Poemas neste tema

Desejo

Angela Santos

Angela Santos

Dança de

Heras

Imagino-me
acordada
por um raio de sol que espreita
pela nesga da janela, que esquecemos de fechar..

Imagino-me acordando em lençóis brancos de linho
exalando , ainda fresco
esse cheiro de mulher

Imagino-me no teu corpo, tu no meu corpo também
e numa dança de heras,
trocamos corpos e seres
nessa fluidez serena, feminina,
intemporal...

Imagino-te corpo, alma , cheiro, toque
paz e lume
a simbiose que busco,
pelos caminhos da vida

Tremo e não sei a razão…

Será a voz que do fundo vem
dum fundo que não sabemos
a dizer que tu e eu
há muito nos pertencemos?

1 157
Angela Santos

Angela Santos

Eva

Mordo
a tua boca
rosa, carne viva
provo o teu sabor
ao jeito de Eva
subversiva

Ousadia do gosto
meu fruto proibido
mordo o teu corpo
virgem
e reencontro o paraíso.

871
Angela Santos

Angela Santos

Lua

Nocturna
silenciosamente vens
ò Lua
deitar-te sobre o meu corpo
límpida e nua

Banhada de luar, assim
Já de mim não sou
mas tua

Ò lua, longe, miragem
digo o quê quando te digo?…

A que há-de vir
viva latejante
ao compasso do coração
descompassado
que vibra em mim

1 124
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Repto

V ossos olhos raros
Jovens guerrilheiros
Aos meus, cavalheiros
Fazem mil reparos...
Se entendeis amor
Com vero brigar
Combates de olhar
Não quero propor.
Sei de um bom lugar
Onde contender
E haveremos de ver
Quem há de ganhar.
Não sirvo justar
Em pugna tão vã...
Que tal amanhã
Lutarmos de amar?
Em campos de paina
Pretendo reptar-vos
E em seguida dar-vos
Muita, muita faina
Guerra sem quartel
E tréguas só se
Pedires mercê
Com os olhos no céu.
Exaustão de gozo
Que tal seja a regra
E longa a refrega
Que aguardo ansioso
E caiba dizer-vos
Que inda vencedor
Sou, de vossos servos
O mais servidor...
1 078
Angela Santos

Angela Santos

Noite

Do
fundo da noite
se erguem meus olhos
alucinados……
salto do sonho.. e vivo

meus braços estendem-se
à transparência azul
que se acerca e julgo-me
tocada pelo infinito

Néon rasgando os meus olhos,
metamorfose de luz em mim…

Noite, noite..
teu fogo sou meu cio extingues
noite, dentro de ti
o meu sonho vive.

1 063
Angela Santos

Angela Santos

Lua de Prata

Sobre
areias finas,
num lugar distante
te amarei...
desaguando no teu mar
minha longa espera

e sob um por de sol,
nesse lugar que eu sei
me amarás...

Do enleio dos teus braços
cativa ser,
do teu corpo a extensão.
no teu sexo estremecer,
no teu colo repousar
adormecer.....

E se uma lua de prata
vier reflectir-se no nosso olhar,
achas acesas na noite seremos ..
e depois do amor dois lagos serenos…
dois corpos amantes espelhando à luz
almas de mulher.

1 076
Angela Santos

Angela Santos

Viva Voz

Da
tua voz vivo agora
e se chega eu esqueço
o vazio que me farta…
mordo e deixo em tua boca
a marca de um beijo
e parto...

a cabeça repleta e o coração faminto
e pergunto – me sem fim
até quando…
até quando…
até quando..?

1 155
M. de Monte Maggiore

M. de Monte Maggiore

Rosas Vermelhas

Gemem as pombas cor de linho uma saudade infinda, dentro da noite.

No céu distante e curvo, choram as estrelas o pranto da
madrugada, e a lua, cor de neve, canta em surdina no leque das palmeiras...

— Por que partiste?

Vem, doce amiga, vem coroar-te de rosas, rosas vermelhas, purpurinas,
rosas cor de carne de coração

Vem, que minha tenda enflora-te a vida com rosas de Shiraz,
trazidas, só para ti, de longe, muito longe...

Vês?

Dormem na distância, sob a luz verde dos astros, os rebanhos de EI Rei...

Esta é a hora em que os pastores descobrem as morenas perfumadas...

- Vem!

Sentiremos, febris, na púrpura dos lábios, a maciez das rosas
e o perfume da noite...
Empunha tua taça de ametista e ouro
e desfolha as pétalas de tua flor,
docemente,
num êxtase sublime...

Virgem morena de Ofir,
há perfumes e licores
e um leito de rosas
para te u corpo de tâmara dourada...
Vem abrir a Fonte do Sonho
de águas cristalinas
ao beduino que morre de amor,
sozinho,
nos caminhos apagados do deserto,
onde só medram cardos e espinhos.

1 682
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Diz o Objecto E a Imagem Que Não Existe,

Diz o objecto e a imagem que não existe,
diz o elogio do orvalho, a palavra tecida,
órgãos necessários, uma abertura ao lado,
tudo se sobrepõe, se liga na rede destes nomes.

Asfixia quase e sem razão alguma. Algum clamor
ao rés do campo, o ruído da água persistente,
no corpo a náusea e o desejo, o atroz ardor,
o perímetro que permite a dimensão da terra.

Diz a água mais lenta na página da terra,
acorda um clamor de paz, uma ordem escura
de insectos, a frescura das ervas e dos nomes.

Acorda, que é o tempo de acordar a razão,
do clamor do vento, do objecto inerte,
e a imagem que existe é a que permanece.
1 146
Salgado Maranhão

Salgado Maranhão

ALQUIMIA

Para T.T.

Minha África está repleta
em mim. E é dela que acordas
minhas transparências; e é
dela que alago as tuas vinhas
e os teus mistérios.
Tuas minhas Áfricas são meu refúgio
desesperado; donde serei
teu posseiro de reentrâncias; teu
imperador de afetos.
E é assim que quebrarei
tuas ânforas de mel
para doar teu necta ao vento,
como quem parte um cristal
para torná-lo em ouro.
800
Angela Santos

Angela Santos

Dança da

Lua

No
meio da noite de uma lua prenhe,
me embalarás, cobrirás com teu corpo
e nele deixarás o sabor do teu abraço
que eu quis e esperei.

Numa noite de luar, ainda que não seja cheia
sob a clara luz das estrelas
eu dançarei para ti e beijarei tua boca
com toque de pedra rara,
incendiando o teu ser
e a noite de lua e prata.

Vi-te, não sei como e quando
e gravei em mim os contornos
que um dia me foram dados
ao jeito de revelação

Guardei-te para sempre em mim
na forma de cheiro e sabores,
tesouro que procurei nas alamedas da vida,
na escuridão dos meus dias
noutras almas que cruzei

só quero saber agora
porque ficamos à espera
de nos olharmos e ter e desvendar o mistério
do que seja o espaço e o tempo
nessa outra dimensão
em que por inteiro estejas
tu… e eu.

1 080
Angela Santos

Angela Santos

Sem Tempo ou Lugar

Entrar
nos teus sonhos despertar-te do sono
e povoar teus dias....

E de mansinho deixar que entres
como a luz ao alvorecer
e ficar quieta,
deixando essa luz por dentro de mim

Correr no teu peito como dócil potro
ao som e ao compasso do teu coração,
e deixar que sejas riacho que corre
para amainar a sede do meu corpo chama

E assim teu corpo
sobre o meu se estende
derramando sombra sobre o chão que sou
sombra abençoada
sobre o chão em brasa
agua em minha boca
vem matar a sede que o tempo deixou.

Rendida e absorta,
no tempo perdida eu quero ficar
no instante exacto, no momento mágico
de inteira me dar.

1 086
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Poeta E a Lua

Em meio a um cristal de ecos
O poeta vai pela rua
Seus olhos verdes de éter
Abrem cavernas na lua.
A lua volta de flanco
Eriçada de luxúria
O poeta, aloucado e branco
Palpa as nádegas da lua.
Entre as esferas nitentes
Tremeluzem pelos fulvos
O poeta, de olhar dormente
Entreabre o pente da lua.
Em frouxos de luz e água
Palpita a ferida crua
O poeta todo se lava
De palidez e doçura.
Ardente e desesperada
A lua vira em decúbito
A vinda lenta do espasmo
Aguça as pontas da lua.
O poeta afaga-lhe os braços
E o ventre que se menstrua
A lua se curva em arco
Num delírio de volúpia.
O gozo aumenta de súbito
Em frêmitos que perduram
A lua vira o outro quarto
E fica de frente, nua.
O orgasmo desce do espaço
Desfeito em estrelas e nuvens
Nos ventos do mar perspassa
Um salso cheiro de lua
E a lua, no êxtase, cresce
Se dilata e alteia e estua
O poeta se deixa em prece
Ante a beleza da lua.
Depois a lua adormece
E míngua e se apazigua...
O poeta desaparece
Envolto em cantos e plumas
Enquanto a noite enlouquece
No seu claustro de ciúmes.
1 185
M. de Monte Maggiore

M. de Monte Maggiore

Insônia

Lágrimas de estrelas em canteiros azuis,
flores de prata no amanhã!

Todos dormem...
Canta, coração, sofre mais... Esta voz é saudade,
é soluço de amor!

Tua face roubou-me o sono...
A luz da tua lâmpada aclarou-me a casa...
Tuas asas, à pássaro, cintilam em volta do meu coração!

Céu vermelho para os lados do Oriente...
Tempestade soprando forte para os lados do Sul...
Tua maldade em flor é um rio de fogo!

Ia, tão só, tão triste, pela estrada deserta da vida,
sem ver ninguém...
De repente encontrei minha doce amada...
Meu coração desabrochou como uma rosa!

Sulamita, minhas romãzeiras estão floridas...
Lábios perfumados, vermelhos,
recebendo a carícia branda do Vento do Oriente...
Na fonte, a água está cantando baixinho. As tamareiras têm
frutos dourados...
A porta do meu horto está fechada...
Vem, alma de minha alma,
inebriar minha vida,
com a carícia do teu corpo.

As virgens de Sião me atraem com olhos lânguidos...
As virgens de Sião se despem junto às fontes cristalinas,
fingindo que não me vêem...
Mas eu só desejo a ti, filha do deserto, palmeira solitária..
Eu quero a noite fulgurante de teus olhos,
em teu seio construirei um ninho perfumado...
Colherei, em tua boca, a doçura do mel e a ebriez do vinho...
Vem! Meu leito está deserto, doce amada!
Vem! mata-me de amor, esconde-me no teu peito de luar
que há muito não sei o que é dormir!.

1 086
Angela Santos

Angela Santos

Corpos

Das noites de néon que celebramos
perdura a chama
e queimam ainda meus lábios
as memórias
que não se dissolvem nos dias

Cada gesto novo
recomeça a viagem, a descoberta,
e no amplexo das tuas coxas, perdida
eu reencontro
os sons e os cheiros
num lugar qualquer de mim guardados,
antes de partir

Entre os meus e os teus olhos
estende-se a languidez cúmplice
decifrando sinais
de velhos amantes,

da tua à minha boca
a curta distancia
de um sopro vai
e tudo em nós se mistura...

em tuas mãos, o ritual do fogo se inicia
e cresce a lava do desejo
que nos arrasta
por entre sussurros e explosões

E é num mar de calmaria,
na embriaguez dos ópios naturais,
que nossos corpos
húmidos, quentes, saciados
desaguam.
701
Angela Santos

Angela Santos

Verpertina

Vem
ver-me
à hora em que me refaço
vem
e traz nos lábios uma rosa

Vem
àquela hora em que a noite
de manso cai
à hora da inocência

vem e traz teus olhos
tuas mãos, teus corpo inteiro
despidos de culpa e pecado ...

Vem
e dá-te assim!

759
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Passei ontem a noite

Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divisão se erguia
Apenas entre nós — e eu vivia
No doce alento dessa virgem bela...

Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! Só a via!
Música mais do céu, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!

Como era doce aquele seio arfando!
Nos lábios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!

Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
É sentir todo o seio palpitando...
Cheio de amores! E dormir solteiro!
3 812
Angela Santos

Angela Santos

Cerrado

Toma- me....
pela mão ou inteira
e despe-me de tudo
o que não seja vida

Leva-me a um lugar
onde em mim te sinta
e adormeça a ira
de ser no presente
um ser adiado

Leva-me
ao lugar onde a vida se escuta
no mais fundo silêncio,
onde as pedras são corpos
que ao nosso se ajustam
e onde um sussurro
- vindo, quem sabe de onde-
vive preso ao ar...

Lá, onde à raiz, profundas
as águas nos devolvem
me deitarei, um dia
pronta para a terra
me engolir inteira
e parir de novo

E assim renascida
a dentes eu rasgo
o umbilical fio
que me traz suspensa
entre a noite presente
e as manhãs de oiro
onde a vida a esmo
não me furta os sonhos.

1 046
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Entrar. Com o Vagar do Campo. Sem Ferir.

Entrar. Com o vagar do campo. Sem ferir.
As mesas estão dispostas pela mulher ausente.
Onde os convidados? Há flores em toda a casa.
Só uma chama brilha no fogão. A luz é baça.

Num quarto, uma cama e o entrevisto corpo
de uma mulher alta.

Que se passou? A luz era demais.
A mulher não esperava a festa que eu sonhava
e era ela própria que a criava no espelho

com o mar extenso e o ar fresco da praia.
As mãos dela busquei-as, reconheci-as magras
sangrando. Os animais gritaram.
1 014
Halldór Laxness

Halldór Laxness

Assoma, ó Lua

Assoma, ó Lua,
Por trás das nuvens!
Brilhem no céu
estrelas nocturnas!
Luzes guiadoras,
levem-me junto do meu amor
para onde ele repousa, dormindo e só.

Silenciem um pouco
ventos rugidores,
silenciem torrentes velozes,
para que meus cantos
se oiçam nas colinas das tormentas
e me tragam o meu amado.


Gente Independente, edição Cavalo de Ferro
762
Angela Santos

Angela Santos

Dionísiaca

Assomas à
flor dos dias
no negro mais fundo do olhar
como grito explodindo
à luz do que desperta

Tremulas mãos,
peito em cavalgada..
prenuncio do incontido fogo,
bruto poder do
instinto

E me recrio
a partir de ti
a cada instante da vida
a que me atam
estes frágeis fios.

1 155
Angela Santos

Angela Santos

Trans-Via

A noite caiu....

Ele desce a calçada
salto alto em equilíbrio
lábios de carmim....
e o desenho da boca
simulando o beijo

Num gesto estudado
aconchega os seios
requebra o andar
insinuando prazer
a quem passa....

A noite se alonga
na calçada fétida....
e num recanto escuro
acertado o preço
o seu corpo vende
aquele que passa..

Recompõe o vestido
retoca o carmim
espera quem passa
em busca do lado
que transgride a noite....

.. e sob um vestido
vermelho cintado
os prazeres proibidos
num recanto fétido
goza apressado.

961
António Lobo Antunes

António Lobo Antunes

Décimas para Gabriela

MOTE
A tua cor de canela
Me traz impressionado,
São os teus lindos cabelos
Em que me trago amarrado.

GLOSA
Tu és uma flor galante
Do reino de Alexandria,
Esta tua simpatia
É um jardim elegante.
Estes teus olhos brilhantes
É uma flor das mais belas.
Minha querida donzela,
Consagro meu coração
À tua linda feição,
À tua cor de canela.

Tu és uma linda rosa,
Um lírio bem cacheado,
Parece um cravo encarnado
A tua boca mimosa.
Tua face cor-de-rosa
Parece um reino encantado.
Há muitos dias passados,
Que sofro tamanha dor,
Porque este tão grande amor
Me traz impressionado.

Tu és um belo jasmin,
Uma açucena doirada,
Uma lapela bordada,
Tu és um verde alecrim,
Cravo branco do jardim,
Tens a cor que mais desejo.
De perder-te tenho medo,
Porque és um amor sem fim
E o que mais te prende a mim
São os teus lindos cabelos.

De ti não posso esquecer,
Em ti penso noite e dia,
Minha maior alegria
É estar contigo ao meu lado,
Em nosso leito, deitado,
Te acariciando com amor,
Cheirando a ti como à flor,
Matando assim meus desejos,
Enroscado em teus cabelos
Em que me trago amarrado.
(Lavras - Ceará, 1959)

1 181
Angela Santos

Angela Santos

Flor de Lótus

Vejo-te
ao raiar do dia
como espiga que seguro e desfolho

Vejo-te acordar, espreguiçar
como a flor de lótus
sacudindo finíssimas gostas de orvalho
que sobraram da noite de amor.

Vejo-te abrir um sorriso manso
traçado na tua boca sensual…

beijo-te, sorris
e ao beijar-te sinto
que me atravessa a claridade
que em teus olhos brilha
e encho-me de luz.

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