Poemas neste tema

Destino e Superação

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ship sailing out to sea,

Ship sailing out to sea,
If thou canst not take me,
Take ar least with thy hope
Of other ports my misery
And what in me doth grope.

Ship sailing far away
Let me dream thou canst go
Where I at last may
No longer live with woe
Or with grief stay.

Ship sailing out to Death
Go far, go far
Under the breath
Of the wind, while the star
Of Fate listeneth.

Ship that are not anywhere,
But that I dream,
That is why you art fair.
Sail or sail not... Seem
To sail. That is all. Where?

Ship that I dream and fades
In my dreams distance, go
There are happier glades
Beyond where I know
But this is today and woe.


22/07/1916
4 488
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

APPROACHING

APPROACHING

With dragging steps severe, like creeping hate,
Through the black silence of my conscious brain
I hear madness advance, and feel with pain
The ground it treads on writhe and palpitate.
How to avoid its coming soon or late
How not to feel the mind’s grand vainly strain,
But rooted lie awaiting its dread reign
That cometh inopposable as fate?

If only madness came as lightning doth –
Suddenly – that were the least greatest ill...
But oh! to feel with consciousness’ clear sight
Reason’s day go to twilight in swift growth,
And the twilight of reason, pale and chill,
Darken towards impenetrable night.

Alexander Search, 23/03/1909
4 257
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

MARINETTI, ACADÉMICO

Lá chegam todos, lá chegam todos...
Qualquer dia, salvo venda, chego eu também...
Se nascem, afinal, todos para isso...

Não tenho remédio senão morrer antes,
Não tenho remédio senão escalar o Grande Muro...
Se fico cá, prendem-me para ser social...

Lá chegam todos, porque nasceram para Isso,
E só se chega ao Isso para que se nasceu...

Lá chegam todos...
Marinetti, académico...

As Musas vingaram-se com focos eléctricos, meu velho,
Puseram-te por fim na ribalta da cave velha,
E a tua dinâmica, sempre um bocado italiana, f-f-f-f-f-f-f-f.....
2 441
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

XXXV - Good. I have done. My heart weighs. I am sad.

Good. I have done. My heart weighs. I am sad.
The outer day, void statue of lit blue,
Is altogether outward, other, glad
At mere being not-I (so my aches construe).
I, that have failed in everything, bewail
Nothing this hour but that I have bewailed,
For in the general fate what is't to fail?
Why, fate being past for Fate, 'tis but to have failed.
Whatever hap or stop, what matters it,
Sith to the mattering our will bringeth nought?
With the higher trifling let us world our wit,
Conscious that, if we do t, that was the lot
The regular stars bound us to, when they stood
Godfathers to our birth and to our blood.
4 199
Renato Rezende

Renato Rezende

Epílogo

Aqui
Todo o espaço é o Paraíso
ou nenhum o é
O exílio
é um estado de espírito
A mente é livre
para criar seu destino
Dançamos, em rodopio
o frenesi da vida
na direção do infinito
de cada instante ínfimo
Não importa a mínima
o caminho
O que vale um homem
é o amor
que sente por si mesmo
e pelo seu próximo
Amor que transborda
na puríssima orgia íntima
de sermos todos, sempre
eu
o mesmo
eu
Somos todos iguais
ao mesmo tempo parte
e unidade
desta força
que move o sol
e os outros astros
1 049
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

XXXIV - Happy the maimed, the halt, the mad, the blind —

Happy the maimed, the halt, the mad, the blind –
All who, stamped separate by curtailing birth,
Owe no duty's allegiance to mankind
Nor stand a valuing in their scheme of worth!
But I, whom Fate, not Nature, did curtail,
By no exterior voidness being exempt,
Must bear accusing glances where I fail,
Fixed in the general orbit of contempt.
Fate, less than Nature in being kind to lacking,
Giving the ill, shows not as outer cause,
Making our mock-free will the mirror's backing
Which Fate s own acts as if in itself shows;
And men, like children, seeing the image there,
Take place for cause and make our will Fate bear.
4 190
Antonio Machado

Antonio Machado

Proverbios

Proverbios
y cantares

XXIX

Caminante, son tus huellas

el camino, y nada más;

caminante, no hay camino,

se hace camino al andar.

Al andar se hace camino,

y al volver la vista atrás

se ve la senda que nunca

se ha de volver a pisar.

Caminante, no hay camino,

sino estelas en la mar.

XLIV

Todo pasa y todo queda,

pero lo nuestro es pasar,

pasar haciendo caminos,

caminos sobre la mar

3 162
Angela Santos

Angela Santos

Orientação

Ainda
que perdidos
meus passos pareçam…
ainda que a alma segrede
o desencontro dos exilados,
eu sei de uma razão…
e por ela sigo,
busca incessante
teimando o caminho.

leva-me o sonho
que em mim ganhou voz…

minha estrela, meu norte,
meu rumo, meu trilho
minha barca d´Alva
levando na proa
o mapa dos ventos que
lhe dá sentido.

1 169
Frederico Barbosa

Frederico Barbosa

En la mira

cuartetos
(fragmentos)

Traducción de Manuel Ulacia
I

En vano lanzar dados contaminados:siempre esperando, caso sobre caso,accidente blanco en campo minadouna cierta explosión en cada paso.

Apostar en cueta-gotas viciado:certeza de acero expuesta en pedazos,círculo sólo el signo en los cuadrados,yesca disfrazada en frágil acaso.

V

Escapo por pura suerte.El criminal se confunde.La noche hiere y explota,ninguna estrella llora.

Al despertarme la muerte,que falla, calla y consuela,vislumbro la lumbre que huyeperfecta piedra por fuera.

Poema em português
1 092
Angela Santos

Angela Santos

Ideologia

Vinham
de longe,
atravessavam desertos
tempestades resistiam,
e no coração guardada
a fórmula do alquimista

viandantes condenados
grilhões de ferro nos pés
vezes e vezes caíram,
seguir era a sua sina
fosse ou não razão ficar.

E cumpriam-se à chegada
exaustos, e sem sentido
um outro norte, a mesma senha…
por eles de novo se erguiam
por eles de novo partir…

Alvoradas, bandeiras, hinos
espadas em punho brandindo
contra o tempo contra os ventos,
sem resistência lá iam,
um novo mundo cumprir.

1 056
Friedrich Hölderlin

Friedrich Hölderlin

Curso da vida

Coisas maiores querias tu também, mas o amor
A todos vence, a dor curva ainda mais,
E não é em vão que o nosso círculo
Volta ao ponto donde veio!

Para cima ou para baixo! Não sopra em noite sagrada,
Onde a Natureza muda medita dias futuros,
Não domina no Orco mais torto
Um direito, uma justiça também?

Foi isso que aprendi. Pois nunca, como os mestres mortais,
Vós, ó celestiais, ó deuses que tudo mantendes,
Que eu saiba, nunca com cuidado
Me guiastes por caminho plano.

Tudo experimente o homem, dizem os deuses,
Que ele, alimentado com forte mantença, aprenda a ser grato por tudo,
E compreenda a liberdade
De partir para onde queira.

 

Lebenslauf
Größers wolltest auch du, aber die Liebe zwingt
All uns nieder, das Leid beuget gewaltiger,
Doch es kehret umsonst nicht
Unser Bogen, woher er kommt.
Aufwärts oder hinab! herrschet in heilger Nacht,
Wo die stumme Natur werdende Tage sinnt,
Herrscht im schiefesten Orkus
Nicht ein Grades, ein Recht noch auch ?
.
Dies erfuhr ich. Denn nie, sterblichen Meistern gleich,
Habt ihr Himmlischen, ihr Alleserhaltenden,
Daß ich wüßte, mit Vorsicht
Mich des ebenen Pfades geführt.
.
Alles prüfe der Mensch, sagen die Himmlischen,
Daß er, kräftig genährt, danken für Alles lern,
Und verstehe die Freiheit,
Aufzubrechen, wohin er will.
 

– Friedrich Hölderlin. “Lebenslauf”/”Curso da vida”. in: Hölderlin: Poemas. (organização e tradução Paulo Quintela). Coimbra: Atlântida, 1959.
 

629
Renato Rezende

Renato Rezende

[Chamas]

Por que você não começa com os elefantes? Adoro elefantes.

Vi certa vez um documentário sobre um lugarejo da Índia no qual eles têm rolos de pergaminhos com a história de todo mundo que já viveu e que viverá na terra. Foi um sábio que escreveu há não sei quantos anos. O cara do documentário foi lá só para checar, todo cético, é claro.
Então entrou num lugar que parecia uma lojinha do fim do mundo. O sujeito perguntou o nome dele e disse: Espere um momento. Depois voltou com um rolo... que tinha o nome dele e a história de sua vida até a morte!

será que existe?

[será que nós existimos?]

será que esse lugar existe mesmo?

Sabia que se come mais açúcar no dia de Diwali na Índia do que no resto do mundo o ano todo? E aqueles enormes brigadeirões que eles enfiam na boca dos elefantes?

Ladhus.

Pura doçura

Amor em toneladas!

Tudo o que passa e sempre passou pelos meus olhos foram imagens de festa.

Tudo o que passa e sempre passou pelos meus ouvidos foram sons de festa.

(De paz?)
E de dor, de melancolia, de horror, de desespero,
especialmente de desespero?

Dance com a dor

Um tango, uma valsa

Gire
Tudo pelos meus olhos, festa.
Tudo pelos meus ouvidos, festa.
Festa, frenesi, júbilo, dança de dervixes.

VIDA

Fogo riscado na escuridão.
Elefantes em chamas.
O castelo em chamas.
Bibliotecas em chamas.
Todos os peixes. O oceano em chamas

O fogo do Amor:

O que não é Amor é contra o amor.
706
Argemiro de Paula Garcia Filho

Argemiro de Paula Garcia Filho

Imola 1

Em Imola se imola
um sonho
um mito
um herói.
Em Imola se esfola
a pele
a carne
e dói,
como dói,
saber que a vida segue
ainda que o sonho acabe.
Mas se os sonhos são etéreos,
se os mitos são lendas
e os heróis tem sangue,
nos restam apenas
as mãos,
os calos,
as cãs,
resta-nos erguer o destino.
Porque as pirâmides foram erguidas
por homens
e os nossos heróis sempre morrem,
no final.

Macaé, 29/06/94

895
Leónidas Lamborghini

Leónidas Lamborghini

Dados

Como aquele que no café
gira com fúria
os dados
no escuro do copo
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que concentra
todo o esforço
ali no alto
fazendo rugir os dados
no escuro
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que do alto
vai descarregar
os dados
e vocifera com fúria
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que com todas
as forças
agita os dados no alto
e dali
descarrega com fúria
na mesa
o copo
como esse
como esse
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
739
Alcides Werk

Alcides Werk

Estudo XII

Impossível voltar. A caminhada
já foi longe demais, e não me encontro.
Há marcas fundas do caminho antigo,
mas não posso sentir, vivo agitado.

Vejo em volta de mim alguns pedaços
do meu ser dividido. E tento, às vezes,
fraco e mesquinho como um delinqüente,
redescobrir a minha identidade.

Impossível voltar, e continuo.
Elaboro miragens e as persigo
com a determinação dos suicidas.

E, passo a passo, cada dia cumpro
a função de votar o que me resta
em sacrifício a ti, num rito amargo.

1 049
Arsenii Tarkovskii

Arsenii Tarkovskii

Cai a noite sobre as montanhas da Geórgia;

Cai a noite sobre as montanhas da Geórgia;
À minha frente ruge o Aragva.
Estou em paz e triste; há um lampejo em meus suspiros,
Meus suspiros são todos teus,
Teus, e de mais ninguém... Minha melancolia
Está insensível a angústias e apreensões,
E meu coração arde e ama mais uma vez,
Pois nada pode fazer além de amar.
Todo instante que passávamos juntos
Era uma celebração, uma Epifania,
No mundo inteiro, nós os dois sozinhos.
Eras mais audaciosa, mais leve que a asa de um pássaro,
Estonteante como uma vertigem, corrias escada abaixo
Dois degraus por vez, e me conduzias
Por entre lilases úmidos, até teu domínio
No outro lado, para além do espelho.
Enquanto isso o destino seguia nossos passos
Como um louco de navalha na mão.
Arseni Tarkóvski (1907 - 1989)
1 243
Angela Santos

Angela Santos

Caminhos


caminho, e caminhos
largos uns, estreitando-se
outros.

Há os que caminham
a par de outros que caminham
outros caminhos

Há os que seguem seus caminhos,
solitários
à força de o querer

Há os solitários
que buscam caminhos paralelos
mas sempre e só
a solidão companheira
suspensa no seu caminho.

1 091
Samarone Lima de Oliveira

Samarone Lima de Oliveira

Resiliente

Resiliente.
Assim me chamou nas dobras
A antiga amiga.

No corpo que torceu e retorceu
Ao seu centro noturno
E desigual.

M espantalho sem biografia
Aguando as quimeras de si.

A ruminação como defesa
Ou como certeza.

As brasas que ardem
No tempo da espera.

O quase dono de si.

O vaqueiro cego
Buscando um cão
Brincando com os espinhos.

Capaz de um destino lógico
De amarrar narcisos
Aos vasos inconclusos
Do jardim devastado.

De cerzir o passado
Sem álbuns, sem a matéria dos homens.

Como quem escreve segredos
Com aspas imaginárias.
623
Miriam Paglia Costa

Miriam Paglia Costa

O Anjo Vingador

- gosto
de matar pelas costas
é tão bonito!

o menino fala assim ao psicólogo
que conta ao repórter
que conta ao leitor
que todos se horrorizem

o tiro joga o corpo á frente
abertos braços
o quase morto, o morto
cai
súbito vôo em curto abismo

a morte é bela ?
a fala espanta o estudioso
belo é o poder?
a morte assombra
fútil, nas mãos do fútil assassino

mas
entre mitos mais que antigos existe outra moral:
num livro grosso , o livro dos destinos
estaria inscrito eternamente
o encontro do morto e seu carrasco

segundo o rito do fado e da tragédia
a mão que ceifa está sagrada
é outra a ira que executa, grave e dura
relâmpago divino

aqui, no palco das vilezas
horror é fala de meninos.

858
Angela Santos

Angela Santos

Ao Sul

Nas
terras do sul
há uma lonjura que entra pelos olhos
Instala-se na alma e deixa-se ficar

Nas terras do sul
há homens cansados, colados às paredes
brancas de cal lisa

A planície entende-se e lembra o mar
outras vezes lembra
um deserto vasto a perder de vista
E os homens do sul
cansados de olhar o que foi planície
e parece mar
quando o sol abrasa perdem-se na miragem
que os desertos guardam

Nas terras do sul
há um destino vago e dias de incerteza
e é junto às árvores
que se erguem a prumo e a sombra espelham
que param cansados e choram a terra
com seu olhar vago, seu olhar sem rumo

E na corda a prumo que à arvore se enlaça
em silencio acenam um ultimo adeus
ao sol, à planície, ao vazio ao mundo.

977
Angela Santos

Angela Santos

Aspiração

Que
seja de luar a fonte
gota a gota sorvida,
sede inesgotável só amansada…

Que seja de luz o caminho
passo a passo percorrido
viandante ou peregrino
nele imprime seu destino.

1 217
Bocage

Bocage

Quantas vezes, Amor, me tens ferido?

Quantas vezes, Amor, me tens ferido?
Quantas vezes, Razão, me tens curado?
Quão fácil de um estado a outro estado
O mortal sem querer é conduzido!

Tal, que em grau venerando, alto e luzido,
Como que até regia a mão do fado,
Onde o Sol, bem de todos, lhe é vedado,
Depois com ferros vis se vê cingido:

Para que o nosso orgulho as asas corte,
Que variedade inclui esta medida,
Este intervalo da existência à morte!

Travam-se gosto, e dor; sossego e lida;
É lei da natureza, é lei da sorte,
Que seja o mal e o bem matiz da vida.

3 018
Otávio Ramos

Otávio Ramos

A Terra tem

A Terra tem
5 oceanos
13 mares
5 continentes
148 milhões de km2.
Com tanto lugar no mundo,
você tinha que se apaixonar logo por mim?

Uma hora tem 3.600 segundos.
Um dia, mais ou menos 100 mil.
Uma vida média, uns 250 bilhões de segundos.
E você foi-se apaixonar logo por mim?

973
Angela Santos

Angela Santos

Imprevisto

Como
se de repente
se fizesse luz
e os meus olhos sedentos
ali fossem beber

Como se de repente
eu segurasse o fio de Ariadne
e mergulhasse no azul do dia
deixando para trás as sombras dos
labirintos

Como se de repente
eu visse um caminho
e soubesse
porquê, para quê
e cada manhã anunciasse
uma razão renovada.

De imprevisto,
assim, tão de repente
tudo era claridade
e eu via
qual era o caminho
enquanto caminhava.

1 235