Poemas neste tema
Desilusão e Desamor
Martha Medeiros
cinderela insone
cinderela insone
idade postiça
decote remunerado
recheio de silicone
coxas de paetê
oferta de camelô
bustiê bordô
carinha de fome
idade postiça
decote remunerado
recheio de silicone
coxas de paetê
oferta de camelô
bustiê bordô
carinha de fome
1 097
Martha Medeiros
o amor
o amor
a gente espera
ele não vem
a gente busca
vem contrariado
deixa solto
vira refém
deixa preso
é amor obrigado
a gente libera
não vai além
a gente aprisiona
fica cansado
se deixa rolar
não pinta ninguém
o amor
a gente pensa que tem
a gente espera
ele não vem
a gente busca
vem contrariado
deixa solto
vira refém
deixa preso
é amor obrigado
a gente libera
não vai além
a gente aprisiona
fica cansado
se deixa rolar
não pinta ninguém
o amor
a gente pensa que tem
1 127
Martha Medeiros
ele não é meu
ele não é meu
porque não dorme comigo
mas também não é amigo
porque me beija e me vê despida
não é meu marido
mas telefona e reparte um passado
que eu queria também ter vivido
não é meu porque não tem roupas
penduradas ao lado das minhas
não tenho dele um retrato
não passa comigo um domingo
jamais ganhei um presente
que não fosse de seda rendada
eu sou a preferida
de um homem comprometido
queria não ser um perigo
uma bomba que pode explodir
e deixar outra mulher arruinada
ele é o terrorista
eu o alvo escolhido
preferia aceitar um pedido
fazer nada escondido
mas ele não é meu marido
não é namorado, não é bom partido
não pode andar ao meu lado
não sabe a que horas acordo
não racha as contas comigo
não fica para ouvir um disco
não é exigido, não é meu parente
e anda sumido
nada é mais deprimente
quando chamo seu número ela atende
e eu desligo
porque não dorme comigo
mas também não é amigo
porque me beija e me vê despida
não é meu marido
mas telefona e reparte um passado
que eu queria também ter vivido
não é meu porque não tem roupas
penduradas ao lado das minhas
não tenho dele um retrato
não passa comigo um domingo
jamais ganhei um presente
que não fosse de seda rendada
eu sou a preferida
de um homem comprometido
queria não ser um perigo
uma bomba que pode explodir
e deixar outra mulher arruinada
ele é o terrorista
eu o alvo escolhido
preferia aceitar um pedido
fazer nada escondido
mas ele não é meu marido
não é namorado, não é bom partido
não pode andar ao meu lado
não sabe a que horas acordo
não racha as contas comigo
não fica para ouvir um disco
não é exigido, não é meu parente
e anda sumido
nada é mais deprimente
quando chamo seu número ela atende
e eu desligo
1 166
Fernando Pessoa
Tudo quanto sonhei tenho perdido
Tudo quanto sonhei tenho perdido
Antes de o ter.
Um verso ao menos fique do inobtido,
Música de perder.
Pobre criança a quem não deram nada,
Choras? É em vão.
Como eu choro à beira da erma estrada.
Perdi o coração.
A ti talvez, que não te tens dado,
Daria enfim...
A mim... Sei eu que duro e inato fado
Me espera a mim?
1920
Antes de o ter.
Um verso ao menos fique do inobtido,
Música de perder.
Pobre criança a quem não deram nada,
Choras? É em vão.
Como eu choro à beira da erma estrada.
Perdi o coração.
A ti talvez, que não te tens dado,
Daria enfim...
A mim... Sei eu que duro e inato fado
Me espera a mim?
1920
4 500
Martha Medeiros
eu te amo, mas quero viver sozinha
eu te amo, mas quero viver sozinha
eu não te amo, mas preciso dormir com alguém
eu te amo, mas sonho em ter outros homens
eu não te amo, mas quero ter um filho
eu te amo, mas não posso prometer nada
eu não te amo, mas prefiro jantar acompanhada
eu te amo, mas preciso fazer uma viagem
eu não te amo, mas me cobram uma companhia
eu te amo, mas não sei amar
eu não te amo, mas queria
eu não te amo, mas preciso dormir com alguém
eu te amo, mas sonho em ter outros homens
eu não te amo, mas quero ter um filho
eu te amo, mas não posso prometer nada
eu não te amo, mas prefiro jantar acompanhada
eu te amo, mas preciso fazer uma viagem
eu não te amo, mas me cobram uma companhia
eu te amo, mas não sei amar
eu não te amo, mas queria
1 386
Fernando Pessoa
CANÇÃO ABRUPTA
CANÇÃO ABRUPTA
O céu de todos os universos
Cobre em meu ser todo o verão...
Vai p'ra as profundas dos infernos
E deixa em paz meu coração!
Quê? Não me fica se te opões?
Pois leva-o, guarda-o, bem ou mal
Eu tenho muitos corações
É um privilégio intelectual
Madonna que vais comprar couves
Não te esqueças de me esquecer
O teu perfil dá-me trabalho
Quero (...)
Bem sei, o teu perfil persiste
Amo-te e é triste não poder
Deixar de amar-te sem estar triste...
Se és mulher que em verdade existe
Raios te parta! Vai morrer!
O céu de todos os universos
Cobre em meu ser todo o verão...
Vai p'ra as profundas dos infernos
E deixa em paz meu coração!
Quê? Não me fica se te opões?
Pois leva-o, guarda-o, bem ou mal
Eu tenho muitos corações
É um privilégio intelectual
Madonna que vais comprar couves
Não te esqueças de me esquecer
O teu perfil dá-me trabalho
Quero (...)
Bem sei, o teu perfil persiste
Amo-te e é triste não poder
Deixar de amar-te sem estar triste...
Se és mulher que em verdade existe
Raios te parta! Vai morrer!
1 358
Fernando Pessoa
O céu de todos os Invernos
O céu de todos os Invernos
Cobre em meu ser todo o Verão...
Vai p'rás profundas dos infernos
E deixa em paz meu coração!
Por ti meu pensamento é triste,
Meu sentimento anda estrangeiro;
A tua ideia em mim insiste
Como uma falta de dinheiro.
Não posso dominar meu sonho.
Não te posso obrigar a amar.
Que hei-de fazer? Fico tristonho.
Mas a tristeza há-de acabar.
Bem sei, bem sei... A dor de corno...
Mas não fui eu que lho chamei.
Amar-te causa-me transtorno,
Lá que transtorno é que não sei...
Ridículo? É claro. E todos?
Mas a consciência de o ser, fi-la bas-
tante clara deitando-a a rodos
Em cinco quadras de oito sílabas.
03/04/1929
Cobre em meu ser todo o Verão...
Vai p'rás profundas dos infernos
E deixa em paz meu coração!
Por ti meu pensamento é triste,
Meu sentimento anda estrangeiro;
A tua ideia em mim insiste
Como uma falta de dinheiro.
Não posso dominar meu sonho.
Não te posso obrigar a amar.
Que hei-de fazer? Fico tristonho.
Mas a tristeza há-de acabar.
Bem sei, bem sei... A dor de corno...
Mas não fui eu que lho chamei.
Amar-te causa-me transtorno,
Lá que transtorno é que não sei...
Ridículo? É claro. E todos?
Mas a consciência de o ser, fi-la bas-
tante clara deitando-a a rodos
Em cinco quadras de oito sílabas.
03/04/1929
3 925
Martha Medeiros
há quase meio ano
há quase meio ano
que não te vejo vibrar com um gol
que não falas nada do trabalho
que não fazes um comentário positivo
ou negativo
faz muito tempo que não ouço tua opinião
sobre um casaco na vitrine
sobre um artigo de jornal
sobre a morte de um artista
se vai chover ou não
qual foi a última vez
que você lembrou de um aniversário
diga qual é todo o meu nome
atenda uma vez o telefone
comente a sujeira do chão
faça qualquer bobagem
para mostrar que ainda está vivo
que alguma coisa ainda faz sentido
e que não existe só a televisão
transmita o que você sente
comente o fim da novela
fale do absurdo da prestação
diga se gostou do meu vestido
brigue com o zelador
elogie o feijão com arroz
se você não está mais aqui
busque seu corpo então
que não te vejo vibrar com um gol
que não falas nada do trabalho
que não fazes um comentário positivo
ou negativo
faz muito tempo que não ouço tua opinião
sobre um casaco na vitrine
sobre um artigo de jornal
sobre a morte de um artista
se vai chover ou não
qual foi a última vez
que você lembrou de um aniversário
diga qual é todo o meu nome
atenda uma vez o telefone
comente a sujeira do chão
faça qualquer bobagem
para mostrar que ainda está vivo
que alguma coisa ainda faz sentido
e que não existe só a televisão
transmita o que você sente
comente o fim da novela
fale do absurdo da prestação
diga se gostou do meu vestido
brigue com o zelador
elogie o feijão com arroz
se você não está mais aqui
busque seu corpo então
1 118
João Garcia de Guilhade
Por Deus, Amigas, Que Será
Por Deus, amigas, que será,
pois [j]á o mundo nom é rem,
nem quer amig'a senhor bem?
E este mundo que é já?
Pois i amor nom há poder,
que presta seu bom parecer,
nem seu bom talh'a quen'o há?
Vedes por que o dig'assi:
porque nom há no mundo rei
que viss'o talho que eu hei
que xe nom morresse por mim;
siquer meus olhos verdes som,
e meu amig'agora nom
me viu, e passou per aqui.
Mais dona que amig'houver
des hoje mais (crea per Deus)
nom s'esforç'enos olhos seus,
ca des oimais nom lh'é mester:
ca já meus olhos viu alguém
e meu bom talh', e ora vem
e vai-se tanto que s'ir quer.
E, pois que nom há de valer
bom talho nem bom parecer,
parescamos já como quer.
pois [j]á o mundo nom é rem,
nem quer amig'a senhor bem?
E este mundo que é já?
Pois i amor nom há poder,
que presta seu bom parecer,
nem seu bom talh'a quen'o há?
Vedes por que o dig'assi:
porque nom há no mundo rei
que viss'o talho que eu hei
que xe nom morresse por mim;
siquer meus olhos verdes som,
e meu amig'agora nom
me viu, e passou per aqui.
Mais dona que amig'houver
des hoje mais (crea per Deus)
nom s'esforç'enos olhos seus,
ca des oimais nom lh'é mester:
ca já meus olhos viu alguém
e meu bom talh', e ora vem
e vai-se tanto que s'ir quer.
E, pois que nom há de valer
bom talho nem bom parecer,
parescamos já como quer.
951
Martha Medeiros
a administração da minha vida amorosa
a administração da minha vida amorosa
não anda como eu queria
o primeiro pretendente não pagou o que
devia
o segundo, inadimplente, não entregou a
mercadoria
o terceiro, dependente, deixou minha
geladeira vazia
e o último, incompetente, não estava
na garantia
abro amanhã meu coração
para uma auditoria
não anda como eu queria
o primeiro pretendente não pagou o que
devia
o segundo, inadimplente, não entregou a
mercadoria
o terceiro, dependente, deixou minha
geladeira vazia
e o último, incompetente, não estava
na garantia
abro amanhã meu coração
para uma auditoria
1 201
Cláudio Ferro
Pensando em Mim
Pensando em mim
este fim é o fim.
Ai de mim,
que amando sou descartado.
Que descartado saio amando,
e no fim, igual ao começo,
me envolvo em novos tropeços,
num sem fim de findar.
Findar novos tropeços.
Igual ao começo, saio amando.
Sou descartado.
Ai de mim.
É o fim em mim.
Num sem fim me envolvo.
E no fim...
Que descartado!
Que amando!
Ai de mim!
Este fim...
Pensando...em mim...
Ai de mim.
Descartado e no fim...findar!
Este fim é o fim!
Ai de mim!
05 de Junho de 1997 19:59
este fim é o fim.
Ai de mim,
que amando sou descartado.
Que descartado saio amando,
e no fim, igual ao começo,
me envolvo em novos tropeços,
num sem fim de findar.
Findar novos tropeços.
Igual ao começo, saio amando.
Sou descartado.
Ai de mim.
É o fim em mim.
Num sem fim me envolvo.
E no fim...
Que descartado!
Que amando!
Ai de mim!
Este fim...
Pensando...em mim...
Ai de mim.
Descartado e no fim...findar!
Este fim é o fim!
Ai de mim!
05 de Junho de 1997 19:59
971
João Garcia de Guilhade
Par Deus, Amigas, Já Me Nom Quer Bem
Par Deus, amigas, já me nom quer bem
o meu amigo, pois ora ficou
onde m'eu vim e outra o mandou;
e direi-vos, amigas, ũa rem:
se m'el quisesse como soía,
já 'gora, amigas, migo seria.
E já cobrad[o] é seu coraçom,
pois el ficou, u lh'a mia cinta dei,
[.............................]
e, mias amigas, se Deus mi perdom,
se m'el quisesse como soía,
já 'gora, amigas, migo seria.
Fez-m'el chorar muito dos olhos meus
com gram pesar que m'hoje fez prender:
quant'eu dixi, outro m'ouvira dizer,
ai mias amigas, se mi valha Deus;
se m'el quisesse como soía,
já 'gora, amigas, migo seria.
o meu amigo, pois ora ficou
onde m'eu vim e outra o mandou;
e direi-vos, amigas, ũa rem:
se m'el quisesse como soía,
já 'gora, amigas, migo seria.
E já cobrad[o] é seu coraçom,
pois el ficou, u lh'a mia cinta dei,
[.............................]
e, mias amigas, se Deus mi perdom,
se m'el quisesse como soía,
já 'gora, amigas, migo seria.
Fez-m'el chorar muito dos olhos meus
com gram pesar que m'hoje fez prender:
quant'eu dixi, outro m'ouvira dizer,
ai mias amigas, se mi valha Deus;
se m'el quisesse como soía,
já 'gora, amigas, migo seria.
642
João Garcia de Guilhade
Amigas, Tamanha Coita
Amigas, tamanha coita
nunca sofri pois foi nada,
e direi-vo'la gram coita
com que eu sejo coitada:
amigas, tem meu amigo
amiga na terra sigo.
Nunca vós vejades coita,
amigas, qual m'hoj'eu vejo,
e direi-vos a mia coita
com que eu coitada sejo:
amigas, tem meu amigo
amiga na terra sigo.
Sej'eu morrendo com coita,
tamanha coita me filha,
e d[irei]: mia coit'é coita
que trag'e que maravilha:
amigas, tem meu amigo
amiga na terra sigo.
nunca sofri pois foi nada,
e direi-vo'la gram coita
com que eu sejo coitada:
amigas, tem meu amigo
amiga na terra sigo.
Nunca vós vejades coita,
amigas, qual m'hoj'eu vejo,
e direi-vos a mia coita
com que eu coitada sejo:
amigas, tem meu amigo
amiga na terra sigo.
Sej'eu morrendo com coita,
tamanha coita me filha,
e d[irei]: mia coit'é coita
que trag'e que maravilha:
amigas, tem meu amigo
amiga na terra sigo.
841
Cláudio Ferro
O Vento Leve
O vento breve,
assim tão leve,
carregou a flor.
Ai! Que dor!
Sem detê-lo,
ou tê-la ao zelo,
penso:
O amor é grande besteira.
De todas, a maior asneira,
que os meus olhos vêem.
Que os meus olhos vêem?
Que será aquilo?
Que doce cor!
Que belo perfume!
Que Flor!
E se for?
Será o fim deste azedume?
05 de Junho de 1997 01:36
assim tão leve,
carregou a flor.
Ai! Que dor!
Sem detê-lo,
ou tê-la ao zelo,
penso:
O amor é grande besteira.
De todas, a maior asneira,
que os meus olhos vêem.
Que os meus olhos vêem?
Que será aquilo?
Que doce cor!
Que belo perfume!
Que Flor!
E se for?
Será o fim deste azedume?
05 de Junho de 1997 01:36
889
Fernando Pessoa
Tu és Maria das Dores,
Tu és Maria das Dores,
Tratam-te só por Maria.
Está bem, porque deste as dores
A quem quer que em ti se fia.
Tratam-te só por Maria.
Está bem, porque deste as dores
A quem quer que em ti se fia.
1 542
Fernando Pessoa
Quando tiraste da cesta
Quando tiraste da cesta
Os figos que prometeste
Foi em mim dia de festa,
Mas foi a todos que os deste.
Os figos que prometeste
Foi em mim dia de festa,
Mas foi a todos que os deste.
1 346
Martha Medeiros
que você tenha tido um derrame
que você tenha tido um derrame
uma anorexia nervosa, uma falta súbita
de memória
que tenha tido suores noturnos
taquicardia, febre, envenenamento
que tenha tido trombose, hemorragia,
pneumonia dupla
que tenha tido tudo isso ao mesmo tempo
um glaucoma, uma tuberculose
uma perfuração no abdômem
sou muito boazinha mas não aceito
qualquer desculpa
uma anorexia nervosa, uma falta súbita
de memória
que tenha tido suores noturnos
taquicardia, febre, envenenamento
que tenha tido trombose, hemorragia,
pneumonia dupla
que tenha tido tudo isso ao mesmo tempo
um glaucoma, uma tuberculose
uma perfuração no abdômem
sou muito boazinha mas não aceito
qualquer desculpa
975
Nizâr Qabbânî
Depois de Roma ter ardido
Depois de Roma ter ardido
e de tu teres ardido com ela
não esperes de mim
que te escreva um poema para te chorar
eu não estou acostumado
a chorar pássaros mortos
(tradução de André Simões)
518
Carlos Felipe Moisés
A Paixão Segundo Camões
Transforma-se o amador em coisa alguma,
sem dolo, sem virtude, sem razão.
Por muito amar, dispersa o coração
e rói daquilo que é a alma nenhuma.
As esperanças perde, uma a uma,
de decifrar o rosto da paixão.
Sem rumo, ilhado entre o sim e o não,
perde-se no amor de um mar sem espuma.
Transforma-se o amador em coisa errante,
atira ao vento um grito enrouquecido,
buscando encontrar-se na coisa amada.
A pele rota, o gesto vacilante,
transforma-se, de amar como um perdido,
em sombra de si mesmo, ausência, nada.
(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)
sem dolo, sem virtude, sem razão.
Por muito amar, dispersa o coração
e rói daquilo que é a alma nenhuma.
As esperanças perde, uma a uma,
de decifrar o rosto da paixão.
Sem rumo, ilhado entre o sim e o não,
perde-se no amor de um mar sem espuma.
Transforma-se o amador em coisa errante,
atira ao vento um grito enrouquecido,
buscando encontrar-se na coisa amada.
A pele rota, o gesto vacilante,
transforma-se, de amar como um perdido,
em sombra de si mesmo, ausência, nada.
(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)
1 016
Fernando Pessoa
Quis que comigo vísseis
Quis que comigo vísseis
A sombra essencial, o abstracto fruto
Do inúmero universo. Mas, não fostes
Mais que uma luz extinta em noite densa
Um pampal sem fruto.
(...) — Que é pensar
Sem ser? poeta, o que pensa vive o que é,
E a raiz não medita.
A sombra essencial, o abstracto fruto
Do inúmero universo. Mas, não fostes
Mais que uma luz extinta em noite densa
Um pampal sem fruto.
(...) — Que é pensar
Sem ser? poeta, o que pensa vive o que é,
E a raiz não medita.
1 173
Fernando Pessoa
Manjerico, manjerico,
Manjerico, manjerico,
Manjerico que te dei,
A tristeza com que fico
Inda amanhã a terei.
Manjerico que te dei,
A tristeza com que fico
Inda amanhã a terei.
1 554
Fernando Pessoa
Tua boca me diz sim,
Tua boca me diz sim,
Teus olhos me dizem não.
Ai, se gostasses de mim
E sem saber a razão.
Teus olhos me dizem não.
Ai, se gostasses de mim
E sem saber a razão.
1 106
Charles Bukowski
Meu Verdadeiro Amor Em Atenas
e eu me lembro da faca,
do modo como você toca uma rosa
e sai com sangue
e como você toca o amor do mesmo modo,
e como quando você quer entrar na autoestrada
os caminhões encurralam você na pista interna
luar e rugindo
atropelando sua bravura,
fazendo você pisar no freio
e pequenas imagens surgem na sua cabeça:
imagens de Cristo pendurado lá
ou Hiroshima
ou sua última esposa
fritando um ovo.
o modo como você toca uma rosa
é o modo como você se encosta nas laterais dos caixões
dos mortos,
o modo como você toca uma rosa
e vê os mortos rodopiando de volta
por baixo das suas unhas;
a faca
Gettysburg, as Ardenas, Flandres,
Átila, Muss –
de que me serve a história
quando tudo se reduz
à sombra das três da tarde
embaixo de uma folha?
e se a mente fica atormentada
e a rosa morde
como um cão,
dizem
que temos amor...
mas de que me serve o amor
quando todos nascemos
em diferentes momentos e lugares
e só nos encontramos
através de um truque dos séculos
e três passos casuais
à esquerda?
você quer dizer que
um amor que não encontrei
é menos do que um egoísmo
que chamo de próximo?
posso dizer agora
com sangue de rosa no fundo da minha mente,
posso dizer agora enquanto rodopiam os planetas
e toneladas de força são disparadas dentro do fim do espaço
para fazer Colombo parecer uma criança idiota
posso dizer agora
que porque gritei dentro de uma noite
e não me ouviram,
posso dizer agora
que me lembro da faca
e fico sentado num quarto fresco
e esfrego meus dedos ao apito do relógio
e calmamente penso em
Ajax e escarro
e galinhas ferroviárias atravessando os trilhos dourados,
e meu verdadeiro amor está em Atenas
600
A ou D,
enquanto fora da minha janela
pombos tropeçam enquanto voam
e por uma porta
de longa espera para um quarto vazio
rosas não conseguem
entrar ou sair,
ou amor ou mariposas ou relâmpago –
eu não irromperia nem em suspiro
nem em sorriso; poderiam nadas
como mariposas ou homens
existir como luz solar laranja sobre papel
dividido por nove?
Atenas fica agora a muitas milhas
e uma morte de distância,
e as mesas estão sujas pra cacete
e os lençóis e os pratos,
mas estou rindo; isso não é real;
mas é, dividido por nove
ou cem;
roupa limpa é amor
que não se coça
e suspira.
do modo como você toca uma rosa
e sai com sangue
e como você toca o amor do mesmo modo,
e como quando você quer entrar na autoestrada
os caminhões encurralam você na pista interna
luar e rugindo
atropelando sua bravura,
fazendo você pisar no freio
e pequenas imagens surgem na sua cabeça:
imagens de Cristo pendurado lá
ou Hiroshima
ou sua última esposa
fritando um ovo.
o modo como você toca uma rosa
é o modo como você se encosta nas laterais dos caixões
dos mortos,
o modo como você toca uma rosa
e vê os mortos rodopiando de volta
por baixo das suas unhas;
a faca
Gettysburg, as Ardenas, Flandres,
Átila, Muss –
de que me serve a história
quando tudo se reduz
à sombra das três da tarde
embaixo de uma folha?
e se a mente fica atormentada
e a rosa morde
como um cão,
dizem
que temos amor...
mas de que me serve o amor
quando todos nascemos
em diferentes momentos e lugares
e só nos encontramos
através de um truque dos séculos
e três passos casuais
à esquerda?
você quer dizer que
um amor que não encontrei
é menos do que um egoísmo
que chamo de próximo?
posso dizer agora
com sangue de rosa no fundo da minha mente,
posso dizer agora enquanto rodopiam os planetas
e toneladas de força são disparadas dentro do fim do espaço
para fazer Colombo parecer uma criança idiota
posso dizer agora
que porque gritei dentro de uma noite
e não me ouviram,
posso dizer agora
que me lembro da faca
e fico sentado num quarto fresco
e esfrego meus dedos ao apito do relógio
e calmamente penso em
Ajax e escarro
e galinhas ferroviárias atravessando os trilhos dourados,
e meu verdadeiro amor está em Atenas
600
A ou D,
enquanto fora da minha janela
pombos tropeçam enquanto voam
e por uma porta
de longa espera para um quarto vazio
rosas não conseguem
entrar ou sair,
ou amor ou mariposas ou relâmpago –
eu não irromperia nem em suspiro
nem em sorriso; poderiam nadas
como mariposas ou homens
existir como luz solar laranja sobre papel
dividido por nove?
Atenas fica agora a muitas milhas
e uma morte de distância,
e as mesas estão sujas pra cacete
e os lençóis e os pratos,
mas estou rindo; isso não é real;
mas é, dividido por nove
ou cem;
roupa limpa é amor
que não se coça
e suspira.
713
Fernando Pessoa
Compras carapaus ao cento,
Compras carapaus ao cento,
Sardinhas ao quarteirão.
Só tenho no pensamento
Que me disseste que não.
Sardinhas ao quarteirão.
Só tenho no pensamento
Que me disseste que não.
1 235