Poemas neste tema

Desilusão e Desamor

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ribeirinho, ribeirinho,/Que falas tão devagar,

Ribeirinho, ribeirinho,
Que falas tão devagar,
Ensina-me o teu caminho
De passar sem desejar amar.
1 735
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Eu voltei-me para trás

Eu voltei-me para trás
Para ver se te voltavas.
Há quem dê favas aos burros,
Mas eles comem as favas.
1 215
Marina Tsvetaeva

Marina Tsvetaeva

Ensaio de ciúme

Como vai indo com a outra?
Tão fácil, não? — basta um impulso
no remo — com a orla, a minha
imagem se borra, se afasta,

vira ilha flutuante (no céu,
— na água, não!). Alma e alma,
irmãs, sim — mas, amantes, não!
Uma é destino; outra — sem fim!

Que tal viver com tal pessoa
comum — vida sem divindades?
Jogou do trono-olimpo a deusa-
rainha, abdicou — e a coroa

de sua vida, como fica?
Ao despertar, como pagar
o preço de imortal banal-
idade — como? Menos rica?

"Chega de susto e suspeita!
Quero um lar!". Mas... e a vida
só — com uma mulher qualquer —
Você — eleito de uma eleita?

Ah... E a comida? Apetitosa?
Você se queixa quando enjoa?
Depois do topo do Sinai,
Ir conviver com uma à-toa

da parte baixa da cidade,
uma coitada? Gostou da anca?
O açoite-vergonha de Zeus
ainda não vincou-lhe a estampa?

Entre viver e ser, dá para
contar? E como encara
o caro amigo a cicatriz
da consciência-meretriz?

Viver como boneca de gesso
—de feira!? Você me acha cara?
depois de um busto de Carrara,
um susto de papier-mâché?

(O deus que escavei de um bloco
só me deixou os ocos). Enleva
viver com uma igual a mil,
quem já teve a Lilit primeva?

Não lhe matou a fome a boa
bisca, que atendeu aos pedidos?
Como viver com a simplória
que só possui cinco sentidos?

Enfim, por fim...: você é feliz,
no sem-fundo dessa mulher?
Pior, melhor, igual a mim,
nos braços de um outro qualquer?

(tradução de Décio Pignatari)

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Nota: agradecemos a Márcio Renato Pinheiro da Silva por disponibilizar estas duas traduções.

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1 559
Marina Tsvetaeva

Marina Tsvetaeva

Tentativa de ciúme

Como vai você com a outra?
Fácil, não é? — Um golpe de remo! —
E de pronto a linha da costa
Se foi e você já nem se lembra
De mim, ilha flutuante
(No céu, por certo, não no mar)!
Almas! Almas! — antes amar
Como irmãs, não como amantes!
Como vai você com a mulher
Comum? Sem nada de divino?
Sem soberana, sem sequer
Um trono (você foi o assassino),
Como vai, meu bem? Tudo a gosto?
E o dia-a-dia — sempre igual?
Como você se arranja com o imposto
Da banalidade imortal?
"Mil sobressaltos, incertezas —
Basta! Vou arrumar um teto!"
Como vai, com quem quer que seja —
O eleito pelo meu afeto?
A comida é melhor, mais familiar?
Diga a verdade. Como vai
Você com a imitação vulgar —
Você, que subiu ao Sinai?
Como é viver com uma estranha?
Você a ama? Não disfarce.
O chicote de Zeus da vergonha
Nenhuma vez lhe zurze a face?
E a saúde, vai bem? Que tal
A vida — uma canção? A ferida
Da consciência imortal
Como a suporta, meu querido?
Como vai você com o adereço
De feira? A taxa é muito cara?
Como é aspirar o pó do gesso
Depois do mármor de Carrara?
(Deus talhado em barro, termina
Em pedaços!) Como é o convívio
Com a milionésima da fila
Pra quem já conheceu Lilit?
As novidades de feira
Se acabaram? Farto de portentos,
Como é a vida corriqueira
Com a mulher terrena, sem sexto
Sentido? Vamos, tudo cor
De rosa? Ou não? Aí, nesse oco
Sem fundo, amor, como vai? Pior
Ou igual a mim com outro?
(tradução de Augusto de Campos)
2 430
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Notificação

os cisnes se afogam em água imunda,
retirem os avisos,
testem os venenos,
isolem a vaca
do touro,
a peônia do sol,
tirem os beijos de alfazema da minha noite,
coloquem as sinfonias nas ruas
como mendigos,
deixem as unhas de prontidão,
açoitem as costas dos santos,
atordoem sapos e ratos para o gato da alma,
queimem as pinturas arrebatadoras,
mijem no amanhecer,
meu amor
está morto.
1 165
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O cravo que tu me deste

O cravo que tu me deste
Era de papel rosado.
Mas mais bonito era inda
O amor que me foi negado.
1 384
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Teu carinho, que fingido,

Teu carinho, que fingido,
Dá-me o prazer de saber
Que inda não tens esquecido
O que o fingir tem de ser.
1 386
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Na praia de Monte Gordo,

Na praia de Monte Gordo,
Meu amor, te conheci.
Por ter estado em Monte Gordo
É que assim emagreci.
1 702
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

THINGS THAT HAPPEN IN SOCIETY

Apollo married and Hercules married, and this was in real life.
The wife of Hercules loved beautiful rather than strong men,
And strong and not beautiful men was the taste of Apollo's wife.
1 278
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Trazes um lenço apertado

Trazes um lenço apertado
Na cabeça, e um nó atrás.
Mas o que me traz cansado
É o nó que nunca se faz.
1 080
Pedro Amigo de Sevilha

Pedro Amigo de Sevilha

Moitos S'enfingem Que Ham Gaanhado

Moitos s'enfingem que ham gaanhado
doas das donas a que amor ham,
e tragem cintas que lhis elas dam;
mais a mim vai moi peor, mal pecado,
com Sancha Díaz, que sempre quix bem:
ca jur'a Deus que nunca mi deu rem
senom um peid', o qual foi sem seu grado.

Ca, se per seu grado foss', al seria;
mais daquesto nunca m'enfingirei,
ca hoje verdadeiramente o sei
que per seu grado nunca mi o daria;
mais, u estava coidando em al,
deu-mi um gram peid'e foi-lhi depois mal,
u s'acordou que mi o dado havia.

Coidando eu que melhor se nembrasse
ela de mim, por quanto a servi,
por aquesto nunca lhi rem pedi
des i, em tal que se mim nom queixasse;
e falando-lh'eu em outra razom,
deu-mi um gram peid', e deu-mi-o em tal som,
como quem s'ende moi mal log'achasse.

E, pois ela de tam rafece dom
se [re]peendeu, bem tenho eu que nom
mi dess'outro, de que m'eu mais pagasse.
507
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ó loura dos olhos tristes

Ó loura dos olhos tristes
Que me não quis escutar...
Quero só saber se existes
Para ver se te hei-de amar.
1 305
Ruy Belo

Ruy Belo

Enterro sob o sol

Era a calma do mar naquele olhar
Ela era semelhante a uma manhã
teria a juventude de um mineral
Passeava por vezes pelas ruas
e as ruas uma a uma eram reais
Era o cume da esperança: eternizava
cada uma das coisas que tocava
Mas hoje é tudo como um fruto de setembro
ó meu jardim sujeito à invernia
A aurora da cólera desponta
já não sei da idade do amor
Só me resta colher as uvas do castigo
Sou um alucinado pela sede
Caminho sob o sol enterro de água



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, pág. 13 | Editorial Presença Lda., 1981
1 414
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Uma boneca de trapos

Uma boneca de trapos
Não se parte se cair.
Fizeste-me a alma em farrapos...
Bem: não se pode partir.
1 625
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O que sinto e o que penso

O que sinto e o que penso
De ti é bem e é mal.
É como quando uma xícara
Tem o pires desigual.
1 293
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

À roda dos dedos juntos

À roda dos dedos juntos
Enrolaste a fita a rir.
Corações não são assuntos
E falar não é sentir.
1 128
Rui Queimado

Rui Queimado

Pois Que Eu Ora Morto For

Pois que eu ora morto for
sei bem ca dirá mia senhor:
       - Eu sõo Guiomar Afonso!

Pois souber mui bem ca morri
por ela, sei que dirá assi:
       - Eu sõo Guiomar Afonso!

Pois que eu morrer, filhará
entom o soqueix'e dirá:
       - Eu sõo Guiomar Afonso!
440
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Eu no tempo não choro que me leve

Eu no tempo não choro que me leve
A juventude, o já encanecer
A cabeça que pouco ainda esteve
Sob o Sol solto e a tarde a arrefecer.

Nem choro que não me ames, que faleça
O amor que vi em ti, que também haja
Uma tarde do amar, que desfaleça
E a noite fique, (...)

Mais que tudo choro já não te amar,
Sim, choro a tragédia de não ser o mesmo na alma,
De te ser infiel sem infidelidade,
De me ter esquecido de ti sem propriamente te aborrecer.

Não é o tempo ido em que te amei que choro.
Choro não te amar já por isso ser natural.
Choro ter-te esquecido, choro não me poder lembrar
Com saudade do tempo em que te amei.

Isso é que choro, sim, com as verdadeiras lágrimas
Que contém em si os piores mistérios —
A morte essencial das coisas,
O acabar das almas, mais grave que o dos corpos,
O abismo onde a única esperança é poder haver Deus
E um outro sentido desconhecido a tudo que se teve e se foi
Um outro lado, nem côncavo nem convexo à curva da vida.
1 577
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

I have wished so oft this mockery might end

I have wished so oft this mockery might end
Of love between us! And it's ended now.
Yet I cannot even to myself pretend
That the wished thing achieved gives joy enow.

Every going is a parting too.
Our happiest day doth make us one day older.
To get stars we must have darkness also,
The fresher hour is likewise the colder.

I dare not hesitate not to accept
Thy separating letter, yet I wish
With some vague jealousy I scarce reject
That things were fitted for a different stretch.

Farewell! Yet do I smile at this or not?
My feeling now is lost in thought.
1 377
Rui Queimado

Rui Queimado

Dize[M]-Mi Ora Que Nom Verrá

Dize[m]-mi ora que nom verrá
o meu amigo, porque quer
mui gram bem a outra molher,
mais esto quen'o creerá:
       que nunca el de coraçom
       molher muit'ame, se mim nom?

Pode meu amigo dizer
que ama ou[t]rem mais ca si
nem que outra rem nem ca mi,
mais esto nom é de creer:
       que nunca el de coraçom
       molher muit'ame, se mim nom.

Enfinta faz el, eu o sei,
que morre por outra d'amor
e que nom há mim por senhor;
mais eu esto nom creerei:
       que nunca el de coraçom
       molher muit'ame, se mim nom.
439
Ruy Belo

Ruy Belo

Desencanto dos dias

Não era afinal isto que esperávamos
não era este o dia
Que movimentos nos consente?
Ah ninguém sabe
como ainda és possível poesia
neste país onde nunca ninguém viu
aquele grande dia diferente


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 47 | Editorial Presença Lda., 1984
2 393
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando me deste os bons-dias

Quando me deste os bons-dias
Deste-mos como a qualquer.
Mais vale não dizer nada
Do que assim nada dizer.
879
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Por muito que pense e pense

Por muito que pense e pense
No que nunca me disseste,
Teu silêncio não convence.
Faltaste quando vieste.
1 370
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O meu coração quebrou-se

O meu coração quebrou-se
Como um bocado de vidro
Quis viver e enganou-se...
1 524