Poemas neste tema
Desejo
Fernando Pessoa
Trazes um lenço novinho
Trazes um lenço novinho
Na cabeça e a descair,
Se eu te beijar no cantinho
Só saberá quem nos vir.
Na cabeça e a descair,
Se eu te beijar no cantinho
Só saberá quem nos vir.
1 442
Casimiro de Abreu
Amor e Medo
I
Quando eu te fujo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, oh! bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
"— Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!"
Como te enganas! meu amor é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco...
És bela — eu moço; tens amor — eu medo!...
Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes,
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.
O véu da noite me atormenta em dores,
A luz da aurora me entumece os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes
Eu me estremeço de cruéis receios.
E' que esse vento que na várzea — ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!
(...)
II
Ai! se eu te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas!...
Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos — palpitante o seio!...
Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala a protestar baixinho...
Vermelha a boca, soluçando um beijo!...
Diz: — que seria da pureza d'anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
— Tu te queimaras, a pisar descalça,
— Criança louca, — sobre um chão de brasas!
No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!
Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço
Anjo enlodado nos pauis da terra.
Depois... desperta no febril delírio,
— Olhos pisados — como um vão lamento,
Tu perguntaras: — qu'é da minha c'roa?...
Eu te diria: — desfolhou-a o vento!...
Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito,
És bela — eu moço; tens amor, eu — medo!...
Outubro, 1858
Imagem - 00300001
Publicado no livro As primaveras (1859). Poema integrante da série Livro II.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
Quando eu te fujo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, oh! bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
"— Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!"
Como te enganas! meu amor é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco...
És bela — eu moço; tens amor — eu medo!...
Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes,
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.
O véu da noite me atormenta em dores,
A luz da aurora me entumece os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes
Eu me estremeço de cruéis receios.
E' que esse vento que na várzea — ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!
(...)
II
Ai! se eu te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas!...
Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos — palpitante o seio!...
Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala a protestar baixinho...
Vermelha a boca, soluçando um beijo!...
Diz: — que seria da pureza d'anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
— Tu te queimaras, a pisar descalça,
— Criança louca, — sobre um chão de brasas!
No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!
Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço
Anjo enlodado nos pauis da terra.
Depois... desperta no febril delírio,
— Olhos pisados — como um vão lamento,
Tu perguntaras: — qu'é da minha c'roa?...
Eu te diria: — desfolhou-a o vento!...
Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito,
És bela — eu moço; tens amor, eu — medo!...
Outubro, 1858
Imagem - 00300001
Publicado no livro As primaveras (1859). Poema integrante da série Livro II.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
2 749
Ruy Cinatti
Entrei pelo mar
Entrei pelo mar mulher
açodado, a colher algas
Esqueci-me do meu mister
embalado pelas ondas.
O mar homem não se esquece
embalado pelas ondas.
açodado, a colher algas
Esqueci-me do meu mister
embalado pelas ondas.
O mar homem não se esquece
embalado pelas ondas.
2 427
Jalāl ad-Dīn Muḥammad Balkhī, Rūmī
Vem ao pomar
Vem ao pomar, é chegada a primavera.
Há vinho, luz e namorados na romãzeira.
Se não vieres, estes não têm importância.
Se tu vieres, estes não têm importância.
Há vinho, luz e namorados na romãzeira.
Se não vieres, estes não têm importância.
Se tu vieres, estes não têm importância.
1 331
Claudia Pastore
Meu poema
Cada vez mais e mais
Eu te vejo mais
Orgânico
Mais azul
Quisera saber
O porquê
A razão
Me destes a cor
és todo azul
Azul que incendeia
Azul que inebria
Azul que mete medo
Não és o mar
Tão pouco o céu
Lugares-comuns
Prá um azul
Tão azul
És um azul inteiro
Um azul que tenho
Tinteiro que jorra
E que cai pelo ar
Calor que conduz
Sangue pisado
Difícil e doce
Mormaço melaço
És a poesia
Que fala do azul
E que não encontra
No azul
O todo-você
Que é assim
Só prá mim
Azul
Ao sul
Do meu ser
Azul
Que passa
Brilhando
Por todo o meu corpo
Mas todo, inteirinho...
O meu corpo nu.
Eu te vejo mais
Orgânico
Mais azul
Quisera saber
O porquê
A razão
Me destes a cor
és todo azul
Azul que incendeia
Azul que inebria
Azul que mete medo
Não és o mar
Tão pouco o céu
Lugares-comuns
Prá um azul
Tão azul
És um azul inteiro
Um azul que tenho
Tinteiro que jorra
E que cai pelo ar
Calor que conduz
Sangue pisado
Difícil e doce
Mormaço melaço
És a poesia
Que fala do azul
E que não encontra
No azul
O todo-você
Que é assim
Só prá mim
Azul
Ao sul
Do meu ser
Azul
Que passa
Brilhando
Por todo o meu corpo
Mas todo, inteirinho...
O meu corpo nu.
795
Manuela Amaral
Coreografia
No palco da noite bailado de corpos
Cenário de sombras
esculpidas em nu
Tu danças as mãos
inscreves contornos
na minha nudez
Eu sou dimensão
que dança em teu espaço
Não temos cansaço
Só temos volúpia
Desejo
Harmonia
Vontade de luta
Ao longo de ti descubro caminhos. Trajecto de boca
E danço contigo
E esqueço a memória
Eu sou o teu sangue
A mesma saliva
O mesmo suor
Nós somos a mesma
Mulher-Repetida.
Cenário de sombras
esculpidas em nu
Tu danças as mãos
inscreves contornos
na minha nudez
Eu sou dimensão
que dança em teu espaço
Não temos cansaço
Só temos volúpia
Desejo
Harmonia
Vontade de luta
Ao longo de ti descubro caminhos. Trajecto de boca
E danço contigo
E esqueço a memória
Eu sou o teu sangue
A mesma saliva
O mesmo suor
Nós somos a mesma
Mulher-Repetida.
1 691
Juan Ramón Jiménez
PAVILHÃO
Muros altos de teu corpo.
Não havia entrada em teu horto.
(Que onda de asas ascendia!
Oh o que ali se passaria!)
Céu claro ou turvo, que importa?
Não havia entrada em tua glória.
(Que aroma às vezes subia!
Oh em teus vergéis que haveria?)
Tornaste a ficar fechada.
Não havia em tua alma entrada!
Não havia entrada em teu horto.
(Que onda de asas ascendia!
Oh o que ali se passaria!)
Céu claro ou turvo, que importa?
Não havia entrada em tua glória.
(Que aroma às vezes subia!
Oh em teus vergéis que haveria?)
Tornaste a ficar fechada.
Não havia em tua alma entrada!
2 545
Nuno Júdice
Metamorfose em agosto
O verão solta os cabelos como a mulher
que se ergueu do leito e avança para o espelho,
com as mãos da manhã a viajarem pela sua pele. O
que ela vê é o reflexo dos sonhos que as suas
pálpebras fecharam para que o dia se não apoderasse
de imagens que ela própria já esqueceu; e
quando despe a túnica da noite; olha
para os seios como se neles corresse o leite
que alimenta o desejo e entrelaça nos seus
cumes os gestos trânsfugas do amor.
O verão que subiu às açoteias do litoral
como o grito dos amantes que incendiou
a tarde e atravessou a terra com um calafrio
de nortada, transformou-se no carreiro
de formigas que se perderam da sua cova. Sigo-as
num caos de vagabundagem, como se elas me levassem
ao encontro de uma recordação de madrugadas
de ócio, ouvindo a voz que ficou da insónia
emergir de uma dobra de lençóis, com
as sílabas exaustas de um imenso abraço.
E saúdo o verão que as trepadeiras possuíram nos quintais anónimos de ruínas imprecisas, esse
que fez cair sobre nós o relâmpago de seda,
um sumo de palavras húmidas e a última ressonância
de uma sombra de corpos.
in, "A Convergência dos Ventos" | Nuno Júdice | Publicações Dom Quixote, 1ª. Edição, pág. 13 - Lisboa, Outubro 2015
que se ergueu do leito e avança para o espelho,
com as mãos da manhã a viajarem pela sua pele. O
que ela vê é o reflexo dos sonhos que as suas
pálpebras fecharam para que o dia se não apoderasse
de imagens que ela própria já esqueceu; e
quando despe a túnica da noite; olha
para os seios como se neles corresse o leite
que alimenta o desejo e entrelaça nos seus
cumes os gestos trânsfugas do amor.
O verão que subiu às açoteias do litoral
como o grito dos amantes que incendiou
a tarde e atravessou a terra com um calafrio
de nortada, transformou-se no carreiro
de formigas que se perderam da sua cova. Sigo-as
num caos de vagabundagem, como se elas me levassem
ao encontro de uma recordação de madrugadas
de ócio, ouvindo a voz que ficou da insónia
emergir de uma dobra de lençóis, com
as sílabas exaustas de um imenso abraço.
E saúdo o verão que as trepadeiras possuíram nos quintais anónimos de ruínas imprecisas, esse
que fez cair sobre nós o relâmpago de seda,
um sumo de palavras húmidas e a última ressonância
de uma sombra de corpos.
in, "A Convergência dos Ventos" | Nuno Júdice | Publicações Dom Quixote, 1ª. Edição, pág. 13 - Lisboa, Outubro 2015
2 510
Vinicius de Moraes
Idade Média
Faze com que tua boca seja para mim água e não vinho
E faze com que para mim teus seios peras e não cidras...
Algum dia no teu ventre que eu vejo se estender como uma branca terra
fecunda em lírios
Deixarei a semente de gigantes arianos que atravessarão silenciosamente o
V olga
E que as cabeceiras de seda voando, as lanças de ouro voando, cavalgarão
doidamente contra a lua...
E faze com que para mim teus seios peras e não cidras...
Algum dia no teu ventre que eu vejo se estender como uma branca terra
fecunda em lírios
Deixarei a semente de gigantes arianos que atravessarão silenciosamente o
V olga
E que as cabeceiras de seda voando, as lanças de ouro voando, cavalgarão
doidamente contra a lua...
1 146
Louise Labé
Soneto
Nem heróis como Ulisses e outros mais
Por mais sagazes e por mais divinos
Cheios de graça e louros peregrinos
Desafios provaram aos meus iguais.
Brilho desses olhos tão sensuais
Tanto inflamou meus sonhos femininos
Que para meus ardores repentinos
Não há remédio, se vós não mo dais.
Ó dura sorte, que me faz igual
A quem pede socorro ao escorpião
Contra o veneno do mesmo animal.
Só peço que não me venha a fenecer
Esse desejo no meu coração
Porque, sem ele, é bem melhor morrer.
Por mais sagazes e por mais divinos
Cheios de graça e louros peregrinos
Desafios provaram aos meus iguais.
Brilho desses olhos tão sensuais
Tanto inflamou meus sonhos femininos
Que para meus ardores repentinos
Não há remédio, se vós não mo dais.
Ó dura sorte, que me faz igual
A quem pede socorro ao escorpião
Contra o veneno do mesmo animal.
Só peço que não me venha a fenecer
Esse desejo no meu coração
Porque, sem ele, é bem melhor morrer.
1 137
Marcial
VI, 23 - CONTRA LÉSBIA
Que eu esteja sempre de pau feito queres,
Lésbia, mas crê que membro não é dedo.
Coa mão, coa voz, tu docemente insistes,
E contra ti teu rosto não perdoa.
Lésbia, mas crê que membro não é dedo.
Coa mão, coa voz, tu docemente insistes,
E contra ti teu rosto não perdoa.
950
Eliana Mora
Noite de mendigo
Fui seqüestrada nas entranhas
desta noite
por uma espécie de Senhor
da madrugada
Era meu corpo a implorar
por um abrigo
tal qual imensa ilha
desgarrada
Ele insistia em relembrar mistérios
entumecia agredia
(desterrava)
E evocava um outro tipo
de tremor
Algo que fosse o avesso
(uma morada)
Amanhecia
e as plantas já secavam
daquelas gotas tão iguais às
do meu corpo
E a viagem (ante o sol)
se transformava
em mais algum delírio que
desponta
de uma louca (e tão mendiga)
madrugada
(25 de março de 1999)
desta noite
por uma espécie de Senhor
da madrugada
Era meu corpo a implorar
por um abrigo
tal qual imensa ilha
desgarrada
Ele insistia em relembrar mistérios
entumecia agredia
(desterrava)
E evocava um outro tipo
de tremor
Algo que fosse o avesso
(uma morada)
Amanhecia
e as plantas já secavam
daquelas gotas tão iguais às
do meu corpo
E a viagem (ante o sol)
se transformava
em mais algum delírio que
desponta
de uma louca (e tão mendiga)
madrugada
(25 de março de 1999)
913
Marcial
VII, 30 - CONTRA CÉLIA
Aos Partos, aos Germanos, dás-te, Célia, aos Dácios,
Nem aos de Capadócia ou de Cilícia negas
O que buscar-te vem do Egipto os cobridores,
Ou, pelo Mar Vermelho, os negros indianos
As ancas não recuas ante o circunciso
Hebreu, e mesmo o Alano em seu cavalo sármata
Te pára à porta. Ob, como sendo tu Romana,
Só de Romanos paus te não agradas nunca?
Nem aos de Capadócia ou de Cilícia negas
O que buscar-te vem do Egipto os cobridores,
Ou, pelo Mar Vermelho, os negros indianos
As ancas não recuas ante o circunciso
Hebreu, e mesmo o Alano em seu cavalo sármata
Te pára à porta. Ob, como sendo tu Romana,
Só de Romanos paus te não agradas nunca?
631
Marcial
VIII, 46 - AO JOVEM QUESTO
Quanta pureza a tua, e quão pueris as formas,
Mais casto do que Hipólito, ó tão jovem Questo!
Diana te quer, e Dóris quer nadar contigo,
Cibele te prefere, inteiro que és, ao Frígio.
A Ganimedes podes suceder no leito,
Mas firme não darás a Jove mais que beijos.
Feliz quem te ferir, esposa, tal doçura,
E quem, virgem, de ti fizer, primeiro, um homem.
Mais casto do que Hipólito, ó tão jovem Questo!
Diana te quer, e Dóris quer nadar contigo,
Cibele te prefere, inteiro que és, ao Frígio.
A Ganimedes podes suceder no leito,
Mas firme não darás a Jove mais que beijos.
Feliz quem te ferir, esposa, tal doçura,
E quem, virgem, de ti fizer, primeiro, um homem.
695
Marcial
I, 47 - A HÉDILO
Quando, Hédilo, me dizes: Venho-me depressa,
Despacha-te - venérea a rigidez eu perco.
Pois que, se me demoro, mais a tempo chego.
E se te logo vens, que não me apresse pede.
Despacha-te - venérea a rigidez eu perco.
Pois que, se me demoro, mais a tempo chego.
E se te logo vens, que não me apresse pede.
1 021
Vinicius de Moraes
Poema Para Todas As Mulheres
No teu branco seio eu choro.
Minhas lágrimas descem pelo teu ventre
E se embebedam do perfume do teu sexo.
Mulher, que máquina és, que só me tens desesperado
Confuso, criança para te conter!
Oh, não feches os teus braços sobre a minha tristeza não!
Ah, não abandones a tua boca à minha inocência, não!
Homem sou belo
Macho sou forte, poeta sou altíssimo
E só a pureza me ama e ela é em mim uma cidade e tem mil e uma portas.
Ai! teus cabelos recendem à flor da murta
Melhor seria morrer ou ver-te morta
E nunca, nunca poder te tocar!
Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços
Anjo, sinto o calor do vento nas espumas
Passarinho, sinto o ninho nos teus pelos...
Correi, correi, ó lágrimas saudosas
Afogai-me, tirai-me deste tempo
Levai-me para o campo das estrelas
Entregai-me depressa à lua cheia
Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me
o cântico dos cânticos
Que eu não posso mais, ai!
Que esta mulher me devora!
Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha quero o colo de Nossa
Senhora!
Minhas lágrimas descem pelo teu ventre
E se embebedam do perfume do teu sexo.
Mulher, que máquina és, que só me tens desesperado
Confuso, criança para te conter!
Oh, não feches os teus braços sobre a minha tristeza não!
Ah, não abandones a tua boca à minha inocência, não!
Homem sou belo
Macho sou forte, poeta sou altíssimo
E só a pureza me ama e ela é em mim uma cidade e tem mil e uma portas.
Ai! teus cabelos recendem à flor da murta
Melhor seria morrer ou ver-te morta
E nunca, nunca poder te tocar!
Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços
Anjo, sinto o calor do vento nas espumas
Passarinho, sinto o ninho nos teus pelos...
Correi, correi, ó lágrimas saudosas
Afogai-me, tirai-me deste tempo
Levai-me para o campo das estrelas
Entregai-me depressa à lua cheia
Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me
o cântico dos cânticos
Que eu não posso mais, ai!
Que esta mulher me devora!
Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha quero o colo de Nossa
Senhora!
1 233
Mário Faustino
Soneto
Necessito de um ser, um ser humano
Que me envolva de ser
Contra o não ser universal, arcano
Impossível de ler
À luz da lua que ressarce o dano
Cruel de adormecer
A sós, à noite, ao pé do desumano
Desejo de morrer.
Necessito de um ser, de seu abraço
Escuro e palpitante
Necessito de um ser dormente e lasso
Contra meu ser arfante:
Necessito de um ser sendo ao meu lado
Um ser profundo e aberto, um ser amado.
Que me envolva de ser
Contra o não ser universal, arcano
Impossível de ler
À luz da lua que ressarce o dano
Cruel de adormecer
A sós, à noite, ao pé do desumano
Desejo de morrer.
Necessito de um ser, de seu abraço
Escuro e palpitante
Necessito de um ser dormente e lasso
Contra meu ser arfante:
Necessito de um ser sendo ao meu lado
Um ser profundo e aberto, um ser amado.
2 106
Vinicius de Moraes
Balada Para Maria
Não sei o que me angustia
Tardiamente; em meu peito
Vive dormindo perfeito
O sono dessa agonia...
Saudades tuas, Maria?
Na volúpia de uma flora
Úmida, pecaminosa
Nasceu a primeira rosa
Fria...
Perdi o prazer da hora.
Mas se num momento cresce
O sangue, e me engrossa a veia
Maria, que coisa feia!
Todo o meu corpo estremece...
E dos colmos altos, ricos
Em resinas odorantes
Pressinto o coito dos micos
E o amor das cobras possantes.
No mundo há tantos amantes...
Maria...
Cantar-te-ei brasileiro:
Maria, sou teu escravo!
A rosa é a mulher do cravo...
Dá-me o beijo derradeiro?
— Cobrir-te-ei de pomada
Do pólen das flores puras
E te fecundarei deitada
Num chão de frutas maduras
Maria... e morangos, quantos!
E tu que adoras morango!
Dormirás sobre agapantos...
— Fingirei de orangotango!
Não queres mesmo, Maria?
No lombo morno dos gatos
Aprendi muita carícia...
Para fazer-te a delícia
Só terei gestos exatos.
E não bastasse, Maria...
E morro nessas montanhas
Entre as imagens castanhas
Da tua melancolia...
Tardiamente; em meu peito
Vive dormindo perfeito
O sono dessa agonia...
Saudades tuas, Maria?
Na volúpia de uma flora
Úmida, pecaminosa
Nasceu a primeira rosa
Fria...
Perdi o prazer da hora.
Mas se num momento cresce
O sangue, e me engrossa a veia
Maria, que coisa feia!
Todo o meu corpo estremece...
E dos colmos altos, ricos
Em resinas odorantes
Pressinto o coito dos micos
E o amor das cobras possantes.
No mundo há tantos amantes...
Maria...
Cantar-te-ei brasileiro:
Maria, sou teu escravo!
A rosa é a mulher do cravo...
Dá-me o beijo derradeiro?
— Cobrir-te-ei de pomada
Do pólen das flores puras
E te fecundarei deitada
Num chão de frutas maduras
Maria... e morangos, quantos!
E tu que adoras morango!
Dormirás sobre agapantos...
— Fingirei de orangotango!
Não queres mesmo, Maria?
No lombo morno dos gatos
Aprendi muita carícia...
Para fazer-te a delícia
Só terei gestos exatos.
E não bastasse, Maria...
E morro nessas montanhas
Entre as imagens castanhas
Da tua melancolia...
1 014
António Ramos Rosa
O Arco, E Logo, a Folha Alta
O arco, e logo, a folha alta,
o dia. O espaço,
o silêncio, um bloco transparente.
A casa vive o que eu escrevo,
e a margem branca (intransponível)
é o corpo que eu não sei,
vivo na claridade.
Um corpo, digo, não um cristal.
Que permanece, ainda que eu hesite
ou falhe, ou recomece. E longamente
se abre, no dia, o arco, e a mão que o perde.
Só uma distância, ou o desejo, o quer.
Mas onde e quando, enquanto existe?
A vulnerada folha não o rasga.
O corpo, no horizonte, dura, intacto.
o dia. O espaço,
o silêncio, um bloco transparente.
A casa vive o que eu escrevo,
e a margem branca (intransponível)
é o corpo que eu não sei,
vivo na claridade.
Um corpo, digo, não um cristal.
Que permanece, ainda que eu hesite
ou falhe, ou recomece. E longamente
se abre, no dia, o arco, e a mão que o perde.
Só uma distância, ou o desejo, o quer.
Mas onde e quando, enquanto existe?
A vulnerada folha não o rasga.
O corpo, no horizonte, dura, intacto.
1 046
Marcial
III, 68--A UMA MATRONA PUDIBUNDA
Só até aqui, matrona, é para ti o livro.
O mais interno dele. para quem? Pra mim.
Ginásio, estádio, termas, deste lado: foge.
Aqui nos desnudamos. Homens nus não vejas.
Despojando entre rosas, ébria já, o pudor,
Terpsícore não cuida que palavras diz.
Sem véus e sem rodeios, dá seu nome àquele
Que Vénus em Agosto em si recebe impante,
Que como de espantalho o lavrador coloca
Em meio do seu horto. E que as virgens só olham
Por entre os dedos castos. Se bem te conheço,
ias pousar meu livro. Ah, ah... vais lê-lo agora...
O mais interno dele. para quem? Pra mim.
Ginásio, estádio, termas, deste lado: foge.
Aqui nos desnudamos. Homens nus não vejas.
Despojando entre rosas, ébria já, o pudor,
Terpsícore não cuida que palavras diz.
Sem véus e sem rodeios, dá seu nome àquele
Que Vénus em Agosto em si recebe impante,
Que como de espantalho o lavrador coloca
Em meio do seu horto. E que as virgens só olham
Por entre os dedos castos. Se bem te conheço,
ias pousar meu livro. Ah, ah... vais lê-lo agora...
877
Virgínia Schall
Secretamente
Seus olhos estão perigosamente dentro
de mim
aqui fizeram morada
e estão como Deus
em toda parte
se interpondo
entre a paisagem mais próxima
entre a fresta de luz e a imagem
tangenciando meu olhar
que não sabe olhar puro
que se trai a cada segundo.
Seus olhos estão perigosamente pousados
sobre mim
como borboleta em flor
cobrindo minha pele em ternura
suaves como seda
a farfalhar sobre os poros
e os pelos.
Luzes que incendeiam
em sublime música
meu corpo aceso em sede
Sombras sobre minha noite
embalam meu sono
devassando meus sonhos
onde secretamente me assombram
estando fora e sendo dentro
espelhos de amor intenso
e imenso.
Nossos olhos estão perigosamente
em comunhão
a despeito da separação
que a vida nos impõe.
E nossas vidas
sob risco
entre sermos felizes
ou tristes
e nossos destinos
por um triz
entre sucessos
e desatinos.
Secretamente
espreitamos-nos
como caminhos
à beira
de atraentes abismos.
de mim
aqui fizeram morada
e estão como Deus
em toda parte
se interpondo
entre a paisagem mais próxima
entre a fresta de luz e a imagem
tangenciando meu olhar
que não sabe olhar puro
que se trai a cada segundo.
Seus olhos estão perigosamente pousados
sobre mim
como borboleta em flor
cobrindo minha pele em ternura
suaves como seda
a farfalhar sobre os poros
e os pelos.
Luzes que incendeiam
em sublime música
meu corpo aceso em sede
Sombras sobre minha noite
embalam meu sono
devassando meus sonhos
onde secretamente me assombram
estando fora e sendo dentro
espelhos de amor intenso
e imenso.
Nossos olhos estão perigosamente
em comunhão
a despeito da separação
que a vida nos impõe.
E nossas vidas
sob risco
entre sermos felizes
ou tristes
e nossos destinos
por um triz
entre sucessos
e desatinos.
Secretamente
espreitamos-nos
como caminhos
à beira
de atraentes abismos.
1 011
Marcial
IV, 42-A FLACO
Se os votos exalçados poderão ser meus,
Ouve que amante, Flaco, eu desejara ter.
Do Nilo, antes de mais, tenha nascido às margens
(Nenhuma terra ensina uma volúpla igual).
Mais branco do que a neve (pois que em Mareótida
Mais belo entre morenos quanto a alvura é rara.)
Olhos rivais dos astros, e moles flagelem
As comas o pescoço (caracóis não amo).
A fronte breve, e um pouco o nariz aquilino.
De Pestum os rubros lábios envergonhem rosas.
Que meus caprichos negue e aos seus me curve, às vezes.
Mais livre saiba ser, às vezes, que seu amo.
Rapazes tema, e exclua às vezes as mulheres.
Para todos um homem, para mim efebo.
Ah não te enganas, não, quanto meu juízo é vero:
Tal era, tu bem sabes, aquele que eu perdi.
Ouve que amante, Flaco, eu desejara ter.
Do Nilo, antes de mais, tenha nascido às margens
(Nenhuma terra ensina uma volúpla igual).
Mais branco do que a neve (pois que em Mareótida
Mais belo entre morenos quanto a alvura é rara.)
Olhos rivais dos astros, e moles flagelem
As comas o pescoço (caracóis não amo).
A fronte breve, e um pouco o nariz aquilino.
De Pestum os rubros lábios envergonhem rosas.
Que meus caprichos negue e aos seus me curve, às vezes.
Mais livre saiba ser, às vezes, que seu amo.
Rapazes tema, e exclua às vezes as mulheres.
Para todos um homem, para mim efebo.
Ah não te enganas, não, quanto meu juízo é vero:
Tal era, tu bem sabes, aquele que eu perdi.
905
Marcial
IV, 71 - A SOFRÓNIO RUFO
Busco, Sofrónio Rufo, há muito, na cidade,
Menina que se negue. Mas nenhuma nega.
Como se pelos deuses, pela lei, negar-se
Não fora permitido, nenhuma se nega.
- Casta não é nenhuma? - Mil o são. - Que fazem
Pois elas? - Não se dão, mas também não se negam.
Menina que se negue. Mas nenhuma nega.
Como se pelos deuses, pela lei, negar-se
Não fora permitido, nenhuma se nega.
- Casta não é nenhuma? - Mil o são. - Que fazem
Pois elas? - Não se dão, mas também não se negam.
940
Pablo Neruda
Manhã - XII
Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
Que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos
e dois corpos por um só mel derrotados.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra um raio.
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
Que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos
e dois corpos por um só mel derrotados.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra um raio.
1 386