas as vozes,
e saí entre as vidas ao combate.
 
1 132
Gláucia Lemos

Gláucia Lemos

Poema do Desenlace

...e então nós nos magoamos
com uma dor tão intensa
com um furor tão sem forma
tão sem explicação ...
Como se estivéssemos
estraçalhando a vida
desmoronando tudo
o que nos pôs distantes...
Como se tivéssemos
que destruir universos
pra cumprirmos o que está escrito:
continuarmos cumprindo.

...e foi tanto o desejo
de rasgar os destinos...
Nós que rasgáramos todos os códigos
para nos tornarmos vidro,
assim nós nos rasgamos a nós próprios
sem solução e sem lucidez.

...para cada um permanecer
preso dentro dos olhos do outro
para em cada novo encontro
para sempre perguntarmos
por quê?
por quê?

Afinal... por quê?

21.06.96.

1 032
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Viii

Abrir os olhos, procurar a luz,
De coração erguido ao alto, em chama,
Que tudo neste mundo se reduz
A ver os astros cintilar na lama!

Amar o sol da glória e a voz da fama
Que em clamorosos gritos se traduz!
Com misericórdia, amar quem nos não ama,
E deixar que nos preguem numa cruz!

Sobre um sonho desfeito erguer a torre
Doutro sonho mais alto e, se esse morre,
Mais outro e outro ainda, toda a vida!

Que importa que nos vençam desenganos,
Se pudermos contar os nossos anos
Assim como degraus duma subida?
2 032
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Ii

Meu Amor, meu Amado, vê... repara:
Poisa os teus lindos olhos de oiro em mim,
– Dos meus beijos de amor Deus fez-me
[avaraPara nunca os contares até ao fim.

Meus olhos têm tons de pedra rara,
– É só para teu bem que os tenho assim –
E as minhas mãos são fontes de água clara
A cantar sobre a sede dum jardim.

Sou triste como a folha ao abandono
Num parque solitário, pelo Outono,
Sobre um lago onde vogam nenúfares...

Deus fez-me atravessar o teu caminho...
– Que contas dás a Deus indo sozinho,
Passando junto a mim, sem me encontrares? –
2 380
Salgado Maranhão

Salgado Maranhão

Ladainha

Não secarás as raízes
do teu sopro
no abismo da noite púrpura;
não seguirás o fantasma
que atravessa os trilhos;
não cantarás aos muros de arrimo
tua fantasia de pássaro.

Escarpado é o chão
dos teus sapatos;
escarpado é o azul
rabiscado de estrelas;
escarpada é a rima
que lateja a alegoria
da palavra.
798
Mário Dionísio

Mário Dionísio

Pregão

Dum gesto alcançámos a terra.

Os montes, os mares, as estrelas, as nuvens, as almas, os deuses e as
sombras.
- o cortejo multissecular das sombras.

Antes
os braços eram curtos e terminavam por duas mãos pequenas.
Hoje
não há padrão que os meça,
prolongados nos montes e na viva complicação das máquinas,
nas chaminés voltadas para o céu.
Antes
as bocas eram breves para o beijo da casa.
Hoje
dilataram-se infinitamente no sorriso sublime e sem limites da
universalidade.

Todos os músculos estalaram.
Todos os olhos gritaram.
Todas as bocas gritaram.
Todos os pulmões se abriram ao olfacto sadio da terra húmida.
Terra.
Terra da partida e do regresso.
Terra!

Serão baixos todos os andaimes de biliões de andares,
fracas todas as asas,
para a nossa paixão da estratosfera:
para o caminho da terra que nos fará eternos.
Fraca nomenclatura de todos os tratados
para o nosso mundo de amor.

Os chicotes quebraram-se, vencidos,
vergados sobre a terra como nós até hoje.

Uma vida nova começa neste instante.
E agora, que dum gesto alcançámos a terra, nós seremos enfim o nosso próprio poema.
1 549
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Para una versión del I King

El porvenir es tan irrevocable
como el rígido ayer. No hay una cosa
que no sea una letra silenciosa
de la eterna escritura indescifrable
cuyo libro es el tiempo. Quien se aleja
de su casa ya ha vuelto. Nuestra vida
es la senda futura y recorrida.
Nada nos dice adiós. Nada nos deja.
No te rindas. La ergástula es oscura,
la firme trama es de incesante hierro,
pero en algún recodo de tu encierro
puede haber un descuido, una hendidura.
El camino es fatal como la flecha
pero en las grietas está Dios, que acecha.


"La moneda de hierro" (1975)


Jorge Luis Borges | "Poesía Completa", pág. 462 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
4 041
Mário Dionísio

Mário Dionísio

Poema do sacrifício sublime

Minha mocidade fresca,
quero sacrificar-te inteiramente à minha realização.
Meus dias, que hão-de vir, cheios de promessas,
quero renunciar ao riso que vos adivinho
porque esse riso unicamente meu
levar-me-ia para longe de mim próprio.
Meu lar ameno com um leito de penas e uma luz macia,
quero dizer-te adeus sem mágoa.
(Apagar-se-ão as brasas do fogão
e os ratos passearão nos objectos mais queridos.)
Meu universo isolado,
quero dizer-te adeus sem pena.

Partir.
Partir para a pátria instável onde o grito salta das veias.
Partir para o momento heróico da concretização.
Partir para longe de todos que me gritam: para quê?
Ah! partir!
Partir sem uma hesitação, de olhos abertos,
com a firmeza única de quem tem a certeza,
com decisão, com raiva, com delírio
e com o encantamento, a feliz perturbação, a embriaguez,
a silenciosa alegria
duma virgem que parte para o minuto de núpcias.
2 202
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Coronel Suárez

Alta en el alba se alza la severa
faz de metal y melancolía.
Un perro se desliza por la acera.
Ya no es de noche y no es aún de día.
Suárez mira su pueblo y la llanura
ulterior, las estancias, los potreros,
los rumbos que fatigan los reseros,
el paciente planeta que perdura.
Detrás del simulacro te adivino,
oh joven capitán que fuiste el dueño
de esa batalla que torció el destino:
Junín, resplandeciente como un sueño.
En un confín del vasto Sur persiste
esa alta cosa, vagamente triste.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 437 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 210
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

El testigo

Desde su sueño el hombre ve al gigante
de un sueño que soñado fue en Bretaña
y apresta el corazón para la hazaña
y le clava la espuela a Rocinante.

El viento hace girar las laboriosas
aspas que el hombre gris ha acometido.
Rueda el rocín; la lanza se ha partido
y es una cosa más entre las cosas.

Yace en la tierra el hombre de armadura;
lo ve caer el hijo de un vecino,
que no sabrá el final de la aventura

y que a las Indias llevará el destino.
Perdido en el confín de otra llanura
se dirá que fue un sueño el del molino.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 423 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 232
José Augusto de Carvalho

José Augusto de Carvalho

A recusa!


Recuso ser, na noite, a sombra que desenha
a angústia indefinida e fria deste cais.
O que tiver de vir, se mais houver, que venha,
Mostrengo, Adamastor e Fim do Nunca Mais!

O leme se quebrou. Ao vento, as rotas velas
ensaiam os sinais das barcas à deriva.
Que velhas perdições?! Na consciência delas,
assombram predições doendo em carne viva.

Que venham os pinhais gritar o desafio
do tempo por haver que acena o amanhecer
além deste torpor indefinido e frio!

Que venha a tentação sortílega tecer,
com arte com engenho, o já lendário fio
da espera que germina um novo acontecer!...


20 de Abril de 2010
Viana do Alentejo


897
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

La pantera

Tras los fuertes barrotes la pantera
Repetirá el monótono camino
Que es (pero no lo sabe) su destino
De negra joya, aciaga y prisionera.
Son miles las que pasan y son miles
Las que vuelven, pero es una y eterna
La pantera fatal que en su caverna
Traza la recta que un eterno Aquiles
Traza en el sueño que ha soñado el griego.
No sabe que hay praderas y montañas
De ciervos cuyas trémulas entrañas
Deleitarían su apetito ciego.
En vano es vario el orbe. La jornada
Que cumple cada cual ya fue fijada.


"La rosa profunda" (1975)



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 393 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 896
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

La tentación

El general Quiroga va a su entierro;
Lo invita el mercenario Santos Pérez
Y sobre Santos Pérez está Rosas,
la recóndita araña de Palermo.
Rosas, a fuer de buen cobarde, sabe
que no hay entre los hombres uno solo
más vulnerable y frágil que el valiente.
Juan Facundo Quiroga es temerario
hasta la insensatez. El hecho puede
merecer el examen de su odio.
Ha resuelto matarlo. Piensa y duda.
Al fin da con el arma que buscaba.
Será la sed y el hambre del peligro.
Quiroga parte al Norte. El mismo Rosas
le advierte, casi al pie de la galera,
que circula rumores de que López
premedita su muerte. Le aconseja
no acometer la osada travesía
sin una escolta. Él mismo se la ofrece.
Facundo ha sonreído. No precisa
laderos. Él se basta. La crujiente
galera deja atrás las poblaciones.
Leguas de larga lluvia la entorpecen.
Neblina y lodo y las crecidas aguas.
Al fin avistan Córdoba. Los miran
como si fueran sus fantasmas. Todos
los daban ya por muertos. Antenoche
Córdoba entera ha visto a Santos Pérez
distribuir las espadas. La partida
es de treinta jinetes de la sierra.
Nunca se ha urdido un crimen de manera
más descarada, escribirá Sarmiento.
Juan Facundo Quiroga no se inmuta.
Sigue al Norte. En Santiago del Estero
se da a los naipes y a su hermoso riesgo.
Entre el ocaso y la alborada pierde
o gana centenares de onzas de oro.
Arrecian las alarmas. Bruscamente
resuelven regresar y da la orden.
Por esos descampados y esos montes
retoman los caminos del peligro.
En un sitio llamado el Ojo de Agua
El maestro de posta le revela
que por ahí ha pasado la partida
que tiene por misión asesinarlo
y que lo espera en un lugar que nombra.
Nadie debe escapar. Tal es la orden.
Así lo ha declarado Santos Pérez,
el capitán. Facundo no se arredra.
No ha nacido aún el hombre que se atreva
a matar a Quiroga, le responde.
Los otros palidecen y se callan.
Sobreviene la noche, en la que sólo
duerme el fatal, el fuerte, que confía
en sus oscuros dioses. Amanece.
No volverán a ver otra mañana.
¿A qué concluir la historia que ya ha sido
contada para siempre? La galera
toma el camino de Barranca Yaco.


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 368 e 369 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 599