Poemas neste tema

Destino e Superação

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fui passear no jardim

Fui passear no jardim
Sem saber se tinha flores
Assim passeia na vida
Quem tem ou não tem amores.
2 818
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sobre Guindastes

às vezes, após você ter recebido
das forças um belo chute no rabo

você costuma desejar ser um guindaste
estendido sobre uma perna

na água azul

mas há sempre
a
velha questão
que você conhece:

você não quer ser
um guindaste
estendido sobre uma perna

na água azul

o infortúnio não é
suficiente

e

a vitória
claudica

um guindaste não pode
pagar por um rabo

ou

vadiar às tardes
em Monterey

essas são algumas
das coisas

que os humanos podem fazer

além de
ficar sobre uma perna só
1 161
Araújo Filho

Araújo Filho

Fatalismo

Foi meu erro idear maior altura,
para um Sonho tão Pobre e pequenino:
— Ninguém torna em ventura a desventura,
que é mais forte o desígnio do Destino.

Ninguém pode mudar a noite escura
em dia azul, sem nuvens, cristalino...
Da vida, a estrada é tão agreste e dura
que leva muita vez ao desatino.

Gira em torno de tudo uma Alta Força,
que, com letras de fogo, escreve a sorte
de cada Ser... Escreve, e passa adiante...

E do que escrito foi, não há quem torça
ou mude uma só letra, nem durante
a vida, nem também depois da morte.

830
Araújo Filho

Araújo Filho

A um Desesperado

Não te apresses. Espera, que o teu dia
chegará. É fatal. Não falha nunca.

— No livro do Destino, a tua lauda
escrita está, clara e precisa...

Clara,

embora ninguém veja, mas se sabe
que a mão de Deus não erra no que escreve,
e na barca que leva a outras paragens
o teu lugar está vazio.

717
Frederico Barbosa

Frederico Barbosa

Na Mira: Quartetos, 1989

I

Em vão jogar dados contaminados
sempre esperando, caso sobre caso,
acidente branco em campo minado,
uma certa explosão em cada passo.

Apostar em conta-gotas viciado:
certeza de fratura exposta em aço,
círculo só rabisco nos quadrados,
isca disfarçada em frágil acaso.


In: BARBOSA, Frederico. Rarefato. São Paulo: Iluminuras, 1990. Poema integrante da série 1 - A Consciência do Zero.

NOTA: Poema composto de 10 partes, com 2 quadras cad
1 055
Odylo Costa Filho

Odylo Costa Filho

Dois Sonetos para Guimarães Rosa

1. SONETO DE DIADORIM

Quem pára, quando nasce a madrugada,
para pensar que a noite já vem vindo?
O amor é coisa sempre inesperada,
brota do vivo chão, grita dormindo.

Cheiro de bois, distante cavalgada,
buritizal no sol, mato bulindo,
Riobaldo carrega, em mão fechada,
mel e morte, ar do Cão, luz do Benvindo.

Sertão é seu: veredas e brejões,
couros, águas, sossegos, chapadões...
Mas a má sina esbarra a travessia.

E hoje só Diadorim voga nos campos,
campeando estrelas, anjos, pirilampos,
pertença da Senhora da Abadia.

2. SONETO DE ACEITAÇÃO

"A fortes braços de anjos sojigado."
GUIMARÃES ROSA

A fortes braços de anjos sojigado
andei por terras que nem mesmo eu sei,
em duras sortes fui crucificado,
provei dos mares a mais crua lei.

Mas não quis me quedar enfeitiçado
e na rede em que um dia me deitei
"Eu sou feliz" estava bem gravado
em sinal do destino que aceitei.

Juntei destroços do meu ser antigo,
e na piedade do maior tormento
regrudaste pedaço por pedaço.

A saliva do amor secou no vento
e contra o mal da morte meu abrigo
foi a sombra serena do teu braço.


In: COSTA, FILHO, Odylo. Tempo de Lisboa e outros poemas. Pref. Manuel Bandeira. Lisboa: Livr. Morais, 1966. (Círculo de poesia, 32)
1 513
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Meu coração. o almirante errado

Meu coração. o almirante errado
Que comandou a armada por haver
Tentou caminho onde o negou o Fado,
Quis ser feliz quando o não pôde ser.

E assim, [fechado?], absurdo, postergado,
Dado ao que nos resulta de se abster,
Não foi dado, não foi dado, não foi dado
E o verso errado deixa-o entender.

Mas há compensações absolutórias
Na sombra — no silencio da derrota

Que tem mais rosas de alma que as vitórias.

E assim surgiu, Imperial, a frota
Carregada de anseios e de glórias
Com que o almirante prosseguiu na rota.
869
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Garrafa de Cerveja

uma coisa de fato miraculosa acaba de acontecer:
minha garrafa de cerveja girou e caiu
e aterrissou com a parte do fundo no chão,
e eu a coloquei de volta na mesa para baixar a espuma,
mas as fotos não estavam lá essas coisas hoje
e havia uma pequena fenda no couro
do meu sapato esquerdo, mas é tudo muito simples:
não podemos adquirir muita coisa: há leis
que desconhecemos de todo, todo tipo de cutucão
para nos queimar ou congelar; o que faz com que
o melro se encaixe na boca do gato
não nos cabe dizer, ou por que certos homens
terminam enjaulados como esquilos de estimação
enquanto outros se espremem contra peitos enormes
ao longo de infindáveis noites – esta é a
missão e o terror, e não nos é dito
por quê. ainda assim, que sorte a garrafa
ter aterrissado direito, e embora
eu tivesse uma de vinho e uma de uísque,
isto prediz, de algum modo, uma noite boa,
e talvez amanhã meu nariz esteja mais comprido:
novos sapatos, menos chuva, mais poemas.
1 086
Felipe Vianna

Felipe Vianna

ESPERANÇA

Eu vivo o que eu posso
Pois o que não posso
Não me pertence.

Mas o que eu quero
Pertencer-me-á.

13/09/1998

677
Felipe Vianna

Felipe Vianna

VAE SOL!

(ai do homem só)

Não te deixes morrer
Antes que a morte
Te alcance.

Não te abandones,
Meu amigo.
Nada posso fazer
Por alguém
Que não se faz.

A luta é tua,
A vitória é tua.

Na vida,
Não há tempo para
Chorar.


862
Marina Colasanti

Marina Colasanti

E LOGO PASSA

A vida é uma praça às duas da tarde
o sol queimando a nuca e o coração
e nós andando cegos no destino
que nos crava a pino.
1 074
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ruído longínquo e próximo não sei porquê

Ruído longínquo e próximo não sei porquê
Da guerra europeia... Ruído de universo de catástrofe...
Que vai morrer para além de onde ouvimos e vemos?
Em que fronteiras deu a morte rendez-vous
Ao destino das nações?

Ó Águia Imperial, cairás?
Rojar-te-ás, negra amorfa coisa em sangue,
Pela terra, onde sob o teu cair
Ainda tens marcado o sinal das tuas garras para antes formar o voo
Que deste sobre a Europa confusa?

Cairás, ó matutino galo francês,
Sempre saudando a aurora? Que amos saúdas agora
Que sol de sangue no azul pálido do horizonte matutino?
Porque atalhos de sombra que caminho buscas,
Que caminho para onde?
Ó civilizações chegando à encruzilhada nocturna
D'onde tiraram o ponto-de-apoio
E donde partem caminhos curvos não sei para onde,
E não ha luar sobre as indecisões...

Deus seja connosco...
Chora na noite a Senhora de [...],
Torcendo as mãos, de modo a ouvir-se que elas se torcem
No silêncio profundo.

Deus seja connosco no céu e na terra,
Ó Deusa Tutelar do Futuro, ó Ponte
Sobre os abismos do que não sabemos que seja...
Deus seja connosco, e não esqueçamos nunca
Que o mar é eterno e afinal de tudo tranquilo
E a terra grande e mãe e tem a sua bondade
Porque sempre podemos nela recostar a cabeça cansada
E dormir encostados a qualquer coisa.

Clarins na noite, desmaiando... Ó Mistério
Que se está formando lá fora, na Europa, no Império...
Tropel vário de raças inimigas que se chocam
Mais profundamente do que seus exércitos e suas esquadras,
Mais realmente do que homem contra homem e nação contra nação...

Clarins de horror trémulo e frio na noite profunda...
E o quê?... Tambores para além do mistério do mundo?
Tambores de quê... dormis deitados, dobres minúsculos sobre quê?
Passa na noite um só passo soturno do uno exército enorme...
Clarins sobrepostos mais perto na Noite...
Ó Homem de mãos atadas e levado entre sentinelas
Para onde, porque caminho, para ao pé de quem?
Para ao pé [de] quem, clarins anunciadores de quê?
(Tityro, a tua flauta e os campos de Itália sob César Augusto
Ah, porque se armam de lágrimas absurdas os olhos
E que dor é esta, do antigo e do actual e do futuro,
Que dói na alma como uma sensação de exílio?
Tityro a tua flauta em Éclogas longínquas...
Virgílio a adular o César que venceu
Per populum dat juri... Um pobre em guerra,
Ó minha alma intranquila... Ó silêncios que as pontes
Sob as fortalezas antiquissimamente teriam,
Sabeis e vedes que a terra treme sob os passos dos exércitos,
Fluxo eterno e divino das ondas sob os cruzadores e os torpedeiros...
1 058
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Inquebrantada linhagem

Por onde vou, no jardim,
cato gravetos.
Antigo destino me leva a escolher
entre verdes
aquilo que está seco, ossos mortos
sem seiva
que a árvore abandona.
Nenhuma panela espera a magra chama
nenhum frio me obriga a essa colheita.
Vou de cabeça baixa
garimpando
e faço feixes que levarei às costas
ou nos braços
até lugar nenhum
apenas para juntar-me à fila interminável,
inquebrantada linhagem de fêmeas que
como formigas colhem
e levam
e colhem e levam
e colhem
porque esse é o seu lote.
963
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando se amam, vívidos,

Quando se amam, vívidos,
Dois seres juvenis e naturais,
Parece que harmonias se derramam
Como perfumes pela terra em flor.
Mas eu, ao conceber-me amando, sinto
Como que um gargalhar hórrido e fundo
Da existência em mim, como ridículo
E desusado no que é natural.
Nunca, senão pensando no amor,
Me sinto tão longínquo e deslocado,
Tão cheio de ódios contra o meu destino
De raivas contra a essência do viver.
E nasce então em mim de tal sentir,
Um negrume de tédio e ódio imenso
Que torna os grandes crimes e os mais torpes
Inadequadas cousas ao que sinto
Em sua humilde e popular vileza.
1 240
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Inscrição

Aqui, sob esta pedra, onde o orvalho roreja,
Repousa, embalsamado em óleos vegetais,
O alvo corpo de quem, como uma ave que adeja,
Dançava descuidosa, e hoje não dança mais...

Quem não a viu é bem provável que não veja
Outro conjunto igual de partes naturais.
Os véus tinham-lhe ciúme. Outras, tinham-lhe inveja.
E ao fitá-la os varões tinham pasmos sensuais.

A morte a surpreendeu um dia que sonhava.
Ao pôr do sol, desceu entre sombras fiéis
À terra, sobre a qual tão de leve pesava...

Eram as suas mãos mais lindas sem anéis...
Tinha os olhos azuis... Era loura e dançava...
Seu destino foi curto e bom...
— Não a choreis.
1 022
Rubén Darío

Rubén Darío

Passa e esquece

Peregrino que vais buscando em vão
Um caminho melhor que teu caminho,
Como queres que te dê a mão,
Se meu estigma é teu estigma, peregrino?
Não chegarás jamais a teu destino;
Levas a morte em ti como o verme
Que te rói o que tens de humano...
O que tens de humano e de divino!
Segue tranqüilamente, Oh! Caminhante!
Ainda te fica muito distante
Esse país incógnito que sonhas...
E sonhar é um mal. Passa e esquece,
Pois se te empenhas em sonhar, te empenhas
Em aventar a chama de tua vida.

1 175
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Depois de quando deixei de pensar em depois

Depois de quando deixei de pensar em depois
Minha vida tornou-se mais calma —
Isto é, menos vida.
Passei a ser o meu acompanhamento em surdina.

Olho, do alto da janela baixa,
As garotas que dançam a brincar na rua.
O seu destino inevitável
Dói-me.
Vejo-lho no vestido entreaberto nas costas, e dói-me.

Grande cilindro, quem te manda cilindrar esta estrada
Que está calçada de almas?

(Mas a tua voz interrompe-me
— Voz alta, lá de fora do jardim, rapariga —
E é como se eu deixasse
Cair irresolutamente um livro no chão.)

Não teremos meu amor, nesta dança da vida.
Que fazemos por brincadeira natural,
As mesmas costas desabotoadas
E o mesmo decote a mostrar-nos a pele por cima da camisa suja?
868
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Oceano

Olho a praia. A treva é densa.
Ulula o mar, que não vejo,
Naquela voz sem consolo,
Naquela tristeza imensa
Que há na voz do meu desejo.

E nesse tom sem consolo
Ouço a voz do meu destino:
Má sina que desconheço,
Vem vindo desde eu menino,
Cresce quanto em anos cresço.

— Voz de oceano que não vejo
Da praia do meu desejo...
999
Walkiria Lopes Cruz

Walkiria Lopes Cruz

Conversa Vai, Conversa Vem

Sem saber o que me esperava
eu liguei aquela TV que se digita
e pode falar numa tal Internet.
O computador!

Fui entrando numa sala
com uma tal faixa etária
e logo fui questionada:
— Quer conversar comigo?

Como estava sozinha, aceitei.
Conversa vai, conversa vem
justamente nele me gamei.

Nunca esperava conversar com aquele carioca de novo.
Mas numa segunda-feira o aparelho toca.
Era ele! Que loucura!
Conversa vai, conversa vem
ele me pede em namoro!

No mês do Carnaval ele vem me visitar
Vou esquecer tudo em volta
e deixar meu mundo rolar.
Com tudo isso
acredito muito mais em destino!!!

852
Marilina Ross

Marilina Ross

Dança

Dança sobre restos de cristais
deste tempo não tão belo
porque sozinha não estás

Dança sobre antigas cinzas
sobre todas as tuas feridas
sozinha não estás

Se a imagem de teu espelho já não está
será que estás
aprendendo a caminhar?

Dança sobre tua casa, entre a erva
o odor do inverno
sozinha não estás

Dança bela criança, pequena criança
distorções do tempo...
sozinha não estás

Sobre a fumaça que cobriu
a luz de nossa cidade
e ainda que doa

não a podemos modificar
Dança sobre a dor
que a dança à consumirá

Dança sobre a tua rua que dança
sobre esta casa que dança
se não se pode fazer mais...

Dança sobre a desventura
à luz da lua
sobre o campo e o mar

Dança, é caricia, é pudor
dança não é ódio, é amor
é aprender a voar

Se puderes dançar pelo ar
também as estrelas poderão abraçar-te
não sigas agarrada as tuas dores
que não sabem dançar

Dança junto a tua vida que dança
junto a tudo que falta
se não se pode fazer mais...

Dança...
Dança...
Dança...

1 014
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O DESTINO: As minhas mãos invisíveis

As minhas mãos invisíveis
Pesam sobre o mundo
E as coisas, insensíveis
Ao seu condestinar profundo,
Dormem no sonho de verdade
Chamado a sua liberdade.

Todos são malhas de uma rede
Que no seu desfazer
Julgam que vivem e têm sede
    De em si crer.
970
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vou atirar uma bomba ao destino.

Vou atirar uma bomba ao destino.
2 260
Marina Colasanti

Marina Colasanti

ALI, ONDE

Onde a coxa acaba
e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio
prenúncio de voragem
onde o futuro é agora.

Ali, onde sol não nasce,
evadem-se os caminhos
ali traçam-se os rumos
se homem
se mulher
carta marcada.
E ali o desejo dorme
ou canta
senhor da encruzilhada.
1 175
Matheus Tonello

Matheus Tonello

O Show da Vida

Abrem-se as cortinas, o show vai começar,
Não é só o dia que amanhece, com ele vem as marionetes incansáveis,
Controladas pela força básica da vida;

Todos os gestos, ações, movimentos, nada é nosso
Somos manipulados por um destino, seja ele bom ou ruim...
Nossas lágrimas, nossos risos são puramente encomendados,
Para dar vida ao espetáculo

O show tem momentos de dor, paixão, tristeza e encantamento,
Há momentos em que a emoção é tão forte,
Que nos dá a nítida impressão de estarmos
VIVOS!

O que temos a fazer? E a felicidade?
Talvez não sejamos o mais feliz possível,
Mas diante das circunstâncias inconstantes de vida e
morte,
Acondicionaremos a felicidade a uma palavra muito importante,
FÉ!

925