Desilusão e Desamor
Charles Bukowski
A 5ª do Bee
[loira
que tinha a maior xoxota em
Scranton.
escutei-a novamente enquanto escrevia uma carta
para minha mãe
pedindo US$ 5.000
e ela me respondeu mandando
3 tampinhas de garrafa e
os ossinhos dos dedos indicadores do
vovô.
a 5ª acabará com você
na grama ou na pista do jóquei,
a gatinha disse,
cruzando o tapete
de papagaios estampados.
se a 5ª não te matar
a décima irá,
disse a prostituta Caliente.
enquanto eles sobem a
maravilhosa bandeira vermelha cor de ketchup
93 ladrões choram em meio a
poeira púrpura.
a 5ª é como uma
formiga numa mesa de café da manhã cheia de
bengalas e
besouros
sugando o
suco de laranja do amanhecer que chega.
e eu peguei as 3 tampinhas que minha mãe
mandou e
as devorei
embrulhadas em páginas da
revista
Cosmopolitan.
mas estou cansado da
5ª
e eu disse isso a uma mulher em
Ohio, certa vez, eu
recém havia carregado carvão por 3 lances
de escada
eu estava tonto e
bêbado, e ela disse:
como você pode dizer que não dá bola
para algo muito maior do que você
jamais será?
e eu disse:
isso é fácil.
e ela se sentou em uma cadeira verde e
e eu numa cadeira vermelha
e depois disso
nunca mais voltamos a fazer
amor.
Charles Bukowski
Chicago
ela estava com botas novas, calças
e um suéter branco. “agora eu sei
o que eu quero.” ela era de Chicago e
havia se mudado para o distrito de Fairfax, L.A.
“você me prometeu champanhe,”
ela disse.
“eu estava bêbado quando liguei. que tal uma
cerveja?”
“não, me passa seu baseado.”
ela tragou, soltou:
“não é lá grande coisa”.
e me devolveu.
“há uma diferença”, eu disse, “entre
fazer a coisa e simplesmente ficar duro.”
“gosta das minhas botas?”
“sim, bem legais.”
“escuta, tenho que ir. posso usar
o banheiro?”
“claro.”
quando ela voltou tinha a boca muito
pintada de batom. eu não via uma assim
desde que era garoto.
beijei-a a caminho da porta
sentindo o batom grudar em meus
lábios.
“tchau” ela disse.
“tchau” eu disse.
caminhou pela passagem até o carro.
eu fechei a porta.
ela sabia o que queria e não era
eu.
conheço mais mulheres desse tipo do que de
qualquer outro.
Martha Medeiros
depois de tudo o que falamos na sala
fiquei a ouvir teu ronco na cama
referencial diário do nosso casamento moderno
Charles Bukowski
Iron Mike
Cagney servia uvas
a uma mulher
mais rápido do que ela conseguia
comer e
então ela se
apaixonava por ele.
“isso nem sempre
funciona”, digo a Iron
Mike.
ele dá uma risadinha e diz,
“claro”.
então ele desceu a mão
e tocou seu cinto.
32 escalpos de mulher
estavam pendurados ali.
“eu e meu enorme cacete
judeu”, ele disse.
então ergue as mãos
para indicar o
tamanho.
“opa, sim, muito bem”,
eu disse.
“elas aparecem”, ele
disse, “eu as traço, elas
começam a ficar, eu lhes digo,
‘é hora de ir’.”
“você é corajoso,
Mike.”
“essa aí não ia se mandar
então eu tive que me levantar e
esbofeteá-la... ela foi
embora.”
“eu não tenho sua fibra,
Mike. elas ficam,
lavam os pratos, esfregam
as manchas de merda no
vaso, jogam fora os
velhos prospectos do Jockey Club...”
“elas jamais vão me pegar”,
ele disse.
“sou invencível.”
olhe, Mike, nenhum homem é
invencível.
algum dia
vão considerá-lo louco pelo
olhar como num desenho a lápis feito por uma
criança. você não conseguirá
beber um copo
d’água ou cruzar um
quarto. haverá as
paredes e o som das
ruas lá fora, e
você ouvirá metralhadoras
e tiros de morteiro. isso se dará
quando você quiser, mas não
puder ter.
os dentes
nunca são por fim
os dentes do amor.
Charles Bukowski
Sozinho Com Todo Mundo
e colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homens bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.
de fato, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.
ninguém nunca encontra
o par ideal.
as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam
nada mais
se completa.
Martha Medeiros
pensei que bastassem palavras
pra me fazer entender
que nada
às vezes minha voz parece dublada
eu digo uma coisa, ele entende outra
fica tudo sem começo nem fim
quem dera eu pudesse contratar um dublê
pra terminar certas cenas por mim
Charles Bukowski
Um Poema Para a Armadura Peitoral
mas Vera era mais doce do que a maioria,
e assim fiquei surpreso quando
ela chegou naquela noite
dizendo, “me deixe entrar”.
“não, não, estou trabalhando num soneto.”
“ficarei só um minuto, depois me
vou.”
“Vera, se eu deixar você entrar sei que só sairá daqui
em 3 ou 4 dias.”
era noite e eu não acendera
a luz da varanda e assim não pude vê-la
se aproximar
mas
ela lançou uma direita que
explodiu bem no centro do meu
peito.
“baby, esse foi um soco lindo.
agora caia fora.”
então fechei a porta.
ela voltou 5 minutos depois:
“Hank, não consigo achar meu carro, eu
juro que não consigo achar. me ajude
a encontrá-lo!”
vi meu amigo Bobby-the-Riff
caminhando. “ei, Bobby ajude
essa aí a achar o carro. nos
falamos depois.”
foram juntos.
mais tarde Bobby disse que encontraram
o carro na frente do pátio de alguém,
motor e luzes
ligados.
não ouvi mais falar de Vera
desde então
a não ser que seja ela
quem me liga
às 2 e 3 e 4 da manhã
e não responde quando eu
digo “alô”.
mas Bobby diz que
pode cuidar dela
então decidi deixá-la
para Bobby.
ela mora numa rua lateral em algum lugar de
Glendale
e eu o ajudo a abrir o
mapa rodoviário enquanto bebemos nossas
Schlitz dietéticas.
Charles Bukowski
Social
rasgos de estrada amarela
um volante
uma mulher insana sentada
ao seu lado
reclamando enquanto o oceano
faz espuma
e pessoas em motor homes
amarelas e
brancas
impedem sua passagem
por um tempo
frenético
enquanto você escuta
culpado disso e
culpado daquilo
você admite
isso e aquilo
mas nunca é o
suficiente
ela quer conquistas
esplêndidas
e você está escaldado por
essas conquistas
esplêndidas
chegando lá
ela desce
caminha em direção à
casa
você mija junto ao
para-lamas do seu carro
bêbado de cerveja
pequenas gotas de você
pingando na
poeira
na poeira
seca
depois de fechar o zíper você
se põe em marcha
para encontrar os amigos
dela.
Martha Medeiros
você faz tudo para que os outros percebam
que você gosta de mim
e agora que estamos sós
você não tem dó e me deixa assim
por que você não me agarra
e dá um fim no que me atormenta
por que você não se senta
e me explica o que é isso enfim?
Martha Medeiros
passei tanto tempo procurando as palavras
que resumiriam nossa relação
mas tudo o que encontrei
foi pontuação
exclamações, interrogações, reticências
muita vírgula no lugar errado
tremas e acentos desatualizados
aspas que deixavam tudo formal
e um ponto final pra lá de precipitado
Martha Medeiros
te alcançar
é como estar nas filas intermináveis de Moscou
quando chega a minha vez
acabou
Manuel António Pina
O grito
Não valia a pena esperar, ninguém viria
que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos,
estávamos sós e essa solidão éramos nós;
e era indiferente sabê-lo ou não,
ou gritar (ou acreditar), porque ninguém ouvia:
o grito era a própria indiferença.
Presente, apenas presente;
a memória, presente,
a esperança, presente.
E, no entanto, houvera um tempo
em que tínhamos sido talvez felizes,
quando não nos dizia respeito a felicidade,
e em que tínhamos estado perto
de alguma coisa maior que nós
ou do nosso exacto tamanho.
Como um animal devorando-se
por dentro a si mesmo,
consumira-se, porém,
o pouco que nos pertencera, os dias e as noites,
a certeza e o deslumbramento, a cerejeira e a
palavra "cerejeira" ainda em carne na jovem boca.
Nenhuma beleza e nenhuma verdade que nos salvasse,
nenhuma renúncia que nos prendesse
ou nos libertasse, nenhuma compaixão que
nos devolvesse o ser
ou o mesmo,
ou fosse a morada de algo inumano como um coração.
Nenhuns passos ecoavam no grande quarto interior,
nenhumas pálpebras se abriam,
como poderíamos não nos ter perdido?
Entre 10 elevado a mais infinito
e 10 elevado a menos infinito,
uma indistinta presença impalpável na indiferença azul,
sós,
sem ninguém à escuta,
nem a nossa própria voz.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 310 e 311 | Assírio & Alvim, 2012
Martha Medeiros
você chegou com uma nova versão
do passado
e mais que apressado
esqueceu
que o que passou
ficou do meu lado
Martha Medeiros
não faz diferença
se você vem amanhã
ou não vem
desisti de esperar
por alguém
cuja ausência
me faz companhia
Martha Medeiros
o que uma guitarra faz
nenhum rapaz comigo já fez
Martha Medeiros
digamos que você não seja assim
tão seguro e inteligente como diz
vai ver me trai toda semana
leva pra cama minha melhor amiga
faz intriga a meu respeito
fala mal dos meus defeitos
garanto que não usa a gravata que dei
pode ser que você não goste
dos beijos que diz gostar
faz tudo só por fazer e me testar
vai ver não tem nem emprego
pede dinheiro emprestado
bate com o carro no meio-fio
você não tem nenhum caráter
passou por mim e fingiu que não viu
vai ver você morre de medo
de se olhar no espelho de dia
seu saldo está no vermelho
seu cão morto de fome
e você com raiva da vida
digamos que você não seja solteiro
e eu entrei numa fria
Charles Bukowski
É o Modo Como Você Joga o Jogo
coloque-a de pé sob a luz
imperfeita
ponha-lhe um vestido
reze cante implore chore ria
apague as luzes
ligue o rádio
acrescente-lhe enfeites:
manteiga, ovos crus, jornais de
ontem;
um cadarço novo, e então
páprica, açúcar, sal, pimenta,
ligue para sua tia velha e bêbada em
Calexico;
chame-a de amor,
espete-a bem, adicione
repolho e molho de maçã,
então a esquente primeiro
no lado esquerdo,
depois no
direito,
ponha-a numa caixa
livre-se dela
deixe-a nos degraus de uma porta
vomitando como você fará
nas
hortênsias.
Martha Medeiros
você teria ido sem mim
mesmo que eu não me atrasasse
você teria dito tudo aquilo
mesmo que eu não te ofendesse
você teria me deixado
mesmo que eu não propusesse
você faz tudo o que quer
mas sou eu que deixo tudo preparado
Charles Bukowski
Alguma Coisa
as molas de meu sofá
estouraram.
roubaram minha maleta.
roubaram minha tela a óleo de
dois olhos rosados.
meu carro quebrou.
lesmas escalam as paredes de meu banheiro.
meu coração está partido.
mas as ações tiveram um dia de alta
no mercado.
Charles Bukowski
Táxi
seu rabo para mim,
sem que eu lhe tivesse pedido, e
minha mulher enlouqueceu e saiu correndo do café e
começou a chover e dava para ouvir os pingos no
telhado e eu estava sem emprego e me restavam 13 dias
de aluguel.
às vezes, quando uma mulher corre assim de você
é de se perguntar se não faz isso por questões
econômicas, bem, não se pode culpá-las –
se eu tivesse que ser comido, preferia que fosse
por alguém com grana.
estamos todos assustados, mas quando você é feio e
está completamente fodido você se
fortalece, e chamei o garçom e disse,
achou que vou virar esta mesa, estou
de saco cheio, pirado, preciso de
ação, chame o seu leão-de-chácara, mijarei na
clavícula dele.
fui
posto pra fora bruscamente.
chovia. dei um jeito de me recompor sob a chuva e
caminhei pela rua deserta
algodão-doce
quinquilharias à venda, todas as lojinhas fechadas
com cadeados Woolworth de 67 centavos.
chego ao final da rua a tempo
de vê-la entrar num táxi
com outro cara
desabo junto a uma lata de lixo, me levanto
e mijo nela, sentindo-me triste e logo nem
tanto, sabendo que havia coisas demais que eles podiam
[fazer
contra você, o mijo escorrendo pela lata
corrugada, os filósofos deveriam ter algo a dizer sobre
isso. mulheres. a sorte delas contra o seu
destino. o vencedor leva Barcelona. próximo
bar.
Martha Medeiros
tenho náuseas
e nostalgia
tomei uma aspirina
e a febre não passou
reli a tua carta
e quase morri de dor
Martha Medeiros
tão profundamente triste
fiquei depois daquele beijo
que já não era desejo e sim hábito
de todos os nossos encontros
era verão e eu não sabia
que certas coisas não têm fim
passei noites em claro procurando entender
o que enfim não se explica
chamam vida e é assim
Martha Medeiros
no começo eu prestava atenção
em todas as palavras que você ia me dizendo
me custava muito acreditar que aquilo tudo
estava acontecendo
eu sentia que você não queria me magoar
escolhia cada letra e cada pausa e desviava
o olhar
nas horas em que era inevitável dizer o que
pretendia
você pretendia me deixar, deixava claro
que juntos fomos ótimos parceiros mas
que de agora em diante
era cada um para o seu lado, e apesar da
saudade
era assim que tinha que ser
você não respondeu minhas perguntas,
foi evasivo, gaguejou
fugiu do assunto várias vezes e quando
voltava era pra repetir:
não dá mais
não dá mais, não posso mais,
não vou deixar você tirar minha paz,
eu concordo
aceito, assino a separação, não vou fazer
escândalo
e quando eu te encontrar com essa que
tomou o meu lugar
(é evidente, não venha negar), vou ser
civilizada
não vou quebrar os pratos nem te
constranger
você não vai me reconhecer, não vai
mais me proteger
não vai mais me amar, não vai mais
telefonar,
não vai mais aparecer, não vai mais dizer
meu nome,
não, eu agora já não estou te ouvindo mais
Martha Medeiros
antes me adorava
depois me suportou
antes de me enlouquecer
você voltou
depois de muito papo
antes de amanhecer
você me amou
depois de muitos beijos
durante a madrugada
antes do nada que ficou