Poemas neste tema
Desejo
António Ramos Rosa
Refaz a Pequena Chama da Montanha
Refaz a pequena chama da montanha
refaz a ardente fuga dos flancos
chama os joelhos e as nádegas sob as ondas
Chama e refaz o rosto sob as máscaras
na nudez sem perdão no perdão da nudez
reclama outro nome outra música outras pedras
Deita-te sobre os seios e o sexo da terra
refaz a ardente fuga dos flancos
chama os joelhos e as nádegas sob as ondas
Chama e refaz o rosto sob as máscaras
na nudez sem perdão no perdão da nudez
reclama outro nome outra música outras pedras
Deita-te sobre os seios e o sexo da terra
1 260
Amélia Rodrigues
Lembranças
Queria morrer
Em seus braços
Com o seu suor escorrendo
Pelo meu corpo...
Queria morrer
Ao seu lado
Com a sua vida animando
Os meus últimos suspiros...
Queria morrer
Amando
Pois assim não viveria
À espera da sua volta,
Sonhando com com o seu amor!
Queria morrer
Com a lembrança
Para não buscá-lo jamais!
Queria morrer
Enrodilhada
Em suas pernas,
Em seus braços,
E então não sofreria mais
Essa falta
Que você me faz.
Queria morrer
Feliz
E abandonar essa vida vazia...
Queria morrer
Assim
Já que não posso viver
Com você!
Em seus braços
Com o seu suor escorrendo
Pelo meu corpo...
Queria morrer
Ao seu lado
Com a sua vida animando
Os meus últimos suspiros...
Queria morrer
Amando
Pois assim não viveria
À espera da sua volta,
Sonhando com com o seu amor!
Queria morrer
Com a lembrança
Para não buscá-lo jamais!
Queria morrer
Enrodilhada
Em suas pernas,
Em seus braços,
E então não sofreria mais
Essa falta
Que você me faz.
Queria morrer
Feliz
E abandonar essa vida vazia...
Queria morrer
Assim
Já que não posso viver
Com você!
1 818
António Ramos Rosa
Com Um Odor Brilhante Como Diz
Com um odor brilhante como diz
Monique Rosenberg
com as suas pernas pálidas e sombrias
ela é a fêmea frágil no meu dia
Com o seu fogo suave sob as pernas
com um cheiro a incêndio sob a sombra
ela é a mulher que eu nunca vi de dia
ela dilacera-me a esperança da bondade
Com o seu rosto que eu vi e que não vejo
na esperança perpétua do desejo
escrevo aqui a negação do meu desejo
Monique Rosenberg
com as suas pernas pálidas e sombrias
ela é a fêmea frágil no meu dia
Com o seu fogo suave sob as pernas
com um cheiro a incêndio sob a sombra
ela é a mulher que eu nunca vi de dia
ela dilacera-me a esperança da bondade
Com o seu rosto que eu vi e que não vejo
na esperança perpétua do desejo
escrevo aqui a negação do meu desejo
1 065
Augusto Massi
Bicicleta
Que surpresa a manhã me reserva,
a alegre scienza de tuas pernas.
És uma imagem tão concreta:
mulher passando de bicicleta.
Circulas feito jornal silencioso,
vens de um mundo novo.
Nervo exposto do movimento,
tempestade amorosa do tempo.
Texturas de ritmo e luz,
sensualidade, trobar clus.
Passas por mim e penso:
É por mim que ela passa.
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
a alegre scienza de tuas pernas.
És uma imagem tão concreta:
mulher passando de bicicleta.
Circulas feito jornal silencioso,
vens de um mundo novo.
Nervo exposto do movimento,
tempestade amorosa do tempo.
Texturas de ritmo e luz,
sensualidade, trobar clus.
Passas por mim e penso:
É por mim que ela passa.
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 180
António Ramos Rosa
Que Diz a Palavra Quando a Plena Rectitude
Que diz a palavra quando a plena rectitude
erige o desejo de a plantar inteira?
Que diz a consciência do ar no corpo
ao ar que trespassa este e aquele e o mesmo corpo?
…………………………………………………..
Eu desejo a palavra do corpo uma única vez
de cada vez que escrevo o sempre bem amado
membro eterno do desejo que fundo cava a cova
cava o sexo nocturno donde a luz do corpo nasce
Quem não ama esse membro doloroso e profundo
quem não chora na muralha do ventre o membro erecto
que mulher não o abraça e beija no cimo ardente
que homem não o quer que pedra viva e rubra
que seja mais dura e vulnerável viva
que vulva não o aspira na bondade mais fecunda?
erige o desejo de a plantar inteira?
Que diz a consciência do ar no corpo
ao ar que trespassa este e aquele e o mesmo corpo?
…………………………………………………..
Eu desejo a palavra do corpo uma única vez
de cada vez que escrevo o sempre bem amado
membro eterno do desejo que fundo cava a cova
cava o sexo nocturno donde a luz do corpo nasce
Quem não ama esse membro doloroso e profundo
quem não chora na muralha do ventre o membro erecto
que mulher não o abraça e beija no cimo ardente
que homem não o quer que pedra viva e rubra
que seja mais dura e vulnerável viva
que vulva não o aspira na bondade mais fecunda?
1 007
Washington Queiroz
Andante
Ai que vontade de amar, de amar, de amar
como uma bola de sabão
que morre colorida
num dia totalmente azul!
como uma bola de sabão
que morre colorida
num dia totalmente azul!
759
Lucília Cândida Sobrinho
Tempo de Ilusões
As nuvens passam
Como passam as desilusões.
Na vida há marcas do tempo
E o tempo acelera seu passo,
Levando consigo as doces ilusões —
Quimeras navegam
No mar revolto
Do meu ardente desejo.
Vejo quimeras e nuvens
Envolvendo a lembrança
Da volúpia do teu beijo.
Como passam as desilusões.
Na vida há marcas do tempo
E o tempo acelera seu passo,
Levando consigo as doces ilusões —
Quimeras navegam
No mar revolto
Do meu ardente desejo.
Vejo quimeras e nuvens
Envolvendo a lembrança
Da volúpia do teu beijo.
875
António Ramos Rosa
Não Digo Rosa Mas Pedra E Digo Sombra
Não digo rosa mas pedra e digo sombra
por um ritmo que não sei e acendo aquela cor
que vi brilhar no muro de outono e de ferrugem
Não digo nem a sombra digo a pedra do ritmo
e quando for de água a pedra para os teus pés
não direi as flores do desejo mas a nuca
inclinada e branca sobre um lago sem lua
e toda uma colina de ar em teu redor
como uma grande e suave força do dia
como uma pulsação do campo e do olhar
luz do lugar sombra clara clareira nave
por um ritmo que não sei e acendo aquela cor
que vi brilhar no muro de outono e de ferrugem
Não digo nem a sombra digo a pedra do ritmo
e quando for de água a pedra para os teus pés
não direi as flores do desejo mas a nuca
inclinada e branca sobre um lago sem lua
e toda uma colina de ar em teu redor
como uma grande e suave força do dia
como uma pulsação do campo e do olhar
luz do lugar sombra clara clareira nave
1 009
António Ramos Rosa
Nada Para Dizer Nem Como Dizer Nada
Nada para dizer nem como dizer nada
um plano de sombra a força opaca
demasiado depressa o fluxo de umas coxas
negras e invioláveis de lábios silenciosos
Uma boca tombada junto à sombra do muro
uma força subterrânea verde sem violência
e o desejo do corpo o lancinante lago
lábios e lâminas nomes perdidos vagos
Porque não o ardente azul e a água do cimo
para a figura oculta e branca e derradeira
porque não o abraço nas raízes do nu
a boca reencontrada na festa da folhagem?
um plano de sombra a força opaca
demasiado depressa o fluxo de umas coxas
negras e invioláveis de lábios silenciosos
Uma boca tombada junto à sombra do muro
uma força subterrânea verde sem violência
e o desejo do corpo o lancinante lago
lábios e lâminas nomes perdidos vagos
Porque não o ardente azul e a água do cimo
para a figura oculta e branca e derradeira
porque não o abraço nas raízes do nu
a boca reencontrada na festa da folhagem?
1 050
António Ramos Rosa
Fina Nobreza de Ombros Que Persigo
Fina nobreza de ombros que persigo
animal esplendor loucura
cabem num arco de solidão suave
de ternura
E os pulsos de que ardor e perfeição
de que ânsia de delícia exacta
que número absoluto e doloroso e puro
que dourada pulsação no escuro!
animal esplendor loucura
cabem num arco de solidão suave
de ternura
E os pulsos de que ardor e perfeição
de que ânsia de delícia exacta
que número absoluto e doloroso e puro
que dourada pulsação no escuro!
848
António Ramos Rosa
A Caminho Na Ausência
à Ângela Maria
É talvez uma pedra ou talvez uma folha
uma pedra sem sombra uma folha sem sangue
Talvez o primeiro nome o primeiro grito
seja esta pedra ou esta folha ou este nome
Este é o único lado da sombra
mas qual é a ferida
de que lado é a boca
a sombra oculta um rosto
o muro terá uma boca?
onde é que a ferida fala?
A mão conhece a pedra
o lugar do silêncio
mas o frio desta pedra
a sombra desta folha
não desoculta o nome
e apenas no branco
um ombro se desenha
o ombro do muro e não do corpo
A sede desta boca sobre a página
não inicia o nome que a mão tacteia em vão
Onde é que a folha ou a boca sabe a sangue
onde está o sangue desta sombra?
A porta aonde bate a mão não soa
são pedras e folhas nomes sem o nome
abraço os braços mas são braços de terra
e a terra é uma palavra no papel
Digo árvore árvore como um grito
ou chamo as folhas o vento a terra o fogo
Onde é que o pulso vibra com a tensão do nome?
Onde é que pedra a pedra se diz o nome e a ferida?
O grito desenha um rasto na sombra das palavras
O corpo encontrará sobre os ossos das letras
a graça dos músculos a música da água?
O que resta é a ferida silenciosa
a pedra silenciosa
resíduos filamentos ervas palavras sombras
entre as folhas
uma lâmpada escura
entre as mãos
esta folha
esta folha
silenciosa
O quarto está vazio e o eco só responde
a palavras indistintas
Interrogo a página
a porta branca do vazio
Até a sede morreu junto ao poço de escombros
A mão desenha o gesto vão de afugentar
a própria mão
O pulso ainda palpita
e a boca ainda deseja
Mas a mão não desiste de tocar pedras sombras
as raízes duras das palavras escuras
as pálpebras vazias
e o vazio entre as letras
e nunca a serenidade do nome
Onde é o outro lado da sombra?
A mão busca entre as folhas a lâmpada clara
Há um caminho que conduz ao horizonte
à casa
onde as palavras repousam
e a ferida fala o seu nome obscuro
A ausência renasce sob cada palavra
Um paciente furor apossa-se do corpo
Um paciente furor rasga a folha violenta
arranca a primeira pedra
o primeiro passo
sobre a água
de uma boca outra boca outro corpo
O caminho não cessa entre esta mão
e a folha
A mão há-de encontrar a mão
novas palavras nascerão
sobre outros lábios noutro muro noutro caminho
E talvez o caminho seja o princípio sempre
Sempre a ausência e o desejo ardente
Sempre o grito a renascer da ferida silenciosa
Sempre o silêncio e o seu nome incessante
É talvez uma pedra ou talvez uma folha
uma pedra sem sombra uma folha sem sangue
Talvez o primeiro nome o primeiro grito
seja esta pedra ou esta folha ou este nome
Este é o único lado da sombra
mas qual é a ferida
de que lado é a boca
a sombra oculta um rosto
o muro terá uma boca?
onde é que a ferida fala?
A mão conhece a pedra
o lugar do silêncio
mas o frio desta pedra
a sombra desta folha
não desoculta o nome
e apenas no branco
um ombro se desenha
o ombro do muro e não do corpo
A sede desta boca sobre a página
não inicia o nome que a mão tacteia em vão
Onde é que a folha ou a boca sabe a sangue
onde está o sangue desta sombra?
A porta aonde bate a mão não soa
são pedras e folhas nomes sem o nome
abraço os braços mas são braços de terra
e a terra é uma palavra no papel
Digo árvore árvore como um grito
ou chamo as folhas o vento a terra o fogo
Onde é que o pulso vibra com a tensão do nome?
Onde é que pedra a pedra se diz o nome e a ferida?
O grito desenha um rasto na sombra das palavras
O corpo encontrará sobre os ossos das letras
a graça dos músculos a música da água?
O que resta é a ferida silenciosa
a pedra silenciosa
resíduos filamentos ervas palavras sombras
entre as folhas
uma lâmpada escura
entre as mãos
esta folha
esta folha
silenciosa
O quarto está vazio e o eco só responde
a palavras indistintas
Interrogo a página
a porta branca do vazio
Até a sede morreu junto ao poço de escombros
A mão desenha o gesto vão de afugentar
a própria mão
O pulso ainda palpita
e a boca ainda deseja
Mas a mão não desiste de tocar pedras sombras
as raízes duras das palavras escuras
as pálpebras vazias
e o vazio entre as letras
e nunca a serenidade do nome
Onde é o outro lado da sombra?
A mão busca entre as folhas a lâmpada clara
Há um caminho que conduz ao horizonte
à casa
onde as palavras repousam
e a ferida fala o seu nome obscuro
A ausência renasce sob cada palavra
Um paciente furor apossa-se do corpo
Um paciente furor rasga a folha violenta
arranca a primeira pedra
o primeiro passo
sobre a água
de uma boca outra boca outro corpo
O caminho não cessa entre esta mão
e a folha
A mão há-de encontrar a mão
novas palavras nascerão
sobre outros lábios noutro muro noutro caminho
E talvez o caminho seja o princípio sempre
Sempre a ausência e o desejo ardente
Sempre o grito a renascer da ferida silenciosa
Sempre o silêncio e o seu nome incessante
1 080
António Ramos Rosa
Como Se
Tocar as margens desta página
deste corpo
como se existisse já o corpo
sem caminho
acender palavras trémulas
como se houvesse uma lâmpada
atravessar-te o corpo unânime
como se o visse já sob o relâmpago
dizer-te um a um
os dedos das carícias
num enxame de palavras quase vermelhas
quase
como se a língua falasse sob o trovão tremendo
dizer-te
esta laranja incandescente
este músculo que desce
em água doce
como se te visse já e te tocasse a pele
sob esta chuva escura
atravessar a espessura deste papel com letras
como se as letras fossem
feridas
no teu corpo
desenhar esse gesto
despenteado
como se o corpo
rolasse sob
as palavras mesmas
como se o caminho
se abrisse
tão perto
da tua boca
É como se te respirasse
se eu falasse
como se
respirasse
no caminho
como se estas palavras fossem já
esse caminho
para o teu corpo
como se houvesse um caminho
se eu falasse
se eu falar
Vejo-te imagem só
mas não o corpo
ou nem a imagem vejo mal respiro
E no entanto uma palavra ascende
o caminho é este
através
das palavras do teu corpo
são estas
as pedras
vermelhas
negras
sob a chuva
estas as mãos que buscam
o caminho na espessura
são o caminho já
tão perto já
da tua boca
da tua língua acesa
Se eu falar
é este o caminho dos teus cabelos
da tua boca
cada palavra treme
com o tremor dos teus pulsos
com a loucura feliz
desta mão que ascende
sobre o teu corpo
e desce
ao fundo
à água
do teu sexo
e beijo o teu nome
entre os teus dentes
deste corpo
como se existisse já o corpo
sem caminho
acender palavras trémulas
como se houvesse uma lâmpada
atravessar-te o corpo unânime
como se o visse já sob o relâmpago
dizer-te um a um
os dedos das carícias
num enxame de palavras quase vermelhas
quase
como se a língua falasse sob o trovão tremendo
dizer-te
esta laranja incandescente
este músculo que desce
em água doce
como se te visse já e te tocasse a pele
sob esta chuva escura
atravessar a espessura deste papel com letras
como se as letras fossem
feridas
no teu corpo
desenhar esse gesto
despenteado
como se o corpo
rolasse sob
as palavras mesmas
como se o caminho
se abrisse
tão perto
da tua boca
É como se te respirasse
se eu falasse
como se
respirasse
no caminho
como se estas palavras fossem já
esse caminho
para o teu corpo
como se houvesse um caminho
se eu falasse
se eu falar
Vejo-te imagem só
mas não o corpo
ou nem a imagem vejo mal respiro
E no entanto uma palavra ascende
o caminho é este
através
das palavras do teu corpo
são estas
as pedras
vermelhas
negras
sob a chuva
estas as mãos que buscam
o caminho na espessura
são o caminho já
tão perto já
da tua boca
da tua língua acesa
Se eu falar
é este o caminho dos teus cabelos
da tua boca
cada palavra treme
com o tremor dos teus pulsos
com a loucura feliz
desta mão que ascende
sobre o teu corpo
e desce
ao fundo
à água
do teu sexo
e beijo o teu nome
entre os teus dentes
558
Cirstina Areias
A Mulher e a Lua
A lua está cheia esta noite
Absoluta ela
Me enche, clareia, consome
Meus poros suam o luar cheio
Molho lençóis
Ouço músicas mágicas
E tenho em minha cama mais que a mim
Gozo amores arqueados
Memórias em transe
Incêndio
Olhos vadios
E a lua algema a mim e a ele
E ilumina, nele, meu desvario
Ele não sabe
Ele não sabe que dentro desta mesma noite
De luz cheia, o meu desejo
Galopa.
Absoluta ela
Me enche, clareia, consome
Meus poros suam o luar cheio
Molho lençóis
Ouço músicas mágicas
E tenho em minha cama mais que a mim
Gozo amores arqueados
Memórias em transe
Incêndio
Olhos vadios
E a lua algema a mim e a ele
E ilumina, nele, meu desvario
Ele não sabe
Ele não sabe que dentro desta mesma noite
De luz cheia, o meu desejo
Galopa.
1 109
António Ramos Rosa
As Palavras No Centro Vazio
à Cinda
Deixa as palavras caírem sobre o chão
vazias
Talvez uma forma silenciosa
se liberte
talvez um gesto em chamas
se levante
O pudor do toque sobre a página
uma colina uma porosa
lâmpada
onde nada se passa
a não ser talvez
a língua que se acende
áspera e verde
sobre a sombra
sobre o vento
Talvez o corpo se liberte
das mandíbulas dos insectos
talvez um olho brilhe
nas palavras entre as pedras
Deixa as palavras caírem sobre o muro
talvez elas caminhem
para a única
forma
de silêncio
verde
Talvez elas repousem no espaço
Talvez melhor do que o silêncio
nesta folha
digam o que o silêncio quer dizer
Deixa as palavras caírem sobre o centro
vazio
Talvez só a pálpebra de uma sombra
ou um leve movimento da folhagem
seja o breve sinal
de ser
ou de não ser
Talvez o corpo se erga da sombra
e do vazio da página
cheio do silêncio
da sua própria forma
no simples esplendor
do seu nascer
Deixa as palavras caminharem na sombra
em busca da sua própria boca
ávidas do corpo
entreaberto
trémulas como as folhas
de uma árvore
Talvez nada se passe
ou quase nada
e isso seja o todo do que é
que nunca é
A dança quase imóvel a palavra à beira do seu ser o princípio do desejo que não cessa a chama do corpo nas palavras
Ou a chama do silêncio
entre as palavras
que dizem
e não dizem o que são
O corpo livre enfim
no seu começo
tudo o que no silêncio nasce
e morre sem cessar Talvez
renasça no poema Talvez
recomece
por nunca ser senão pelo desejo
de um quase nada
que é todo o seu ser
Deixa as palavras caírem sobre o chão
vazias
Talvez uma forma silenciosa
se liberte
talvez um gesto em chamas
se levante
O pudor do toque sobre a página
uma colina uma porosa
lâmpada
onde nada se passa
a não ser talvez
a língua que se acende
áspera e verde
sobre a sombra
sobre o vento
Talvez o corpo se liberte
das mandíbulas dos insectos
talvez um olho brilhe
nas palavras entre as pedras
Deixa as palavras caírem sobre o muro
talvez elas caminhem
para a única
forma
de silêncio
verde
Talvez elas repousem no espaço
Talvez melhor do que o silêncio
nesta folha
digam o que o silêncio quer dizer
Deixa as palavras caírem sobre o centro
vazio
Talvez só a pálpebra de uma sombra
ou um leve movimento da folhagem
seja o breve sinal
de ser
ou de não ser
Talvez o corpo se erga da sombra
e do vazio da página
cheio do silêncio
da sua própria forma
no simples esplendor
do seu nascer
Deixa as palavras caminharem na sombra
em busca da sua própria boca
ávidas do corpo
entreaberto
trémulas como as folhas
de uma árvore
Talvez nada se passe
ou quase nada
e isso seja o todo do que é
que nunca é
A dança quase imóvel a palavra à beira do seu ser o princípio do desejo que não cessa a chama do corpo nas palavras
Ou a chama do silêncio
entre as palavras
que dizem
e não dizem o que são
O corpo livre enfim
no seu começo
tudo o que no silêncio nasce
e morre sem cessar Talvez
renasça no poema Talvez
recomece
por nunca ser senão pelo desejo
de um quase nada
que é todo o seu ser
555
António Ramos Rosa
A Imagem Que Conduz Ao Corpo
A mão dispersa na folhagem
a mão perdida a boca já exausta
onde tocar a pedra as sílabas da pedra?
Aqui uma sombra branca Não inicial
Este lugar inabitável não é o princípio nem o centro
Como alcançar o coração de alguma coisa
a substância o centro ou a terra do poema
Começo sem amor sempre demasiado cedo
Interrogo não um insecto nem uma pedra
Percorro um muro com um olhar cego
Estou tão longe da realidade como do poema
A distância é infinita Tu não estás aqui
E não sou eu e sou eu ainda Tudo é de menos
e de mais
A mão toca não um silêncio não as sílabas
de um corpo longo e fresco mas uma corrente
congelada uma parede árida calcinada
Como encontrar a imagem que conduz ao corpo
como percorrer as veias vivas do silêncio
e fazer-te estremecer os leves lábios?
Como estar sendo ser estando
junto à boca unida e firme
e trémula
do poema?
Se soubesse desenhar as linhas negras
que abrem a brancura completa
do corpo
que deixam entrever a espuma nos cabelos
no sulco que divide as amorosas pernas
onde o murmúrio permanece do sangue sob as mãos
escreveria as linhas intensas do poema?
As mãos completar-se-iam no perfil ardente
O presente seria o instante do abrigo imenso
A luz dos teus olhos banharia as palavras
e tu serias o corpo luminoso
com os membros libertos sob a água viva
Escrever seria amar-te? Seria
interromper este deserto limpar a ferida aberta?
Seria entrar no interior do centro fresco
percorrer essa praia que ninguém ainda pisou
beijar os teus sinais e a sede límpida
que desenha toda a chama alta do teu corpo?
Escrever seria estar contigo no interior da chama
beber o orvalho das palavras nos teus lábios?
No interior de um barco de folhagem verde
animado de um braço intensamente vivo
ligando-me cada vez mais à linguagem do teu corpo?
Estou já tão perto de ti que uma sombra soluça
Estou tão perto de ti que o poema principia
Toco as sílabas da pedra as sílabas do corpo
A minha língua arde sobre o teu ombro frágil
O perdão do teu olhar é o amor da luz
a mão perdida a boca já exausta
onde tocar a pedra as sílabas da pedra?
Aqui uma sombra branca Não inicial
Este lugar inabitável não é o princípio nem o centro
Como alcançar o coração de alguma coisa
a substância o centro ou a terra do poema
Começo sem amor sempre demasiado cedo
Interrogo não um insecto nem uma pedra
Percorro um muro com um olhar cego
Estou tão longe da realidade como do poema
A distância é infinita Tu não estás aqui
E não sou eu e sou eu ainda Tudo é de menos
e de mais
A mão toca não um silêncio não as sílabas
de um corpo longo e fresco mas uma corrente
congelada uma parede árida calcinada
Como encontrar a imagem que conduz ao corpo
como percorrer as veias vivas do silêncio
e fazer-te estremecer os leves lábios?
Como estar sendo ser estando
junto à boca unida e firme
e trémula
do poema?
Se soubesse desenhar as linhas negras
que abrem a brancura completa
do corpo
que deixam entrever a espuma nos cabelos
no sulco que divide as amorosas pernas
onde o murmúrio permanece do sangue sob as mãos
escreveria as linhas intensas do poema?
As mãos completar-se-iam no perfil ardente
O presente seria o instante do abrigo imenso
A luz dos teus olhos banharia as palavras
e tu serias o corpo luminoso
com os membros libertos sob a água viva
Escrever seria amar-te? Seria
interromper este deserto limpar a ferida aberta?
Seria entrar no interior do centro fresco
percorrer essa praia que ninguém ainda pisou
beijar os teus sinais e a sede límpida
que desenha toda a chama alta do teu corpo?
Escrever seria estar contigo no interior da chama
beber o orvalho das palavras nos teus lábios?
No interior de um barco de folhagem verde
animado de um braço intensamente vivo
ligando-me cada vez mais à linguagem do teu corpo?
Estou já tão perto de ti que uma sombra soluça
Estou tão perto de ti que o poema principia
Toco as sílabas da pedra as sílabas do corpo
A minha língua arde sobre o teu ombro frágil
O perdão do teu olhar é o amor da luz
1 101
Ana Paula Ribeiro Tavares
A Abóbora Menina
Tão gentil de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha,
de segredos bem escondidos
estende-se à distância
procurando ser terra
quem sabe possa
acontecer o milagre:
folhinhas verdes
flor amarela
ventre redondo
depois é só esperar
nela desaguam todos os rapazes.
Benguela, 83
vacuda, gordinha,
de segredos bem escondidos
estende-se à distância
procurando ser terra
quem sabe possa
acontecer o milagre:
folhinhas verdes
flor amarela
ventre redondo
depois é só esperar
nela desaguam todos os rapazes.
Benguela, 83
2 927
António Ramos Rosa
Nascer Com a Palavra
à Eugénia Maria
e à Kitty
Nascer começa com o desejo? Com a sede do nome?
Que todo o sinal seja ao mesmo tempo carne
Se alguma coisa tu dizes acende-se na página
É um nome que eu quero dizer mas
o que eu desejo não tem nome porque
é anterior a todas as palavras
e é por ele que cada coisa ganha um nome
Aqui é o lugar onde se forma a face
visível e silenciosa das palavras
Neste instante desapareço
As palavras começam a ter cor
e um equilíbrio alto
um rio de formas surge
Neste momento vejo um verde ígneo e um cinzento suave
Escrever é como beber por um copo de barro
a água de um corpo em que sombras se movem
e as sombras iluminam-se e iluminam as coisas
e o secreto nome brilha na parede alta
Posso abrir um parêntesis e incluir nele o muro
Esqueço tudo para poder respirar o princípio de tudo
em que de súbito uma folhagem estremece e as palavras surgem
trémulas ainda de silêncio e de desejo
Ouço um rumor ou não A lâmpada que empunho é obscura
mas busco seguir devagar um ritmo do conjunto branco
em que todas as palavras se aniquilam e a abertura se abre.
…………………………………………………………..
Nascer começa aqui onde se inaugura um incessante acto
em que se reúne o resto do que se produz continuamente
mas que é invisível deste lado do real
e é aí o centro líquido onde o corpo se refaz
a cada palavra que pronuncia a boca ferida
As palavras chamam as coisas e multiplicam-nas
sobre um fundo obscuro onde ressoam claras
Não é preciso saber não é preciso olhar
O contacto com o fundo produz a sequência feliz que principia
Um corpo desenha-se fora de nós habita o espaço
e é como se atingisse o solo onde se respira
Uma corrente única atravessa as coisas e as palavras
O mundo nasce a cada palavra e é a palavra que nasce
e à Kitty
Nascer começa com o desejo? Com a sede do nome?
Que todo o sinal seja ao mesmo tempo carne
Se alguma coisa tu dizes acende-se na página
É um nome que eu quero dizer mas
o que eu desejo não tem nome porque
é anterior a todas as palavras
e é por ele que cada coisa ganha um nome
Aqui é o lugar onde se forma a face
visível e silenciosa das palavras
Neste instante desapareço
As palavras começam a ter cor
e um equilíbrio alto
um rio de formas surge
Neste momento vejo um verde ígneo e um cinzento suave
Escrever é como beber por um copo de barro
a água de um corpo em que sombras se movem
e as sombras iluminam-se e iluminam as coisas
e o secreto nome brilha na parede alta
Posso abrir um parêntesis e incluir nele o muro
Esqueço tudo para poder respirar o princípio de tudo
em que de súbito uma folhagem estremece e as palavras surgem
trémulas ainda de silêncio e de desejo
Ouço um rumor ou não A lâmpada que empunho é obscura
mas busco seguir devagar um ritmo do conjunto branco
em que todas as palavras se aniquilam e a abertura se abre.
…………………………………………………………..
Nascer começa aqui onde se inaugura um incessante acto
em que se reúne o resto do que se produz continuamente
mas que é invisível deste lado do real
e é aí o centro líquido onde o corpo se refaz
a cada palavra que pronuncia a boca ferida
As palavras chamam as coisas e multiplicam-nas
sobre um fundo obscuro onde ressoam claras
Não é preciso saber não é preciso olhar
O contacto com o fundo produz a sequência feliz que principia
Um corpo desenha-se fora de nós habita o espaço
e é como se atingisse o solo onde se respira
Uma corrente única atravessa as coisas e as palavras
O mundo nasce a cada palavra e é a palavra que nasce
1 022
Mário Hélio
2 - II (Avis rara)
ser vontade de pássaro,
as asas adejar pelo infinito crocitante
e acenar aos mecenas de saturno
que eu também vôo!
mas é a fala que cala,
resvala no último ogro que há.
força mágica que assassina as estrelas,
riso de fogo que incendeia a alma,
no entanto feroz vejo-te calma,
e me olhas, eu te olho, e nos olhamos
num olhar patético e néscio até.
eu poderia dizer da tua voz doce e mansa
sáltria divina cavatina de delírio
sei porém que inadvertida
pela imagem da força da distância
irá impelida pelo amargor que envolve toda vida,
e tua boca que ora ri e me deleita
se abrirá como em rictus selvagem
sinto e pressinto
que ferirá minhalma
que busca a tua qual orfeu a amada
o teu olhar em negra claridade
ofuscando os sóis.
as asas adejar pelo infinito crocitante
e acenar aos mecenas de saturno
que eu também vôo!
mas é a fala que cala,
resvala no último ogro que há.
força mágica que assassina as estrelas,
riso de fogo que incendeia a alma,
no entanto feroz vejo-te calma,
e me olhas, eu te olho, e nos olhamos
num olhar patético e néscio até.
eu poderia dizer da tua voz doce e mansa
sáltria divina cavatina de delírio
sei porém que inadvertida
pela imagem da força da distância
irá impelida pelo amargor que envolve toda vida,
e tua boca que ora ri e me deleita
se abrirá como em rictus selvagem
sinto e pressinto
que ferirá minhalma
que busca a tua qual orfeu a amada
o teu olhar em negra claridade
ofuscando os sóis.
796
António Ramos Rosa
O Corpo Sob As Palavras
à Maria Eduarda
Dorme o sono na folha dorme o braço na folha
O que desperta é um olho verde sob o musgo da árvore
Dorme o ar em torno
da página dorme sob o pólen
das pálpebras de terra
Dorme o corpo sob a mão inerte Dorme a boca do barco
Dorme uma nuvem devagar
Quando quando
se abrirão os lábios
daquela ferida vermelha Para quando
a dança sobre a pedra negra e o furor branco
das palavras no corpo?
*
Chamar-lhe-ia barco pedra dança
chamar-lhe-ia pedra
chamar-lhe-ia dança
mas seria mulher seria praia
seria areia acesa
Chamar-lhe-ia se pudesse
a alegria ávida
ávida
de uma boca
sobre a espuma da praia
Chamar-lhe-ia o centro
da espessura
roxa
de um bosque
e beijá-la-ia como um olho
Mas não posso acordá-la
sob tantas pálpebras
São palavras demais
se eu soubesse
dizia
só a sua sombra na água
*
Como acender o corpo? Estou atento à pedra sobre a pedra e vejo a água nua no silêncio
O corpo possui uma ferida violenta um lugar branco um ombro na muralha
Ouço o muro ouço o ar da praia A casa é uma carícia pressentida um olho oculto na sombra azul
Esta é a folha sobre as pálpebras do corpo adormecido. Nenhum nome acorda. É uma pedra que toco ou uma sombra?
Junto à muralha onde os cães urinam o corpo adormeceu. Algo cessou há muito no silêncio
Como se nunca mais pudesse despertar como se houvesse um único nome: pedra. E o eco desse nome: pedra E nem sequer a memória do que foi outrora uma dança vermelha.
O que toco é a pedra do sono
*
(Foi outrora o corpo folha ardente
Foi mão de fogo abelha de alegria
Quando? Quando?)
*
Será o rumor do mar ou será na sombra o rumor do próprio corpo branco? Serão folhas que tombam sobre a pedra ou os olhos que se movem sob as pálpebras?
Eu nada espero e espero Caminho no silêncio da folha Será esta a praia onde o corpo deixou os seus sinais?
O fogo verde escuro daqueles olhos sob a sombra da muralha A antiga e branca árvore do mar
*
Tento acordar o corpo Toco a língua de pedra o sinal do fogo Toco uma palavra minúscula na erva
Toco a sombria perfeição da perna Toco membro a membro dedo a dedo todos os sinais do corpo apodrecido
Toco todos os nomes do corpo: os braços de água na sombra da pedra a clareira branca do umbigo o negro crespo onde a ferida sangra
Beijo pálpebras olhos ombros Toco o segredo mais ardente frio língua a língua insuflo o meu desejo respiro a boca branca húmida de sombra
As palavras não despertam os membros estão dispersos é quase noite sobre o muro
Uma folha cai sobre o rosto putrefacto Os insectos corroem-lhe os pulsos e o ventre O corpo não estremece
*
Uma paciência ardente uma paciência de sombra sinuosa uma alta pedra do silêncio
Um ardor pulso a pulso insuflado sobre a espuma negra dessa boca
Uma língua que suba as silenciosas colunas até à terna e alucinante perfeição redonda
Umas palavras rasgadas na muralha sangrando nas mãos sobre a brancura mortal do corpo
*
Boca a boca nesta folha no teu corpo respirar-te-ei pela primeira vez
Recém-acordada recém-nascida da pedra dilacerada da parede do sono
Beijo-te a língua verde a língua vermelha a língua ainda de sombra
e fria
O teu olhar atónito ofuscado é ainda uma palavra destroçada e branca
Libertas-te do sono e da vertigem com a lentidão de uma onda negra
O teu corpo forte estremece finalmente sob as minhas mãos sob o meu corpo sob as minhas palavras vivas
*
Que suavidade de lençol que língua que mão ou lâmpada
te desnudou tão lenta tão vermelha e branca
Levantas-te e és alta muito alta sobre pernas claras
e perfeitas
E a praia é tua Esta mão pertence-te Este pulso
rasgado
(Eu fui o teu sono
a tua pedra
negra)
Agora insuflo-te as palavras com que danças
sobre a praia Agora explode a boca em palavras
mudas como lâmpadas
secretas e nuas crespas e negras suaves crispadas
lâminas
Dorme o sono na folha dorme o braço na folha
O que desperta é um olho verde sob o musgo da árvore
Dorme o ar em torno
da página dorme sob o pólen
das pálpebras de terra
Dorme o corpo sob a mão inerte Dorme a boca do barco
Dorme uma nuvem devagar
Quando quando
se abrirão os lábios
daquela ferida vermelha Para quando
a dança sobre a pedra negra e o furor branco
das palavras no corpo?
*
Chamar-lhe-ia barco pedra dança
chamar-lhe-ia pedra
chamar-lhe-ia dança
mas seria mulher seria praia
seria areia acesa
Chamar-lhe-ia se pudesse
a alegria ávida
ávida
de uma boca
sobre a espuma da praia
Chamar-lhe-ia o centro
da espessura
roxa
de um bosque
e beijá-la-ia como um olho
Mas não posso acordá-la
sob tantas pálpebras
São palavras demais
se eu soubesse
dizia
só a sua sombra na água
*
Como acender o corpo? Estou atento à pedra sobre a pedra e vejo a água nua no silêncio
O corpo possui uma ferida violenta um lugar branco um ombro na muralha
Ouço o muro ouço o ar da praia A casa é uma carícia pressentida um olho oculto na sombra azul
Esta é a folha sobre as pálpebras do corpo adormecido. Nenhum nome acorda. É uma pedra que toco ou uma sombra?
Junto à muralha onde os cães urinam o corpo adormeceu. Algo cessou há muito no silêncio
Como se nunca mais pudesse despertar como se houvesse um único nome: pedra. E o eco desse nome: pedra E nem sequer a memória do que foi outrora uma dança vermelha.
O que toco é a pedra do sono
*
(Foi outrora o corpo folha ardente
Foi mão de fogo abelha de alegria
Quando? Quando?)
*
Será o rumor do mar ou será na sombra o rumor do próprio corpo branco? Serão folhas que tombam sobre a pedra ou os olhos que se movem sob as pálpebras?
Eu nada espero e espero Caminho no silêncio da folha Será esta a praia onde o corpo deixou os seus sinais?
O fogo verde escuro daqueles olhos sob a sombra da muralha A antiga e branca árvore do mar
*
Tento acordar o corpo Toco a língua de pedra o sinal do fogo Toco uma palavra minúscula na erva
Toco a sombria perfeição da perna Toco membro a membro dedo a dedo todos os sinais do corpo apodrecido
Toco todos os nomes do corpo: os braços de água na sombra da pedra a clareira branca do umbigo o negro crespo onde a ferida sangra
Beijo pálpebras olhos ombros Toco o segredo mais ardente frio língua a língua insuflo o meu desejo respiro a boca branca húmida de sombra
As palavras não despertam os membros estão dispersos é quase noite sobre o muro
Uma folha cai sobre o rosto putrefacto Os insectos corroem-lhe os pulsos e o ventre O corpo não estremece
*
Uma paciência ardente uma paciência de sombra sinuosa uma alta pedra do silêncio
Um ardor pulso a pulso insuflado sobre a espuma negra dessa boca
Uma língua que suba as silenciosas colunas até à terna e alucinante perfeição redonda
Umas palavras rasgadas na muralha sangrando nas mãos sobre a brancura mortal do corpo
*
Boca a boca nesta folha no teu corpo respirar-te-ei pela primeira vez
Recém-acordada recém-nascida da pedra dilacerada da parede do sono
Beijo-te a língua verde a língua vermelha a língua ainda de sombra
e fria
O teu olhar atónito ofuscado é ainda uma palavra destroçada e branca
Libertas-te do sono e da vertigem com a lentidão de uma onda negra
O teu corpo forte estremece finalmente sob as minhas mãos sob o meu corpo sob as minhas palavras vivas
*
Que suavidade de lençol que língua que mão ou lâmpada
te desnudou tão lenta tão vermelha e branca
Levantas-te e és alta muito alta sobre pernas claras
e perfeitas
E a praia é tua Esta mão pertence-te Este pulso
rasgado
(Eu fui o teu sono
a tua pedra
negra)
Agora insuflo-te as palavras com que danças
sobre a praia Agora explode a boca em palavras
mudas como lâmpadas
secretas e nuas crespas e negras suaves crispadas
lâminas
1 051
António Ramos Rosa
O Grito Cego
à Ana
e ao Raul
A forma do grito um reflexo ardente
no extremo do visível rosto cego
a chama alta nas vertentes negras
linguagem densa a desfazer-se em espuma
a nudez do olhar sem as árvores duras
como um músculo de água apenas sob as pálpebras
aqui quando deslizam
arcos sob as sombras do desejo
substância porosa verde inerte
a mão sem o olhar na líquida viuvez
caudal abrindo o ciclo do declive
A paisagem fechou-se sobre o corpo como um poço as evidências ruíram arrastando os limos sobre os membros o contínuo rumor do sangue inundou o espaço disponível da visão perderam-se os nomes das pedras a distância dissipou-se
a explosão do grito na ávida parede
das virilhas à garganta em frémitos de fulgor
corpo envolvido pelo corpo rio viscoso
epiderme ligada às trevas interiores
vagas de frémitos
ruídos que deslizam nas margens líquidas
interminável fluxo apagando os nomes e as formas
o infinito ardor em ínfimas vibrações
de uma língua sem língua de uma boca hiante
cavidade do inarticulado furor cavo do grito
incessante redemoinho a destruir a visão
das possíveis formas dos limites dos sinais
numa confusão de manchas e linhas fugitivas
nas raízes da água escura alucinada
……………………………………………
O cerne do grito
ponto infinito inesgotável nó
dilacerante lento
sem espaço
corpo negro informe enterrado
em si mesmo
com o sabor último da terra rente à boca
e todavia desperto difuso ardente
na oclusão compacta sem princípio
sem memória sem futuro
retornando a si
……………………………………………
grito
no espaço deserto
linguagem espessa em glóbulos densos
amálgama igual à polpa do seu antro
carne igual ao interior da terra
deflagração quase inaudível
enigma
resíduo apenas
numa praia invisível ainda
que forma primeira
que visão abres
nas margens já possíveis?
e ao Raul
A forma do grito um reflexo ardente
no extremo do visível rosto cego
a chama alta nas vertentes negras
linguagem densa a desfazer-se em espuma
a nudez do olhar sem as árvores duras
como um músculo de água apenas sob as pálpebras
aqui quando deslizam
arcos sob as sombras do desejo
substância porosa verde inerte
a mão sem o olhar na líquida viuvez
caudal abrindo o ciclo do declive
A paisagem fechou-se sobre o corpo como um poço as evidências ruíram arrastando os limos sobre os membros o contínuo rumor do sangue inundou o espaço disponível da visão perderam-se os nomes das pedras a distância dissipou-se
a explosão do grito na ávida parede
das virilhas à garganta em frémitos de fulgor
corpo envolvido pelo corpo rio viscoso
epiderme ligada às trevas interiores
vagas de frémitos
ruídos que deslizam nas margens líquidas
interminável fluxo apagando os nomes e as formas
o infinito ardor em ínfimas vibrações
de uma língua sem língua de uma boca hiante
cavidade do inarticulado furor cavo do grito
incessante redemoinho a destruir a visão
das possíveis formas dos limites dos sinais
numa confusão de manchas e linhas fugitivas
nas raízes da água escura alucinada
……………………………………………
O cerne do grito
ponto infinito inesgotável nó
dilacerante lento
sem espaço
corpo negro informe enterrado
em si mesmo
com o sabor último da terra rente à boca
e todavia desperto difuso ardente
na oclusão compacta sem princípio
sem memória sem futuro
retornando a si
……………………………………………
grito
no espaço deserto
linguagem espessa em glóbulos densos
amálgama igual à polpa do seu antro
carne igual ao interior da terra
deflagração quase inaudível
enigma
resíduo apenas
numa praia invisível ainda
que forma primeira
que visão abres
nas margens já possíveis?
1 162
António Ramos Rosa
Delírio Legível
à Maria Teresa Dias Furtado
Porque se tornou ilegível o canto é preciso ir de pedra em pedra No turbilhão das árvores sem nome (No muro lêem-se linhas ardem cores)
Tocar a nudez Quando? É o vento
nas pedras e no pulso intenso
Aqui é um quarto e uma trave o suor de um corpo os dedos duros sobre os nomes poucos Quando é o princípio da terra rente à mão A liberdade escura do desejo: o rude e espesso nome inominável Tudo se transforma na passagem que se lê de pedra em pedra de água em água
Aqui é o princípio das evidências
inacessíveis (Aqui o centro
das raízes onde um insecto se revolve
quando se escreve no ardor das letras)
Um bicho obsceno e puro muito frágil seco
Um ponto Um sinal da terra A liberdade de estar
no caos verde a liberdade de respirar ainda e sempre
com a tenacidade da terra
no ardor completo da palavra
Aqui é o turbilhão legível O quarto está coberto de pedras as paredes abriram a mão pode estender-se até um tronco arrancar uma raiz A secura branca entra na garganta as palavras mais rasas cobertas de poeira
Deixou de ser um crime estar vivo
no desejo de tudo
no nada de não saber e ser
há um conjunto impossível que principia algures
a arder
a terra o sol e a água uniram-se numa parede
cada vez mais branca e mais solar
Habito um movimento no impossível acto de ser
um murmúrio vem dos lábios escritos da terra
estou pronto para a liberdade de nascer com as palavras
e de nelas me perder até que o turbilhão
se torne o vocábulo vivo e habitável
Aqui é um lugar neutro o lugar nu O lugar livre
Lugar inacessivelmente pobre e nulo
Porque não se pode começar no princípio
Aqui nada se disse e por isso está tudo por dizer
e por isso nada se dirá e por isso tudo se dirá
Aqui não é o caminho
nada poderá sair daqui
aqui é a brecha do muro
a fissura inicial em que se inscrevem os sinais
Aqui estou à beira da origem
onde nada principia senão a sede
onde nada vive senão o desejo
nada cresce senão o nulo e neutro ser animal de água e ar
que me envolve como um olho
morada permanente interior inacessível
simples e prodigioso núcleo onde permanecer é começar sempre
e cada vez mais
o impossível acto de ser
a superabundância e a graça de nada ser
a ameaça suspensa e a angústia próxima de irrupção do exterior
a cada momento superado pelo movimento animal que escreve
em pleno delírio legível e branco
Aqui é a planície e o poço A dissidência originária
onde a boca bebe o princípio da alteridade acesa
Tudo se move num plano total que governa os movimentos paralelos
do corpo e da escrita
numa corrente que impele todas as sequências vivas da palavra
de argila e sangue
Eis uma nova brecha e outra rasgando-se no silêncio
Os sinais passam rápidos demais para se transformarem em palavras
A mão está seca sobre a pedra Aquelas árvores
não têm nome Quando é um indício apenas
para seguir uma chama branca antes do tempo
Abre-se um olho no tecto um cone de luz
onde perpassam sombras
e o pó a que se reduzem as palavras
A casa destruída aberta entre pedras e insectos
é o lugar nulo deserto no deserto
mas a página branca está cheia de caminhos
e a mão transforma o pó das palavras destruídas
noutras palavras novas frescas e rápidas
na parede cada vez mais branca e mais solar
Porque se tornou ilegível o canto é preciso ir de pedra em pedra No turbilhão das árvores sem nome (No muro lêem-se linhas ardem cores)
Tocar a nudez Quando? É o vento
nas pedras e no pulso intenso
Aqui é um quarto e uma trave o suor de um corpo os dedos duros sobre os nomes poucos Quando é o princípio da terra rente à mão A liberdade escura do desejo: o rude e espesso nome inominável Tudo se transforma na passagem que se lê de pedra em pedra de água em água
Aqui é o princípio das evidências
inacessíveis (Aqui o centro
das raízes onde um insecto se revolve
quando se escreve no ardor das letras)
Um bicho obsceno e puro muito frágil seco
Um ponto Um sinal da terra A liberdade de estar
no caos verde a liberdade de respirar ainda e sempre
com a tenacidade da terra
no ardor completo da palavra
Aqui é o turbilhão legível O quarto está coberto de pedras as paredes abriram a mão pode estender-se até um tronco arrancar uma raiz A secura branca entra na garganta as palavras mais rasas cobertas de poeira
Deixou de ser um crime estar vivo
no desejo de tudo
no nada de não saber e ser
há um conjunto impossível que principia algures
a arder
a terra o sol e a água uniram-se numa parede
cada vez mais branca e mais solar
Habito um movimento no impossível acto de ser
um murmúrio vem dos lábios escritos da terra
estou pronto para a liberdade de nascer com as palavras
e de nelas me perder até que o turbilhão
se torne o vocábulo vivo e habitável
Aqui é um lugar neutro o lugar nu O lugar livre
Lugar inacessivelmente pobre e nulo
Porque não se pode começar no princípio
Aqui nada se disse e por isso está tudo por dizer
e por isso nada se dirá e por isso tudo se dirá
Aqui não é o caminho
nada poderá sair daqui
aqui é a brecha do muro
a fissura inicial em que se inscrevem os sinais
Aqui estou à beira da origem
onde nada principia senão a sede
onde nada vive senão o desejo
nada cresce senão o nulo e neutro ser animal de água e ar
que me envolve como um olho
morada permanente interior inacessível
simples e prodigioso núcleo onde permanecer é começar sempre
e cada vez mais
o impossível acto de ser
a superabundância e a graça de nada ser
a ameaça suspensa e a angústia próxima de irrupção do exterior
a cada momento superado pelo movimento animal que escreve
em pleno delírio legível e branco
Aqui é a planície e o poço A dissidência originária
onde a boca bebe o princípio da alteridade acesa
Tudo se move num plano total que governa os movimentos paralelos
do corpo e da escrita
numa corrente que impele todas as sequências vivas da palavra
de argila e sangue
Eis uma nova brecha e outra rasgando-se no silêncio
Os sinais passam rápidos demais para se transformarem em palavras
A mão está seca sobre a pedra Aquelas árvores
não têm nome Quando é um indício apenas
para seguir uma chama branca antes do tempo
Abre-se um olho no tecto um cone de luz
onde perpassam sombras
e o pó a que se reduzem as palavras
A casa destruída aberta entre pedras e insectos
é o lugar nulo deserto no deserto
mas a página branca está cheia de caminhos
e a mão transforma o pó das palavras destruídas
noutras palavras novas frescas e rápidas
na parede cada vez mais branca e mais solar
1 064
Mário Hélio
10- X- (Orfeurídice)
o corpo ardente.
tuas curvas tuas mãos
se perderam na vertigem
dos que quiseram dizer sim
ao amor que já não pulsa
à canção que já não vibra.
teu hálito perdeu-se
entre flores, calores e perfumes.
nós nos perdemos no caminho onde não há volta
porque não se pode olhar atrás.
atrás ficaram todos os carinhos.
atrás ficou a sede desmedida,
atrás ficaram todos os caminhos.
tuas curvas tuas mãos
se perderam na vertigem
dos que quiseram dizer sim
ao amor que já não pulsa
à canção que já não vibra.
teu hálito perdeu-se
entre flores, calores e perfumes.
nós nos perdemos no caminho onde não há volta
porque não se pode olhar atrás.
atrás ficaram todos os carinhos.
atrás ficou a sede desmedida,
atrás ficaram todos os caminhos.
946
Luciano Matheus Tamiozzo
Deixo-me Perder
Deixo-me perder
No azul de teus olhos,
Na tua pele rosada,
Nos teus cabelos aloirados.
Deixo-me perder
Nos teus lábios rubros,
Nas tuas mãos macias,
No calor de teu abraço.
Deixo-me perder
Em pensamentos
E palavras.
Deixo-me perder
Num olhar
Até ti.
No azul de teus olhos,
Na tua pele rosada,
Nos teus cabelos aloirados.
Deixo-me perder
Nos teus lábios rubros,
Nas tuas mãos macias,
No calor de teu abraço.
Deixo-me perder
Em pensamentos
E palavras.
Deixo-me perder
Num olhar
Até ti.
992
Luís António Cajazeira Ramos
Poema Inédito
Canto de Sereia
A Propósito de Lágrima Súbita
Da face do prazer, surgiu a lágrima,
como se fora mágica o viver.
Do riso e da alegria, veio o pranto
— testemunha de um canto de poesia.
Mas hoje, tão sozinha e triste, a gota
singelamente solta, assim... caminha
por sobre o corpo nu, livre de obstáculo
— só dor! — sem sustentáculo nenhum...
Vem do mar uma brisa de carícia
que beija sem malícia a pele e criva
em sal a solidão deste mergulho...
No solitário pulo, uma fusão
de lágrimas do rio com o vasto mar,
num encontro invulgar de dor e cio...
A Propósito de Lágrima Súbita
Da face do prazer, surgiu a lágrima,
como se fora mágica o viver.
Do riso e da alegria, veio o pranto
— testemunha de um canto de poesia.
Mas hoje, tão sozinha e triste, a gota
singelamente solta, assim... caminha
por sobre o corpo nu, livre de obstáculo
— só dor! — sem sustentáculo nenhum...
Vem do mar uma brisa de carícia
que beija sem malícia a pele e criva
em sal a solidão deste mergulho...
No solitário pulo, uma fusão
de lágrimas do rio com o vasto mar,
num encontro invulgar de dor e cio...
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