Poemas neste tema
Desejo
Fernanda dos Santos
Inquietação
Estou disposta
a me confundir com você ,
a me deixar levar,
a me sentir seduzir.
Se seu âmago
te diz do se jeito manso
e seu coração
insiste em atrapalhar
o antigo estado de calmaria ;
Se o seu corpo ,
suado tranborda euforia,
te peço que me leve ;
Me arranquue suspiros e delírios,
me pegue de surpresa,
me faça não ter sentidos e
sensações ;
Me aconchegue no seu coração
e sinta nossa aflição.
Me beije calmo e profundo
e roube os meus charmes e detalhes ,
os meus beijos e
dentes a morder lábios ;
Feche os olhos ,
e sinta á distâncias o meu calor ;
Não sinta culpas e remorsos ,
nem medos de responsabilidades ;
Me envolva
e me faça ver as estrelas
e a entender seu mundo são .
Ao sentir aquela inclinação
a pesar nos pensamentos,
não resista e não rodeie ,
que encorporarei seus sentimentos.
E tranformaremos os seus esboços
e anseios
em pura realização ;
Que te darei
á flor da pele
a mais inesquecível inquietação .
a me confundir com você ,
a me deixar levar,
a me sentir seduzir.
Se seu âmago
te diz do se jeito manso
e seu coração
insiste em atrapalhar
o antigo estado de calmaria ;
Se o seu corpo ,
suado tranborda euforia,
te peço que me leve ;
Me arranquue suspiros e delírios,
me pegue de surpresa,
me faça não ter sentidos e
sensações ;
Me aconchegue no seu coração
e sinta nossa aflição.
Me beije calmo e profundo
e roube os meus charmes e detalhes ,
os meus beijos e
dentes a morder lábios ;
Feche os olhos ,
e sinta á distâncias o meu calor ;
Não sinta culpas e remorsos ,
nem medos de responsabilidades ;
Me envolva
e me faça ver as estrelas
e a entender seu mundo são .
Ao sentir aquela inclinação
a pesar nos pensamentos,
não resista e não rodeie ,
que encorporarei seus sentimentos.
E tranformaremos os seus esboços
e anseios
em pura realização ;
Que te darei
á flor da pele
a mais inesquecível inquietação .
942
Fernanda dos Santos
Bruços
Caminha o olhar sobre
as curvas da tua planície ,
pleno morro a
murmurar solução .
Tua pele
meu caminho sem conclusão ;
Umedece e esvairece
face muda : falante .
Teu olhar
o meu infinito .
Passo a viajar
nesse seu beijo .
E fico à admirar
suas carnuudas doces
sutilezas ,
seus passos e suas presas .
Beleza minha
te envolvo em meu amor e
o teu calor : a sua essência
transborda o sopro ;
Pulsação e coração
tudo numa só inundação;
Como tu és belo ,
em seu brilho a irradiar ;
E a suspirar ,
o meu destino é te desejar ...
as curvas da tua planície ,
pleno morro a
murmurar solução .
Tua pele
meu caminho sem conclusão ;
Umedece e esvairece
face muda : falante .
Teu olhar
o meu infinito .
Passo a viajar
nesse seu beijo .
E fico à admirar
suas carnuudas doces
sutilezas ,
seus passos e suas presas .
Beleza minha
te envolvo em meu amor e
o teu calor : a sua essência
transborda o sopro ;
Pulsação e coração
tudo numa só inundação;
Como tu és belo ,
em seu brilho a irradiar ;
E a suspirar ,
o meu destino é te desejar ...
805
Carlos Drummond de Andrade
A Moça Ferrada
Falam tanto dessa moça. Ninguém viu,
todos juram.
Cada qual conta coisa diferente,
e todas concordantes.
Dizem que à noite, ela. Ela o quê?
E com quem? Com viajantes
que somem sem rastro
gabando no caminho
os espasmos secretos (tão públicos) da moça.
Sobe a moça
a ladeira da igreja
para a reza de todas as tardes.
De branco perfeitíssimo,
alta, superior, inabordável
(luxúria de mil-folhas sob o véu,
murmura alguém).
À noite é que acontecem coisas
no quarto escuro. Ganidos de prazer,
escutados por quem? se ninguém passa
na rua de altas horas-muro?
Pouco importa, a moça está marcada,
marca de rês na anca, ferro em brasa
de língua popular.
todos juram.
Cada qual conta coisa diferente,
e todas concordantes.
Dizem que à noite, ela. Ela o quê?
E com quem? Com viajantes
que somem sem rastro
gabando no caminho
os espasmos secretos (tão públicos) da moça.
Sobe a moça
a ladeira da igreja
para a reza de todas as tardes.
De branco perfeitíssimo,
alta, superior, inabordável
(luxúria de mil-folhas sob o véu,
murmura alguém).
À noite é que acontecem coisas
no quarto escuro. Ganidos de prazer,
escutados por quem? se ninguém passa
na rua de altas horas-muro?
Pouco importa, a moça está marcada,
marca de rês na anca, ferro em brasa
de língua popular.
1 280
Fernanda dos Santos
Vai
Vai-me o pensamento
voa longe
vive a flutuar
Navega
carrega
sossega
essa minha saudade de amar !
voa longe
vive a flutuar
Navega
carrega
sossega
essa minha saudade de amar !
891
Carlos Drummond de Andrade
Conclusão
Que cerros mais altos,
vista mais calmante,
sítios mais benignos,
nuvens mais de sonho,
fontes mais pacíficas,
gente mais cordata,
bichos mais tranquilos,
noites mais sossego,
sempiternamente
vida mais redonda…
vida mais difícil.
vista mais calmante,
sítios mais benignos,
nuvens mais de sonho,
fontes mais pacíficas,
gente mais cordata,
bichos mais tranquilos,
noites mais sossego,
sempiternamente
vida mais redonda…
vida mais difícil.
1 122
Fabio Valor Caldas
Tudo Que For Pecado
Sinta a minha presença
Dentro da sua vida,
Dentro do seu corpo,
E seguiremos juntos, sem destino,
Viveremos milhares de loucuras,
Sem um dia certo para acabar.
Eu quero te conhecer,
Em todos os sentidos.
O que é que te excita?
O que te faz feliz?
Seremos capazes de fazer
Tudo que for proibido,
Tudo que for censurado,
Tudo que for pecado.
Você chegou para
Mudar a minha vida.
Vamos mudar o mundo,
Junto poderemos mudar tudo,
E se não formos nós
Quem mais poderá mudar?
A vida termina
Onde começa o amor,
E o nosso amor
Está no limite de tudo.
Um dia o mundo acaba,
A vida acaba sem razão,
Tudo se destrói com o tempo,
Tudo que for pecado.
Eu gosto de olhar
Para os seus olhos,
E sentir toda a sua presença,
Todo o seu carinho,
Como se fosse um mundo
Para se conquistar.
A vida não teria o mesmo sentido
Sem a tua presença.
Dentro da sua vida,
Dentro do seu corpo,
E seguiremos juntos, sem destino,
Viveremos milhares de loucuras,
Sem um dia certo para acabar.
Eu quero te conhecer,
Em todos os sentidos.
O que é que te excita?
O que te faz feliz?
Seremos capazes de fazer
Tudo que for proibido,
Tudo que for censurado,
Tudo que for pecado.
Você chegou para
Mudar a minha vida.
Vamos mudar o mundo,
Junto poderemos mudar tudo,
E se não formos nós
Quem mais poderá mudar?
A vida termina
Onde começa o amor,
E o nosso amor
Está no limite de tudo.
Um dia o mundo acaba,
A vida acaba sem razão,
Tudo se destrói com o tempo,
Tudo que for pecado.
Eu gosto de olhar
Para os seus olhos,
E sentir toda a sua presença,
Todo o seu carinho,
Como se fosse um mundo
Para se conquistar.
A vida não teria o mesmo sentido
Sem a tua presença.
793
Carlos Drummond de Andrade
Hortênsia
A professora me ensina
que Hortênsia é saxifragácea.
Mas no moreno de Hortênsia,
na cabeleira de Hortênsia,
no busto e buço de Hortênsia,
o que eu diviso é uma graça
mais estranha que a palavra
saxifragácea.
Hortênsia, jardim trancado,
onde sei que o namorado
percorre umbrosos canteiros,
contando depois pra gente.
Oi namorada dos outros,
oi outros que não se calam,
fazem só para contar!
O namorado de Hortênsia
me ensina coisas diversas
do ensino da escola pública.
Eu sei, eu percebo, eu sinto
que Hortênsia (existe a palavra?)
é sexifragrância.
que Hortênsia é saxifragácea.
Mas no moreno de Hortênsia,
na cabeleira de Hortênsia,
no busto e buço de Hortênsia,
o que eu diviso é uma graça
mais estranha que a palavra
saxifragácea.
Hortênsia, jardim trancado,
onde sei que o namorado
percorre umbrosos canteiros,
contando depois pra gente.
Oi namorada dos outros,
oi outros que não se calam,
fazem só para contar!
O namorado de Hortênsia
me ensina coisas diversas
do ensino da escola pública.
Eu sei, eu percebo, eu sinto
que Hortênsia (existe a palavra?)
é sexifragrância.
1 391
Erich Fried
Pederastia como arma
Ao garoto que conhecera no cinema
confessou André Gide
na cama ou pela manhã
depois de uma longa noite de sexo:
Você pode dizer aos seus amigos
que você dormiu com um homem famoso
com um escritor
Meu nome é François Mauriac
:
Päderastie als Waffe
Den Knaben die er im Kino getroffen hatte,
gestand André Gide
im Bett, oder am Morgen
nach einer durchliebten Nacht:
Du kannst deinen Freunden sagen,
du hast mit einem berühmten Mann geschlafen,
mit einem Schriftsteller.
Mein Name ist François Mauriac.
confessou André Gide
na cama ou pela manhã
depois de uma longa noite de sexo:
Você pode dizer aos seus amigos
que você dormiu com um homem famoso
com um escritor
Meu nome é François Mauriac
:
Päderastie als Waffe
Den Knaben die er im Kino getroffen hatte,
gestand André Gide
im Bett, oder am Morgen
nach einer durchliebten Nacht:
Du kannst deinen Freunden sagen,
du hast mit einem berühmten Mann geschlafen,
mit einem Schriftsteller.
Mein Name ist François Mauriac.
928
Flávio Villa-Lobos
Norte
Minha fome é outra.
Não aquela que abre um buraco negro
no estômago
- vazio invisível,
que da boca algum alimento
lácteo - via esôfago -
cessa prontamente
até a próxima angústia.
Minha fome é outra.
Não um simples estar-no-mundo,
como disse Drummond
- o universo para mim
é pouco.
Minha fome salta como louca,
labareda intrépida
num incêndio grandioso.
Ela me devorará
ainda que eu entregue os pontos;
a eternidade é uma tosca
linha de partida
no horizonte, a cegar-me o olho.
Sim, minha fome é outra
- indigesta, não toca
as iguarias da estalagem.
Não tem nome,
nem forma, nem nada.
Apenas remove
montanhas, ajudando-me a vencer
o caminho penoso
sem jamais perder de vista
a paisagem.
Não aquela que abre um buraco negro
no estômago
- vazio invisível,
que da boca algum alimento
lácteo - via esôfago -
cessa prontamente
até a próxima angústia.
Minha fome é outra.
Não um simples estar-no-mundo,
como disse Drummond
- o universo para mim
é pouco.
Minha fome salta como louca,
labareda intrépida
num incêndio grandioso.
Ela me devorará
ainda que eu entregue os pontos;
a eternidade é uma tosca
linha de partida
no horizonte, a cegar-me o olho.
Sim, minha fome é outra
- indigesta, não toca
as iguarias da estalagem.
Não tem nome,
nem forma, nem nada.
Apenas remove
montanhas, ajudando-me a vencer
o caminho penoso
sem jamais perder de vista
a paisagem.
869
Joaquim Manuel de Macedo
Bonita e marotinha, (Ato IV, Cena III)
(...)
Dionísia (Cantando dentro: lundu) — Bonita e marotinha.
Eu sou como andorinha
Que, só, não faz verão.
Voando a sós no espaço,
Cair quero no laço
Que prende o coração.
Cincinato (Canta) — Caído e enrabixado
Sou peixe, teu pescado,
Com o anzol no coração.
Não fiques mais sozinha,
Vem cá, minha andorinha.
Vamos fazer verão.
Dionísia (Rindo-se dentro) — Ah! ah! ah! ah! (Canta.)
O amor de uma andorinha
Na sombra se amesquinha,
Quer lúcido esplendor.
Voando a sós no espaço,
Só cairei em laço
De enleio encantador.
Cincinato (Canta.) — Meu laço é um tesouro,
Jóias, brilhante, ouro,
Súcia, teatro, ceia
Sedas, e até veludo,
Coques, anquinhas, tudo,
E a bolsa sempre cheia.
Dionísia (Canta dentro.) — Sou terna e já me inflama
Aquela viva flama.
Que abrasa o coração:
Pressinto que a andorinha
Não fica mais sozinha.
E vai fazer verão...
Cincinato (Canta.) — Por mim estou em brasas...
Se queres, bate as asas,
Me deixa ser ladrão;
Vamos tecer um ninho,
Voa, meu passarinho,
Vamos fazer verão.
(...)
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo: Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1982. v.3, p.96-97. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
Dionísia (Cantando dentro: lundu) — Bonita e marotinha.
Eu sou como andorinha
Que, só, não faz verão.
Voando a sós no espaço,
Cair quero no laço
Que prende o coração.
Cincinato (Canta) — Caído e enrabixado
Sou peixe, teu pescado,
Com o anzol no coração.
Não fiques mais sozinha,
Vem cá, minha andorinha.
Vamos fazer verão.
Dionísia (Rindo-se dentro) — Ah! ah! ah! ah! (Canta.)
O amor de uma andorinha
Na sombra se amesquinha,
Quer lúcido esplendor.
Voando a sós no espaço,
Só cairei em laço
De enleio encantador.
Cincinato (Canta.) — Meu laço é um tesouro,
Jóias, brilhante, ouro,
Súcia, teatro, ceia
Sedas, e até veludo,
Coques, anquinhas, tudo,
E a bolsa sempre cheia.
Dionísia (Canta dentro.) — Sou terna e já me inflama
Aquela viva flama.
Que abrasa o coração:
Pressinto que a andorinha
Não fica mais sozinha.
E vai fazer verão...
Cincinato (Canta.) — Por mim estou em brasas...
Se queres, bate as asas,
Me deixa ser ladrão;
Vamos tecer um ninho,
Voa, meu passarinho,
Vamos fazer verão.
(...)
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo: Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1982. v.3, p.96-97. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
2 297
Daniel Faria
Procuro o trânsito
Procuro o trânsito de um homem que repousa em ti
Como se desvia um homem do seu coração para seguir viagem
Como deixa ficar tudo e acrescenta à sua herança
Procuro conhecer os símbolos, os marcos miliares
Diurnos, como se lêem
Sinais de fumo e o ângulo dos pombos – e todas as coisas
Que nos chegam da distância
Procuro saber como se fecham os pés dentro dos teus
Percursos
Como se põe descalço um homem que necessita
De atravessar-se
E desejo outra vez desdobrada a tua palavra cheia
De estrelas
Para que as recorte, para que as ponha no silêncio
Vivas
Na minha boca e nas minhas mãos
Em chamas
Como se desvia um homem do seu coração para seguir viagem
Como deixa ficar tudo e acrescenta à sua herança
Procuro conhecer os símbolos, os marcos miliares
Diurnos, como se lêem
Sinais de fumo e o ângulo dos pombos – e todas as coisas
Que nos chegam da distância
Procuro saber como se fecham os pés dentro dos teus
Percursos
Como se põe descalço um homem que necessita
De atravessar-se
E desejo outra vez desdobrada a tua palavra cheia
De estrelas
Para que as recorte, para que as ponha no silêncio
Vivas
Na minha boca e nas minhas mãos
Em chamas
1 228
Flávio Sátiro Fernandes
Geografia do corpo
Seu corpo tinha culminâncias imprevistas.
Dois montes de areia movediça
mas que sustinham no cume
minúsculas ocorrências rochosas.
Ao pé dos montes situava-se a depressão,
com pequeno lago ao meio,
de formação plistocênica.
Além, entre paredes em erosão,
jorrava a fonte, ora límpida ora turva,
a correr, em seguida, por entre sombria floresta.
Do outro lado da floresta
alteava-se íngreme desfiladeiro
e, após, estendia-se a costa
Da costa, por leste ou por oeste,
era fácil chegar de novo
aos montes de areia movediça
mas que sustinham no cume
minúsculas ocorrências rochosas.
Seu corpo tinha culminâncias imprevistas.
Dois montes de areia movediça
mas que sustinham no cume
minúsculas ocorrências rochosas.
Ao pé dos montes situava-se a depressão,
com pequeno lago ao meio,
de formação plistocênica.
Além, entre paredes em erosão,
jorrava a fonte, ora límpida ora turva,
a correr, em seguida, por entre sombria floresta.
Do outro lado da floresta
alteava-se íngreme desfiladeiro
e, após, estendia-se a costa
Da costa, por leste ou por oeste,
era fácil chegar de novo
aos montes de areia movediça
mas que sustinham no cume
minúsculas ocorrências rochosas.
Seu corpo tinha culminâncias imprevistas.
1 126
Fausto Costa
Poluição Noturna
Ela corre sóbria
no meu corpo ébrio,
Enquanto cambaleio excitado
no seu ventre molhado. Sonho.
Calmo momento, desse amor a mil
silhueta estampada na cortina.
Essa menina, furacão e mulher,
ondula as águas serenas do meu fogo.
O inesgotável prazer não nos
assusta e sim completa-nos.
Tudo lindo nesse instante,
Onde os amantes se procuram.
Quando os beijos se completam,
Nossas mãos se entrelaçam,
nossas línguas se enroscam.
No ápice do amor,
Eu acordo para a realidade de nossa
distância.
no meu corpo ébrio,
Enquanto cambaleio excitado
no seu ventre molhado. Sonho.
Calmo momento, desse amor a mil
silhueta estampada na cortina.
Essa menina, furacão e mulher,
ondula as águas serenas do meu fogo.
O inesgotável prazer não nos
assusta e sim completa-nos.
Tudo lindo nesse instante,
Onde os amantes se procuram.
Quando os beijos se completam,
Nossas mãos se entrelaçam,
nossas línguas se enroscam.
No ápice do amor,
Eu acordo para a realidade de nossa
distância.
408
Xavier Villaurrutia
Desejo
Amar você com fogo duro e frio.
Amar você sem palavras, sem pausas, silêncios.
Amar você tão-só quando você quiser
e tão-só com a presença muda dos meus atos.
Amar você na ponta da língua e enquanto a mentira
em você não se diferencia da ternura.
Amar você quando finge toda a indiferença
que seu abandono nega, que funde seu calor.
Amar você cada vez que tua pele e boca
procurem minha pele dormindo, minha boca desperta.
Amar você pela solidão, se você me abandona nela.
Amar você pela cólera que acende em meu coração.
E mais que pela alegria e o delírio,
amar você pela angústia e a dúvida.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Deseo
Xavier Villaurrutia
Amarte con un fuego duro y frío.
Amarte sin palabras, sin pausas ni silencios.
Amarte sólo cada vez que quieras,
y sólo con la muda presencia de mis actos.
Amarte a flor de boca y mientras la mentira
no se distinga en ti de la ternura.
Amarte cuando finges toda la indiferencia
que tu abandono niega, que funde tu calor.
Amarte cada vez que tu piel y tu boca
busquen mi piel dormida y mi boca despierta.
Amarte por la soledad, si en ella me dejas.
Amarte por la ira en que mi razón enciendes.
Y, más que por el goce y el delirio,
amarte por la angustia y por la duda.
937
Caio Valério Catulo
Tuas delícias, Flávio, ao teu Catulo
Tuas delícias, Flávio, ao teu Catulo
(exceto as toscas e as deselegantes)
tu querias contar – calar por quê?
Mas sei que amas uma puta infecta
que, tão pudico, teimas em esconder.
Não sei por que o quieto quarto grita
“Flávio não passa as noites num velório”,
ardendo em flores e óleos do oriente:
um travesseiro aqui, ali e além
um som de atrito, e eis um leito trêmulo,
a ranger, que passeia pelo quarto.
Não adianta negar, fazer silêncio;
por quê? – pois não reclamarias tanto
de dor nas costas, se não fornicasses.
Diz-me o que tens de bom, e o que não presta:
que eu quero a ti, e a teus amores todos,
levar ao céu na graça do meu verso.
Flavi, delicias tuas Catullo,
ni sint illepidae atque inelegantes,
velles dicere nec tacere posses.
Verum nescio quid febriculosi
scorti diligis: hoc pudet fateri.
Nam te non viduas iacere noctes
nequiquam tacitum cubile clamat
sertis ac Syrio fragrans olivo,
pulvinusque peraeque et hic et ille
attritus, tremulique quassa lecti
argutatio inambulatioque.
Nam ibi stat. Pudet nihil tacere.
Cur? Non tam latera ecfututa pandas,
ni tu quid facias ineptiarum.
Quare, quidquid habes boni malique,
dic nobis. Volo te ac tuos amores
ad caelum lepido vocare versu.
1 036
Fernando Cereja
Cheiros de Flores
os cheiros de flores
confundem meu nariz
e boca
queria comer a
primavera
mastigar flor por flor
e ver se o verão
nasceria em mim.
confundem meu nariz
e boca
queria comer a
primavera
mastigar flor por flor
e ver se o verão
nasceria em mim.
923
Fernando Pessoa
Castanhetas, castanholas —
Castanhetas, castanholas —
Tudo é barulho a estalar.
As que ao negar são mais tolas
São mais espertas ao dar.
Tudo é barulho a estalar.
As que ao negar são mais tolas
São mais espertas ao dar.
1 391
Fernando Pessoa
O manjerico e a bandeira
O manjerico e a bandeira
Que há no cravo de papel —
Tudo isso enche a noite inteira,
Ó boca de sangue e mel.
Que há no cravo de papel —
Tudo isso enche a noite inteira,
Ó boca de sangue e mel.
1 524
Fernando José dos Santos Oliveira
Pensa
Pensa
Pensa
Que sua Presença -
Intensa, Imensa -
Não me é Recompensa
De sua InsensaTEZ ?!
Pensa
Que seu corpo ainda
É virgem de mim
Só porque não o toquei ?!
Atirei-a, vezes muitas,
Ao sofá, ou à cama, ou ao chão.
Rasguei sua roupa,
Com fúria adolescida.
E a amei,
Com calma maturada.
Com a língua escrevi poemas
Em seu corpo-papel-em-branco.
Persegui fugidias gotas de suor
E as sorvi, no alcançá-las,
Para repor a umidade perdida
Na aspereza repentina de sua pele arrepiada,
Na relva macia de seus pêlos sobreviventes.
Quando não, soprava-as - esfriando-as.
Percorri todos os seus caminhos:
Queria sentir-lhes a textura, o cheiro, o gosto;
Usei as mãos (quase flutuando),
A ponta do nariz (quase raspando),
A boca (quase beijando).
Segurei-a para que não me tocasse:
meu prazer vinha do dar.
Formei pequenos seios com sua pele entre meus dentes,
- E a devolvia, levemente marcada;
Aspirei-a, aos pedaços, para dentro de minha boca,
- E os devolvia, levemente avermelhados.
Vi o cerrar de seus olhos,
A procura frenética de sua língua:
Chicoteando o ar, umedecendo os lábios.
Egoísta, não deixei que (só) ELE a invadisse:
Escorri-me, todo, para dentro, vestindo-o.
Ergui-me, meio corpo, nos braços
E levantei a cabeça, estiquei o pescoço,
Para escorrer mais.
Consegui: nos tornamos um só
Nesta viagem úmida, quente, confortável
De idas e vindas.
Não a larguei
Até ouvir o meu prazer de sua boca:
Num grito, num choro, num gemido -
Vindos de um calor,
Um tremor,
Um explodir contraído,
Um suspirar profundo, ofegante - quase arfar.
Vindo de uma vontade de nada mais ser.
Talvez, até, de morrer,
Eis que nada mais importa
(nem mesmo se alguém lembrou de fechar a porta).
Acordei. Foi um sonho. Acordei?! Foi um sonho?!
Pensa
Que sua Presença -
Intensa, Imensa -
Não me é Recompensa
De sua InsensaTEZ ?!
Pensa
Que seu corpo ainda
É virgem de mim
Só porque não o toquei ?!
Atirei-a, vezes muitas,
Ao sofá, ou à cama, ou ao chão.
Rasguei sua roupa,
Com fúria adolescida.
E a amei,
Com calma maturada.
Com a língua escrevi poemas
Em seu corpo-papel-em-branco.
Persegui fugidias gotas de suor
E as sorvi, no alcançá-las,
Para repor a umidade perdida
Na aspereza repentina de sua pele arrepiada,
Na relva macia de seus pêlos sobreviventes.
Quando não, soprava-as - esfriando-as.
Percorri todos os seus caminhos:
Queria sentir-lhes a textura, o cheiro, o gosto;
Usei as mãos (quase flutuando),
A ponta do nariz (quase raspando),
A boca (quase beijando).
Segurei-a para que não me tocasse:
meu prazer vinha do dar.
Formei pequenos seios com sua pele entre meus dentes,
- E a devolvia, levemente marcada;
Aspirei-a, aos pedaços, para dentro de minha boca,
- E os devolvia, levemente avermelhados.
Vi o cerrar de seus olhos,
A procura frenética de sua língua:
Chicoteando o ar, umedecendo os lábios.
Egoísta, não deixei que (só) ELE a invadisse:
Escorri-me, todo, para dentro, vestindo-o.
Ergui-me, meio corpo, nos braços
E levantei a cabeça, estiquei o pescoço,
Para escorrer mais.
Consegui: nos tornamos um só
Nesta viagem úmida, quente, confortável
De idas e vindas.
Não a larguei
Até ouvir o meu prazer de sua boca:
Num grito, num choro, num gemido -
Vindos de um calor,
Um tremor,
Um explodir contraído,
Um suspirar profundo, ofegante - quase arfar.
Vindo de uma vontade de nada mais ser.
Talvez, até, de morrer,
Eis que nada mais importa
(nem mesmo se alguém lembrou de fechar a porta).
Acordei. Foi um sonho. Acordei?! Foi um sonho?!
964
Fernando Pessoa
Lenço preto de orla branca —
Lenço preto de orla branca —
Ataste-o mal a valer
À roda desse pescoço
Que tem que se lhe dizer.
Ataste-o mal a valer
À roda desse pescoço
Que tem que se lhe dizer.
1 021
Filinto de Almeida
Misteriosa
— Quem será, de onde veio, esta perturbadora,
Esta esquisita, ignota e sensual criatura
Com gestos graves de senhora
E trajes de mulher impura?
— De onde veio e quem seja, em vão isso indagara,
No teatro ou na rua a cidade curiosa...
Suponde-a uma figura rara,
Singular e maravilhosa.
De tão esbelta que é, vós a diríeis magra,
E é refeita, — e vivaz como uma esquiva lebre.
E arde esse corpo de Tanagra
Em estos de contínua febre.
Realçando o fulgor dos encantos estranhos,
À flor da tez morena, aveludada e fina,
Parecem seus olhos castanhos
Duas tâmaras da Palestina.
Boca talhada para o amavio e as carícias,
Melífica e aromal, é como uma abelheira
Formada das flores puníceas
Do hibíscus ou da romãzeira.
Massa de seda, em fios crespos, com grande arte
Disposta, o seu cabelo — à luz que incida de alto,
Breada em reflexos se biparte
De verde-oliva e azul-cobalto.
Seu corpo tem um olor antes nunca sentido,
Suave e capitoso e só dele, tal como
Se desde o berço fora ungido
De sândalo e de cardamomo.
De onde veio não sei... de procedência vária,
Nos diz... antes não diz; a gente é que imagina.
Veio do Egito ou da Bulgária,
Do Cáucaso, ou da Herzegovina...
Andou no Oriente, creio, e esteve em Singapura.
E a língua ? Quando diz de amor, bem está: distingo-a.
Enfim, é uma criatura
De meia-raça e meia-língua.
É o mistério. É a ilusão do amor, que se nos serve
Em ânforas de leite e em acúleos de cardos,
Amor que se agasalha e ferve
Envolto em peles de ursos pardos.
Nada mais sei. Será uma fada? algum gênio?
Meu espírito conclui, de cada vez que a sonda,
Que ela é um amálgama homogêneo
Da Salammbô e da Gioconda.
Contou-me isto, outro dia, um amigo, que fôra
íntimo, suponho eu, em dias não distantes,
Da esquisita e linda senhora
De trajes abracadabrantes.
Esta esquisita, ignota e sensual criatura
Com gestos graves de senhora
E trajes de mulher impura?
— De onde veio e quem seja, em vão isso indagara,
No teatro ou na rua a cidade curiosa...
Suponde-a uma figura rara,
Singular e maravilhosa.
De tão esbelta que é, vós a diríeis magra,
E é refeita, — e vivaz como uma esquiva lebre.
E arde esse corpo de Tanagra
Em estos de contínua febre.
Realçando o fulgor dos encantos estranhos,
À flor da tez morena, aveludada e fina,
Parecem seus olhos castanhos
Duas tâmaras da Palestina.
Boca talhada para o amavio e as carícias,
Melífica e aromal, é como uma abelheira
Formada das flores puníceas
Do hibíscus ou da romãzeira.
Massa de seda, em fios crespos, com grande arte
Disposta, o seu cabelo — à luz que incida de alto,
Breada em reflexos se biparte
De verde-oliva e azul-cobalto.
Seu corpo tem um olor antes nunca sentido,
Suave e capitoso e só dele, tal como
Se desde o berço fora ungido
De sândalo e de cardamomo.
De onde veio não sei... de procedência vária,
Nos diz... antes não diz; a gente é que imagina.
Veio do Egito ou da Bulgária,
Do Cáucaso, ou da Herzegovina...
Andou no Oriente, creio, e esteve em Singapura.
E a língua ? Quando diz de amor, bem está: distingo-a.
Enfim, é uma criatura
De meia-raça e meia-língua.
É o mistério. É a ilusão do amor, que se nos serve
Em ânforas de leite e em acúleos de cardos,
Amor que se agasalha e ferve
Envolto em peles de ursos pardos.
Nada mais sei. Será uma fada? algum gênio?
Meu espírito conclui, de cada vez que a sonda,
Que ela é um amálgama homogêneo
Da Salammbô e da Gioconda.
Contou-me isto, outro dia, um amigo, que fôra
íntimo, suponho eu, em dias não distantes,
Da esquisita e linda senhora
De trajes abracadabrantes.
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Herberto Helder
As Palavras 3
Deslocações de ar, de palavras, partes do corpo, deslocações de sentido nas partes do corpo.
As ribeiras tremem na base das montanhas — geladas, de costas, as montanhas tremem sobre as águas deslocadas de repente.
Os animais apoiam-se no seu próprio sangue.
As flores apoiam-se na sua própria cor.
As idades apoiam-se na sua própria memória.
E o sono desloca-se da terra para o coração.
Vive-se com o coração a tremer como uma montanha sobre ribeiras de luz — e depois a treva desloca-se da idade para o coração como um lugar inteiro.
E um dia os animais passam junto aos lençóis estendidos, e a sua passagem queima a brancura exposta a todas as deslocações.
Então candeias e papoulas deslocam-se sobre imagens cheias de patas — e fechamos os olhos para a terrível dor da carne, respiramos mal, trememos apoiados no nosso próprio terror.
Deslocações de dedos em volta de umas ancas ferozes, mão atentamente aberta sobre uma vagina viva como uma boca nas virilhas, a flor do ânus, a flor do ânus — e depois a luz desloca-se de toda a parte para toda a parte.
O dia apoia-se no seu próprio movimento.
O peixe apoia-se na sua própria submersão.
O amor apoia-se no seu próprio êxtase.
E as vozes apoiam-se no seu próprio som.
Apenas as flores se apoiam no perfume veloz.
Apenas os corpos se apoiam nas flores que eles próprios são — atados como ramos de um cego e amargo e monstruoso e veloz perfume, como um perfume de corpos.
As ribeiras de luz respiram a prumo.
As ribeiras de treva respiram a prumo.
Vive-se a tremer com o pavor e a glória.
Vive-se de uma ponta à outra o extremo amor, o amor, e a solidão como um lugar inteiro.
Alguém respira onde é vivo — uma boca, um ânus, uma vagina viva.
Alguém ferve pela luz adiante até entrar nas trevas e ficar respirando nas trevas.
Um perfume de esperma.
Um perfume de salsa.
Um perfume de enxofre que estonteia.
Alguém se transforma numa coisa inominável.
As ribeiras tremem na base das montanhas — geladas, de costas, as montanhas tremem sobre as águas deslocadas de repente.
Os animais apoiam-se no seu próprio sangue.
As flores apoiam-se na sua própria cor.
As idades apoiam-se na sua própria memória.
E o sono desloca-se da terra para o coração.
Vive-se com o coração a tremer como uma montanha sobre ribeiras de luz — e depois a treva desloca-se da idade para o coração como um lugar inteiro.
E um dia os animais passam junto aos lençóis estendidos, e a sua passagem queima a brancura exposta a todas as deslocações.
Então candeias e papoulas deslocam-se sobre imagens cheias de patas — e fechamos os olhos para a terrível dor da carne, respiramos mal, trememos apoiados no nosso próprio terror.
Deslocações de dedos em volta de umas ancas ferozes, mão atentamente aberta sobre uma vagina viva como uma boca nas virilhas, a flor do ânus, a flor do ânus — e depois a luz desloca-se de toda a parte para toda a parte.
O dia apoia-se no seu próprio movimento.
O peixe apoia-se na sua própria submersão.
O amor apoia-se no seu próprio êxtase.
E as vozes apoiam-se no seu próprio som.
Apenas as flores se apoiam no perfume veloz.
Apenas os corpos se apoiam nas flores que eles próprios são — atados como ramos de um cego e amargo e monstruoso e veloz perfume, como um perfume de corpos.
As ribeiras de luz respiram a prumo.
As ribeiras de treva respiram a prumo.
Vive-se a tremer com o pavor e a glória.
Vive-se de uma ponta à outra o extremo amor, o amor, e a solidão como um lugar inteiro.
Alguém respira onde é vivo — uma boca, um ânus, uma vagina viva.
Alguém ferve pela luz adiante até entrar nas trevas e ficar respirando nas trevas.
Um perfume de esperma.
Um perfume de salsa.
Um perfume de enxofre que estonteia.
Alguém se transforma numa coisa inominável.
1 040
Salette Tavares
Espelho Cego
Eu leio o meu destino nos jornais.
Eu vejo os Signos do Domingo nos chifres do Carneiro
e creio
no regaço em que me leva algum planeta
a jogar no firmamento.
Osíres, ou sol da noite, ou estrela da terra
a vida é essa
que se esculpe na alma do poeta,
em ronde bosse,
em corpo inteiro...
e as mãos cegas
são só para saber mais devagar.
Minha cintura dorida
adeus supremo sem beijo
enche-me o peito de fome
geme silêncio o desejo.
Espreme-me frutas os braços
bebem-se vinho de março
grandes belos cabelos
com o vento no regaço
Alvorecer de um segredo
boca que a fruta pede
mar de ouro generoso
onde o meu barco se perde.
Eu vejo os Signos do Domingo nos chifres do Carneiro
e creio
no regaço em que me leva algum planeta
a jogar no firmamento.
Osíres, ou sol da noite, ou estrela da terra
a vida é essa
que se esculpe na alma do poeta,
em ronde bosse,
em corpo inteiro...
e as mãos cegas
são só para saber mais devagar.
Minha cintura dorida
adeus supremo sem beijo
enche-me o peito de fome
geme silêncio o desejo.
Espreme-me frutas os braços
bebem-se vinho de março
grandes belos cabelos
com o vento no regaço
Alvorecer de um segredo
boca que a fruta pede
mar de ouro generoso
onde o meu barco se perde.
1 820
Herberto Helder
Todos Os Dedos da Mão 1
As cabeças de mármore: um raio
as fenda, E fiquem
queimadas de dentro até à boca,
Ou uma faca lhes corte
as carótidas:
que as deslumbre
o sangue deslumbrante — A garganta: se a faca
as encharca, Anéis de mármore
rude o pêlo
a auréola,
Tudo alagado desde os recessos,
Brilhando tudo,
Que a ferida elementar assome
como ao espelho: como à maneira de
cicatriz de imagem,
A força das janelas, O odor do leite
opulento
na lembrança,
E a úlcera da boca no centro da máquina
circulatória: os braços — tudo
crispado como um sistema de astros,
A estátua é um pulmão dos pés à cara,
Devora
o ar levantado, A beleza é operatória,
Uma coroa da carne da cabeça como
se a juba lhe ardesse, De mármore,
Brecha anatómica para o soluço dessa
massa salgada — o medo: o temerário movimento
da dança:
a riqueza: o sono:
as voragens,
Estás cheio de esperma,
Transpiras na raiz da cabeleira,
A língua treme dentro de ti que és
uma fala,
Respiradouro assombrado,
A mulher a cada dedo que apontavas:
a cada poro dela:
a cada choque lunar na levedura: ao teu
bafo: a leveza que
te
contemplava: o fôlego
dela:
estremecendo fincada no chão como uma estaca
de fruta, Tu és o raio dela: a rapidez: ela
é o teu sopro,
Estala,
O suspiro da lenha suada gota a gota,
Que lhe apura o corpo e o aprova,
Que o apavora,
Potência múltipla desordenando os nomes: mantendo
o mundo
pela desordem
as fenda, E fiquem
queimadas de dentro até à boca,
Ou uma faca lhes corte
as carótidas:
que as deslumbre
o sangue deslumbrante — A garganta: se a faca
as encharca, Anéis de mármore
rude o pêlo
a auréola,
Tudo alagado desde os recessos,
Brilhando tudo,
Que a ferida elementar assome
como ao espelho: como à maneira de
cicatriz de imagem,
A força das janelas, O odor do leite
opulento
na lembrança,
E a úlcera da boca no centro da máquina
circulatória: os braços — tudo
crispado como um sistema de astros,
A estátua é um pulmão dos pés à cara,
Devora
o ar levantado, A beleza é operatória,
Uma coroa da carne da cabeça como
se a juba lhe ardesse, De mármore,
Brecha anatómica para o soluço dessa
massa salgada — o medo: o temerário movimento
da dança:
a riqueza: o sono:
as voragens,
Estás cheio de esperma,
Transpiras na raiz da cabeleira,
A língua treme dentro de ti que és
uma fala,
Respiradouro assombrado,
A mulher a cada dedo que apontavas:
a cada poro dela:
a cada choque lunar na levedura: ao teu
bafo: a leveza que
te
contemplava: o fôlego
dela:
estremecendo fincada no chão como uma estaca
de fruta, Tu és o raio dela: a rapidez: ela
é o teu sopro,
Estala,
O suspiro da lenha suada gota a gota,
Que lhe apura o corpo e o aprova,
Que o apavora,
Potência múltipla desordenando os nomes: mantendo
o mundo
pela desordem
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