Poemas neste tema

Desilusão e Desamor

Alfonsina Storni

Alfonsina Storni

O Engano

Sou tua, Deus sabe porque, já que compreendo
Que haverás de abandonar-me, friamente, amanhã,
E que embaixo dos meus olhos, te encanto
Outro encanto o desejo, porém não me defendo.

Espero que isto um dia qualquer se conclua,
Pois intuo, ao instante, o que pensas ou queiras
Com voz indiferente te falo de outras mulheres
E até ensaio o elogio de alguma que foi tua.

Porém tu sabes menos do que eu, e algo orgulhoso
De que te pertence, em teu jogo enganoso
Persistes, com ar de ator dono do papel.

Eu te olho calada com meu doce sorriso,
E quando te entusiasmas, penso: não tenhas pressa
Não es tu o que me engana, quem me
engana é meu sonho.

1 499
Antero de Quental

Antero de Quental

Voz do outono

Ouve tu, meu cansado coracao,
O que te diz a voz da Natureza:
- Mais te valera, nu e sem defesa,
Ter nascido em asperrima solidao,

Ter gemido, ainda infante, sobre o chao
Frio e cruel da mais cruel devesa,
Do que embalar-te a Fada da Beleza,
Como embalou, no berco da ilusao!

Mais valera a tua alma visionaria,
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba varia,

(Sem ver uma so flor das mil, que amaste,)
Com odio e raiva e dor - que ter sonhado
Os sonhos ideais que tu sonhaste!> -

2 214
Maria Isabel

Maria Isabel

A hora vazia

Onde as humildes palavras
Que ingenuamente disseste?
Onde os gestos dos teus braços
Nascidos para enlaçar?

Cansaste. O sol do deserto
Secou tua alma de fonte.
Morreu nos dedos do inútil
A tua frágil canção.

Não mais ouvirás soluços,
Não mais na noite deserta
Descobrirás desesperos.
Corpos virão sobre as ondas,
Diante dos teus olhos secos.

Houve uma voz nos teus lábios
Quente e viva. Quando foi?

Hoje a fadiga, hoje o sono.
Hoje, trágica e vazia,
A hora de contemplar.

783
Leila Mícollis

Leila Mícollis

Tentativa de suicídio

Foi ao toalete
e cortou os sonhos,
a gilete.

1 111
Arita Damasceno Pettená

Arita Damasceno Pettená

Tarde demais

Tarde demais

Era frio, muito frio .
Frio na tarde, frio em mim..
Olhos em pranto,
Alma em desencanto,
Parti a caminhar .
E no melancólico crepúsculo,
Ouvi uma voz que dizia :
Esqueça !

ConTinuei a caminhada .
Era noite, muito noite então .
Estrelas perfilavam o firmamento,
Num brilho nostálgico o solitário .
E dentro da noite vazia,
Rosto banhado em luar,
Ouvi outra voz que dizia :
Perdoa !

Prossegui a cavalgada .
E já não havia mágoa
E nem mais ressentimento .
Foi quando então o coração falou :
Volta !
Voltei .
Mas era tarde,
Muito tarde então .
Nunca mais o encontrei!

1 119
Maysa

Maysa

Ouça

Ouça, vá viver a sua vida com outro bem
Hoje eu já cansei de pra você não ser ninguém
O passado não foi o bastante para lhe compreender
Que o futuro seria bem grande só eu e você

Mas quando a lembrança
Como você for morar
E bem baixinho
De saudade você chorar
Vai lembrar que um dia existiu
Um alguém que só carinho pediu
E você fez questão de não dar
Fez questão de negar

1 055
Luiza Amélia de Queiroz

Luiza Amélia de Queiroz

O homem não ama



Jamais o seu peito mais duro que o aço,
Palpita a não ser a louca ambição.
Supõe-se - orgulhoso - que é soberano,
Que todas as belas vassalas lhe são!
Mais falso que a brisa que as flores bafeja,
Se mil forem belas... a mil finge amar...
Assim um já disse, e assim fazem todos,
Embora não queiram jamais confessar,
Cruéis, como Nero, são todos os homens!
Ateiam as chamas de ardente paixão,
Depois... observam, sorrindo, os estragos...
E dizem, cobardes! que têm coração!!

(De Flores Incultas, 1875)

1 455
Antero Coelho Neto

Antero Coelho Neto

Agora Tenho que Partir

Agora tenho de partir
para longe e sempre
sem nunca mais voltar.

Eu devo novamente fugir
como tantas vezes durante a vida
indo embora sem chorar
depois de outra luta perdida.

Parto mas hoje eu sei
que jamais voltarei
aqui ou a qualquer lugar.

1 251
Alberes Cunha

Alberes Cunha

Dilema

Você passou por mim despercebida,
Levando em cada passo uma saudade.
E ao perceber tamanha realidade,
Fui definhando em toda a minha vida.

As ilusões, os sonhos, na verdade
Você levou em rápida corrida...
Restando uma lembrança dolorida,
Desse romance morto em tenra idade.

No mais, tudo passou rapidamente.
Você partiu precipitadamente,
Deixando esse vazio que ficou...

E ao relembrar o nosso antigo ninho,
Sinto esse medo de ficar sozinho,
Sem mesmo nem saber quem hoje sou!

989
Américo Gomes

Américo Gomes

Beira Molhada

Tu és muito sem vergonha
Claudete,
Fostes comunista, atéia
E agora, charlatã?

Dissestes mil vezes rindo
Que teu sorriso tão lindo
Era de prazer, de sonho

E agora, nem me liga
Teus ideais, tua briga
Era fumaça no céu

Quem virá te socorrer
Quando um dia renascer
Essa vontade serena

Que cresce, reina, governa
A rebelião eterna
Quanto mais me passam a perna
Mas eu fico corajoso

E mais o meu sonho aumenta
Se agiganta à minha frente
O desejo de lutar
A minha gente inda sonha
E tu Claudete, medonha
Foge do teu pesadelo.

870
Amadeu Fontana

Amadeu Fontana

Haicai

Despetala a rosa
o vento... Que desalento
na tarde chuvosa

Rosa, a rosa flor,
caída ao chão, esquecida,
lembra um pobre amor

933
Susana Thénon

Susana Thénon

Poema

É inútil que a amada se arraste
em busca da mão que desenha sombras
sob sua pele.
É inútil que voe
perseguindo a nuvem de pedra que a feriu.
Em vão saltará de folha em folha
perguntando pelo rosto
que se afogou
no ar.
946
Alfredo José Assunção

Alfredo José Assunção

Lembranças

Um violino, uma mulher.Um trago, uma dose.Um alguém que não quis.

Este alguém que me falta.esta luz que perdi,é o violino sozinho.Sou uma orquestra sem solo.

O beijo que bebiaé a dose que não tenho.O trago, transe maior,é o gozo que me foste.

Sem ti sou tão só!...Masturbo lembrançasde um violino, uma mulher,um trago, uma dose...

1 038
Jaumir Valença da Silveira

Jaumir Valença da Silveira

Fluminense FM

O sol, o céu e o sal;
onda cobrindo a areia.

Calçada, porrada, breu,
cerveja noite adentro.

Segredo tanto eu tenho,
só você que escutava,

acho que agora eu morro
um pouco sem tua voz

ouvido, garganta, língua,
sobra um pouco de nada.

Saudade de quem te acredita.
Adeus,
maldita.

959
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

De Um Amor Morto

De um amor morto fica
Um pesado tempo quotidiano
Onde os gestos se esbarram
Ao longo do ano

De um amor morto não fica
Nenhuma memória
O passado se rende
O presente o devora
E os navios do tempo
Agudos e lentos
O levam embora

Pois um amor morto não deixa
Em nós seu retrato
De infinita demora
É apenas um facto
Que a eternidade ignora
2 307
Valéry Larbaud

Valéry Larbaud

Mise au Point

Deixou teu gesto ali
nenhuma rosa,
delicadeza e não ser,
nenhum suspiro,
silêncio e resposta.

E a lua nenhuma
grita a lembrança esquecida
de teu nenhum sorriso.

Frios cristais, no entanto,
que guardam vinhos de sangue,
não são teus olhos, ainda.

972
Luís António Cajazeira Ramos

Luís António Cajazeira Ramos

Soneto Áspero

(poema augusto / poesia dos anjos)

Noite de natal, e o mundo é piedoso.
Eu, estou só, no quarto de dormir.
A intermitente (ano não, dia sim)
bondade e caridade é-me demais.

Um papai-noel pousou-me na sorte,
e eu lhe disse, então: — Buuh, você é um saco!
Todos são felizes (na solidão,
eu velo o fim da neve de algodão).

Cheguei até aqui vivo — não sei
se sou melhor ou sou pior por isso.
Apenas, eu cheguei. De qualquer jeito,

hoje sei se ontem amei: não amei.
Burocraticamente, amei amém.
(Nisso, cheguei ao limite do spray.)

1 089
Valéry Larbaud

Valéry Larbaud

Descuido

Mergulhei por descuido teus olhos
Em outros mares, em outros vinhos:
Perigosas paisagens, proibidas,
Que desfazem seus próprios caminhos.
Hoje, mais nada sabemos, loucos
E bêbados náufragos de um sonho.
Os nossos silêncios estão roucos
De tanto nos ferirmos. Choramos.
Que outros céus acolham nossos corpos.

801
J. Ribamar Matos

J. Ribamar Matos

Silêncio

Pouco te importa o meu sofrer insano
e que eu viva, afinal, como hoje vivo,
nessa angústia de pássaro cativo,
a andar de desengano em desengano!

Já não tenho ilusões nem mais me engano
com a minha existência sem motivo,
pois não creio em, depois, ver redivivo
o vigor de outros tempos, espartano.

Ver-me-ás, entretanto, silencioso e mudo,
nem um lamento de meu lábio triste
ouvirás nunca mais, depois de tudo!

Calado e triste há de me ver agora,
sem o vigor de quando tu surgiste,
tecendo versos pela vida a fora...

1 017
Geraldo Bessa-Victor

Geraldo Bessa-Victor

Lamento da Maricota

- "Bom dia, senhor José.
Como passou? Passou bem?"

Mas o senhor José virou a cara,
rudemente, com desdém.
E a pobre Maricota, que passara
mesmo ao lado,
a Maricota ficou
a cismar, a dizer com ar banzado:

-"Aiué, senhor José!
Para quê fazer assim?
Não se recorda de mim?
Pois, então, eu vou ser franca.
Agora tem mulher branca,
a senhora dona Rosa,
a sua mulher casada,
a quem chama "minha esposa";
já não quer saber da preta,
desprezada, abandonada,
a Maricota, coitada!

Agora veste bom fato,
estreia lindo sapato;
não se lembra do passado,
quando usava calça rota
e casaco remendado,
e sapato esburacado
mostrando os dedos do pé...

Aiué, senhor José!

Hoje está forte e contente,
a passear na avenida;
não lembra que esteve doente,
muito mal, quase morrendo,
e lhe dei jula de dendo,
para lhe salvar a vida,
pois nem doutor em Luanda,
nem quimbanda no muceque,
ninguém o curou, ninguém,
senão eu, pobre moleque!

Agora já cheira bem,
com boa perfumaria,
quer de noite quer de dia;
não se recorda, afinal,
da catinga, do chulé,
no tempo em que lhe dizia:
- José, voçê cheira mal,
vá tomar banho, José!

Veio agora de Lisboa,
comprou uma casa grande,
dorme numa cama boa;
nós tínhamos, lá no Dande,
a cubata de capim,
e dormíamos no luando.

Agora tem dona Rosa,
já não se lembra de mim!

Aiué, senhor José,
para quê fazer assim!?...
1 498
Pedro Corsino Azevedo

Pedro Corsino Azevedo

Conquista

Trás!...
Explodiu a Verdade,


Agora sou capaz
De tudo
Indiferente e quedo e mudo
Deixarei escangalhar o brinquedo
Que temi na Infância,
Rasgou-se o céu em mil fatias lindas,


Ricos
Fanicos
Que recolhi na mão.

Desilusão!
Cristal, cristal, cristal!

E eu a namorar o mal...
1 349
Luis Romano

Luis Romano

Símbolo

O formato daquele berço foi um símbolo
O menino em miragens impossíveis
dormia sonhando com navios de papel
enquanto eu contemplava
a cismar,
o conjunto daquela harmonia
sumindo-se na linha do mar.

Navio-berço de menino crioulo
navio-guia que ficou sem ir
"navio idêntico ao navio da nossa derrota parada".
1 282
Pedro Ayres de Magalhães

Pedro Ayres de Magalhães

A estrada do monte

Não digas nada a ninguém
que eu ando no mundo triste
a minha amada, que eu mais gostava,
dançou, deixou-me da mão;
Eu a dizer-lhe que queria
ela a dizer-me que não
e a passarada
não se calava
cantando esta canção

Sim, foi na estrada do monte
perdi o teu grande amor
Sim ali ao pé da fonte
perdi o teu grande amor

Ai que tristeza que eu sinto
fiquei no mundo tão só
e aquela fonte, ficou marcada
com tanto que se chorou
Se alguém aqui nunca teve
uma razão para chorar
siga essa estrada
não diga nada
que eu fico aqui a chorar

Sim, foi na estrada do monte
perdi o teu grande amor
Sim ali ao pé da fonte
perdi o teu grande amor

943
Frederico de Brito

Frederico de Brito

Fado das queixas

Pra que te queixas de mim
Se eu sou assim
como tu és,
Barco perdido no mar
Que anda a bailar

Com as marés?
Tu já sabias
Que eu tinha o queixume
Do mesmo ciúme
Que sempre embalei...
Tu já sabias
Que amava deveras;
Também quem tu eras,
Confesso, não sei!

Estribilho:
Não sei
Quem és
Nem quero saber,
Errei
Talvez,
Mas que hei-de fazer?
A tal paixão
Que jamais findará,
-- Pura ilusão! --
Ninguém sabe onde está!
Dos dois,
Diz lá
O que mais sofreu!
Diz lá
Que o resto sei eu!

Pra que me queixo eu também
Do teu desdem
Que me queimou
Se é eu queixar-me afinal
Dum temporal
Que já passou?
Tu nem calculas
As mágoas expressas
E a quantas promessas
Calámos a voz!
Tu nem calculas
As bocas que riam
E quantas podiam
Queixar-se de nós!

Estribilho

969