Poemas neste tema

Desilusão e Desamor

Golgona Anghel

Golgona Anghel

Quando a paixão recuperar a vista

Quando a paixão recuperar a vista
o antigo caminho dos lobos,
a coruja e os seus monólogos,
partículas de sal,
ínfimos movimentos de sombras,
afastarão para sempre os nossos corpos.

Com ou sem licença para fazer obras,
o horizonte montará o seu palco de fim de contas.
Esta comédia de vésperas
que o cansaço tem mal encenado.

A vida será uma soma de mensagens erradas e
de músicas que não conseguimos ouvir até ao fim.

Lembrar-me-ás uma loja de souvenirs
com barcos engarrafados e colares de conchas.
Berloques e berlindes, lápis do México 86, porta-chaves da expo 98.
Enfim, demasiada poeira para tão curto caminho.

Entretanto, está sol e, olha,
parece que as cegonhas adiaram o voo para o sul.
Um pouco como eu, esquecem de ir embora.
As coisas solidificam para não mudarem de lugar.
948
Marcelo Batalha

Marcelo Batalha

A Cada Segundo

Pranto escondido
Choro por ti
Rogo por ti
Busco o teu cantar
Em cada murmúrio das ondas do mar

Pensamento perdido
Danço sem ti
Transo sem ti
Mando o meu cantar
Por cada raio brilhante de luar

Por muitas praias caminhei
Por muitas trilhas procurei
Teu rosto me surge em cada brisa vespertina
Em cada roseira a florir...
E cada pétala que cai exala teu cheiro
Esse perfume que, insensato, insiste em me seduzir
Mas não cheguei primeiro

Coração partido
Longe de ti
Lembro de ti
Canto o nosso amar
Perdido em cada insistente lágrima a rolar

782
António Arnaut

António Arnaut

Gloria Efémera

O rosto do cartaz eleitoral
sobre um fundo de promessas, a sorrir
lembrava um maioral
a franquear as portas do porvir.

Vota! O apelo era um alaúde
a embalar a fome atávica da grei;
haverá trabalho, habitação, saúde,
tudo o que at´´a gora não vos dei.

Mas o vento límpido, ingrato
naquele domingo de eleições
ia desfazendo o candidato
em cruéis, frenéticos rasgões.

E quando a noite desceu
um varredor indeciso,
sonâmbulo, varreu
os últimos detritos do sorriso.

1 236
René Daumal

René Daumal

Vidinha triste

...

Noite sobre a noite, é festa, abafemos a miséria
sob o algodão duma alegria espessa;
noite sobre a noite, é a fraqueza
do coração partido.

...
817
Leónidas Lamborghini

Leónidas Lamborghini

O sabotador arrependido

No meu rosto está escrita a aceita
renúncia
tanto vil ostracismo
depois soube
o trabalho é saúde, é fator
dignifica
e o outro é o crime
a poesia maldita

Eu era o braço direito agora não sou nada

Esta guitarra já cai
tombada da minha alma
sua última nota
espera.

778
Artur Eduardo Benevides

Artur Eduardo Benevides

Dos Caminhos e Descaminhos da Solidão

I
A solidão
é um grito selvagem
na infinita viagem
de nossa expectação.
Insulana e tirana
fere-nos com o sílex de sua maldição.
Ou dança às vezes crucial pavana
tornando mais escura a nossa habitação.
Ela vem de repente
com seu olhar parado, de serpente.
E nos põe em seus nichos
a ensinar-nos, com longos cochichos,
seu ofício final de penitente.

II
A solidão
é bailarina imóvel em cima de um tablado.
É o noivo enjeitado
que volta sozinho, em meio à multidão.
E semelha, às vezes, um velho trem parado.
Ou um rosto no espelho, aprisionado,
a ouvir, ao longe, o latido de um cão.

III
Oh, a disciplina dos que vivem sós
e dos que voam às cegas, como os noitibós!
E todos os poemas nascem dessa fonte.
Todos os nossos passos cruzarão sua ponte.
E como não temos para quem gritar
somos veleiros perdidos em seu mar.

IV
Já fui mais sozinho
do que os retratos de velhos casarões
onde se guarda, qual rubro vinho,
a soma imperial das solidões.
A solidão dos avós.
A solidão dos rondós.
A solidão da tia solteirona
adormecendo aos poucos, na poltrona.
Ou a solidão do negro acorrentado
por haver olhado a moça, no rio, desnuda.
A solidão graúda
dos que envelhecem em paz e castidade.
Ou planejam o amor, mas sem maldade,
e são logo feridos e esquecidos.

V
Ó solidão do desamor!
Solidão do Cristo no Tabor!
Solidão
dos que perderam as chuvas e a sazão!
E há um jogo de surpresas
quais passos pelas devesas
cheias de assombração.
Mastigamos, contudo, esse amargo pão
e há no corredor
do mundo interior
inexorável inavegação.

VI
Alma sozinha e perdida,
a solidão corre a toda a brida
para nada.
Mesmo assim, nasce a madrugada
sobre as casas vazias
e as penedias.
E tudo, em nós, verão ou primavera,
é uma vasta espera.

VII
Ai, solidão: a morte no último vagão.
Um longo e irrespondido olhar
ou um entreparar
de vento em nosso vão lamento.
Ela em nós se debruça
e soluça
enquanto uma seresta se afasta
qual canção azul e sempre casta
que jamais esquecemos
e em nós sofremos
igual à lembrança da infância perdida.
Ou da vida.

VIII
Triste é o nosso sorrir.
Às vezes, chegar é o mesmo que partir.
Somos uma longa viagem
em que vamos perdendo rumo e paisagem.
E no silêncio final dos caminhos
estaremos sozinhos.
Por isso, em minha alma indormida
o sonho é como o apito de despedida
de um navio tragado em rodopio.

IX
Ônix da ausência
a solidão é a consciência
do pélago nas almas mais sofridas.
Chuva molhando o rosto dos suicidas
é uma loba uivando sob o frio,
ou o cinzento do estio.
É o canto da araponga ao meio-dia.
O sol da noite. A dor da poesia.
O medo de alguém na multidão.
Um ser a fugir da escuridão.
E vem de Alba-Longa, talvez. Ou de Castela.
Ou do sertão, na Cantiga do Vilela.
Ou das longínquas ilhas
além dos horizontes das Antilhas.
Mas estando tão longe fica em nós tão perto
que sentimos seu abismo abrir-se num deserto.

X
Oh, a solidão dos espelhos
e do mugir dos bois na madrugada!
Ó solidão — batentes de uma escada
em que dormitam sete escaravelhos.
E há uma flauta triste no final de tudo.
Uma súplica em dor num espírito mudo.
Ou o grito inesperado. O final da lida.
O inalcançado amor. A alma já perdida
de um bêbado num bar. Ou de alguém a buscar
as cousas que deveriam estar e nunca estão.
E um punhal invisível se ergue: a solidão.
A solidão de Édipo e Narciso.
A solidão que chega sem aviso
ferindo os seios de luar da Amada.
E treme na balada
que em nós, qual soluço, sossegou.
Ou é um grou
voando ao solstício
sobre a boca fatal de um precipício.
E tudo parece o sono da verdade
qual cavalo cego em meio à tempestade.
Ainda assim, tentamos atravessar os nossos rios
vendo, nas lanternas, o lento apagar-se dos últimos pavios.

1 529
Millôr Fernandes

Millôr Fernandes

Obstinação dos Outros

Deixamos
de beber
E em cada esquina
Abriram um novo bar.

Abandonamos o fumo;
Passam homens, crianças
E navios
A fumar.

A rua, como nunca, está cheia de mulheres
Jovens, lindas de corpo, sedutoras de andar.
Ah, mas já deixamos de amar.
1 327
Francesca Angiolillo

Francesca Angiolillo

Na avenida

Como é triste a vida na cidade
a mãe empurra o carrinho na galeria
a criança sonolenta com a cara suja
de sorvete como é boa
a vida na cidade quando
se sai na avenida
e um homem dança
sacudindo todo o corpo ao som
da banda que acelera
todos os hits
que alegria
é sair na avenida e saber
que nela não encontro
mais você nem um eco
emana da esquina cheia
de papéis e folhas e cadeiras acanhadas
Ah que bela é a vida quando
a gente se esquece
e nem lembra
de que pensando na vida
assim
distraída
pode vir um carro e
bam.
629
Dambudzo Marechera

Dambudzo Marechera

Há um dissidente na sopa eleitoral!

Não tenho ouvidos para slogans
É melhor que você cale a matraca
Eu corro quando é hora do EU TE AMO
Não venha com essa Eu vou ficar dessa vez
Eu corro quando é hora de THE FIGHT
Eu corro quando é hora do AVANTE
Não venha com essa Vamos trepar toda a noite
A lua não vai baixar
Primeiro desajeitada, lancinante de constrangedora
Mas com Vênus ascendendo, grito e pulo de alegria

Quando os lençóis estão finalmente em silêncio
Não pergunte "O que você está pensando?"
Não pergunte "Foi gostoso?"
Não se sinta mal porque estou fumando
Os inseguros é que perguntam e se sentem mal
Que dizem depois do ato "Me conte uma história"
E você já deve saber bem
Não fale em "CASAMENTO" se quiser que essa reconciliação
Venha a durar

:

There ´s a dissident in the election soup!

I have no ear for slogans
You may as well shut up your arse
I run when it"s I LOVE YOU time
Don"t say it I"ll stick around
I run when it"s A LUTA time
I run when it"s FORWARD time
Don"t say it we"ll fuck the whole night
The moon won"t come down
At first awkwardly, excruciatingly embarrassing
But with Venus ascending, a shout and leap of joy

When the sheets are at last silent
Don"t ask "What are you thinking?"
Don"t ask "Was it good?"
Don"t feel bad because I"m smoking
They ask and feel bad who are insecure
Who say after the act "Tell me a story"
And you may as well know
Don"t talk of "MARRIAGE" if this reconciliation
is to last.


Quem usou minha mochila nova!?

Tive esse pesadelo
Pegava meu irmão estourava seu cérebro
Ao acordar encontrava atrasado o aluguel

Tive esse sonho
Pegava minha irmã pruma foda
Ao acordar lá estavam os B.O.´s

Tentei dar um jeito na noite de sol
Ladrão cafetão tudo só na lábia
Ao voltar a PM já metia o pé na porta do barraco

E eu que achei que até um filho-da-puta
Diziam que tinha FAMÍLIA
Suas desculpas esfarrapadas me devolveram
Aos chutes noite adentro.

Agora não há o que fazer só não pensar
Sim não pensar é o único tabu
Mochila de Pandora dentro do anarquista
E sua mentícula

:

Who´s used my new rucksack!?

Had this nightmare
Bashed out my brother"s brains
Woke to find I owed rent

Had this dream
Fucking my sister
Woke to find final demands

Tried to sort out the sunlit night
Thieving pimping talk it outright
Got back bailiffs were breaking down the door

And I thought even a son-of-a-bitch"s
Supposed to have FAMILY
Their scraps of excuses kicked me back
Into the night

Now there"s nothing but not to think
Yes not-to-think is the only taboo
The Pandora"s rucksack inside the anarchist"s
Tiny mind
930
Jack Spicer

Jack Spicer

Para Mac

Estrela-do-mar morta numa praia
Com seus cinco braços
Representando os cinco sentidos
Representando as piadas que não contamos um ao outro
Chame a terra de chão
Chame as pessoas de humanas
Mas deixe a criatura estirada
No chão dos nossos sentidos
Como um amor
Prefigurado no mar
Que morreu
E foi à água
Todos os oceanos
De emoções. Todos os oceanos de emoções
Estão cheios de tais estrelas
Por que
Esta que está morta teria tamanha importância?

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

For Mac

A dead starfish on a beach
He has five branches
Representing the five senses
Representing the jokes we did not tell each other
Call the earth flat
Call other people human
But let the creature lie
Flat upon our senses
Like a love
Prefigured in the sea
That died
And went to water
All the oceans
Of emotion. All the oceans of emotion
Are full of such fish
Why
Is this dead one of such importance?
736
Christopher Okigbo

Christopher Okigbo

Amor à distância

A lua
Ergueu-se entre nós,
Entre dois pinhos
Que se inclinam um ao outro;

O amor ergueu-se com a lua,
Alimentou-se de nossos caules solitários;

E agora nós somos sombras
Que se prendem uma à outra,
Mas beijam apenas ar.

(tradução de Ricardo Domeneck)


1 091
Francesca Angiolillo

Francesca Angiolillo

Naxos

Melhor teria sido amar
o labirinto o desenho infinito
o engenho
a ter se deixado
devorar assim
no centro —
coração intestinos e outras
vísceras
abertas sem fio indicando
saída meada invisível
e sem uso

Melhor talvez
o minotauro
dentes chifres cascos e mãos
de homem
do que o homem
querendo lança não
um lar

o mar então
é a única
companhia ele nunca
nunca cala
suas mil bocas ondas
repetindo
eu você
na praia estreita
até os deuses sentem
609
Sidónio Muralha

Sidónio Muralha

Romance

Depois daquela noite os teus seios incharam;
as tuas ancas alargaram-se;
e os teus parentes admiraram-se
e falaram, falaram…
Porque falaram duma coisa tão bela,
tão simples, tão natural?
Tu não parias uma estrela,
nem uma noite de vendaval…
Mas tudo terminou porque falaram.
Tu fraquejaste e tudo terminou.
– Os teus seios desincharam;
só a tristeza ficou.
Ficou a tristeza duma coisa tão bela,
tão simples, tão natural…
– Tu não parias uma estrela,
nem uma noite de vendaval…
598
Angela Santos

Angela Santos

Inércia

Como
onda que se tivesse desfeito
sem mais regressar à maré
olho-me…
estendida na praia em que me desfiz

Nem um desejo macula a limpidez
do vazio
sinto-me movimento mecânico
que algo anima,
mas será que vibra ?

Não sei porque se desfaz a gente
e se cansa em nós a vida
quando o sol está a pino
e é pleno Verão ainda.

1 402
Sandro Penna

Sandro Penna

Amor, amor

Amor, amor
dileto dissabor.


:


Amore, amore,
lieto disonore.



de Croce e delizia (1958)

1 080
Sandro Penna

Sandro Penna

Juventude, amor, belas palavras,

Juventude, amor, belas palavras,
que coisa brilha em vós e vos resseca?
Resta apenas um odor de merda seca
ao longo do caminho ensolarado.

:


Amore, gioventù, liete parole,
cosa splende su voi e vi dissecca?
Resta un odore come merda secca
lungo le siepe cariche di sole.



de Croce e delizia (1958)


970
Carlos Vogt

Carlos Vogt

Dramaturgia

Não me sinto bem
no papel
vivido por você


In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 035
Paulo Leminski

Paulo Leminski

ALÉM ALMA (UMA GRAMA DEPOIS)

Meu coração lá de longe
faz sinal que quer voltar.
Já no peito trago em bronze:
NÃO TEM VAGA NEM LUGAR.
Pra que me serve um negócio
que não cessa de bater?
Mais parece um relógio
que acaba de enlouquecer.
Pra que é que eu quero quem chora,
se estou tão bem assim,
e o vazio que vai lá fora
cai macio dentro de mim?

2 163
João Baveca

João Baveca

Amigo, entendo que non ouvestes

Amigo, entendo que non ouvestes
poder dalhur viver e veestes
a mia mesura, e non vos val ren,
ca tamanho pesar me fezestes,
que jurei de vos nunca fazer ben.

Quisera-me eu non aver jurado,
tanto vos vejo viir coitado
a mia mesura. Mais que prol vos ten?
Ca, u vos fostes sen meu mandado,
jurei que nunca vos fezesse ben.

Por sempre sodes de mi partido
e non vos á prol de seer viido
a mia mesura, e gran mal mé en,
ca jurei, tanto que fostes ido,
que nunca jamais vos fezesse ben.

951
Irene Gruss

Irene Gruss

Queridos pés

Teus queridos pés me fazem sofrer
teu grande pescoço e sua nuca inteligente
tuas orelhas
Todo teu maldito corpo
Todos seus gestos malditos e teus papéis
teu lenço desesperado e enorme
todo rasgado e perdido

Teus queridos pés que não amo
que foram embora de mim.

465
Gisele Mazzonetto

Gisele Mazzonetto

Doce amargura

Amor bandido
Tempo perdido
Selva de pedra
Noites sem fim
Amo você e sempre foi assim
O amor no meu peito
Nunca vai ter fim
Você me adora
E me devora
E eu no meu canto
Espantando o pranto
Vivo aguardando o grande fim

796
Ilka Brunhilde Laurito

Ilka Brunhilde Laurito

V [Canto ao arrumar a cama

Canto ao arrumar a cama,
canto
diligente verônica
oficiando os passos
da paixão cotidiana.

Exibo ao meu espelho atônito
os lençóis que estampam o corpo
do senhor que nunca me salvou
da crucificação no pranto.

E canto porque canto,
sem esperanças de glória
ou de ressurreição.


Poema integrante da série Suíte Doméstica.

In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Canteiro de obras. São Paulo: Edicon: J. Scortecci, 1985. (Aldebarã)
1 360
Cida Villela

Cida Villela

Decepção

Suave, serenamente,
Eu hoje acordei poesia.
Passei o meu dia versando você,
Olhava em seus olhos,
Distantes dos meus,
E a cada olhar,
Por demais atento,
Brotavam, em pensamento,
Versos que seriam seus.

Então desejei amar você.
Juntar palavras a te definir.
Mas antes que eu conseguisse
Definir-te em versos,
Com um simples gesto,
Mero falar,
Conseguiste de súbito
Meus versos quebrar



1 134
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Perdoa-me, Visão dos meus Amores

Perdoa-me, visão dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando! ...
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flôres!

De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores...

Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora...

Sem que última esperança me conforte,
Eu - que outrora vivia! - eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!

2 549