Poemas neste tema
Desilusão e Desamor
Emílio Moura
Exílio
Já nada vejo nessa bruma
que ora te esconde.
Quero encontrar-te, mas à noite
não me traz nenhuma
esperança de onde nem quando.
Amor, ah, quanto me deves!
Que é dos pés que, leves, leves,
roçaram por este chão?
Alma, és só tempo e solidão.
que ora te esconde.
Quero encontrar-te, mas à noite
não me traz nenhuma
esperança de onde nem quando.
Amor, ah, quanto me deves!
Que é dos pés que, leves, leves,
roçaram por este chão?
Alma, és só tempo e solidão.
1 204
João Airas de Santiago
Houvi Agora de Mia Prol Gram Sabor
Houvi agora de mia prol gram sabor
mia senhor, e conse[l]hou-me por en
que me partisse de lhi querer bem,
e dixi-lh'eu: – Fremosa mia senhor,
mui bem me conselhades vós, mais nom
poss'eu migo nem com meu coraçom,
que somos ambos em poder d'Amor.
E disse-m'ela: – Por Nostro Senhor,
quitade-vos, amigo, de mal sem
e nom amedes quem vos nom quer bem.
E dixi-lh'eu: – Per bõa fé, senhor,
se eu podesse comigo poder,
bem vos podia tod'esso fazer,
mais nom posso migo nem com Amor.
E disse-m'ela: – Tenh'eu por melhor
de vos quitardes, ca prol nom vos tem
d'amardes mim, pois mi nom é en bem.
E dixi-lh'eu: – Per bõa fé, senhor,
se eu podess', (o que nom poderei),
poder comig'e com Amor, bem sei
que vos faria de grad'ess'amor.
mia senhor, e conse[l]hou-me por en
que me partisse de lhi querer bem,
e dixi-lh'eu: – Fremosa mia senhor,
mui bem me conselhades vós, mais nom
poss'eu migo nem com meu coraçom,
que somos ambos em poder d'Amor.
E disse-m'ela: – Por Nostro Senhor,
quitade-vos, amigo, de mal sem
e nom amedes quem vos nom quer bem.
E dixi-lh'eu: – Per bõa fé, senhor,
se eu podesse comigo poder,
bem vos podia tod'esso fazer,
mais nom posso migo nem com Amor.
E disse-m'ela: – Tenh'eu por melhor
de vos quitardes, ca prol nom vos tem
d'amardes mim, pois mi nom é en bem.
E dixi-lh'eu: – Per bõa fé, senhor,
se eu podess', (o que nom poderei),
poder comig'e com Amor, bem sei
que vos faria de grad'ess'amor.
245
António Ramos Rosa
Porque Não Soube Merecer a Glória, a Mais Suave
Porque não soube merecer a glória, a mais suave
de me deitar a teu lado
e que do sangue a palavra
abolisse a diferença entre o meu corpo e a minha voz
porque te perdi
não sei quem sou
de me deitar a teu lado
e que do sangue a palavra
abolisse a diferença entre o meu corpo e a minha voz
porque te perdi
não sei quem sou
619
Emílio Moura
Despedida
Ventura que nunca tive,
paz irreal que nunca veio.
A vida fecha o horizonte,
chega a noite sem rumor.
Cala-se a voz. (já era tímida).
Meu eco morre aqui mesmo.
Que importa à sombra que desce
o grito que não se ouviu?
paz irreal que nunca veio.
A vida fecha o horizonte,
chega a noite sem rumor.
Cala-se a voz. (já era tímida).
Meu eco morre aqui mesmo.
Que importa à sombra que desce
o grito que não se ouviu?
1 058
João Airas de Santiago
Amigo, Quando Me Levou
Amigo, quando me levou
mia madr', [a] meu pesar, daqui,
nom soubestes novas de mi,
e por maravilha tenho
por nom saberdes quando vou
nem saberdes quando venho.
Pero que vos [ch]amades meu
amigo, nom soubestes rem
quando me levarom daquém,
e maravilho-me ende
por nom saberdes quando m'eu
venh'ou quando vou daquende.
Catei por vós quand'a partir-
-m'houve daqui e pero nom
vos vi nem veestes entom,
e mui queixosa vos ando
por nom saberdes quando m'ir
quer'ou se verrei já quando.
E por amigo nom tenho
o que nom sabe quando vou
nem sabe quando me venho.
mia madr', [a] meu pesar, daqui,
nom soubestes novas de mi,
e por maravilha tenho
por nom saberdes quando vou
nem saberdes quando venho.
Pero que vos [ch]amades meu
amigo, nom soubestes rem
quando me levarom daquém,
e maravilho-me ende
por nom saberdes quando m'eu
venh'ou quando vou daquende.
Catei por vós quand'a partir-
-m'houve daqui e pero nom
vos vi nem veestes entom,
e mui queixosa vos ando
por nom saberdes quando m'ir
quer'ou se verrei já quando.
E por amigo nom tenho
o que nom sabe quando vou
nem sabe quando me venho.
519
Diamond
Gorda! Eu?
Hoje, lá na praia
Nesse domingo blue
A vi com um carrinho de bebe
Tão lindo seu filhinho
Não quis me aproximar, baby
Mas de longe observei que
Continuas a mais linda mulher
Que eu conheci, three years ago
O cabelo, outra cor, melhor
Um pouco mais gorda, talvez
O busto um pouco maior
O mesmo lindo sorriso
Os mesmos olhos azuis
Nenhuma saudade de mim
Nesse domingo blue
A vi com um carrinho de bebe
Tão lindo seu filhinho
Não quis me aproximar, baby
Mas de longe observei que
Continuas a mais linda mulher
Que eu conheci, three years ago
O cabelo, outra cor, melhor
Um pouco mais gorda, talvez
O busto um pouco maior
O mesmo lindo sorriso
Os mesmos olhos azuis
Nenhuma saudade de mim
944
Nuno Júdice
Carta de Orfeu a Eurídice (4)
Nessas tardes em que despias o coração, e mo
entregavas num gesto de orvalho primaveril, o calor
de um sorriso de olhos fechados atravessava-me
a alma, e misturava-se com a terra húmida
das sensações. Podia dizer-te: este é o pólen que nenhum
insecto poderá roubar da corola onde se fabbrica o éter
do amor; e ouvir o teu riso, dissipando um temporal
de emoções. Nós éramos um - e essa unidade dividia-nos,
quando no seu interior estremecia uma hesitação,
corrompendo o espanto do outro.
Porque não pôde ser assim, sempre, e a ilusão
se dissipou como se uma corrente de ar tivesse atravessado
o quarto, levando com a sua passagem o brilho que
os teus lhos me davam? Ou não existe já, esse amor,
nalgum compartimento do caminho que nos abre
a agonia da ausência? Tu,
na decisão do teu silêncio; e eu, escudado pelo vazio que
envolve os seres que a vida rejeita. Mas que outras provas
querias? Só o teu nome, repetido na clausura
do inferno? Ou a secura dos lábios que o dizem, como
se a palavra não absorvesse o doce bálsamo
do teu corpo?
Vê o que ouso: esta vontade de perecer,
um sonho de eternidade, a ilusão do encontro
para além do humano, onde os deuses se
dissipam com a primeira luz do dia. Falo de mim, então,
como se o meu tempo fosse outro; rompo as fronteiras
que o divino impõe, e essas que eu próprio me coloco,
seguindo o caminho de um astro hostil. Alinho
na berma todas as perguntas que não voltarão a ter resposta: Onde estás? Que negra cortina desceu
sobre o passeio de onde eu te via chegar, enquanto a esplanada
se enchia com os nómadas estivais? Quando voltarei a ouvir a tua voz cansada, agora que um lamento
de pálpebras se sobrepõe a esse fogo de artifício que
batia contra as janelas do norte?
Mas é outro movimento de raízes. Empurra-as
uma fermentação de fogo na fulgurância dos campos. Lembras-te?
O sémen que escorre pela pedra, enquanto o teu rosto
se transforma - ó amante melancólica do outono,
por quem os sinos chamam, e cuja beleza escorre numa pele
de nuvem, encobrindo a tristeza que adivinho
numa súbita inflexão de voz. Falo, por fim, da medida
das palavras: o que te obriga a cortar este tempo que nos resta
com a lâmina do desânimo? Possuí-te sobre a pedra
da vida, limpando o musgo das convicções; e é aí
que te reencontro, como se o céu mantivesse o azul,
imóvel, sugerindo a harmonia do presente.
Falo-te, ainda, ó última das mulheres amadas, como
se me pertencesses! E um sabor de cinza nasce do silêncio
que me responde.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 52 a 54 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
entregavas num gesto de orvalho primaveril, o calor
de um sorriso de olhos fechados atravessava-me
a alma, e misturava-se com a terra húmida
das sensações. Podia dizer-te: este é o pólen que nenhum
insecto poderá roubar da corola onde se fabbrica o éter
do amor; e ouvir o teu riso, dissipando um temporal
de emoções. Nós éramos um - e essa unidade dividia-nos,
quando no seu interior estremecia uma hesitação,
corrompendo o espanto do outro.
Porque não pôde ser assim, sempre, e a ilusão
se dissipou como se uma corrente de ar tivesse atravessado
o quarto, levando com a sua passagem o brilho que
os teus lhos me davam? Ou não existe já, esse amor,
nalgum compartimento do caminho que nos abre
a agonia da ausência? Tu,
na decisão do teu silêncio; e eu, escudado pelo vazio que
envolve os seres que a vida rejeita. Mas que outras provas
querias? Só o teu nome, repetido na clausura
do inferno? Ou a secura dos lábios que o dizem, como
se a palavra não absorvesse o doce bálsamo
do teu corpo?
Vê o que ouso: esta vontade de perecer,
um sonho de eternidade, a ilusão do encontro
para além do humano, onde os deuses se
dissipam com a primeira luz do dia. Falo de mim, então,
como se o meu tempo fosse outro; rompo as fronteiras
que o divino impõe, e essas que eu próprio me coloco,
seguindo o caminho de um astro hostil. Alinho
na berma todas as perguntas que não voltarão a ter resposta: Onde estás? Que negra cortina desceu
sobre o passeio de onde eu te via chegar, enquanto a esplanada
se enchia com os nómadas estivais? Quando voltarei a ouvir a tua voz cansada, agora que um lamento
de pálpebras se sobrepõe a esse fogo de artifício que
batia contra as janelas do norte?
Mas é outro movimento de raízes. Empurra-as
uma fermentação de fogo na fulgurância dos campos. Lembras-te?
O sémen que escorre pela pedra, enquanto o teu rosto
se transforma - ó amante melancólica do outono,
por quem os sinos chamam, e cuja beleza escorre numa pele
de nuvem, encobrindo a tristeza que adivinho
numa súbita inflexão de voz. Falo, por fim, da medida
das palavras: o que te obriga a cortar este tempo que nos resta
com a lâmina do desânimo? Possuí-te sobre a pedra
da vida, limpando o musgo das convicções; e é aí
que te reencontro, como se o céu mantivesse o azul,
imóvel, sugerindo a harmonia do presente.
Falo-te, ainda, ó última das mulheres amadas, como
se me pertencesses! E um sabor de cinza nasce do silêncio
que me responde.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 52 a 54 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 261
Adélia Prado
Amor Violeta
O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge o meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.
de um vão entre as costelas.
Atinge o meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.
1 446
João Airas de Santiago
Quand'eu Fui Um Dia Vosco Falar
Quand'eu fui um dia vosco falar,
meu amigo, figi-o eu por bem,
e enfengestes-vos de mim por en;
mais, se vos eu outra vez ar falar,
logo vós dizede[s] ca fezestes
comigo quanto fazer quisestes.
Ca, meu amigo, falei eu ũa vez
convosco, por vos de morte guarir,
e fostes-vos vós de mim enfingir;
mais, se vos eu [ar] falar outra vez,
logo vós dizede[s] ca fezestes
comigo quanto fazer quisestes.
Ca mui bem sei eu que nom fezestes
o meio de quanto vós dissestes.
meu amigo, figi-o eu por bem,
e enfengestes-vos de mim por en;
mais, se vos eu outra vez ar falar,
logo vós dizede[s] ca fezestes
comigo quanto fazer quisestes.
Ca, meu amigo, falei eu ũa vez
convosco, por vos de morte guarir,
e fostes-vos vós de mim enfingir;
mais, se vos eu [ar] falar outra vez,
logo vós dizede[s] ca fezestes
comigo quanto fazer quisestes.
Ca mui bem sei eu que nom fezestes
o meio de quanto vós dissestes.
714
João Airas de Santiago
Ai Mia Filha, de Vós Saber Quer'eu
- Ai mia filha, de vós saber quer'eu
porque fezestes quanto vos mandou
voss'amigo, que vos nom ar falou.
- Par Deus, mia madre, direi-vo-lo eu:
cuid[ava-m]'eu melhor haver per i
e semelha-mi que nom est assi.
- Por que fezestes, se Deus vos dê bem,
filha, quanto vos el vẽo rogar?
Ca des entom nom vos ar quis falar.
- Direi-vo-l[o] eu, se Deus mi dê bem:
cuid[ava-m]'eu melhor haver per i
e semelha-mi que nom est assi.
- Por que fezestes, se Deus vos perdom,
filha, quanto vos el vẽo dizer?
Ca des entom nom vos ar quis veer.
- Direi-vo-l[o] eu, se Deus mi perdom:
cuid[ava-m]'eu melhor haver per i
e semelha-mi que nom est assi.
[E] bom dia naceu, com'eu oí,
que[m] se doutro castiga e nom de si.
porque fezestes quanto vos mandou
voss'amigo, que vos nom ar falou.
- Par Deus, mia madre, direi-vo-lo eu:
cuid[ava-m]'eu melhor haver per i
e semelha-mi que nom est assi.
- Por que fezestes, se Deus vos dê bem,
filha, quanto vos el vẽo rogar?
Ca des entom nom vos ar quis falar.
- Direi-vo-l[o] eu, se Deus mi dê bem:
cuid[ava-m]'eu melhor haver per i
e semelha-mi que nom est assi.
- Por que fezestes, se Deus vos perdom,
filha, quanto vos el vẽo dizer?
Ca des entom nom vos ar quis veer.
- Direi-vo-l[o] eu, se Deus mi perdom:
cuid[ava-m]'eu melhor haver per i
e semelha-mi que nom est assi.
[E] bom dia naceu, com'eu oí,
que[m] se doutro castiga e nom de si.
693
Dieter Roos
Talvez
talvez
não exista o amor
talvez
exista somente
o ódio
e aquilo
que chamamos de amor
é somente odiar
não exista o amor
talvez
exista somente
o ódio
e aquilo
que chamamos de amor
é somente odiar
851
João Airas de Santiago
Queredes Ir, Meu Amigo, Eu o Sei
Queredes ir, meu amigo, eu o sei,
buscar outro conselh'e nom o meu;
porque sabedes que vos desej'eu,
queredes-vos ir morar com el-rei,
mais id'ora quanto quiserdes ir,
ca pois a mi havedes a viir.
Ides-vos vós e fico eu aqui
que vos hei sempre muit'a desejar;
e vós queredes com el-rei morar
porque cuidades mais valer per i;
mais id'ora quanto quiserdes ir,
ca pois a mi havedes a viir.
Sabor havedes, a vosso dizer,
de me servir, amig', e pero nom
leixades d'ir al-rei por tal razom;
nom podedes el-rei e mim haver,
mais id'ora quanto quiserdes ir,
ca pois a mi havedes a viir.
E, amigo, querede-lo oir?
Nom podedes dous senhores servir
que ambos hajam rem que vos gracir.
buscar outro conselh'e nom o meu;
porque sabedes que vos desej'eu,
queredes-vos ir morar com el-rei,
mais id'ora quanto quiserdes ir,
ca pois a mi havedes a viir.
Ides-vos vós e fico eu aqui
que vos hei sempre muit'a desejar;
e vós queredes com el-rei morar
porque cuidades mais valer per i;
mais id'ora quanto quiserdes ir,
ca pois a mi havedes a viir.
Sabor havedes, a vosso dizer,
de me servir, amig', e pero nom
leixades d'ir al-rei por tal razom;
nom podedes el-rei e mim haver,
mais id'ora quanto quiserdes ir,
ca pois a mi havedes a viir.
E, amigo, querede-lo oir?
Nom podedes dous senhores servir
que ambos hajam rem que vos gracir.
673
Adélia Prado
A Meio Pau
Queria mais um amor. Escrevi cartas,
remeti pelo correio a copa de uma árvore,
pardais comendo no pé um mamão maduro
— coisas que não dou a qualquer pessoa —
e mais que tudo, taquicardias,
um jeito de pensar com a boca fechada,
os olhos tramando um gosto.
Em vão.
Meu bem não leu, não escreveu,
não disse essa boca é minha.
Outro dia perguntei a meu coração:
o que que há durão, mal de chagas te comeu?
Não, ele disse: é desprezo de amor.
remeti pelo correio a copa de uma árvore,
pardais comendo no pé um mamão maduro
— coisas que não dou a qualquer pessoa —
e mais que tudo, taquicardias,
um jeito de pensar com a boca fechada,
os olhos tramando um gosto.
Em vão.
Meu bem não leu, não escreveu,
não disse essa boca é minha.
Outro dia perguntei a meu coração:
o que que há durão, mal de chagas te comeu?
Não, ele disse: é desprezo de amor.
2 070
Emílio Burlamaqui
De Nietzsche a Dante, com Amor
Se vais à mulher, não esqueças o chicote
Para fustigares o perigo do amor.
Carrega a lança, pois és sempre um D. Quixote,
Mas leva o lenço para a inexorável dor.
O amor não é mais forte que a espuma
(espuma do mar: Venus, amor... tormento)
E muito menos que a neblina, que a bruma
Que se desfazem com o sol ou com o vento.
O amor é instável, sutil, evanescente.
Não há prazo para tempo tão fugaz,
Sua essência é ser assim inconsistente,
Não há norma, não há tino, não há paz.
Porta o chicote, leva o corpo, deixa a alma,
Guarda receio se a mulher tua mão alcança,
Conduz teu lenço, teu escudo, tua calma,
Se vais ao amor, deixa atrás toda esperança.
Para fustigares o perigo do amor.
Carrega a lança, pois és sempre um D. Quixote,
Mas leva o lenço para a inexorável dor.
O amor não é mais forte que a espuma
(espuma do mar: Venus, amor... tormento)
E muito menos que a neblina, que a bruma
Que se desfazem com o sol ou com o vento.
O amor é instável, sutil, evanescente.
Não há prazo para tempo tão fugaz,
Sua essência é ser assim inconsistente,
Não há norma, não há tino, não há paz.
Porta o chicote, leva o corpo, deixa a alma,
Guarda receio se a mulher tua mão alcança,
Conduz teu lenço, teu escudo, tua calma,
Se vais ao amor, deixa atrás toda esperança.
939
Charles Bukowski
Vá Para a Tumba Limpinho –
ninguém se importa
ninguém realmente se importa
você não sabia?
você não lembrava?
ninguém realmente se importa
até aqueles passos
caminhando para algum lugar
estão indo para lugar nenhum
você talvez se importe
mas ninguém se importa –
esse é o primeiro passo
na direção da sabedoria
aprenda
e ninguém precisa se importar
de ninguém é esperado que se importe
a sexualidade e o amor vão por água abaixo
como merda
ninguém se importa
aprenda
a crença no impossível é a
armadilha
a fé mata
ninguém se importa –
os suicidas, os mortos, os deuses
ou os vivos
pense no verde, pense nas árvores, pense
na água, pense na sorte e numa espécie de
glória
mas se liberte das amarras
rápida e finalmente
de depender do amor
ou esperar o amor de
alguém
ninguém se importa.
ninguém realmente se importa
você não sabia?
você não lembrava?
ninguém realmente se importa
até aqueles passos
caminhando para algum lugar
estão indo para lugar nenhum
você talvez se importe
mas ninguém se importa –
esse é o primeiro passo
na direção da sabedoria
aprenda
e ninguém precisa se importar
de ninguém é esperado que se importe
a sexualidade e o amor vão por água abaixo
como merda
ninguém se importa
aprenda
a crença no impossível é a
armadilha
a fé mata
ninguém se importa –
os suicidas, os mortos, os deuses
ou os vivos
pense no verde, pense nas árvores, pense
na água, pense na sorte e numa espécie de
glória
mas se liberte das amarras
rápida e finalmente
de depender do amor
ou esperar o amor de
alguém
ninguém se importa.
711
Efer Cilas dos Santos Junior
Dor Infinita
Dor Infinita
Um dia nasce e, por fim, morre então;
Surge depois outro e também fenece,
Assim nossa existência acontece
E, aos poucos se dissipa qual poção.
Mas o que tem o pesar como irmão,
E de uma dor profunda assim padece,
Todo dia tormento lhe parece
Insuportável sua condição...
Não há riqueza, sorte, ou até conquista
Que impedir possa que tal dor persista
E faça rir de novo o triste ser...
Que dor é essa maior que o existir?
É sem um amor ter que resistir!
É sem carinho ter que então viver!
Um dia nasce e, por fim, morre então;
Surge depois outro e também fenece,
Assim nossa existência acontece
E, aos poucos se dissipa qual poção.
Mas o que tem o pesar como irmão,
E de uma dor profunda assim padece,
Todo dia tormento lhe parece
Insuportável sua condição...
Não há riqueza, sorte, ou até conquista
Que impedir possa que tal dor persista
E faça rir de novo o triste ser...
Que dor é essa maior que o existir?
É sem um amor ter que resistir!
É sem carinho ter que então viver!
973
Martha Medeiros
Faz-de-conta
Não respondo teus e-mails, e quando respondo sou ríspido, distante, mantenho-me alheio: faz-de-conta que eu te odeio.
Te encho de palavras carinhosas, não economizo elogios, me surpreendo de tanto afeto que consigo inventar, sou uma atriz, sou do ramo: faz-de-conta que te amo.
Estou sempre olhando pro relógio, sempre enaltecendo os planos que eu tinha e que os outros boicotaram, sempre reclamando que os outros fazem tudo errado: faz-de-conta que dou conta do recado.
Debocho de festas e de roupas glamurosas, não entendo como é que alguém consegue dormir tarde todas as noites, convidados permanentes para baladas na área vip do inferno: faz-de-conta que não quero.
Choro ao assistir o telejornal, lamento a dor dos outros e passo noites em claro tentando entender corrupções, descasos, tudo o que demonstra o quanto foi desperdiçado meu voto: faz-de-conto que me importo.
Jogo uma perna pro alto, a outra pro lado, faço cara de gostosa, os cabelos escorridos na rosto, me retorço, gemo, sussurro, grito e poso: faz-de-conta que eu gozo.
Digo que perdôo, ofereço cafezinho, lembro dos bons momentos, digo que os ruins ficaram no passado, que já não lembro de nada, pessoas maduras sabem que toda mágoa é peso morto: faz-de-conta que não sofro.
Cito Aristóteles e Platão, aplaudo ferros retorcidos em galerias de arte, leio poesia concreta, compro telas abstratas, fico fascinada com um arranjo techno para uma música clássica e assisto sem legenda o mais recente filme romeno: faz-de-conta que eu entendo.
Tenho todos os ingredientes para um sanduíche inesquecível, a porta da geladeira está lotada de imãs de tele-entrega, mantenho um bar razoavelmente abastecido, um pouco de sal e pimenta na despensa e o fogão tem oito anos mas parece zerinho: faz-de-conta que eu cozinho.
Bem-vindo à Disney, o mundo da fantasia, qual é o seu papel? Você pode ser um fantasma que atravessa paredes, ser anão ou ser gigante, um menino prodígio que decorou bem o texto, a criança ingênua que confiou na bruxa, uma sex symbol a espera do seu cowboy: faz-de-conta que não dói.
Te encho de palavras carinhosas, não economizo elogios, me surpreendo de tanto afeto que consigo inventar, sou uma atriz, sou do ramo: faz-de-conta que te amo.
Estou sempre olhando pro relógio, sempre enaltecendo os planos que eu tinha e que os outros boicotaram, sempre reclamando que os outros fazem tudo errado: faz-de-conta que dou conta do recado.
Debocho de festas e de roupas glamurosas, não entendo como é que alguém consegue dormir tarde todas as noites, convidados permanentes para baladas na área vip do inferno: faz-de-conta que não quero.
Choro ao assistir o telejornal, lamento a dor dos outros e passo noites em claro tentando entender corrupções, descasos, tudo o que demonstra o quanto foi desperdiçado meu voto: faz-de-conto que me importo.
Jogo uma perna pro alto, a outra pro lado, faço cara de gostosa, os cabelos escorridos na rosto, me retorço, gemo, sussurro, grito e poso: faz-de-conta que eu gozo.
Digo que perdôo, ofereço cafezinho, lembro dos bons momentos, digo que os ruins ficaram no passado, que já não lembro de nada, pessoas maduras sabem que toda mágoa é peso morto: faz-de-conta que não sofro.
Cito Aristóteles e Platão, aplaudo ferros retorcidos em galerias de arte, leio poesia concreta, compro telas abstratas, fico fascinada com um arranjo techno para uma música clássica e assisto sem legenda o mais recente filme romeno: faz-de-conta que eu entendo.
Tenho todos os ingredientes para um sanduíche inesquecível, a porta da geladeira está lotada de imãs de tele-entrega, mantenho um bar razoavelmente abastecido, um pouco de sal e pimenta na despensa e o fogão tem oito anos mas parece zerinho: faz-de-conta que eu cozinho.
Bem-vindo à Disney, o mundo da fantasia, qual é o seu papel? Você pode ser um fantasma que atravessa paredes, ser anão ou ser gigante, um menino prodígio que decorou bem o texto, a criança ingênua que confiou na bruxa, uma sex symbol a espera do seu cowboy: faz-de-conta que não dói.
1 493
João Airas de Santiago
Joan'airas, Ora Vej'eu Que Há
- Joan'Airas, ora vej'eu que há
Deus mui gram sabor de vos destroir,
pois vós tal cousa fostes comedir:
que, de quantas molheres no mund'há,
de todas vós gram mal fostes dizer,
cativ', e nom soubestes entender
o mui gram mal que vos sempr'en verrá.
- Joam Vaásquiz, sempr'eu direi já
de molheres moito mal, u as vir;
ca, porque eu foi end'ũa servir,
sempre mi gram mal quis e querrá já;
por gram bem que lh'eu sabia querer,
casou-s'ora, por mi pesar fazer,
com quen'a nunca amou nem amará.
- Joan'Airas, nom tenh'eu por razom
d'as molheres todas caerem mal
por end'ũa sóo, que a vós fal,
ca Deu'lo sabe que é sem razom;
por end'a vós ũa tolher o sem
e dizerdes das outras mal por en,
errades vós, assi Deus mi perdom.
- Joam Vaásquiz, todas taes som
que, pois virem que nom amades al
senom elas, logo vos faram tal
qual fez a mim ũa; e todas som
aleivosas; e quem lhis desto bem
disser, atal prazer veja de quem
[quer] que mais amar no seu coraçom.
- Joan'Airas, vós perdestes o sem,
ca enas molheres sempr'houve bem
e haverá já, mais pera vós nom.
- Joam Vaásquiz, nom dizedes rem,
ca todos se queixam delas por en,
senom vós, que filhastes por en dom.
Deus mui gram sabor de vos destroir,
pois vós tal cousa fostes comedir:
que, de quantas molheres no mund'há,
de todas vós gram mal fostes dizer,
cativ', e nom soubestes entender
o mui gram mal que vos sempr'en verrá.
- Joam Vaásquiz, sempr'eu direi já
de molheres moito mal, u as vir;
ca, porque eu foi end'ũa servir,
sempre mi gram mal quis e querrá já;
por gram bem que lh'eu sabia querer,
casou-s'ora, por mi pesar fazer,
com quen'a nunca amou nem amará.
- Joan'Airas, nom tenh'eu por razom
d'as molheres todas caerem mal
por end'ũa sóo, que a vós fal,
ca Deu'lo sabe que é sem razom;
por end'a vós ũa tolher o sem
e dizerdes das outras mal por en,
errades vós, assi Deus mi perdom.
- Joam Vaásquiz, todas taes som
que, pois virem que nom amades al
senom elas, logo vos faram tal
qual fez a mim ũa; e todas som
aleivosas; e quem lhis desto bem
disser, atal prazer veja de quem
[quer] que mais amar no seu coraçom.
- Joan'Airas, vós perdestes o sem,
ca enas molheres sempr'houve bem
e haverá já, mais pera vós nom.
- Joam Vaásquiz, nom dizedes rem,
ca todos se queixam delas por en,
senom vós, que filhastes por en dom.
725
João Baveca
Mui Desguisado Tenho D'haver Bem!
Mui desguisado tenho d'haver bem!
Enquant'eu já eno mundo viver,
hei tal coita qual sofro a sofrer;
ca vos direi, amigos, que mi avém:
cada que cuid'estar de mia senhor
bem, estou mal e, quando mal, peor.
E por aquesto, se Deus mi perdom,
entendo já que nunca perderei
a maior coita do mundo que hei;
e quero logo dizer porque nom:
cada que cuid'estar de mia senhor
bem, estou mal e, quando mal, peor.
E por aquesto já bem fiz estou
d'haver gram coita no mund'e nom al,
e d'haver sempr', em logar de bem, mal;
ca vos direi como xi me guisou:
cada que cuid'estar de mia senhor
bem, estou mal e, quando mal, peor.
E por aquesto sofr'eu a maior
coita de quantas fez sofrer Amor.
Enquant'eu já eno mundo viver,
hei tal coita qual sofro a sofrer;
ca vos direi, amigos, que mi avém:
cada que cuid'estar de mia senhor
bem, estou mal e, quando mal, peor.
E por aquesto, se Deus mi perdom,
entendo já que nunca perderei
a maior coita do mundo que hei;
e quero logo dizer porque nom:
cada que cuid'estar de mia senhor
bem, estou mal e, quando mal, peor.
E por aquesto já bem fiz estou
d'haver gram coita no mund'e nom al,
e d'haver sempr', em logar de bem, mal;
ca vos direi como xi me guisou:
cada que cuid'estar de mia senhor
bem, estou mal e, quando mal, peor.
E por aquesto sofr'eu a maior
coita de quantas fez sofrer Amor.
336
José Saramago
Elegia À Moda Antiga
Nem tão tarde que me farte
Nem que me raive de cedo
Quando o mundo não tiver
Nada mais por descobrir
Quando o amor se acabar
Morra com ele o desejo
De ficar a ver as sobras
Os restos da vida cheia
Parado à beira do rio
Onde as águas não descansam
No outro lado milagres
E margens verdes eternas
Enterro os dedos no lodo
Quatrocentas gerações
Um grande sonho pairando
Enquanto o céu se carrega
Ai o destino dos homens
Ai o destino de mim
Corta-se a voz ao para encontrar
Consolo só no fim
Nem que me raive de cedo
Quando o mundo não tiver
Nada mais por descobrir
Quando o amor se acabar
Morra com ele o desejo
De ficar a ver as sobras
Os restos da vida cheia
Parado à beira do rio
Onde as águas não descansam
No outro lado milagres
E margens verdes eternas
Enterro os dedos no lodo
Quatrocentas gerações
Um grande sonho pairando
Enquanto o céu se carrega
Ai o destino dos homens
Ai o destino de mim
Corta-se a voz ao para encontrar
Consolo só no fim
1 082
José Saramago
Caminhámos Sobre As Águas
Caminhámos sobre as águas como os deuses,
E fomos deuses.
Todo o arco do céu as nossas mãos traçaram,
E os traços lá ficaram.
Olhamos hoje a obra, cansados arquitectos:
Não são os nossos tectos.
E fomos deuses.
Todo o arco do céu as nossas mãos traçaram,
E os traços lá ficaram.
Olhamos hoje a obra, cansados arquitectos:
Não são os nossos tectos.
1 204
Sophia de Mello Breyner Andresen
Traduzido de Kleist
Dizem que no outro mundo o sol é mais brilhante
E brilha sobre campos mais floridos
Mas os olhos que vêem essas maravilhas
São olhos apodrecidos
E brilha sobre campos mais floridos
Mas os olhos que vêem essas maravilhas
São olhos apodrecidos
1 590
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Canção de Amor
Levantei-me cedo, cedo — e era azul
toda a manhã.
Porém, o meu amor já havia partido:
— já tinha atravessado as grandes portas da aurora.
No monte Papago a presa na agonia
olhou-me
com os olhos da minha amada.
toda a manhã.
Porém, o meu amor já havia partido:
— já tinha atravessado as grandes portas da aurora.
No monte Papago a presa na agonia
olhou-me
com os olhos da minha amada.
867
Sophia de Mello Breyner Andresen
Xiv. Através do Teu Coração Passou Um Barco
Através do teu coração passou um barco
Que não pára de seguir sem ti o seu caminho
1982
Que não pára de seguir sem ti o seu caminho
1982
1 452