Poemas neste tema

Desilusão e Desamor

Martha Medeiros

Martha Medeiros

não quero saber quantas namoradas

não quero saber quantas namoradas
que eu não descobri
silêncios e desvios que não percebi
nem quero saber
sobre aquele fim de semana que não te vi
do teu pouco caso com o meu sofrimento
de nenhum movimento a meu favor
de nenhum amor que eu me lembre


não quero saber
quantas mentiras pra me acalmar
quantos mares a navegar sem mim
que fim deram aqueles retratos
se aquele abraço era mesmo assim


não quero saber
quantos meses você me deixou
a delirar e quantos presentes me deu
sem escolher e quantos beijos foram dados
por dar


não quero saber dos requintes
de crueldade nem do momento
fatal


o que não se sabe
não faz mal
1 095
Martha Medeiros

Martha Medeiros

não espero de você o que já me foi dado

não espero de você o que já me foi dado
nem você conseguiria porque não é assim
tudo tão cronometrado


eu não espero que você me proteja
depois de todos os medos que eu disse não ter
você não teria como saber


não espero de você um abraço
que já foi desfeito faz tempo
você não faz ideia quanto


eu não espero de você
nem mais um dia de lamento
nem um momento como a gente já teve


seja breve, não me escreva
se sobrar algum afeto
seja discreto e me esqueça
1 135
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Lamentável História Dos Namorados

Namorados, namorados,
não vos vejo mais alados,
sublimes, alcandorados
nos miríficos estados
de êxtases multiplicados
em horizontes dourados
de mundos ensolarados.
Estais casmurros, calados
entre carinhos cansados
e sonhos desanimados.
Que vos sucede, coitados?
Acaso foram arquivados
os projetos encantados,
alvo de finos cuidados,
pelos dois armazenados?
Onde os férvidos agrados,
os toques maravilhados
de vossos dias passados?
Namorados, namorados,
deixai-nos desarvorados!

Diviso em vossos semblantes
sombras, traços inquietantes,
diversos dos crepitantes,
abertos e fulgurantes
sinais festivos de antes.
Já não sois doces amantes,
não carregais, exultantes,
o suave peso de instantes
que pareciam diamantes
nos volteios elegantes
dos jogos inebriantes
e nos beijos delirantes
quando adultos são infantes
buscando refrigerantes
que em vez de serem calmantes
inda são mais excitantes.
Já não sois os bandeirantes
de descobertos faiscantes.
Diviso em vossos semblantes
amarguras humilhantes.

Chegou-me a resposta no ar,
após muito meditar
e livros mil consultar:
A inflação tentacular,
com guantes de arrebentar,
ferrou-vos na jugular.
Vosso anseio de morar
em casinha à beira-mar
ou qualquer outro lugar
desfez-se no limiar.
A recessão de lascar
nem vos deixa respirar,
e de empregos, neste andar,
quem ousa mais cogitar?
Um pacote singular
de rigidez tumular
desaba no patamar
da pretensão de casar.
Chegou-me a resposta no ar:
não dá mais pra namorar.
1 160
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Castanho-Claro

um olhar castanho-claro

esse estúpido, vazio e maravilhoso
olhar castanho-claro.

darei um jeito
nele.

você não precisa mais
me enganar
com seus truques
de Cleópatra
de cinema

já se deu conta
de que se eu fosse uma calculadora
eu poderia entrar em pane
registrando
as infinitas vezes que você usou
esse olhar castanho-claro?

não que não seja o que há de melhor
esse seu olhar castanho-claro.

algum dia um filho da puta louco
irá matá-la

e então você gritará meu nome
e finalmente entenderá
o que já devia ter entendido

há muito
tempo.
1 228
Martha Medeiros

Martha Medeiros

não reconheci quando você

não reconheci quando você
chegou sem muito alarde
ficou quieto no seu canto
e não falava nada
era tarde e você não parecia
estar muito à vontade
pegava o telefone e desligava
sem discar
eu sentia que você não estava bem
você estava apaixonado
eu não sabia bem por quem
e ela não correspondia
dava pra notar
pelo seu jeito de piscar demorado
de se manter atirado no sofá
sem fome, sem sede, sem sono
você não parecia um homem
e sim um cão sem dono
abandonado e não querendo mais nada
você não se conformava
deixava o rádio ligado
não fazia mais a barba
se punindo todo dia
por escolher outra vez
a mulher errada
1 111
Martim Soares

Martim Soares

Nunca Bom Grad'amor Haja de Mi

Nunca bom grad'Amor haja de mi
nem d'al, porque me mais leixa viver;
e direi-vos porque o dig'assi
e a gram coita que mi o faz dizer:
hei gram pavor de me fazer levar
coit'alongadament'e m'ar matar,
por me fazer peor morte prender.

Por en me leixa viver des aqui
Amor; e ben'o pod'hom'entender;
ca muit'há que lh'eu morte mereci,
se dev'homem per amar a morrer.
Mais nom me mata nem me quer guarir!
Pero nom m'hei del, pois viv', a partir,
nom me quer [el] matar a meu prazer.

E d'Amor nunca um prazer prendi,
por mil pesares que m'el faz sofrer;
e a senhor que eu por meu mal vi
nom me quer el contra ela valer,
nem dar-m'esforço, que m'era mester.
Pois m'esto faz e matar nom me quer,
por que lh'hei eu tal vid'agradecer?

Ca des que m'eu em seu poder meti
nom desejei bem que podess'haver;
sequer mia morte desejei des i,
que ant'eu muito soía temer.
E Amor nom me mata nem mi val,
mais matar-m'-ia, se fosse meu mal,
ou eu cuidass'em mia mort'a perder.
605
Martha Medeiros

Martha Medeiros

agora eu sei como se sente

agora eu sei como se sente
uma noiva abandonada no altar
você podia tudo na minha vida
menos faltar
1 120
Martim Soares

Martim Soares

Mal Conselhado Que Fui, Mia Senhor

Mal conselhado que fui, mia senhor,
quando vos fui primeiro conhocer!
Ca nunca pudi gram coita perder,
nem perderei já, mentre vivo for;
nem viss'eu vós, nem quem mi o conselhou,
nem viss'aquel que me vos amostrou,
nem viss'o dia 'm que vos fui veer!

Ca des entom me fez o voss'amor
na mui gram coita 'm que vivo viver;
e, por mi a nom leixar escaecer
e mi a fazer cada dia maior,
faz-me, senhor, em vós sempre cuidar
e faz-mi a Deus por mia morte rogar
e faz a vós a mim gram mal fazer.

E quem se fez de mim conselhador
que eu viss'o vosso bom parecer,
aquant'eu posso de vós entender,
de mia morte houve, e de meu mal, sabor;
e, mal pecado!, nom moir'eu por en,
nem moiro, porque seria meu bem,
nem moiro, porque queria morrer.

E porque mi seria mui melhor
morte ca mais esta coita sofrer,
pois nom mi há prol de vo-la eu dizer,
nem vos faz outrem por mim sabedor,
nem mi val rem de queixar-m'end'assi,
nem me val coita que por vós sofri,
nem mi val Deus, nem me poss'eu valer.

Pero, entanto com'eu vivo for,
queixar-m'-ei sempre de vós e d'Amor,
pois conselh'outro nom poss'i prender.
703
Martha Medeiros

Martha Medeiros

já que vim mesmo

já que vim mesmo
vamos aos finalmentes
pra começo de conversa
não me toque, acabou
não tinha nada a ver
e eu já tenho outro
doa a quem doer
não venha com essa cara de choro
você sabia que isso um dia
iria acontecer
eu não tenho muito tempo
só vim pegar minhas coisas
e saber de você
tô te achando mais magro
a casa tá meio suja
você tem se alimentado direito?
embora eu não me arrependa
ainda sinto saudades daqui
lembra daquele domingo
esquece, deixa pra lá
eu só vim te avisar
pra me deixar no meu canto
toca tua vida, vai fundo
eu vou me virando
engraçado
parece que você que tá indo
e eu que tô ficando
1 120
Martha Medeiros

Martha Medeiros

ficas mais distante, cada dia

ficas mais distante, cada dia
cada noite, mais ausente
mais idoso, cada mês
cada instante, mais alheio
cada beijo, mais decente
mais fumante, cada ano
cada encontro, mais estranho
mais sofrido, cada vez
mais dolorido, mais parente
menos meu
1 240
Martim Soares

Martim Soares

Senhor, Pois Deus Nom Quer Que Mi Queirades

Senhor, pois Deus nom quer que mi queirades
creer a coita que me por vós vem,
por Deus, creede ca vos quero bem
e jamais nunca m'outro bem façades;
e se mi aquesto queredes creer,
poderei eu mui gram coita perder;
e vós, senhor, nom sei que i perçades

em guarirdes voss'homem, que matades,
e que vos ama mais que outra rem;
por mim vos digo, que nom acho quem
me dê conselho, nem vós nom mi o dades.
Pero Deus sabe quam de coraçom
hoj'eu vos amo e, se El me perdom,
desamo mi porque me desamades,

per bõa fé, mia senhor; e sabiades
ca por aquest'hei perdudo meu sem;
mais se Deus quiser que vos dig'alguém
quam bem vos quero e que o vós creades,
poderei eu meu sem cobrar des i;
e se a vós prouguer que seja assi,
sempre por en bõa ventura hajades.
557
Martha Medeiros

Martha Medeiros

por mim

por mim
essa nossa novela
já teria acabado
sem reprise no sábado
1 105
Heiner Müller

Heiner Müller

A sós com estes corpos

Governos utopias
Cresce a grama
Entre os trilhos
As palavras apodrecem
No papel
Os olhos das mulheres
Ficam frios
Adeus amanhã
STATUS QUO
:
ALLEIN MIT DIESEN LEIBERN
Staaten Utopien
Gras wächst
Auf den Gleisen
Die Wörter verfaulen
Auf den Papier
Die Augen der Frauen
Werden kälter
Abschied von morgen
STATUS QUO
809
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Meus dias passam, minha fé também.

Meus dias passam, minha fé também.
Já tive céus e estrelas em meu manto.
As grandes horas, se as viveu alguém,
Quando as viver, perderam já o encanto.


1924
4 311
Martha Medeiros

Martha Medeiros

foram exatos treze segundos

foram exatos treze segundos
mais do que dura um orgasmo
menos que um comercial de tevê
“não posso mais viver com você
me apaixonei por outra mulher”
você disse pausado, com a voz embargada
e levou treze segundos
para dizer duas frases
tivesse mais pressa ou menos remorso
teria sido mais rápido
mas você estava angustiado
e levou treze segundos
pra desocupar meu lugar
como quem desfaz um negócio
tivesse escrito uma carta
haveria de ser mais sutil
tivesse telefonado
seria obrigado a um olá e a um adeus
mas olhando nos olhos
e sem divórcio ou fiasco
mudaste em treze segundos meu estado civil
desarrumando a vida
que eu havia inventado
1 014
Martim Soares

Martim Soares

Pois Nom Hei de Dona Elvira

Pois nom hei de Dona Elvira
seu amor e hei sa ira,
esto farei, sem mentira:
pois me vou de Santa Vaia,
       morarei cabo da Maia,
       em Doiro, antr'o Porto e Gaia.

Se crevess'eu Martim Sira,
nunca m'eu dali partira
d'u m'el disse que a vira:
em Sam [J]oan'e em saia.
       Morarei cabo da Maia,
       em Doiro, antr'o Porto e Gaia.
384
Martha Medeiros

Martha Medeiros

toda mulher tem um homem que se foi

toda mulher tem um homem que se foi
um homem que a deixou por outra
um homem que a deixou por um câncer
um homem que nem mesmo a notou
um homem que a deixou por um ideal
um homem que sumiu num temporal
um homem que não passou de dois drinques
toda mulher tem um homem que se foi
um homem que foi pego em flagrante
um homem que prometeu um brilhante
um homem que saiu pra jogar
toda mulher tem um homem
que esqueceu de voltar
1 179
Martha Medeiros

Martha Medeiros

o sentido da vida

o sentido da vida
é o que a gente sente


por um filho
que é a cara da gente


por um trabalho
que ocupa a mente


por um amor
que nos deixa doente


pena que isso não baste
por mais que se tente
1 351
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah, toca suavemente

Ah, toca suavemente
Como a quem vai chorar
Qualquer canção tecida
De artifício e de luar –
Nada que faça lembrar
A vida.

Prelúdio de cortesias,
Ou sorriso que passou...
Jardim longínquo e frio...
E na alma de quem o achou
Só o eco absurdo do voo
Vazio.


08/11/1922
3 808
João Baveca

João Baveca

Por Deus, Amiga, Preguntar-Vos-Ei

- Por Deus, amiga, preguntar-vos-ei
do voss'amigo, que vos quer gram bem,
se houve nunca de vós algum bem;
que mi o digades e gracir-vo-l'-ei.
- Par Deus, amiga, eu vo-lo direi:
       serviu-me muit', e por lhi [nom] fazer
       bem, el foi outra molher bem querer.

- Amiga, vós nom fezestes razom
de que perdestes voss'amig'assi;
quando vos el amava mais ca si,
por que lhi nom fezestes bem entom?
- Eu vos direi, amiga, por que nom:
       serviu-me muit', e por lhi [nom] fazer
       bem, el foi outra molher bem querer.

- Vedes, amiga, meu sem est atal:
que, pois vos Deus amigo dar quiser
que vos muit'am'e vos gram bem quiser,
bem lhi devedes fazer e nom mal.
- Amiga, nom lhi pud'eu fazer al:
       serviu-me muit', e por lhi [nom] fazer
       bem, el foi outra molher bem querer.
684
Martha Medeiros

Martha Medeiros

não há encanto que não se desfaça

não há encanto que não se desfaça
não há disfarce que não venha à tona
não há madonna que não desmorone
não há sharon stone que não esmoreça
não há tão bela que não te coma
não há tão feia que não te mereça
1 066
João Baveca

João Baveca

Vossa Menag', Amigo, Nom É Rem

Vossa menag', amigo, nom é rem,
ca, de pram, houvestes toda sazom
a fazer quant'eu quisesse e al nom,
e por rogo nem por mal nem por bem
       sol nom vos poss'esta ida partir.

Nunca vos já de rem hei a creer,
ca sempr'houvestes a fazer por mi
quant'eu mandass', e mentides-m'assi;
e, pero faç'i todo meu poder,
       sol nom vos poss'esta ida partir.

Que nom houvess'antre nós qual preito há,
per qual [bem] vos foi sempre [mui] mester
devíades por mi a fazer que quer;
e, pero vos mil vezes roguei já,
       sol nom vos poss'esta ida partir.
385
Martha Medeiros

Martha Medeiros

jantamos, recolhemos a louça

jantamos, recolhemos a louça
desta vez não brindamos
não houve conhaque ou licor
nem beijo de boa noite nem amor
hoje é domingo
mas amanheceu segunda-feira pra nós dois
1 144
João Baveca

João Baveca

Amigo, Mal Soubestes Encobrir

Amigo, mal soubestes encobrir
meu feit'e voss'e perdestes per i
mi e eu vós; e oimais quem nos vir
de tal se guard', e, se molher amar,
filh'aquel bem que lhi Deus quiser dar
e leix'o mais e pass'o temp'assi.

Ca vós quisestes haver aquel bem
de mim que vos nom podia fazer
sem meu gram dan', e perdestes por en
quanto vos ant'eu fazia d'amor;
e assi faz quem nom é sabedor
de saber bem, pois lho Deus dá, sofrer.

E bem sabedes camanho temp'há
que m'eu daquest', amigo, receei
em que somos; e, pois que o bem já
nom soubestes sofrer, sofred'o mal,
ca, [pero] m'end'eu queira fazer al
o demo lev'o poder que end'hei.
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