Poemas neste tema

Desilusão e Desamor

D. Dinis

D. Dinis

Amig'e Fals'e Desleal

Amig'e fals'e desleal,
que prol há de vos trabalhar
d'ena mia mercee cobrar?
Ca tanto o trouxestes mal
       que nom hei, de vos bem fazer,
       pero m'eu quisesse, poder.

Vós trouxestes o preit'assi
come quem nom é sabedor
de bem nem de prez nem d'amor,
e por en creede per mim
       que nom hei, de vos bem fazer,
       pero m'eu quisesse, poder.

Caestes [vós] em tal cajom
que sol conselho nom vos sei,
ca já vos eu desemparei,
em guisa, se Deus mi perdom,
       que nom hei, de vos bem fazer,
       pero m'eu quisesse, poder.
738
D. Dinis

D. Dinis

Meu Amigo Vem Hoj'aqui

Meu amigo vem hoj'aqui
e diz que quer migo falar,
e sab'el que mi faz pesar,
madre, pois que lh'eu defendi
       que nom fosse, per nulha rem,
       per u eu foss', e ora vem

aqui; e foi pecado seu
de sol põer no coraçom,
madre, passar mia defensom;
ca sab'el que lhi mandei eu
       que nom fosse per nulha rem
       per u eu foss', e ora vem

aqui, u eu com el falei
per ante vós, madr'e senhor;
e oimais perde meu amor,
pois lh'eu defendi e mandei
       que nom fosse per nulha rem
       per u eu foss', e ora vem

aqui, madr', e pois fez mal sem,
dereit'é que perça meu bem.
262
Afonso Mendes de Besteiros

Afonso Mendes de Besteiros

Que Sem Meu Grado Me Parti

Que sem meu grado me parti
de mia senhor e do meu bem,
que quero melhor doutra rem!
E em grave dia naci
por eu nunca poder veer,
poila nom vi, nẽum prazer!
[...]
567
Herberto Helder

Herberto Helder

Hoje, Que Eu Estava Conforme Ao Dia Fundo

hoje, que eu estava conforme ao dia fundo,
fui-me a reler alguns dos meus poemas,
e então cai abaixo de mim mesmo,
e era só o que faltava:
sáfara safra
— nem as mãos me serviam,
nem a dor escrita e lida me serve para nada
779
D. Dinis

D. Dinis

Por Deus, Amigo, Quem Cuidaria

Por Deus, amigo, quem cuidaria
que vós nunca houvéssedes poder
de tam longo tempo sem mi viver?
E des oimais, par Santa Maria,
       nunca molher deve, bem vos digo,
       muit'a creer per juras d'amigo.

Dissestes-mi u vos de mim quitastes:
"Log'aqui serei convosco, senhor";
e jurastes-mi polo meu amor,
e des oimais, pois vos perjurastes,
       nunca molher deve, bem vos digo,
       muit'a creer per juras d'amigo.

Jurastes-m'entom muit'aficado
que logo logo, sem outro tardar,
vos queríades pera mi tornar,
e des oimais, ai meu perjurado,
       nunca molher deve, bem vos digo,
       muit'a creer per juras d'amigo.

E assi farei eu, bem vos digo,
por quanto vós passastes comigo.
711
D. Dinis

D. Dinis

Ai Fals'amig'e Sem Lealdade

Ai fals'amig'e sem lealdade,
ora vej'eu a gram falsidade
       com que mi vós há gram temp'andastes,
ca doutra sei eu já por verdade
       a que vós atal pedra lançastes.

Amigo fals'e muit'encoberto,
ora vej'eu o gram mal deserto
       com que mi vós há gram temp'andastes,
ca doutra sei eu já bem por certo
       a que vós atal pedra lançastes.

Ai fals'amig', eu nom me temia
do gram mal e da sabedoria
       com que mi vós há gram temp'andastes,
ca doutra sei eu, que o bem sabia,
       a que vós atal pedra lançastes.

E de colherdes razom seria
da falsidade que semeastes.
664
Renato Russo

Renato Russo

Mil Pedaços

Eu não perdi
E mesmo assim você me abandonou
Você quis partir
E agora estou sozinho
Mas vou me acostumar
Com o silêncio em casa
om um prato só na mesa
Eu não me perdi
O Sândalo perfuma
O machado que feriu
Adeus adeus
Adeus meu grande amor
E tanto faz
De tudo o que ficou
Guardo um retrato teu
E a saudade mais bonita
Eu não me perdi
E mesmo assim ninguém te perdoou
Pobre coração - quando o teu
Estava comigo era tão bom.
Não sei por quê
Acontece assim e é sem querer
O que não era pra ser:
Vou fugir dessa dor.
Meu amor, se quiseres voltar - volta não
Porque me quebraste em mil pedaços.

1 550
Ruy Pereira e Alvim

Ruy Pereira e Alvim

Viagem de Reconhecimento

Procuro-me convicto
na luxúria tropical.
No corpo líquido
de minhas odisséias
no cerne de meu habitat
vegetal.

E só encontro areias,
arestas e restos de epopéias,
e velhos guerreiros
amarrados às ameias
de meus sonhos jovens de cristal.

857
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Quente

ela era quente, era tão quente
que eu não queria que ninguém mais a tivesse,
e se eu não chegasse em casa na hora certa
ela já teria ido, e era uma coisa que eu não podia suportar –
eu enlouquecia...
era uma idiotice, eu sei, uma infantilidade,
mas eu me deixava levar, eu me deixava levar.
eu entregava todas as correspondências
e então Henderson me colocava na coleta noturna
num velho caminhão do exército,
a porra da lata velha começava a aquecer na metade do caminho
e a noite seguia
eu pensando na minha Miriam quente
e eu entrando e saindo do caminhão
enchendo sacolas com cartas
o motor prestes a fundir
a agulha do termômetro cravada no vermelho
QUENTE QUENTE
como Miriam.
eu seguia saltando
mais 3 coletas e então de volta ao posto
eu estaria, meu carro
à espera de me levar até Miriam que estaria sentada em meu sofá azul
com um uísque com gelo
cruzando as pernas e balançando os tornozelos
como costumava fazer,
duas coletas mais...
o caminhão enguiçou junto a um sinal, era o inferno
dando suas caras
mais uma vez...
eu tinha que chegar em casa até as 8, 8 era o prazo final de Miriam.
fiz a última coleta e o caminhão enguiçou num sinal
a meia quadra do posto...
não tinha jeito de dar a partida, de jeito nenhum...
tranquei as portas, apanhei a chave e corri até o
posto...
me livrei das chaves... assinei o ponto...
a porra do seu caminhão está enguiçado no sinal,
gritei,
Pico com a Western...
...corri pela entrada, coloquei a chave na porta,
abri... seu copo de bebida estava lá, e um bilhete:
fio da puta:
isperei até 8 e sinco
você não me ama
seu fio da puta
alguém vai me amar
fiquei isperando todo dia
Miriam
servi um drinque e deixei a água encher a banheira
havia 5.000 bares na cidade
e eu percorri 25 deles
atrás de Miriam
seu ursinho púrpuro de pelúcia segurava o bilhete
e ele estava escorado num travesseiro
dei um trago para o urso, outro para mim
e entrei na água
quente
1 048
Estêvão da Guarda

Estêvão da Guarda

Por Partir Pesar Que [Eu] Sempre Vi

Por partir pesar que [eu] sempre vi
a mia senhor haver do mui gram bem
que lh'eu quero, desejava por en
mia mort', amigos; mais, pois entendi
       que lhe prazia de me mal fazer,
       log'eu des i desejei a viver.

Veend'eu bem que do mui grand'amor
que lh'eu sempr'hou[v]i tomava pesar,
ia por end'a morte desejar;
mais pois, amigos, eu fui sabedor
       que lhe prazia de me mal fazer,
       log'eu, des i, desejei a viver.

Se me Deus entom a morte nom deu,
nom ficou já por mim de lha pedir,
cuidand'a ela tal pesar partir;
mais pois, amigos, bem [certo] fui eu
       que lhe prazia de me mal fazer,
       log'eu, des i, desejei a viver.

Nom por mia prol, mais pera nom perder
ela per mim rem do que lh'é prazer.
361
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Fora Dos Braços...

fora dos braços de um amor
e dentro dos braços de outro
fui salvo de morrer crucificado
por uma dona que fumava baseado
escrevia canções e contos,
e é muito mais doce que a anterior
muito mais doce,
e o sexo é tão bom quanto ou até melhor.
não é nada agradável ser pregado a uma cruz e lá esquecido,
é muito mais agradável esquecer um amor que não deu
certo
como todo amor
por fim
não dá certo...
é muito mais agradável fazer amor
ao longo da costa de Del Mar
no quarto 42, e depois disso
sentar na cama
beber bom vinho, falar e nos tocar
fumar
ouvindo o barulho das ondas...
já morri vezes demais
acreditando e esperando, esperando
em um quarto
olhando para as rachaduras no teto
esperando por um telefonema, uma carta, uma batida à porta, um som...
enlouquecendo ali dentro
enquanto ela dançava com estranhos em alguma boate...
fora dos braços de um amor
e dentro dos braços de outro
não é nada agradável morrer na cruz,
é muito mais agradável ouvir seu nome sussurrado no
escuro.
1 009
Estêvão da Guarda

Estêvão da Guarda

Ouç'eu Muitos D'amor Que[I]Xar

Ouç'eu muitos d'Amor que[i]xar
e dizem que per el lhes vem
quanto mal ham e que os tem
em tal coita que nom há par;
       mais a mim vem da mia senhor
       quanto mal hei, per desamor

que m'ela tem; pero que al
ouço i eu a muitos dizer,
que lhes faz gram coita sofrer
Amor, onde lhes vem gram mal,
       mais a mim vem da mia senhor
       quanto mal hei, per desamor

que m'ela tem mui sem razom;
pero vej'eu muitos, de pram,
que dizem que quanto mal ham
que d'Amor lhes vem e d'al nom,
       mais a mim vem da mia senhor
       quanto mal hei, per desamor

que m'ela tem; e que peor
poss'haver ca seu desamor?
419
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Solidão

Desesperança das desesperanças...
Última e triste luz de uma alma em treva...
— A vida é um sonho vão que a vida leva
Cheio de dores tristemente mansas.

— É mais belo o fulgor do céu que neva
Que os esplendores fortes das bonanças
Mais humano é o desejo que nos ceva
Que as gargalhadas claras das crianças.

Eu sigo o meu caminho incompreendido
Sem crença e sem amor, como um perdido
Na certeza cruel que nada importa.

Às vezes vem cantando um passarinho
Mas passa. E eu vou seguindo o meu caminho
Na tristeza sem fim de uma alma morta.
1 488
Estêvão da Guarda

Estêvão da Guarda

A Molher D'alvar Rodriguiz Tomou

A molher d'Alvar Rodriguiz tomou
tal queixume quando s'el foi daquém
e a leixou que, por mal nem por bem,
des que veo, nunca s'a el chegou
nem quer chegar, se del certa nom é,
jurando-lhe ante que, a bõa fé,
nõn'a er leixe como a leixou.

E o cativo, per poder que há,
nõn'a pode desta seita partir,
nem per meaças nem pela ferir,
ela por en nẽũa rem nom dá;
mais, se a quer desta sanha tirar,
a bõa fé lhe convém a jurar
que a nom leixe em nẽum tempo já.
527
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Lamentação de Adriano Sobre a Morte de Antinoos

Não escreverei mais o meu nome em letras gregas sobre a cera das tabuinhas
Porque estás morto
E contigo morreu o meu projecto de viver a condição divina
1 149
Estêvão da Guarda

Estêvão da Guarda

Com'aveo a Merlim de Morrer

Com'aveo a Merlim de morrer
per seu gram saber que el foi mostrar
a tal molher, que o soub'enganar,
per essa guisa se foi confonder
Martim Vasquez, per quanto lh'eu oí:
que o tem mort'ũa molher assi,
a que mostrou, por seu mal, seu saber.

E tal coita diz que lhe faz sofrer
no coraçom, que se quer afogar:
nem er pode, u a nom vir, durar;
em torna d'i, o faz esmorecer
e, per saber que lh'el mostrou, o tem
tam coitado, que a morrer convém
de mort'estrãia que há padecer.

E, o que lh'é mais grave de temer,
per aquelo que lh'el foi ensinar,
diz que sabe que o pod'ensarrar
em tal logar u convém d'atender
atal morte de qual morreu Merlim,
u dará vozes, fazendo sa fim,
ca nom pod'el tal mort'estraecer.
545
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Puxe Uma Corda, a Marionete Se Move...

cada homem deve perceber
que tudo pode desaparecer depressa
demais:
o gato, a mulher, o emprego,
o pneu da frente,
a cama, as paredes, o
quarto; todas as nossas necessidades
incluindo o amor,
apoiam-se sobre fundações de areia –
e qualquer causa,
não importa o quão aleatória:
a morte de um garoto em Hong Kong
ou uma nevasca em Omaha...
pode estar no lugar do que você não fez.
toda sua porcelana se espatifando no
chão da cozinha, sua garota entrará
e você estará ali parado, bêbado,
no meio de tudo e ela vai perguntar:
meu deus, o que está acontecendo?
e você responderá: eu não sei,
eu não sei...
1 142
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Ritmo Acelerado

voltei cansadíssimo com um dedo decepado e geada
nos pés e o relâmpago despencando pelo papel de parede;
enforcaram três homens nas ruas e o prefeito estava bêbado
de doces, e afundaram a maldita frota e os abutres
fumavam charutos Havana; ok, posso ver onde certa beldade
banhada cortou seu pulso esquerdo e a encontraram em estado
de coma no quarto dela – provavelmente sofrendo de amor
por minha causa, mas preciso me mudar dessa cidade: achei que eu fosse um
rapaz tranquilão, uma rocha, mas acabo de descobrir um
cabelo grisalho acima da
minha orelha esquerda.
1 082
Elielson Rodrigues

Elielson Rodrigues

A Volta

Hoje estás de volta,
amanhã estarás morta,
ainda és a mesma menina inerme,
desgrenhada, cefalia de verme.

Pensamentos infantis,
Homicídio impune,
o universo te maldiz,
mas te torna imune.

Não tentes me enganar,
tua sedução pra mim é monturo,
Impetuosamente quero te matar,
falta-me eloqüência no que juro.

O que outrora me iludia,
agora é esterco, rio.
te quero no inferno sua vadia,
esse prazer não renuncio.

1 003
Manoel Elias Filho

Manoel Elias Filho

Restos

Do amor intensoNa calada da noiteDo fogo do sexoSobraram restosVestígios, marcas.Do encontroSobrou a fuga.Da sociedadeRestou a insegurançaDo ser humanoRestou pedaçosTrapos de um serDivisão, confusão.Que da verdadeRestou a mentira.Que da razãoRestou a loucura.E da realidadeRestou a fantasiaPedaços de mimRestos de vocêSobras de todosRestos do mundo.

922
Elisa Sayeg

Elisa Sayeg

De Nicole Sangue de Nuvem

A Porta do Amor gira sobre os gonzos
Pesadamente
Deixando-nos o Lado de Fora

Ao passante solitário
nenhum revide o espera
no cemitério.

Nenhum violento se erga
da campa dourada
Onde a lápide é folheada
com o sol morto.
Não o enjoe uma névoa incensada
Nenhum violento
sono se erga.

757
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Que Grave M'est Ora de Vos Fazer

Que grave m'est ora de vos fazer,
senhor fremosa, um mui gram prazer,
ca me quer'ir longi de vós viver,
e venho-vos, por esto, preguntar:
que prol há [a] mim fazer-vos eu prazer
e fazer a mim, senhor, gram pesar?

Sei que vos praz muito ir-m'eu daquém,
ca dizedes que nom é vosso bem
de morar preto de vós; e por en
quero de vós que mi digades al:
que prol há a mim fazer eu vosso bem
e fazer a mim, senhor, mui gram mal?

Dizedes que mi havedes desamor
porque moro preto de vós, senhor,
e que morre[re]des se m'eu nom for;
mais dizede, já que m'eu quero ir:
que prol há [a] mim guarir eu vós, senhor,
e matar mim, que moiro por guarir?

E vós guarredes sem mi, mia senhor,
e eu morrerei des que vos nom vir.
691
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

MADRIGAL

Desista: não vai dar certo.
O mundo é o mesmo de sempre,
desejo é uma coisa cega.
Desista, enquanto é tempo.

As mãos não sabem o que pegam,
os pés vão aonde não sabem.
As cartas estão marcadas:
vai dar desgraça na certa.

O mundo é sempre a esmo,
desejo é uma porta aberta.
Desista, que a vida é incerta.
Ou insista. Dá no mesmo.
831
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

A Mia Senhor, Que Eu Sei Muit'amar

A mia senhor, que eu sei muit'amar,
punhei sempre do seu amor gaar
e non'o houvi; mais, a meu cuidar,
nom fui eu i de sem nem sabedor
por quanto lh'eu fui amor demandar,
       ca nunca vi molher mais sem amor.

E des que a vi sempr'a muit'amei,
e sempre lhi seu amor demandei,
e non'o houvi nen'o haverei;
mais, se cent'anos for seu servidor,
nunca lh'eu já amor demandarei,
       ca nunca vi molher mais sem amor.
754