Poemas neste tema
Desilusão e Desamor
Almeida Garrett
Não te amo
Não te amo, quero-te: o amor vem dalma.
E eu nalma tenho a calma,
A calma do jazigo.
Ai! Não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!
Ai! Não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
E eu nalma tenho a calma,
A calma do jazigo.
Ai! Não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!
Ai! Não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
3 212
Nuno Fernandes Torneol
Ora Vej'eu Que Me Nom Fará Bem
Ora vej'eu que me nom fará bem
a mia senhor, pois me mandou dizer
que me partisse de a bem querer.
Pero sei eu que lhe farei por en:
mentr'eu viver, sempre lhe bem querrei
e sempre a já "senhor" chamarei.
[...]
a mia senhor, pois me mandou dizer
que me partisse de a bem querer.
Pero sei eu que lhe farei por en:
mentr'eu viver, sempre lhe bem querrei
e sempre a já "senhor" chamarei.
[...]
471
Fernando Pessoa
Tocam sinos a rebate
Tocam sinos a rebate
E levantaste-te logo.
Teu coração só não bate
Por a quem puseste fogo.
E levantaste-te logo.
Teu coração só não bate
Por a quem puseste fogo.
1 439
Afonso X
Dom Meendo, Vós Veestes
Dom Meendo, vós veestes
falar migo noutro dia;
e na fala que fezestes
perdi eu do que tragia.
Ar quer[r]edes falar migo
e nom querrei eu, amigo.
falar migo noutro dia;
e na fala que fezestes
perdi eu do que tragia.
Ar quer[r]edes falar migo
e nom querrei eu, amigo.
977
Fernando Pessoa
Teu olhar não tem remorsos
Teu olhar não tem remorsos
Não é por não ter que os ter.
É porque hoje não é ontem
E viver é só esquecer.
Não é por não ter que os ter.
É porque hoje não é ontem
E viver é só esquecer.
1 306
Fernando Pessoa
Pobre do pobre que é ele
Pobre do pobre que é ele
E não é quem se fingiu!
Por muito que a gente vele
Descobre que já dormiu.
E não é quem se fingiu!
Por muito que a gente vele
Descobre que já dormiu.
1 464
Fernando Pessoa
Que tenho o coração preto
Que tenho o coração preto
Dizes tu, e inda te alegras.
Eu bem sei que o tenho preto:
Está preto de nódoas negras.
Dizes tu, e inda te alegras.
Eu bem sei que o tenho preto:
Está preto de nódoas negras.
1 840
Fernando Pessoa
Quando há música, parece
Quando há música, parece
Que dormes, e assim te calas,
Mas se a música falece
Acordo, e não me falas.
Que dormes, e assim te calas,
Mas se a música falece
Acordo, e não me falas.
1 547
Fernando Pessoa
Disseste-me quase rindo:
Disseste-me quase rindo:
«Conheço-te muito bem!»
Dito por quem me não quer,
Tem muita graça, não tem?
«Conheço-te muito bem!»
Dito por quem me não quer,
Tem muita graça, não tem?
1 419
Fernando Pessoa
Não me digas que me queres
Não me digas que me queres
Pois não sei acreditar.
No mundo há muitas mulheres
Mas mentem todas a par.
Pois não sei acreditar.
No mundo há muitas mulheres
Mas mentem todas a par.
731
Fernando Pessoa
O canário já não canta.
O canário já não canta.
Não canta o canário já.
Aquilo que em ti me encanta
Talvez não me encantará.
Não canta o canário já.
Aquilo que em ti me encanta
Talvez não me encantará.
1 678
Natália Correia
O Livro dos Amantes IX
Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.
Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.
Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.
1 899
Pero da Ponte
Ai Madr', o Que Me Namorou
- Ai madr', o que me namorou
foi-se noutro dia daqui
e, por Deus, que faremos i?
Ca namorada me leixou.
- Filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
- Ca me nom sei [i] conselhar,
mia madre, se Deus mi perdom.
- Dized', ai filha, por que nom?
Quero-me vo-lo eu mostrar:
filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
Que o recebades mui bem,
filha, quand'ante vós veer,
e todo quanto vos disser
outorgade-lho e, por en,
filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
foi-se noutro dia daqui
e, por Deus, que faremos i?
Ca namorada me leixou.
- Filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
- Ca me nom sei [i] conselhar,
mia madre, se Deus mi perdom.
- Dized', ai filha, por que nom?
Quero-me vo-lo eu mostrar:
filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
Que o recebades mui bem,
filha, quand'ante vós veer,
e todo quanto vos disser
outorgade-lho e, por en,
filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
849
Pero da Ponte
Vistes, Madr', o Escudeiro Que M'houver'a Levar Sigo?
- Vistes, madr', o escudeiro que m'houver'a levar sigo?
Menti-lh'e vai-mi sanhudo, mia madre, bem vo-lo digo.
Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Madre, vós que me mandastes que mentiss'a meu amigo,
que conselho mi daredes ora, poilo nom hei migo?
Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Filha, dou-vos por conselho que, tanto que vos el veja,
que toda rem lhi façades que vosso pagado seja.
- Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Pois escusar nom podedes, mia filha, seu gasalhado,
des oimais eu vos castigo que lh'andedes a mandado.
- Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
Menti-lh'e vai-mi sanhudo, mia madre, bem vo-lo digo.
Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Madre, vós que me mandastes que mentiss'a meu amigo,
que conselho mi daredes ora, poilo nom hei migo?
Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Filha, dou-vos por conselho que, tanto que vos el veja,
que toda rem lhi façades que vosso pagado seja.
- Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Pois escusar nom podedes, mia filha, seu gasalhado,
des oimais eu vos castigo que lh'andedes a mandado.
- Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
600
Pero da Ponte
Vistes, Madr', o Que Dizia
Vistes, madr', o que dizia
que por mi era coitado?
Pois mandado nom m'envia,
entend'eu do perjurado
que já nom teme mia ira,
ca, senom, noite nem dia,
a meos de meu mandado,
nunca s'el daqui partira.
E vistes u s'el partia
de mi, mui sem o meu grado,
e jurando que havia
por mi penas e cuidado?
Tod'andava com mentira,
ca, senom, noite nem dia,
a meos de meu mandado,
nunca s'el daqui partira.
E já qual molher devia
creer per nulh'home nado?
Pois o que assi morria
polo meu bom gasalhado
já x'i por outra sospira,
ca, senom, noite nem dia,
a meos de meu mandado,
nunca s'el daqui partira.
Mais Deus, quen'o cuidaria:
del viver tam alongado
d'u el os meus olhos vira?
que por mi era coitado?
Pois mandado nom m'envia,
entend'eu do perjurado
que já nom teme mia ira,
ca, senom, noite nem dia,
a meos de meu mandado,
nunca s'el daqui partira.
E vistes u s'el partia
de mi, mui sem o meu grado,
e jurando que havia
por mi penas e cuidado?
Tod'andava com mentira,
ca, senom, noite nem dia,
a meos de meu mandado,
nunca s'el daqui partira.
E já qual molher devia
creer per nulh'home nado?
Pois o que assi morria
polo meu bom gasalhado
já x'i por outra sospira,
ca, senom, noite nem dia,
a meos de meu mandado,
nunca s'el daqui partira.
Mais Deus, quen'o cuidaria:
del viver tam alongado
d'u el os meus olhos vira?
545
Fernando Pessoa
Tenho um lenço que esqueceu
Tenho um lenço que esqueceu
A que se esquece de mim.
Não é dela, não é meu,
Não é princípio nem fim.
A que se esquece de mim.
Não é dela, não é meu,
Não é princípio nem fim.
1 273
Fernando Pessoa
Dona Rosa, Dona Rosa,/De que roseira é que vem,
Dona Rosa, Dona Rosa,
De que roseira é que vem,
Que não tem senão espinhos
Para quem só lhe quer bem?
De que roseira é que vem,
Que não tem senão espinhos
Para quem só lhe quer bem?
1 950
Fernando Pessoa
Manjerico que te deram,
Manjerico que te deram,
Amor que te querem dar...
Recebeste o manjerico.
O amor fica a esperar.
Amor que te querem dar...
Recebeste o manjerico.
O amor fica a esperar.
2 962
Fernando Pessoa
O laço que tens no peito
O laço que tens no peito
Parece dado a fingir.
Se calhar já estava feito
Como o teu modo de rir.
Parece dado a fingir.
Se calhar já estava feito
Como o teu modo de rir.
1 308
Nuno Júdice
Carta de Orfeu a Eurídice - 2
Aqui é o centro. Onde a solidão me impregna com o seu sudário de lodo, e a humidade dos fundos desce pelos vidros da noite, apagando as imagens amadas. No entanto, parto esses vidros para ver o que ficou para trás: que a alquimia de sensações corre ainda por esses campos onde avanças, com a falsa convicção do amor, levando-me atrás de ti até ao limite de onde não há regresso? Que abraço de corpos sobrevive no chão seco de palavras, enquanto te levantas da memória, e o teu rosto se iliumina por entre brilhos da manhã?
Parece-me que é tarde para acertar as coisas que deviam ter sido feitas: ajustar as peças do presente nessa mesa onde se acumulavam copos e papéis; separar as questões que os dedos escondiam das respostas que entravam pela boca do desejo, até um êxtase de mãos e de olhos. Contei as queixas, transformei-as na mais doce das celebrações, arrastei o instante atè à berma da eternidade: e trouxe de volta a mais dolorosa das ilusões. De cada vez, porém, era único esse tempo nascido de uma partilha de lugares; e não dei pelo vento que soprava de dentro da vida, levando em direcções diferentes os passos que nos juntavam.
O futuro pertence aos cegos da imaginação; as suas paisagens estendem-se por esses caminhos que não voltaremos a seguir, até aos arbustos do horizonte. Não ouço nenhuma voz nos pórticos que se abriam para a mais efémera das alegrias - a que se confunde com um rosto incessante no interior da alma, a pura inscrição do amor. Guardo-te aí flor matinal, esperando que a água da vida te refloresça, e uma nova vibração te devolva à ilusão do presente. O centro é este: o lugar do encontro, onde os deuses nos roubam ao acessório, e um todo se fixa no que é aparente, e passa.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 50 e 51 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
Parece-me que é tarde para acertar as coisas que deviam ter sido feitas: ajustar as peças do presente nessa mesa onde se acumulavam copos e papéis; separar as questões que os dedos escondiam das respostas que entravam pela boca do desejo, até um êxtase de mãos e de olhos. Contei as queixas, transformei-as na mais doce das celebrações, arrastei o instante atè à berma da eternidade: e trouxe de volta a mais dolorosa das ilusões. De cada vez, porém, era único esse tempo nascido de uma partilha de lugares; e não dei pelo vento que soprava de dentro da vida, levando em direcções diferentes os passos que nos juntavam.
O futuro pertence aos cegos da imaginação; as suas paisagens estendem-se por esses caminhos que não voltaremos a seguir, até aos arbustos do horizonte. Não ouço nenhuma voz nos pórticos que se abriam para a mais efémera das alegrias - a que se confunde com um rosto incessante no interior da alma, a pura inscrição do amor. Guardo-te aí flor matinal, esperando que a água da vida te refloresça, e uma nova vibração te devolva à ilusão do presente. O centro é este: o lugar do encontro, onde os deuses nos roubam ao acessório, e um todo se fixa no que é aparente, e passa.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 50 e 51 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 043
Pero da Ponte
Martim de Cornes Vi Queixar
Martim de Cornes vi queixar
de sa molher, a gram poder,
que lhi faz i, a seu cuidar,
torto; mais eu foi-lhi dizer:
- Falar quer'eu i, se vos praz:
Demo lev'o torto que faz
a gram puta desse foder.
[...]
Mais, se vós sodes i de mal sem,
de que lh'apoedes mal prez?
Ca salvar-se pod'ela bem
que nẽum torto nom vos fez;
nem torto nom faz o taful,
quando os dados acha algur,
de os jogar [i] ũa vez.
de sa molher, a gram poder,
que lhi faz i, a seu cuidar,
torto; mais eu foi-lhi dizer:
- Falar quer'eu i, se vos praz:
Demo lev'o torto que faz
a gram puta desse foder.
[...]
Mais, se vós sodes i de mal sem,
de que lh'apoedes mal prez?
Ca salvar-se pod'ela bem
que nẽum torto nom vos fez;
nem torto nom faz o taful,
quando os dados acha algur,
de os jogar [i] ũa vez.
519
Fernando Pessoa
O cão que veio do abismo
O cão que veio do abismo
Roeu-me os ossos da alma,
E erguendo a perna — o que eu cismo —
Mijou no meu misticismo
Que me dava a minha calma.
O cão veio de onde dorme
Aquele anseio que tenho
Por qualquer coisa de enorme
Que indistintamente forme
A forma de quanto estranho.
E depois de isso completo
O cão que veio do abismo
Que estava inteiro e repleto
Fez sobre tudo o dejecto
Que é hoje o meu misticismo.
Roeu-me os ossos da alma,
E erguendo a perna — o que eu cismo —
Mijou no meu misticismo
Que me dava a minha calma.
O cão veio de onde dorme
Aquele anseio que tenho
Por qualquer coisa de enorme
Que indistintamente forme
A forma de quanto estranho.
E depois de isso completo
O cão que veio do abismo
Que estava inteiro e repleto
Fez sobre tudo o dejecto
Que é hoje o meu misticismo.
1 513
Fernando Pessoa
AN IDYLL OF TO‑DAY
She
If every tear of mine were gold
And every sigh a tear,
Wouldst thou not then with kisses bold
Entrap them falling clear?
If at each word I spoke of love
Pearls rained from out the air,
How pleasant would to thee then prove
To hear me speak for e'er!
He
If at each look of love I cast
A cheque were signed and made,
If each tear's ending were the last
Touch of received and paid;
If each soft glance were a banknote
And the same every sigh.
Wouldst thou not have me learn by rote
Love's shows of misery?
Both
What can we do? What are we both
But beings of our time?
Gold is the meat of living's broth,
The vowel of the rhyme.
Even a token sad and old.
A certain price will woo.
Our love would but be true as gold
If we were gold all through.
If every tear of mine were gold
And every sigh a tear,
Wouldst thou not then with kisses bold
Entrap them falling clear?
If at each word I spoke of love
Pearls rained from out the air,
How pleasant would to thee then prove
To hear me speak for e'er!
He
If at each look of love I cast
A cheque were signed and made,
If each tear's ending were the last
Touch of received and paid;
If each soft glance were a banknote
And the same every sigh.
Wouldst thou not have me learn by rote
Love's shows of misery?
Both
What can we do? What are we both
But beings of our time?
Gold is the meat of living's broth,
The vowel of the rhyme.
Even a token sad and old.
A certain price will woo.
Our love would but be true as gold
If we were gold all through.
1 326
Affonso Romano de Sant'Anna
Esclerose Amorosa
O que fazíamos no leito?
De tua voz já nem me lembro.
Tuas pernas dissolvem-se na neblina.
Havia uivos de gozo?
Nem dos seios sei exatamente.
O que eu fazia? O que fazias?
Ah! uma vaga lembrança
a que nem amor eu chamaria.
No entanto, parece que eu sofria.
Sofria?
Já não me lembro por que sofria.
De tua voz já nem me lembro.
Tuas pernas dissolvem-se na neblina.
Havia uivos de gozo?
Nem dos seios sei exatamente.
O que eu fazia? O que fazias?
Ah! uma vaga lembrança
a que nem amor eu chamaria.
No entanto, parece que eu sofria.
Sofria?
Já não me lembro por que sofria.
1 135